Notas iniciais
Fic de evolução semi-lenta, eu acho... a desgraça na vida dos personagens vai depender do meu humor, então o negocio vai ser bem tranquilo no começo mas não garanto depois ;* fic não betada, então qualquer erro por favor me avisem.

Gideon andava sem pressa pelos corredores brancos, ele se sentia um fantasma pálido em meio aos jalecos esvoaçantes que o ignoravam.

Éter, álcool, metal. O cheiro do lugar impregnava nas roupas e embrulhava seu estômago, quantas vezes isso se repetiu aquele ano? Os surtos da mãe pioraram nos últimos tempos, ela que tinha uma personalidade tão doce se contorcia em desespero pelas imagens que a afogavam dentro da própria mente.

Ele parou em frente a porta do quarto, respirou… um… dois… e antes que chegasse a três a porta se abriu.

—Hey campeão ! Como foi na escola hoje? — O pai o recebeu com um sorriso.

—Cansativa... — na verdade tudo o cansava nos últimos tempos- Mas na última aula meus colegas fizeram uma festa surpresa de despedia para mim, então vou ter muita coisa boa pra lembrar. — Ele tentou parecer feliz com a ideia da mudança, que estava contente por se mudar para um lugar onde a mãe teria um tratamento adequado, mas deixar tudo para trás fazia com que ele lutasse contra a parte egoísta que queria bater o pé e dizer que tudo aquilo era muito injusto e que ele não tinha culpa pela doença da mãe.

—Que bom querido... — Uma voz suave se fez ouvir do fundo do quarto — Logo vai poder passar se endereço e seus amigos vão poder te visitar nas férias… — Ela parecia quase no limite, o sorriso cansado, os cabelos um dia negros agora estavam cinza com mechas brancas e ligeiramente desgrenhados, as olheiras destacadas na pele branca esmaecida.

Ver ela assim doía, doía e o fazia sentir culpa e remorso. A garganta queimava, o peito apertado… Ela estendeu a mão como um convite para ele se aproximar, hesitante, ele tocou aquela mão pálida e ossuda e a levou ao próprio rosto.

“Por que Deus? Porque de todos, tantas pessoas malignas, tantos condenados a morte, porque logo ela?” ele pensava sem conseguir evitar chorar.

—Vai ficar tudo bem querido, veja a mamãe já está bem melhor! — E sorriu cansada e radiante, como alguém podia ir de um extremo a outro em um único instante?

—Já arrumou as malas? — Perguntou o pai e o garoto respondeu que sim com um aceno de cabeça — Muito bom! Vamos sair a noite então e se você não ligar eu gostaria de ir dormir agora, pode cuidar da sua mãe?

Gideon apenas sorriu e concordou, sentado na beirada do leito enquanto o pai saia, ele sabia o quanto era difícil para Bud cuidar das vendas de carros usados, da mãe e do filho, o homem nunca se queixava mas Gideon sabia que ele as vezes chorava escondido.

—Você não vai chegar lá sem nenhum conhecido querido, sua prima Pacífica mora no bairro ao lado... — Sua mãe disse enquanto pegava uma escova de cabelo na gaveta ao lado do suporte para soro — Ela mora em Reverse Falls desde que nasceu vai te mostrar tudo quando chegarmos lá. — Ela penteava o cabelo do albino delicadamente — Isso me lembra quando você era menininho e eu te fazia um lindo topete e você dançava e cantava para mim com aquele seu pijaminha de ovelha.

Gideon ficou vermelho no mesmo instante, sua mãe adorava lembrar justamente dos momentos da vida que ele queria obliterar da memória, ela ria da expressão indignada dele e continuava a falar sobre como seria bom um pouco de animação na vida dele agora que iriam para um lugar mais agitado, ela não falava mas se preocupava com o filho dedicando quase todo o seu tempo a cuidar dela tendo tempo para amigos somente no período em que estava na escola, queria seu menininho em aventuras infantis, tendo seus próprios pequenos dramas, descobrindo o mundo e absorvendo conhecimento.

Gideon por outro lado pensava nos parentes, que soubesse Pacífica era uma prima de segundo grau que ele vira bem poucas vezes na vida, uma garota loura, um pouco mais velha que ele e que falava pelos cotovelos.
Ele ficou com a mãe até o final da tarde quando seu pai voltou e o médico veio dar alta para a paciente.

As malas já estavam no carro, seria bom a mãe descansar mas se viajassem a noite toda no dia seguinte pela manhã já seriam recebidos no novo hospital e quanto antes começassem o tratamento mais cedo ela iria melhorar.
Gideon olhava a cidade passar pela janela do carro, sabia que provavelmente não voltaria mais e que ninguém iria visita-lo na nova casa.

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Gideon acordou na manhã seguinte extremamente dolorido devido a má postura que dormiu no carro, a mãe dormia um sono solto no banco do carona e o pai já dava sinais de cansaço.

—Vai demorar muito ainda? — perguntou sonolento.

—Não, depois da próxima curva já vai dar pra ver a entrada da cidade… E lá está ela!

A entrada da cidade era enorme e chamativa com dois totens de madeira um de cada lado representando lenhadores.

—Aqui já foi uma cidade madeireira, mas agora é o que podemos chamar de “cidade cassino”.

A cidade crescia no meio de um vale com pinheiros em quase toda volta deixando o lugar com um ar de pitoresca exclusividade, tudo estava branco devido ao inverno e ao longe era possível ver um teleférico subindo para um hotel no alto de uma colina.

—Eu vou te deixar com seus tios e vou levar sua mãe para o hospital, vá para a nova casa e tente dar uma arrumada no que puder até eu voltar. — disse Bud dando uma piscadela para o filho pelo retrovisor.

—Onde nos vamos morar? — O pequeno já estava preocupado, tudo que via pelo caminho eram, casas de shows, boates, cassinos e um ou outro restante chamativo — Não me diga que vai ser em um hotel?!

—Haha! Não, não… Nos vamos para o bairro chinês, seu velho aqui vai abrir uma loja de artigos exóticos e um museu de curiosidades, desde garoto eu sempre tive vontade de ter um negócio assim… agora surgiu a oportunidade e por que não aproveitar?

Gideon se afundou no banco, tinha uma péssima impressão do lugar.

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A casa dos Northwest ficava em um bairro comum, com casas altas e sem quintal, quando o carro parou em frente a uma delas uma cabeça loura saiu pela janela do segundo andar e voltou para dentro rapidamente, em menos de um minuto a porta se abriu e uma garota usando um suéter lilás com a estampa de um sino dourado saiu correndo com os pais calmamente andando atrás.

—Bud bem vindo! Achamos que só viria no final da semana! Nem tive tempo de esconder as bebidas!

— Nathaniel Theodore Northwest VII! Não ouse negar a um velho amigo seu direito de beber ate morrer! — Bud saiu do carro e abraçou o primo — E você fica péssimo com esse bigode!

Os dois riam e trocavam insultos amigáveis, a sra Northwest, Eleonor, ajudava a mãe de Gideon a sair do carro.

—Como você está querida? Aqui pode ser bem frio a está época do ano não nos demoremos aqui fora sim? Conversemos lá dentro com um pouco de chá. — E com cuidado a amparava nos degraus escorregadios.

Pacífica olhava para Gideon atentamente enquanto ele saia do carro e assim que colocou os pés no chão ela grudou nele.

— Você vai sumir na paisagem! Fique perto de mim até eu colocar um pouco de cor nessa sua cara ou vai se perder no meio da neve! — E saiu arrastando ele porta adentro.

— Não vamos ficar muito... — A sra Gleeful disse enquanto sorvia o chá — Tenho que dar entrada no hospital ainda pela manhã.

— Mas Marta achei que ficariam conosco até sua casa estar arrumada! Não vejo motivos para ter pressa. — Eleonor realmente esperava que tivessem companhia por alguns dias — Não será incômodo algum.

—Sim… e fico extremamente grata, mas meu… Meu último surto… Bem… É melhor dar início ao tratamento o quanto antes… — suas mãos tremiam levemente.

A sra Northwest tocou a mão da outra com gentileza e sorriu de forma condescendente.

Gideon se sentia sufocado naquele lugar, queria sumir, daria qualquer coisa para não estar na situação que julgava ser a pior da sua vida… quando do nada algo cobriu sua visão, era um boné de inverno azul, daqueles com abas acolchoadas nas laterais e uma estrela na parte branca que ficava na frente acima da aba. Pacífica estava tentando atarraxar o boné na cabeça dele com bastante força.

—Com isso eu te identifico a quilômetros! Era meu mas eu serei generosa e vou doa-lo a você! Vem vou te mostrar seu bairro! — E saiu arrastando ele porta afora.

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Pacífica falava de tudo, da neve, das pessoas, de onde podiam se divertir ela falava até de onde achava que a dona caolha de um restante duvidoso escondia os cadáveres dos gatos que ela usava para fazer tortas.

— No fim de semana nos vamos no cassino Tenda da Adivinhação, meu pai disse que ele e o tio Bud vão jogar até perderem as calças, mas nos temos ingressos para o show dos gêmeos Pines, dizem que ninguém faz truques de mágica tão incríveis quanto eles em toda Reverse Falls, deu o maior trabalho conseguir esses ingressos.

Gideon não prestava atenção, ele olhava a paisagem sem realmente ver, só percebia brevemente uma ou outra loja de especiarias ou barraquinhas de comida, queria voltar logo, queria estar com a mãe caso ela precisasse dele.

—Vamos voltar, minha mãe logo vai para o hospital e eu quero me despedir dela.

—Eles já foram.

— O que…?

— Meu pai me mandou uma mensagem no celular. — Ela deu de ombros- Disse para te mostrar o que pudesse que depois ele nos levaria para a sua nova casa pra arrumarmos as coisas por lá, não se preocupa sua mãe tá legal e eu cuido de você! — Ela dizia animada, exalando responsabilidade.

—Sua maluca! Quem você pensa que é pra saber como minha mãe está? Você é médica senhorita expert? Ela precisa de todo mundo com ela o tempo todo! Ela não pode viver sozinha! — Tudo que ele guardava saiu, alguma parte dentro dele dizia que tudo que sua prima queria era fazer ele se sentir bem, tirar um pouco do peso que ele carregava nas costas, mas a frustração, a revolta e o sentimento de impotência falaram mais alto e antes que ela pudesse se defender ele saiu correndo tentando, inutilmente, encontrar o caminho de volta. Ele correu sem rumo, passando por becos e ruas sem saída até chegar em um lugar ermo e suspeito, estava completamente perdido. Andou mais alguns passos até que pisou em uma tampa de bueiro que cedeu fazendo ele cair em um buraco profundo com água até os joelhos.

—Que merda! — Ele gritou batendo as mãos com força contra a parede — Como eu vou sair daqui? Eu queria que esse lugar idiota não existisse! Que se dane todo mundo! Eu não mereço isso! — E batia com os punhos fechados na parede a sua volta até que uma placa que era para ser de concreto fez um barulho metálico, Gideon parou, bateu de novo com mais cuidado e percebeu que na verdade aquilo era um tipo de caixa igual a de fusíveis no porão da sua antiga casa talvez fosse uma passagem para manutenção, com sorte encontraria uma saída. Com cuidado ele tateou a lateral até sentir uma pequena alavanca que fez uma portinha se abrir e lá dentro havia o que parecia ser um livro vermelho, com uma mão com seis dedos e o número um na capa, quando o livro foi removido uma série de degraus de ferro surgiram na parede do lado oposto a porta levando a saída do buraco.

Gideon andou por dez minutos sem rumo, ainda remoendo tudo o que passara ate então até ser encontrado por sua prima a beira de um ataque de pânico.

—Nunca mais faça isso! Você sabe o desespero que eu fiquei? Quase liguei para a polícia! — Ela o abraçava apertado quase o sufocando — vem vamos pra casa e você vai me contar por que tá parecendo um mendigo todo sujo desse jeito! — Ela o arrastava ainda resmungando sobre o quanto ficou preocupada e ele se deixava levar, foi um dia muito cheio e amanhã seria o início da sua nova vida ele só não sabia que ao pegar aquele diário tinha dado fim a seus dias de paz.