Reverse Falls - O Círculo da Decadência
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A casa nova da família Gleeful ficava em um bairro chinês residencial, ela era mais estreita porém mais alta que a antiga residencia. A mãe de Pacífica os levara de carro até lá com o intuito de ajudar a arrumar, sr Northwest acabou acompanhado Bud ao hospital tendo em vista o quanto o mesmo estava cansado da viajem.
— Aqui Gideon, essas são as chaves da sua casa e aqui tem uma cópia da nossa, caso precise pode ir para lá a qualquer hora — Eleonor o olhava amorosamente, ela sabia o quanto ele era independente mas esperava que ele contasse com eles para ajudar de vez em quando.
— Eu vou escolher seu quarto! — Pacífica tomou as chaves e entrou correndo — Assim vai ser do meu gosto quando eu vier passar uns dias aqui! — Gideon desesperado corria atrás dela gritando que ela não tinha esse direito.
A casa estava praticamente toda arrumada, o sr Gleeful havia contratado uma empresa para limpar e organizar quase tudo, no máximo tinham que desempacotar os pertencentes e as roupas. Ao meio dia a Sra Northwest disse que iria preparar o almoço e voltaria para busca-los mais tarde.
— Vou tomar um banho, eu ainda estou sujo daquele buraco.
— Ainda não acredito que você caiu em um bueiro, eu queria muito ter visto! — Gideon ignorou o comentário e abriu a mochila para pegar alguns pertencentes quando viu o livro, acabou por joga-lo em cima da cama e se dirigiu ao banheiro, Pacífica não se fez de rogada e apanhou o livro folheando com curiosidade, quando o garoto voltou ela estava com a cara enfiada nas páginas.
— Cara isso é muito legal! De onde você tirou todas essas idéias? -Ela falava apontado para uma anotação que estava junto ao desenho de um verme de duas cabeças e chifres que lembravam os de um veado. — Tudo aqui é sobre a cidade, tem uns lugares que nem eu sabia que existiam...
— Eu achei no bueiro -E riu quando a prima jogou o livro longe e tentava limpar as mãos na blusa fazendo cara de nojo — Estava em um compartimento, peguei por que talvez pudesse vende- lo na loja que meu pai vai abrir.
— Nem pensar! Se você não quer eu quero! Tem coisas sobre quase tudo nessa cidade e eu quero descobrir a verdade.
— Verdade? Sobre oque?
— Bem… aqui não é um lugar muito normal — Ela disse meio desconfortável — A maioria das pessoas meio que ignora por que se a notícia que aqui tem algum problema se espalha-se os turistas iam todos embora, mas todo mundo sabe que coisas estranhas rondam cada rua de Reverse Falls, eu sempre quis saber o que acontece aqui e agora tenho a oportunidade, não vou desperdiçar! — Ela folheava o livro na intenção de descobrir o autor mas tudo que encontrou foi um pedaço de papel rasgado escrito “propriedade de”.
— Quem será que escreveu isso? Parece mais um diário…Olha só! “14 de agosto, após seguir as indicações do velho lenhador encontrei o ninho da criatura, seu corpo lembra o de um roedor sem braços ou pernas, o pequeno ser se locomove aos saltos e a cada um destes ele vira toda sua estrutura do avesso expondo ossos e órgãos, no salto seguinte o corpo volta ao normal” . eca… — Pacífica sentiu um calafrio de nojo — “de acordo com a crença local o conteúdo que se encontra dentro da vesícula biliar da criatura tem propriedades que curam pequenos tumores subcutâneos, pretendo extrair o órgão e fazer testes para conclusão”.
Gideon se interessou por aquilo.
— Tem algo sobre curas de problemas mentais? -E tomou o diário das mãos da prima folheando com pressa até parar em uma página que chamou a sua atenção — “Para reorganização mental e limpeza dos males do corpo: Assur tsumae sarai excergul neau lox!”
Pacífica olhava para ele estarrecida, como ele tinha coragem de ler algo sem nem ter certeza do que aquilo era?
— Gideon… Acho que isso não foi uma boa ideia… -Ela sentiu um calafrio — Pode ser que não de em nada! Isso aí deve ser um livro de truques de algum mágico fajuto ou algum livro de contos que algu — Ela foi interrompida por um grito agudo vindo do corredor — Gid…
Alguma coisa bateu com força na porta do quarto fazendo os dois saltarem para cima da cama, mais uma pancada e o trinco cedeu e uma criatura caiu no chão berrando.
— DEUS! PORQUÊ!? PORQUÊ!?
As crianças estavam em choque, aquela coisa era esquelética na parte superior do corpo, os braços finos e o rosto cadavérico, com a pele flácida e repuxada até a chegar na cintura onde no lugar de pernas a carne se expandia como uma bexiga de água sendo arrastada em um tom de vermelho inflamado.
— ME MATEM! POR TUDO QUE AMAM, DEEM UM FIM AO MEU SOFRIMENTO!
Ela se arrastou até a cama tentado pegar qualquer um a seu alcance, os olhos amarelos injetados vertendo em lágrimas purulentas.
Pacífica saltou para o criado mudo arrastando Gideon com ela, quando o puxou para o chão ele perdeu o equilíbrio e a empurrou sem querer sobre o corpo daquela coisa, a pele fina não aguentou o sobrepeso e rompeu liberando um rio de fluidos pestilentos.
— Ah! Que nojo! Gideon me ajuda! — Pacífica tentava levantar da poça de sangue e líquidos não identificados, após um segundo de choque o albino a ajudou a levantar e tirar o suéter encharcado, a criatura soltou um suspiro choroso e começou a definhar até se tornar uma massa fina e gordurosa, o sangue foi coagulando e se juntando em pelotas gelatinosas meio transparentes.
Gideon cutucou uma com a ponta do sapato e viu que estava quase sólida, Pacífica havia pego o diário.
—”Para reorganização mental e limpeza dos males do corpo…” não sei oque… não sei oque… “ era uma prática comum invocar a criatura e sacrifica-la sobre o corpo do feiticeiro que iria ser possuído pelo demônio nas antigas praticas da cultura Strigaika, acreditava-se que ser banhado pela “vida” da fera sofredora limpava os canais entre a carne, o mundo dos espíritos e o mundo da mente…” se eu for possuída por um demônio eu te mato! — Ela estava realmente brava mas tentava se controlar enquanto puxava a gosma presa nas roupas.
— Eu... desculpe… bem… esquece...vem me ajuda a jogar isso pela descarga… — Ele parecia abatido, sua prima sabia que ele não havia feito por mal, ele pensava em ajudar a mãe, ela em seu lugar talvez tivesse feito o mesmo, com um suspiro deu um tapinha no ombro do menor e foi a procura de uma pá e um balde.
—-------x---------
As crianças decidiram dormir na casa dos Northwest já que Bud não iria voltar do hospital aquele dia e nem no próximo provavelmente.
— Você vai mesmo continuar com essa ideia de desvendar os mistérios da cidade? — Gideon estava analisando algumas informações do diário no tablet — Tem umas coisas de magia negra e criaturas das trevas aqui…
— Isso ta na cara pelo que aconteceu hoje — Ela disse e rolou os olhos — E você parece narrador de filme trash falando desse jeito, olha eu to cansada de ver um monte de coisas estranhas e me fingir de cega! Eu finalmente vou ser a personagem principal de uma aventura!
— Aham… Você vai arrumar encrenca isso sim… Mas eu vou te ajudar, dessa vez não deu certo porque eu fui precipitado mas eu não vou desistir — Pela primeira vez ele realmente tinha esperança, se os meios convencionais não davam certo talvez o sobrenatural tivesse as respostas.
— Você parece bem calmo…
— Que bom por que na verdade estou a beira de um ataque de pânico, acho que não vou dormir essa noite…
— Eu sei… Foi medonho ne?
— Sim…
Eles ficaram em silêncio até a sra Northwest manda-los apagar as luzes e irem deitar, Gideon ficou em um colchonete no chão enquanto Pacífica remoia o dia deitada em sua cama, tudo aquilo era tão incrível e assustador ao mesmo tempo e por mais que achasse que não dormiria com a cabeça cheia como estava o sono veio de mansinho, com ela sendo embalada pela voz grave que vinha do filme que seus país assistiam na teve do quarto, um poema em um filme de terror e supôs, ela sabia o quanto seus país gostavam desse gênero de filme, ela conseguia até visualizar o ator em preto e branco de clamando os versos, versos estes que a seguiram em seus sonhos.
—-------x---------
...Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles...
Pacífica estava correndo pela casa, mas não era sua casa era a mansão da avó, está foi tomada da senhora pelos cobradores da hipoteca, mas naquele momento isso não importava ela estava feliz de poder passar por aqueles corredores novamente. Os quadros, as esculturas excêntricas, os empregados quase tão idosos quanto a dona da casa.
...e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho...
Ela sabia que aquilo não podia ser verdade, ela se lembrava do dia em que a avó fora arrastada pela polícia porta afora junto com uma parte mínima de seus pertences e quando a casa foi arrematada em um leilão para se tornar um hotel no alto da colina a pobre senhora morreu de tristeza.
Segurando as lágrimas correu até a porta da frente e a escancarou sorrindo em alívio, lá estava a colina íngreme e o bosque que ficava dentro dos enormes muros da residência.
...Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério...
Ela não se lembrava de ter saído dos muros daquela casa durante toda a infância, caminhou até a fonte e mergulhou os pés na água cristalina, correndo a sua volta e perseguindo os arco íris que se formavam com a cascata. Ela odiava festas naquela época, eventos sociais e pessoas finas, até hoje ela odiava se parasse para pensar, onde estavam todos aqueles “amigos” quando sua família mais precisou?
...Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados...
Será que conseguiria ver a avó uma última vez? Com sorte ela estaria entre as pergulas arqueadas e os arbustos de rosas como sempre ficava nas tardes de sol e com isso em mente ela correu sem se preocupar com os sapatos, sentindo um aperto no peito e a brisa morna secando algumas lágrimas teimosas.
...e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava...
A tarde vinha se transformando em crepúsculo enquanto ela corria e gritava o nome de sua amada avó, o céu azul e lilás emanava um calor etéreo, o horizonte parecia borrado e quando chegou ao jardim ela não estava lá, mas ele não estava vazio, havia um homem usando um fraque azul e um cartola preta, ele estava distraído olhando o lugar e se virou na direção dela quando ouviu seus passos. Ele usava uma venda em um olho e o outro estava arregalado, ele arfou dando passos para trás, sua expressão se contorceu em horror negando com a cabeça, quando ela tentou perguntar algo ele cobriu as orelhas com as mãos e gritou em desespero curvando o corpo para frente.
...só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos...
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