Revenga
12 Mama
Notas iniciais
Essa é a hora em que eu paro para refletir o quão assustadora eu sou. Tom,se não me engano,já devia estar no seu quinto copo d'água. Depois de Danny ter dito meu nome e dele ter entendido tudo,Tom deve ter ficado uns 10 minutos ou mais parado,imóvel,me olhando. Com medo de que ele desmaiasse ali mesmo,pedi à Danny que fosse ao seu socorro. Trouxemos ele para a cozinha,o sentamos no banquinho perto do balcão e lhe trouxemos água,tudo no maior silêncio possivel. Seus olhos chocolate passavam de mim para Danny,indecifráveis. Danny o olhava com cuidado,como se ele pudesse ter um infarto á qualquer momento. Agora eu já não sabia quem fora pior,se Danny com sua reação infantil de correr para dentro de casa,ou se Tom,que quase teve um piripaque na sala de estar.
– Esté me escondendo ela desde quando? — Tom questionou diretamente à Danny,como se eu não estivesse presente.
– Há 8 semanas. — murmurou Danny em resposta,coçando a nuca sem jeito.
– 8 SEMANAS? — nós dois fizemos careta pelo grito provindo do loiro,que nos encarava boquiaberto. — E pretendiam me contar quando?
– A culpa foi minha,Tom. — admiti,suspirando.- Pedi para o Danny que não comentasse nada com você,nem com Harry.
– Por quê?
– Porque eu sabia que isso ia acontecer. — disse,me referindo á reação de Tom. — Eu não queria assustar vocês.- ele ainda me olhava como se eu fosse de outro mundo. Ainda levaria tempo para ele se acostumar com a idéia de que eu não estava morta e tinha voltado. Tom sempre fora o cabeça do grupo. Ele e Danny tinham um espírito de liderança enorme.
– Desculpa. — Tom disse ,com visível constrangimento pela cena que protagonizou. — Não interprete mal a minha reação,mas você me conhece,sabe como eu sou com estes assuntos.
– Eu te entendo,Tom. — sorri com gentileza,meio hesitante de lhe segurar a mão. A verdade era que eu estava morrendo de vontade de deslizar minha mão até a dele e entrelaçar nossos dedos,como um recado mudo de que eu estaria com ele dali pra frente. Mas depois da cena anterior,achei melhor não arriscar. Thomas me lançou um sorriso sincero,em agradecimento. Pudemos ouvir o suspiro de Danny e nos viramos para ele.
– Que tal a gente,hum,comer alguma coisa?- sugeriu com as mãos enfiadas dentro do bolso de sua calça de moletom. Isso me lembrou que eu ainda usava as roupas dele.
– Eu aceito. — Tom se adiantou para dizer. — Acabei de vir da casa de Harry,e pelo que vi,ele tá passando é fome.
– Continua na mesma? — Danny usou um tom preocupado e penoso,o qual me despertou curiosidade.
– Não sai pra nada. — Thomas bufou,parecendo impaciente. Com aquele comentário,eu deduzi que a situação estava pior do que eu imaginava. — Você também fica,Amby?
– Ahn,eu preciso resolver uma coisa.- foi a minha vez de coçar a nuca,sob os olhos curiosos dos dois. Droga.
– Mas você disse que não tinha compromissos hoje. — Danny disse com certo desapontamento. Sorri fraco por aquilo.
– Acabei de me lembrar.- ele acentiu,encolhendo os ombros. Me dirigi até ele,lhe dando um forte abraço que foi retribuido à altura. — Prometo que volto amanhã.
– Tô ficando muito grudento não é? — Daniel fez careta após a fala,me fazendo rir ao concordar. — Te cuida.
– Eu vou. — me virei para Tom,que sorria assistindo à mim e Danny. — Te vejo depois,Tom.
– Me desculpa de verdade,você me pegou de surpresa. — dava pra ver que ele ainda estava retraído. Somente fiz meu papel compreensivo,que eu me lembro bem sempre funcionar com eles. Tom precisava de tempo,eu não iria pressioná-lo. — Só...fica viva ok? — eu não consegui reprimir a risada,a qual ele e Danny acompanharam.
– Até guys,prometo que não vou morrer.
Parando agora para avaliar melhor a situação,até que foi engraçado. Eu jamais esperaria ver Tom ali,muito menos hoje,mas era tão óbvio. Era óbvio que à qualquer momento ele podia aparecer por lá,sempre foi assim,um tinha total acesso à casa do outro. Mas isso sequer passou pela minha cabeça. Estiquei meu braço e liguei o mp3. Parei o carro no sinal e me reencostei no banco,me afundando nele de maneira confortável,enquanto repousava meu cotovelo direito na porta do velho Opala. Ele até podia ser velho,e estar caindo aos pedaços,mas eu amava aquele carro.
Mama we all go to hell
Mama we all go to hell
I'm writing this letter and wishing you well
Mama we all go to hell
Não pude deixar de soltar um risinho fraco ao ouvir os primeiros versos da música. Ah,a irônia.
Mama we're all gonna die
Mama we're all gonna die
Stop asking me questions
I'd hate to see you cry
Mama we're all gonna die
– And when we go don't blame us– sussurrei o trecho seguinta,arrancando o carro no sinal verde. — We'll let the fire just bathe us,you made us all so famous,we'll never let you go. - completei,seguindo pelas ruas de Londres sem destino certo.
And when you go don't return to me my love
Mama we're all full of lies
Mama we're meant for the flies
And right now they're building a coffin your size
Mama we're all full of lies
Na verdade eu tinha sim um lugar em mente,o que me faltava era coragem de ir até lá. Eu bem que podia voltar até a casa de Danny e pedir que ele e Tom me acompanhassem até lá,mas não sei se sairia da casa dele se eu entrasse novamente. Respirei fundo e apertei de leve o volante,com esperança de que a coragem viesse de uma hora para outra.
Well mother, what the war did to my legs and to my tongue
You should have raised a baby girl
I should have been a better son
If you could
coddle the infection
They can amputate at once
You should have been
I could have been a better son
Ah qual é, era só ela, porque eu tinha todo esse receio? Oh sim,talvez pelo fato de que ela nunca foi a maior fã do destino que eu escolhi pra mim. Mas eu queria tanto vê-la.
And when we go don't blame us,yeah
We'll let the fire just bathe us, yeah
You made us all so famous
We'll never let you go
She said 'You ain't no son of mine'
For what you done they're gonna find
A place for you and just you mind
Your manners when you go
And when you go don't return to me my love
Sem nem que eu percebesse,já saia dos domínios de Londres,fazendo o caminho que há tempos eu não fazia.
That's right
Mama we all go to hell
Mama we all go to hell
It's really quite pleasant
Except for the smell
Mama we all go to hell
Quando saí da casa de Danny,eram exatamente 12:00,agora já se passava das 15. Mais uns 20 minutos,e eu acompanhei com os olhos as casinhas de York passarem por mim. O oceano,a praia,a ponte,o cais,tudo passava como em câmera lenta pelos vidros do Opala. Respirar o ar de York novamente me dava uma sensação maravilhosa de estar de volta em casa.
2 — 3 — 4
Mama!
Mama!
Mama!
Ohhhhhh!!!
Mama!
Mama!
Mama!
Ma...
A música ainda rolava como trilha sonora,e agora não tinha mais volta. Eu estava na rua da minha antiga casa.
And if you would call me your sweetheart
I'd maybe then sing you a song
But the shit that I've done
With this fuck of a gun
You would cry out your eyes all along
Parei do outro lado da rua,um pouco mais atrás e observei a simples casinha amarela,sempre muito bem conservada. Eu senti vontade de me debulhar em lágrimas. Cada dia de minha infância passava como um curta pelos meus olhos,e eu sorria com algumas lembranças.
We're damned after all
Through fortune and flame we fall
And if you can say then I'll show you the way
to return from the ashes you call...
Como no dia em que meu pai chegou em casa com uma caixa preta em mãos,todo sorridente. Chamou à mim e aos meus irmãos que descemos correndo as escadas. Era natal e ele disse que tinha um presente que seria de nós todos. Qual não foi a surpresa do meu irmão mais velho ao abrir a caixa e encontrar um filhote lindo. O velho caixote em que meu irmão menor guardava alguns bonecos lhe serviu de caminha por um bom tempo,até ele ficar um pouco maior.
We all carry on
When our brothers in arms are gone
So raise your glass high
For tomorrow we die
And return from the ashes you call...
Nós amávamos aquele animal hiperativo. Pulava e corria conosco sem sinal nenhum de que se cansaria. Bem que eu tentei conter o sorriso e as lágrimas mas foi impossível. No meio de meu devaneio todo nem percebi que a musica acabara e que agora uma outra qualquer se iniciava,resolvi por apenas abaixar o volume,já que aquela não me agradava tanto. Quando fugi para Londres,eu perdi total contato com todos. Minha mãe era totalmente contra o fato de eu ter entrado pra uma banda,e meu pai naquela época estava distante demais para perceber qualquer coisa. Suspirei e retornei a ligar o carro,afim de ir embora. Do que ia adiantar ficar ali? Eu nunca teria coragem de sair do carro e bater a campainha. Já que isso não ia acontecer,eu não tinha mais nada para fazer ali. Dei marcha ré e fiz o balão,já refazendo o caminho que me levou até ali. Mas quando eu passei na porta de uma das vendas que tinham pela pequena cidade,não muito longe da praia,meu olhar se cruzou com outro. Dois olhos cor avelã idênticos aos meus. Sim,aquela era Alice McGee. Minha mãe.
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