O loiro fingiu não perceber, entretanto quando seus olhos se encontraram com os de Hermione, sentiu um grande bolo na barriga e desviou o olhar. Por incrível que pareça, ele ainda se sentia péssimo por tê-la tratado tão mal quando ela queria apenas ajudá-lo. Em passos largos foi até o quadro de avisos onde ficava o horário dos monitores e com pesar observou que era seu dia junto com a mesma.

Quando voltou o seu olhar para a castanha, a encontrou de braços cruzados e o olhando séria:

- Então Malfoy, já viu que hoje é seu dia comigo? – disse Hermione séria diante de um olhar curioso de Rony. Até alguns dias atrás a castanha havia praticamente defendido Malfoy e agora o tratava dessa forma. – Vamos logo, não tenho a noite inteira.

E saiu sem esperar pela resposta dele. Uma onda de risinhos percorreu o salão. A maioria dos monitores detestavam Draco Malfoy e receberam animados o fora que a castanha dera nele.

Draco apressou o passo para poder alcançar Hermione, antes viu Rony se aproximar de Padma e os dois seguirem para a biblioteca do salão comunal. “Idiota”, o loiro pensou antes de sair da sala.



▪▫ ▪▫ ▪▫ ▪▫

Hermione já estava bem distante quando Draco saiu da sala. O loiro gritou o nome dela assim que a viu, mas ao perceber que havia sido ignorado completamente, correu até chegar ao seu lado.

- Granger, olhe... — começou o loiro.

- Olhe você, Malfoy – Hermione parou abruptamente e disse ríspida enquanto erguia a varinha em direção dele – Não estou nem um pouco a fim de ouvir suas gracinhas e suas ofensas sem sentido. Me ouviu bem? – e continuou andando ignorando completamente a presença do rapaz.

- Eu não quero te ofender, Granger! — disse Malfoy em voz baixa, o que fez Hermione parar onde estava – Pelo contrário.

Hermione olhou em direção do rapaz como se o incentivasse a continuar.

- É... Eu queria pedir desculpas pela ofensa do domingo. – Draco falava em voz baixa, olhando para os sapatos. O próprio loiro não tinha idéia porque estava ali, ao lado de Hermione pedindo desculpas a ela. Hermione ouvia tudo de olhos arregalados – É que você me ajudou tanto e no fim eu ainda te ofendi.

- Tudo bem... – Hermione inspirou e suspirou mais calma, olhou para o rapaz, esboçou um pequeno sorriso e continuou a andar.

- Ei Granger! – disse Malfoy apressando o passo para ficar ao lado de Hermione – Você me disse na madrugada de domingo antes de eu dormir, que querendo ou não você é responsável por mim aqui na escola. O que quis dizer com isso?

Hermione suspirou alto, tinha esperança de que o loiro não tivesse escutado. Estava com raiva quando soltou aquilo. Como explicaria a ele?

- Uma das minhas incumbências aqui na escola é ficar de olho em você para que não apronte.

- Ãnh? – Draco estava confuso – Mas por que isso? O que isso significa?

- Significa, Malfoy, que muita gente ainda acredita em você. A diretora McGonagall é uma delas. A diretora pediu que eu ficasse de olho em você. Só isso. Não como babá… mas para garantir que você não se meta em problemas.

Draco mudou de confuso para furioso. “Eu não preciso que cuidem de mim”

- Acho que estou começando a entender... – começou Draco sarcástico – É realmente você não age como uma babá, mas como espiã!

- Não foi isso que eu quis dizer, Malfoy. É que ...- Hermione tentou se justificar, mas foi interrompida pelo loiro.

- Ah, por favor, Granger, para. Não quero mais ouvir. Estou cansado de tudo isso. Tem mais alguma coisa que vocês fazem ou que saibam que eu não sei? – Draco estava furioso, andava de um lado para o outro não dando oportunidade de Hermione se explicar — Então tudo o que eu faço é informado a McGonagall, como se eu fosse um criminoso ou algo assim, e não venha me dizer o contrário, porque não vai colar! – Draco praticamente gritou as últimas palavras.

- Malfoy, você entendeu tudo errado! — Hermione falava com cautela, sabia que o que acabara de contar não deveria ser revelado ao loiro – Deixe-me explicar, por favor?

- Entendi errado? Eu estou entendendo tudo! Agora só falta me dizer que minha mãe e a sua eram amigas de infância, o que não me espantaria porque descobri que ela é amante de traidores de sangue, para ser de sangues ruins e de trouxas não falta nada.

- Olha aqui Malfoy, – Hermione estava começando a ficar com raiva – eu sei o que você está passando. Mas não vou permitir que me ofenda mais uma vez ou ofenda os meus pais.

- Sabe o que eu estou passando??? – Draco estava tresloucado – Sabe o que estou passando, Granger? É óbvio que você não tem a mínima idéia do que eu estou passando! Então para de agir como se entendesse tudo e me deixa em paz!

- Malfoy, – Hermione tomava cuidado com as palavras, era a primeira vez que falava sobre isso e falava nada mais, nada menos, para seu maior oponente em Hogwarts: Draco Malfoy. Ela respirou fundo antes de continuar – eu também descobri há pouco tempo que o meu pai... não é meu pai.

A castanha abaixou os olhos e foi para a janela da torre onde monitoravam. Lágrimas surgiram em seus olhos ao se lembrar da cena que se desenrolou na Austrália

- O que foi que disse, Granger? — Malfoy perguntou assustado diante da afirmação da castanha. Assustou-se ao vê-la limpando as lágrimas. Um desejo enorme de ir até ela e abraçá-la tomou conta de si. Mas ele fingiu não perceber estas emoções.

- Nada não, Malfoy. Eu não deveria ter falado algo tão pessoal. Vamos continuar a monitoria. – Hermione continuou andando.

- Não, por favor. — Draco pegou no braço da castanha. Um leve choque percorreu o corpo dos dois ao toque. Preferiram ignorar. – Você também sabe de algo muito pessoal meu.

- É que ninguém sabe sobre isso, apenas o Ron! – Hermione disse em um fio de voz. Draco por sua vez sentiu um ódio inexplicável à menção do nome do ruivo.

- Por favor, me conte – Draco falou em voz baixa, não entendia porque, mas tinha uma curiosidade absurda de saber o que tanto afligia a castanha, ao vê-la acenar positivamente, entrou em uma sala de aula e apontou um banco para que ele se acomodasse.

Ela se sentou no primeiro banco que viu e Draco fechou a porta colocando um feitiço para que não ouvissem o que conversavam lá dentro.

- Você soube que eu obliviei os meus pais? — Hermione perguntou.

- Sim. – disse Draco em um sorriso – Até foi processada por isso.

- É verdade! – disse Hermione em um sorriso tímido – Assim que eu recebi a carta do Ministério, dizendo que fui processada, eu me assustei. Com toda a loucura da guerra, eu havia me esquecido de desobliviá-los. Então eu e Rony fomos para a Austrália para procurá-los.

- Vocês dois? Sozinhos? — Perguntou Draco, interrompendo a garota.

- Sim, por quê? – Hermione estranhou a pergunta. O loiro logo tratou de respondê-la, ele também não entendia sua súbita curiosidade.

- Nada, só por saber.

- Então, – a castanha prosseguiu – chegando lá demorou um pouco até encontrá-los. O meu pai – Hermione deu uma pausa – foi o primeiro a ser desobliviado pelos aurores. — Os olhos da castanha se encheram de lágrimas, via-se que ela fazia um grande esforço para não chorar – depois fomos para desobliviar a minha mãe. E eu descobri que eles tinham tido uma filha. A minha mãe não recebeu tão bem toda a história e os motivos da obliviação.

Flash Back

Após a desobliviação os olhos da Sra. Granger se encheram de lágrimas e ela correu para abraçar sua filha.

Após uma rápida explicação aos pais de Hermione sobre o que foi a guerra entre os bruxos, e o porquê da obliviação, o Sr. Weasley informou que quando quisessem poderiam voltar para casa, pois uma equipe de aurores já havia estado lá e garantido que a casa estava limpa de quaisquer artes das trevas.

- Não!!! Nós não vamos voltar – disse Jane Granger firmemente. Todos olharam assustados para a Sra. Granger que prosseguiu. — Nós estruturamos uma vida aqui. Uma vida estável! Temos um bebê! Não podemos sair daqui de uma hora para outra!

- Querida, venha aqui, por favor! Se nos dão licença – disse o Sr. Granger arrastando a mulher para dentro da casa. – Hermione querida, pegue Hiorrana, por favor! – pediu gentilmente a filha mais velha – E sem “mas”, Jane! – concluiu ao perceber que sua esposa ia falar alguma coisa.

Um grande mal estar tomou conta da sala onde permaneceram Hermione, Sr. Weasley e Rony. Ao entrar no quarto do casal, Jane Granger começou a chorar. Ficou alguns segundos chorando enquanto seu marido a consolava.

Enquanto isso na sala, Rony brincava com a bebê:

- Que lindinha sua irmã hein, Mione? Mas ela não parece com você não – disse Rony, mas ao ver a cara de paisagem que sua namorada fizera, completou rapidamente – mas você também é linda!

- Humm, que cheiro é esse? – Perguntou o Sr. Weasley.

- Acho que sua irmã lhe deu um presentinho, Mione – respondeu Rony rindo.

- É. – disse Hermione sem graça – Vou levá-la para minha mãe. Calma aí!

Ao perceber que os pais travavam uma discussão do lado de dentro do quarto, Hermione esperou do lado de fora um momento mais adequado para entrar.

- Eu não vou voltar para a Inglaterra. Já falei! – disse Jane Granger nervosa.

- Mas porque Jane? Não tem sentido isso! Nossa vida está toda lá! — Respondeu John Granger exasperado.

- Não John, nossa vida estava toda lá, até a nossa filha, nossa filha bruxa decidir apagar a nossa memória.

- Jane! Pelo amor de Deus, eles não explicaram o motivo? Você não achou válido? Ponha a mão na consciência mulher!! — respondeu rispidamente o Sr. Granger.

- Mão na consciência? – gritou Jane Granger – O que eu sei é que eu tenho uma filha bruxa que alterou a minha memória. Você não consegue entender John? Eu sabia que isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Essa raça é ruim, John.

- Jane pare antes que fale alguma besteira! – continuou John receoso. – Eles podem ouvir.

- Que ouçam! Eu sempre tive medo, desde que descobrimos que Hermione era uma bruxa. Porque eu sei que bruxos são ruins! – Jane Granger estava histérica, falava alto e andava pelo quarto. – E Hermione puxou o pai. Aquele ser asqueroso que me violentou! — Hermione, do lado de fora, sentiu o chão desaparecer sob os seus pés.

- Jane, por favor! — disse John Granger ríspido.

- Agora você pode imaginar o que outras coisas ela pode fazer conosco? Ou com a Hiorrana. Falando nisso... Cadê a Hiorrana, John? Cadê a minha filha?

Jane Granger abriu a porta para sair do quarto e se deparou com Hermione parada à sua frente estática e com lágrimas nos olhos. Hermione entregou Hiorrana à sua mãe e saiu correndo do quarto.

Hermione chorava muito no fim do relato. Draco hesitou por um instante… e então a abraçou. Com muito espanto, Hermione retribuiu o abraço. Ele percebeu o quão frágil ela parecia naquele momento. Ficaram assim durante alguns segundos até que Draco, meio sem graça, a soltou.

- Quem mais sabe dessa história? – perguntou Draco.

- Eu, meus pais, Ron e agora você. Até para a Gina e o Harry eu contei outra. – disse Hermione. – É tão triste saber de tudo isso!

- E você tem guardado tudo isso a todo esse tempo? — Draco perguntou penalizado.

- Sim. Para você ver como são as coisas... – disse Hermione secando as lágrimas e dando um sorriso tímido – As tragédias não acontecem apenas com você!

- Então… isso significa que você é mestiça?

- Sim, posso ser. Na verdade, os meus pais eram casados quando tudo aconteceu. Eu posso ser filha do John Granger, entende? De qualquer forma qual a diferença Malfoy? – Hermione o olhou triste – Eu continuaria sendo objeto de ódio e discriminação. Eu não ligo de ser uma nascida trouxa, ou sangue ruim, como você costuma me chamar. – Draco abaixou os olhos envergonhados – Tenho orgulho de ser quem eu sou.

Malfoy abaixou os olhos envergonhados. Sentia vergonha por ter humilhado a menina diversas vezes. Sentia vergonha por estar tão desesperado com suas recentes descobertas.

- Imagino o que está pensando. – Disse Hermione – Como eu tenho força para suportar as novidades, né? – Ao ver a cara de espanto dele, acrescentou – Eu não li sua mente, não se preocupe.

- É Granger, tem razão. Mas eu não sei como fazer. É tudo muito novo.

- Malfoy, acho que é uma oportunidade para você mudar. Uma oportunidade para você rever conceitos. Eu conheço a história de seu pai. Ele também lutou contra Voldemort. E pelo o que elfo disse, ele fez isso por você. Para que você tivesse uma vida legal, sem guerras.

- Eu não sei como mudar, Granger. – disse Draco em voz baixa – Não sei como fazer isso!

- Peça ajuda, Malfoy. Eu sei que tem diversas pessoas que acreditam na sua mudança.

- Você acredita, Granger?

-Como? — Perguntou Hermione espantada.

- Você acredita que eu posso mudar? Que eu posso rever meus conceitos?

- Sim! – respondeu Hermione séria. – Todos nós podemos mudar, Malfoy.

- Então me ajude.

Hermione se assustou com o pedido do rapaz. “Como assim ajudar Draco Malfoy?”. Diante da demora da resposta da castanha, Draco prosseguiu:

- Você realmente acredita na minha mudança, Granger? Está vendo como não é tão fácil assim? – Draco disse com pesar enquanto desfazia os feitiços e saia da sala.

- Eu te ajudo, Malfoy. – A castanha falou alto para que o loiro pudesse ouvi-la — Mas só se você estiver realmente disposto a mudar. Caramba! – disse Hermione ao olhar para o relógio na parede. – Já passou mais de uma hora do fim da monitoria. Preciso ir. Tchau Malfoy, a gente conversa mais amanhã. No salão comunal. Está bem?

- Tudo bem… Obrigado, Hermione..

Hermione se espantou ao ouvir seu primeiro nome ser falado por ele. Apenas retribuiu o tchau e seguiu para o seu quarto de monitora.


Notas finais
Oieeee! Deixa eu contar uma coisa para vocês... Essa fic está participando do evento Entre Laços e Acasos aqui no Plus Fiction. Comentários contam para o ranking, então se você estiver acompanhando a história me conta o que achou deste capítulo. Mas eu também estou curiosa com algo: vocês acham que Hermione fez bem em aceitar ajudar o Draco?