Revelações De Um Passado Obscuro
14 Baka!
Notas iniciais
~Millie narra
Do telhado a vista é sempre mais bonita. Eu sempre gostei de ficar sentada no ponto mais alto possível para olhar os lugares. Ver o céu à noite, eu tenho essa mania desde pequena, olhar estrelas, contar e perder contas, criar desenhos imaginários.
Estava ventando um pouco, e a brisa dançava tocando-me a pele e bagunçando meus cabelos, enquanto meus pensamentos vagavam entre passado e presente.
Os últimos dias têm sido bastante cheios, e um ponto alto disso tudo é que reencontrei os dois únicos amigos que já tive, eles mudaram muito, mas o que me surpreende é que, mesmo com todo esse tempo, com tudo o que aconteceu, eles continuam sendo... Meus. Eles estiveram o tempo todo me protegendo, de certa forma, e me sinto um pouco culpada agora por ter pensado que eles me esqueceriam, mas a prova contrária me faz sentir feliz.
Olhei as árvores balançando sob o céu estrelado e limpo, e comecei a me lembrar do dia de hoje.
Assim que eu e Elesis descemos as escadas, encontramos um grupo de pessoas na sala, que provavelmente são os guerreiros da Grand Chase. Eu soube depois que já era a segunda reunião que Lothos convocava desde a minha chegada. Consegui ver de primeira Lass, Ronan, e o garoto de máscara que estava carregando Elesis no dia anterior. Ao lado de Ronan havia uma garota de cabelos curtos arroxeados, também naquele sofá estavam um casal de elfos, um garoto de cabelos negros e olhos prateados e uma garota de cabelos longos azuis e olhos heterocromáticos. No outro sofá, estava um casal de pele com tonalidade rosada que possuíam chifres, o que me fez pensar que eram asmodianos, um garoto ruivo e uma garota de cabelos rosados, que sorria em minha direção. De pé estava uma mulher loira de presença autoritária, deveria ser a capitã. Todos eles me encaravam e eu estava com uma vontade quase incontrolável de me esconder, me senti pequenininha ali, mas a única coisa que consegui fazer foi ficar parada feito idiota, espero não ter dito nada nem murmurado alguma besteira, mas para minha salvação, Elesis tomou partido e quebrou o silêncio, contou que já estávamos bem, me apresentou, e a única coisa que consegui fazer foi dizer um “Oi” meio gaguejado e embaçado por “Err...” “Hum...” e também concordar com o que ela dizia, mas todos ouviam atentamente e sorriam, o que me fez sentir mais à vontade ali.
Descobri o nome dos integrantes, na ordem, Lass e Ronan, que eu já conhecia, Zero, o garoto de máscara, Arme, a de cabelos arroxeados, Lire, Ryan, os elfos, Sieghart, Mari. Os asmodianos Dio e Rey, Jin, Amy, e por último a comandante Lothos.
Estou me esforçando pra decorar os nomes, mas não sou muito boa com isso. Após as apresentações, eu, a Elesis, e a Amy fomos chamadas pela comandante para a sala dela, e ela explicou que eu, como novata, seria orientada pelas duas integrantes por algum tempo, até que me adaptasse. Achei isso ótimo, estava me sentindo uma estranha, então foi bom passar um tempo aprendendo com Elesis, que eu já conhecia, e com Amy, que se mostrou, de primeira, ser bastante comunicativa, o que fez aos poucos com que eu me enturmasse mais com ela. Lothos disse que quando eu estivesse mais à vontade, precisaria falar comigo, me pergunto sobre o que seja, e o que me preocupa é que ela disse isso com olhos fixos no meu pingente. Mas esquecerei o assunto por enquanto.
Elas me levaram até o lugar onde seria o meu quarto, foi uma das partes mais divertidas, pois o quarto era branco, só que a primeira tarefa é deixa-lo aconchegante para quem vai habitar nele, fomos comprar tintas e alguns móveis, e com tudo isso rimos muito, conversamos, e fizemos muita bagunça, mas no fim, meu quarto ficou bem simples e bonito, com tons de branco, preto e dourado nas paredes, uma cama, um guarda roupa, uma cômoda e uma escrivaninha, e uma cortina preta e dourada tampava uma porta de vidro que dava para uma pequena varanda.
Durante nossas compras, fomos ver algumas roupas comuns, já que eu só estava com roupas de luta, e foi a hora de eu rir bastante com a ruiva e a rosada discutindo, seus gostos são uma oposição completa, era de se esperar, mas acabamos comprando três conjuntos e um vestidinho, que eu achei bonitos.
Elas me levaram ao campo de treinamento, onde estavam Lass, Jin, Ronan e Zero, conversamos bastante e vi uma luta entre eles, são ótimos, e a Elesis não consegue disfarçar que fica corada por causa do Zero, o que deu bons motivos para eu e a Amy pirraçarmos ela. A rosada é namorada do Jin, eles formam um casal fofo na minha opinião, mas enfim.
Entre outras coisas, foi um dia divertido, mas a noite caiu, conversamos um pouco na sala, jantamos, e Lothos mandou irmos para nossos quartos descansar. Belo exemplo eu que já fugi do meu quarto e estou no telhado, mas fazer o que? Mania minha.
Deixei minha cabeça pendendo para trás e o vento tocar meu rosto, deixando todo e qualquer pensamento correr pra longe pelo menos uma vez.
– Certos hábitos realmente nunca mudam, né? – Disse uma voz atrás de mim, surpreendendo-me. Virei-me para a direção de onde vinha, e deparei-me com duas orbes azuis, que eu reconheceria em qualquer lugar. Sorri.
– Oi Lass! – Eu disse, ele sorriu de volta.
– Imaginei que estaria aqui, no ponto mais alto olhando as estrelas, lembro que você sempre gostou de fazer isso. – Ele disse, sentando ao meu lado. Ainda me surpreendo em como ele pode se lembrar de algo que eu disse sem a menor importância há tantos anos, mas não posso deixar de ficar feliz por isso.
Ficamos ali, sentados, o silêncio reinava, mas não era um silêncio constrangedor, era aconchegante, como se palavra nenhuma se fizesse necessária, mesmo que nós dois tenhamos tanto pra dizer. Mas comecei a pensar na última vez em que nos vimos, na frente do castelo.
– Lass, posso te fazer uma pergunta? – Eu disse, quebrando o silêncio.
– Diga. – Ele respondeu, sem olhar pra mim, de olhos fechados e cabeça pendendo para trás, com os cabelos grisalhos se esvoaçando ao vento.
– O que aconteceu naquele dia com você, depois de nos separarmos, na última vez que nos vimos? – Perguntei.
– Eu... Eu não me lembro bem, só sei que consegui adentrar o castelo sem muitos problemas, despistando alguns guardas, mas depois encontrei uma mulher estranha, que fazia algum tipo de feitiço, fiquei ouvindo o que dizia, que seus poderes ainda não estavam libertos, e seu corpo não aguentaria a liberação, não entendi muito bem, mas acabei sendo pego de surpresa, à partir daí, não me lembro mais de nada, apenas de quando encontrei a Grand Chase. Dizem que fui possuído. – Ele disse, com certa naturalidade. Uma mulher, então era o que eu temia, e se ele foi possuído... Ela foi liberta. Essa não.
É pior do que eu pensava. E, pior que tudo isso, quantas pessoas ela deve tê-lo feito matar, quanta escuridão ele deve ter suportado, e tudo por culpa minha, eu devia ter feito mais para impedi-lo de entrar no território dela, eu devia ter contado mais.
– Lass, me desculpa... – Eu disse, ele e encarou.
– Pelo que? – Ele disse, um tanto confuso.
– Por tudo que você passou, eu podia ter... Eu não sei, feito algo pra te impedir de entrar lá. – Ele sorriu, não entendi bem por que.
– Não se preocupa Millie, você tentou, eu lembro, mas eu que fui teimoso, eu que peço desculpas por ter te deixado lá sozinha. – Ele disse. Não respondi, apenas olhei pra baixo. – E com você, o que aconteceu?
– Você estava demorando e eu já estava me sentindo melhor, então fui atrás de você, adentrei o castelo, mas não tive tanta sorte, me deparei com muitos soldados, e tive que fugir, me perdi, encontrei uma cidade, e foi lá que encontrei a Elesis, inclusive. Ai, sou uma inútil mesmo, nem pra um resgate eu não sirvo. – Falei, batendo na minha própria testa. Lass riu.
– Baka, você tentou, eu não te disse pra ficar do lado de fora?
– Não me chame de baka, baka, você disse, mas demorou, fiquei preocupada com você. – Eu disse, rindo também.
– Mas eu disse, você tinha que me obedecer! Eu que mando ué! – Ele falou, com um semblante convencido.
– Manda? Quem te ilude? – Falei, em tom debochado.
– Não fale assim comigo, sou o mestre, você deve me respeitar. – Olhei pra ele com ar irônico, ele fez uma expressão brincalhona. Me distraí, de repente, vi Lass levantar rapidamente e correr à uma pequena distância de mim. – Heey, quer isso de volta? – Gritou ele, balançando meu colar entre os dedos e... Ei, espera, como assim meu colar? Tateei meu pescoço em busca do pingente. Droga.
– BAKAAAAAAAAAAAAAA!!! – Gritei, já levantando-me e indo atrás dele, que corria também, rindo. Descemos do telhado, e corremos pela floresta, num momento, ele estava ali, na minha frente, no outro, desapareceu. Como isso? Lass, sumindo ninjamente, normal.
– Laaaaaaass? – Gritei, andando. – Lass, cadê você? – Fui procurando por ele. Senti uma presença, ouvi galhos quebrando atrás de mim, um vulto passou pela minha frente. – Lass, aparece, fala sério. – Eu disse, aflita. Nada. Até que sinto um vulto atrás de mim, muito próximo.
– BU!
Continua...
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