Resplendor
2 Transparência

TRÊS MESES ATRÁS
Estava frio... mais do que das outras vezes.
Era a quarta? Ou a quinta vez?
Era a sexta vez. Pensou a mulher ao abrir a porta da loja. Dentro do estabelecimento estava um pouco mais quente, mas mesmo assim...
Droga! O que havia de errado com o clima daquela cidade?
Ela olhou ferozmente ao redor avaliando as pessoas que havia ali. Tinha poucas, porque era tarde da noite. Um casal, uma senhora e um adolescente. Todos concentrados em somente uma ala. O corredor de velas.
Seus pensamentos foram interrompidos ao perceber o som que a cercava. As TVs pareciam mostrar sempre a mesma reportagem, quando ela as olhava.
Só pode se brinc-
... 15 anos após o grande incidente, as pessoas ainda lembram com grande emotividade a respeito das mulheres e crianças que morreram naquela noite fatídica...
A mulher suspirou fundo e foi pegar as malditas velas. Pegou uma caixa com 35 unidades, depois se dirigiu ao balcão para pagar.
...O mausoléu, encontra-se cheio de flores, com significados, tanto de moradores locais, como de visitantes de todo o mundo...
O senhor atendente já havia visto visitantes estranhos, mas aquela jovem a sua frente era, definitivamente, algo novo. Seu rosto estava coberto com óculos escuro e máscara preta anti-poeira, usava diversas camadas de casaco com variadas cores, além está em uma calça três vezes maior que seu tamanho. A única coisa visível era seu cabelo, muito escuro.
...o local estará aberto para visita durante o período de 15 dias em condolências aos 15 anos após ao incêndio do grande orfanato religioso Las Madres...
A mulher ficara impaciente com o olhar de reprovação do atendente. Não que isso fosse identificável com seu rosto coberto. Era sempre o mesmo olhar, ela ia naquela específica loja, porque era a menos movimentada. O homem sempre a encarava dessa maneira, não importava de que forma ela estava vestida. E a mulher já tinha ido nas mais diferentes roupas, desde vestimentas locais a fantasias.
... 38 mortes. Após todo esse tempo, ainda, falta identificar três corpos que estavam tão destruídos, que é impossível dizer de era de uma mulher, criança ou homem...
Talvez porque seu rosto fica coberto sempre. Seu subconsciente respondeu rapidamente.
Ela revirou os olhos. Pelo menos, isso significava que ele não notara que era a mesma pessoa com o rosto coberto que aparecia nos últimos anos.
— Você está aqui para o aniversário do mausoléu? — O senhor perguntara, enquanto passava a caixa no leitor de código de barras.
A mulher afirmou, hesitante, com a cabeça.
O senhor estava com mais linhas de cansaço do que da última vez. Mais magro, com a pele mais ressecada, movimentos mais lentos, mais calvo, o olhar mais pesado, a respiração mais pesada... Os olhos dela, curiosos, voltaram-se para os papéis jogados sobre a mesa. Alguns amassados, outros rabiscados... Números e mais números...
Ele estava doente. A cliente notou, sempre prestava atenção aos detalhes, mesmo quando não queria.
— Aqui só tem 35 velas. Você precisa de mais três — O senhor falou, tossindo levemente.— Foram 38 vítimas no incêndio.
— É o suficiente. — Foi as primeiras palavras que ela dizia para ele, mesmo que tenham se encontrado inúmeras vezes, sempre no início e algumas vezes o meio do ano. Ela não entendia por que falara. — As 35 velas.
Ele confirmou e a olhou sorrindo levemente
— Você tem uma linda voz — Ele falou colocando a caixa dentro de uma sacola — Cinco dó-.
Antes que terminasse de falar, ele notou que o dinheiro já estava em cima do balcão.
A mulher esticou sua mão pálida, tremendo levemente devido ao frio. Ela esquecera de comprar luvas. Pegou a sacola, deu alguns passos em direção a saída... mas parou...
Seus olhos se voltaram para o senhor, ele tinha linhas faciais fortes ao redor dos cantos dos olhos e da boca. Sorria com frequência. Ele tinha um olhar julgador eloquente, mas ainda assim, parecia ser alguém... aconchegante, como um avô.
Provavelmente, ele não tinha alguém para cuidar da loja, por isso continuava ali naquele frio, naquelas condições...
Será se aquele senhor ainda estaria ali quando voltasse no ano seguinte?
Ou sequer aquela loja?
— Chá de eucalipto com mel — Ela falou antes que se desse conta — Pode diminuir sua dor ao respirar.
Eles se olharam por um tempo, os dois surpresos. Provavelmente, nenhum cliente percebera antes que o senhor sentia dor.
Droga! Só podia ser culpa daquela noite, daquele dia, data...
— Obrigado, jovem — O senhor falou sorrindo, aprofundando-se em suas marcas do tempo.
Novamente, ela confirmou com a cabeça e se dirigiu a saída. Atravessando a porta em direção a frente fria sem olhar para trás. Mesmo que conhecesse aquele moço desde sua infância, mesmo que ele tivesse sido um grande amigo de uma das pessoas mais queridas para ela, mesmo que tivesse sido como um avô para ela, mesmo que ele e sua loja fossem as únicas coisas intactas do seu passado, após o incêndio há quinze anos...
Ela foi embora, porque aquela parte da vida não existia mais.
DIAS ATUAIS
Eu tinha uma leve consciência de que estava sentada em frente ao computador digitando algo muito importante, mas isso poderia ser somente uma visão deturbada e nublada de sono.
Sono... Muito sono... Se pudesse dormir só um pouco, eu já não tinha muita noção do que estava fazendo mesmo.
— Srta. Campbell! — Dei um pulo na cadeira assustando-me, batendo os joelhos fortemente embaixo da mesa, o que parecia ser a décima vez naquele dia.
— Sim, Sr. Powell — Eu respondi, passando a mão sobre meus joelhos já levemente roxos. Virei para a direção do som e dei de cara com um homem roliço e bem baixo, de terno, aparentemente, muito caro, olhando em direção a tela do computador.
— O que é isso? — Ele disse levemente alterado. Voltei-me para o computador novamente, agora, acordada o suficiente para ver o que realmente estava escrevendo. Vários punhados de números aleatórios, misturados com letras. — Você deveria estar fazendo um relatório sobre as finanças da IMPERIUM. O que é isso? — Sr. Powell perguntou novamente, apontando veementemente em minha direção e depois para o computador.
— Desculpa, Sr. Powell — falei rapidamente — Vou ajeitar agora mesmo — continuei.
— Srta. Campbell, você tem noção que o prazo é até a meia noite? — ele continuou sem me dá a chance de responder — E já são 23hs e você ainda não terminou seu serviço.
Se você não tivesse me avisado em cima da hora sobre a necessidade de fazer esse relatório, eu não teria de ficar até tarde na empresa pela quinta noite consecutiva!
Eu estava exausta.
— Então vou me apressar e corrigi-lo — Falei e sorri forçadamente. Virei-me e comecei a digitar, sem me importar com os olhos acusatórios do meu superior.
Ele se afastou em direção a porta ainda me encarando, eu conseguia sentir a intensidade. Fingi completa concentração.
1,2,3,4,5,6,7,8...
— Caramba! — Eu escutei uma voz estridente na mesa ao meu lado — Você viu que as bochechas dele parece duas bolinhas de Ping Pong quando está com raiva?
Sorri levemente.
— Meu deus! — Disse, fingindo surpresa, ainda digitando — Demorou oito segundos inteiros para você fazer algum comentário sobre o Sr. Powell. Parabéns, deve ser seu recorde.
— Deve ser seu recorde — Aiden me imitou afinando exageradamente a voz e depois sorriu — Você quer ajuda?
Revirei os olhos, virei o assento da minha cadeira em sua direção, apoiei meu salto na base da cadeira de Aiden e o empurrei. Sem retirar atenção do computador. Tinha de terminar aquele serviço o quanto antes.
Mas antes...
Peguei minha câmera na gaveta, com a mão esquerda e tirei uma foto de Aiden esperneando enquanto se afastava desordenadamente na sua cadeira. Desviei meus olhos por um momento do computador, só para confirmar se tinha tido uma boa imagem.
Ele estava com os olhos assustados, com a boca aberta, os braços se segurando firmemente na lateral, com seus pés escorregando pelo chão, em uma tentativa falha de para a cadeira.
— Ei, ei! — Aiden reclamou — Caramba! Toda vez! — Ele disse quando finalmente parou, no outro lado da sala. — Por que você é tão forte?
— Acho que isso é uma recusa para sua ajuda — Ouvi Samantha falar ao entrar na sala, vindo em minha direção — Aqui estão os documentos que pediu — ela falou ao depositar três gigantes pastas na minha mesa.
Suspirei. Quando que esse trabalho acabava? Eu só queria uma boa noite de sono.
— Mas por quê? — Aiden disse, enquanto se arrastava de volta ao seu lugar.
— Porque, da última vez, você ficou cobrando favores o dia todo. — Respondi.
— Por que você não levanta e empurra cadeira? — Samantha falou, empurrando os óculos em seu rosto.
— Que ultraje. Aquilo não tinha nada a ver com o favor que eu fiz para você — Aiden disse e depois voltou-se para Samantha — Porque eu não quero. — Ele respondeu, mas levantou e começou a empurrar a cadeira com as mãos.
— Toda vez você citava, não discretamente, o turno que trocamos — Disse, olhando o rosto dele refletido no monitor zangado por ter sido jogado do outro lado da sala.
— Só estava tendo certeza que você estava apreciando bem minha ajuda — Aiden disse, chegando finalmente ao seu lugar ao meu lado — Aquele dia foi um inferno. Devia ter levado a sério a maldição da empresa.
— Maldição? — Samantha perguntou sentando-se em seu lugar a minha frente.
A sala em que estavam era bastante ampla, sendo o local em que a maioria dos assistentes trabalhavam. Havia três conjuntos de quatro mesas, duas dispostas em frente a outras duas, formando três grandes quadrados. Cada grupo era assistente de uma área específica: mídia/vendas, financeiro ou administrativo. Haviam outras salas dessas nos outros andares.
Éramos organizados assim, por acharem que isso ajudaria a manter a separação entre os supervisores e subordinados. Uma sala para cada nível hierárquico. Um modelo que foi instalado uns 50 anos atrás e nunca alterado, mesmo que eu tivesse ouvido alguns boatos da nova diretora querer destruir esse sistema, que de óbvia forma, instala um divisor de águas entre as pessoas ali.
Naquela noite só havia a área financeira ativa na sala. Nosso setor era o que tinha os "supervisores" mais preguiçosos. Era raro o dia que saiamos cedo. Sempre havia muitos relatórios para fazer em cima da hora, sempre muitos erros para corrigíssemos, sempre milhares de coisas.
E sempre eu tinha a impressão que não tínhamos acesso a tudo.
— Ah é, Samantha é a mais nova entre nós — Aiden falou, abrindo um pacote de batatas fritas — Existe uma teoria, que sempre que você substituir alguém em um turno, alguma coisa diferente vai acontecer.
— Como assim? — Samantha perguntou interessada.
— Alguma coisa que vai triplicar o seu serviço — Aiden continuou — Um erro, alguma discrepância, a chegada de novos produtos para cadastro — Franzi o rosto, sempre odiava cadastrar os preços dos produtos — ou alguma coisa que pode levar a sua demissão.
— A fala sério — Samantha voltou-se a tela do seu computador — Achei que vocês estavam dizendo a verdade.
Aiden e eu nos olhamos. Estávamos falando sério. Nos trabalhávamos juntos há quatro anos e meio e só houve uma vez que ousamos trocar nossos turnos. Foi o pior dia de trabalho de nossas vidas.
— Ele está falando a verdade — Disse, ligeiramente aliviada por só a parte final do relatório está errada. Olhei para o canto da tela. 23h31. — No meu turno eu tive de cadastrar 150 novos produtos sozinha, porque todo o setor de vendas já tinha ido embora e ainda tive de fazer a contagem do estoque. Além de nosso trabalho usual.
— E eu — Aiden começou — Fui chamado a sala do antigo CEO.
— Não pode ser! — Samantha parecia embasbacada — Ele nunca dirigia uma palavra para os mais baixos da hierarquia. Soube que ele sempre mandava um supervisor falar.
— Exatamente — Aiden que tinha colocado um punhado de batatas na boca, falou com a boca cheia.
— O que ele queria?
— Aparentemente, meu relatório financeiro estava com dinheiro faltando. Sendo que quando eu o entreguei, tudo estava batendo.
— Quanto?
— Cem mil dólares — Falei, salvando o relatório. 23H37! Eu consegui!
— C- ce- cem mil? — Samantha parecia embasbacada. A maioria de nós nunca tinha visto esse tanto de dinheiro na conta bancária. — Eu nem saberia o que fazer com esse dinheiro.
— Pensei a mesma coisa, quando me acusaram de ter pegado — Aiden falou.
— Não te acusaram, te questionaram — Falei corrigindo-o. Se alguém o ouvisse falando isso, daria um bom processo.
— A mesma coisa — Aiden fez descaso — Enfim, tive de passar a noite procurando onde estava o erro. — Ele continuou — Um produto estava programado para sofrer alteração no preço uma semana antes, só que não houve atualização no preço para os vendedores, então ele foi vendido no preço antigo, mas quando chegou o relatório, o preço do produto estava atualizado. — Aiden explicou — Dando uma diferença de cem mil dólares.
— Uau — Samantha parecia perplexa. Ela só estava ali a três meses, deveria morrer de medo de se deparar com um erro desses.
— Mas — Aiden sorriu — Eu resolvi, porque sou muito perfeito.
— Ninguém falou isso — Disse.
Enviei o documento para o e-mail do supervisor.
Ah, tinha de repassar para aquela pessoa também.
Coloquei as pastas na gaveta e a tranquei. Levantei e alcancei minha bolsa debaixo da mesa, coloquei, a chave da gaveta, meu celular e câmera dentro e por último, peguei meu casaco no encosto da cadeira.
— Ei, já terminou? — Aiden perguntou me olhando suspeitamente — Que mágica você fez aí? Se você estava conversando também.
— Eu não parei de digitar nem por um momento — Respondi — Até mais, Sam. Até mais, Aiden.
— Até — Eles falaram em uníssono.
— Ei, você já percebeu que Elleanor sempre sai às pressas — Aiden sussurrou.
Fiquei tensa, mas continuei andando em direção a saída.
— Ela deve ter um namorado — Ele continuou.
Sorri, com a teoria.
— Aiden — Sam falou — Presta atenção aí no seu relatório. Eu quero ir para casa antes do sol raiar.
∞
— Mandei o relatório para você — Falei, enquanto entrava no elevador. Apertei o botão do térreo.
— Sr. Powell pediu para você adulterar novamente? — A mulher com o longo casaco vermelho no elevador perguntou.
Estranho. Normalmente ela mandava o documento e era suficiente. Por que será ela quis encontrar-me pessoalmente?
— Sim — respondi — O valor está muito mais alto — Continuei — Três vezes maior.
Ela ficou em silêncio. Olhei de esguelha para ela, não se podia dizer muito sobre sua expressão com seu cabelo loiro cobrindo metade do seu rosto. Exatamente como o meu, para que a câmera não filmasse nossas bocas se movendo. Somente duas pessoas silenciosas dentro de um elevador. Cers havia instalado, propositalmente, um câmera somente de imagem.
— O que você acha? — Ela perguntou.
— Eu não sei — Respondi com sinceridade — Não quero me envolver.
— Eu sei — Ela falou.
—Prometi ajudar você Cers, mas não vou compartilhar a sua responsabilidade. — Mordi os lábios, contendo-me para não falar mais. A culpa era de Cers por eu estar me envolvendo. Eu estava preocupada com os riscos que ela estava tomando.
— Elle — Cers disse com sua voz afável — Eu vi que você negou a renovação do contrato...
Ah, então era por causa disso.
— Se for por causa do serviço que está fazendo agora, você pode parar quando quiser, não precisa sair da empresa.
— Não é por isso — Eu disse, respirando fundo— Meu contrato era somente de cinco anos desde o início. — Pausei, pensando nas palavras que saíram da minha boca — Eu tenho 25 anos, não quero ser assistente financeira para sempre.
— Falta quantos anos para você terminar a faculdade? — Cers perguntou, assuntando-me por ela saber disso.
— Dois — Falei — Por enquanto tranquei. Você sabe, depois que me tornei funcionária tempo integral não tive muito tempo.
— Tudo bem — Ela disse por fim.
Não era o real motivo, mas isso teria de bastar no momento.
— Elleanor — Ela falou mudando de assunto — Continue de olho no Sr. Powell, qualquer mudança, me fale imediatamente. Vou estabelecer uma substituta para você, treine-a a respeito de todas as suas responsabilidades.
Ela falou a palavra todas, com ênfase. Eu tinha de treinar uma pessoa para espionar.
— Certo — A porta do elevador abriu, comecei a andar em direção ao corredor que se abria — Até segunda, CEO.
— Até segunda, Srta. Campbell. — Cers foi até o painel do elevador e apertou o número 15. Sorri para ela enquanto elevador se fechava, ela me encarou de volta com o rosto em meio sorriso.
Virei-me em direção ao grande saguão na entrada, passei pela recepção esperando ver o segurança dormindo como todas as vezes que eu passava por ali.
O velho Ralf sempre fazia isso. Não sei como os supervisores nunca o pegaram.
— Eu preciso falar imediatamente com a CEO dessa empresa! — Ouvi a voz masculina estridente, antes que o visse.
Havia um homem alto, de colete com arma, bastante agitado, enquanto falava com o Ralf.
Olhei em direção a arma em seu colete. Estava ainda nas sombras, então ainda não tinham notado minha presença, dando-me a chance de escutar a conversa e entender o que estava acontecendo.
— Senhor — Ralf falou controladamente, mas eu o conhecia o suficiente para saber que ele já estava sem paciência — Peço que se retire imediatamente. Você está armado e evidentemente, alterado.
— Só fale que eu estou aqui! — O homem continuou — Fala que Corey está aqui.
Corey! Aquele era Corey?
Meus deus, ele mudara muito. Ele estava muito mais alto que da última vez que eu o olhara e sua pele estava com bem menos espinhas. Olhei para aquele cabelo loiro característico. Suspirei. Sempre me arranjando problemas.
— Você acabou de dizer que não tinha nenhum assunto relacionado com a polícia para tratar com a CEO. — Ralf disse — Então você não deve ter nada para tratar com ela a essa hora da noite.
— É urgente — Corey continuou tentando — Por favor. Só avise que eu estou aqui.
— Senhor, não me faça soar o alarme — Ralf falou — Forçar sua entrada sem nenhum motivo justificado é um crime, até mesmo para você, Policial.
Uau, Ralf era tão autoritário.
Ele fora bem escolhido, era um antigo ex-militar. Não tinha muita coisa que o assustava. Mesmo um policial com uma arma.
Fui em direção a eles no balcão. Ninguém olhou em minha direção. Corey não estava sozinho. Um homem mais alto que ele, se isso fosse possível, estava apoiado no balcão na extremidade, sendo um ponto cego no local que eu estava antes. Ele parecia entretido com a cena. Usava um casaco longo preto, seu rosto parecia cansado e seu cabelo castanho estava meio bagunçado, provavelmente por causa do vento de fora.
Apoiei-me no balcão, próximo deles, enquanto Corey falava algo sobre não poder esperar. Parei de ouvi aquele garoto. Olhei para sua arma de novo. Franzi o rosto.
— Pensei que você tinha uma restrição de não aproximação — Disse interrompendo-o, fazendo todos ficarem em posição defensiva ao me notarem. Ralf colocou a mão na arma em sua cintura, Coreey deu um passo para trás me reconhecendo e o homem ao lado dele se afastou do balcão.
— Ell- Elleanor — Corey tentou parecer animado — Você trabalha com Cers? Eu não sabia.
— Srta. Campbell você conhece esse sujeito? — O velho Ralf me encarou com seus olhos castanhos, cansados pelo tempo, mas ainda bastante ativos.
— Diga para ele me deixar entrar por favor — Corey falou, aproximando-se de mim, antes que eu pudesse responder. Mais perto do que agradável — Preciso falar com ela sobre nosso pai.
Oh, então era aquele assunto... A empresa, sempre... Olhei em direção a arma, meu rosto se tornou mais sombrio, podia sentir o olhar do amigo dele me avaliando. Ignorei-o.
— Não — Falei — Ela já foi para casa. — Menti. Já estava mais do que acostumada.
— Ah — Corey acreditou sem nem hesitar. Levantei a sobrancelha olhando, ainda, para seu colete. Ah, como eu odiava aquelas coisas. — Você pode pedir para que ela me encontre na Estação policial 23...
— Corey.
— ...Eu vou estar lá todos os dias...
— Corey.
— ...até as 22hs da noit-
— Corey! — Falei mais alto. — Ela não vai encontrar você. — Corey me encarou parecendo desamparado — Você precisa parar.
Silêncio.
Todos me encaravam. Odiava ser o centro das atenções.
Corey virou o rosto e pareceu pensar por um momento.
— Então — Ele começou — Você pode passar uma mensagem a ela?
Meu rosto azedou mais. Parecia que esse par de irmãos não entendia que eu não queria me envolver.
— Não — Falei, notando que meu rosto estava tenso. Então sorri forçadamente. Corey se surpreendeu com meu sorriso repentino. Voltei-me para Ralf — Ralf, você tem alguma folha ou bloco de notas e talvez uma caneta?
Ralf olhou ao redor.
— Não — Ele disse — Sinto muito.
— Não se preocupe — Virei para Corey com o rosto franzido — Vocês têm alguma folha e caneta ou isso são objetos muito delicados para dois homens que carregam armas?
— Do que você está falando? Só eu estou com arma. Dylan não as usa. — Corey falou — Tive de sair as pressas, esqueci de guardá-la.
— Entendi — Sorri ironicamente para o amigo dele, que franziu o rosto, também.
Ah sim. Eu sei que você também tem um revólver na cintura, mesmo que você esteja escondendo com sua postura. Não é suficiente.
Dylan colocou a mão no bolso e tirou de lá um bloco de notas com uma caneta encaixada na capa.
— Isso é suficiente? — Ele perguntou, andando em minha direção e estendendo o caderno.
— Obrigada. — Peguei sem deixar de encará-lo. Provavelmente ele não era um policial como Corey. Então o que seria?
Abri o caderno em uma folha com anotações rápidas. Datas, nomes, números, que para mim eram mais que aleatórios. Passei as folhas até achar uma em branco. Apoiei no balcão e escrevi um número de telefone. Rasguei a folha. Estendi o papel em direção a Corey e o caderno com a caneta para o amigo dele ao mesmo tempo. Dylan pegou e guardou no bolso novamente. Quando Corey pegou o papel, eu segurei a folha fortemente.
— O que é isso? — Ele perguntou, com a mão na folha, mas sem puxar.
— É o número de Cers — Eu disse e continuei, antes que ele pudesse falar qualquer coisa — Escrevi em um papel. Porque enquanto você estiver passando o número dela para seus contatos, pense exatamente no que é necessário falar com Cers. O necessário, Corey. Por mensagem, eu aconselho. Se for muito insistente com ligações ela vai bloqueá-lo e seja lá o que for tão importante, você não vai conseguir dizer.
Deixei que ele pegasse o papel em minhas mãos.
— Não venha mais aqui, a não ser que ela tenha o chamado — Continuei — Eu não gosto de me envolver nessa pequena briguinha de vocês, então vou deixar que se resolvam. Porém sua ordem de restrição impede que eu me abstenha completamente. Se eu o ver aqui novamente, eu mesma o porei para fora daqui.
Corey engoliu em seco, o amigo dele tinha um olhar de entretenimento. Ralf sentou-se em sua cadeira sorrindo.
— E não traga mais essa coisa com você, se um dia voltar aqui — Apontei em direção a arma, enquanto falava.
Corey voltou o olhar para a arma. Ele deve ter se lembrado em algum ponto distante que eu já havia dito que não era fã de armas. Em algum ponto, quando éramos amigos: Cers, Corey e eu.
Silêncio.
Droga! Odiava quando não conseguia controlar meu gênio. Mas ele tinha de trazer aquela maldita arma tão exposta, fazendo-me sentir com tanta raiva?
— Tudo bem — Corey disse — Obrigado — Ele virou em direção a Dylan e indicou com a cabeça a porta — Vou fazer o que me disse.
— Espero que sim — Falei murmurando.
— Boa noite, rapazes — Ralf disse.
Eles fizeram um sinal com a cabeça e se dirigiram a porta giratória.
As vezes obras de arte não são compreendidas pelos seus espectadores, mas para os artistas, eram como se um pedaço das almas estivesse sido expostos em uma tela, em uma pintura, em uma dança, em uma música... Em uma fotografia.
Corey andava na frente com sua posição altiva e ombros largos em contraste com sua cabeça levemente abaixada, o amigo dele, ia mais atrás afastado, como um guarda, seu casaco balançado atrás de si, dando um ar fantasmagórico.
Posteriormente, eu me perguntaria que droga eu estava fazendo? Mas, naquele momento, as luzes não podiam estar mais bem posicionadas. Retirei minha câmera e antes que alguém notasse, tirei a foto pitagórica, com luz da lua cheia atravessando o vidro e iluminando aqueles dois homens.
Fale com o autor