Resplendor
3 Perdoai os pecadores...

ELLEANOR
— Direita!
Atingi a defesa do meu instrutor com toda a força que tinha, em um gancho direito.
— Esquerda!
Continuei seguindo as instruções.
— Esquerda! — Meu instrutor ficou em posição de ataque — Defesa!... Direita!...Cruzado!... Defesa!... Chute alto! — Fiz minha base, levantei minha perna mais afastada até a lateral da cabeça do homem a minha frente, atingindo sua defesa em um baque surdo — De novo!... Mais força!... De novo!... De novo!... De novo!... Mais alto!... De novo!... — Repeti quantas vezes ele pediu o chute, esquecendo-me que aquela pessoa também era meu oponente — Defesa!
Tentei refazer minha base para defesa, mas fui lenta demais e antes que pudesse baixar completamente minha perna, meu instrutor segurou-a, depois atingiu-me com uma cruzada direita, sem que eu protegesse meu rosto. Perdi o equilíbrio e cai lateralmente no tatame.
Senti o leve gosto de sague na boca. Suspirei e sai de cima do meu braço direito, que tinha imprensado na queda e fiquei deitada de bruços, por um momento, estabilizando minha respiração.
— Você não está concentrada — Sander disse retirando as luvas de MuayThai, depois estendendo a mão em minha direção.
— Você não precisava bater tão forte — Disse, aceitando sua mão e me levantando.
— Elleanor, normalmente, você seria capaz de se defender de um golpe daquele. — Ele falou — Minha força sempre foi a mesma. Só fazia tempo que eu lhe acertava tão em cheio.
— Tenho certeza que existe alguma lei que proíbe os professores baterem em seus alunos — Brinquei, tocando a maçã no meu rosto. Sentia-a dormente, provavelmente ia ficar um pequeno hematoma.
— Você disse para que eu não poupasse você — ele falou, sorrindo — Mudou de ideia?
— Não, mas gostaria que evitasse meu rosto — Respondi.
— Elleanor — Sander parou de andar e me encarou — Você estava desconcentrada hoje. Aliás, há dias você tem andado assim. Já falei para você que o que eu ensino, não é somente algo para extravasar sua raiva, é uma arte de luta, de proteção e de ataque. Você tem de usar seu cérebro também.
Concordei com a cabeça. Não havia muito o que dizer a respeito disso. Eu havia tentado não explodir toda minha frustração no treino, mas nem sempre conseguia. Na verdade, quase nunca.
Sander e eu andamos em direção a cabine de observação, era um mini-escritório, com um grande vidro voltado para o tatame. Ele entrou na sala e eu parei na entrada perto da minha mochila, retirei as luvas e as guardei dentro da bolsa. Peguei minha garrafa d'água e bebi até o último gole.
Que dia era aquele? Supostamente, era minha folga, mas estou mais estressada do que se estivesse no trabalho. Acordei tarde, tendo de correr para resolver minhas coisas antes de fecharem os locais.
Fiquei sem levar mantimentos para casa. Comida hoje a base de ovo e pão.
Poderia comprar comida pronta, mas isso sairia mais caro do que comprar os ingredientes. Ainda não recebi o salário do mês, estava quase tudo zerado.
Nem quando você receber. Seu dinheiro já está destinado para outra coisa.
Fiz careta.
— Tudo bem, tudo bem — Murmurei, consolando-me pela conta vazia — Só falta alguns meses. Você já resolveu quase todas as pendências. No dinheiro desse mês você vai ter uma folga. Não se preocupe. — Meu rosto expressava desespero, eu podia sentir — Você é uma mulher forte e independente — Tentei outra abordagem. Ia ser meu próprio Coach — Que irá superar as dificuldades da vida.... A base de pão e água.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhh. Encostei na parede e fui deslizando por ela até o chão. Olhei para o nada, tentando impedir meu corpo de ficar em posição fetal.
Não irei sobreviver. Eu fora irresponsável o bastante para deixar para resolver as coisas na última hora. Meu dinheiro saiu voando das minhas mãos em segundos.
Eu podia arranjar um trabalho extr-
Com que tempo?! Se eu fizer isso vou morrer de cansaço antes que meu contrato com a empresa acabe.
— Elle — Sander me chamou, despertando dos meus pensamentos. Virei na direção do som. Ele estava apoiado na parede ao meu lado e estendendo-me um recheado envelope.
Aquilo havia chegado rápido. Rápido demais.
— Ah, chegou — Falei, sem um pingo de entusiasmo.
— Não era isso que você queria? — Sander me perguntou.
— Era — Disse, me levantando e pegando o envelope — Eu acho — Murmurei.
— Você precisa mesmo disso? — Ele estava tentando não fazer perguntas demais, mas Sander tinha estado comigo em vários momentos para não entender, pelo menos um pouco, a situação — Eu entrei em contato com meus antigos colegas, por que conheço você há muito tempo, mas Elle, as únicas pessoas que já vi tomarem ação tão drásticas e urgentes para não ser rastreado, são fugitivos. Na maior parte das vezes, criminosos...
— Então uma porrada de gente deve ir atrás dos seus antigos amigos? — Disse rindo. Antigos amigos... Antes de Sander abrir um Centro de treinamento na periferia, ele era a própria encarnação da agiotagem e espionagem.
— Sim — Ele balançou a cabeça — Por isso que não entendo o motivo de você querer identidades, passaportes e contas forjadas... Ou o motivo que a levou querer ir embora...
Respirei fundo. Refleti por um momento.
— Eu... estou tentando... — Falei mais para mim mesma que para Sander. — ...tentando recomeçar.
— Por quê? — Sander pareceu sério.
Encarei Sander, seu cabelo grisalho de meia idade, seus braços e pernas mais definidas que qualquer um que eu já conhecera.
Se eu tirasse minha câmera da mochila, poderia captar aquele homem que parecia ser mais forte que o mundo... Tendo os olhos a experiencia e o conhecimento de um ancião.
Talvez, se eu contasse, não tivesse problema... Ele tinha contatos suficientes para se proteger?
Abri a boca, mas balancei a cabeça... Eu não podia ceder a pensamentos egoístas, que me libertariam, mas levaria todos ao redor a sempre observar sobre os ombros. Pensei que ele fosse insistir na pergunta, mas ele só assentiu e disse.
— Tudo bem, mas se um dia você quiser fazer alguma coisa que não seja fugir, me procure. — Ele pausou — Eu tenho muitos antigos amigos que podem ajudar você.
Sorri levemente.
— Pode deixar.
DYLAN
Dylan observava o amigo de seu mentor e franziu o rosto.
Esse homem é tido como o detetive gênio?
O homem na mesa a poucos metros de distância, claramente, não ia para casa há dias. Suas roupas estavam amassadas, seu rosto estava profundamente cansado e... oleoso. Assim, como seu cabelo, quase totalmente grisalho.
— Ele não para nem para comer — Ryker disse, colocando inúmeros documentos na mesa que Dylan estava. A mesa de Corey.
— Qual é o caso que ele está trabalhando? — Dylan perguntou curioso.
— Você não sabe? — Ryker parecia surpreso — Digo, Carson não pediu diretamente sua cooperação para o Sr. Fox?
Sr. Fox disse para Dylan ajudar no quer que Carson pedisse e ficar de olho nele, mas era difícil quando o detetive não abria a boca nem para dar um bom dia. Dylan vivia naquela estação policial, com a esperança de que ele, ao menos, se desse conta de sua existência. Tirando o que dissera no primeiro dia, ele não dava sinal de saber que Dylan estava na delegacia.
Estou ocupado com algumas coisas, ajude com o que puder na estação. Quero monitorar seu nível de experiência, antes de falar o que preciso de você. Ele dissera isso, sem nem mesmo desviar seus olhos... do computador, enquanto falava.
Dylan suspirou. Eram suas férias, mesmo assim, tinha de acordar cedo e ir para aquele local. O que Sr. Fox e o detetive Carson estavam tramando?
— Como eu iria trocar uma palavra com ele? — Dylan disse frustrado — Quase não o vejo e quando nos encontramos, ele sempre parece está ocupado demais para falar.
— Parece que você está dificultando as coisas — Ryker se apoiou na mesa — Só chega e fala. Ei, você me chamou. Faça o favor de falar o que quer.
Dylan sorriu. Estava tentado há dias a fazer isso, mas ele precisava ser paciente. Ainda mais, se os rumores da personalidade de Carson fosse verdade. Alguém como ele... era melhor ter como aliado.
— Então — Dylan insistiu — Você sabe qual caso ele está trabalhando ou não?
— O caso — Ryker ressaltou — O último caso que Carson pegou, quando ainda era promotor e nunca conseguiu solucionar. — Ele falou um pouco mais baixo — Dizem que ele virou detetive, porque não conseguiu superar esse caso. Acho que... finalmente os traços de loucura estão consumindo-o.
Era uma maneira de dizer. Carson tinha a postura corporal tranquila, mas seus dedos dedilhavam sobre a mesa, enquanto ele lia e relia o mesmo documento, o que parecia ser a décima vez.
Dylan olhou curiosamente para Ryker. Carson tinha trabalhado como promotor por vinte anos e largara há 14 anos. Ele era considerado o melhor em sua área. Um caso de 14 anos atrás, então. Poderia ser aquele...
— E por que ele está investigando isso agora? — Dylan perguntou.
— Aparentemente, o caso aberto vai ser arquivado definitivamente daqui há seis meses por falta de provas — Ryker respondeu. Dylan levantou as sobrancelhas, mas isso era a única indicação de seu interesse.
— O caso está aberto há quatorze anos? — Dylan fingiu incredulidade. Era o caso na Nova Itália, sua mente ressaltava, enquanto seu corpo continuava imóvel.
— Opinião pública — Ryker disse como se isso fosse responder todas as dúvidas — Inúmeras crianças morreram nesse caso, ele não poderia ser fechado mesmo se quiséssemos.
— Crianças? — Dylan disse, tentando ter total desconhecimento. Talvez, assim, Ryker deixasse passar algo novo.
— Sim, você já deve ter ouvido falar do incêndio na Nova Itália. — Ryker pausou — Eu costumava trabalhar na estação policial de lá.
Dylan observou Ryker curiosamente, ele não sabia que Ryker trabalhara lá. Obviamente, Dylan sabia daquele caso, a Nova Itália estava sobre a jurisdição da capital em que estavam. Aquela região fora construída por pessoas que tinham muita influência na Itália e isso resultou em um nome nada criativo. Dylan pensara.
— É um longo período para manter as famílias esperando — Dylan murmurou qualquer coisa em sua mente, para continuar sua fachada.
— Não tem famílias esperando — Ryker disse sombrio — Era um orfanato, as crianças não tinham ninguém. As feiras eram idosas, a família delas eram uma as outras. — Dylan voltou-se a Carson. Ele não demonstrava nenhum sinal de está prestando atenção na conversa — A situação fora perfeita demais, nada fora do lugar, nada divergindo... Na época as autoridades locais passaram a vista e deram como um incidente trágico, mas eles esqueceram que nada atrai mais holofotes do que ter a oportunidade de acusar o governo de querer jogar fatos para debaixo do tapete.
— Como assim? — Dylan olhou em direção a porta, por onde entrava um policial molhado da pesada chuva lá fora. — Não tinha sido provado como um incidente? A mídia não deveria ter focado nisso?
— Eles teriam feito isso — Ryker disse — Mas, uma das informações vazaram, e ela não tinha sido publicada quando a polícia deu o aparato. Então, eles perceberam que tinha fatos sendo acobertados. Havia sido encontrado possíveis sinais de ter sido um crime, mas ninguém queria tratar desse assunto por esse ângulo.
— Então, por que isso não foi resolvido há anos? — Dylan disse, assimilando pequenos detalhes que não sabia, como o fato, que os envolvidos tinham ciência da corrupção envolvida. Então não foi tão discreto assim.
— Falta de provas — Ryker dissera novamente — Ou pelo menos foi o que disseram. Entenda... A força pública só pode ir até um ponto, o caso continuou aberto, mas não houve investigação. E como não havia ninguém vivo próximo para exigir a continuação do processo, ele ficou estagnado. E agora vai ser encerrado... O promotor patrono estabeleceu uma data final ano passado, para qualquer apresentação de evidências.
— O que você acha desse caso? — Dylan perguntou, avaliando Ryker — Você acha que esse caso pode ser algo mais?
— Garoto — Ruker começara — Eu sou policial há mais de trinta anos. Conheço Carson, antes mesmo que começar a trabalhar nessa área. Quando ele diz que algo é suspeito, você deve no mínimo fica atento.
Dylan confirmara com a cabeça. O mito Carson era disseminado por todos os locais. Ele era implacável, sempre investigava ele próprio seus casos, não ficava preso aos documentos. Todos sabiam que se entrasse no caso, teriam de voltar a cena do crime várias vezes antes de ele fazer sua acusação. Sua taxa de resolução era de 98%, dentro dos vinte anos que trabalhou como promotor. Como detetive da Estação policial 23, ele era conhecido, pela sua calma manipuladora.
— Estranho — Dylan falou, olhando ao redor, a delegacia estava mais vazia que o normal. Havia umas quatro pessoas ali dentro, talvez umas três do lado de fora.
— O que? — Ryker perguntou — Ah — Ele percebera o olhar de Dylan — Hoje tivemos várias ligações, mais que o normal. E ainda por cima, tivemos poucas pessoas.
— Isso que estou dizend-
— Garoto é assim que é uma estação policial da capital, as vezes estamos de folga, as vezes não.
Dylan abriu a boca para falar algo, mas não fez ao ver Carson levantar seu rosto dos papéis e olhar na direção dele, com um sorriso leve no rosto.
— Ryker — Carson disse com sua voz rouca, pronunciando cada palavra cuidadosamente — Você pode ligar para Ammy, pedindo que ela traga os arquivos 34 e 56 também. Acabei me esquecendo desses.
— Sim, senhor — Ryker respondeu, tateando seus bolsos atrás de seu celular. Olhou ao redor, por cima da mesa de Corey, depois para a própria, ao lado...
— Pegue esse. — Dylan apontou para o celular que Corey esqueceu. — Ammy só atende números conhecidos.
Parecia que todos daquela estação tinha a mania de perder os seus celulares.
Dylan franziu o rosto ao perceber que estava se aproximando de quase todos daquela estação, menos de Carson.
O celular vibrou na mesa, no momento que Ryker colocou a mão nele. Ryker franziu o rosto.
— Quem é? — Dylan perguntou, pensando se não era o próprio Corey, para saber se perdera o celular novamente.
— Ele — Ryker respondeu.
— Ele? Ele o que? — Dylan repetiu.
— O nome é Ele — Ryker disse.
Carson parecia levemente interessado na conversa. Ryker mostrou a tela pra Dylan e depois, para Carson. Literalmente um "L" brilhava na tela, enquanto vibrava.
— Será se atendemos? — Ryker perguntou — Ah, desligou.
Dylan arqueou as sobrancelhas. L? Corey era um grande falador, mas nunca havia citado essa pessoa antes.
— Voltou a ligar — Ryker falou — Já é a vigésima ligação dessa pessoa e parece que também tentou mandar mensagens. Ninguém notou esse celular vibrando?
Dylan deu de ombros.
— Atende — Disse desconfiado. Vinte ligações? O que seria tão urgente?
Ryker concordou com a cabeça e atendeu o telefone.
— Aqui é o policial Tanner, Corey não está no momento, peço para ele retornar assim que possí- — Ryker franziu o rosto. Ele fez afirmativas leves com a cabeça e se dirigiu a sua mesa, pegou uma caneta e começou a escrever em uma folha qualquer — Você tem certeza?... — Ryker começou vários questionamentos — Quando foi isso?... Você está bem?... Qual o local exatamente?...
— Problemas? — Carson olhou para o colega com o olhar cansado. Ryker fez um sinal que ele esperasse, enquanto anotava algo.
— IMPERIUM? — Ryker falou, surpreendendo todos ali — Você tem certeza que esse é um local?... IMPERIUM a matriz, não a filial?... Você tem- — Ryker sorriu levemente — Eu sei que você está nervosa, mas poderia, por favor parar de me amaldiçoar pelo telefone?
Dylan podia entender a incredulidade de Ryker, aquela empresa tinha sido suspeita de um dos maiores casos de corrupção um ano antes e por algum motivo, ninguém tinha conseguido um mandato para investigá-la, nem mesmo para entrar e falar com o antigo CEO.
— Tudo bem... Chegaremos daqui há dez minutos. — Ryker continuou — Qual o seu nome?... E ela desligou na minha cara.
Todos na sala tinham parado para ouvir a conversa.
— Temos a denúncia da existência de um corpo na IMPERIUM — Ryker, literalmente, lançou o telefone na mesa de Corey — Carson, levanta essa sua bunda daí. — Carson suspirou. Se fosse qualquer outra pessoa seria uma completa falta de noção, mas era Ryker — Temos trabalho para fazer.
— Aparentemente sim — Carson murmurou — Como acabou sendo eu o único detetive disponível?
— Por que essa pessoa ligou para Corey e não para a o telefone da polícia? — Ryker falou pensativo — Ela teve sorte de alguém atender.
— Pare de reclamar tanto, Ryker — Carson disse, com sua voz extremamente tranquila. Ele tinha essa personalidade, que poderia facilmente ser confundida com apatia... Mas todos que o conheciam sabiam, que era uma tática. Manter sua calma em diversas situações, o fazia enxergar coisas que normalmente não eram notadas — Se eu tivesse o número de um policial, eu iria ligar direto também.
Dylan sorriu. Corey ia ficar bastante desapontado em ter perdido essa oportunidade de ir a IMPERIUM. Dylan não entendia muito bem, mas aparentemente, a nova CEO era sua irmã, que o odiava. Ele parou para pensar. L... Era um código? Ou a primeira letra de algum nome?
— Por que você está parado aí? — Dylan levantou o rosto e deu de cara com profundos olhos castanhos — Estamos sem pessoal. Vamos. — Carson disse, terminando de colocar seu casaco.
Dylan piscou. Carson tinha falado com ele ou estava sonhando?
— Estava esperando um momento que não estivesse tão atarefado — Carson disse — Mas já que temos uma oportunidade de trabalhar juntos, vamos aproveitá-la.
Oportunidade?
Dylan acompanhou Ryker e Carson em direção a saída. Ryker berrava pelos comunicadores mandando as viaturas disponíveis para a IMPERIUM.
— Bryon — Dylan encarou as costas largas do homem a sua frente, surpreso, ao ouvi-lo dizer o primeiro nome de seu professor — Deu-me seu contato — Carson pausou, aproximando-se de Dylan e disse com o tom baixo — Após eu ver seu histórico de busca no computador de Bryon... Você sabia que deixou um rastro ao hackear o computador dele?
Dylan olhou surpreso, mantendo os passos constantes. Então era por isso? Ele colocou uma máscara de desinteresse.
— Então por que estou aqui e não sendo interrogado pelo Sr. Fox? — Dylan perguntou.
— Porque você me deixou curioso — Carson continuou com tom calmo e predatório — Vamos conversar sobre isso em outro momento — Ele se afastou de Dylan, olhando para alguns policiais se aproximando.
Dylan estava tenso, mas sua expressão continuava contida.
Como ele soubera?
Alguém mais sabia?
A porta automática da delegacia se abriu, respigando inúmeros pingos d'água em suas roupas. A chuva caia fortemente, criando uma névoa baixa sob o chão alagado.
Dylan sentiu o frio, tentando ultrapassar seu casaco e roupas.
Definitivamente um ótimo dia para que surgisse um corpo. Pensou Dylan suspirando.
ELLEANOR
Pinga.
Pinga.
Pinga.
A chuva não parava parecia querer varrer tudo com sua imensidão. Eu podia senti-la sobre mim, mesmo que tivesse protegida debaixo de dezenas de andares do prédio.
Pinga...
Pinga...
Minha mão caiu na minha lateral, sem forças, segurando penosamente o celular em minha mão.
Não fora Corey quem atendeu... mas eu não me importava.
Eu senti um pequeno alívio. Cers iria odiar ver Corey aqui, mesmo que fosse a trabalho.
Cers ao menos ainda estava no prédio?
Pinga... tão lentamente.
Pinga... tão calmamente.
...tão diferente da chuva torrencial que batia nas janelas embaçadas.
Eu encarei a local a minha frente, sentindo minha garganta seca.
— Elle-
— Vá a recepção liberar a entrada dos policiais — Disse interrompendo Samantha — Não ligue. Vá pessoalmente e traga-os pelas escadas, com o máximo possível de discrição.
Havia poucas pessoas no prédio, talvez eles não notassem.
Ouvi sirene ao longe. Tencionei o maxilar.
— E mande eles desligarem essas malditas sirenes.
— Elleanor, eles são policiais. — Samantha disse, tentando soar calma — Não acho que vão ligar muito com o que tenho a dizer.
Fitei-a com o olhar pétreo. Aquilo não deveria está acontecendo.
Eu... sentia a respiração presa.
— Fale para eles — Disse — Que se eles não quiserem ver a investigação deles interferida pela mídia amanhã, para eles fazerem o que eu estou dizendo.
Era uma notícia muito boa para ser exposta.
Além de corruptos, assassinos...
Eu podia ver as manchetes.
— Tudo bem — Samantha murmurou e saiu da sala.
Pinga.
Pinga.
Pinga.
O cheiro e a visão, eram como se eu estivesse em um açougue, no meio de um abate... Não, pior... Era como se o abate tivesse se estendido por horas ou dias... Talvez. O cheiro piorando e se condensando naquela sala, o sangue coagulado, sobre a mesa, parede e carpete...
Olhei em direção os braços estendidos lateralmente, com os cotovelos travados sob os baços da cadeira, que escorria sangue e pingava no carpete, cada vez mais lento. Gota por gota. Forcei meu olhar para cima, assimilando a cena.
Tentei mostrar-me calma ao encarar novamente aquele pescoço encharcado de sangue e... aberto, tão aberto e trucidado, que se eu balançasse aquela cadeira, eu tinha certeza que a cabeça rolaria pelo chão.
Pisquei um... duas... três... vezes. Minha respiração se tornou rarefeita...
De repente eu não estava mais em uma sala de escritório extremamente destruída... Eu estava em uma floresta, quente, muito quente... com o crepitar do casarão, quando o fogo destruía tudo e... todos.
Volte. Minha mente divagou, persistindo na ilusão do passado. O barulho de gritos ficou mais altos.
Volte... Agora! Forcei a respiração sobre meus pulmões em fogo.
Volte! De repente eu estava na sala novamente. De frente para aquele corpo, tão absurdamente torturado.
Eu não era muito religiosa, mas, ao olhar o estado daquele corpo, que um dia fora uma pessoa, me sentia impelida para ao menos prestar algum respeito. Então repeti as palavras que um dia, alguém proferira no enterro dos meus pais.
— Descanse em paz — Sussurrei — Sr. Powell. — E continuei lembrando de parte de alguma antiga oração pelos falecidos, que me foi ensinado a há muito tempo atrás — Que a sua alma nada sofra — Minha voz falhava conforme eu continuava, não conseguindo misturar diferenciar minha voz do silêncio — Perdoai-lhes os pecados, para que alcancem junto a Vós, a vida imortal no Reino eterno.
Talvez sua crença fosse diferente, talvez aquilo não fosse acalentar sua alma, mas aquela oração, era a única coisa que eu podia o oferecer.
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