Resplendor

4 Torna-se a mentira


DEZESSETE ANOS ANTES

O autocontrole de Callun Powell estava por um fio. Sr. Balwin havia aparecido de última hora com algum assunto urgente para falar com o presidente da AUTENTI. Para a infelicidade do analista, o presidente não estava. Sobrando para Callun ter de resolver, seja lá qual fosse o problema.

Porque sempre havia um problema, quando a situação envolvia Sr. Balwin.

— Ele não está — Callun disse tentando se livrar do homem a sua frente o mais rápido possível. Ele estava ciente dos negócios que Sr. Balwin estava fazendo com o presidente e fora ordenado a ajudar no que fosse necessário... mas não as nove horas da noite. — Volte amanhã.

Callun já estava a meio passo da porta, quando o convidado não desejado entrou esbaforido e sentou-se na primeira poltrona que viu. A única coisa que Callun podia fazer era dar meia volta e tentar não ceder ao seu temperamento. Ele nem se deu ao trabalho de reacender as lâmpadas do escritório.

— Houve um contratempo — Sr. Balwin disse sem enrolar. Sua forte figura se misturando as sombras da sala escura.

Claro que teve. Callun suspirou.

Pela primeira vez depois de anos trabalhando naquela empresa, Callun havia conseguido sua promoção, passando de um simples auxiliar para analista chefe da equipe escolhida a dedo pelo presidente. Porém, não imaginava que teria de lidar com pessoas como o Sr. Balwin. O tipo que era descuidado demais e nunca aceitava "não" como resposta.

Ele era um risco.

— Amanhã irá sair uma nota da imprensa, que provavelmente — Sr. Balwin continuou — pode interferir nos nossos negócios.

Callun estava cansado, depois de um longo dia “ajustando” as finanças para que passassem na fiscalização da empresa IMPERIUM, ele só queria ir para casa. Mas, tinha aparecido mais essa para ele lidar.

— Amanhã não é um bom dia para que surja contratempos — Callun disse, sentindo sua voz ficar mais aguda e estridente — Amanhã a IMPERIUM irá associar-se a nós. E você sabe de nossa situação. Precisamos que isso der certo!

— Irá — Sr. Balwin disse, aparentemente se baseando em sua própria esperança. Porque os fatos, Callun sabia, não estavam favoráveis. — Porém as eleições a senador serão no final desse ano... e não acho que uma nota contra mim, pode ser bom para sua empresa.

— Que informação é essa? — Callun por fim cedeu.

— Um suposto processo feito por minha ex-mulher.

Suposto? Callun sabia que isso significava.

— O que diabos sua ex-mulher teria cont-... quer saber? Não quero saber. — Callun respirou fundo, poupando-se da dor de cabeça tão tarde da noite — Suponho que você quer que desacreditemos as acusações desse processo. — Ele já estava acostumado com esses pedidos vindo de Sr. Balwin.

— Sim — Sr. Balwin falou — Com as eleições chegando não posso permitir perder minha popularidade por causa de problemas que não existem.

Callun tinha quase certeza que existia.

— Podemos desacreditá-la na mídia — Callun disse — Mas se ela apresentar provas concretas das acusações, não poderemos fazer nada.

— Não se preocupe — Sr. Balwin falou — Só a desacredite, tenho um plano com o presidente da empresa para atrair os olhares da impressa para outro lugar.

Callun colocou a mão na nuca, massageando-a levemente. Ele não gostava do Sr. Balwin, sua presença em si o fazia perder a cabeça... mas tinha de considerar o lucro que ele trazia a empresa, desde que cuidássemos dos holofotes para ele.

— Acredito que esse lugar seja as terras na Nova Itália — Callun disse — O que vocês têm planejado para aquele lugar?

— Um modo de ganhar mais eleitores para a minha causa.

Qual causa? Mais dinheiro para sua conta? Callun pensou, mas sinceramente não se importava. Ele só estava curioso de como aquilo ocorria. Sempre que tinha alguma obra, sobrava dinheiro do total direcionado para a construção. Os sócios não se importavam, já que usufruíam do dinheiro e influência que Sr. Balwin oferecia.

— Vou ligar para meus contatos — Callun disse — Se tivermos sorte, a única coisa que veremos amanhã será elogios sobre suas ações como candidato a senador.

— Sabia que vocês podiam resolver isso. — Sr. Balwin se levantou — Boa sorte com a IMPERIUM amanhã.

Callun sorriu levemente por educação.

— Nos vemos daqui há uns dias — Sr. Balwin disse saindo da sala.

Sim... mas, definitivamente, não irá vir nenhum entusiasmo vindo desse lado da mesa em revê-lo.

DIAS ATUAIS

Merda!

Merda!

Merda!

Cruzei as pernas e coloquei minhas mãos entrelaçadas sob o joelho, escondendo o tremor delas debaixo da mesa.

Encarei com neutralidade as duas pessoas sentadas à minha frente, mesmo que estivesse suando frio.

Um deles era o homem que estava na recepção da empresa com Corey há alguns dias. Seus cabelos castanhos ainda tinham um ar rebelde, e seus olhos cor de mel, um ar cansado. O outro era mais velho, com cabelos extremamente grisalhos, seus olhos castanhos eram mais vivos, mas suas roupas totalmente amarrotadas e manchadas, mostrava ainda mais descaso.

Sorri cinicamente na direção deles. Eles estavam sentados relaxadamente, como se aquela sala fosse uma extensão deles.

...minha mente amedrontada montou essa fotografia dentro da minha cabeça.

Uma sala cor de marfim... deserta, exceto pela mesa e cadeiras no meio do local, ocupadas por dois homens em um lado e uma pessoa do outro.

Obra O interrogado.

EU.

A sala poderia ser um local tranquilo... a cor, a temperatura... tudo foi feito para que não houvesse distrações. Um lugar de concentração... mas mesmo assim, aquele centro, as cadeiras, pareciam um buraco negro pronto pra te sugar, me sugar.

... fazia muito, muito tempo que eu me sentia tão agitada.

— Você pode repetir a pergunta?— Falei.

Estávamos nos encarando há uns cinco minutos, desde que perguntaram algo totalmente incompreensível para minha mente a mil por hora.

Silêncio.

Revirei meus olhos, quando notei que o mais velho deles parecia entediado, com seus lábios tensos em linha reta... o detetive, eu suponha. Seus olhos focavam em mim, mas não enxergavam a pessoa, mas as características e sinais que eu carregava. Definitivamente, um detetive. Segurei a vontade de revirar os olhos novamente. O amigo de Corey... Dylan, se eu não me engano... tinha um desinteresse fingido enquanto olhava para o teto, mas eu podia sentir seu olhar furtivo em minha direção.

— Eu perguntei o seu nome completo — O mais velho fixou em meus olhos — Você está bem? — Ele continuou depois de uma pausa.

Olhei para meus sapatos ainda com sangue por pisar naquele carpete. A manga da minha blusa branca com manchas vermelhas, que sujou quando peguei do chão os papeis que deixei cair, ao entrar naquela sala.

Sangue.

Sangue.

— Sim — disse, forçando um sorriso — Estou bem.

Continuamos nos encarando.

— Então — Ele falou de novo — Seu nome?

Suspeitei que aquilo fosse algum tipo de oficialidade.

— Ah — Tentei me acalmar. Por que eu estava depondo? Essas coisas não deveria ser depois. Depois de sei lá... Um boa noite de sono? — Elleanor Fraser Campbell.

— Disseram-me que foi você que nos ligou ao encontrar o corpo do Sr. Powell — O grisalho disse, espiando o canto superior da sala atrás de mim, onde estava a câmera. Foi a primeira coisa que notei quando entrei.

— Ellean-... O “L” faz sentido agora — Dylan murmurou. Franzi o rosto em sua direção.

— De fato. — O outro concordou. Engoli em seco.

— Posso saber por que fui chamada para a delegacia? — Perguntei, atraindo a atenção dos dois ao mesmo tempo pela primeira vez.

— Ryker não explicou para você? — Dylan perguntou.

— Quem é Ryker? — Perguntei.

— O policial que a trouxe — Ele respondeu.

— Ele falou algo sobre arrancar informações — Disse, ao me lembrar do policial.

Um homem grande, moreno e meio calvo, chamou-me e disse para entrar na viatura. Estranhei o fato de somente eu, ter sido convocada... mas era um policial... Então, aqui estou...

Pensando bem, eu fiz uma coisa idiota, deveria ter exigido respostas.

— Desculpe meu amigo pela falta de tato — O detetive falou — Meu nome é Carson Barret. Sou o detetive, que provavelmente vai ser responsável pela investigação — Ele suspirou. Ele suspirou?! — Esse aqui é o promotor Dylan Hale, que está me dando suporte — Ele disse apontando para o amigo de Corey — Só queria fazer algumas perguntas. Não é um depoimento... é mais um colhimento de informações.

— Informações sobre o que? — Perguntei franzindo a testa.

— Sobre o Sr. Powell — Carson, o detetive, falou.

Olhei atentamente para Carson, depois para Dylan. Os dois me encaravam concentrados.

Isso é péssimo!!!!!

Minha mente arrastou-me para os arquivos que S. Powell “pedia” para que eu fizesse modificações.

— Sr. Barret, não sei se sou a pessoa mais indicada para falar sobre ele — Disse e me dei certo crédito por minha voz não tremer. — Talvez devesse falar com a esposa e filhos dele.

— Nós vamos — Carson sorriu em minha direção, mas seu rosto ainda se mostrava entediado — Porém, para verificarmos o relacionamento dele no trabalho, devemos direcionar perguntas para outro lugar.

— Ryker conversou com a CEO, ela indicou você para nos dar informações, já que trabalhou como assistente financeiro por cinco anos — Dylan falou.

Arqueei as sobrancelhas.

Eu tive um breve encontro com Cers quando ia ao escritório pegar minha bolsa. A primeira coisa que ela fez ao me ver, foi estender um pen drive em minha direção.

—O que é isso?Perguntei para ela na mesma hora.

— Shhhh — Ela me encarou — Muitos olhos e ouvidos.— Cers segurou minha mão abaixada levemente — Guarde-o bem. — E então se afastou, antes qualquer um notasse aquela mínima conversa.

Cers...

... sua idiota.

Se a polícia desconfiasse de algo, não ia ser difícil eles encontrassem algo que me comprometesse.

Tinha de arrodear e maquiar o máximo possível... Se descobrissem o dinheiro que ajudei a ser desviado, mesmo que fosse para obter informações, os olhares iam se voltar todos para mim... Eu poderia até mesmo, ser suspeita de ter matado Sr. Powell.

Merda.

Refleti um instante, percebendo o que estava acontecendo ali.

Droga!

Cers... na verdade... tinha feito uma jogada inteligente. Se alguém sem conhecimento completo da situação da IMPERIUM desse com a língua nos dentes, a polícia ia cair em cima investigando.

Oh, céus. Eu estava tão ferrada.

— O que gostaria saber? — Falei — Vamos começar, por que provavelmente terei de aparecer de manhã bem cedo na empresa, devido... — continuei mais baixo — a esta situação.

Visualizei o sangue.

Respirei fundo.

— Srta. Campbell não se preocupe, vai ser rápido. — Carson falou.

— Elleanor — Disse cansada e um pouco mais calma por visualizar o plano de Cers para mim — Só Elleanor é suficiente.

— Tudo bem — O detetive falou — Então, pode nos chamar pelo primeiro nome também. — Dylan franziu o rosto — Bom saber que você é uma pessoa prática. Terminaremos isso rapidamente — Ele realmente parecia ansioso para isso.

Confirmei com cabeça, forçando um sorriso.

Eu só queria ir para casa e banhar...

Sangue.

Sangue.

— Vamos começar — Carson disse. Eu me preparei para responder a velocidade da luz para ir embora — Pode começar nos dizendo como você encontrou o corpo do Sr. Powell? — Carson perguntou, abrindo sua caderneta.

— Eu fui entregar o relatório diário para ele assinar — Disse, observando Carson escrever na folha sem tirar os olhos de mim. Olhei com uma calma fingida em sua direção.

— Tão tarde da noite? — Ele questionou.

— Você é um servidor público — Falei, tentando decifrar o que Carson estava escrevendo, mas a letra dele não era nada legível. Dylan alternava seus olhares entre mim e as anotações do detetive. As vezes o amigo de Corey franzia as sobrancelhas. Espero que seja porque não está entendendo essa maldita escrita. — Deve entender o que é viver para o trabalho. Parece que o serviço nunca acaba.

Os dois homens concordaram quase inconscientemente em sincronia.

— Qual foi a última vez que você olhou o Sr. Powell? — Carson continuou ao ver minha sobrancelha arqueada — Vivo.

— Duas horas antes — Respondi — Quando ele foi na minha mesa e falou que eu estava com o relatório atrasado.

Por um momento só se ouviu o rabiscar firme da caneta. Tentei não parecer apreensiva.

— Você costuma atrasar a entrega de relatórios? — Carson perguntou. Olhei para ele cautelosamente. Por que ele estava perguntando algo sobre mim?

— Pelo menos três vezes na semana — falei — todos os assistentes no financeiro ficam até tarde trabalhando no relatório.

— Por quê? — Carson interrogou com um ar inocente no rosto.

Porque nós temos de direcionar algumas verbas para lugares ainda não totalmente conhecidos.

Digo, eu tinha. Não sei nada sobre os outros.

Cada um dos quatros assistentes financeiros do Sr. Powell era responsável por uma área financeira. Eu normalmente fazia os pagamentos. Os outros se dividiam em compras, balanceamento, cobrança e planejamento.

Eu sabia que tinha pelo menos mais alguma pessoa no financeiro que fazia o serviço sujo de Callun Powell... mas era tão discreto, que mesmo quando notava as discrepâncias, eu não sabia dizer quem tinha feito as alterações.

— Porque o Sr. Powell nos dava inúmeras tarefas. — disse.

— Então você diria que o Sr. Powell era negligente? — Callun perguntou.

— Não ex- — O detetive me interrompeu antes que eu terminasse de responder.

— Ou talvez irresponsável? Ou diria que sua equipe não dava a devida importância para o serviço? Você pesaria por que lado? — Carson começou a jogar palavras e mais palavras, como se tivesse refletindo consigo mesmo — A não ser que você fechasse os olhos para as coisas ao seu redor. Não seria incomum, quando a pessoa se sente intimidada. Os funcionários com ligação direta com Sr. Powell tinham medo dele? Isso daria um aval muito grande para alguém da posição dele.

— O que você está tentando dizer — Falei, sentindo-me confusa com as inúmeras perguntas que ele tinha feito. Não sabia se ele estava só refletindo ou ele realmente queria uma resposta.

— Ah, me desculpe. — Carson parecia ter percebido o que acabara de fazer — Estou tentando estabelecer uma conexão de causa e efeito — O detetive soltou a caneta em cima da mesa — Sr. Powell tinha pré-requisitos e experiencia para está pelo menos dois cargos acima na hierarquia empresarial, mas ele foi supervisor da IMPERIUM por dez anos. — Ele pausou como se esperasse que eu dissesse algo, continuei calada confirmando meu medo. Eu estava ferrada. — Isso faz sentido para você?

Sim.

— Não — Ouvi minha voz sair — Eu sou uma das funcionárias mais antigas na equipe dele, entrei há cinco anos, mas nunca ouvi um comentário sobre o motivo de ele não ter sido promovido.

Eu havia notado duas coisas:

Esse detetive parecia mais envolvido na investigação do que sua expressão de desinteresse deixava transparecer.

Mesmo com esse pequeno interrogatório fosse em cima da hora, Carson tinha informações sobre fatos da vida do Sr. Powell, então eu não deveria nem me dar o trabalho de fingir ignorância.

— Então provavelmente você é a pessoa mais indicada para estabelecer essa conexão. — Carson disse — Devo encontrar alguma entre a família, trabalho e o individual do Sr. Powell. Um homem não permanece tão acomodado em uma posição a não ser que haja um motivo.

Dinheiro?

Balancei a cabeça em confirmação, com um sorriso forçado.

Carson sorriu calorosamente de volta.

Isso era estranho.

Encarei Carson, fazendo a mesma coisa que ele fazia, procurei por sinais, trejeitos que ele poderia está liberando. A verdade é que eu podia praticamente sentir sua mente encaixando teoria e perguntas não respondidas, tudo rapidamente, uma proeza adquirida dos seus anos de experiência, suspeitei. Sua posição relaxada não enganava, ainda mais quando balançava levemente sua mão sobre a mesa. Um escape de seu corpo e mente agitada.

— Você saberia dizer se o Sr. Powell poderia ter um relacionamento conturbado com alguém da empresa? — Dylan perguntou assustando-me. Eu estava tão focada em tentar descobrir o que passava dentro da cabeça de Carson, que tinha esquecido da presença do promotor. Olhei em sua direção, ele segurava o caderno do detetive.

— Você é muito direto, Sr. Hale — Carson comentou — Você vai acabar assustando nossa ajudante.

Olha quem falava, o cara que a poucos instantes murmurava coisa com coisa.

— Sim — Respondi lentamente como se tivesse pisando em ovos — Ele tinha uma personalidade difícil.

Silêncio.

— Poderia falar um pouco mais da pessoa que tinha uma relação conturbada com o seu chefe... Ex-chefe. — Dylan se corrigiu, virando seus olhos castanhos bem claros em minha direção.

Encarei-o arqueando as sobrancelhas. Fechei os olhos respirando fundo.

Seria mais fácil se ele perguntasse se o Sr. Powell tinha amigos naquela empresa. Era simples a resposta. Zero amigos. A única relação relativamente boa que ele tinha, era com o antigo CEO.

... E meu sonho de ir embora logo sai flutuando para bem longe...

Eu estava, em parte, aliviada por ele não ter perguntado sobre o Sr. Powell e sua “influência” nas finanças da empresa. Por outra, tensa, porque eu ainda estava naquela sala e cada minuto que passava era uma oportunidade para que eles fizessem a pergunta correta para me desequilibrar.

Olhei debochadamente para o detetive, quando percebi o que estava fazendo, tentei controlar minhas ações. EU não podia parecer convencia para essas pessoas.

Peguei a liga que estava no meu pulso e prendi meu cabelo no alto.

— Se Sr. Powell tinha inimigos? Pode dizer que sim. — Sorri, sentindo meu estomago revirar. Eu tinha de ganhar tempo — Todos naquela empresa têm algo contra o Sr. Powell. Ele era uma pessoa impossível. — Desviei o olhar dois homens que me encarava — Para os mais antigos na empresa, um traidor. Ele veio de outra empresa e trouxe muitas informações da concorrência. Para os mais novos, um tirano. Pelo "grande amor" que ele esbanjava no serviço.

Se eu falasse bastante sobre assuntos seguros a respeito do Sr. Callun. Talvez eles me mandassem para casa depois de uma meia hora. E não existia assunto mais amplo que as diversas brigas ou ofensas que o supervisor financeiro trocava com os funcionários.

Silêncio.

— Onde ele trabalhava anteriormente? — Dylan perguntou.

— AUTENTI — respondi — Mas isso foi há uns dez anos... — E eu percebi que falei o que não devia.

O olhar e expressão entediada de Carson fora embora. Agora, ele me olhava realmente como se enxergasse uma pessoa.

— Você disse AUTENTI? — Carson disse.

— Sim — Falei, engolindo em seco. Carson afastou o corpo da mesa e cruzou os braços.

— Interessante — Ele murmurou.

Eu observei a feição de Carson ficar cada vez mais distante, ficando perdido em seus próprios pensamentos. Murmurando sozinho. Nada audível para mim.

— Você poderia, então, entrar em detalhes e como era o relacionamento do Sr. Powell com essas pessoas aqui — Voltei-me para Dylan. Ele empurrava em minha direção a caderneta com alguns nomes. Passei os olhos nos primeiros da lista.

Nathy Enders… Aiden Knight… Elleanor Campbell… Amy Andin… Samantha Irving…

As pessoas que estavam no prédio trabalhando no momento que eu encontrei o corpo.

Olhei de esguelha para o detetive, ele estava ponderando algo invisível com seus dedos dedilhando o ar. Dylan parecia alheio a Carson, com seu ar de cansado cada vez mais profundo.

Então respirei fundo e comecei a falar sobre as interações nada saudáveis do meu ex-chefe, afastando o máximo possível de assuntos que eu achava perigoso.

Eles perguntaram também sobre escândalos pessoais de alguns dos funcionários, como o caso do Sr. Tony com sua secretária, que o Sr. Powell teve o desprazer de descobrir, mas que de alguma forma não tinha vazado para muitas pessoas, inclusive a esposa do Sr. Tony continuava sem saber de nada.

Ou ainda, do nepotismo descarado da gerente de vendas, que colocou sua filha na coordenação sem nunca ter trabalhado em toda sua vida.

E vários outros, enchi com o máximo de detalhes que eu conseguia lembrar. Eles provavelmente iam investigar mais, porém quanto menos informação concreta eu oferecesse, as chances de que suas atenções fossem atraídas para as finanças da IMPERIUM diminuía.

Ou assim eu achava.

O banheiro estava totalmente escondido pela névoa que saia da água morna do chuveiro. Sentia a água batendo em meu corpo, mas não sabia se ela estava na temperatura certa ou não. Poderia está me queimando e eu provavelmente não sentiria.

O detetive se manteve inquieto no resto do interrogatório, perguntando com neutralidade e fazendo algumas notas. Dylan com seu jeito estafado parecia mais envolvido nas perguntas que Carson.

Ele ficara assim após ouvir a o nome AUTENTI, a empresa concorrente da IMPERIUM. O que para mim não fazia sentido algum.

Fiquei feliz por pelo menos não encontrar Corey na delegacia, seja lá onde ele estivesse, eu agradeci por não o ver. Não queria nem imaginar o que ele faria para falar diretamente com Cers. Porque era certeza que ele faria isso. Corey tinha esse desejo irresoluto de tentar estar ao redor dela... mesmo que tivesse uma ordem de restrição... Para um policial Corey desobedecia bastante certas coisas.

Ouvi ao longe uma sintonia cheia de notas sinuosas e lentas. Eu conhecia aquela música há muito tempo e nunca cansava dela... Tinha um efeito tão relaxante.

Uma canção sobre uma bela jovem perdida em seus sonhos e que tinha medo de acordar. Por que ela sabia que a realidade não era tão boa assim. A jovem sabia que se iludia, mas a única forma de colocar cor em seu mundo era assim.

Se você estudasse a fundo a música, notava que não era um sonho, era uma realidade paralela... Uma possibilidade, se tudo tivesse sido diferente.

Vi mão leves tocando o piano desgastado do passado, notas rápidas e precisas, guiando o som pelas teclas duras e manchadas. Um sorriso ou outro escapado pelo som, as vezes desafinado. Fechei meus olhos. Inspirei profundamente o ar, tentando sentir o cheiro de ar livre das minhas lembranças. Fui invadida por um ar morno e úmido, parecia que eu estava me afogando em uma piscina de chá quente.

Abri meus olhos, a música instrumental ainda tocava ao meu redor. Se eu não me engano essa era a parte que a moça da história se deparava com grande desafio, a incapacidade de voltar para sua ilusão após ela espiar sua realidade brutal.

Abri o box do banheiro, me enrolei na toalha estava pendurada e andei em direção a porta, sem me importar com a poça de água que deixava com minhas passadas. Caminhei até a sala e abri minha bolsa em cima da mesa. Vasculhei-a, até que olhei algo brilhante. Então, peguei meu celular e encarei a tela.

A música, agora, mais alta, não era suficiente para acalmar meus nervos quando eu olhei quem ligava.

— Alô — Falei com a voz tremula, colocando o celular lentamente no ouvido. Comprimindo meus movimentos com a tentativa falha de me manter calma.

— Elleanor?! — A voz conhecida disse exaltada do outro lado da linha — Oh, céus! Finalmente consegui falar com você.

— O que aconteceu? — Perguntei com medo da resposta.

— Você precisa vir agora para o hospital. — A enfermeira disse. Engoli em seco e andei rapidamente para o quarto.

— Ela está bem? — Perguntei, enquanto pegava as primeiras roupas que achei e joguei na cama. Uma blusa preta de manga comprida e uma calça caqui clara. Não permitindo que minha mente imaginasse coisas.

— Eu sinto muito, querida — Ela disse e eu tinha certeza que sentia — Mas eu acho que sua irmã não irá passa dessa noite... Você precisa vir se despedir.