Resplendor
1 Prólogo - Seu próprio universo

O mundo pareceu parar...
Mas ele já não estava parado antes?
Dylan mal sabia como havia chegado naquela cadeira. Não sabia nem em que corredor estava.
Era um local mais silencioso. Isso ele notara. Com os inúmeros conhecidos prestando condolências, o andar em que estava antes se preencheu em um piscar de olhos. De repente, ele não conseguia mais respirar e precisava fugir... só por um momento... Por um segundo.
Sem que palavras vazias de condolências o seguissem como uma cruz. Ele já estava saturado em menos de quatro horas que tudo ocorrera, como iria lidar com isso por mais um dia que seguia o funeral?
Dylan apoiou sua testa em suas mãos e fechou os olhos. Cansado. Era a palavra que o descrevia agora, mas também havia aquele outro sentimento, que o encarava esperando uma brecha para de libertar. Aquele sentimento, que não conseguia identificar...
Ele abriu os olhos, assustando-se ao notar que não estava sozinho. Não demostrou reação, já que seu corpo parecia esgotado, mas seu coração estava levemente acelerado.
Dylan não ouvira passos ou nenhum barulho que denunciasse uma pessoa a sua frente, mesmo assim, ele encarava um par de saltos avermelhados, parcialmente cobertos pelo vestido escuro.
— Que inconveniente — Dylan ouvira uma voz sussurrante — Alguém descobriu meu esconderijo — Ele não sabia se a intenção da pessoa era fazê-lo escutar ou simplesmente gostava de falar consigo mesmo. Continuou ouvindo murmúrios distintos, que não se dera o trabalho de compreender.
Silêncio novamente.
Ele piscou cético com o fato de não a ter notado se aproximando.
Os saltos sumiram.
Ele piscou novamente... Encarou o vazio.
Havia uma pessoa ali, certo?
Dylan piscou rapidamente, com esperança de fazer sua mente trabalhar mais rápido.
Ainda olhava para o nada.
Dessa vez ele reagiu... Definitivamente não poderia estar perdendo a cabeça.
O homem se sentou ereto, procurando ao redor por qualquer sinal da pessoa que vira. O local estava um breu, com uma luz pálida vindo do luar pelas janelas. Sendo a primeira vez que prestava atenção no local.
A pessoa não estava na sua linha de visão.
Dylan sentiu algo gelado pingando em sua nuca. Ele olhou para cima e viu que uma mulher, de cabelos negros curtos, segurava duas bebidas e empurrava uma em sua direção. Ele pegou, sem entender muito bem o que estava acontecendo.
Ela se sentara ao seu lado sem muita cerimonia.
Dylan a avaliou. O trabalho que fazia o levava a fazer isso sempre que surgia algo suspeito.
Ela era pequena, sua postura mostrava-se bem a vontade mesmo que estivesse na presença de um estranho. Seus cabelos estavam perfeitamente alinhados, suas roupas escuras, eram extravagantes, tinha um decote profundo tanto no busto, quanto nas costas, com o comprimento do seu vestido indo até o chão. Além, de uma fenda até o início da coxa, onde tinha um gigante laço caído, que projetava-se ao redor de seu corpo até a cintura. Um vestido de gala. Ele não conseguia distinguir muito sua fisionomia com a pouca luz... Mas, até aquele momento, ela parecia inofensiva.
— Foi alguém da sua família ou um amigo próximo? — Ela perguntou com a voz rouca, enquanto bebia ao que parecia ser um suco.
Ele podia ignorar. Tinha ido ali para ficar sozinho em seus pensamentos, porém ele percebeu que o peso em seu pulmão havia sumido. Provavelmente do susto que levara quando a mulher surgira.
— Minha mãe — ele respondeu, abrindo a bebida que recebera, um refrigerante cafeinado. Bem, ela escolheu bem. Ia passar a noite acordado mesmo. — E você?
— Alguém que já estava praticamente morto — Ela disse — Um... fantasma ambulante — Continuou murmurando.
— Ela ficou doente por muito tempo? — Dylan perguntara se identificando um pouco com a história.
— Não.
Dylan esperou que continuasse. A pausa havia se estendido a minutos. Ele estava quase a perguntar o que ela queria dizer com isso, quando ela falou.
— Foi encontrado o corpo dela ontem, mas já sabíamos que tinha morrido. Já havíamos prestado todas as cerimônias possíveis há anos. — Ela cruzou a perna — E agora que foi encontrado os restos dela, fizemos novamente.
Silêncio.
Era como perder a pessoa duas vezes. Dylan pensara, porém a mulher parecia tranquila, olhando para o vazio do corredor como se já estivesse acostumada a isso.
— Você está com o rosto muito tenso — Dylan se virou na direção da mulher direção.
— Eu-
— Você precisa esconder melhor a sua raiva. — Ela continuou, como se tivesse lendo um livro entediante — As pessoas não irão entender esse tipo de sentimento, elas nunca entendem.
Raiva, o que ele estava sentindo era raiva? Definitivamente estava triste, mas algo o impedia de sentir seu luto. Ou a raiva era parte do luto?
Ele avaliou novamente a pessoa ao seu lado. Não captara nada que pudesse denunciar como ela soubera daquilo.
— Como você sabia? — Ele perguntou, suspirando, já cansado de tomar suposições.
Ele ouvira uma risada baixa ao seu lado.
— Tenho muita experiência nessa área — Ela disse.
— O que? — Dylan a olhou com certo interesse — Você já passou por isso?
— Algo do tipo — Ela respondera sem acrescentar mais nada.
Silêncio.
— Eu não sei se estou com raiva... — Dylan começara. Ele precisava entender aquela situação. Nada melhor que uma completa estranha, certo? Definitivamente não poderia falar com ninguém da família — Só- — Dylan não continuara. Só o que?
— Decepcionado? — Ela murmurou.
Silêncio.
Aquela conversa era cheia de furos e pausas. Mas estava fluindo mais do que as que tivera nas últimas horas, que se resumia a "Eu sinto muito" e "Obrigado".
Dylan não conseguia tirar os olhos dela. Seja porque seu olhar aparentava ser mais velho que ela própria ou porque ele queria compreender aquele sentimento.
— Quando eu era mais jovem, minha mãe entrou em depressão — Ela disse de repente — fiquei com raiva por ela ter se permitido definhar, quando estávamos naquilo juntas. Quando deveríamos permanecer unidas.
— Você ficou com raiva de ela ter ficado doente? — Dylan perguntou cético. Ele não sabia de onde a sua raiva vinha, mas definitivamente não era por algo tão variável.
— Não por isso — Ela bebeu um gole de sua bebida e franziu o rosto, enquanto pensava — Eu fiquei decepcionada, porque ela não me deu oportunidade para me despedir. Eu merecia ao menos aquilo.
Despedir...
Dylan e finalmente pareceu entender algo sobre aquele momento. Ele se despedira, certo? Quer dizer não com palavras, mas já estávamos todos se preparando para dizer adeus, quando souberam que não havia cura. Dizer adeus... Não era para isso que ele estava fazendo ali.
— Desculpe-me — Ela falou. Dylan virou em sua direção, ela o encarava preocupada — Não queria fazê-lo se preocupar com isso. — A mulher olhou para relógio em seu pulso e depois virou-se para as janelas a frente deles — Isso é uma experiencia minha, talvez para você seja diferente... Só queria avisá-lo que algumas pessoas não vão ser compreensivas a respeito de você não está se banhando em lágrimas como todos em seu pequeno universo.
— Isso é um coisa ruim? — Ele falara ciente que estava se enganando — talvez somos mais fortes que a maioria.
— Não forte, Invasor de esconderijos — A mulher disse, levantando-se — Mas, mais machucados, mais feridos. Talvez sejamos covardes, por nos entregarmos a sentimentos passageiros como raiva, mágoa... Mas pensando bem, do que adianta tudo isso, a pessoa já está morta mesmo.
Morte... Dylan ainda não entendia a extensão daquela palavra. Era tão perpétuo, quanto a palavra infinito. Algo sem volta, para sempre dentro da mortalidade.
— Bem, eu tenho de ir — Ela falou — Se eu demorar muito, daqui a pouco vão vasculhar esse prédio atrás de mim... Eu sempre venho me esconder aqui, essa parte não é mais usada.
— Quantas vezes você já veio aqui? — Dylan perguntou, notando seu olhar gélido banhado pelo luar.
Silêncio.
— Aqui é tão mais bonito durante o pôr do sol... — Ela falou consigo mesma, como se não tivesse escutado sua pergunta.
Ela começou a se afastar lentamente, mas Dylan não conseguia ouvir os sons de seus passos. Parecia que pisava em pluma.
— Qual o seu nome? — Dylan perguntou antes que ela pudesse sumir de sua vista.
A mulher parou e virou-se lentamente, com o rosto franzindo, como se decidisse dizer seu nome ou não. Por fim ela sorriu.
— Angel — Ela respondera — Angel Yurievna.
Angel Yurievna? Era um sobrenome incomum, mas Dylan tinha quase certeza que já o ouvira em algum lugar. Onde?
— Dylan Hale — ele disse, por fim. Toda aquela conversa era estranha. Conversaram ainda há pouco sem saberem suas identidades e ao despedirem-se, estavam dizendo seus nomes.
Ela continuou a andar em silêncio sumindo pelas sombras. Deixando Dylan a imaginar se tudo aquilo não fora só sua imaginação.
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