Respiro Me
9 Scia
Notas iniciais
Minha cabeça doía incessantemente – não no sentido literal, mas todos os acontecimentos daquele dia me assolaram. Espantei-me quando vi Edward adentrar meu consultório, a fim de devolver meu broche. As sensações que me dominaram naquele instante quase me permitiram agir impulsivamente, mas eu não podia me entregar ao desejo e amor que sentia por ele. Não poderia, por mais que eu quisesse.
Cheguei em casa estranhamente mal humorada e impaciente. Meus pensamentos estavam a mil e, por mais que eu tentasse, era como se minha mente estivesse mergulhada em um caldeirão de água fervente.
Damon e as crianças ainda não haviam chegado – segundo ele, após o trabalho, levaria Alyssa e Matt ao circo montado no centro da cidade, como havia prometido na semana anterior. E, como eu me sentia perdida em locais movimentados, recusei o passeio.
Subi as escadas apressadamente e, em poucos minutos, minhas roupas faziam parte de um monte no canto do enorme banheiro, enquanto meu corpo submergia na água repleta de espuma. O coque alto e mal feito em meus cabelos parecia inútil, rendendo-se à franja que insistia em cair sobre meus olhos, ao passo em que meus músculos se flexionavam e eu me recostava à banheira.
A letargia veio com força e precisão e, junto a ela, a calmaria. Meus olhos logo foram pesando e, antes que eu fechasse os olhos e me deixasse levar pelo cansaço, o estridente toque do celular soou, fazendo-me pular de susto. Praguejei audivelmente, amaldiçoando os sete mares, enquanto saía do conforto da água morna e cálida, enrolando-me em uma toalha qualquer.
Chegando ao quarto, peguei minha bolsa preta, ainda com raiva, e arrependendo-me depois – poderia ser Damon e as crianças. Entretanto, um número desconhecido piscava no visor, fazendo-me franzir o cenho no momento em que pressionava o botão verde.
De repente, minha voz simplesmente travou. A respiração forte do outro lado da linha se dividia entre o nervosismo e ansiedade, e todos os pelos do meu corpo se eriçaram instantaneamente, fazendo-me estremecer, em seguida. A penumbra de meu quarto – iluminado apenas pela fraca luz da lua que atravessava a imensa janela de vidro – associada ao meu temor, fez tudo se encaixar, como numa explosão de intuição.
– Edward? – Minha voz proferiu sem qualquer permissão, mas apenas ao ouvir aquela respiração do outro lado da linha, meus lábios agiram por conta própria, enquanto meu cérebro simplesmente paralisava.
– Sim, Bella – Seu suspiro, assim como sua voz, soou como rendição. – Sou eu, Edward.
Meu coração acelerou de maneira brusca, e minha mão pousou acima dele, ao passo em que eu reprimia um arquejo. Não seria possível... Por que Edward me ligaria? Eu tentava raciocinar todos os porquês plausíveis, mas tudo se dirigia à apenas uma palavra. Meneei a cabeça, fechando os olhos com força. Aquela palavra não existia entre Edward e eu, não mais. Amor. Eu tentava me convencer que aquilo era alguma ilusão, mas eu o amava tanto... Enquanto ele, provavelmente, me esquecera há séculos.
– O que você quer? – sussurrei, contendo as lágrimas que se concentraram em meus olhos, assim como minha voz embargada, denunciando minhas emoções.
– Eu só queria dizer... – ele hesitou, e pude ouvi-lo umedecer os lábios, do outro lado da linha, suspirando e prosseguindo. – Que... Que é muito bom ter você perto de mim outra vez. – Segurei minha respiração no mesmo instante, mordendo os lábios, ouvindo-o sorrir levemente.
Suas poucas palavras foram o bastante para fazer minha alma descarregar. Eu nunca parei para pensar o quanto esses últimos dias haviam sido tão tensos a ponto de beirar o torpor da adrenalina, e era realmente reconfortante ouvir a tímida frase vinda dos lábios de Edward.
– Eu também... – sussurrei; meus lábios sendo preenchidos por um singelo sorriso, enquanto eu rapidamente desligava o telefone, sem esperar qualquer resposta.
– Qual o motivo desse sorriso tão lindo? – A voz de Damon me assustou, fazendo-me virar e fitá-lo com uma expressão surpresa.
Ele sorria, adentrando o quarto. Seus cabelos escuros estavam mais revoltos que o usual – provavelmente, por conta do vento que agitava a noite, do lado de fora – e seus olhos azuis estavam divertidos, felizes. Quando percebi, meus lábios se repuxaram num sorriso maior ainda.
– Hoje eu estava me lembrando de quando você descobriu sua gravidez – ele murmurou, ainda sorridente, enquanto se sentava na cama, ao meu lado; eu não havia respondido sua pergunta anterior, e, tampouco, ele parecia perceber. – Há quase sete anos você estava desse mesmo jeito, só que na cama da nossa casa em São Francisco – sorriu, deitando-se preguiçosamente.
– É verdade – ri, deixando a tensão totalmente em segundo plano agora, deitando-me ao lado de meu marido; fechei meus olhos em conforto quando senti seus quentes braços me puxarem para si. – Eu estava tão nervosa aquele dia... – ri de leve, recordando-me perfeitamente.
– Tínhamos apenas cinco anos de casados – Ergui o rosto para ver sua face descontraída, perdendo-me no belo sorriso torto moldado em seus lábios. – E você vinha passando mal há dias... Por que demorou tanto pra me contar? – Olhou-me confuso.
– Eu não demorei, amor – revirei os olhos, dando um estalado beijinho em sua bochecha. – Eu simplesmente não fazia ideia... Mas lembro que eu estava vestida com uma toalha, toda molhada e descabelada quando ligaram da clínica avisando que eu estava grávida. – ri, meneando a cabeça.
– Imagina minha aflição ao ver minha esposa gostosa e sexy com aquele pedaço de pano enrolado no corpo... – falou, esgueirando-se na cama e vendo que eu estava vestida como naquele mesmo dia... – Enquanto um sorriso, uma cara de medo e algumas lágrimas disputavam um lugarzinho no seu rosto...
Minha risada preencheu o ambiente grande e luxuoso que era nosso quarto, porém com um toque simples e delicado. As mãos de Damon divagavam rumo ao sul das minhas costas, enquanto seus olhos encaravam-me com desejo e paixão.
Mordi o lábio inferior, ao passo em que meu peito subia e descia efusivamente, por conta de minha respiração descompassada. Logo, senti meu dorso ser pressionado na cama, enquanto meu vampiro deitava sobre mim, decorando cada ponto descoberto do meu corpo com seus hipnotizantes olhos... dourados.
De repente, não havia mais o toque quente em minha pele... Eu sentia mãos gélidas e marmóreas perpassarem, abrindo minha toalha, despindo-me. O vento frio da noite primaveril, que invadia o quarto e movimentava as longas cortinas, fez com que meus pelos se eriçassem. Senti meus mamilos enrijecerem no mesmo instante, e aqueles olhos topázio me observarem minuciosamente.
As mãos, que antes repousavam na minha cintura, se moveram para minhas coxas, apertando-as e me fazendo conter um gemido. O sorriso torto tomava conta dos lábios avermelhados, enquanto os cabelos cor de bronze caiam em sua testa, deixando Edward extremamente sexy.
– Eu te amo – Sua voz de veludo sussurrou, e um suspiro alto escapou por minha garganta, ao passo em que toques afáveis e naquela temperatura fria deslizavam de volta para o norte, apalpando deliciosamente meus quadris e cintura.
– Eu também te amo – sussurrei de volta, sentindo seus dedos de pianista acariciarem minha barriga tão levemente quanto as asas de um beija-flor, rumo ao vão entre meus seios. – Muito mais do que você imagina...
Um sorriso amplo tomou conta de sua expressão, deixando seu olhar dourado ainda mais intenso sobre minha pele em fervor. Eu não tinha noção de simplesmente nada ao meu redor, a não ser das suaves mãos de Edward que, neste momento, vagavam sensualmente em meu colo, provocando-me.
E, logo, seus lábios tomaram os meus com força e devoção. A pressão existente no beijo era além do comum... Havia medo, desespero, amor, paixão... Mas... havia algo de errado ali. O sabor de menta era forte e me entorpecia, deixando-me vagamente consciente. Porém, estava quente demais... Forte demais... E não eram os lábios de Edward.
Eu reconhecia aquele cheiro maravilhoso de hortelã e menta, mesclado a flores silvestres. Não havia mel, lilás e sol ali... Não havia pele pálida, gélida e marmórea, muito menos cabelos bronze e olhos dourados. Não era Edward afinal. Era Damon. Sempre foi Damon.
Uma lágrima deslizou no canto do meu olho esquerdo, afundando em meus cabelos, em seguida. Eu não amava meu marido como devia amar. Eu não me devotada a ele como devia. E, mais uma vez, eram os meus pensamentos que se confundiam, formando uma ilusória realidade.
O final de semana se passou normalmente. Meu marido, filhos e eu decidimos caçar no sul do estado, e passamos um adorável domingo juntos, com meu pequeno Matt extasiado por, finalmente, ter conseguido pegar seu primeiro leão da montanha. O sorriso animado que continha em meus lábios se tornou forçado a partir de então – A semelhança de meu pequeno e... ele era... dolorosa.
Com a segunda-feira veio a hesitação. Eu realmente não queria me encontrar com Edward, e tentaria, de todas as formas, evitá-lo. A minha ilusão de sábado a noite fez com que ele novamente se tornasse um tabu.
– Bella... Está tudo bem com você? – Beatrice, a secretária da ala de Oncologia, me chamou, fazendo-me sobressaltar.
– Oh, é... Estou bem, querida... Só... – suspirei, passando as mãos pelos cabelos, vendo-a me olhar inquieta. – Não se preocupe...
– Tem certeza? – perguntou; o semblante em seu rosto moreno era de preocupação, o que fazia com que seus, sempre sorridentes, olhos caramelo ficassem expressivos demais.
Assenti, voltando a atenção para os papeis que estavam em minha mesa.
– Algum problema? – perguntei, referindo-me aos documentos envoltos em suas mãos.
– Não – sorriu, assentindo. – Esses papeis são para o Dr. Cullen assinar – Ela explicou, e tive que disfarçar o desconforto que senti ao ouvi-la dizer tal nome. – Só vim lhe avisar que não há consultas agendadas para essa tarde.
– Oh, então vou ver meus pacientes – Levantei-me rapidamente, contente por não precisar ficar confinada em apenas um ambiente pelo resto do meu plantão. – Tem um jovem chamado Pietro, sabe? Ele é um amor... E infelizmente possui um câncer tão maligno quanto o próprio demônio – falei com raiva e pesar, notando pena brotar nos olhos de Beatrice. – Mas eu vou curá-lo!
– É assim que se fala, doutora! – sorriu amplamente; seu pequeno corpo de 1, 58 vibrando com a minha determinação. – Agora vou trabalhar; beijinho – murmurou, acenando de forma rápida, enquanto sumia através da porta de madeira branca.
Sorri, suspirando profundamente ao sair do consultório. Passei pelos quartos de todos os meus 12 pacientes, verificando os mais diversos casos de tumor por entre aquelas pequenas crianças. Deixei o aposento de meu pequeno Pietro por último – Creio que por ser meu paciente mais novo, ele se tornou o mais querido também.
O garotinho estava bem, seu quadro era estável, e fiquei parcialmente grata por isso. Ele, infelizmente, estava longe de ser curado, porém, mas eu tentaria mudar esse status em breve.
Deste modo, passei o restante do dia atendendo emergências, chegando exausta no início da noite. Era dia de plantão, e eu apenas iria embora na tarde do dia seguinte, já que emendaria, para ter folga dupla no próximo final de semana.
E não vi o Dr. Cullen até então, embora soubesse que ele também trabalharia por 24 horas hoje. Segui para o refeitório do hospital, a fim de tomar uma boa dose de cafeína e me manter acordada pelo resto da madrugada. O relógio de parede indicava que acabara de passar da meia noite, numa implícita explicação do local estar praticamente deserto.
A forte e branca luz colaborou no processo de espantar meu sono, assim como o grande copo de café que pedi. Sentei-me em uma das grandes e vazias mesas, notando que a televisão estava desligada e até mesmo a atendente da lanchonete saira, numa pausa. Dei um gole no efervescente líquido, lambendo os lábios, em seguida, como se os esfriasse.
De repente, meu olhar se deparou com o brilho azul em meu dedo indicador da mão direita: o anel de lápis-lazúli – ele me protegia da luz do sol, assim como os demais vampiros de minha espécie. Lembrei-me, então, de quando Damon havia me presenteado este.
Na época, fazia exatos sete dias desde que eu me transformara, adquirindo um invejável autocontrole sobre minha sede. Eu saia apenas pela noite, evitando os mortais raios ultravioletas. Até que, em um dia de sol na Califórnia, Damon chegara com este anel — muito parecido com o que ele e Stefan usavam. Ele disse, com sua voz lasciva e sorriso encantador, que aquela era minha nova proteção, a qual deveria substituir o colar com a verbena, que me dera depois de eu afogar, em Mystic Falls.
O colar se tornara perigoso desde que fui transformada, e ele ainda estava guardado na gaveta do meu criado-mudo – ao lado da carta de Edward. O sorriso que mantinha em meus lábios, desapareceu com apenas aquele lembrar. Bufei, irritada comigo mesma, enquanto dava outro gole no café.
Tirei o anel de meu dedo, vendo o quão detalhado era. Forcei meus olhos a observá-los, notando minha vista enfraquecida. O bocejar que logo se seguiu, mostrou que eu não conseguiria lutar contra o sono que sentia, por conta das noites mal dormidas que venho tendo desde que me reencontrei com os Cullen.
Para ouvir: Avril Lavigne – I’m With You
http://www.youtube.com/watch?v=AYKuZMxA808
Praguejei em um sussurro, descansando meu queixo na mesa, sem tirar os olhos do profundo azul que coloria o anel – A cor possuía o mesmo tom dos olhos de meu marido, e sorri, antes de me entregar aos sonhos.
Resmunguei, sentindo algo gelado tocar minha bochecha, e um vento logo fez meu corpo se arrepiar. Eu sentia algo estranho... Comecei a ficar inquieta, e a negritude presente em meu sono se tornou uma pequena claridade, ao passo em que eu abria somente uma pequena fresta entre meus cílios. Não pude ver nada, além do local ainda inóspito, mas, assim que meus olhos fecharam-se novamente, uma estranha sensação veio à tona.
Meus olhos se abriram de repente, e eu pude constatar, naquele mesmo instante, que não era apenas uma impressão minha estar sendo vigiada, pois ali, do outro lado do grande e vazio refeitório do hospital, havia um par de olhos incrivelmente ocres fitando-me intensamente, como se perfurasse minha pele aos poucos, vendo minha alma.
Endireitei minha posição rapidamente, vendo-o sentado numa mesa ao longe, sem nem desviar seus olhos dos meus. Franzi o cenho, sentindo o vinco entre minhas sobrancelhas se tornar mais profundo, junto com meu desconforto.
– O que faz aqui? – perguntei, em um misto de rudeza e ansiedade; pigarreei, ouvindo minha voz sair mais rouca que o de praxe.
– Vim até aqui e te vi dormindo, então, decidi ficar – Espantei-me com sua sinceridade e audácia; seus olhar tão intenso quanto antes.
Movi-me, sem jeito, na cadeira, respirando fundo e quebrando o contato visual. Levantei-me com pressa, e uma pitada de raiva borbulhou em minhas veias, ao passo em que eu ajeitava a saia branca de cintura alta e a delicada blusinha vermelho-sangue, fechando o jaleco. E segui apressadamente, rumo às portas duplas que davam para o corredor.
– Você falou meu nome enquanto dormia – Ele murmurou em um tom contido, fazendo com que minhas pernas fraquejassem e parassem no mesmo segundo. Engoli em seco, e, colocando uma máscara de frieza em minha face, virei e olhei-o nos olhos.
Dei um leve sobressalto ao vê-lo em pé, há poucos passos de mim, porém, a raiva falou mais alto. Andei até ele, calmamente, vendo todas as emoções ali, expostas em seu rosto. Pude ver coragem, medo, ousadia, desespero e... amor. Senti a raiva crescer em meu âmago, até que minha voz proferiu em um timbre de superioridade:
– E que direito você tem de querer satisfações sobre o que falo ou deixo de falar, enquanto durmo? – Exaltei-me, vendo seus olhos se arregalarem por um milésimo de segundo, surpresos. – E com que direito você tem de ficar emocionado se eu digo ou não o seu nome?
Surpreendendo-me, a raiva também brotou em seus olhos, mescladas ao desejo e paixão – o que atenuou minha confusão acerca de seus sentimentos. Seus olhos âmbar fitaram-me com fervor, até que suas mãos gélidas prenderam com força ambos os meus pulsos.
– Pelo direito de que... – Edward disse, e sua voz fez meu corpo estremecer suavemente.
No entanto, ele não prosseguiu. Nossas respirações era pesadas e ofegantes, enquanto meu peito subia e descia numa velocidade desigual, quase tocando o dele. Seu hálito frio e entorpecente tocava minha face de uma maneira hipnotizante. Suas pupilas estavam dilatadas, enquanto seus lábios, recém umedecidos, deixavam-me insana, aos poucos.
E, então, ele se aproximou ainda mais, perigosamente. Sua boca tão perto da minha... Apenas alguns centímetros... E, mais uma vez, surpreendendo-me, ele sussurrou em sua voz de predador lascivo:
– Pelo direito de você ser minha – falou simplesmente, deslizando uma de suas mãos para minha cintura, girando-me e prensando meu corpo contra a parede.
Ofeguei alto, enquanto um suspiro soou através de sua garganta. Seus olhos adquiriram uma cor castanha, repleta de desejo, enquanto eu me perdia em suas orbes tão envolventes...
– Pietro piorou! – A voz de Isabela, mãe da criança, soou assustada, ao nosso lado.
Edward se afastou bruscamente, fazendo-me arfar e voltar a sentir o oxigênio no ar novamente.
– Desculpem-me, mas... É o meu filho, doutora... – Ela fungou, falando com a voz embargada e o coração acelerado. – Ele não está nada bem, eu posso sentir...
Aproximei-me, envolvendo-a em um abraço apertado e acolhedor.
– Shh... – Apertei-a mais forte contra mim, desvencilhando-me delicadamente e colocando uma mão em seu ombro. – Eu vou cuidar dele... Tenha fé! – falei, sentindo meus olhos marejados, enquanto fitava sua face repleta de dor. – Nós vamos salvá-lo!
– Obrigada... – sussurrou, intensamente agradecida. – Ele está no quarto e... reclamando de muita dor de cabeça.
– Vamos ver como o pequeno está – Edward caminhou até nós, afagando o braço da mulher, com um sorriso amoroso nos lábios.
A tensão entre nós estabeleceu uma trégua muda, no momento em que andávamos a passos largos até o quarto em que Pietro estava.
Ele dormia, deitado em uma posição fetal – O cenho e os lábios franzidos demonstravam seu sono inquieto, assim como as olheiras ainda mais escuras do que a última vez que o vi. Sentei ao seu lado, na cama, acariciando com extremo carinho a cabeça raspada daquele garotinho de somente quatro anos de idade.
Sentado no sofá próximo à janela estava um homem de idade, que abraçou Isabela de maneira fraternal, sussurrando um "Acalme-se, filha", que me fez entender que ele era o avô de Pietro e ela, consequentemente, uma jovem mãe solteira.
As cortinas de cores claras estavam fechadas, impedindo que a lua adentrasse o cômodo com toda a sua luz, deixando-o aconchegante pela escassa iluminação. A TV, ligada em um canal qualquer, transmitia algum jornal que falava sobre confrontos territoriais do Oriente Médio. E toda aquela áurea de normalidade misturada à não normalidade... Deixava tudo confuso.
Não era para aquela criança estar ali... Ela deveria estar em casa, brincando de pique-esconde no jardim... Ou fazendo alguma travessura, deixando sua jovem mãe de cabelos em pé. Era para ele estar sorrindo agora, divertindo-se... E não em uma cama de hospital, enfermo, triste. Pietro não merecia aquilo. Sua mãe não merecia aquilo. E eu iria fazer o possível para que ele tivesse uma vida saudável, como toda criança tem o direito de ter.
Chequei seus batimentos cardíacos, e seu quadro, como um todo, constatando que ele realmente piorara – Instinto de mãe jamais falha, e eu sabia bem disso. Agradeci, mentalmente, aos céus por meus filhos possuírem uma infância tão abençoada, pedindo também que aquela criança à minha frente tivesse a honra do mesmo, algum dia.
Edward injetou algum medicamento através do soro, fazendo com que, logo, os gemidos de dor da criança cessassem. Pietro precisava de uma cirurgia urgentemente, mas era um caso muito arriscado por ele estar passando pelo longo tratamento de radioterapia [1].
– Não se preocupe... – Edward falou à mãe do pequeno, assim que saímos do quarto. – Estes são os efeitos colaterais provocados.
– Sim, Isabela – murmurei, e pude sentir o olhar de ambos presos em mim. – Mas o câncer está diminuindo aos poucos... Tenha fé!
– Obrigada – sussurrou, agradecida e envergonhada, porém. – É que é tão difícil ver a dor do meu filho e não poder fazer nada...
– Eu sei como se sente – Ele tomou a palavra, olhando-a com afeto. – Mas logo as coisas mudarão de rumo, você vai ver! – sorriu torto, e eu pude sentir a esperança que dominou todo o ambiente. – Nós vamos curar seu filho!
A certeza me invadiu, e eu senti o poder de cada sílaba proferida. Ela retornou ao quarto, segundos depois, deixando apenas Edward e eu no longo e vazio corredor.
Seus olhos, mais uma vez, me perfuravam e, quando percebi, as maçãs de meu rosto queimavam. O momento de minutos anteriores havia sido um erro, um equívoco, e não seria eu quem pronunciaria a respeito.
Com um olhar penetrante e frio, fitei Edward durante exatos sete segundos, para, em seguida, fazer uma ronda noturna pelos quartos de meus pacientes, sozinha.
Não o vi pelas horas que se seguiram e, em uma rotina tranquila, passei o restante da noite e o dia seguinte. Logo, o relógio anunciava ser quase cinco da tarde. Cansada e um pouco mal humorada, fui ao banheiro que havia em meu consultório, retirando meu jaleco antes de lavar o rosto. Entretanto, minha mão estava... leve demais. E no instante em que minhas mãos molhadas passaram por minha face, retirando a espuma do sabonete, senti falta do meu anel.
Droga! Onde ele estava? Eu não podia sair sem ele, mesmo o tempo estando nublado, afinal de contas, era dia e, querendo ou não, havia invisíveis raios solares por toda parte.
Minha cabeça martelava junto aos meus olhos, procurando o maldito acessório. Por Deus, ele não era uma simples bijuteria que quase não se nota!
Procurei por toda a minha sala, mas nada! Muito menos nos corredores, ou outros lugares por onde passei... Mas logo comecei a me recordar de segundos antes de adormecer... Eu estava com ele em mãos no refeitório! Isso!
Passando reto pelos elevadores, desci as escadas em disparada, sem me preocupar com qualquer humano que por ali passasse. Chegando lá, pude avistar apenas dois acompanhantes de alguns enfermos e... ele. Edward estava sentado exatamente na mesma mesa que eu estive durante a madrugada. E havia algo brilhando em seus dedos, enquanto ele o observava com curiosidade e... nostalgia.
Andei devagar até ele e vi que era meu anel o objeto em suas mãos. E, rapidamente, ele virou em minha direção, levantando-se com precisão. Sem que qualquer coisa pudesse sair por minhas cordas vocais, senti minha mão direita ser enlaçada pelas suas. Arfei, em espanto e surpresa, e ele, sem olhar nos meus olhos, deslizou o delicado anel em meu dedo.
Mordi o lábio, suspirando com dificuldade, e, então, Edward levou minha mão em seus lábios, depositando um cálido beijo na palma, deslumbrando-me com a intensidade de seu olhar, quando este capturou o meu.
Assim, ele partiu, andando calmamente até as portas duplas, sem nada dizer. Eu somente pude soltar uma lufada de ar, caindo sentada na cadeira ao meu lado, completamente zonza pelo momento.
Olhei para o relógio de parede ao lado de um lindo quadro de Botticelli, e arregalei os olhos ao perceber que já se passava das cinco e quinze da tarde. Corri para fora do hospital, não sem antes voltar ao consultório e pegar minha bolsa, entrando rapidamente em meu carro. Observei as nuvens claras e grossas pelo parabrisa, enquanto dirigia apressadamente rumo à escola de meus pequenos.
Estacionando no meio fio, pude ver o prédio colorido e com dizeres em italiano, e, deste modo, saí do veículo prateado, atravessando a calma rua. Poucas crianças brincavam no jardim da frente, e me surpreendi ao ver Wendy rindo e correndo com Alyssa e Matthew.
Fui até eles, que sorriram e correram em minha direção, inclusive a pequena de cabelos acobreados.
– Tia Bella! – falou em um tom verdadeiramente alegre, sorrindo o mesmo sorriso que ele tinha.
– Minha querida... Como você está? – perguntei, abraçando-a, após beijar cada um de meus filhos.
– Eu vou bem – Deu uma leve risadinha. – Mas acho que a tia Alice esqueceu de mim hoje...
– É sua tia quem costuma buscar você? – inquiri entretida, vendo alguns pais e babás buscarem seus filhos, restando cada vez menos crianças no florido e imenso jardim.
Ela assentiu, ainda sorridente, e logo começou a gargalhar quando Matt fez cosquinhas em sua barriga. Eu ri, assim como todos, vendo-os voltarem a correr. Wendy, porém, voltou até mim, implorando por socorro, para que meu filho parasse com a tortura.
– Ok, ok... Podem ir parando... – falei rindo, salvando a pequena Wendy.
– Mamãe, deixe-a ir pra casa com a gente! – Lyss pediu, repuxando seus lábios em um irresistível beicinho, o qual prendi entre meu polegar e indicador, rindo e dizendo:
– Sinto muito, mocinha, mas logo alguém virá buscá-la! –- Minha risada baixa soou, enquanto eu ouvia os protestos da mesma. – Mas, se quiser, a gente espera Alice vir buscá-la – pisquei, vendo um lindo sorriso nascer nos lábios dos três sapequinhas.
– Não precisa, tia Bella... – A pequena disse; seus olhos verdes brilhando, contradizendo suas palavras.
– Que isso, gatinha... – murmurei, dando um leve beijinho em sua testa. – Eu me preocupo com você e já está quase na hora do pôr do sol; não custa nada esperar um pouquinho.
– Obrigada... – agradeceu, puxando meu pescoço em um delicioso abraço, o qual foi incrementado por mais dois pares de bracinhos, em um gesto grupal.
Assim, restaram apenas nós quatro, uma garotinha loira que era amiga dos meus filhos e a porteira que nos observava divertidamente. Vi Alyssa convidar a menina para brincar com ela – que descobri se chamar Cecília – juntamente com Wendy. Meu rapazinho ficou desenhando em seu caderno, sentado debaixo de uma árvore.
Segui até a mulher que nos fitava, sentando a seu lado e engajando numa animada conversa – Ela era muito divertida e devia passar dos 40 anos. Minutos depois, ela voltou ao seu trabalho quando um homem veio buscar a nova amiguinha de minha filha e, antes que ela retornasse, ouvi minha pequena me chamar.
– Mamãe, vem brincar com a gente!
– Ah, não filha... Eu estou há horas sem dormir... – resmunguei, sendo convencida, no entanto, após ela e Wendy fazerem caras e bocas irredutíveis.
Ri, andando até elas e começando a brincar de adoleta. Eu nunca fora uma garota de muitas amigas e raramente brincava dessas coisas, então, senti-me diferentemente bem ao me divertir com as meninas. Continuamos na mesma brincadeira por alguns minutos, nos quais rimos e nos divertimos bastante, até que uma figura apareceu na porta do colégio, fitando-me com tanta intensidade que a ponto de fazer minhas bochechas corarem no mesmo momento.
– Wendy... – Edward murmurou, chamando a filha que estava de costas, rindo com Alyssa.
Sua filha deu um belo sorriso, enquanto corria para os braços do pai, que retribuiu o gesto, sorrindo igualmente.
– Vem brincar com a gente, papai – pediu animada, puxando-o pela mão.
Eles vieram até nós, e, educadamente, levantei-me da grama baixa, ouvindo seu agradecimento.
– Obrigada por ficar com ela, Bella – Sorriu torto, desviando de meu olhar brevemente. – Eu fui conversar com Alice e acabamos perdendo a hora – riu constrangido, o que me fez apenas assentir.
– Não tem de quê! – sorri, vendo uma fadinha aparecer ao seu lado, sorrindo. – Alice!
– Oi, Bella! – cumprimentou, abraçando-me pela cintura. Beijei seus cabelos sempre espevitados, perguntando:
– Como vai?
– Vou bem... – respondeu; seus olhos incrivelmente dourados hoje. – Na verdade, eu ando super agitada com os preparativos do aniversário de Wendy, que acontece nesse final de semana...
– No final de semana? – indaguei surpresa. – Lyss e Matt fazem aniversário no sábado!
Neste instante, Edward, que conversava animadamente com meu filho – ambos sentados no chão – me encarou.
– Nossa, que coincidência! – Alice riu, fazendo-me revirar os olhos.
– Coincidência? – perguntei cinicamente. – Não há coincidências para quem vê o futuro.
– Ok, você me pegou – riu travessa, prosseguindo. – Mas não seria perfeito se fizéssemos uma festa tripla?
– O quê? – Eu e Edward perguntamos em uníssono, estarrecidos.
– Sim, oras! – murmurou impaciente, bufando. – As crianças se dão super bem... Seria tão divertido... – Seus olhos brilharam, tornando-se ainda mais evidentes quando as meninas concordaram, pulando ao redor da pequena e sapeca vampira.
– Alice... Não é uma boa ideia... – argumentei, mordendo os lábios.
Edward andou até nós, suspirando, acrescentando:
– Pode ser uma boa ideia, sim, Bella... – Deu de ombros, vendo as garotas brincarem animadas com Matt. – Eles se adoram; poderia ser divertido!
– Está vendo só, Bella? – Alice insistiu, pegando minhas mãos entre as suas, encarando-me com profundidade em seus olhos. – Por favor...
– Argh! Está bem, sua chantagista emocional! – Dei-me por vencida, sorrindo de canto ao vê-la dar pulinhos excitados e ir até a sobrinha e meus filhos. – Tudo bem mesmo pra você? – perguntei ao Edward, fitando-o.
– Claro, Bella – sorriu, olhando fixamente para a irmã e crianças. Segui seu olhar, realmente percebendo o quanto a felicidade de meus queridos era mais importante.
A semana que se passou foi corrida. De início, Damon não foi muito a favor da festa em conjunto, mas nada que uma boa dança sensual e uma lingerie nova não pudessem fazer – Ri, vendo seu beicinho derrotado, assim que ele cedeu aos meus encantos.
Deixei Elena e Alice a par de tudo, juntamente de Charlize – havíamos nos visto rapidamente, quando fizemos algumas decisões, e seu olhar de compreensão me mostrou que ela não detestara a ideia, pelo menos como um todo. Deste modo, Elena convenceu as Cullen a fazermos a festa em nossa casa de campo, numa região mais afastada e calma, onde poderíamos aproveitar o sol, que era anunciado nas previsões do tempo, sem qualquer empecilho.
A tensão entre Edward e eu pareceu finalmente ter se extinguido, mesmo que tenhamos nos visto somente duas vezes ao longo dos sete dias que se passaram. Para meu alívio, Pietro estava bem melhor, e seus exames já mostravam uma significativa melhora.
O sábado logo chegou, e, junto a ele, um sol radiante. As malas já estavam prontas e no carro quando deram nove da manhã e o meu telefone tocou – Era uma emergência do hospital.
– Mas que droga, hein? – Matt resmungou, sentando emburrado no sofá, no instante em que meu marido disse que iríamos apenas mais tarde para a casa onde ocorreria a festa, por conta da minha ida ao trabalho.
– Olha a boca... – Repreendi meu pequeno, voltando a olhar para Damon. – Querido, vá com as crianças. Eu vou mais tarde.
– Não senhora... Pode ser perigoso, Bella e...
– Amor, por favor – sussurrei, sentando-me ao seu lado no balcão da cozinha; minha mão esquerda adentrou sua camiseta branca, apalpando suas musculosas costas. – Vai na frente... Daqui uma hora eu vou também – Minha boca acariciava seu pescoço, ao passo em que minha mão direita agarrava os fios de sua nuca.
– Bella, amor... – ele ronronou, pegando um monte de cabelos meus e enrolando em seus dedos, fazendo um baixo gemido sair por entre meus lábios.
– Por favor... Ouça as crianças... – E, como uma jogada final de xadrez, mordi seu pescoço sensualmente, fazendo-o me empurrar e grudar minhas costas contra a geladeira.
– Você é a pessoa mais perigosa que eu já conheci – rosnou em meu ouvido, tomando meus lábios nos seus em um beijo quente, em rendição.
Para ouvir: The Runaways – Cherry Bomb
http://www.youtube.com/watch?v=aNNp5GyzlKc
Atendi apenas uma paciente que tivera uma piora. Diagnostiquei, conversando com a mãe dela e explicando seu estado, que logo melhoraria. Assim, voltei para casa – que estava vazia, por conta de Damon e meus filhotes já estarem a caminho da nossa cada de campo, da mesma forma que os Cullen. Apenas tive tempo de colocar uma calça jeans justa e uma jaqueta de couro para, em seguida, sair da garagem com minha moto preta e turbinada, que havia ganhado de Stefan em meu último aniversário.
O vento adentrava o visor do capacete, enquanto eu acelerava pelas estradas italianas pouco movimentadas. Passei por entre os enormes portões da casa de campo uma hora e meia depois, não deixando de notar a piscina adquirir cores prateadas pela forte luz do sol. O jardim mais florido que o usual deixava a enorme casa ainda mais bela, e fiquei surpresa ao ver os Cullen e minha família conversando animadamente, ao lado do lago que ali havia.
Todos os olhares se direcionaram a mim – já sem capacete –, espantados ao me verem numa moto. Um olhar, porém, que não me passou despercebido foi o de Edward, que me fitava em um misto de medo e desejo, com suas mãos enlaçadas na cintura da esposa. E eu soube, naquele instante, que nosso final de semana estava apenas começando.
[1] – Radioterapia é uma especialidade médica focada no tratamento oncológico, utilizando radiação ionizante, e consiste na retirada do tumor.
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