Respiração, foco nos sentidos!
1 Capítulo 1 - Quatorze dias
O ar no escritório do Diretor Nezu parecia rarefeito, pesado. O único som que quebrava o silêncio tenso era o raspar quase incessante da caneta de Nezu assinado papéis, que pareciam se multiplicar mais a cada assinatura. Então, a quietude foi quebrada por batidas na porta, impacientes, irregulares, inconfundivelmente explosivas.
Nezu ergueu a pequena cabeça dos documentos, um brilho astuto em seus olhos de animal. Ele não precisava perguntar quem era. "Senhor Bakugou! Pode entrar!" Sua voz era gentil, quase alegre, um contraste gritante com a tempestade do lado de fora.
A porta se abriu com força, revelando Katsuki Bakugou. Seus punhos estavam envoltos em bandagens grossas, manchadas de vermelho-escuro em vários pontos, sangue seco, testemunha de uma luta recente ou de um treinamento desesperado. Seu olhar varreu a sala, fixando-se em Nezu com desprezo mal disfarçado. "Tsk... Aonde eu devo me sentar, rato?"
Ótimo, já odeio estar aqui. Preso nessa sala com esse rato estranho e o maldito Aizawa me encarando.
Encostado na parede do escritório, com o olhar cansado e quase morto de sempre, estava Aizawa Shouta. Ele não disse nada a princípio, apenas inclinou a cabeça minimamente em direção a cadeira vazia em frente a mesa do diretor. Bakugou bufou, mas caminhou até lá e se jogou na cadeira, rígido, evitando deliberadamente encontrar o olhar exausto, porém penetrante, de seu professor. Não preciso da pena dele. Não preciso da pena de ninguém... Katsuki repetia isso constantemente, na esperança de que, de alguma forma, aquilo se fixasse em sua mente.
Nezu soltou um suspiro quase inaudível. Em circunstâncias normais, a grosseria de Bakugou exigiria uma reprimenda imediata. Mas as condições estavam longe de serem normais. O diretor decidiu, por ora, relevar. "Senhor Bakugou, imagino que o senhor esteja ciente do que está fazendo aqui? Correto?"
Katsuki apenas grunhiu, um som baixo e áspero na garganta, mas assentiu rigidamente. Nezu interpretou como um "sim". "Excelente... Sendo assim, serei direto. Os principais professores e eu, após uma longa análise sobre os eventos recentes e sua... condição atual... decidimos por sua expulsão, Katsuki Bakugou."
Um silêncio mortal desceu sobre o escritório. A palavra "expulsão" pairou no ar como uma sentença de morte, pesada, fria, irrevogável. Aizawa e Nezu trocaram um olhar fugaz, ambos preparados para a explosão inevitável, gritos, ameaças, talvez até uma mesa virada.
Mas Bakugou os surpreendeu. Nenhuma explosão veio. Em vez disso, após um momento que pareceu esticar-se infinitamente, um som rouco emergiu de sua garganta. Não era um grito, mas um rosnado baixo, quase... hesitante? Quebrado? "Um mês." A voz era áspera, forçada. "Isso é tudo que eu peço."
Merda. Expulso?
Não... não podem fazer isso.
Não podem.
Preciso de tempo, só um pouco de tempo.
Aizawa ergueu uma sobrancelha, a curiosidade substituindo a expectativa de confronto em seu semblante normalmente apático. "Um mês? Um mês para quê, Bakugou? Você entende que não há retorno. Depois do que ele fez... sua individualidade se foi. Não há nada que possamos fazer quanto a isso. Depois que o All For O-"
"CALA A BOCA!" O nome foi o gatilho. Bakugou se levantou abruptamente, a cadeira arrastando no chão. Ele bateu com o punho enfaixado na mesa de Nezu com força suficiente para fazer a xícara de chá do diretor tilintar perigosamente. Seu rosto estava vermelho, os olhos arregalados e brilhantes, era raiva, sim, uma fúria incandescente, mas havia algo a mais ali, uma umidade suspeita, uma vulnerabilidade crua que ele lutava desesperadamente para esconder.
Aquele nome... Aquele maldito nome!
Não ouse dizer o nome dele na minha frente!
Foi ele... ele tirou tudo de mim!
Tudo que me importava...
—Tudo que importava para as pessoas ao seu redor.
Nezu, impassível, pegou sua xícara e tomou um gole calmo de chá. "Senhor Bakugou... Admiro sua tenacidade. Sua força de vontade é inegável. Mas tenho sérias dúvidas sobre sua capacidade de ter sucesso nessa carreira, nesse nível que o senhor almeja, sem sua individualidade" Ele pousou a xícara delicadamente na mesa. "O que você acha, Aizawa? Você é o professor responsável pela classe dele. Deixarei esta decisão final em suas mãos"
Aizawa se desencostou da parede, o olhar fixo em Bakugou. Ele o estudou por um longo momento, procurando por qualquer sinal de dúvida, qualquer vacilo por trás da fúria e da dor. Ele procurou pela arrogância vazia de sempre, mas encontrou algo diferente. Uma determinação desesperada, quase selvagem. Ele não viu hesitação naqueles olhos vermelhos, apenas uma recusa teimosa em desistir. Ele está quebrado, mas não está derrotado. Perdeu a quirk, mas não o espírito de luta. Mas só isso não basta... ou basta? "Duas semanas, Bakugou." A voz de Aizawa era firme, sem espaço para negociação. "Você tem exatamente quatorze dias para provar que, mesmo sem uma individualidade, você ainda pertence a este lugar. Que você ainda pode ser um herói."
Um suspiro escapou dos lábios de Bakugou, um som quase de alívio tenso. Duas semanas? Merda, eu pedi um mês... mas é melhor que nada. É uma chance, vou me agarrar a isso. Ele forçou seus lábios em uma cópia de seu sorriso arrogante habitual, embora parecesse mais uma careta. "Humph, ótimo! Sabia que você não teria coragem de expulsar um dos seus melhores alunos só por causa de um detalhezinho."
Aizawa reprimiu um suspiro próprio. Criança problemática até o fim. "Bakugou, isso não é uma brincadeira. Você perdeu a sua individualidade. Você entende a gravidade disso? O poder que definia seu estilo de luta, sua própria identidade como herói em treinamento... se foi. Você não pode simplesmente fazer as mesmas coisas de antes, não importa o quanto queira." Ele precisa entender que isso muda tudo. Não é só um 'detalhezinho'.
"EU VOU DAR UM JEITO!" Bakugou retrucou, a voz subindo de volume novamente, a fachada arrogante voltando com força total.
Eu tenho que dar um jeito.
Não existe outra opção.
—Ah! Existe outra opção sim.
—Você sabe qual é.
Aizawa deu um passo à frente, fechando a distância entre eles até ficar bem em frente ao garoto, invadindo seu espaço pessoal, forçando Bakugou a sustentar seu olhar. A diferença de altura era clara. "Como? Como você vai fazer isso, Bakugou? Me diga." Sua voz era baixa, mas carregada de intensidade. "Explique."
Katsuki foi pego de surpresa pela proximidade e pela intensidade do professor. Abriu a boca para responder, para vomitar alguma bravata, alguma promessa vazia... mas as palavras não vieram. Ele tentou, mas sua garganta parecia fechada. A verdade era que ele não tinha a menor ideia.
Merda, o que eu digo...?
Não sei como vou fazer isso!
Como? Com o quê? Granadas? Facas?
Que piada de merda...
"Vamos Bakugou, me diga" Aizawa insistiu, a voz subindo um pouco, mais incisiva, quebrando o silêncio tenso. "O que você vai fazer?"
"EU NÃO SEI!" O grito explodiu dele, cru, desesperado, sem a arrogância usual. A paciência se esgotou, a máscara caiu completamente. Sua respiração estava rápida e superficial, o controle que ele tanto prezava se desfazendo em tempo real. "Eu... eu não sei o que eu vou fazer" ele repetiu, a voz tremendo agora, mais baixa. "Mas eu vou dar um jeito! Eu sempre dou... Eu sempre dei." A última frase foi um sussurro quase inaudível, soando mais como uma prece frágil do que a afirmação confiante de sempre. A arrogância se despedaçou, revelando o medo e a incerteza que Bakugou jamais mostrava a ninguém.
Eu nunca disse algo assim nem mesmo pro Cabelo de Merda ou pra Cara de Guaxinim... aqueles... idiotas. Ele tinha aqueles dois, Kirishima e Mina, que ele considerava... próximos. Tão próximos quanto Katsuki Bakugou permitia que alguém chegasse, o que não era muito. Sua natureza era se fechar. Mas nem para eles ele admitiria algo assim, tão direto e de forma tão vulnerável.
Que patético.
Aizawa soltou um suspiro longo e cansado. Aquela conversa estava sendo tão difícil quanto ele previra. Mas, novamente, era Bakugou. Nada com ele era fácil.
"Bem, parece que temos uma decisão..." Nezu interveio, sua voz suave cortando a tensão. Era hora de encerrar aquilo antes que os ânimos se exaltassem novamente. "Você tem exatamente quatorze dias a partir de amanhã, Senhor Bakugou, para nos provar que pode continuar sendo um herói em treinamento sem sua individualidade. Ao final desse prazo, você passará por um teste prático."
Antes que Bakugou pudesse sequer formular a pergunta, Nezu continuou: "E antes que pergunte, o teste será uma simulação de combate. Você contra Aizawa. Um contra um. Não esperamos que derrote um herói profissional experiente como ele, especialmente em sua condição. No entanto, esperamos ver progresso significativo, adaptação e, acima de tudo, a prova de que você ainda possui o potencial e a determinação necessários para trilhar este caminho. O mínimo que esperamos são resultados impressionantes, se quiser permanecer na U.A."
Katsuki apenas acenou, a mandíbula tensa. Discutir seria estupidez agora. Ele era arrogante, não idiota. O silêncio e a aceitação eram suas únicas moedas de troca no momento. Quatorze dias... só quatorze dias. Contra Aizawa. Merda. Mas eu consigo... Eu tenho que conseguir. A frase se repetia em sua mente, um mantra desesperado para se convencer.
"Ótimo, senhor Bakugou." Disse Nezu, trocando um olhar rápido e significativo com Aizawa. Ele entendeu a mensagem subliminar, espero. "Aizawa irá até sua residência amanhã para entregar um documento oficializando este... acordo provisório." Ele gesticulou em direção a porta. "Por agora, está dispensado senhor Bakugou. Boa sorte."
Bakugou acenou novamente, sentindo-se estranhamente esgotado. A adrenalina da raiva e do medo o estava deixando vazio. Absorver a realidade de tudo aquilo... era avassalador. Enquanto ele se virava e caminhava rigidamente em direção a porta, sentiu uma mão pousar brevemente em seu ombro. Era Aizawa.
Surpreso, Katsuki parou e olhou para trás. Seus olhos encontraram os de Aizawa por alguns segundos intensos. E, por um instante, Bakugou quase jurou ter visto os cantos dos lábios de seu professor se curvarem em um sorriso mínimo, quase imperceptível. Um reconhecimento silencioso, talvez? Um "Boa sorte" dito da maneira Aizawa de ser? A surpresa o atingiu genuinamente. Antes de sair pela porta, quase sem pensar, ele murmurou algo tão baixo que apenas Aizawa poderia ouvir. "Obrigado..." Katsuki saiu pela porta e começou a andar em passos rápidos logo depois, com a intenção de sair logo do campo de visão de seu professor.
Por que eu disse isso?
—Porque você é um idiota.
Eu sou Katsuki Bakugou porra! Eu não agradeço a ninguém...
Então por quê eu senti a necessidade de falar isso?
Por que eu... Ah, que se dane essa merda.
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O caminho até a saída da U.A pareceu mais longo do que o normal. O sol da tarde batia no rosto de Bakugou, mas ele mal sentia o calor. Ele se sentia perdido. Não. Ele estava perdido. Completamente perdido.
Quatorze dias. O que diabos eu posso fazer em quatorze dias pra compensar a porra de uma individualidade que eu usei minha vida inteira? Treinar combate corpo a corpo? Claro, ele podia intensificar isso. Aprender a usar armas? Talvez equipamento de suporte? Mas pra quê? Mesmo que eu impressione o Aizawa e o rato... eu ainda vou ser um inútil sem poderes. Para sempre. O pensamento era um buraco negro em sua mente.
Assim que passou pelos imponentes portões da U.A, ele seguiu direto para a estação de metrô mais próxima. Bakugou queria chegar em casa o mais rápido possível. Precisava de silêncio, precisava organizar a avalanche caótica de pensamentos em sua cabeça. Precisava de um plano, por mais impossível que parecesse ter um nesse momento. Felizmente, o metrô estava relativamente vazio, fora do horário de pico. Ele se deixou cair no primeiro assento vago que encontrou, encostando a cabeça na janela fria.
Ele puxou o celular do bolso por puro hábito e franziu a testa ao ver a tela acender com notificações.
Sério? Quem diabos...?
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Você tem 16 novas notificações
Bakusquad(Integrantes: Você, Cabelo de Merda, Alienígena Rosa, Pikachu, Fita Adesiva, Cabeça de Fone) — 13 notificações novas
Deku de merda — 3 notificações novas
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Hum? O que aquele Deku de merda quer agora? Ele podia até entender os outros idiotas – Kirishima, Mina, Sero, Kaminari, e Jirou – que, por algum motivo bizarro, insistiam em andar com ele. Mas o Deku? Aquele nerd maldito é um masoquista do caralho. Eu bato nele, xingo, humilho, tento afastar ele com todas as minhas forças, e ele sempre volta rastejando, cinco vezes pior.
Enfim, ele iria ignorar Deku, como sempre. Katsuki abriu o chat em grupo do "Bakusquad".
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Bakusquad — Mensagens não vistas
Cabelo de Merda: E aí Kats, como foi com o Diretor Nezu?
Fita Adesiva: Ele ainda deve estar no meio dessa tal "reunião" cara, vamos deixar ele em paz por enquanto, você sabe como o Bakugou é, ele com certeza não está no melhor humor depois... Daquilo.
Alienígena Rosa: Sero! Nós combinamos isso antes, nada de falar disso por agora, ainda é muito recente. Nós temos que apoiar o Blasty agora, não ficar relembrando isso.
Fita Adesiva: Foi mal D:
Pikachu: Hahhahaha, primeira vez que não é eu que recebi o sermão!
Cabeça de Fone: Você não tem muita moral pra falar isso não Kaminari... Seu cérebro fritou quantas vezes essa semana já? Sete?
Pikachu: Ei! Não foi tantas vezes assim... Foi no máximo 5!
Cabelo de Merda: Gente, vamos voltar pro assunto em questão aqui? O Kats precisa do nosso apoio hoje...
Alienígena Rosa: SIM! Não sei quando você vai ver isso, Blasty, mas estamos aqui pra você!
Fita Adesiva: É cara, pode contar com a gente!
Cabeça de Fone: Só chamar que a gente aparece.
Pikachu: Qualquer coisa é só pedir, tamo aqui pra ajudar!
Cabelo de Merda: Você tem amigos Kats, não esquece disso :D
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Katsuki encarou as mensagens, uma sensação estranha se formou em seu estômago. Amigos? Que porra é essa? Ele sempre teve seguidores, gente que o admirava e temia, não... amigos. Por que esses idiotas estavam mandando isso? Eles não ganhariam nada com isso. O mais lógico era assumir que ele seria expulso e seguir em frente com isso em mente, talvez eles finalmente trocassem o nome desse grupo para "Kirisquad" ou "Minasquad". Era o mais realista. Não havia motivo para continuarem com essa farsa, fingindo que se importavam... com ele.
Quem em sã consciência iria querer ser meu amigo?
Eu sou Katsuki Bakugou, porra.
O animal raivoso da turma.
O cara que precisou de uma focinheira pra receber a porra de uma medalha de ouro.
Um tremor involuntário percorreu seus braços ao lembrar daquele dia. O Festival Esportivo. Ele odiou cada segundo daquela cerimônia. Aquela medalha era lixo. O Meio-a-Meio não lutou pra valer, ele se segurou descaradamente.
É um insulto ele ter lutado se segurando daquele jeito!
O vilão foi eu por não querer aquela merda de medalha?
E a focinheira... aquela maldita focinheira.
Como se eu fosse um cachorro perigoso que precisasse ser contido...
Ele não era um animal. Ele só não queria um prêmio por uma vitória vazia, humilhante, não merecida.
Bakugou balançou a cabeça com força, tentando afastar as lembranças amargas. Ele tinha que responder àqueles idiotas. Eles... pareciam sinceros. Por alguma razão incompreensível para ele.
Talvez... talvez eles realmente se importem?
—Tem gente burra pra tudo né.
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Bakusquad — Novas mensagens
Você: To no metrô indo pra casa agora.
Você: E o rato me deu 14 dias pra provar que ainda posso continuar na U.A mesmo sem meus poderes. No fim vou ter que fazer um teste de luta contra o Aizawa-sensei, e se eu conseguir impressionar, eu continuo na merda da U.A. Se eu não impressionar... bem, vocês tem um cérebro, então usem ele pra saber o que acontece comigo se eu falhar.
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Assim que a última mensagem foi enviada, os indicadores de "digitando" apareceram sob os nomes de quase todos no grupo.
Cabelo de Merda está digitando...
Alienígena Rosa está digitando...
Fita Adesiva está digitando...
Cabeça de Fone está digitando...
Pikachu está digitando...
Ah, merda. Não.
Katsuki definitivamente não tinha energia ou paciência para um interrogatório ou uma sessão de pena em grupo agora. Ele precisava de silêncio. De paz.
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Você: Preciso pensar, vou desligar o celular por um tempo. Não façam perguntas idiotas pra mim, não vou responder.
Você: E sim Pikachu, essa última linha é exclusiva pra você.
Pikachu: D:
Pikachu: Ei! Eu não sou tão idiota assim! Vcs só falam isso pq todos vcs são uma espécie de super gênios com seus poderes ou coisas assim...
Cabelo de Merda: Desculpa cara, mas não é exatamente muito difícil ser melhor q vc academicamente falando
Cabeça de Fone: Exatamente, você não ficou em 20° lugar na prova semestral?
Alienígena Rosa: Sim! Vc não é muito brilhante Pikachu!
Pikachu: Você não pode falar muito de mim Mina! Vc tb ficou num ranking bem baixo!
Alienígena Rosa: ...Huh! Touche!
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Bakugou desligou a tela do celular antes que mais mensagens chegassem, guardando-o no bolso. Ele encostou a cabeça na janela novamente, fechando os olhos. Tanta coisa pra pensar... O principal era: o que raios ele ia fazer? Ele não tinha um plano. Não tinha a menor ideia de como começar.
Preciso ficar mais forte.
Mais rápido.
Mais inteligente na luta.
Talvez... equipamento?
Aizawa luta sem depender tanto da quirk dele... ele usa aquelas faixas.
—Você realmente se comparou ao depressivo do Aizawa?
A mente de Bakugou começou a correr, buscando fragmentos de ideias e possibilidades remotas.
Técnicas de luta... talvez alguma coisa antiga, sem depender de poder bruto?
Merda, por onde eu começo?
Quatorze dias. O relógio estava correndo. E Bakugou não tinha a menor ideia do que fazer.
Muita coisa estava passando pela cabeça de Bakugou naquele momento, ele precisava de tempo para pensar, planejar, treinar. Mas isso era tudo que ele não tinha naquele momento, ele estava limitado a duas míseras semanas. Quatorze dias. Katsuki teve a vida toda para treinar e lutar com seu poder... Seu antigo poder. E agora, Aizawa quer que ele consiga provar que consegue batalhar sem eles? Em tão pouco tempo? Isso é impossível!
Maldito Aizawa...
Depois do que pareceu uma eternidade, Bakugou sentiu o metrô finalmente parando. De propósito, ele pegou uma linha do metrô que parava ainda meio longe de sua casa. Andar ajudava ele a pensar. E ele precisava desse tempo andando sozinho. Sua mente precisava disso.
Assim que a porta do metrô se abriu, Katsuki se levantou e passou por ela. Começando a andar pelo velho caminho de sempre. Ele via as pessoas andando, nas suas próprias vidas – vendedores, trabalhadores de escritório, pedreiros, professores – trabalhadores comuns, pessoas que teoricamente ele deveria se tornar responsável de proteger, de zelar. Normalmente, ele veria todas essas pessoas como extras, pessoas que não sabiam, que não tinham a capacidade de se defender, e precisam de heróis para fazer o trabalho difícil. Agora, andando entre eles, é como se... ele estivesse nesse meio agora.
Porra... esse não é meu lugar!
Eu sou um herói.
Eu deveria estar na U.A. Nós novos dormitórios com aqueles merdinhas.
Não... aqui, nesse meio.
Katsuki repetia isso como um mantra.
—Você realmente acredita nessas palavras?
—Tsk... patético.
Bakugou estava se sentindo nu – exposto, vulnerável – no meio de toda aquela gente. Andando entre eles, entre os... extras. A cada passo dado pelas ruas, ele sentia os olhares nele, alguns reconheciam as vestes da U.A. Outros o reconheciam por causa de sua performance no Festival Esportivo. Ninguém falava com ele, eram só olhares curiosos e sussurros. Malditos... Estão olhando o quê? Cuidem das próprias vidas seus idiotas! Ele deu um olhar severo para todos aqueles que olhavam para o mesmo. Pelo menos isso ele ainda tinha, porque aqueles que viram isso pararam de olhar imediatamente.
À medida que ele saia da área comercial, a quantidade de pessoas ia diminuindo rapidamente, junto com o barulho e todo o acúmulo de estímulos do ambiente mercantil. Isso ajudava sua mente a se acalmar, e a se preparar para a inevitável conversa que viria... com seus pais. Sua mãe na verdade. Desde que ela se separou do Masaru, as coisas têm estado até mais estáveis entre eles dois – Katsuki e Mitsuki – dentro do possível com os Bakugou, obviamente. Mas, aquela ainda era a velha bruxa de sempre, então a conversa seria tão fácil quanto o esperado.
Chegando na porta de sua residência, ele já dá um suspiro antes de entrar. Ele abre a porta sem pensar muito mais nisso. E ele já consegue ouvir a velha bruxa gritando do quarto. "Katsuki? Eu ouvi a porta abrindo. É VOCÊ MOLEQUE?!" Mitsuki gritou – especialmente a última frase – do outro lado da casa, de seu quarto possivelmente.
"SOU EU SIM, VELHA BRUXA! QUEM MAIS PODERIA SER EM?!" Katsuki gritou da sala, fechando a porta em seguida. Ele se sentou no sofá logo depois, finalmente respirando um pouco. Olhando para a televisão em sua frente, desligada, ele consegue ver seu reflexo nela, ele parecia... O mesmo de sempre, mas quem o conhecia, quem convivia com ele com frequência, saberia ver as pequenas diferenças. Seus olhos estavam mais vermelhos que o comum, ele estava mais instável, mais volátil, falando menos.
Katsuki ficou ali sentado, observando seu próprio reflexo. Pensamentos e pensamentos invadiam sua mente. O que ele faria? Tinha o que fazer? Eu tô me perguntando sobre essa merda o dia todo, e não consigo achar uma solução sequer...
Será que tem realmente algo a se fazer?
Alguns minutos após ele se sentar, Mitsuki chegou e o viu ali. Ela não falou nada, apenas ficou olhando seu filho ali, com o olhar vazio olhando seu próprio reflexo na televisão. Katsuki viu ela chegando, mas não disse nada, nem sequer reagiu. Ele estava muito preso em sua própria mente para dar atenção a qualquer outra coisa. Mitsuki sentou-se ao lado de seu filho, também olhando para o reflexo – agora deles dois – na televisão.
Eles dois são realmente muito parecidos, Mitsuki consegue ver isso mais facilmente agora. Ela sempre viu, mas agora estava muito mais... óbvio. Ela consegue se imaginar nessa situação, perdida, acabada... Morta. Ela é a mãe desse garoto orgulhoso, ela sabe que se depender dele, eles nunca falariam sobre essa situação. E sinceramente? Ela preferiria que fosse assim. Falar disso seria como admitir que isso é real, que não é um sonho, um pesadelo. É real.
Mas, não é questão de querer. Vai ser desconfortável para ambos, mas eles precisam falar disso, gostem ou não. E Mitsuki tem noção disso, então, ela dá o primeiro passo. "E então... o que eles falaram?"
Um, dois, três, quatro, cinco... os segundos se passavam, e nada. Nenhuma resposta. Katsuki mal piscava enquanto olhava seu próprio reflexo, e depois de dez minutos nesse silêncio, Mitsuki estava considerando subir novamente até seu quarto, e deixar seu filho ter algum momento de paz, ele deve estar precisando depois dos eventos recentes. Mas quando esse pensamento veio a sua mente, Katsuki finalmente disse algo, sem desviar o olhar do reflexo.
"Duas semanas... eles me deram míseras duas semanas." Katsuki falou sem rodeios, a voz muito mais baixa que o comum agora. Era quase... melancólico?
Mitsuki também ficou surpresa com isso. Ela nunca via esse Katsuki na sua frente, era sempre o Katsuki orgulhoso, vencedor, aquele que não tinha medo de nada e resolvia tudo com uma explosão. Mas esse na sua frente... esse Katsuki era diferente. Ele estava preso em seu próprio mundo, com as mãos apertando o short com força enquanto olhava para frente fixamente. E isso era só o que ela conseguia perceber por enquanto. "Para o quê? Duas semanas para o quê?"
"Para... para eu provar que ainda posso ser um herói, que ainda sou digno de estar na U.A." Katsuki fala enquanto seu pé bate contra o chão em um ritmo irregular, baixo demais para incomodar, mas alto o suficiente para perceber o infortúnio na sua mente. "Pelo que entendi, o Aizawa, meu antigo professor, vem aqui amanhã para... oficializar tudo, algo assim. Vão trazer um documento ou alguma merda assim."
Mitsuki estava pronta para xingar aquele colégio o máximo possível, mas, uma palavra no que Katsuki disse fez ela travar por um momento... Antigo. Esse moleque disse "antigo professor"? Não me diga que... Não. "Moleque... VOCÊ NÃO ESTÁ PENSANDO EM DESISTIR NÉ?!" Ela fala enquanto se levanta abruptamente do sofá, com os olhos fixos em seu filho.
Katsuki parou por um segundo, o olhar arregalado. "Hã?!" Ele disse enquanto também começa a olhar fixamente para sua mãe – virando a cabeça pela primeira vez na conversa – mas sem se levantar. Ainda. "Desistir? É CLARO QUE NÃO VELHA BRUXA! O QUE TE FAZ PENSAR ISSO?!" Ele fala, tentando se convencer mais do que tudo ao falar que não desistirá.
"Não minta para mim moleque! Eu te conheço melhor do que você mesmo, eu sei quando você está em dúvida." Mitsuki fala enquanto cruza os braços, o olhar mais afiado do que nunca agora.
Katsuki queria se defender e falar que a velha bruxa estava vendo coisas onde não existia nada, mas... ele não conseguiria fazer isso. Ele é muitas coisas, mentiroso não é uma delas. Então... ele fica em silêncio, sem nada falar. Também, tinha o que falar? Como alguém como ele poderia falar sobre isso? Ele foi feito para lutas, ação, porrada e explosão! Não para sentimentos. Ele sabe lidar com vilões, lutas, treinamento, e tudo envolvendo coisas físicas. Mas sentimentos? Katsuki não lidava com sentimentos, ele explodia eles. Acontece que explodir não é mais uma opção para ele.
"Vamos! Me diga! Você vai realmente desis-" Antes que Mitsuki pudesse continuar, Katsuki se levantou. Rápido. Um passo e ele já estava cara a cara com sua mãe.
"E o que eu deveria fazer?!" A voz saiu em um berro, a garganta ardia. Ele rangeu os dentes. Katsuki consegue sentir sua mandíbula tremendo de tanta... Raiva? Confusão? Medo? Ele não sabe identificar, talvez seja até os três ao mesmo tempo. "É isso que você queria ouvir? Hein?! Eu não sei o que fazer, velha bruxa. Eu. Não. Sei." Katsuki grita enquanto olha diretamente nos olhos de sua mãe, ele estava guardando isso a muito tempo, ele precisava falar isso em voz alta, pelo menos uma vez.
Mitsuki olhou para seu filho com os olhos agora arregalados. Ela já tinha visto Katsuki em muitas situações, em todas na verdade. Ela é sua mãe, afinal! Mas... Isso? Isso ela nunca tinha visto. Nunca de forma tão solta e verdadeira pelo menos. Ele sempre foi orgulhoso, e preferiria sofrer do que liberar seus sentimentos e externalizar ele de formas minimamente saudáveis. Sua forma de externalizar era treinar, lutar, se esforçar para ser o melhor, para estar no primeiro lugar futuramente. Mitsuki não conseguiu dizer nada vendo isso, ela apenas ficou em silêncio. Ela conseguia sentir em seu coração que Katsuki ainda tinha mais para falar. Muito mais.
"E-eu... eu per-" Katsuki tentou falar a palavra, mas ele não conseguia direito. Ele nunca admitia derrotas. Nunca, nunca, nunca.
Foda-se.
Vou falar essa merda de uma vez.
"E-u... Eu perdi meus poderes. Tudo que me fazia forte. Especial." Katsuki tentou parar de falar tudo isso, mas ele não conseguia mais. Ele começou isso, e agora ele precisava terminar.
"Você consegue entender essa merda, velha bruxa?! Eu nãosou mais especial. Eu sou... só mais um." A voz dele vacila no final. Baixa. Como se estivesse desmoronando de dentro pra fora. Ele não tinha mais forças para guardar tudo isso. "Tudo que eu era... tudo... foi construído em volta dos meus poderes." Ele respira com dificuldade. "Como eu vou viver sem isso...? Como eu vou me olhar no espelho e ainda me reconhecer...?"
Mitsuki não tinha uma resposta para isso. Não uma resposta que alegraria seu filho. Por um momento, ela conseguiu ver... água nos seus olhos? Ele estava se segurando para não chorar? O seu Katsuki? Isso é... novo, muito novo. Ela nunca pensou que o veria chorar depois... daquilo. Mas isso faz muito tempo, anos na verdade. As coisas podem ter mudado... as coisas definitivamente mudaram. Mitsuki consegue ver melhor o brilho nos olhos de seu filho agora. Pequeno. Aquele brilho que vem antes da queda.
"Sem minhas explosões... o que sobrou de mim? Me diz, velha. Me diz... quem eu sou sem meus poderes?" Ele aperta os olhos, como se isso fosse barrar a água que se acumula ali. Uma respiração trêmula escapa. Merda... eu não vou chorar, eu me recuso a isso. "É isso que eu sou agora... um nada. Um inútil. Um... De-" Ele engole a palavra, mas ela já foi pensada. Já foi sentida. Deku. Ele estava prestes a se chamar de Deku.
A comparação o atinge mais que um soco no estômago. Pensando nisso agora, Katsuki percebe que as coisas realmente se inventaram. Antes, ele estava no topo, tinha o melhor poder, tinha o futuro garantido, a vida feita, tinha tudo. E Deku estava lá embaixo, era o merdinha inútil que não tinha nada, era quem não tinha individualidade, quem não tinha utilidade para o mundo. Agora, tudo virou ao contrário. E o pior... ele não consegue odiar isso. Não de verdade. Katsuki não consegue dizer que não merece isso. Ele merece.
Katsuki não é idiota. Ele sabe que o que ele fez foi errado, ele sempre soube disso. Para ser totalmente sincero, ele não se importava muito com Deku, pelo menos no início. Ele tinha muita raiva guardada, e muitas outras questões para resolver. E Deku foi o infeliz que teve o azar de despertar todas as suas inseguranças, ele só apareceu no lugar errado e na hora errado, e isso foi o suficiente para Katsuki fazer o que fez. Tantas e tantas vezes.
Deku...
Ele é tudo que eu nunca fui.
—Ainda bem que você sabe disso.
Deku tinha um coração de ouro, ele pulava no perigo para salvar quem quer que fosse, ele não se importava com o passado das pessoas, ele focava em salvar elas, e nada mais. Katsuki sabia que não importava quem estivesse preso no vilão de lodo, Deku ajudaria mesmo assim, ele iria correndo mesmo sem poderes independente de quem estivesse ali. Ele sim era um herói de verdade, ele pode – ainda – não ter a postura de um herói, pode não falar como um herói, mas, ele tem ações de um herói. E isso já é muito mais do que Katsuki sonharia em ser um dia.
Antes que Katsuki chegasse em pensamentos perigosos, e afundasse de vez, ele sente. O quê? Ele abre os olhos, e vê algo que nunca pensou que veria. Um braço, depois o outro. Apertando seu corpo com força. Sua mãe estava o abraçando.
"Nunca mais!" A voz da mãe treme, reprimida, sufocada. "Nunca mais diga isso, seu moleque estúpido..." Mitsuki fala enquanto lágrimas começam a cair de seus olhos, que agora estavam fechados. O abraço dela é apertado demais, desesperado. Como se seu filho fosse sumir se ela soltasse.
Katsuki estava a centímetros de chorar. Isso foi inesperado, muito mais do que qualquer coisa que ele pudesse esperar para essa conversa em particular. Mas, ele estava se segurando, e vai continuar assim, ele não vai chorar, não importa o que aconteça. Ele não vai deixar essas malditas lágrimas ganharem, não ontem, não hoje, e não no futu-
—?!
"Você é Katsuki Bakugou. Você... você é meu filho! E isso... isso é mais do que o suficiente para você ser a pessoa mais especial do mundo para mim. Não importa o caminho que você escolher, se você vai ficar na maldita U.A ou não, não importa. Você sempre será meu filho! E isso já é tudo que você precisa ser... não esqueça disso... moleque."
A última frase foi uma chave girando dentro dele. Ele fecha os olhos. Uma, duas lágrimas. Depois muitas, e enfim... ele se entrega. Katsuki abraça sua mãe de volta, fraco no começo, depois com força, a mesma força dela... da sua mãe. Ele chora, pela primeira vez em muitos anos. Não é só pelos poderes, é por tudo. Pelo passado, pela culpa, pela raiva... por ainda ser amado mesmo depois de... tudo isso. Sem pensar muito agora, ele enterra o rosto no ombro da mãe, apertando os olhos com ainda mais força. "Eu... eu não mereço todo esse amor." Ele fala em meio a soluços, sem se segurar mais. "Eu não mereço..."
Mitsuki coloca a mão nas costas da cabeça de seu filho, em seu cabelo, apertando contra seu ombro levemente. "Eu sou sua mãe, você não precisa merecer o meu amor, você sempre terá ele, aceite isso... filho. Independente do que aconteceu ou vai acontecer, eu sempre irei te amar, sempre"
Isso parece quebrar Katsuki ainda mais, porque ele se aperta mais ainda no abraço. Os soluços ficaram maiores, mais extensos, e as lágrimas fluíam em maior quantidade, livremente. E assim eles ficam, juntos. Abraçados, mais unidos do que nunca. A última vez que eles tiveram um momento assim foi a... tantos anos. Katsuki ainda era uma criança naquela época.
— — — — — — — — — — — — — — — —
"Mãe..." O pequeno Katsuki, ainda criança, falava enquanto lágrimas grandes e volumosas caíam de seus olhos e molhavam o chão. "Eu realmente sou um... monstro?" Ele perguntava enquanto segurava uma cartinha pequena nas mãos. Carta essa que ele nunca conseguiu entregar a quem deveria receber.
Mitsuki correu para abraçá-lo, ajoelhando-se no chão para ficar no nível de sua altura. "Não! Você não é um monstro, meu filho." Ela abraçou ele com força, sem deixar espaço para perguntas. "Não se preocupe..." Mitsuki olhou para a porta aberta atrás de Katsuki, e a frente dela. Ela tinha coisas a resolver. Muitas. "Eu vou resolver isso meu filho. Você não é um monstro por conta disso... nunca seria."
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Mitsuki balançou um pouco a cabeça, ela não pode pensar no passado agora. Ela tem que focar no agora, no presente. Ela tem um filho com medo na frente dela, e ela precisa dedicar toda a sua atenção para isso agora, não para memórias antigas.
Alguns minutos se passaram, e eles não se moveram e nem falaram nada. Apenas continuam ali, juntos, parados e abraçados. Os soluços já tinham diminuído consideravelmente nesse ponto. Ambos tinham chorado mais do que nunca antes. Eles nunca foram o tipo de mãe e filho super próximos antes, mesmo sendo tão parecidos, então isso é algo muito recente. Mas, é uma coisa boa com certeza.
Então, quebrando o silêncio confortável, Katsuki fala algo baixinho e com a voz um pouco rouca. "Obrigado..." Logo, antes que Mitsuki pudesse perceber, ela sente o corpo de seu filho descansando sobre o seu. Ela ficou surpresa com o peso extra sobre si mesma, mas não o repreendeu por isso, apenas sentou-se devagar no sofá, com Katsuki agora sobre si. Ele deitou no sofá completamente, com a cabeça agora confortavelmente no colo de sua mãe.
Mitsuki relaxa um pouco com isso, e murmura algo para seu filho, que já estava quase adormecendo agora. "Durma, filho. Você vai precisar..." Ela começa a alisar o cabelo dele com a mão, bem levemente, como se tentasse lhe passar uma sensação de conforto através do toque. Com os olhos já fechados e sonolentos, Katsuki vai rapidamente adormecendo.
Agora, Mitsuki consegue ver o peito de seu filho subindo e descendo, inflando e esvaziando em um ritmo calmo e constante. A respiração pesada, mas tranquila, denunciava que Katsuki havia finalmente adormecido. Ela ficou ali por um instante, apenas observando-o em silêncio. Faz anos que ela não o vê assim, tão vulnerável, tão calmo. Mesmo quando era pequeno, Katsuki sempre foi agitado, cheio de energia, sempre querendo provar algo para o mundo... ou para si mesmo.
Mitsuki passou os olhos por seu rosto. As pálpebras inchadas pelas lágrimas, os cílios ainda úmidos, a expressão serena, quase infantil. Katsuki, deitado em seu colo. Ele parecia tão longe do garoto explosivo que todos conheciam, ou, achavam que conheciam. Ela tocou de leve sua bochecha com as costas dos dedos, como se tentasse confirmar que aquilo era real. Foi... estranho, tentar conciliar esse Katsuki que sempre foi tão forte e fechado, agora se permitindo descansar nos braços dela.
Mas, ao mesmo tempo que foi estranho, também foi... bom, muito bom. Mitsuki sente que recriou uma conexão com seu filho. Conexão essa que eles tinham parado de ter a muito tempo. Mãe e filho, se aproximando novamente. Ela sentia saudades disso na verdade, muito mais saudades do que ela estaria disposta a admitir.
Um pequeno suspiro escapou de seus lábios. Ela não sabia se era alívio ou dor, talvez os dois. Mitsuki sentiu os olhos arderem novamente, mas conteve as lágrimas. Não queria chorar mais. Pelo menos não agora. Tudo o que ela queria naquele momento era guardar aquela imagem em sua memória. Katsuki adormecido, seguro, acolhido.
Ela se inclinou um pouco, abaixando o rosto até os cabelos dele e depositou um beijo leve ali. "Meu menino..." Murmurou, com a voz contida. Seu coração doía vendo seu garoto naquele estado, mas havia algo de reconfortante naquela cena. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que podia realmente proteger seu filho, não das batalhas lá fora, afinal Mitsuki não é uma lutadora no sentido físico da coisa. Mas, ela podia proteger seu filho dos infortúnios de sua própria mente, ajudá-lo a superar... tudo.
Mitsuki também estava a minutos de adormecer ali mesmo, mas, de repente. Ding dong. A campainha toca. Sério...? Quem poderia estar aqui nesse horário?! Já é praticamente noite... tomara que esse barulho não acorde o Katsuki. Mitsuki pensa enquanto ergue com cuidado a cabeça de seu filho com a mão. Ela se levanta, pegando um travesseiro que tinha ali perto e o colocando com cuidado logo abaixo da cabeça de seu filho, deixando-o apoiado nele. Katsuki fica dormindo ali no sofá.
Já fora do sofá, Mitsuki vai até a porta, não abrindo. Ela antes quer saber quem estava ali. "Quem é?" Ela pergunta, a voz alta o suficiente pra quem quer que estivesse ali conseguir ouvir, porém baixo o bastante para não acordar seu filho.
"É da U.A, me chamo Shouta Aizawa. Sou o principal professor de Katsuki Bakugou. Vim falar com a responsável dele." Os olhos de Mitsuki se arregalaram levemente ouvindo isso. U.A? Mas o Katsuki me disse que eles só viriam amanhã... O que ele faz aqui? Seu olhar imediatamente se tornou mais duro, desconfiado. Querendo respostas, e com uma carranca no rosto visível agora, ela abre a porta, revelando o herói por trás dela.
Aizawa estava com o traje de sempre – o uniforme escuro, a faixa frouxamente enrolada no pescoço – o olhar cansado também estava presente. À primeira vista, parecia o mesmo de sempre. Mas algo ali... estava diferente. Seus olhos, mesmo meio cobertos pelos cabelos mal arrumados, denunciavam um cansaço maior que o habitual. Um tipo de exaustão que não era só física.
"O que você faz aqui? Meu filho me disse que você só viria amanhã com a papelada." A voz de Mitsuki saiu firme, carregada de desconfiança. Ela cruzou os braços e tentou lançar o olhar afiado de sempre, o que costumava deixar muita gente desconfortável. Aizawa não pareceu reagir muito, mas ele reparou. Os olhos dela estavam vermelhos, visivelmente vermelhos, por causa das lágrimas recentes. Aizawa notou isso, e escolheu não comentar.
"Dada a situação, nós... aceleramos as coisas." Aizawa levantou uma pasta preta com a mão, num gesto calmo.. "Aqui estão os documentos oficializando o acordo que fizemos com seu filho mais cedo. Posso entrar para discutirmos sobre?"
Mitsuki analisou o homem de cima a baixo com os olhos. Dos pés à cabeça, sem disfarçar. Havia algo no jeito dele que a deixava inquieta. Esse olhar, essa postura cansada, essa ausência de reação... Mitsuki não confiava nele. E Aizawa sabia disso.
E como Aizawa poderia culpá-la? A U.A falhou com o filho dela. Deixaram que a Liga o sequestrasse, não conseguiram protegê-lo. E no fim, isso resultou em seu filho voltando para casa destruído e sem poderes. Como ela confiaria de novo? Como ela olharia para Aizawa – para qualquer um da U.A. – sem sentir raiva? Aizawa sustentou o olhar dela. Não se defendeu. Porque, em partes, ela estava certa nisso. Ela está me julgando. Ela tem esse direito.
"Humph. Entre e me siga." Mitsuki respondeu, abrindo espaço na porta. Seu tom era ríspido, mas controlado. Ela não gritava – ainda – mas havia tensão em cada palavra. Aizawa entrou com um aceno quase imperceptível e fechou a porta atrás de si. "Vamos até a cozinha, a sala está ocupada no momento." Mitsuki fala, enquanto acena para ele a seguir.
Sem esperar resposta, Mitsuki começou a caminhar pela casa, e Aizawa a seguiu em silêncio. Os pés dela tocavam o chão com firmeza. Os ombros, que antes estavam baixos após o choro com o filho, agora estavam erguidos e tensos. Ela estava em guarda, completamente alerta. E Aizawa sentiu isso. Cada passo que dava atrás dela parecia entrar em território hostil. Não havia gritos, nem acusações... mas o julgamento estava ali. Vivo, pulsante e silencioso.
Assim que eles chegaram na sala, a primeira coisa que Aizawa focou seu olhar foi em Katsuki. Seu aluno raivoso, irritado e explosivo... que aparentemente estava dormindo pacificamente. Ele notou as lágrimas secas no seu rosto, a expressão quase infantil dormindo, e isso tudo combinado com os olhos vermelhos de Mitsuki. Eles estavam... chorando? Os Bakugou...? Chorando? Os olhos de Aizawa se arregalaram com isso, ele não estava esperando por isso. A mãe chorando? Sim, isso era compreensível. Mas Katsuki? O Katsuki que ele conhecia? Não. Isso não.
"Ele está... bem?" Aizawa pergunta de forma meio hesitante, girando levemente a cabeça para direção de Mitsuki, que também estava olhando para Katsuki assim que entrou na sala.
"Meu filho foi capturado por vilões, quase perdeu a vida, perdeu seus poderes, e agora aceitou um acordo impossível para continuar no seu tão ''renomado" colégio" Mitsuki enfatizou bem as aspas imaginárias na palavra renomado, gesticulando com as mãos. Ela realmente perdeu a fé na U.A. "Como você acha que ele está? Senhor?" A voz de Mitsuki saiu dura, rude, e áspera.
"...Perdão por perguntar isso." Aizawa realmente não quer tentar se defender disso. Se fosse totalmente sincero, ele acha que Nezu merecia ouvir essas palavras também. Mas, nesta hora, neste minuto e neste segundo, quem está representando a U.A é ele, então ele precisa aguentar isso, precisa lidar com isso.
Mitsuki suspira ouvindo isso, ela quer gritar, xingar, acabar completamente com o espírito desse homem cansado na sua frente. Mas não, ela não pode, por seu filho ela tem que se manter pacífica nessa conversa... o máximo possível para um Bakugou, é claro. Ela gesticula para Aizawa a seguir, a cozinha estava logo à frente. A diferença de espaço entre a sala e a cozinha não era tanto, mas, já deve garantir que eles consigam se sentar e ter uma conversa sem o risco de acordar Katsuki.
Poucos segundos após isso, eles estão na cozinha. Mitsuki vai até a geladeira e pega um frasco com água, servindo um copo d'água para si mesma. Ela não pega nada para Aizawa, e se senta na cadeira que está na ponta da mesa de jantar. Aizawa decide se sentar na outra ponta, mantendo a distância respeitosa – por parte dele mesmo – entre eles.
Mitsuki não permite que isso se torne um silêncio, e logo em seguida já pergunta. "Me mostre e explique o documento, não vou assinar nada sem antes ler."
"Aqui está." Aizawa joga a pasta na mesa, deixando-a próxima de Mitsuki. Enquanto ela abre a pasta e pega as folhas, ele decide explicar tudo verbalmente também. "O acordo é o seguinte. Daqui a quatorze dias – contando a partir de amanhã – eu e seu filho iremos ter uma batalha como teste, eu contra ele. Teremos como platéia os outros principais professores – e heróis – da U.A" Enquanto ele fala, Mitsuki vai lendo o documento em suas mãos, eventualmente tomando um ou dois goles de seu copo d'água. "O resultado dependerá do desempenho dele nessa luta. Se ele conseguir impressionar os outros e a mim, ele continuará na U.A. Se não, ele estará oficialmente expulso."
Após ele terminar de falar, Mitsuki continua lendo o documento, querendo saber todos os mínimos detalhes. Aizawa consegue ver ela passando o olho por cada centímetro do papel, em cada canto possível. "Presumo que será permitido o uso de equipamentos, correto? Para compensar a falta de individualidade." Ela já havia lido a parte do documento que falava disso, mas, ela queria saber diretamente dele.
"Sim, será permitido o uso de qualquer equipamento extra."
Mitsuki dá um suspiro com isso. Bom, pelo menos isso. Ela ainda achava todo esse teste algo impossível de se passar. Mas, pelo menos eles não eram completamente insanos, e deixariam Katsuki usar equipamentos e apetrechos extras.
"Desde que os equipamentos não sejam letais nem para mim e nem para o seu filho. Tudo que não for letal será permitido." Aizawa termina a frase, querendo deixar claro os limites do que será permitido trazer para a batalha.
Letalidade?! E o que seria mais letal do que uma individualidade? Não faz sentido permitirem a quirk dos outros alunos nesses testes, mas bloquearem equipamentos letais. Com isso em mente, as mãos de Mitsuki apertam um pouco o papel em suas mãos. Ela estava se segurando para não amassar aquele papel. Ela queria externalizar esses pensamentos, esses sentimentos. Queria poder gritar, xingar e falar o quanto tudo aquilo era extremamente injusto com seu filho.
Mitsuki fica em silêncio ouvindo isso, e decide continuar lendo o documento, tomando mais um gole d'água. Finalmente, ela chega na última parte, vendo ali a linha onde sua assinatura viria. Ela fica um tempo ali, só observando e pensando em tudo aquilo. Ela pensou muito se deveria assinar aquilo ou não, ela não achava que a U.A merecia seu filho depois de tudo isso, mas... Mitsuki sabia que é isso que Katsuki quer, ele quer ficar nesse colégio, ele quer ser um herói e superar All Might, é o que ele sempre quis. E, não vai ser ela que vai acabar com esse sonho, ela prometeu apoiar o seu filho, e é isso que ela faria.
Sem pensar muito mais, ela pega uma caneta que tinha ali perto, e assina o documento. A forma como ela pega a caneta é pesada, sem paciência, assinando rapidamente e sem um pingo de delicadeza ou formalidade. Em seguida ela pega o papel, coloca na pasta, e joga novamente para o lado da mesa onde Aizawa está.
"Pronto, aí está, pode ir embora agora." Mitsuki fala sem rodeios, enquanto se levanta para deixar o seu copo d'água agora vazio na pia.
Aizawa pega um dos papéis que tinha na pasta e deixa na mesa, antes de se levantar. Mitsuki reconhece aquele papel em específico. Era o papel falando das regras do acordo, e o que Katsuki podia ou não levar para a batalha. "Vocês podem ficar com esse papel, nós só precisamos ficar com a assinatura."
"Ótimo, agora, sinta-se livre para ir embora." Mitsuki fala sem nem olhar nos olhos do homem. Ela estava lavando o copo, e dando mais importância para o objeto do que para Aizawa agora.
Aizawa solta um suspiro ouvindo isso. Não houve nenhum grito ou violência física desde que ele entrou nessa casa, então de certa forma tudo se resolveu de forma pacífica, e sem que ninguém se machucasse. E normalmente ele consideraria isso uma vitória. Mas, toda essa hostilidade no ambiente, a dureza na voz de Mitsuki, toda essa... tensão. Essa situação está conseguindo ir de mal a pior em uma velocidade impressionante.
"A U.A, nós – eu – sentimos muito pelo que aconteceu. Esperamos qu-" Antes que Aizawa pudesse continuar falando, um crack pode ser ouvido de onde Mitsuki estava. O copo de vidro. Mitsuki quebrou o copo que estava lavando com as mãos, e quando ela virou para ficar cara a cara com Aizawa, ele pôde ver as veias quase saltando no rosto dela. Seja o que for, deixou ela muito mais irritada do que antes.
Mitsuki andou com passos pesados até Aizawa, diminuindo a distância entre eles consideravelmente, invadindo o tão prezado espaço pessoal dele. "Escuta aqui, seu herói miserável de terceira categoria." A voz de Mitsuki sai como se fosse veneno, afiada e cheia de um ódio preso na garganta. Mas ao mesmo tempo, baixa e meio contida. Ela não estava gritando, mas mesmo assim a voz se mantinha firme e resoluta. "Pare de fingir que se importa com meu filho."
O olhar de Mitsuki fica mais afiado do que nunca com isso. Seus olhos se fixam nos de Aizawa, sem piscar por um segundo sequer. Sua mandíbula treme levemente e seus punhos se fecham com uma força impressionante, deixando as pontas dos dedos brancas de tão forte que ela está apertando. "Você não se importa com meu filho, vamos deixar isso muito claro. Você não está aqui porque se importa com ele, e não está aqui pra pedir desculpas a ele por conta do fracasso da U.A em protegê-lo. Você está aqui por conta de um documento, por conta de um pedaço de papel." Com isso, Mitsuki se aproxima ainda mais de Aizawa, para falar diretamente no ouvido dele agora. "Por isso, eu repito. Não finja que se importa com o meu garoto, com o meu filho."
Aizawa é um herói experiente, ele já enfrentou muitos vilões em sua vida, e esteve cara a cara com muitos que fariam uma grande parte dos heróis saírem correndo de medo. Logo, ele não se assusta fácil, ele não se assustou com a fala da mãe de seu aluno. Ele sustentou o olhar, também sem piscar nenhuma vez, absorvendo cada fala. Visivelmente, parecia que ele não deixou isso o afetar. Mas quem o conhece saberia ver. O olhar dele ficou um pouco mais caído ouvindo aquilo tudo, e sua postura geral parecia mais tensa agora. Eu me importo, senhora. Muito, com todos os meus alunos, incluindo o seu filho. Aizawa queria poder falar isso, mas, ele sabia quando tinha que recuar, e a mãe na frente dele não estava com a cara de quem aceitaria o que ele tinha a dizer.
"Saia. Saia da manha casa agora!" Mitsuki enfatiza a última palavra, aproveitando que está falando a poucos centímetros do ouvido do homem para elevar um pouco a voz já naturalmente alta.
Aizawa não tentou lutar contra isso, ele apenas se virou e começou a andar em direção a porta. Mitsuki o acompanha de perto, querendo garantir a sua saída. Já na porta, Aizawa se vira para sussurrar algo antes de ir embora. "Diga a ele que desejei bo-" Mitsuki não dá tempo dele falar mais nada, e só bate a porta na cara do coitado.
Com isso Mitsuki solta um suspiro alto, finalmente conseguindo relaxar um pouco. Seus ombros caem e ficam menos tensos, como se uma pedra gigante estivesse saído de suas costas. Ela volta para sala, e vê seu filho ali, dormindo em paz. Contente com a visão que está vendo, Mitsuki pega um cobertor e cobre seu filho. Se aproximando levemente dele, ela fala baixinho para ele. "Durma bem." E deposita um beijo leve em seu cabelo, como antes tinha feito também.
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Katsuki sentiu a visão retornando lentamente. E instintivamente ele passou os dedos nos olhos, sentido... remela nos olhos? Mas que merda é essa? Não é que isso não fosse comum, mas nessa quantidade? Isso não aconteceria a não ser que... Oh, merda. Katsuki então começa a se lembrar de tudo que aconteceu, da "conversa", do desabafo, do choro, das lágrimas, das palavras de carinho... Imediatamente, ele sente o rosto avermelhar e aquecer.
Isso... realmente aconteceu?!
—Infelizmente.
...
No fundo, ele esperava que tudo aquilo tivesse sido um sonho. Um sonho bom demais para ser realidade... a parte que sua mãe aparece pelo menos. Mas, agora, ele consegue se lembrar de tudo, de cada detalhe.
Minha mãe... agindo daquele jeito?
Mas por quê?
—Você é burro?
Katsuki sabia o porquê. A mãe dele o ama, e sempre vai amar. Agora, ele tinha noção disso. Porém, ele ainda não consegue entender o porquê alguém seria assim com ele, mesmo sendo... sua mãe.
Já cansado de estar deitado, Katsuki pega o forro e joga ele pro lado, se sentando no sofá, de frente pra mesinha que tinha ali. Passando os olhos no ambiente, tudo parecia estar normal... É de madrugada – talvez uma ou duas da manhã – e Katsuki podia perceber isso pela lua lá fora, a escuridão, e o silêncio absoluto que pairava por tudo. E isso é bom, ele gosta do silêncio, ele precisa disso depois do dia que teve.
Na mesa da sala frente ao sofá, Katsuki também consegue ver dois papéis, um maior parecendo um documento, e outro menor, em que ele reconhece a letra de sua mãe ali. Pegando o de sua mãe, ele rapidamente lê o que está escrito.
— — — — — — — — — — — — — — — —
"Seu professor veio aqui mais cedo, ele trouxe os documentos sobre o teste de batalha que você vai fazer daqui a duas semanas contra ele. No papel tá as regras tudo moleque, lê essa desgraça com cuidado em!!! Se precisar de algo vou estar lá em cima trabalhando"
— — — — — — — — — — — — — — — —
HUM?! O aizawa veio mais cedo pra cá?
Mas ele falou que vinha amanhã... que merda estranha.
Katsuki tentou não pensar muito nisso, e focou sua atenção imediatamente no outro papel. Ele o pegou com cuidado considerável, esse era o documento com todas as regras que ele tinha que seguir, ele não vai perder isso. Então, ele começa a ler do começo ao fim, cada parte.
Em geral, as regras são tudo que se poderia esperar. Não são diferentes das regras normais que ele normalmente era obrigado a seguir quando tinha treinamentos na U.A. O local da luta também era um que ele lembrava. A praça central da U.A em? Eu me lembro disso. Foi onde a gente lutou contra os professores antes daquela merda de acampamento. Mas, uma regra chamou sua atenção. Equipamentos não letais permitidos? Ele deu um foco especial nessa parte. Pelo visto, todo e qualquer equipamento que não seja letal em sua natureza pode ser usado.
Então, eu não poderia usar uma katana, mas poderia usar uma katana de madeira?
Tsk... que merda chata.
—Cada dia mais hipócrita. Como eu gosto!
A parte dos equipamentos especificamente não letais foi uma merda, mas, pelo menos, ele poderia usar equipamentos. Isso já é melhor do que nada, e, essa também foi a última regra do documento. Humph... então é só isso? Parece as mesmas regras do treinamento contra os professores. Ao menos, Katsuki já sabia o que esperar. Ele sabe como Aizawa luta, e conhece o ambiente em que eles lutarão, ele tem que usar isso ao seu favor.
Guardando o papel novamente na mesa, Katsuki se levanta do sofá – se alongando levemente – ele quer aproveitar a madrugada para sair um pouco, andar nesse silêncio e escuridão sempre o ajudou a botar as coisas em ordem. Mas, antes disso, ele precisa checar algo... sua mãe. Ele a conhecia, e sabia que ele provavelmente ficou trabalhando até tarde depois que ele dormiu no... colo dela.
Tsk...! Ainda não acredito que aquela merda aconteceu.
—Somos dois.
Ele pegou o cobertor do sofá e o colocou nas costas, andando até o quarto dela, no outro lado da casa. Abrindo a porta, ele vê o que suspeitava, sua mãe estava sentada na cadeira frente a uma pequena mesa, onde seu laptop estava aberto em algum aplicativo estranho de moda que Katsuki não soube reconhecer. Mitsuki estava com a cabeça sobre os braços de bruços, dormindo ali mesmo na mesa, é possível até ver um pouco de baba escapando de sua boca.
Vendo isso, Katsuki dá um suspiro pesado. Ele não gostava quando sua mãe trabalhava até tão tarde assim. Pelo que sabia, ela estava fazendo alguns freelas fazendo roupas de moda, pra conseguir algum dinheiro extra além do trabalho dela. Eles não precisam necessariamente disso, mas, isso ajuda a não passar o mês beirando no vermelho. Depois que ela se separou, eles tiveram que mudar de casa – para uma consideravelmente menor – em um lugar pior, mas com o aluguel bem menor também.
Acho que esse é o preço que tivemos que pagar no fim para parar de morar com aquele merda. Masaru traiu Mitsuki faz mais de um ano, foi com alguma secretaria qualquer pelo que ele sabe. Katsuki realmente não se importa com quem seja, ele vai odiar a mulher – ou homem, nunca se sabe – da mesma forma. No início foi... complicado. O processo de divórcio foi pesado, e viver só Katsuki e a mãe na casa, depois de tanto tempo acostumado com ter o pai ali. Mas, eles conseguiram se acostumar, e hoje em dia eles até estão mais estáveis mentalmente do que antes por conta disso, eles vem se aproximando lentamente desde o dia que souberam da traição. Não era nada muito perceptível, mas hoje isso se provou... servir de algo. Eles – filho e mãe – tiveram um bom momento ali.
O lado ruim absoluto de tudo isso? Dinheiro. Masaru ganhava consideravelmente mais do que Mitsuki com seu trabalho. E quando Masaru finalmente saiu de suas vidas a mais de um ano atrás, a renda caiu por mais da metade. Eles tiveram que se mudar da antiga casa – a que ficava perto dos Midoriya – e ir para outra muito menor, em um bairro pior, e tiveram que diminuir bastante o custo de vida. A casa não era ruim, mas comparada à antiga? Era absolutamente pior, tinha só um andar, sem porão ou sótão. Um único banheiro, dois quartos, uma cozinha e uma sala. Algo bem básico para duas pessoas.
Katsuki até vendeu muitas de suas coisas no início quando eles se mudaram, para ajudar a mãe. Hoje em dia, seu quarto já tem bem menos coisas do All Might por exemplo, ele vendeu boa parte dos bonecos. E... merda, ele não queria se lembrar do antigo herói número um agora.
All Might... ele perdeu o poder, porque eu fui muito fraco e não pude escapar daquela merda de Liga.
Que inferno!
Merda, merda, merda!
—Virou masoquista agora é?
Katsuki balançou a cabeça repetidas vezes, ele não podia se afundar em culpa logo agora.
Focando sua mente no presente e a atenção em sua mãe novamente, ele desligou o laptop, fechando-o. E pegou o cobertor de suas costas para cobrir Mitsuki. Katsuki arrumou levemente o cobertor, para não cobrir a cabeça dela, mas sim o resto do corpo. Com cuidado, ele ajeitou o cobertor, garantindo que ela não ficasse quente demais também, já que estava sentada em uma cadeira, e não deitada na cama.
Após terminar, ele se afasta um pouco, olhando para o resultado. Sua mãe ali, dormindo pacificamente após trabalhar tanto... ele precisa dizer algo, mesmo que ela não ouça agora. "..." Mas o que falar? Ele queria ajudar sua mãe... mas como? "Eu vou te ajudar, mãe, eu juro." Katsuki falou, botando a mão levemente em suas costas, como se quisesse apoiá-la após tudo que fez por ele. Todos sabem, ele nunca chama Mitsuki de mãe na grande maioria das vezes, nem quando eles estão sozinhos. Mas agora? Ele não conseguia chamar ela de "Velha bruxa" depois do que aconteceu, não hoje.
Ele saiu do quarto sem fazer barulho, fechando a porta com um click rápido. E caminhando até a sala. Antes, ele passa no seu quarto para pegar um casaco, afinal deve estar frio lá fora, e ele não quer ficar resfriado logo nessa fatídica semana. Em seguida, ele pega um papel e escreve rapidamente que ele vai sair, e pra mãe dele não esperar ele voltar. Vou colar isso na geladeira, ela deve ver quando acordar. Colando o papel na geladeira, ele vai em direção a porta, abrindo e fechando atrás de si.
No segundo em que saiu, ele sente o vento nos cabelos, nos dedos, e em todo seu corpo. Seus lábios imediatamente se secam, e instintivamente seu corpo se encolhe sobre si.
Merda! Que frio todo é esse?
Nós ainda estamos longe da desgraça do inverno!
—Fique agradecido! Talvez o vento consiga jogar para longe seus pecados.
—Olha o lado bom aí.
Que Katsuki não gostava do frio é conhecimento geral. Mas, isso era em grande parte por conta de seu antigo poder. Ele precisava suar para usar suas explosões em completa potência, e o frio não ajudava nisso, pelo contrário, piorava tudo. Ou seja, ele era mais fraco no inverno. Antes. Hoje em dia isso não faria tanta diferença.
Ele começa a andar pela rua, sem nenhum objetivo em específico. Katsuki só precisava... andar. Fazer seu corpo se movimentar, ter tempo para pensar em tudo que vai acontecer. Certo... eu posso usar equipamentos então né? Mas o que raios eu usaria?! Eu nunca precisei de equipamentos fora das minhas antigas luvas. Isso é verdade, todo e qualquer equipamento que ele usava girava em torno de seu poder, sem as explosões, tudo aquilo se tornava inútil. Eu não sei usar nenhuma arma... e eu sinto que ir pra essa luta de mãos nuas e só uma arte marcial qualquer não vai funcionar, não com o Aizawa. Ele passa o olhar na rua enquanto pensa, tentando ver se algo chama sua atenção, talvez alguma inspiração, qualquer coisa. Mas nada.
Tsk! Que merda... como eu vou fazer isso?
Só duas semanas é pouco tempo demais.
—Eu acho é muito viu. Mas alguém pediu minha opinião? Acho que não.
Katsuki fica pensando enquanto anda pela rua, que, por conta da madrugada, estava incrivelmente vazia. Ele até acha isso meio estranho na verdade, sim, deve ser cerca duas da manhã agora. Mas ainda costuma ter pelo menos alguém nesse horário além dele, não era para estar tão vazio... Katsuki anda um pouco mais agora com isso em mente, até estar ao lado de um beco de pura escuridão, não dava pra ver nem um palmo da sua frente. Ele olha um pouco para o beco, e logo começa a andar para frente, ignorando aquele monte de escuridão.
Mas, antes que ele pudesse seguir em frente... "GRRR!" Katsuki se virou imediatamente para o beco, ficando em sua antiga posição de combate por puro instinto e memória muscular.
Que merda é essa?!
Isso parece um... rosnado? Talvez de um cachorro?
—....Vou nem falar é nada.
Katsuki não é burro, ele não vai arriscar chamar atenção de seja lá o que estiver ali, ainda mais no seu estado atual. Devagar, ele começa a ir para trás, querendo sair do raio de seja lá o que estiver ali.
Só que nunca que as coisas seriam tão fáceis assim de resolver para Katsuki. Assim que o garoto começou a devagar ir para trás, algo pulou na frente dele, vindo do beco. Agora, Katsuki conseguia ver direitinho quem estava fazendo aquele barulho, e puta merda. Ele nunca viu algo assim antes na vida. O bicho – ou monstro, Katsuki realmente não sabia como chamar aquilo que estava na sua frente – tinha dois chifres afiados bem onde ficariam os cílios de alguém. Os olhos eram preto profundos, tanto a pupila quanto o resto. Ele não conseguia ver o resto do corpo direito, mas ele tinha certeza que o monstro também tinha garras. Mas, não foi isso que impressionou Katsuki, o que impressionou foi o sangue, o bicho estava coberto de sangue para todo o lado, principalmente na boca. E ele estava sem um dos braços, que estava... Regenerando?! Que porcaria é essa? Ele sabia que existiam individualidades de cura muito fortes, mas nesse nível? "Mas que porr-"
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Antes que ele pudesse falar ou fazer qualquer coisa. "CRUNCH!" A criatura se lançou sobre Katsuki em uma velocidade abismal, seus dentes afundaram em sua clavícula com um som úmido e repulsivo. Rasgando toda a carne e músculo que tinha ali.
Katsuki travou. Nenhum músculo respondeu. Ele tentou gritar, mas a mão do monstro já tapava sua boca. Fria. Úmida. Forte demais.
"Ora, ora! Olha o que temos aqui...!" A boca dele estava salivando, e abrindo levemente, Katsuki conseguia ver os dentes afiados dele daqui "Fazia um tempo que eu não devorava uma carne tão jovem assim!"
O monstro fala enquanto começa a empurrar Katsuki para dentro do beco, tapando sua boca em todo o caminho. O – ex – estudante a herói até consegue encontrar alguma coragem para se debater e tentar fugir, mas o monstro – aquilo definitivamente não era um animal – era muito mais forte, e conseguia conter ele sem nenhuma dificuldade.
"Você é persistente em garoto, gosto disso!" O monstro fala isso enquanto aproxima a boca devagar de sua clavícula novamente. "Mas... e se eu fizer isso!" Ele começa a morder a clavícula de Katsuki novamente, agora devorando a carne. Os dentes cada vez mais fundo. Nesse ponto, Bakugou acreditava que iria desmaiar ou morrer de tanta dor.
Será que... é assim que morrerei?
Sem conseguir ser um herói?
Sem conseguir me desculpar daquele... merdinha.
Sem... conseguir ajudar minha mãe?
Ao fundo, é possível ouvir passos leves correndo até eles, uma Katana em mãos. "AHHHHH! Que delicioso!" O monstro fala enquanto degusta da carne de Katsuki, que estava prestes a apagar de tanta dor agora. "Ah... Quero MAIS!"
—....
—Patético.
—Desistindo tão fácil assim?
—Aquele poder levou junto a coragem quando saiu desse corpo, pelo visto.
Antes que o monstro pudesse continuar devorando, Katsuki consegue ver ao fundo... fogo? A cabeça da coisa que o devorava de repente foi cortada. Uma katana... de fogo? Que gera fogo? Antes que ele pudesse pensar mais sobre isso, ele sente sua mente apagando, ele estava... desmaiando? Ou morrendo? Katsuki não saberia dizer.
Logo antes de apagar, ele consegue ver o monstro se desfazendo no ar? E a... pessoa que o salvou – era uma mulher, Katsuki conseguiu perceber – vindo correndo até ele? "Ei! Garoto! Você consegue me ouvir?!"
Katsuki desmaiou.
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