Aos poucos Katsuki sentiu a consciência voltar. Piscou, o corpo tenso. Aquilo não era seu quarto. Nem nada parecido com qualquer lugar que conhecesse. O ar estava denso, pesado, quase... surreal. Havia uma mulher ali. Sentada. Observando. Roupas pesadas, tatuagens à mostra. Postura impecável. Ela parecia ter saído de um filme de época, ou de um pesadelo com orçamento bem alto.

"Ah, você finalmente acordou!" Disse ela, como se já esperasse por ele ali. "Ainda bem, pensei que você tivesse morrido, garoto!" Katsuki reconhece essa mulher, ela... foi ela que o salvou. Ela que matou aquele monstro.

Katsuki não respondeu. Seus olhos automaticamente varreram o ambiente, depois voltaram para ela.

As paredes são feitas de madeira, assim como o chão, as portas também são de um estilo mais antigo japonês. Todo aquele lugar lembrava uma casa antiga japonês na verdade. E Katsuki não sabe o porquê, mas sentia como se a gravidade daquele lugar fosse... diferente? Parecia que tudo estava mais leve ali.

Que porra é essa?

"Aonde... onde eu estou?" Katsuki perguntou enquanto se sentava na cama – também feita de madeira – em que estava. Sua cabeça doía, e sua clavícula também. Embora muito menos do que ele esperava, levando em conta a profundidade daquelas... mordidas. Katsuki sentia seu corpo tremendo levemente enquanto se lembrava disso, como ele não morreu?

"Ei! Ei garoto!" A mulher falou enquanto se sentava ao lado dele, sem encostar, mas mantendo sua presença reconfortante ali. "Não precisa se preocupar, você está seguro aqui." Ela deu uns tapinhas de leve nas costas dele. "Aquele monstro já não existe mais, tá tudo bem..."

Katsuki se levantou abruptamente com os tapinhas nas costas, ele odiava toques, mesmo esses. "O monstro... você o matou?" Ele perguntou sem rodeios, precisava saber o que aconteceu.

"Uma coisa de cada vez garoto. Primeiro... nomes! Eu me chamo Aurora Hashimoto" Ela fala enquanto leva a mão para um aperto de mãos. "E você? Como se chama?"

Aurora? Esse nome não é japonês... o sobrenome sim, mas o nome com certeza é estrangeiro. Katsuki pensou enquanto via a mão da mulher na sua frente, ela estava sendo amigável com ele?

Ela nem me conhece.

—Se conhecesse não teria ajudado.

Katsuki olhou ao redor, o estômago afundando. Aquela voz... ele conhecia. Mas ali só havia aquela mulher que o salvou. Nada mais. Ninguém mais.

Devo ter imaginado... que merda louca.

To ficando maluco.

—...

Ele deu um olhar de cima a baixo na mulher. Aurora tem a pele negra de tom claro, olhos castanhos, e era alta, muito alta, quase dois metros inteiros. Seu corpo parecia musculoso e bem treinado, cabelo relativamente curto e vermelho bem escuro. Ela parecia jovem. Talvez a idade de Aizawa... vinte e seis, vinte e oito? Algo assim. Ela tem um anel estranho em uma das mãos também.

Ela vestia um quimono preto justo com gola alta, também calças largas no estilo hakama – um estilo de calça tradicional japonês – e uma faixa branca na cintura. As botas eram tradicionais, sandálias tradicionais na verdade, com perneiras brancas envoltas em faixas. Aurora usava uma capa branca com desenhos de chamas vermelhas, laranjas e amarelas na barra inferior. Também tinha detalhes em... azul? Mas, as coisas mais notáveis eram duas com certeza.

Aurora carregava uma katana na bainha, visivelmente vermelha. A guarda de mão tinha um formato de chama, e era toda estilizada. Mas, mais até que a katana, o que realmente chamava atenção era a marca. Katsuki achava ser uma tatuagem na verdade. Ela tinha marcas que pareciam chamas em todo seu braço, mão, parte do pescoço, e até um pouco no rosto. Entenda, Katsuki não tinha problemas com quem fazia tatuagens, ele não se importava. Só que não importa quantos anos tenham passado, o Japão ainda era o Japão. E as pessoas ali não aceitavam tatuagens muito bem, principalmente essas que são visíveis e impossíveis de esconder.

Bakugou suspirou um pouco com isso. Não vai julgá-la, apenas... não entende, não compreende as escolhas dela.

"Katsuki Bakugou. Esse é meu nome." Ele aperta a mão de Aurora brevemente, essa mulher ainda foi a responsável por salvá-lo, no mínimo ele apertaria a mão dela. "Agora, você pode me falar o que caralhos aconteceu e onde estamos?!" Katsuki rosnou logo depois, cruzando os braços, voltando ao seu tom irritado de sempre. Ele ainda estava boiando sobre o que tinha acontecido, e queria respostas, logo.

Aurora ficou em silêncio por uns segundos após a pergunta. "Olha, garoto, é... complicado, seria melhor você se sentar. Temos muito para conversar."

Katsuki não respondeu isso bem.

Hein?! "É só me mostrar aonde a gente está, porra! Isso não é difícil, é só abrir essa droga de porta." Ignorando o olhar meio confuso de Aurora por conta do xingamento inesperado, ele foi até a porta. "Por exemplo..." Katsuki botou a mão na porta, e abriu sem hesitar.

"Espera, não abra isso ainda!" Aurora tentou impedir, mas ele já tinha aberto, e estava andando para fora da porta.

"O que teria de tão impressionante pra ve-" Katsuki para no meio da frase, os olhos se arregalando imediatamente. "Mas... QUE PORRA É ESSA?!" Ele estava drogado de tanto remédio, essa é a única conclusão possível que a mente de Bakugou conseguiu chegar.

Olhando para todos os cantos, Katsuki viu o impossível. Tem infinitas salas de madeira, salões e corredores. Olhando pra cima, pros lados, pra frente, pra baixo, aquilo parecia se estender infinitamente. A gravidade é outra loucura, as leis da física parecem ter se quebrado completamente. Tinha pessoas andando de cabeça pra baixo, nas "paredes", nos "tetos", em tudo que é lugar que não deveria ser possível.

Salões e corredores inteiros também parecem se mover. Também se tinha dezenas, não, centenas de pessoas andando por aí, treinando com katanas, lanças, kunais, e diversas outras armas. Além de que, muitos dos que estão ali se movimentavam loucamente por todo lugar com pulos que deveriam ser impossíveis sem individualidades. Katsuki atribuiu isso à gravidade do lugar. Algumas pessoas também pareciam sair ou entrar dali, por meio de... portas mágicas que apareciam do nada? Era isso que parecia vendo de longe.

Também tem centenas de corvos voando por todo o local, dava para ouvir seus sons em tudo. A estrutura e layout do lugar parecia ser algo bem típico japonês, embora, tivesse pessoas de diversas nacionalidades ali, ele percebeu isso vendo alguns poucos rostos, mesmo de longe.

"O-o que... o que é isso?" Katsuki não conseguia mais conter a surpresa.

Que merda é tudo isso?!

"Isso?" Aurora anda atrás dele, vendo o ambiente. "Isso é o Castelo Infinito, garoto!" Um sorriso grande estava em seu rosto, e ela olhava para todos os lados.

"Castelo... infinito?" Katsuki murmurou, ainda com os olhos arregalados vendo isso tudo.

"Sim, é um nome bem literal. Não acho que eu precise explicar o porquê do infinito no nome né?" Ela riu um pouco. "Você parece um garoto inteligente, então acho que entendeu... a não ser que você seja mais burrinho do que parece." O rosto de Aurora cai levemente com isso, com uma face meio cômica.

"Ei!" Katsuki rosnou, virando-se para Aurora. "Eu não sou burro, porra!" Ele descruza os braços com isso. "Mas... o que exatamente é esse lugar?" Bakugou olha mais um pouco ao redor com isso, focando especialmente nas pessoas andando pelas paredes. "E por quê tem tanta gente andando nas paredes?!"

"Era isso que eu estava prestes a explicar, garoto! Mas você correu para fora da porta antes que eu pudesse sequer começar..." Ela fica gesticulando com as mãos enquanto fala, como se fosse uma criança apontando que alguém saiu antes da hora. "Bem, pelo menos isso garante que você vai acreditar no que estou dizendo! Hehe..." Aurora tenta rir um pouco, para aliviar a tensão da situação. Mas Katsuki mal reage, cruzando os braços novamente. "Huh... você não tem muito senso de humor né?" Ela levanta as mãos como quem se rende ao sarcasmo da própria piada, fingindo uma ofensa teatral.

"Você nem disse nada engraçado pra eu rir!" Ele sente os punhos apertando quase involuntariamente. "Por que eu riria disso?!" Katsuki estava prestes a dizer mais coisas. Mas...

"Você tem certeza disso?"

"¿Dijo la verdad?"

"He killed himself, for sure!"

"Twój wiatr stał się zbyt słaby"

"Le souffle de l'explosion est bien meilleur que celui des étoiles!"

"A-ah! Mag-ingat ka..."

"Caithfimid a bheith níos láidre, níos mó agus níos mó!"

"Опусти его, идиот."

Dezenas de vozes diferentes invadem sua mente. Japonês, inglês, espanhol, e em outras línguas que ele não conseguia identificar. Todos de uma vez ao mesmo tempo.

"SHING!"

"CLANG!" "CLING!" "CLANK!"

"SWOOSH!" "WHOOSH!"

"THUNK!"

Sons metálicos cortavam o ar e martelavam sua mente sem nenhuma piedade. Tudo explodia dentro de seu crânio – dezenas, centenas – múltiplas vezes. Ele apertou os ouvidos com força, mas o som não parava, nunca.

"MAS QUE MERDA É ESSA?!" Imediatamente Katsuki se arrependeu de ter gritado. Dá pra ouvir a própria voz gritando até dentro de sua cabeça, e é algo infernal de tão alto. Seu corpo começou a tremer de tanto desconforto e dor. "Por que... tá tudo tão alto?!" Bakugou suplica um pouco baixo até demais, fazendo uma anotação mental para tentar não gritar por enquanto. "Eu não consigo... pensar!"

"Merda... já começou?" Aurora murmurou baixinho enquanto se virava para a sala que eles tinham saído. "Vamos voltar, lá dentro estará mais silencioso!" Ela vai na frente, entrando no quarto e segurando a porta para Katsuki. Gesticulando para o garoto entrar, imaginando que por conta do barulho excessivo, ele nem deve ter notado ela falando.

Sem muita escolha, e querendo fazer de tudo para que o barulho parasse, Bakugou a segue. Correndo. Os olhos estavam quase lacrimejando, e as pernas estavam levemente bambas, tanto que ele quase caiu tentando entrar no quarto.

Bakugou entra correndo – ou, tentando – na sala, e Aurora fecha a porta no mesmo momento. Subitamente, o barulho cessa completamente, como se tudo estivesse voltado ao normal. Seu corpo também para de tremer, voltando ao "normal" de sempre, ou seja, pura tensão.

Ele tira as mãos dos ouvidos devagar, e extremamente confuso, embora aliviado pelo barulho agora acabado. "...Parou?" Pergunta ainda com a voz baixa, olhando para os lados e de volta para Aurora repetidas vezes, como se não acreditasse em nada daquilo. Não era para algo assim existir, senão já seria algo publicamente conhecido pelo povo... não é?

"As salas e quartos aqui são... silenciosos, como se tivesse isolamento acústico." A voz saiu calma, pacífica, como se ela quisesse acalmar a confusão de Bakugou. Embora parecesse inútil nesse ponto. "Agora... podemos nos sentar, como eu tinha dito? Você deve ter muitas perguntas, e eu vou responder todas elas." Aurora pegou duas almofadas que tinha ali perto e botou no chão, uma frente a outra, e se sentou de joelhos em uma delas. Dando tapinhas na que estava frente a si, indicando para o menor se sentar.

Mas... co-

—Ora, ora! Sobreviveu, parabéns. Vamos comemorar com mais barulhos metálicos na sua cabeça?

Katsuki esfregou as têmporas com força, os olhos se apertando. Suas pernas estavam rígidas, prontas para correr ou atacar. O que ele sentia não tinha nome. Era medo, raiva, confusão, cansaço, tudo ao mesmo tempo. Ele estava totalmente perdido. Essa mulher não estava fazendo nenhum sentido, o tal do "castelo infinito" menos ainda. E sua audição então? Totalmente incompreensível. Sem falar... nessa voz na sua cabeça, é a segunda vez que ele a ouve.

Mas, Bakugou presumiu que não tinha muita escolha nesse momento, e ele realmente queria explicações, agora. Pensando nisso, ele se sentou também de joelhos na almofada livre frente a Aurora. Tenso. Devagar. Os olhos atentos para qualquer movimento incomum.

"Certo... quer que eu comece por onde?" Aurora oferece um sorriso gentil para Katsuki, que ainda estava com uma postura tensa e em alerta.

"Que tal começar me falando..." Ele respira um pouco, como se estivesse decidindo o que falar. "O que caralhos é esse lugar?!" A voz sai explosiva dessa vez, rápida, e cheia de exigência. "E por quê minha audição estava ligada no duzentos e vinte agora pouco?!" Katsuki tentou manter o volume no mínimo, mas sua voz não ajudava. Ele não estava acostumado a falar baixo, então seu corpo tremeu levemente ao ouvir a própria voz.

Ah! Porra!

Maldita voz...

"Hum... não! Vamos começar pelo começo, é melhor!" Aurora diz com um sorriso, ignorando completamente Katsuki.

Se você iria começar do começo, por quê me perguntou então em?!

—Já gostei dela.

Katsuki odeia ser feito de bobo, mas Aurora parece amar pelo visto. Já que ele conseguia ver um leve sorriso na face dela vendo seu olhar. Sorridente de merda.

"Enfim, vamos pelo início... o monstro que te atacou." A cara de Aurora fica séria quando fala isso. Katsuki franze a testa, o corpo ficando ainda mais tenso, como uma corda.

"Aquele bicho..." Ele murmurou, a mandíbula apertada. "Aquilo era real, né?"

"Era. Um oni." Aurora olhou diretamente para ele. Não havia sarcasmo dessa vez, nem espaço para qualquer dúvida. "Demônio, criatura, monstro... escolhe seu nome favorito, e o chame como você quiser."

Bakugou soltou uma risada curta, sem humor. "Tá brincando comigo?" A risada morreu depressa. "Isso não faz sentido... demônios? Você tá dizendo que existe uma porra de espécie inteira de monstros que comem humanos vivendo escondida por aí?"

Aurora apenas o encarou em silêncio, sem mudar a expressão uma vez sequer.

A risada de Katsuki virou um engasgo. Ele se lembrou do som dos ossos estalando, da mordida na clavícula, da dor afundando todo o seu corpo. Aquela merda aconteceu... eu vi ele regenerando um braço inteiro.

Merda... eu não tô realmente acreditando nessa história de criança né?!

"Se..." Ele hesita, sabendo que perguntar sobre será como admitir que ela pode estar certa. "Se esses tais onis realmente existem... por que ninguém sabe disso?!" A voz saiu mais alta do que o planejado novamente. Assim, seu corpo tremeu de leve, mais uma vez.

Porra! Falar baixo é mais difícil do que parece...

Ouvido desgraçado...

Aurora suspirou, ajeitando-se na almofada. "Porque o público não suportaria saber. Já imaginou o caos que seria causado se o povo comum soubesse disso? Até tentamos no passado... e adivinha? Queimaram os corpos destes junto com os dos onis." Ela estava séria, sem piadinhas agora, sem risos.

"Mas então... o que é você?" A voz de Katsuki tremeu de uma forma involuntária. "Você cortou a cabeça do oni sem dificuldade... e, vou assumir que as pessoas que vi lá fora também fazem o mesmo." Ele pensa em todas as pessoas que viu treinando com armas quando estava fora da sala... Tinha centenas, no mínimo.

"Essa é a parte boa!" Agora, um sorriso se forma novamente no rosto dela, mas, mais singelo e não sarcástico. "Nós somos uma organização escondida do governo. E, nosso principal trabalho é caçar os onis! Somos o..." Aurora faz uma pausa. "Corpo de Caçadores de Demônios!" Ela diz como se fosse a coisa mais incrível do mundo.

Katsuki sente uma gota de suor na testa. "A quanto tempo? Quanto tempo... tudo isso existe?"

Aurora hesita um pouco com isso, essa pergunta sempre acaba sendo muito sensível para a maioria das pessoas. "Faz... séculos, muitos séculos. Incontáveis. Muito antes das individualidades existirem."

"Isso... isso não faz sentido. Onis? Caçadores? Antes das individualidades? Eu vi o fogo na sua katana!" Ele aponta para a katana de Aurora, que estava na bainha, ao lado da mesma. "Se isso for verdade... como vocês matam eles?"

A maior respira um pouco ouvindo isso. Ela estava acostumada com dar essas explicações, mas até a maioria dos outros já tinham parado de duvidar nesse ponto. "Onis só morrem ao entrar em contato direto com o sol." Ela ergueu a mão. "É isso que as lendas dizem, mas... existe outra forma de matá-los." A marca do braço dela brilhou em vermelho incandescente. E então... FOOOSH! Uma chama se ergueu da palma dela, viva, vibrante, quente o suficiente para fazer o suor brotar na testa de Katsuki. Ele recuou instintivamente, os olhos arregalados.

"Isso é a Marca do Caçador." A chama se apagou. "Com ela, usamos técnicas de respiração. E com isso podemos lutar de igual pra igual com onis. E, mais importante... com isso, podemos matá-los." Ela puxou a katana da bainha. "Mas só se for com isso aqui imbuído com a marca."

Bakugou olhou para a espada, fixamente, mal piscando. Os olhos estavam arregalados, e ele conseguia ver seu reflexo olhando para si mesmo. Nada disso tem sentido dentro da sua cabeça. "Então, o que você está me dizendo é que... isso." Ele aponta fracamente para a espada dela. "Não é uma individualidade? Nem... o fogo?"

"Exatamente!" Ela guarda novamente a katana na bainha, e fica mais animada. Finalmente! Será que agora ele acredita? "Dizem que uma criança nasceu com ela, mas ninguém tem certeza disso. Tudo que se sabe é que as marcas vêm se espalhando de caçador para caçador desde que ela surgiu. E, com elas, podemos fazer coisas que você nem imagina."

A mente de Katsuki estava correndo com tudo isso. Parte dele sentia que tudo aquilo era idiotice e historinha pra criança dormir. Mas a outra parte... estava dentro demais disso tudo para negar. A menos de dez minutos ele viu um castelo aparentemente infinito, pessoas andando nas paredes, fazendo pulos impossíveis, e sua audição explodindo de tão sensível. Além... daquela voz.

—Lembrou de mim, é? Que fofo, eu deveria estar lisonjeada com isso?

Ele engasgou isso. Precisava ignorar, não dar atenção.

Porra... eu to realmente ficando louco.

—...Foi você que disse, não eu.

Katsuki começou a lentamente respirar mais raṕido, muito mais do que o comum. Seu peito subia e descia, várias e várias vezes. Ele precisava se acalmar. Rápido.

Se acalma... se acalma porra!

Você não é um animal...

—Realmente... nem um animal ficaria preso em uma focinheira para receber uma medalha.

Cala a boca!

Seu coração começou a bater cada vez mais rápido. Tum-tum-tum. Ele consegue ouvir isso, sentir explodir dentro de sua cabeça. Aquele som estava preenchendo tudo dentro de si, como se fosse explodir bem ali na frente de Aurora.

—Oh! Isso tá mesmo acontecendo? Katsuki Bakugou está tendo um ataque na frente de alguém?

Bakugou começou a apertar o peito ali onde ficava o coração, como se pudesse impedi-lo de cair. Seu olhar caiu para o chão, incapaz de olhar nos olhos da mulher a sua frente agora. Ele respirava pela boca agora, incapaz de se segurar. Sua visão começou a embaçar nas bordas. Ele sentiu a garganta secar, a saliva difícil de engolir.

Um, dois, três, quatro...

Isso funcionou muitas vezes no passado, contar os números devagar na sua mente um por um. Ajudava sua cabeça a ficar em ordem, e a não surtar completamente em momento de instabilidade, que são mais frequentes do que ele admitiria.

—Aprendeu isso com quem? Um psicólogo?

cinco, seis, sete...

—Fresco.

Oito, nove, dez...

—Engraçado... será que o Deku também fazia isso quando você xingava ele?

...

—Acertei onde dói agora né?

Katsuki consegue sentir o coração pulando agora. Estava acelerando muito rapidamente, assim como sua respiração. Ele não vai aguentar.

"Ei, garoto, olha pra mim." Bakugou ignora. Aurora não desiste fácil. Ela se aproxima dele, e bota o dedo em seu queixo, levantando de leve. Isso faz seus olhares se encontrarem novamente. O olhar de Katsuki está encolhido, arregalado. O corpo está tenso, o peito subindo e descendo, a respiração inconstante, e ambas perigosamente aceleradas. Aurora reconheceu isso, ansiedade. "É difícil né? Essa voz dentro de você... falando coisas tão ruins..."

—Hum?! Como ela sabe...?

Aurora estendeu a mão, devagar. Katsuki se encolheu no reflexo, mas não recuou. Quando ela finalmente segurou a mão dele – quente, firme, mas sem forçar – ele não conseguiu soltar. "Respire comigo, garoto." Ela começa a inspirar e expirar, devagar, e olhando diretamente para Katsuki, como se quisesse apoiar ele.

Inicialmente, não faz diferença, e eles ficam uns bons minutos na mesma. Mas logo Bakugou se vê conseguindo acompanhar ela. Com a respiração cada vez mais constante, devagar. E, depois de dez minutos assim, Katsuki finalmente fica mais estável.

O que... ela fez comigo?

Isso... não era pra funcionar tão fácil.

Então por quê foi?

Katsuki não é nenhum profissional, mas tem a mais absoluta certeza de que não é assim tão fácil ajudar alguém que está tendo um surto. A forma como ela respirava, o jeito, a marca... foi como se inconscientemente seu corpo estivesse se acalmando, e com isso sua mente se acalmava junto. É como se por meio da respiração, Aurora estivesse conseguindo fazer ele se acalmar.

Eles ficaram ali, em silêncio. Nenhum piu sequer. Bakugou não queria falar sobre o que acabou de acontecer. Ele não queria, e não iria falar sobre. Eles tinham coisas mais importantes para conversar agora. Bakugou se nega a dar importância a esse ataque hoje. Rapidamente, ele tira a mão do aperto de Aurora, e ela parece entender o recado. Ela se afasta um pouco, voltando para sua almofada.

"Como...?" Katsuki pergunta, com os olhos fixos novamente nos de Aurora. "Como eu não morri? Se o monstro-" Ele se remexe na almofada. "Se o... oni devorou minha clavícula?" Bakugou toca a clavícula de leve com os dedos, sentindo ela inteira. "Ela está inteira, sem nenhum machucado... como?"

Aurora hesitou antes de responder. "Olha, garoto, eu vou ser muito sincera... depois que eu matei o oni, eu fui ver como você estava. E o machucado estava feio, muito feio."

Ele conteve um suspiro com isso. "Feio a que ponto?" Bakugou aperta os punhos, até os dedos ficarem brancos de tanta força. Não queria admitir, mas... ele chegou muito perto da morte. Perigosamente perto.

"Eu até poderia levar você para um hospital, mas não tinha nenhum nas proximidades. E correria o risco de você morrer no caminho se eu te levasse..."

Katsuki cerrou os dentes ouvindo isso. Agora que ele e sua mãe estavam em uma parte mais pobre da cidade, não tinha nenhum hospital nos arredores. Merda, o hospital mais próximo da casa deles ficava a alguns quilômetros de distância... e não era pouco.

Que merda...

"Então... como você conseguiu me salvar?"

"Eu..." Aurora apertou os punhos na calça pensando no que fez, ela falhou de novo. "Um dos efeitos passivos da marca, é que ela dá uma pequena regeneração a quem a tem. Não é muito, e não chega aos pés de qualquer oni. Mas, é o suficiente para curar pequenas feridas, e fazer feridas que seria fatais serem curáveis normalmente. Além de aumentar um – ou mais – dos sentidos de quem a tem, como a visão, olfato, audição..."

Curar feridas? Aumentar os sentidos?

Espera... isso significa que...?

Como se estivesse lendo a mente dele, Aurora responde. "E só existem dois jeito de obter uma marca. Sendo descendente sanguíneo de quem já teve, ou... um marcado pode fazer a marca despertar em outra pessoa, dando seu sangue para ele. E eu estava me sentindo culpada por você. Se eu tivesse chegado mais cedo, você não estaria passando por nada disso, então... perdão!" Aurora abaixa a cabeça em direção a Katsuki, pedindo seu perdão, e se desculpando pelo que fez. "Eu fiz isso sem o seu consentimento, sem perguntar se você queria tal responsabilidade e poder. Foi um ato impulsivo."

Bakugou estava... confuso. Por um lado, ele estava com "raiva" da mulher, ela fez isso sem o consentimento dele, sem saber o que ele gostaria, e ele odiava isso. Por outro lado, ele realmente negaria se fosse informado antes? Não, ele sabe que não. Mas a questão não é essa. Essa é uma responsabilidade que ele não planejou ter, mas agora o tem. Ele supõe que isso é simplesmente a vida, ninguém pediu essas responsabilidades que vem do nada, mas todo mundo as tem. Ele já passou por isso antes, ele não precisou se preocupar com dinheiro nunca no passado, e agora ele vinha se sentindo responsável por isso do ano passado pra esse, por parte disso pelo menos. Essencialmente, pelo que ele gastava.

Mas... mesmo com esses sentimentos conflitantes dentro de si. Ele também sentia... felicidade? Talvez ele pudesse usar isso para ser um herói? Para continuar na U.A? Talvez.

Katsuki respirou pesadamente, como se quisesse afastar os pensamentos, e expressar algum nível de descontentamento com isso tudo. "Você fez isso para salvar minha vida... não é?"

"Sim!" Aurora levanta a cabeça imediatamente, fixando-se nos olhos de Bakugou.

"Nesse caso, tudo bem. Eu não gosto de não ter sido avisado antes. Mas, se era vida ou morte, eu não tenho muito o que reclamar. Prefiro estar vivo do que não estar." Katsuki fala enquanto começa a olhar para seu braço direito, mas não vê nada. "Onde está a marca?"

"Hum... normalmente, ela fica no pulso direito. É bem pequena nesse estado inicial, então você não vai precisar se preocupar em escondê-lá."

Bakugou olha para seu pulso direito, e ali estava. Tem cerca de oito ou dez centímetros de comprimento e três ou quatro de altura. A aparência era de um estilo ornamental e fluido, composta por linhas finas e curvas suaves que lembram um vento leve – ou uma leve brisa de verão – carregando pequenas folhas e pétalas consigo. O desenho da marca se inicia em um ponto mais concentrado e detalhado um pouco acima do pulso – com espirais e folhas maiores – e se estende ao longo do pulso, em direção ao braço, com um movimento que sugere leveza, liberdade e fluidez, como se estivesse se espalhando pela pele naturalmente.

Isso é bem maior do que ele esperava. "Isso vai... crescer mais...?" Katsuki pergunta baixinho dessa vez, ele estava quase hipnotizado pela marca, é bem mais bonita do que ele esperava, e... combinava com ele? De um jeito estranho e belo, simultaneamente.

"Eventualmente! À medida que o tempo passar, e você usar mais a marca, ela vai evoluindo... crescendo, ficando mais forte." Aurora fala enquanto levanta o braço levemente em direção a Katsuki, deixando sua marca bem à vista para ele. Ela faz o símbolo brilhar levemente, o que acaba ressoando na marca de Bakugou, fazendo ela brilhar também. "Mais poderosa!" Enquanto a de Aurora brilhava em um vermelho e laranja vivo e forte, a de Bakugou brilhava fracamente em branco, quase imperceptível.

"Uau..." Katsuki não consegue conter o olhar brilhando vendo isso. É simplesmente... incrível.

Como? Como... ninguém sabia disso? É... foda, muito. Aquilo era algo absolutamente novo para ele, mas ele já estava adorando.

—Ih, ferrou, agora ficou todo animadinho...

Katsuki parou um pouco ouvindo isso. A voz... ele tinha esquecido dela. Aurora soube lidar com essa coisa. Será que...?

"Essa voz..." Ele aperta um pouco a mão de Aurora, que estava na sua frente agora. "Você sabe do que eu tô falando, não sabe?" Katsuki murmurou.

Aurora manteve-se em silêncio por um instante, depois assentiu levemente.

"Sim. É um efeito colateral da marca. Uma parte sua... que talvez estivesse enterrada antes – ou que sempre existiu – desperta. O lado que mais resiste, que mais teme, que mais dúvida. A marca traz à tona tudo que você esconde de si mesmo, inclusive essa voz."

"Ótimo." Katsuki disse para si mesmo enquanto desfazia o aperto com Aurora. "Ganhei um poder novo, e junto um encosto interno."

—Ei! Não me chame de encosto seu merdinha!

—Em certo sentido, você que é meu encosto aqui!

"É mais comum do que imagina. A maioria aprende a ignorar com o tempo. Outros... aprendem a conviver. Mas ninguém enfrenta onis só lá fora, garoto. Às vezes o pior demônio é o que a gente cria aqui dentro." Ela toca o peito de Katsuki com isso, querendo enfatizar seu coração naquilo tudo.

"Humph!" Ele tira a mão de Aurora de seu peito, que apenas faz um biquinho com isso, e murmura um "chato".

"Isso é poético demais para alguém como eu..." Katsuki responde com sarcasmo, mas seu olhar não desmerece o peso daquelas palavras. Ele iria lidar com isso um dia... mas não hoje, com certeza não hoje.

—Vai ter que se acostumar comigo, Katsuki. Eu sou você.

A pior parte de mim.

—Ou seja, iguais!

Tsk!

—Haha!

Aurora abaixa o braço logo em seguida, fazendo as marcas pararem de brilhar. "Mas enfim, agora que você tem a marca, eu preciso perguntar." O olhar de Aurora volta para uma seriedade quase formal, falando de uma forma um pouco mais fria agora. "Você gostaria de se tornar um caçador?"

O brilho no olhar de Katsuki não se abala, mas ele rapidamente se arregala com isso. "Espera, o quê?!"

"Você ouviu. Gostaria de se tornar um caçador?" Aurora pergunta novamente, sem se abalar com o olhar do menor por um momento sequer. "Você tem a marca, então agora isso é uma opção...!" Aurora tenta parecer um pouco mais animada agora, embora, falhe miseravelmente nisso, por conta do rosto ainda sério, e a voz relativamente tensa. Ela definitivamente não está acostumada a oferecer isso.

"Não." Os olhos não estavam mais arregalados, e eles estavam um bocado pra baixo, como se ele falasse isso com um pesar na voz.

Não pense errado, Katsuki estava feliz por ter sobrevivido, e aparentemente ganhado um novo "poder". Mas, ele nunca concordou em ser um caçador, e mesmo se quisesse, ele tem um compromisso mais importante na U.A daqui a duas semanas, e ele tem que usar esse tempo para treinar, e não para... isso.

"Eu fico... a-agradecido." Merda. Eu realmente odeio falar essa palavra. Qualquer variação de "obrigado" é considerado um veneno para Katsuki, já que ele parece nunca falar nada disso, e mesmo agora ainda era... difícil. "Mas, eu não tenho tempo para isso. Especialmente nessas duas semanas seguintes. Tenho treinamento de herói para fazer."

Aurora pisca uma, duas, três vezes. "Treinamento de... herói?" Ela pergunta enquanto mexe a cabeça levemente para o lado, como se não tivesse entendido o que ele quis dizer.

"Eu sou da U.A. Sou um estudante do curso de heróis, do primeiro ano." Ele fala, como se fosse algo super óbvio. Mas Aurora continua sem entender nada, e a expressão de confusão continua a mesma. "Você... não ouviu falar de mim na televisão?" Como?! Eu tenho certeza que noticiaram meu sequestro! Foi o que me falaram pelo menos. "Você pelo menos sabe da aposentadoria do All Might?!"

"Huh... eu não sou uma pessoa que vê muitas notícias, então estou perdidinha em tudo isso que você está falando..." Aurora fala como se o mundo inteiro não estivesse anunciando a aposentadoria do herói mais forte do Japão.

Bakugou estava ainda mais boquiaberto agora, talvez até mais que quando Aurora lhe contou sobre os onis e as marcas.

COMO ALGUÉM AINDA NÃO SABE DISSO??!!!

—Me sinto obrigada a concordar.

Isso era simplesmente incompreensível para ele, como alguém no mundo ainda não estaria a parte dessa notícia? Dá pra entender ela não saber do sequestro, mas do All Might??? Isso não dá, é impossível de entender. "Você conhece a U.A pelo menos?!"

"Acho que sim, é tipo a escola de herói mais renomada do Japão né?" Ela fala sem muita certeza também, ta na cara que ela realmente não fica de olho nem nos jornais.

Katsuki suspirou com isso, explicar isso é uma chatice. "Sim, é tipo isso..." Ele se remexeu superficialmente na almofada, para tentar achar uma posição menos desconfortável. "Basicamente, eu fui capturado por um grupo de vilões, All Might e outros heróis vieram me salvar, All For One – o vilão mais forte que existe, e inimigo do número um – roubou meu poder." Bakugou apertou o punho ao se lembrar disso, mas, já em um estado mais controlado, ele consegue deixar a raiva não o invadir dessa vez. "E depois, All Might derrotou ele, mas acabou usando todo o seu poder para isso, o que significa: aposentadoria para ele. Como herói pelo menos, mas acho que ele ainda vai continuar sendo professor na U.A, ou algo assim..." Katsuki parou um pouco, pra pegar ar, e levantar o olhar para Aurora, ele odiava ficar com o olhar baixo por tanto tempo assim. "Sem meus poderes, a U.A me deu duas semanas a partir de amanhã, para me preparar e provar que ainda posso ser um herói mesmo assim. Então... não tenho tempo para fazer outra coisa."

Eles ficam em silêncio por um tempo após Katsuki parar de falar. O ar está pesado, e ambos parecem tensos. Mas Aurora... estava diferente, parecia que ela ficou menos tensa ao ouvir a história do garoto. "Garoto... acho que você vai querer muito se tornar um caçador agora."

"Hein?! Por quê?"

"Eu vou explicar mais para você depois, mas, duas das coisas mais importantes sobre esse castelo infinito em que estamos, são essas." Ela levantou um dos dedos, como se estivesse explicando para uma criança algo complexo. "Primeiro. Nosso corpo não cresce enquanto estamos aqui, e a maioria dos músculos não aumentam, não importa o quanto fiquemos aqui treinando eles. Mas, nossos corpos ainda podem se acostumar com certas coisas. Por exemplo, os nossos braços não crescem enquanto estamos aqui dentro, mas, nós ainda podemos aprimorar nossos reflexos do corpo, e sentidos." Aurora levantou outro dedo agora, para o segundo ponto. "Segundo, e mais importante. O tempo aqui passa diferente. Uma hora no mundo real é cerca de cinquenta e duas horas aqui dentro."

Agora, Aurora abaixa os dedos, e seu sorriso volta ao rosto enquanto fala, deixando o clima do ambiente mais leve apenas com isso. "Ou seja, aqui é o lugar perfeito para caçadores que ainda estão em fase inicial de aprendizado, como você!" Ela aponta para Katsuki, que estava com os olhos quase que literalmente brilhando nesse momento, mais um pouco e iria ficar idêntico ao Aoyama. "Treinarem e ficarem fortes o suficiente para matarem onis comuns! O quanto podemos evoluir do corpo – reflexos e sentidos – vai diminuindo com o tempo. Então quanto mais tempo aqui, menos seu corpo vai conseguir realmente evoluir. Por isso é perfeito para iniciantes como você." Aurora aponta para si mesma agora. "Mas horrível para pessoas como eu."

Katsuki estava confuso? Sim. Surpreso por algo dessa magnitude existir? Muito. Extremamente animado e feliz por ainda poder ter um poder e ser um herói? Mais ainda. "Então... se eu aceitar sua proposta, e me tornar um caçador... eu poderei treinar aqui?" Ele pergunta meio atordoado, com os olhos ainda fixos nos de Aurora, com um foco quase extremo agora.

"Sim!" Aurora responde com um sorriso. Mas, uma gota de suor cômico surge na sua testa agora, já que sempre tem um mas. "Embora... tenha algumas ressalvas nisso."

Bakugou sabia que estava tudo bom demais para ser verdade, sempre tinha um "mas". Por isso que as pessoas deviam ler um contrato até o final antes de assinar, sempre tem alguma pegadinha nessas coisas. "Huh... qual o mas?" Ele pergunta, já esperando ter que vender a alma nesse ponto.

"A questão aqui é que você, antes de um herói, antes de um cidadão, antes de qualquer coisa. Será um caçador, e deve agir como um. Fará missões, matará onis, e protegerá as pessoas do mal que elas acham que não existe. Essa é a sua principal missão como um caçador de onis. Então, se um dia você estiver entre cumprir o dever da U.A ou o de um caçador, deverá sempre dar prioridade ao de caçador." À medida que Aurora fala, sua voz vai ficando com um tom mais sério, querendo enfatizar o quão importante é isso.

É só... isso?

"Tsk!" Katsuki fala com desdém, como se estivesse subestimando tudo isso. "Isso não parece muito diferente de ser um herói. Derrotar vilões, vencer lutas, coisas assim. Eu já estava sendo treinado para fazer iss-" Antes que ele pudesse continuar, Aurora levantou a voz, o que surpreendeu Katsuki, e o fez se encolher ligeiramente.

"Isso não é uma brincadeira garoto!" Aurora se levanta enquanto fala isso, ficando de pé agora, frente a Katsuki, que parecia absurdamente menor na frente dessa mulher, como uma formiga. "Sabe o que acontece quando você não mata um oni?! Sabe?!"

Katsuki não sabia responder isso. Ele até tinha uma ideia, mas da forma que Aurora fala, talvez isso fosse uma pergunta retórica, e ela não quisesse realmente uma resposta dele. Mesmo assim, não custa nada arriscar. "Eles devoram mais pessoas...?"

"Não é só isso, moleque!" Aurora levanta a voz mais ainda com isso, ela já estava ficando meio impaciente com Bakugou. "Cada oni que você falhar em matar significa dezenas de pessoas que serão devoradas e mortas. Dezenas de famílias que nunca mais verão seus entes queridos. Mães que nunca mais irão ver seus filhos, e filhos que nunca mais irão ver suas mães." Com essa última frase, Katsuki repentinamente sente os ombros tensos, e seu olhar se afia, como se tivesse percebido o que tinha dito antes.

"Diferente dos ditos heróis que você parece tanto gostar, nós caçadores temos como dever realmente proteger as pessoas. E de perigos muito maiores que eles nem sabem que passam." Agora, Bakugou se surpreendeu... isso parecia estranhamente pessoal. "E diferente deles, nosso trabalho não é prender pessoas. Nosso trabalho é matar demónios, igual eu fiz com aquele que estava para te matar e devorar. Então, não ache que isso é fácil, é um trabalho difícil, sem reconhecimento das pessoas que nós arriscamos – de verdade – a nossa vida para salvar. Então não ache que isso vai ser fácil, ou que você vai fazer isso aqui só pra ser um herói. Porque se for isso, você pode cair para bem longe daqui!" Ela se abaixa para ficar apenas um pouco acima de Katsuki, e olhar diretamente em seus olhos, querendo ver a verdade dele. "Então... sabendo disso, me diga. Katsuki Bakugou, por quê? Por quê você quer ser um herói? Eu sei que você se interessou em ser um caçador somente para conseguir poder para ser um herói. Então, porque você quer ser um herói? Por que justamente isso é tão importante para você?"

...Porra.

Katsuki não estava esperando uma pergunta assim logo agora. Mas, ele tinha que responder. Precisava responder isso. Ele abriu a boca para soltar o velho "sempre foi meu sonho" de sempre. Mas, assim que estava prestes a responder, a ficha dele caiu. E é como se ele conseguisse ver o filme da sua vida correndo.

Sempre foi meu sonho...

É isso que um herói diria?

Não. Um herói de verdade não falaria isso.

Mas, o que um herói diria então...?

Katsuki... não sabe. Ele só... não sabe. Porque ele não é um herói. Ele é só um garoto que ouve desde pequeno que deveria ser um herói porque tinha um poder perfeito para isso. Mas, tirando os poderes, será que alguém realmente diria para ele que era isso que ele deveria fazer? Não. É claro que não.

Então... por que eu continuo querendo ser um herói?

Eu sei que não tenho a mente de um herói, não tenho as ações de um herói, e agora nem mesmo os poderes de um herói.

Então... por quê?

Existe realmente um porquê? Existem infinitos motivos diferentes do porquê alguém entraria nesse mundo. Se o motivo é válido ou não? Isso depende e muda de pessoa para pessoa. Mas possivelmente todo mundo concordaria com esse fato: Katsuki Bakugou não é um herói, e nunca foi. Nossa, ela nunca nem esteve perto disso.

Abruptamente a expressão de Katsuki muda de surpresa para um entendimento silencioso, e meio... melancólico? Ele quebra o olhar com Aurora, e fixa seus olhos no chão abaixo dele.

É isso então... né?

Eu sou um merdinha orgulhoso que só estava fingindo ser um herói.

Que nunca mereceu estar ali, que nunca deveria ter estado ali...

—Nem precisei falar nada dessa vez. Magnífico!

Talvez isso fosse verdade, claro que seria. Por quê não seria?

No fim, todos estavam certos quanto a isso, ele não merecia tudo o que tinha, nunca mereceu. Mas, será que ele realmente não tinha mais nada pelo que lutar? Sempre tem alguma coisa... E, no caso de Katsuki. Tem uma pessoa, algumas pessoas na verdade.

Aos poucos, os olhos de Katsuki se erguem em direção aos de Aurora novamente. A expressão ainda era de melancolia, mas ele conseguia olhar nos olhos da mulher agora. Porque ele percebeu que não tinha motivos para ser um herói, não um verdadeiro motivo. Não mais. Mas, ele tem sim um motivo para ainda lutar.

Aqueles... idiotas, eles realmente se importam né? Seus colegas, seus... amigos. Seu grupo. Kirishima, Mina, Kaminari, Jiro e Sero. Katsuki consegue se lembrar de todas as vezes que eles saíram. Ele mentiu falando que só ia porque tinha que garantir que eles não acabassem morrendo, ou algo assim. Como ele sabe que onis realmente existem agora, isso significa que... eles também estão em perigo né? E lutar contra essas criaturas pode ser uma forma de proteger eles no fim... de ajudar eles.

E o mais importante. Sua mãe. Lutar contra esses monstros também significa proteger ela, lutar por ela. Ele prometeu que vai ajudar ela de todas as formas que conseguir, nem que ele tenha que começar a trabalhar, começar a sair pelas ruas, ou, nesse caso, lutar com monstros. Tudo isso para proteger ela, orgulhar ela. Ajudá-la, nem que seja desse jeito.

"Por... por minha mãe." Katsuki finalmente conseguiu responder, com a voz baixa e tensa.

"Sua... mãe?" A expressão de Aurora se resume à confusão agora, mas um pouco mais leve, ela percebe a seriedade na voz do garoto.

"Sim." Katsuki se prepara para o que vai dizer a seguir, tentando reunir o máximo de coragem que tem naquele momento. "Eu costumava dizer que ser herói era meu maior sonho, e que por isso eu fazia tudo aquilo. Por isso que eu estava na U.A. Por conta disso que eu treinava. Mas..." Bakugou tirou os olhos levemente de Aurora, mas forçou-se a olhar novamente, fixando-se nos olhos castanhos dela. "Mas recentemente, após perder meu poder, eu tenho feito essa pergunta novamente a mim mesmo. A muito tempo na verdade, desde que a situação financeira lá em casa piorou drasticamente. A partir daí eu comecei a considerar que também estava fazendo aquilo para ganhar dinheiro pra ajudar minha mãe, e isso entrava em conflito com muitos dos meus pensamentos, então eu só deixava pra lá, ignorava. Agora, não tem como ignorar."

Bakugou respira um pouco, pra tentar se tranquilizar, o que não faz muito efeito. "Então cheguei à conclusão de que eu não sou um herói." Essa realização, essas palavras... podiam ser tristes, mas eram verdadeiras, e embora fosse contraditório em sua mente, falar isso foi como tirar uma pedra de suas próprias costas. "Eu não me importo com a maioria dos extras que encontro por aí, e só consigo... só conseguia respeitar a força acima de tudo. E sinceramente não sei se vou mudar um dia. Mas, mesmo com tudo isso, eu tenho sim um motivo pelo que lutar. E esse motivo é minha mãe."

Ele aperta os punhos, como se quisesse afirmar isso também para si mesmo. "Eu posso não ser um herói, posso não ser uma boa pessoa, e também posso ser um amigo de merda. Mas... eu quero ser um bom filho. E se isso significar ter que matar cada oni que existe, para que nenhum deles ataque minha mãe ou alguns dos idiotas que me importo?" Katsuki para de apertar os punhos, e lança um olhar decidido para Aurora, que estava ouvindo tudo em silêncio. "Então, que assim seja. Eu vou me tornar um caçador, se isso significar proteger minha mãe e aqueles idiotas que se importam comigo. E... vou me tornar um herói também, para ajudar a minha mãe de algum jeito. Não vou fingir que me importo com a maioria das pessoas, mas minha mãe eu sei que se importa, então se isso orgulhar ela no fim, também farei."

Então, como se seu orgulho estivesse voltando aos poucos, ele aperta novamente os punhos, dá um sorriso quase presunçoso, e fala em um tom de voz mais confiante e alto. "Eu vou matar cada oni de merda que eu encontrar, e me tornar um herói enquanto isso! Para orgulhar aquela que confiou em mim desde o começo. Eu juro."

Aurora olha bem nos olhos de Katsuki enquanto ele fala tudo isso. Ela busca qualquer resquício de algo que se pareça com mentira, dúvida, ou medo. Mas tudo que ela encontra é verdade e determinação. Katsuki realmente está falando a verdade, e está determinado a proteger sua mãe e seus amigos custe o que custar. E se ele realmente acredita que seus motivos não o transformam em um herói... bem, talvez ele de fato esteja caminhando no caminho do herói agora. De verdade dessa vez.

Vendo isso, um sorriso singelo cresce no rosto de Aurora, ela se levanta novamente, para ficar bem acima de Katsuki. "Eu gostei da sua resposta, garoto. Vejo verdade em você, vejo uma determinação que não encontro há muito tempo." Ela levanta o braço levemente em direção ao garoto, como se estivesse oferecendo a mão em meio a uma tempestade, a ajuda em meio ao perigo. Um apoio para se levantar. "E então, me diga, o que você acha de virar um caçador? Chance única e resposta definitiva agora."

Katsuki não demora a responder dessa vez, ele pega na mão de Aurora e se apoia nela para se levantar. "Sim. Eu quero ser um caçador."

Notas finais
Bem, como devem ter percebido, tentei deixar alguns parágrafos menores nesse cap. Embora, eu tenha falhado algumas vezes nisso... E sim, eu fiz o castelo infinito aqui ser uma base dos caçadores ao invés dos onis, hehehehheh. Amo fazer essas coisas! Gostaram da Aurora? Escrever ela está sendo muito divertido na verdade. Sou horrível em descrições, mas tentei o meu melhor, espero que tenha dado pra visualizar a personagem bem. Assim como a marca do Katsuki e tals- Espero que tenham gostado do cap! Tenham todos uma boa semana, e um bom dia :D.