Está tudo acabado. Estou morto. Terminou. Nunca mais me deitarei com meus amigos na grama nos últimos dias do verão; nunca mais ouvirei histórias sobre as aventuras dos pais deles, as vezes sobre o meu próprio pai, sentado nos velhos bancos de madeira da cabana de Hagrid; nunca mais jogarei quadribol pela Sonserina; nunca mais discutirei com Rose sabendo que ela vai voltar a falar comigo no dia seguinte; nunca mais quebrarei as regras com James...

James. James. JAMES! Aquele... Delinquente. É tudo culpa dele.

Scorpius andava de um lado para o outro a manhã inteira, ainda na enfermaria. Tinha sido dispensado das aulas do turno matutino por não se sentir bem e mais tarde cumpriria detenção, como já informara McGonagall assim que o berrador se desfizera em pedaços.

Ela também havia proferido um discurso que começava com "muito decepcionada" e terminava com "por sua imprudência e a de James Potter, menos 50 pontos para Grifinória e para Sonserina".

Tanto a Grifinória quanto a Sonserina já estavam acostumados com a quantidade de pontos que Potter e Malfoy perdiam para suas respectivas casas. Só não protestavam pela simples constatação de que ambos os capitães de suas equipes de quadribol eram necessários no campo e lá tinham mais chances de recuperar e trazer ainda mais pontos para suas casas.

Daquela vez, no entanto, diferente de todas as outras, Scorpius estava muito bravo com James. Tão bravo que qualquer menção a Potter, inclusive em seu pensamento, o fazia querer quebrar algo. O auge da raiva foi quando o rapaz, em pessoa, resolveu visitá-lo no horário do almoço.

— Hey Scorpius! Vejo que está bem melhor! Vim trazer um... – James parou de falar quando notou o semblante avermelhado do amigo. – Por que você está me olhando assim?

— Você! Seu... Delinquente! – Scorpius decidiu repetir as palavras do pai antes de tentar atingir o amigo com um soco no estomago. – Não, fique quieto! Você me deve um soco no seu rosto, seu filho...

— Hey, hey, hey! Eu sei que você tá nervosinho, mas vamos deixar minha mãe fora disso! – James disse empurrando Malfoy com os braços enquanto ele se debatia. – Vamos conversar como seres humanos decentes e civilizados.

— Civilizados o caramba! – Malfoy disse entredentes. – Não é seu pai que vai te tirar daqui. Não foi o seu pai que mandou um berrador dizendo que vai te tirar de Hogwarts no próximo ano! E que não vai te autorizar ir ao baile de Halloween. Não que você se importe, já que é seu ultimo ano! Você só liga pra você mesmo! Eu nunca deveria ter te escutado seu... Seu... Seu patife.

— Em primeiro lugar – James começou com uma veia saltando de seu pescoço. – Se alguém aqui deveria estar bravo com alguém, esse alguém deveria ser eu... E você me entendeu.

— Só prova a minha tese de o quão egoísta você é! – Scorpius explodiu. – Estou aqui falando que eu posso nunca mais voltar e ver Rose novamente e você está aí...

— Para começar se você tivesse parado de beber quando eu te falei para ir mais devagar ninguém teria nos descoberto. – James rebateu estreitando os olhos. – É sua culpa estar aqui, não aja como se eu tivesse te arrastado para Hogsmeade comigo.

Ficaram em silêncio por um bom tempo. No fundo Scorpius sabia que a culpa não era de James, e James sabia que Scorpius só estava descontando nele sua frustração. O que não significava que James tinha sangue de barata ou que Scorpius daria o braço a torcer.

— A culpa é dos dois. – uma voz feminina disse finalmente. – Vocês são dois imprudentes, irresponsáveis e inescrupulosos! Vocês sabem que não devem sair da escola à noite! Até quando vocês vão burlar as regras? Estamos em outubro e um de vocês já está na enfermaria!

— Rose, dá um tempo vai. – James disse ainda com raiva, não costumava falar assim com a prima. – Já estamos ferrados até a cabeça e sem paciência para sermões.

— Ah, mas vocês vão me escutar. – Rose disse apontando o dedo indicador para os amigos não tão queridos assim no momento. – Vocês sabem de quantas maneiras eu imaginei que vocês tinham morrido ontem à noite? Eu procurei por você James em todos os cantos. Eu fiz Phil procurar por você, Scorpius, em qualquer buraco da Sonserina que você pudesse ter se enfiado.

— Talvez seu namoradinho devesse se meter nos próprios assuntos. – Malfoy cruzou os braços diante do peito, emburrado como uma criança birrenta.

— Eu falei com a detestável April Palmer por sua causa, Scorpius, eu fui humilhada por aqueles idiotas te procurando e você bêbado. – Rose, sem perder o fôlego e ignorando o comentário de Scorpius, continuou. – Podendo ser expulso de Hogwarts! No que você estava pensado? No que vocês estavam pensando?

— Se te tranquiliza de alguma maneira, Rose – Scorpius começou com a voz baixa. – Eu não serei expulso de Hogwarts, mas meu pai vai me tirar daqui no fim do ano letivo.

— É só uma hipótese, tenho certeza que foi só uma ameaça e... – James tentou se convencer triste. – Ele não pode te tirar daqui, Scorpius.

— O berrador pareceu bem convincente. – Scorpius disse pesaroso. – E ele nunca me mandou um berrador antes.

— Isso... — ela fechou os olhos, balançando a cabeça. — Droga, eu... Tenho que ir. – Rose disse e saiu apressada.

Ela saiu repentinamente da enfermaria sem nenhuma outra explicação e James e Scorpius ficaram olhando para a porta sem entender. A verdade era que Rose nunca se imaginara sem Scorpius; não ficavam brigados por mais que duas semanas. Ele a animava, a fazia rir, a tirava do sério, implicava e a consolava quando ficava triste com poções que não saiam perfeitas. Desde que se conheceram de verdade e viraram amigos no segundo ano não se desgrudavam e agora a hipótese de se formar sem ele, de simplesmente voltar para Hogwarts sozinha era estranha, triste e... Vazia.

— Sinto muito Scorpius... É tudo minha culpa. Você tem razão. – James disse se sentido culpado como poucas vezes na vida. – Se houver qualquer coisa que possamos fazer para... Reverter a situação me avise, você sabe que eu farei sem pestanejar.

— Eu duvido que tenha, Jay... Mas obrigado. – Scorpius se sentou na cama e passou a mão em seus cabelos. – De qualquer maneira, como sempre, Rose tinha razão, a culpa é nossa e... As consequências nunca nos impediram de tentar uma próxima vez não é mesmo? E de qualquer jeito você está saindo de Hogwarts o que é um ponto a menos para cá e um a mais para Durmstrang.

— E Rose? – James perguntou com expectativa.

— Rose tem Phillip para lhe fazer companhia. – Scorpius respondeu com um quê de indignação. – Não acho que farei tanta falta.

— A quem está tentando enganar, Malfoy? – James disse e Scorpius desviou o olhar. – Esqueceu que eu estava lá com você ontem à noite?

— Não, Potter, mas as pessoas tendem a falar besteiras quando estão bêbadas. Não esperava que você levasse em consideração um bando de baboseiras ditas por um bêbado. – Scorpius disse comendo um pão de mel que James tinha trazido. – Além do mais, independente do que eu tenha dito, não é como se Rose sentisse alguma coisa por mim, ela está muito feliz não desgrudando os lábios dos lábios asquerosos de Phil Phillips.

— Se você pensa assim, quem sou eu para dizer que está errado, não é? – James disse sacudindo os ombros. – Só sei que se eu acreditasse que esse era o meu ultimo ano em Hogwarts, como na verdade para mim é, eu não ficaria me escondendo atrás de justificativas ridículas.

Scorpius ficou em silêncio. Não lembrava muito do que tinha feito ou dito na noite anterior, mas alguns lampejos que vinham a sua memória sugeriam coisas e exposições de sentimentos nunca ditos por ele. Tinha até uma memória esquisita em que selava os lábios nos de Rose; as sensações eram muito reais, o gosto dos lábios e o cheiro doce dos cabelos estavam muito presentes na sua lembrança, mas não podia ser verdade. Nem em um milhão de anos Rose retribuiria um de beijo seu, era o que ele pensava.

— Eu sei que você está aí maquinando suas lembranças no seu cérebro. E sim, você beijou Rose. – James disse como se tivesse dizendo as horas. – De qualquer modo, vou indo, estou atrasado para a aula de transfiguração.

Não que ele realmente se importasse em chegar atrasado em alguma aula. Mas sabia que precisava deixar Scorpius sozinho para que o menino pensasse por conta própria. E também para que ele se recuperasse da ressaca.

O que não podia se aplicar a Rose.

Diferente de Malfoy, ela acabaria racionalizando tudo e não concluindo nada, porque aquele era seu modo de auto proteção. Por outro lado, se James resolvesse falar com ela, também não adiantaria, uma vez que ela se sentiria muito vulnerável por ele também ser melhor amigo de Scorpius.

Sendo assim, ele só tinha uma saída. E não hesitou em buscá-la.