Resistance

8 Plano (In)fálivel


Lily andou a passos leves pelos corredores, escadas E alunos. Seu rosto era sereno, em contraste ao olhar firme de quem sempre sabia aonde ir. Ela atravessou o pátio da torre do relógio quase vazio por conta do frio. E esboçou um sorriso ao ver quem procurava na ponte coberta. Surpreendida por ser pega chorando, Rose rapidamente se empertigou e limpou os olhos. Lily sentou-se ao seu lado, em silêncio.

— Sei que não estamos nos vendo muito, desde... A estufa. – Ela começou a falar, mirando uma das colunas a frente. – Não é como se fossemos melhores amigas, certo, Rosie? – Ela soltou um riso fraco, ainda sem olhar para a prima, porque sabia que assim era mais confortável para as duas – Mas eu sempre procurei você quando precisava de conselhos. Ou aulas. – E baixando o tom, completou – Sinto sua falta.

Rose se permitiu um soluço seguido de um suspiro.

— Me desculpe – ela pousou o rosto no ombro da garota – Não tem muito a ver com você e Hugo, na verdade. É só que... Estou cheia de coisas na cabeça, Lils. Cheia de coisas, e não sei como resolver nem metade – desabafou e mais lágrimas indesejadas lhe banharam o rosto.

— Soube sobre James e Scorpius – Lily disse, puxando-a para seu colo, em retribuição as inúmeras vezes em que Rose fizera isso por ela.

Toda a escola soubera, na verdade, assim que os pontos foram descontados das duas casas pela manhã.

— Eles vão embora. James vai se formar e Scorpius será transferido – murmurou, encolhendo os ombros – O que eu vou fazer, Lils? – Mais uma onda de choro se aglomerou em sua garganta – O que eu vou fazer?

Lily afagou o cabelo dela por um instante, em silêncio.

— Você poderá escrever para eles. Vê-los nas férias. – tentou consolar, mesmo sabendo que não adiantaria. Lily sabia como era ter um trio, e só de se imaginar sem Alvo ou Hugo seu humor baixava. – Além do mais, tem aquele garoto com que você está saindo, Phil, não é mesmo? – citar o namorado, em tese, deveria ajudar. Mas Rose só chorou ainda mais.

— Não verei Scorpius, Lily. Não é como se o Sr. Malfoy aprovasse a amizade dele conosco e não é como se meu pai fosse muito com a cara dele, de qualquer forma.

— Rosie – sabendo que estaria pisando em terreno delicado naquele momento, baixou a voz – Você notou que citei Phil, mas você só falou de Scorpius?

— Gosto de Phil – suspirou – Ele é bonito, educado, gentil. Mas não é meu melhor amigo.

— Eventualmente, ele deverá se tornar – Lily disse. – Você precisa se sentir a vontade com ele, Rosie. Se divertir e ser você mesma, como é com os garotos, entende? Você consegue isso? Visualizar, num futuro próximo, uma parte do namoro em que ele te conheça tanto quanto James ou Scorpius? Porque isso é fundamental para o que quer que venha a acontecer entre vocês, eu acho.

Rose tentou. Tentou com força e se desesperou quando descobriu que a resposta era negativa.

— Sim – mentiu – Consigo – balbuciou.

— Então não precisa se preocupar. – Lily sorriu. – Tudo acabará bem. Mesmo que você sinta falta do meu irmão e de Malfoy, terá um confidente por perto, alguém que poderá segurar sua mão e te confortar quando a saudade apertar. Alguém que poderá até te ajudar a pensar em maneiras de rever seus amigos. – Rose assentiu com a cabeça, lentamente.

Scorpius quem deveria confortá-la quando James fosse embora. Era com Scorpius que ela estava contando. A perspectiva de Phil consolando-a pela partida dos dois parecia extremamente errada.

— Ai está você. – Phil se agachou ao lado das duas, mirando os olhos castanhos e ligeiramente vermelhos da namorada. Então, virou-se para Lily – Olá.

— Oi – a menina respondeu, desvencilhando-se gentilmente de Rose – E tchau – sorriu – Estou de saída.

Ela acenou para a prima e confirmou que ela mentira quando viu Rose engolir o choro e as emoções e forçar um sorriso para Phil. Balançando a cabeça, continuou a andar. Ela podia se interessar por ele, mas não estava em sintonia com ele. Muito menos se sentia confortável. Era esse o relatório que faria a James.

Não sem antes procurar Hugo e abraçá-lo por, no mínimo, uns 10 minutos, pela sorte que tinha em já ter ultrapassado os próprios conflitos pessoais e aceitá-lo como o melhor amigo e namorado.

— O que houve, Rose? – Phil perguntou gentilmente, sentando-se e abraçando-a de lado.

Ela levantou o livro que estava lendo antes de Lily chegar.

— Estou um pouco sensível com essa história. Não é nada demais. – Não era mentira, mas tampouco era verdade. E Phil simplesmente não saberia distinguir uma coisa da outra, para todos os fins.

Ele encarou a capa do livro.

— Sobre o que trata?

— Bom, é um clássico trouxa sobre duas famílias rivais... – e então ela começou a contar sobre a história, embora estivesse pensando em outra.

Um tanto distante dali, dentro do castelo, Scorpius tentava evocar a lembrança com nitidez pelo que lhe parecia ser a milésima vez. Era difícil definir o que era real e o que ele gostaria que fosse, mas agora estava quase certo que estavam sentados.

Ele deveria estar com a cabeça apoiada em sua perna, porque o rosto dela se aproximara de cabeça para baixo. As mechas do cabelo dela lhe acariciaram as bochechas e ela fechara os olhos. Com certeza tinha fechado os olhos, porque se lembrava da maneira como eles se abriram um instante depois, surpresos e vidrados.

Um par de braços lhe abraçaram o peito e ele se perdeu nos pensamentos, virando-se com raiva.

— O que você disse a ela? – falou em um tom de poucos amigos, segurando uma assustada April pelo braço – o que você disse?

— Nada – a menina arregalou os olhos, soltando-se. – Eu hein Scorpius, que criatura mágica te mordeu?

— Não estou a fim de conversa, April. – murmurou, bufando.

— Seja lá o que ela te disse, só pode ser invenção.

Ele quis gritar que Rose não mentia para ele. Quis berrar que ninguém a conhecia como ele. Mas então percebeu que estaria apenas redirecionando a raiva, além de assustar todo mundo.

Balançando a cabeça, ele se distanciou dela e se dirigiu para a sala de aula de transfiguração. Para sua sorte, havia um monte de veteranos saindo pela porta, o que significava que a aula tinha acabado.

Ele avistou James conversando com uma garota ruiva muito menor que ele e só precisou de alguns segundos para reconhecê-la como a irmã mais nova do amigo.

— James – cumprimentou – Lily.

— Oi Scorpius – A garota respondeu, com um brilho divertido nos olhos, como se estivesse rindo de alguma piada interna. – Tudo bem? – perguntou educadamente.

— Tudo – encolheu os ombros, indiferente – E contigo?

— Bem também. – ela olhou para o irmão. – Então... Sobre aquele lance, isso é tudo.

— Obrigado Lils – James parecia muito sério, como quando armava planos. – Te vejo por ai.

Ela assentiu e se despediu dos dois.

— Arranjou uma nova comparsa?

— Lily? – James se permitiu um riso fraco – Não, Lih é meu passarinho verde. – E ao ver a confusão no rosto de Scorpius pela expressão trouxa, riu ainda mais, antes de se explicar – Ela está se sentindo toda culpada por estar escondendo de mim que anda namorando Hugo – sorriu torto – Daí eu me aproveito dessa fragilidade emocional pedindo favores e informações que ela prontamente me consegue. – piscou.

— Espere ai, Hugo? – franziu o cenho – Hugo Weasley? Irmão de Rose, seu primo?

— Esse rapaz mesmo. — confirmou — Eles são discretos, mas não tão espertos quanto eu. O ponto é que, nesse ultimo caso, ela me faria o favor mesmo se eu não pedisse, porque importa para ela também.

— Você é um cara assustador, James.

— Ora, obrigado, meu caro Scorpius – E dando um tapinha no ombro do amigo, caminhou com ele rumo a lugar algum. Antes que Scorpius perguntasse o que ele pedira a irmã, James o parou por um instante. – Escute... – e novamente sua expressão parecia séria – Em partes, eu realmente me responsabilizo por isso. Eu sei o que você vai dizer e não me importo. Eu me sinto em divida com você. Por isso eu queria te contar sobre ideia que eu tive.

— ‘A ideia que eu tive’. – Scorpius bufou, mas seus olhos brilharam curiosos. – A ultima vez que você teve uma ideia, eu acordei na enfermaria com uma dor de cabeça infernal.

— Bem, se você não encher a cara dessa vez, a gente pode evitar a dor de cabeça. – James disse socando o braço do amigo. – E não seja tão mal agradecido, tenho certeza que você quer estar tanto naquele baile como eu.

— Na verdade, nem tanto. Só em imaginar no trabalho que terei para escolher uma das treze garotas que me convidaram para o baile... – Scorpius mentiu, não sobre os convites, mas sobre o motivo de não querer ir. – E eu não tenho nem possibilidades de conseguir uma autorização do Draco Malfoy.

Scorpius imaginou o que presenciaria se fosse realmente ao baile: todos se divertindo. Ele levaria uma das colegas sonserinas que iria abandoná-lo após tirar umas fotos e perceber que ele não estava a fim de dançar; veria James provavelmente batizando as bebidas das mesas, porque cervejas amanteigadas só deixavam uma pessoa mentalmente bêbada: Rose; e ela estaria com o retardado do Phillip Phillips conversando sobre algo chato como o grito das mandrágoras.

Mas mesmo sabendo que os pontos negativos dominavam os positivos, estava consciente de que preferia ver Rose com Phil do que não a ver, por mais que doesse. Sabia que preferia ser suspenso sendo pego com o James pela ultima vez do que ficar em seu dormitório em Sonserina com as crianças do primeiro ao terceiro ano.

Sabia que gostaria das memórias boas e más daquele baile no futuro e que estaria lá de qualquer maneira. Nem que fosse para atrapalhar Phil, estuporar Phil, jogar Phil em um poço fundo, escuro e cheio de cobras para sempre... Por aí.

— Por isso falsificaremos uma. – James disse simplesmente, cruzando os braços como se fosse a solução óbvia.

— Essa é sua ideia? – Desapontado pelo fiapo de esperança que tinha, Scorpius riu. – Jura? Falsificar assinatura?

— O que foi? Os trouxas fazem isso o tempo inteiro. – James sacudiu os ombros.

— Os trouxas fazem, James. Você acha mesmo que McGonagall iria engolir uma falsificação de uma assinatura do meu pai? – Scorpius se jogou nos degraus da escada. – Você já teve ideias melhores, francamente.

— Você não entende a ironia e a genialidade da situação, Malfoy? – James disse arqueando uma sobrancelha. – Sinceramente... E eu pensando que tinha te ensinado tudo.

— Que genialidade? Você é um biruta, James, isso é o que você é. – Malfoy disse revirando os olhos.

— Qual é mesmo o objetivo dessa festa de Halloween? – James perguntou retoricamente. – Ah, sim, promover a interação do nosso mundo com o mundo trouxa.

— Não vejo aonde você quer chegar. – Scorpius disse franzindo a testa.

— Simples, vamos pegar McGonagall usando métodos trouxas. – James disse simplesmente. – Ela nunca vai desconfiar se fizermos direitinho...

— E como você pretende fazer ‘direitinho’? – Scorpius perguntou desconfiado.

— Não posso fazer sozinho, meu caro Scorpius, é um plano muito engenhoso e que vai exigir muita técnica e habilidade. – James disse com aquele olhar lunático para o além novamente.

— Você já pensou que dá certo para os trouxas porque eles não tem feitiços que detectam falsificações nos documentos de Hogwarts? – Malfoy respirou fundo e completou. – É quase impossível enganar McGonagall, Potter.

— Ainda bem que é ‘quase’, começaria a me preocupar se fosse apenas impossível, Malfoy. – James disse rindo e tornou a andar. – Nos vemos mais tarde, tenho assuntos a tratar. Mas tudo dará certo ou eu não me chamo James Sirius Potter.

— Pronto para mudar de nome, Potter? – Malfoy disse em tom alto de voz, já que ele se afastara.

— Confie em mim. – James deu uma piscadela, sorriu e correu em direção a biblioteca.

— Confie em mim... – Scorpius repetiu para si mesmo.

Por que será que apesar de seus instintos gritarem não todas as vezes que ouvia essas palavras ele continuava confiando sem pestanejar em James Potter?