Resistance
12 I Want to Hold Your Hand
Era a manhã do dia do baile, os alunos seriam liberados após o almoço para se prepararem, ajustarem fantasias e etc. Todos na escola pareciam animados com a comemoração, inclusive James, que acordara se sentindo melhor em relação a sua vestimenta (depois de Abbie garantir que tinha adorado e que ele ficaria muito charmoso com ela).
Scorpius passara a tarde imaginando maneiras de escapar do seu compromisso com psicopam, o apelido maldoso e, não veridico (ele torcia) que James dera para Pam, além, é claro, de pensar em formas de sequestrar Rose (depois de garantir que ela não se importaria) e experimentar beijá-la novamente.
Não conseguia negar nem para si mesmo mais. Era Rose, sempre fora Rose e sempre seria Rose a pessoa que dominaria seus pensamentos adolescentes. Queria beijá-la. Precisava beijá-la. Precisava ter certeza que Rose se sentia da mesma forma.
Rose Weasley. Weasley. Pensou no que o pai diria se descobrisse que ele estava apaixonado por alguém com esse sobrenome. Uma Weasley orgulhosíssima de ser uma Weasley. Talvez o tirasse de vez de Hogwarts mesmo. Ele tinha escutado histórias sobre a inimizade de seu pai com os pais de Rose a vida inteira, e apesar de todos serem adultos agora, sabia que seu pai os chamava de traidores de sangue quando pensava que não tinha ninguém escutando, o que lhe rendia olhares feios e repreensões por parte de mãe todas as vezes.
Scorpius não ligava, trocaria Hogwarts por Rose, mesmo sabendo que se saísse de Hogwarts seria quase impossível encontrar-se com ela.
—
Rose, por outro lado, estava com raiva.
Não era como se ela não soubesse o porquê. Sabia que estava com raiva porque se permitira sentir algo pelo seu melhor amigo, porque Scorpius já tinha um par para o baile e mesmo sabendo por alto que a garota não tinha a melhor das personalidades, ela era bonita.
Ela também estava com raiva por Phil ser tão perfeitinho e ficar perguntando o porquê de ela estar daquela maneira o dia inteiro. Estava com raiva de não ter coragem de terminar com Phil. Estava com raiva do Sr. Malfoy pela possibilidade de tirar Scorpius de Hogwarts. Estava com raiva de James por tê-la apresentado a Scorpius no segundo ano. Estava com raiva do mundo. E com vontade de chorar.
— Rose! Finalmente te encontrei. – James disse no corredor do banheiro dos monitores.
— O que foi? – Rose virou-se e fingiu amarrar os cadarços, não queria que visse que andara chorando. De novo.
— Credo, prima. – James fingiu perplexidade. – Por que tão rude?
— Só estou... Chateada com algumas com algumas coisas chatas de monitores. – Rose tentou mostrar desinteresse, como se não fosse nada demais. – Mas o que você manda?
— Bem, eu estava pensando se, agora que você sentiu o gostinho de descumprir as regras, você não gostaria de me ajudar com uma coisa importante hoje à noite. – James disse com os olhos brilhando de expectativa. – Eu só preciso que você distraia Mcgonagall por uns minutos enquanto...
— Ah, nem vem James. – Rose o interrompeu. – Eu fui com vocês por uma causa maior.
— Mas isso também é uma causa grande! – James se sentiu pessoalmente ofendido.
— E qual é a causa? Batizar as bebidas da mesa? – Rose perguntou debochando.
— Não... – e sim, era exatamente aquela sua causa. – Ok, é isso sim. Mas você sabe quão chatas as pessoas podem ser quando estão sóbrias.
— Esse é o seu grande argumento a favor de seu plano genial? – Rose desafiou.
— Prima, prima, prima. – James disse pondo as mãos nos ombros encolhidos de Rose. – Você já ouviu a incrível história de... James Whisky?
— Não... E tenho certeza que ele nem exis... – Rose começou e James a interrompeu.
— Bem, ele era um rapaz mais ou menos da nossa idade que morava na pacata cidade de... ér, não é importante. Mas essa cidade era tão sem graça que nem quem morava lá gostava dela. – James contou a história como se ela existisse de verdade. – Então um dia, um belo, corajoso e charmoso jovem de cabelos negros chamado James, inventou uma bebida que tinha um efeito de desinibir as pessoas de maneira a deixa-las interessantes e divertidas...
— James... Hm, me soa familiar. – Rose riu e James nem deu atenção.
— Pois então, James teve a ajuda da sua melhor amiga, a qual ele amava de todo coração... Ro... Roberta. – James disse com os olhos brilhando. – E foi assim que James salvou a pacata cidade de... Nogwarts.
— Por que James não pediu a ajuda de seu grande amigo e fiel escudeiro, Scalopius? – Rose perguntou entrando na brincadeira.
— Por que Scorpius vai estar ocupado tentando se livrar do problemão que ele arrumou convidando Psicopam. – James disse e suplicante completou: – Por favor, Rose? Por favor?
— Como assim se livrando da acompanhante dele no baile? – Rose não queria rir do apelido, mas não conseguiu e olhou para baixo para evitar que James visse seus olhos brilhando.
— Ele a convidou por impulso. – James sacudiu os ombros. – Quando lembrou que a acompanhante que ele queria era tapada como ele e já tinha um par.
— Ah é? Quem era a acompanhante que ele queria? – Rose escondeu uma frustração, jamais imaginaria que era ela.
— Meu Deus, estou começando a pensar que eu sou sem dúvidas o cérebro desse grupo. – James disse rumando em direção aos jardins. – Aguarde meu sinal e obrigado pela ajuda. – gritou sobre o ombro.
— Hey James, Espera! Eu não concordei em te ajudar! – Rose gritou de volta. – Me conta o que você sabe... JAMES!
Mas James já tinha virado o corredor e não se ouvia mais seus passos.
— Droga. Odeio pessoas que começam a contar as coisas e não terminam. – Rose disse para si mesma frustrada.
James ainda estava rindo da menina quando Scorpius o puxou pelo braço assim que ele cruzou seu caminho.
— Olha a agressão aqui meu camarada!
— James, acho que nós temos um pequeno, um mínimo probleminha. – Scorpius estreitou os olhos. O amigo sorriu abertamente como se nunca houvesse causado problemas a ninguém.
— Ah, é?
— É, porque eu não vi nem sombra de Filch há algum tempo e ele está sempre em meu encalço. Talvez você tenha esquecido de me contar alguma coisa sobre o que aconteceu depois que eu corri da sala para proteger Rose.
— Ele só está descansando Scorpius, relaxe. Deus sabe que o velho precisava de um cochilo. Sabe como é, tantos alunos aprontando... O homem não dormia há dias!
— Você enlouqueceu? – o menino gritou e muitos pares de olhos se voltaram para os dois. Recuperando o tom, grunhiu – Jay sabe aquela vozinha? – Apontou para a cabeça – Aquela que dita os limites?
— Consciência? – Fez careta – Não, não sei. – Rindo, girou os olhos – Sem drama, certo? Tem um monte de armaduras naquela sala, mas é Filch, ele deve contar cada uma delas todos os dias por diversão. Eu não podia deixar que ele estragasse nossa festa.
— Onde ele está?
— Dormindo, já disse.
— Você não vai me contar mais que isso, vai? – perguntou frustrado.
— Não, meu companheiro. Um homem precisa saber até onde pode chegar.
— Olha quem fala!
— Scorpius, faça assim: livre-se de psicopam, dê uns amassos em Rose e se a merda bater no ventilador, deixe-me ficar com os louros pelo trabalho.
— Então é isso que você está tentando fazer? – de repente, ele se sentiu culpado – Tentando me proteger?
— E eu tenho a cara da sua mãe, por acaso? – rebateu indiferente, mas saiu apressado, porque, proteger Scorpius era exatamente o ponto da questão.
E porque a ideia de deixar a ele e Rose começava a incomodar mais do que gostaria de admitir. Já que se formar era inevitável e que todo mundo precisava crescer uma hora ou outra, pelo menos se asseguraria de que nada de mal recaísse sobre os dois até as férias. E, se tivesse sorte, talvez conseguisse vê-los se acertando antes de sair da escola.
Já tinha até uma dúzia e meia de piadinhas prontas para quando fossem um casal.
—
O salão estava excepcional. As pequenas, médias e grandes abóboras plantadas, cuidadas e cultivadas por Hagrid agora brilhavam com velas por toda a abóboda do teto encantado – estrelado como nunca – lançando feixes alaranjados bruxuleantes nas paredes. Propositalmente mal iluminado, também contava com mágica especial para que as poucas luzes que não provinham de velas dessem um ar espectral ao lugar. Aranhas, caveiras e todo tipo de enfeite de Halloween tornava o lugar incrível e até alguns fantasmas mais empenhados ajudavam na decoração: com as roupas transformadas em lençóis enormes, zanzavam pelo salão do jeito que pareciam no imaginário trouxa. Era uma cena no mínimo patética para os jovens bruxos que se divertiam ao vê-los.
Para completar, havia a banda bruxa contratada para tocar, entocada no palco montado a frente. Eles se esforçavam para cantar as musicas trouxas clássicas de halloween, mas também alguns sucessos dos anos 60, 70 e 80.
Nem todos os adolescentes trouxas escutavam rock clássico, mas os estudantes bruxos de Hogwarts estavam curtindo de verdade ao som dos Beatles.
E por tudo isso, Rose quase perdeu o ar ao entrar.
A menina tinha demorado propositalmente. A ideia de Phil esperando na ponta da escada ou no corredor da Grifinória fora uma cena bonita de se imaginar há alguns dias, mas só fazia com que ela se sentisse culpada agora. Felizmente ela andou com as próprias pernas e sem ninguém para acompanhá-la até o salão principal.
James piscou e acenou assim que a avistou. Ele estava com Abbie – que trajava roupas de Cleópatra – e se esforçava ao máximo para ignorar Phil, sozinho do outro lado da mesa redonda.
Não muito distante, Isobel Dawson – de mulher gato — e Al, pareciam profundamente envolvidos numa conversa. Rose escutara todo tipo de boato a respeito dos dois, e as más línguas pareciam convencidas de que não passava de um jogo de interesses. Alguns acreditavam que da parte dela, por ele ser um Potter, e, mais que isso, o Potter excepcionalmente parecido com o auror mais famoso de todos os tempos, Harry. Outros acreditavam que o esperto era ele, que poderia se beneficiar com o fato de a garota ser colunista do jornal da escola.
Não precisava muito mais do que uma olhada neles para saber que nada do que diziam sobre o casal condizia com a realidade. Assim como Hugo e Lily, na pista de dança, se esforçando ao máximo para não se agarrarem ao som de I want to hold your hand, eles claramente se gostavam.
— Você está linda – Phil se levantou para recepcioná-la com um sorriso tão grande no rosto que quase a fez chorar de remorso.
— Obrigada – murmurou enquanto ele puxava a cadeira para ela.
Abigail e James trocaram olhares e em menos de 10 minutos, a namorada de James tentava aliviar a barra de Rose se empenhando numa conversa qualquer sobre quadribol com Phillips, enquanto James a tirava para dançar.
— Hey Jude, don’t make it bad. – ele cantarolou, rodopiando-a. Rose riu e o abraçou, suspirando.
— Não sei o que está acontecendo comigo, James. – confessou em um sussurro, enquanto ele a guiava cada vez mais para o centro.
— Você sabe sim, Weasley. – Havia uma razão para ele enfatizar o sobrenome. Afetuosamente, lhe plantou um beijinho na ponta do nariz.
Ela encarou os próprios pés.
— Olhe, here comes the sun. – brincou, virando a cabeça discretamente para o lado.
De alguma maneira, a visão de Scorpius se aproximando era suficiente para lhe roubar a respiração também. Ele tinha os olhos neles e sorriu.
— Que babaca – James riu. – Mal consegue disfarçar a baba.
Rose o encarou, confusa. O menino arqueou a sobrancelha levemente.
— Ih, nem você aparentemente. Deixe para lá. – e tornou a embalá-la.
Malfoy não conseguia fazer nada alem de observá-los, mantendo uma distancia de segurança para que não fosse imprudente de raptá-la para longe dali.
— Oi – uma mão pequena apertou a sua, distraindo-o.
— Ah, oi, Ps... Pam. – Limpando a garganta, ele rasgou um sorriso falso – Estava procurando por você.
Ela riu e meneou a cabeça.
— Estou acenando há uns três minutos, ceguinho.
— Me desculpe – murmurou – Quer que eu pegue as bebidas?
— Não – ela o puxou delicadamente em direção a mesa que dividiriam com outros casais sonserinos – Lance já apanhou umas três garrafas de cerveja amanteigada.
Malfoy concordou e a acompanhou, sem conseguir evitar de olhar para os amigos por cima do ombro. Rose nem conseguiu disfarçar o desapontamento.
— Escute – James a forçou a encará-lo – Vamos voltar para nossos lugares, agora. Abbie deve estar tão entediada a ponto de considerar se suicidar com o próprio cabelo que felizmente não é grande o bastante para tal façanha. – ele pousou ambas as mãos sob os ombros dela – Existe uma razão para essa festa estar acontecendo, lembra? É a noite da trégua. Da tolerância. Um chute na cara dos bruxos preconceituosos. Um murro na tradição. Não seja intolerante com você mesma, certo? E esqueça a história que não é nossa.
Rose sabia ao que ele se referia. Era estranho que James, que se mostrava tão pouco sensível ao sentimento dos outros, pudesse enxergá-la tão fundo.
Lembrou-se de quando ele citou o ditado sobre a farinha e o bolo. Não havia modo de discordar. Acaso, de todas as razões que tinha para não assumir a queda por Scorpius, o sobrenome não era o que falava mais alto? Por mais que tentasse encobrir o motivo delicado, não era isso que, sobrepondo Phil, o medo de estragar a amizade e até o desespero de não vê-lo, mais a perturbava?
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