Resistance
13 Draco Dormiens Nunquam Titillandus
Aquela festa de Halloween entraria para a história de Hogwarts. Até os que se manifestavam resistentes à temática do evento pareciam estar se divertindo como nunca. Rose, apesar de se sentir tensa por querer terrivelmente trocar de acompanhante, estava conseguindo se divertir com as piadas de James e com o revirar constante de olhos de Abbie para o mesmo, mas mantinha os olhos fixos no que Scorpius e Pam faziam na mesa do outro lado do salão.
As vezes seus olhares se encontravam e Rose acenava, recebendo sorrisos que a faziam perder a respiração. Na mesa seguinte, Hugo e Lily eram o casal que namorava escondido mais exposto do mundo, ás vezes se olhavam como se não existisse mais ninguém no salão. Quando dançavam não faziam questão de esconder o que sentiam um pelo outro e, apesar de não se beijarem, Hugo parecia não conseguir tirar a mão da cintura exposta de Lily. Na pista de dança estavam Isobel Dawson e um embasbacado Alvo, ainda em choque com as roupas justas que caiam perfeitamente no corpo esguio e alto da garota.
Com os sonserinos, Scorpius também não tirava os olhos de Rose e sentiu ser a gota d’agua quando viu que Phil tentava lhe servir comida na boca e que ela não parecia muito confortável com isso. Com raiva e ignorando as perguntas de Pam, decidiu levantar-se e dar um jeito de sumir junto com Rose de uma vez. Enquanto cruzava o salão viu Weasley sorrir para ele e sorriu de volta.
De repente raptá-la nem fosse uma tarefa tão árdua.
Mas foi só pensar nisso e começou a parecer que estavam brotando pessoas no caminho entre as mesas, então ele resolveu cruzar a pista de dança. Rose que antes sorria agora olhava tensa para trás e era puxada por James e Abbie para algum lugar. Quase ao mesmo tempo, dois braços musculosos arrastaram Scorpius para uma saída alternativa, que ele nem mesmo sabia que existia, para fora do salão.
Olhou em volta sem entender nada, enquanto os dois rapazes, vestidos de cupido, retornavam para dentro sem dizer uma palavra. E então algo fez com que olhasse para cima e visse Rose em uma janela. A menina parecia muito atordoada.
— Rose? Rose! O que está acontecendo? – Scorpius perguntou sem entender.
— Shhh, eu já vou te explicar, mas primeiro eu quero que você coloque o capacete ou qualquer coisa que cubra o seu rosto e me espere perto do lago, tudo bem? – ela instruiu e Scorpius concordou sem entender nada, cobrindo o rosto com o capacete que carregava no braço e seguindo em direção ao lago.
Depois de quinze minutos que pareceram uma hora para Scorpius, uma Rose aflita apareceu. Malfoy se levantou de imediato.
— O que está acontecendo? Por que me expulsaram da festa? Por que está tão tensa? – Scorpius a bombardeou de perguntas e Rose o olhou sem ação.
Rose não conseguia responder, em sua mente só se passavam imagens de Scorpius sendo expulso como em um filme de terror de mau gosto. Ela pensou mais uma vez em como seria quando não pudesse vê-lo todos os dias, ouvi-lo rir todos os dias, discutir com ele e fazer as pazes todos os dias... E se sentiu horrível.
— Rose? – Scorpius disse ainda confuso. Ela olhou para ele, tirou seu capacete e o abraçou forte.
Quando se separaram do abraço, Scorpius a olhava com expectativa. O que estava acontecendo? O que seria tão grave para Rose estar agindo daquela maneira silenciosa? Ser tagarela era uma de suas principais características.
Sem pensar muito mais, Rose passou a mão nos cabelos que sempre quis massagear e antes que mais uma pergunta se formasse em seu cérebro, e nos lábios de Scorpius, o beijou.
Todas as melhores sensações que já tiveram na vida não se comparavam, ainda que se juntassem, àquele momento. Eles se beijaram de maneira apaixonada e urgente, mal sobrando espaço para o desconforto e as inseguranças que isso geraria em outro contexto.
Rose sentia como se tivesse aparatado em outro planeta, outro universo, se isso fosse no mínimo possível para ela, sendo uma bruxa menor de idade. Não pensava mais em Phil, no que aconteceria se os pegassem ali se beijando no lago, no que aconteceria com ele se o pegassem. Ela o beijou como se fosse o ultimo beijo de sua vida. E sentiu como se não pudesse mais beijar outra pessoa novamente.
Toda a confusão que poderia existir em algum lugar de Scorpius se esvaiu com o toque daqueles lábios, mais macios do que podia se lembrar. Todo o medo de estragar uma amizade tão longa como a deles se esvaiu quando ele abraçou aquela cintura e sentiu o cheiro daqueles cabelos. Ele a amava e estava disposto a enfrentar tudo para que isso pudesse ser possível. Mais do que isso, Scorpius queria que Rose soubesse como ele se sentia. Quando se separaram tentou dizer algo, mas nada saiu. Então a abraçou forte e a beijou novamente.
Quando recuperaram o fôlego, ficaram em silêncio, se olhando, Scorpius sorriu ao passo que Rose enrubesceu, então ele resolveu quebrar o silêncio.
— Esse mistério todo era só para me arrastar aqui para fora e me beijar? – Scorpius brincou. – Sério, Rosie, você poderia só ter pedido.
— Seu idiota. – Rose disse sorrindo e de repente parou, se lembrando do motivo daquela aflição. – Seu pai... Ele está aqui em Hogwarts.
— O que? – O sorriso de Scorpius também se desfez. – Como assim? Como ele soube?
— Aparentemente Hogwarts mandou uma carta de agradecimento a todos os pais que assinaram a solicitação. – Rose disse chateada, se aconchegando no abraço de Scorpius.
— Puxa... Nem eu, nem James, contávamos com isso. – Scorpius a abraçou forte. – Mas e daí? – disse sacudindo os ombros. – Não é como se ele fosse fazer algo comigo agora.
— Eles podem te expulsar daqui se provarem que vocês falsificaram a assinatura. E se não te expulsarem... — a voz de Rose soava fina e baixa. – Seu pai pode te tirar daqui. Talvez ele esteja aqui exatamente para isso, Scorpius. – os olhos dela brilharam de lágrimas acumuladas e desespero.
— McGonagall vai aplacá-lo – ele respondeu, muito mais para tranquiliza-la do que por fé no que dizia.
De qualquer forma, contra isso ela não podia argumentar. Minerva odiava escândalos e balburdia e exatamente por isso sabia como evitá-los como ninguém, especialmente quando o nome de Hogwarts estava envolvido. A diretora tinha pulso firme e um olhar severo que impunha respeito até nos mais arrogantes.
Rose suspirou e tentou se desvencilhar gentilmente, mas Scorpius era maior e mais rápido.
— Espere, fique comigo. – pediu, demonstrando medo pela primeira vez.
— O que você achou que eu ia fazer? – ela esboçou um sorriso triste – Fugir? – e sem esperar resposta, passou o polegar pela bochecha dele, carinhosamente. – Precisamos encontrar outro lugar para ficar. Aqui fora pode acabar sendo tão perigoso quanto o salão.
— Fugir é uma boa ideia. – ele meditou, levantando-se e segurando a mão dela – Você quer fugir comigo?
A ideia era tentadora em muitos níveis. Eles poderiam sair fácil de Hogwarts com a ajuda de James, mas isso não resolveria nada. Era só o meio mais fácil de piorar tudo.
— Não – o desapontamento estampado no rosto dele não lhe passou despercebido. – Scorpius, uma hora você vai ter que se apresentar ao meu pai e não vejo como uma fuga dessas ajudaria no seu currículo.
O primeiro impulso foi rebater. Mas então Scorpius notou o que estava subentendido na frase. Ela o queria como namorado. Sorrindo como um idiota sem nem mesmo se lembrar do quanto aquilo poderia ser impossível, ele a agarrou outra vez.
Fazia muito frio fora do castelo, mas Rose tinha certeza que estava tremula pela adrenalina. Eles circundaram boa parte das paredes de pedra, tomando o cuidado de passar longe da entrada principal. Uma vez dentro do castelo outra vez, se esgueiraram pelos corredores – praticamente vazios – e avançaram para cima, cada vez mais para longe do salão principal, até pararem, exaustos, na torre de astronomia, a mais alta de todo o castelo.
Rose desmoronou contra uma parede, resfolegando, o rosto iluminado por um discreto archote de luz. Ela sentia o cabelo grudar na nuca por conta do suor e o sangue correr tão rápido nas veias que podia sentir um leve zumbir nos ouvidos.
Scorpius era bem mais atlético, mas não estava muito melhor.
Ele se deixou deitar ao lado da garota e Rose se distraiu contando quantas vezes o peito dele subia e descia.
— Você sabe – murmurou de olhos fechados – Ele nunca vai vir aqui. – E embora doesse dizer, explicou – Covarde demais. — havia rancor na voz dele e ela não se sentia em posição de dizer algo.
Rose abraçou os próprios joelhos, mirando o local. Uma vez, em um tempo tão difícil que ela mal conseguia visualizar, o antigo diretor de Hogwarts havia sido morto, ali onde estavam. Draco Malfoy tinha ligação direta com a história, embora os arquivos legítimos sobre o que acontecera fossem lacrados para preservar a família e demais envolvidos no período da guerra.
Havia um monte de arquivos sigilosos.
Tudo o que sabiam alem dos textos oficiais não passava de especulações.
Rose optou por continuar em silêncio. E por deitar, por fim, a cabeça no peito do rapaz. Eles encararam o céu juntos.
Até que ela começou a dizer, baixinho:
— Scorpius é o nome de uma constelação de estrelas. Antares, minha estrela preferida, é a maior dessa constelação. Não sei o que pensar quanto ao resto, mas gosto do nome que seu pai te deu.
Ele soltou um riso respirado e verteu algumas lagrimas sem perceber.
— Eu o odeio. – e a encarou – Odeio tanto quanto o amo. Não sei o que fazer com isso.
— Então não faça nada. – aproximando o rosto com calma, ela roçou o nariz no dele. Scorpius nunca se permitira falar de Draco com mais ninguém. Do mesmo modo que nunca sentira o que estava sentindo por mais ninguém. Não era só o coração que ele entregaria a Rose de bandeja. Ela poderia ficar com tudo. Com sua alma e qualquer coisa que desejasse, porque ele descobriu, naquele instante, que não importava com quantas sombras escuras a história de sua família era feita, nada poderia macular o que ele tinha por ela, nem como se sentia bom o suficiente perto dela.
Bom o suficiente para mostrar ao Sr. Weasley, quando a hora chegasse, que ele era um namorado decente. Porque agora que tinha Rose tão próxima, literal e metaforicamente, não a perderia. Ele a beijou uma, duas, incontáveis vezes, por todos os anos que poderia ter feito e não fez.
Não importava se a festa estava sendo ótima lá embaixo ou se seu pai e a diretora estavam batendo de frente um com outro naquele instante, ou se já estavam procurando-o ou mesmo se ele iria embora pela manhã, porque ele estava ali, com Rose em seus braços, do jeito que vinha desejando.
— De quantas maneiras seremos atormentados por James durante os próximos séculos? – Rose perguntou, apoiando a cabeça no ombro de Scorpius que a abraçava por trás.
— Não quero nem pensar – Riu, inclinando o pescoço para lhe beijar o rosto. — Se eu for embora, é bom que sobra para você.
— Piadinha infeliz, Malfoy.
Ele suspirou, apertando-a.
— Pode acontecer, Rose. Não vamos ficar escondidos aqui para sempre.
Afastando-se bruscamente, ela se levantou.
— Rose... – Ele sabia como ela era geniosa. Levantando-se também, tentou se aproximar.
— É só que eu não consigo fazer piada. Não consigo ficar tranquila como você. – disparou e Scorpius a puxou pela cintura.
— Você acha que eu vou ficar feliz se tiver que deixar você na mão? – colando a testa na dela, ele grunhiu – Acha que vou saltitar deixando minha namorada sozinha aqui? – ele continuou vociferando inúmeras coisas, mas ela não prestava mais atenção.
— Sua namorada? – ela sentiu o coração bater descompassadamente e percebeu que ele havia entendido errado quando Scorpius retesou todos os músculos.
— A não ser que você queira continuar saindo com... – o nó na garganta era grande demais para ele completar a frase.
Rose segurou o rosto dele com ambas as mãos.
— Com mais ninguém. – completou por ele, sorrindo. – Ser sua namorada parece um bom plano para mim.
— Minha namorada. – Scorpius murmurou, antes de suspendê-la do chão e beijá-la.
Eles não saberiam dizer ao certo quanto tempo permaneceram ali. Em algum ponto da noite, se arriscaram e acabaram na sala precisa. E em seguida um sob o outro, jogados no chão liso e frio do cômodo, até que se livraram: do passado, do futuro, dos medos e das fantasias.
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