Resistance

4 Estufa Três


— Será apenas um encontro de trabalho. Será apenas um encontro de trabalho. – Rose se pegou dizendo, colocando ênfase na palavra mais importante. Não era como se nutrisse sentimentos profundos e fortes por um cara que conhecera no dia anterior. Mas estar perto de um rapaz que não a via como irmã ou como amiga era novidade. E se sentir atraída por Phil era uma outra coisa inédita... Se positiva, ela não sabia, mas a amedrontara até o último fio de cabelo.

No intervalo após o almoço, Rose se viu no espelho do banheiro dos monitores procurando uma maneira de prender os longos cabelos de uma maneira diferente. Não sabia ao certo qual era sua intenção, na verdade fora quase um movimento involuntário, uma reação às palavras de Scorpius no dia anterior, “como se você fosse...”. Estava na hora de seus amigos perceberem que ela tinha sentimentos e que alguém se interessara por ela ou estava ao menos sendo muito gentil.

— Hey, hey. – James correu e a alcançou no corredor entre o quarto e quinto horário. – Rose, eu preciso te perguntar algo sobre o Scorpius...

— Agora não James, eu estou realmente com pressa. – Rose desviou-se do primo que se colocou a sua frente.

— Você sabe me dizer para quem ele tinha um recado importante hoje? – ele perguntou curioso, alcançando-a novamente.

— Não sei, por que não pergunta para ele? – Rose disse desvencilhando-se do primo que insistia em ser respondido mais uma vez. – Sério, agora não, Jay.

— Por Merlin, o que será que eu fiz de errado hoje? – James perguntou a si mesmo sozinho no corredor, enquanto via Rose migrar em direção a entrada principal.

— Falando sozinho, parceiro? – Scorpius apareceu atrás de James, colocando a mão em seu ombro.

— Estou me perguntando o que eu fiz para vocês hoje. – James dramatizou, como sempre fazia. — Rose acabou de me dispensar com a mesma frase que você usou para me dispensar mais cedo. Eu gostava mais de vocês quando não escondiam as coisas de mim... Terrivelmente magoado estou.

— Ah, é porque ela está atrasada para o encontro dela com Phillip Phillips. – Scorpius abafou uma risada.

— Por que você está tão animado com a ideia de Rose saindo com um idiota como Phillip Phillips? – James perguntou irritado. – Mas pera aí, o nome dele é Phillip Phillips?

— Porque talvez eu tenha repassado um recado errado. – Scorpius riu. – E sim, de onde você acha que veio Phil? Idiota.

— Não, idiota, você já percebeu que o sobrenome dele é o nome dele no plural? – James perguntou rindo e cobrindo o rosto com as mãos. – Que nome naturalmente digno de piada.

— Igual ao dono. – Scorpius disse com súbita irritação. – Todo educadinho, mauricinho... — James achou melhor não implicar sobre a ironia de uma pessoa como Scorpius chamando outra de 'mauricinho'. — Aposto que é tudo pose.

— Sim, e eu espero que Rose perca todo o encanto que tem por aquele... Engomadinho. – James disse com o mesmo tom de desprezo que Scorpius usara. — Se não, vamos ter que dar um jeito.

— Por que você odeia tanto o cara? – Scorpius voltou a si e perguntou, curioso.

— Por que você odeia tanto o cara? – James ainda não se sentia preparado para contar sobre a sua derrota para Scorpius e percebendo o silêncio do amigo concluiu: — Viu? É esse exatamente meu ponto.

A verdade é que Scorpius não sabia ao certo. Atribuíra o ódio gratuito ao pensamento de Phil se meter no trio, mas agora só a menção de seu nome o irritava profundamente. Ele não precisava de motivos, pensou consigo mesmo, decidido. Odiava Phillip Phillips.

—

Rose correu em direção a estufa porque não queria deixar Phil esperando. Além disso, parte dela realmente odiava chegar atrasada a qualquer lugar. Desejou ter tido tempo para guardar seus livros pesados que estavam empilhados contra o peito e dificultavam seu trajeto às vezes fazendo com que ela se desequilibrasse, como acabara de acontecer.

Estava perto da estufa onde marcara com Phil, precisamente passando entre o deserto que era a estufa dois, quando tropeçou em seus cadarços e tombou, levando todos os seus livros ao chão. Amaldiçoando sua sorte baixinho enquanto os recolhia, Rose ouviu um barulho e sua curiosidade a fez ficar em absoluto silêncio para descobrir sua origem.

Com certeza parecia o ruído de duas pessoas se beijando.

— Aqui não, alguém pode nos ver... – disse a garota, sussurrando.

— Relaxa, as aulas de Herbologia só estão acontecendo na primeira estufa. – disse no mesmo tom uma voz masculina.

— Ah... – E a menina foi interrompida por mais um beijo.

— Você fica mais linda ainda quando está toda vermelhinha assim. – a voz masculina comentou. Rose decididamente conhecia aquela voz. De repente esqueceu-se do atraso e seguiu o timbre que era mais que familiar para Rose. Aliás, familiar era a palavra correta.

Quando chegou ao corredor, se deparou com dois corpos tão juntos que poderiam facilmente se passar por um só. O garoto enlaçara gentilmente a cintura da garota ruiva enquanto a mesma enterrara suas mãos pelos cabelos ruivos dele.

Rose não conseguia acreditar nos seus olhos.

— Hu-Hugo? – Rose perguntou incrédula. – Lily?

Hugo Weasley e Lily Potter se separaram imediatamente. Branco de susto, Hugo se encostou na parede ao lado de Lily que, por sua vez, ruborizava tanto que seu rosto atingia a mesma cor de seus cabelos.

— O que vocês... O que? Como? – Rose encontrou dificuldade para formular uma pergunta coerente. – Céus, desde quando?

— Não conta nada para o papai, Rosie... Por favor. – Hugo suplicou depois de minutos observando a feição incrédula de Rose. – Ele contaria para tia Gina ou tio Harry e... Bem, a gente se gosta.

— Mas vocês são... Novos. – Rose procurava as palavras certas para dizer. – E primos. E novos demais. Muito novos para toda essa... Troca de saliva.

— Não somos novos demais. – Hugo disse e Lily, ainda envergonhada coçou a cabeça e desviou os olhos do olhar da prima.

Rose trocou o peso de um pé para o outro, sem saber o que pensar, falar ou sentir. Em um gesto de muita coragem – ou de muita burrice – Hugo segurou a mão da prima com força.

Então era isso. Sim, eles estavam juntos desde sempre. Brincando na areia em frente a casa de praia dos Potter, especulando quem faria magia primeiro em férias na Toca, entrando juntos para o colégio... Era uma união invejável, de fato, e muito bonita, mas Rose não tinha certeza se estava preparada para acrescentar incríveis amassos na lista de lembranças que tinha dos dois. Suspirando, ela olhou para todas as direções, menos para eles, como se pudesse encontrar alguma resposta dessa forma.

— Certo. – Pigarreou para tentar limpar a garganta seca – Desde quando? – Repetiu.

— Inicio desse ano. – Lily respondeu no fio de voz que ainda tinha.

Ela se limitou a concordar com a cabeça, ainda atordoada.

— Eu não vou falar nada. – Decidiu, por impulso, ignorando os suspiros de alivio – Mas também não vou mentir.

Hugo a encarou. Ele tinha consciência que não conseguiria mais do que isso da irmã mais velha. Na verdade, não esperava outra atitude dela. Mesmo porque, eventualmente, ele sabia que teria que lidar com isso.

Por enquanto, ter o apoio ou pelo menos a omissão de Rose já era bom o suficiente. Como em poucas vezes acontecia, ele sentiu uma súbita vontade de abraçá-la, mas ponderou que ela já havia tido surpresas demais para um dia só.

— Obrigado. – Limitou-se a dizer, porque ela o conhecia e saberia o quanto ele estava genuinamente grato.

— Não – ela disse, balançando a cabeça rapidamente – Não me agradeça assim, ok? – suspirando, passou a mão pelo rosto – Só... Prove o que me disse. Prove que não são novos demais. – e com um olhar que, embora eles não tivessem consciência, era muito parecido, ela o analisou.

Hugo se tornara maior que ela há algum tempo, do mesmo jeito que perdera o rosto de criança em alguma parte da história. Rose não saberia dizer com exatidão quando ele passara de bebe chorão para um rapaz, mas o ponto é que isso acontecera.

— Seja um cara responsável. — ela também não tinha certeza se isso teria efeito para um garoto de 15 anos, mas achou melhor simplesmente ir embora.

Ainda teve tempo para ouvir Hugo sussurrando para Lily que tudo acabaria bem antes de estar longe o suficiente. Meneando a cabeça, cambaleou em direção ao castelo. Depois de guardar os livros, se jogou na cama de dossel, mirando nenhum ponto em especial.

Descobrir – da pior forma possível – sobre o namoro de Hugo e Lily fizera com que ela se esquecesse completamente do quinto horário. E também de...

Do que mesmo?

A resposta se formou em poucos segundos em sua cabeça e então ela se pôs a correr em direção a estufa três outra vez. Não era aquele tipo de apresentação que havia imaginado. Chegar apressada, o rosto em chamas, a respiração ofegante, o cabelo grudando na nuca, mas nada disso importava agora porque por algum motivo ele ainda estava ali, esperando-a calmamente.

— Me desculpe, me desculpe! – pediu com o pouco de ar que lhe faltava. – Eu te fiz esperar muito?

— Não – ele ergueu a sobrancelha e sorriu, divertindo-se com o nervosismo dela – Na verdade, eu cheguei há pouco.

Ela respirou fundo, aliviada. Nem estranhou o fato de que se ele chegara a pouco, chegara com uma hora de atraso também. Para Rose, só estava sendo gentil e não dizendo no sentido literal.

— Venha – ele disse, segurando-lhe a mão – Você precisa se sentar um pouco.

Com um floreio de varinha e algumas palavras sussurradas, as plantas que circundavam o lugar se entrelaçaram e se trançaram até formar um banco suficientemente grande para que dois se sentassem. Rosas trepadeiras enfeitavam as correntes feitas por finíssimos galhos que pendiam da claraboia e sustentavam o banco.

Rose perdeu o ar outra vez.

Eles se sentaram e Phil esperou até que a respiração dela regulasse.

— Obrigada – disse por fim. – É lindo, você é ótimo com feitiços. – declarou, apontando para o trabalho dele.

Phil encolheu os ombros e apanhou uma das flores, colocando-a no cabelo dela.

Rose sentiu o estomago comprimir e revirar.

— Então, o que houve? – Educado. Prestativo. Céus, ele existia?

— Problemas com meu irmão mais novo. – suspirou – Eu me sinto um pouco responsável por ele.

— Bom, isso é natural, não é? Não se preocupe. – consolou-a.

Ela esboçou um sorriso, rapidamente retribuído. Phil usou a desculpa que a rosa estava pendendo, só para mexer em seu cabelo outra vez. E de repente, eles estavam próximos demais. Rose se esquecera completamente do motivo de estar ali, até que algo passou zunindo pela cabeça de Phil e os dois se sobressaltaram.

— O que...? – ela começou a formular uma pergunta, assustada.

Phil suspirou.

— Provavelmente os garotos do primeiro ano apostando quem joga pedras mais alto. – Os olhos dele percorreram a estufa e então ele a encontrou. Uma pedra que não era grande o bastante para machucar, mas inoportuna o suficiente para estragar o clima.

— Bom. – E fez menção de se direcionar para a saída. De fato havia uns cinco ou seis primários um tanto distantes. Ela já estava se preparando para bronquear com os garotos quando Phil a puxou delicadamente pelo braço.

— Deixe para lá, Rose.

Ela quase nunca costumava acolher outras ideias que não viessem dela própria, mas por alguma razão, simplesmente concordou.

— O que você queria me dizer? – Phil perguntou genuinamente esperançoso.

— Bom, era sobre o trabalho. – ainda chateada com a pedra, ela disse e nem notou quando ele desanimou potencialmente – Eu queria começar a debater sobre o projeto.

— Ah, certo. – E eles tornaram a se sentar, dessa vez com uma distância significativa.

De longe, Scorpius Malfoy precisou conter a vontade de bater a cabeça contra o vidro. Tudo que não precisava agora era denunciar sua posição. Esfregando as mãos no rosto, ele tomou cuidado ao se afastar da estufa. Fizera questão de conferir a cara de tacho de Phil ao chegar e não encontrar Rose, mas daí tudo se inverteu e quem acabou sem entender coisa alguma foi ele.

James tinha uma expressão trouxa para aquilo, ele se lembrava: o feitiço contra o feiticeiro, ou algo assim.

Quase fazia sentido agora.

Geralmente em momentos assim em que Rose estava ocupada e James estava em aula, Scorpius passava o tempo com os colegas da sonserina. Ele não era exatamente sociável, mas sua popularidade havia aumentado consideravelmente desde que entrara para o time de quadribol e ele até ia com a cara de algumas pessoas. Dessa vez, no entanto, Malfoy tentou fugir de todas as formas, porque não estava com o melhor dos humores, mas acabou em uma roda, fingindo sorrisos e se perdendo em conversas paralelas.

— Hey – April Palmer o empurrou de leve com o ombro – O que há de errado com você? – cochichou.

— Ah, nada. Acho que estou preocupado com o próximo jogo.

— Contra a lufa lufa? – ela soltou um riso de deboche, mas ele concordou com a cabeça, muito sério.

— Eles não são páreo para o nosso time. – piscou. – O jogo é daqui a uma semana, certo?

— Sim – Confirmou, mas não pôde dizer mais nada, porque naquele instante Rose passou pelo hall de entrada com o babaca do Phillip Phillips. Ele usava qualquer desculpa para tocar em seu ombro, seu braço, ou apenas segurar sua mão, o que não parecia incomodar Rose, que ria a cada duas frases que o garoto resolvia dizer.

April acompanhou o olhar dele e então arqueou a sobrancelha.

— Aquela não é sua amiga estranha da Grifinória?

Scorpius assentiu em silencio, engolindo a seco.

— Uau – ela gargalhou – Galera, olha só – e apontou com a cabeça para Rose. – Se até Weasley conseguiu uma paquerinha, há salvação para todos. – Mas havia um quê de inveja na voz. Phillip estava entre os caras mais bonitos de sua casa, assim como Scorpius e David Hunt, um aluno do sétimo ano. De qualquer forma, surtiu efeito e as risadas ecoaram e irritaram Scorpius, ainda mais. Ele odiava ataques de implicância gratuitos proferidos em bando. Seu pai já tinha um histórico ruim demais para que ele pudesse tolerar esse tipo de coisa.

— Preciso ir – Avisou, já de pé.

April se levantou também, segurando a mão do garoto.

— Espere.

Ele a olhou impaciente. April caminhou com ele para longe dos amigos.

— Foi só uma brincadeira, você sabe né? O que eu queria dizer, de todo modo, é que você pode me encontrar as 11, na sala dos troféus. Na véspera do jogo, ok? Caso precise relaxar.

— Certo. – ele permaneceu com a expressão indiferente. – Tchau, April.