Resistance
5 Bandeira
Depois de socar alguns travesseiros no dormitório, Scorpius tomou um banho, relaxou e desceu para o jantar. Antes de chegar a sua mesa, no entanto, cruzou com James que apenas disse: conversaremos depois da comida.
Scorpius sentou-se em seu lugar habitual entre Axel Cartwright, um rapaz alto de cabelos espetados e o corpo cheio de músculos, (“um armário”, dizia James), Scott Ferguson, bem mais baixo que Axel, seu cabelo parecia um capacete negro (e era burro como uma porta, dizia James, também) e Lance Mosley (era o único que James suportava): ele era divertido, negro e mantinha o cabelo curtíssimo.
James dizia que Lance o lembrava jogadores de basquetebol americano. Não que alguém realmente soubesse muito bem o que era basquetebol.
As meninas que sempre os cercavam se sentaram logo a frente; era uma espécie de fã-clube: mantinham uma certa adoração pelos meninos da casa que jogavam quadribol. April Palmer era a pior delas, na opinião de Rose, sempre com uma risada forçada e falsa.
Malfoy no fundo gostava de se ver rodeado de gente. Podia não ser o monitor da casa ou um Potter – sim, aquele sobrenome sempre teria peso no mundo bruxo; mas o seu próprio sobrenome havia ficado bem manchado por um período no pós-guerra e ele havia receado que as pessoas o julgassem por uma história que não era exatamente sua.
Toda a bajulação oferecida na mesa de Sonserina foi suficiente para levantar o humor do garoto, que agora ria de umas piadas sem graça contadas por Mosley. Seu humor só oscilou novamente ao fim do jantar quando vira Phil Phillips e quando Pam Folley, Aurora Puntfrey e, claro, April Palmer entregaram bilhetinhos em pedaços de pergaminhos em forma de coração para Malfoy dizendo que estavam disponíveis para o baile de Halloween.
Ele sorriu, sentindo apenas um pouco de vergonha por sentir o ego massageado e agradeceu pelos bilhetes, dispensando-as depois. Lembrou-se de que provavelmente não seria autorizado a ir a tal festa para inicio de conversa. Não bastava as advertências, seu pai ainda tinha um pensamento muito negativo e avesso a trouxas.
— Como foi o encontro hoje à tarde? – Malfoy tentou parecer indiferente após o jantar quando encontrou Rose e James.
— Não era um encontro. – Rose ruborizou e deu um soquinho em Scorpius sorrindo. – Nos encontramos para falarmos sobre trabalho.
— Hum. – James acenou com a cabeça e Scorpius fez careta, irritando Rose profundamente.
— O que houve com vocês dois? Será que vocês vão continuar odiando um cara que não fez nada demais para nenhum dos dois? – Rose bufou semicerrando os olhos e cruzando os braços.
— Eu hein, nem falei nada. – Scorpius balançou os ombros, indiferente ao chilique momentâneo de Rose. – Você disse que conversaria comigo após o banquete.
— Ah sim. – James ficou repentinamente brincalhão novamente. – Ouvi dizer que você tá pegando April Palmer... Verdade?
— QUE? Quem te disse isso? – Scorpius perguntou surpreso e furioso. Olhou de relance para Rose que mantinha a pose revoltada, mas agora observava com atenção.
— Todos estão dizendo que viram vocês dois sozinhos em um corredor por aí e a ouviram dizer com todas as letras que você sempre relaxa com ela antes dos jogos de quadribol. – Scorpius enrubesceu e Rose o olhou incrédula. – Eu sempre achei que ela fosse meio desesperadinha, mas é bonita. – James sussurrou as ultimas palavras. – Meus sinceros votos de felicidade.
— Desesperadinha? Ela é uma verdadeira... – Rose achou melhor não dizer algo que sabia que se arrependeria. Estava realmente irritada, mas se recompôs, cruzou os braços e continuou. – Bem, acho que são perfeitos um para o outro.
— Ah, é mesmo? – Scorpius se sentiu instigado a manter o boato. – Obrigado, Rose. Vou dizer a April, ela ficará muito feliz.
— Faça isso. – Rose sorriu cínica.
— Talvez eu faça! – Scorpius rebateu o cinismo sorrindo.
— Nossa, tá tenso aqui, vocês não acham? – James riu se colocando no meio dos amigos, envolvendo-os pelo ombro.
— Não. Está absolutamente normal. – os dois responderam em uníssono e cada um seguiu seu caminho.
— “Tchau Jay, até amanhã!” Até amanhã Scorpius! – James disse para si mesmo, imitando a voz do amigo – “Vamos Jay, amanhã tem aula cedo!” Ok, Rose já vou! – Ele disse falhando miseravelmente ao imitar a voz de Rose.
Estavam acostumados a brigar o tempo todo, mas nem Rose e nem Scorpius sabiam o que estava acontecendo naquele momento em que pareciam não se entender nem por um decreto.
Bom dia, boa tarde, boa noite e tchau foram as únicas sentenças que trocaram um com o outro durante dias. A briga estava tomando rumos incrivelmente novos. Se olhavam torto, falavam pouco e se evitavam sempre que podiam. Até James perdeu a paciência e falou sério – pelo que parecia ser a primeira vez na vida – com os dois, mas nem ao garoto deram crédito.
A verdade é que eles estavam assustados por estarem tão irritados e ninguém parecia realmente querer entender o motivo. Alem do mais, se desculpar significava dar o braço a torcer e ambos eram orgulhosos demais para esse tipo de atitude. Mas então chegou a véspera do jogo e Rose descobriu que estava tão ansiosa quanto Scorpius.
— Como ele está? – perguntou a James num tom que esperava que soasse casual.
— Surtando, como sempre. – encolheu os ombros – E isso porque nem está jogando contra a gente – riu. – Se bem que o resultado de amanhã vai ser decisivo para isso. – e como ainda estava bravo por conta da birra entre os dois, acrescentou – Não que você se importe, não é?
— Não mesmo. – defendeu-se – É só que Phil está apostando que...
— Rose – James a interrompeu, sem ligar para a cara de indignação dela – A quem você está tentando enganar? – e balançando a cabeça, jogou um sapinho de chocolate dentro da boca.
Ela pensou em um zilhão de respostas. E então optou por nenhuma.
Naquela noite, ela mal conseguiu dormir. A quem estava tentando enganar? Ele era mimado, grosseiro de vez em quando, enjoado e cínico, mas era sua dupla nas aulas de poções e de astronomia. Era seu amigo.
Sim, era Scorpius quem demorara anos para se livrar da mania de puxar as tranças dela, mas também era Scorpius que lhe comprava penas de algodão doce toda semana quando fugia para Hogsmeade com James.
Ela sabia que podia contar com ele, e por isso decidiu que faria com que ele tivesse essa certeza em relação a ela também. Só então pôde dormir. Ao menos um pouco, já que se esgueirou mais cedo da cama, se vestiu rápido e atravessou o castelo discretamente.
A essa hora, os alunos estariam descendo para o café da manha, mas ela sabia que Scorpius não. Ele estaria longe, revendo todas as estratégias de jogo, se convencendo de que eram boas o suficiente para lhe render a vitória.
Sorrindo, ela chegou ao vestiário. Um pensamento a parou por um instante. Se April estivesse ali, ela certamente não seria bem vinda. Por outro lado, era a única chance que tinha de se redimir antes do jogo.
Ela murmurou um feitiço e a porta se abriu com facilidade. Rose caminhou por entre os armários, abanando com a mão o vapor que deveria ter saído de um dos boxes.
— Scorpius? – chamou baixinho. – Scorpius? – aumentou o tom e então o encontrou ao cruzar a direita. Ele tinha a mão apoiada em dos armários, a cabeça baixa, os olhos fechados e os cabelos molhados jogados de qualquer jeito para trás com algumas mechas rebeldes insistindo em lhe cair com franja.
Rose preferiu ignorar que seria no mínimo estranho se outra pessoa entrasse no vestiário agora. Embora ela estivesse muito bem vestida, o garoto não usava nada alem de uma toalha enrolada em volta da cintura.
— O que você está fazendo aqui? – perguntou sem se mover.
Ela não respondeu. Pelo menos, não até a curiosidade o vencer e ele abrir os olhos para encará-la.
Rose passou a mão pelo rosto. Contou até três. Tomou coragem. E então correu e o abraçou. A adrenalina fazia seu coração ribombar. Tinha acabado de transgredir muitos limites escolares e pessoais.
— Me desculpe.
Primeiro, ele não teve reação alguma. Depois, os olhos se arregalaram, porque aquela cena era, no mínimo, muito estranha. Mas então ele sentiu o conforto do toque anestesiando-o, sorriu e pôs as mãos nas costas dela, retribuindo o abraço.
— Me desculpe também. – se pegou dizendo, antes de rir de alivio, apertando-a contra si porque não tinha vontade nenhuma de largá-la.
Afastaram-se apenas o suficiente para se olharem. E então gargalharam.
— Também queria desejar um bom jogo.
— Obrigado.
O riso de amizade restabelecida rapidamente se transformou em um sorriso tímido e consciente que depois foi morrendo no rosto dos dois e dando lugar para uma expressão quase séria. Eles continuavam parados, impossibilitados de tirarem os olhos um do outro e próximos demais quando James apareceu.
— Ei bonitão – gritou. – Ei April.
Os dois se desvencilharam rapidamente.
— Rose? – James engasgou – Santo Cristo, o que...? – mas então começou a tossir compulsivamente. Os amigos o acudiram, fazendo com que ele se sentasse no banco.
— Vim me desculpar com Scorpius – Rose explicou.
— E me desejar um bom jogo. – o garoto completou.
James, que já se recuperara, riu.
— Já não era sem tempo, né? – eles se entreolharam, um pouco envergonhados.
— Bem, eu já vou – Rose disse – Eu ainda nem tomei café da manhã e... Bom, boa sorte, Scorpius. — E virando-se para o primo, completou – Te vejo na arquibancada, Jay.
James manteve o sorriso no rosto até que a garota saísse e os deixassem a sós.
— Vocês se esqueceram de me contar – ele disse, olhando para o teto, como se fosse dizer algo banal – Como acabaram quase se pegando.
— Nós não estávamos quase nos pegando.
— Sério, Scorpius? Sério? Você está tentando mentir para James Sirius Potter, seu melhor amigo e guardião?
— Guardião? – riu.
— Não fuja do assunto!
— Talvez eu tenha me sentido tocado com essa versão da Rose desobediente e gentil, só isso.
— Você se sentiu tocado? – James semicerrou os olhos, provocando.
— James! – exclamou aturdido.
— Scorpius! – fechou a cara – Eu não tô nem ai se vocês vão acabar se agarrando mais cedo ou mais tarde, só se certifique de que eu não vá ter que pagar o pato pelos dois depois. E não faça essa cara de ofendido que você sabe que eu não estou falando nenhuma barbaridade. E se vista, pelo amor de Deus. Só de pensar no que poderia ter acontecido aqui se eu não tivesse chegado me dá ânsia de vomito.
O garoto revirou os olhos e fez questão de jogar a toalha com força na direção de James, que se desviou com agilidade.
Ele riu com a fileira de palavrões que Potter soltou, enquanto vestia o uniforme do time.
Quando voltou ao banco, encontrou a mochila aberta de James revelando as delicias que ele havia roubado da cozinha.
— Eu sabia que você não ia comer nada se eu não trouxesse. – o amigo explicou, oferecendo um bolinho.
— Valeu Jay. – eles comeram em silêncio, sem tocar mais no nome de Rose e James foi embora antes que os outros integrantes do time chegassem.
Ás 09:30 Scorpius entrou em quadra com um espírito muito melhor do que quando acordara e sabia que devia isso a Rose e a James.
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