Resgate
2 Sobrevivência em selva.
Notas iniciais
Armin
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– Ymir... – Chamou em tom lastimoso.
– Já disse que não.
– Mas eu vou morrer de fome...!
– Pensasse nisso antes de acabar com metade dos pães.
– Ah, por favor... – Deitou o corpo sobre o cavalo, com um rosto carente.
– Dá pra parar de choramingar, Sasha?! Eu não aguento mais! – Jean pôs a mão na testa, em uma visível tentativa de afugentar sua possível dor de cabeça. Aparentemente, todos nós estávamos. O sol cozinhava nosso couro cabeludo e até agora não passamos por nenhuma sombra ou rio. Sem contar a sede e o cansaço. Não dormimos noite passada e nosso esforço foi grande.
– Mas eu to com fome!!! – Ela havia perturbado todos o caminho inteiro com sua fome compulsiva, mas Ymir ainda resistia. Jean parou seu cavalo do lado de Ymir e roubou um pão da sacola, foi até Sasha e introduziu quase inteiro em sua boca.
– Próxima vez vou te socar na boca de um titã, assim como fiz com esse pão! – Certo, isso foi assustador. Ele estava realmente nervoso. Eu fiquei quieto, ela mereceu, e na verdade todos estavam com vontade de fazer o mesmo. Mas até que acho bem engraçado ele sem paciência.
Todos estavam com os rostos inchados pelo sono e vermelhos pelo sol. Os cavalos cansaram então como não houve nenhum incidente até agora, os deixamos somente caminharem normalmente. Estava todo mundo num estado lento, exausto, precisávamos dormir por longas horas.
Ficamos atrás daqueles três superiores. E por estarem de costas não dava pra ver como eles se sentiam. A inexpressividade de Rivaille não me permitia observar nada de seu interior, nem coisas mais superficiais como o sono, que aparece facilmente no rosto e no corpo de qualquer um. Mas o modo de como se protege... Como se fosse algo absurdamente necessário, tipo um escudo, e se trancafia dentro de si contra as próprias pessoas. Por que será?
– Estamos próximos à uma floresta, e como podem ver há três titãs no nosso caminho. Nós iremos até eles e os mataremos, e vocês sigam para dentro dela! – Ele deu a ordem. Concordamos e então nos preparamos para por os cavalos a correr. Não pude notar nenhum indicio de fraqueza pela sua voz, é igualmente inexpressiva como seu rosto. Sempre o mesmo tom e a mesma postura. Até me lembra Mikasa, mas ele é de longe pior.
Eles correram primeiro e então nós começamos a segui-los. Podemos ver perfeitamente o trio em ação, e eles são realmente bons. Mas enquanto Mike e Hanji subiam nos pescoços dos titãs, Rivaille já havia voltado e começado a sentar em seu cavalo.
– O cara é bom! – Jean comentou – Não deu nem tempo do titã fazer barulho... – Todo mundo concordou.
Depois de alguns poucos minutos, adentramos a floresta. Pude entender o que Rivaille pretendia, na verdade era bem óbvio.
– O que fazemos aqui, hein, Armin?? -... ¬¬’
– Não é meio obvio, idiota? – Mikasa respondeu por mim.
– Connie, estamos aqui para descansarmos um pouco, dormir, comer... – Respondi também.
– Fazer as necessidades... – Jean continuou.
– Totalmente desnecessário, Jean! – Realmente, como sempre bem explícito.
– Você não se alivia Ymir? – Provocou.
– Tá, já chega... Imaginar o Jean fazendo isso é castigo! – Rimos.
– Cala boca Reiner, besta!
– Esse lugar está bom, vamos parar aqui. – Depois de um tempo percorrendo a floresta, eu diria que estávamos perto de seu centro, Rivaille parou e desceu de seu cavalo.
Todos nós fizemos o mesmo, e então amarramos os nossos nas árvores próximas. Aqui será um bom lugar pra eles, bem fresco e arejado. Sem contar que matas assim em sua maioria tendem a ter algum lago central, pela chuva e pelo frescor do ambiente, e também por causa das raízes das árvores que existem num lugar tão quente como esse. Olhei nossa volta, era um local realmente bonito e nem de longe dava medo. Olhei pra cima e encontrei árvores de frutos, e então dei razão ao heichou de ter escolhido esse ponto.
– Vocês com certeza devem ter aprendido sobre sobrevivência em selva no treinamento para se tornarem soldados... – Rivaille se comunicava enquanto estávamos retirando nossas malas dos cavalos – Então vão pôr em prática tudo o que aprenderam!
– Huh, acharam que não iriam usar aquilo, né?!! Eu também achava na época, mas eis que vivenciei várias situações assim!! – Hanji lidava de uma forma bem descontraída, pra quase tudo, e eu gostei disso nela. Parecia uma forma de nos acalentar e transpassar segurança. Uma mulher bem materna.
– Enfim... Se dividam em três grupos. O primeiro grupo irá localizar água. O segundo colherá os frutos das árvores e o terceiro grupo será de caça.
– E vocês três?? – Jean já fechou a cara.
– Bem, alguém tem que cuidar dos seus pertences e dos cavalos, e também ficar de olho no perímetro, Senhor Kirschtein... – Cruzou os braços. Senti uma certa rivalidade entre esses dois.
Jean ainda com a cara fechada ficou quieto. Enquanto eu não sabia para o que serviria...
– Mikasa, Christa e Berth vão procurar por água; Ymir, Reiner e eu vamos caçar e Sasha, Armin e Connie vão colher os frutos. – O próprio Jean liderou e separou os grupos. Como não haviam divergências somente aceitamos e começamos a fazer as coisas.
– Levi, querido, o que está fazendo? – Antes de eu sair, ouvi Hanji chamar atenção de Rivaille.
– Uma tenda. – Eu e ela nos olhamos com pontos de interrogação – Acha que vou ficar troncando de roupa na frente de vocês?!
~*~
– Sasha, é pra pegar as frutas, e não comê-las! – O careca brigava com ela.
– Connie, presta atenção! Você está deixando a mala de lado, e as frutas estão todas caindo! – Ajeitei-a no braço dele. Havíamos esvaziado algumas para que pudessem servir de cesto.
– Ah, foi mal... Mas é por que a Sasha está comendo todas que nós pegamos! – Fala sério... Por que Jean pôs a Sasha logo com as frutas? Ela podia ir com o grupo da água, já que ela não conseguiria acabar com a água toda. Eu acho...
– Sasha, ninguém está te aguentando, assim você vai nos aborrecer! – Falei mesmo.
– Poxa gente eu só comi algumas poucas maçãs... – Começava a querer chorar.
– E outras poucas framboesas e também outras poucas amoras! Armin, quando formos pegar os cachos de banana e as mangas deixa a Sasha amarrada nesse galho ai atrás de você!
– Se você não se controlar eu farei isso, Sasha! – Ela fez bico e pôs a maçã mordida de volta na mala. Então voltamos a pegar mais frutas.
– Ohh Levi!!! Olha isso!!! – Hanji dizia animada e dava pulinhos quando nos aproximamos dela. – Olha o tanto de frutas! Hum... – Ela ia pegar uma banana quando Heichou deu um leve tapa em sua mão.
– Espere todos para comermos! – O vi fazendo uma expressão de pai rígido. Olhei de relance Sasha, alertando mentalmente à ela que tinha sorte dele não a pegar comendo quase tudo antes. Ela com certeza se tocou. – Vocês podem descansar se quiserem, há frutas o bastante caso o grupo de caça não encontre algum animal.
– Acho que vou ajudar no grupo de caça. – Connie disse se distanciando de nós.
Sasha e eu concordamos em dar assistência ao pessoal da água, já que nenhum de nós dois tínhamos um bom condicionamento físico para ficar correndo atrás de esquilos e coisa do tipo.
– E ai... Viemos ajudar. – Ela disse quando encontramos Berth no caminho voltando para nosso ponto de encontro.
– Ah, não precisamos mais... Já encontramos, à poucos minutos daqui. – Disse com um largo sorriso no rosto.
– Nossa, sério? Nos leve lá, por favor! – Ela ficou muito animada. Isso animou a mim também. Dependendo do lago, poderíamos até tomar um banho.
Berth nos mostrou o caminho já quase perto, e então retornou a voltar pro nosso repouso. Eu e Sasha a esse ponto já corríamos dentre as árvores, queríamos muito ver água na nossa frente. Quando nos deparamos com o tamanho do lago, inevitalvemente gargalhamos. Ele era grande o bastante para todos irem ao mesmo tempo darem uma refrescada.
Corri até a margem, molhando os pés. A sensação era única. Fui mais além e então a água cobriu meus joelhos, depois disso, até chegar perto do meio ele com certeza seria mais fundo então fiquei mais cuidadoso. Mas nada que preocupasse, pois a profundidade de onde eu estava fazia a água bater meu queixo, com os pés tocando a terra. Não arrisquei ir mais adiante, lagos assim são bem traiçoeiros. Estava muito prazeroso, apesar da água super fria e também de sentir vários peixinhos nadando e relando meu corpo. Isso fazia cócegas até que agradáveis.
Só sabíamos sorrir, era só o que fazíamos no momento. Eu nem tirei a roupa para adentrar na água, fiquei muito extasiado com o lago que até esqueci. Quando notei o meu redor, Mikasa e Christa já estavam se banhando, e Sasha tirava algumas peças da roupa pra também entrar.
– Ah, isso é inacreditável... – Ouvimos a voz do heichou na margem do lago. Inacreditável era sua expressão impagável de alívio. Finalmente o vimos com outro rosto. Do seu lado estava Hanji e Berth, que os trouxe pra cá. Mike com certeza deve ter ficado para cuidar das coisas e para esperar pelos outros.
– Vamos entrar! vamos, vamos??? – Hanji estava super animada, insistindo á ele, mesmo sendo óbvio que entraria para se lavar.
Logo ele começou a desabotoar sua camisa social branca, retirando-a depois. Estava com uma calça preta social também, e com um sapato de bico fino num preto brilhante, que com certeza devia ser muito quente...
Antes fez aquela tenda para se trocar sem ser visto, e agora tira a roupa assim tão facilmente... Deve estar hipnotizado pela água, assim como eu que nem tirei a roupa e a molhei toda... Berth e Hanji também tiraram as suas, ficando só com as peças intimas. Rivaille ainda estava com uma espécie de bermudão por baixo das calças, mas entrou mesmo assim.
Estava tão bom que até me fez esquecer a fome. E apesar de estarmos todos compartilhando essa água, podíamos bebê-la também, sem frescuras, já que estávamos todos com sede.
– Ah... Por favor, não urinem na água! – Rivaille fez o pedido por todos. Seria realmente cruel...
~*~
O dia ia escurecendo gradativamente, e o calor abaixando, até que chegou o por do sol. Ainda estávamos na água, somente Rivaille e Hanji saíram para revezar com Mike. E estava na hora de eu sair dali, já que sentia meus dedos das mãos e dos pés virarem nadadeiras. Estavam totalmente enrugados.
Antes que eu me levantasse, Christa saiu da água, apenas com uma calcinha e sua blusa. Ela era tão pequenina, tão magra e delicada que fazia qualquer um ficar preocupado e querer a mimar sem motivos. Mikasa resolveu ir no embalo e também saiu da água. Então observei a grande diferença entre as duas.
Certo, sempre convivemos juntos, mas nunca a vi dessa forma somente de calcinha e sutiã. Eu a respeito, além de nunca a ver com outros olhos. Mas notei seu tanquinho... E isso me chocou um pouco. É feminina, sem dúvidas, mas ela deve ser muito forte e pensar nisso me dá calafrios.
Bom, já estava ficando um pouco tarde e provavelmente estávamos ali a mais de uma hora. Relaxamos bem, foi bom pra fazer os músculos darem uma ‘amolecida’. Até Sasha quase se afogou por cochilar dentro da água...
Sai. O vento se chocou contra minha pele e me fez arrepiar. Ao entardecer é normal que as coisas fiquem geladas por aqui, por causa das árvores. Meu estômago roncou, eu precisava engolir alguma coisa urgente. Será que o pessoal da caça conseguiu algo? Preciso saciar alguma carne, algo que me sustente melhor.
Fui até nosso “ninho” e me surpreendi... Estava tudo bem mais limpinho e organizado. Olhei pro canto de uma árvore e notei que tinham feito uma vassoura com um galho grosso-médio de árvore e um monte de fiapos e lascas de madeira nas pontas. Me lembrava bem as vassouras convencionais do comércio nas cidades. Estava até bonitinha. E isso com certeza era coisa do heichou. Havia um bolo de folhas secas e poeira de terra perto da vassoura.
– Uau... Quem fez? – Mikasa pegou a vassoura nas mãos.
– Adivinha?! – Hanji disse dando uma olhada em Rivaille.
– Hum. Até que ficou boa. – Colocou a vassoura de volta no lugar.
Arrastaram alguns troncos de madeira e fecharam em um círculo central. No meio desse centro colocaram madeira de lenha, mas ainda não haviam feito fogo. Em um dos cantos estavam algumas malas vazias com as frutas dentro, todas bem lavadas.
Fui até minhas coisas e abri a mala de roupas. Peguei algumas mudas secas e fui até a tenda que Rivaille tinha feito. Realmente aquilo seria bem útil.
– Acho que vou dar uma olhada na galera da caça, pra ver se conseguiram algo... – Avisei depois de sair do ‘vestiário’ e me distanciei deles.
Era melhor voltarem rápido para o ninho, já que depois do por do sol em ambientes assim o escuro caminha mais rápido. O duro era eu caminhar sozinho numa mata imensa, já que eu nem sabia pra onde estava indo e também onde estavam. E já que caçavam eles podiam ter se distanciado muito.
Olhei pra uma árvore em especial e tinha um pedaço de pano preso nela. Bem pensado de quem fez isso, era estratégia pra marcar caminho. Então, fui seguindo pela estrada que tinha esses rastros, e quanto mais eu ia longe, mais ouvia gritos bem engraçados e nítidos.
– Connie você só veio pra atrapalhar, vá simbora! – Era a voz de Jean, bem ofegante.
– Pelo menos eu vim, seu mal agradecido!
– Mas eu consegui três esquilos, então cala a boca!
– E eu peguei esse rato selvagem e dois sapos!
– E você acha que alguém vai comer isso???
– Ah mas eu vou, hein! – Ymir entrou na discussão.
– Por isso que vocês não pegaram nada, só sabem brigar! – Reiner parecia sério, foi quando saí de algumas árvores e fui de encontro com eles, que estavam sentados no chão e encostados em algumas árvores descansando.
– Vim ver como estão as coisas por aqui... – Me aproximei – Conseguiram bastante alimento?
– Bom, eu consegui três esquilos, Connie conseguiu uma ratazana e uns sapos, Ymir conseguiu essas duas aves estranhas aí... – Olhei para as mãos de Ymir e vi duas aves realmente estranhas, mas bem rechonchudas. Mas como ela havia conseguido??
– Nossa, como você pegou isso?
– Bom, elas eram muito rápidas, então fiquei escondida em uns galhos de uma árvore alta, esperei elas passarem perto e ativei o equipamento acertando uma âncora em cada uma.
– Caramba... Você é muito boa! – Não tinha como não se surpreender com algo assim, pra mim e pra qualquer um seria impossível isso.
– Então... – Jean pareceu ficar com um pouco de inveja – Continuando, Reiner pegou mais dois esquilos e um tatu – Esse tatu me deu água na boca.
– Está bom, tem bastante coisas até... – Achei que eles não conseguiriam nem um esquilo, na verdade – É melhor voltarmos, pois vai escurecer rápido! – Eles concordaram, pegaram os bichos e se levantaram.
Nós íamos caminhando normalmente pelo caminho da volta, Ymir ia pegando os pedaços de pano que deixou nas árvores, quando repentinamente vimos um vulto bem rápido atravessar nossa frente.
– O que foi isso??? Vocês viram? – Jean disse assustado.
– Isso, Jean, é com certeza um macaco. – Reiner falou baixo, como num sinal de que era pra também nos comunicarmos baixo.
– Um macaco??? – Arregalou os olhos.
– Sim. E eles sempre estão em bando, então... Tem mais vindo atrás dele. – Congelamos. Aquele animal era muito grande, e... Assustador. Tinha a cara estranha e também os braços compridos. Eu havia visto algumas referencias nos livros de meu avô, mas ver pessoalmente é outra coisa, totalmente espantosa. Estávamos bem cautelosos pois Reiner parecia conhecer bem a espécie, e disse que era extremamente agressiva. Imagina muitos deles?
Íamos saindo de fininho, ás vezes pisávamos em galhos barulhentos e pasmávamos. Mas por sorte não aconteceu nada, aquele macaco estava sozinho.
Escureceu o suficiente para enxergarmos somente vultos e ter noções de quem é quem. Estava um pouco difícil ver os lenços que Ymir deixou nos galhos, então a caminhada estava bem lenta por conta disso.
– Ops... Quem é? – Sem querer pisei no pé de alguém.
– Jean. Cuidado Armin... – Disse com a voz baixa. Devia ainda estar com medo de aparecer mais macacos.
– Desculpa, está difícil pra eu enxerg... – Pisei num maldito galho úmido, o que me fez torcer o tornozelo, e quando eu estava pra cair segurei o primeiro braço que estava ao alcance. Foi realmente sem querer, mas acabei o puxando para o chão junto comigo.
– O que aconteceu ai? Alguém caiu? – Ouvimos a voz de Connie.
Eu me sentia muito desconfortável. O chão estava cheio de terra e folhas, os galhos secos estavam me espetando e sentia uma dor horrível no tornozelo. Sem contar que puxei Jean e ele teve que cair justamente em cima de mim, ainda mais por ser pesado, o que acabou prensando meu corpo contra os galhos. Minha sorte era que estava escuro e ninguém via direito.
Imóvel. Eu não queria chamar o nome dele, justamente pra não notarem essa vista constrangedora, mas ele demorou um pouco pra levantar. Nossos rostos estavam extremamente próximos, e eu conseguia sentir o fôlego dele tocar a pele do meu pescoço. Estava escuro, mas dava para enxergar seus olhos. Como um momento de devaneio, alguns poucos segundos nos encarávamos em silêncio. Estranhamente pude sentir meu coração palpitar, mas com certeza seria pelo susto.
– Eu disse pra tomar cuidado, Armin... – Disse agora num tom mais mandão. Levantou-se num pulo e depois me ajudou pelo braço.
– Ai... – Gemi e logo cai sentado de novo. Meu pé iria inchar, com certeza.
– Fala sério, você torceu o pé? – Fez cara de indignação e eu somente concordei com a cabeça — Connie, segura os esquilos. – Deu os bichos pro careca e estendeu os braços a mim.
– Não, eu me viro sozinho.
– Da última vez que ouvi isso você estava quase desmaiando! – Ergueu uma das sobrancelhas — Anda, para de frescura! – Eu não queria nem morto que ele me carregasse de novo. Onde estaria minha dignidade?
– Já disse que me viro sozinho, Jean! – Afastei seus braços.
– Armin, você vai nos atrasar mais ainda. – Reiner me bronqueou – Jean, pega ele no colo! – Bufei.
– Vou nas suas costas, não no colo! – Jean então virou para que eu subisse em suas costas, me segurou pelas pernas e eu estendi meus braços nos seus ombros. Me senti um inútil, já era a segunda vez...
Voltamos bem. Demoramos um pouco, mas pelo menos nenhum macaco tinha nos assassinado. O lugar estava lindo, agora com a fogueira acesa. Todos estavam sentados nos troncos ao redor da chama, esperando por nós e comendo algumas frutas.
– Vocês demoraram demais, não conseguimos esperar!
– Está tudo bem, Hanji-san. Trouxemos uns bichinhos... – Connie balançou os esquilos e o rato nas mãos. Ela deu um grito que pegou todos de surpresa, levantou do tronco e festejou perto da fogueira.
– O que conseguiram? – Heichou perguntou, num canto mais escuro. O pessoal somente colocou os animais no chão perto do fogo, então ele pode ver – Sapos?? – Fez cara de nojo.
– Eu te disse que ninguém comeria isso, Connie!
– A questão é que alguns são venenosos, vocês deviam saber disso... Bom, jogue eles fora.
– Foi tão difícil pegar eles... Fogem pulando e sem contar que são muito lisos... – Choramingou e pediu para que não nos desfizéssemos deles. Mas Rivaille ordenou que os jogasse, então obedeceu.
– Mas e o rato? – Jean perguntou.
– É só não estourar a bexiga dele, o resto dá pra aproveitar. – Mike disse simplesmente e Jean fez careta. Já Connie voltou a ficar feliz.
Mike e Rivaille rasgavam a carne dos animais e tiravam o que não comeríamos. Foi extremamente agonizante os ver puxando a pele que tem a pelugem dos esquilos, coitadinhos. Isso era muito cruel, até Ymir que é durona não olhava muito aquilo. Quando estavam limpos, eles os espetavam e giravam na fogueira. Apesar de tudo, aquilo dava muita água na boca. Todo mundo esperava sentados nos troncos. Hanji amarrou um pedaço de pano úmido em volta dos meus pés. Observávamos a comida ser preparada.
Foi aí que parei para lembrar, cair na realidade novamente de que o mundo é dos mais aptos. A sobrevivência é garantida para os mais fortes, e os mais fracos perecem. O ciclo natural da vida é esse, e enquanto tememos que os titãs nos façam mal, fazemos mal para os indefesos. Um sentido totalmente deturpado, e pensando assim, a vontade de viver nesse lugar vai embora.
Me lembro de Eren. Como ele está, solto por ai?! Ele está indefeso ou ficou mais forte? Sobrevive se escondendo ou está encarando os problemas que aparecem?
Afugentei os pensamentos. Se eu pensasse demais nessas coisas, acabaria ficando paranoico. E também muito triste, por Eren estar encarando esse tipo de coisa sozinho.
~*~
– Não inventa, quatro-olhos.
– Ah Levi, deixa de ser chato! – Choramingou – Eu prometo que contarei só umazinha!
– Eles precisam dormir bem, amanhã será cansativo. – Disse cruzando os braços no seu canto.
– Como se alguém ligasse pra essas historinhas bobas! – Jean riu.
– Vocês que sabem. – Disse no seu tom indiferente e começou a ajeitar seu canto para dormir. Bem, não poderia ser algo que desse tanto medo, aliás essas lendas são realmente tolas e sem sentido algum...
Todos prestavam total atenção nela agora. Hanji ligeiramente pegou um dos espetos que sobraram e abocanhou um pedaço de carne. Digo, abocanhou assustadoramente, com aqueles olhos fissurados. Provavelmente para já começar a botar medo. Ajeitou os óculos no rosto e centrou sua atenção ao fogo. Ymir tampou os ouvidos de Christa.
– Havia um caçador, que, depois de um longo dia de caça, estava no meio de uma imensa floresta. – Jean soltou um riso baixo, deve ter pensado o mesmo que eu. Ela optou por uma de floresta justamente por ser o local que estávamos. — Estava ficando escuro, e tendo perdido a direção, ele decidiu andar em apenas uma trilha até estar livre daquela incessante e cansativa floresta. Após algum tempo, que pareceram horas, ele se deparou com uma pequena cabana. – Fazia uma voz definitivamente enigmática — Percebendo o quão escuro já estava, decidiu ver se podia passar a noite ali. Ele se aproximou e viu a porta aberta, não havia ninguém dentro. Ele entrou e deitou na única cama que estava ali, decidindo se explicar ao dono pela manhã...
– Sempre um babaca nessas histórias... – Interrompeu-a.
– Cala-boca, Jean! – Todos disseram ao mesmo tempo.
– Enquanto ele olhava ao seu redor, encontrou diversos retratos, todos pintados com um realismo incrível. Sem exceção, pareciam estar olhando em direção a ele, com olhares mortos que pareciam cheios de ódio. – Fez expressões abismáticas, e gesticulava enquanto contava — Olhando pra eles, ele se sentia incrivelmente desconfortável. Fazendo um esforço pra ignorar aquelas faces furiosas, ele se virou em direção a parede e exausto, ele cai num profundo sono. – Parou por um instante, um silencio enorme prevaleceu – PELA MANHÃ... – Berrou, continuando, assustando todos. — ...ele é acordado com um inesperado raio de sol. Olhando ao seu redor, ele percebe que na cabana não haviam retratos, apenas janelas...
– Uuuuh... – Jean cutucou as costas de Connie, que deu uma encolhida e olhou para os lados – Fala sério, que bobeira!
– É boa, mas não o bastante para me amedrontar. – Mikasa estendeu o lenço verde da tropa e deitou-se. Todos faziam o mesmo.
Ouvi um grunhido, um riso bem baixo aparentemente de sarro, vindo do heichou que nos observava todo esse tempo. Ele sabe, assim como eu, que mesmo escondido todos sentiam um pouco de medo. Talvez principalmente Jean, que escondia isso fazendo piadas e criticando o conto.
– Durmam bem, anjinhos! – Hanji tirou seus óculos e se virou de costas à fogueira, para dormir.
Passaram alguns minutos, talvez uma hora. Eu ainda estava alerto, não por medo, mas por insônia. O que era estranho, pelo cansaço que senti o dia inteiro. Podia ser pela preocupação com Eren, ou por todo nosso dia interessante.
Ymir e Christa dormiram juntas, como mãe e filha. Reiner e Mike roncavam tão alto que podiam atrair animais pra cá. Ouvi algumas palavras desconectas sendo ditas pela Hanji, aparentemente falava dormindo. Connie não parava de se virar pros lados e Sasha babava. Esse pessoal é mesmo estranho.
Refleti sobre nosso dia, que apesar de tudo foi agradável. Meu pé ainda pulsava, mas a dor estava consideravelmente menor. Lembrando disso, automaticamente desviei o olhar da chama baixa para Jean, que estava do outro lado da fogueira. Ele dormia serenamente, algo bem curioso pra alguém tão agitado como ele.
Se não fosse por ele, eu estaria na pior. Na verdade morto, quando estávamos ainda em Shiganshina. Talvez fosse a preocupação de um companheiro, e fizesse isso por qualquer um aqui. Assim como todos fariam, sem hesitação. Mas é sempre ele que me ajuda e que toma a iniciativa por vontade própria.
Jean é o tipo durão, que tem o coração bem gentil e mole – ri, discretamente – Será que ele ainda tem sentimentos por Mikasa? Ela até que tem sorte, de alguém com a personalidade forte como ele ter considerações e boas intenções por ela.
Ouvi alguns barulhos de mato sendo remexido, bem próximo a nós. Podia ser outros esquilos, ou animais pequenos.
– O q-que, o que foi isso?? – Ele parecia estar acordado, mas quase pegando no sono.
– Fica calmo, não são os macacos... – Ri. – E com certeza nenhum rosto fantasmagórico.
– Ah, ainda bem, né... – Sorriu e logo após bocejou.
– Ahm... Boa noite, Jean. – Disse, estranhamente com vontade de puxar assunto, mas já terminando-o.
– Boa noite, Armin. – Disse simplesmente e fechou os olhos, retornando sua concentração aos pensamentos que o faria dormir.
– Obrigada. – Agradeci com os pensamentos altos. Em um volume extremamente baixo da voz.
– Pelo que?! – Me pegou de surpresa, ainda com o olhar fechado.
– Ah, ehr... Por ter me ajudado hoje com o tornozelo. – Sorri, sem graça. – E também lá em Shiganshina. Ainda não pude agradecer, então...
– Relaxa, você também teria essa atitude. Qualquer um teria, assim como eu ajudaria todos que precisassem – Abriu os olhos.
– Eu sei...
– Mas não há de que. – Fechou-os novamente, tratando do assunto com certa indiferença. Talvez eu estivesse dando importância demais a isso, pois senti uma minúscula faísca de decepção, possivelmente por ter me tratado como qualquer um daqui. Bom, que besteira pensar isso...
Me preparei pela última vez para dormir. Olhei automaticamente para o canto mais escuro, e Rivaille parecia ainda estar acordado, com aqueles olhos congelados olhando para o nada, e os pensamentos bem longe da onde estávamos.
Foi minha última visão antes de adormecer.
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