Resgate
5 Por um fio.
Notas iniciais
Armin
– Não Jean! Fique aqui com Ymir e Christa. – Ajustei a cinta-liga no corpo e disse à ele, que estava deitado na cama com algumas faixas no braço que Christa pôs.
– Armin, é só meu braço, estou realmente bem!
– Para de ser teimoso! – Engrossei o tom. – O braço já basta pra fraquejar e você se esborrachar em alguma árvore com o equipamento! – Me olhou emburrado.
– Você já está pronto?! – Mikasa parou em frente ao quarto – Já estamos de saída!
– Só um instante Mikasa. – Disse à ela e a mesma saiu. – Fique pra pelo menos cuidar das duas. – Comecei a trancar os fechos da cinta.
– É mais fácil Ymir cuidar de nós! – Debochou.
– Você vai ficar e ponto final! – Franzi o cenho e ele cruzou os braços. Enfim terminei de ajustar o DMT no corpo.
Deixei-o por lá e desci, indo para fora da casa. O tempo estava horrível, até me dava receios de ir atrás do heichou. Mas precisávamos fazer isso por ele. Deu para fazermos toda a limpeza e recolhermos a comida, até o esperamos para começar a preparar, mas sua demora somente para percorrer o perímetro começou a preocupar. Então concordamos em ir atrás.
Todos estavam do lado de fora de baixo da chuva, só me esperavam para irmos. Montei em meu cavalo e demos partida. Seguimos a direção que Hanji havia visto Rivaille prosseguir.
Colocamos os cavalos para correrem para o encontrarmos de pressa, mas a escuridão junto da chuva e dos ventos dificultava tudo. Fora que o caminho estava terrivelmente molhado.
Enfim corremos por toda a redondeza, mas sem qualquer sinal dele. Não era possível que além de Eren perderíamos também nosso líder.
– Temos que dar uma checada no vilarejo, tenho certeza que Levi passou por lá! – Hanji dizia com o tom da voz cansado, abafado pelo frio e com toda certeza estava desesperada.
Como não havia mais o que ser feito, e mesmo sendo perigoso nós prosseguimos com seu palpite. Chegando até o local, senti uma enorme vontade de sumir dali. Acredito que todos, pela visível cautela e o silêncio profundo que faziam. Seus olhares eram de receio diante das casas abandonadas.
Mesmo com medo, tínhamos que procurar por ele. Começamos a chamar seu nome enquanto prosseguíamos o caminho. Mas como podia estar desmaiado ou até mesmo morto, teríamos que adentrar as casas.
Em duplas começamos a procurá-lo. Junto de Reiner entrei em uma daquelas casas. Nós realmente reviramos tudo, até onde sabíamos que ele não caberia, e mesmo assim não o encontramos. E o mesmo seria para os outros.
– Não olhamos em todas!!! Ainda tem muito mais casas e—
– Hanji, é inútil procurarmos uma hora dessas, nesse clima, e nesse lugar. À realmente muitas casas, temos que esperar amanhecer. – Mike cortou-a. Estávamos todos parados agora no meio do vilarejo.
– Mike, é o Levi... Não podemos deixar assim! – Ela colocava as mãos na cabeça, extremamente preocupada.
– Realmente, ele é o Levi, e eu e você o conhecemos bem, ele sabe se virar!
– Mas agora é diferente, estamos à quilômetros de onde vivíamos! – Eles começaram a aumentar o tom da voz. – Qualquer coisa pode acontecer aqui.
– Olhe para eles! – Pausaram e olharam para nós. – Acha que eles ficarão como, em baixo dessa chuva e pegando friagem?
– Nós voltamos e vocês continuam se for problema! – Connie disse.
– Ninguém vai voltar! E ninguém aqui é tão fraco! – Mikasa se estressou.
– Mike, nós—
Um barulho ensurdecedor nos calou instantaneamente, e direcionou nossa atenção para além daquele lugar.
– O-oque foi isso... ? – Sasha sussurrou amedrontada. E eu não acreditava no que ouvia.
Ficamos paralisados por alguns segundos. Aquele berro animalesco não nos soava estranho, mas também não era normal ao que nos acostumamos. Silêncio, um silêncio perturbador, até que novamente ouvimos o mesmo som estrondoso tremer nossos peitos de susto.
– Eren... – Mikasa chamou pelo nome mais pra ela que para nós, e se locomoveu em direção ao barulho sem antes concordarmos em ir.
Com a impulsividade de Mikasa, mesmo com toda desconfiança a seguimos. Os gritos surgiam de uma floresta absurdamente escura e estranha, e por mais que todos avançassem eu definitivamente sentia que não daria certo adentrarmos naquele lugar. Algo me dizia que era uma péssima decisão.
– Tudo bem, fiquem aqui! Eu e Mike iremos checar.
– É o Eren, e vou atrás dele! – Mikasa estava fora de si, mas mesmo diferente aquele era o timbre do titã do Eren. Eu também sentia isso.
– Aquele não é o cavalo do Heichou? – Berth apontou.
– Ele com certeza ouviu isso e também veio checar! – Mike disse – Ele está vivo, escondido e observando.
– Tudo bem, então vamos todos. – Agora eu tomei a voz.
Fizemos o mesmo que ele. Descemos dos cavalos e os amarramos próximo ao do heichou.
O caminho daquela mata estava muito perigoso. Haviam plantas com espinhos por toda parte e o chão ficou totalmente lamacento. Qualquer um que escorregasse se machucaria feio. Apesar que todo mundo deslizou vez ou outra.
Desde que entramos não ouvimos mais qualquer barulho. E apesar de ter sido bom, eu sentia receio de que tivéssemos sido notados de qualquer forma. Antes de ver o que realmente seria esse barulho, devíamos encontrar Rivaille.
Depois de alguns minutos somente caminhando por aquele lugar sem vida, podemos ouvir a súplica novamente. Porém agora devastadoramente alto e apavorante, por estarmos cada vez mais perto. Sasha e Connie gritaram ao mesmo tempo e começaram a correr para direção contrária, mas não levou muito tempo para que voltassem, já que aquela floresta parecia uma espécie de labirinto e era absurdamente terrível para se andar por aí sem o grupo.
Dessa vez o grito soou muito mais familiar, como se o titã estivesse fraco demais para continuar enfurecido e então voltasse à sua ‘normalidade’. E com esse fraquejo, Mikasa correu e passou a gritar pelo nome do Eren desesperadamente, se lançando nas árvores. Agora na certeza de que era ele.
~*~
Levi
Pirralha retardada. Se continuar gritando como uma gralha o titã irá perceber e virá procurar por nós.
Me distanciei da árvore que me fazia enxergar Eren, e fui em direção ao bando de idiotas que se arriscaram e vieram atrás de mim. Não é como se eu fosse o moleque, sou inimaginavelmente mais esperto. É até ofensivo acharem que eu realmente pudesse estar morto.
Enfim avistei-os, então fui primeiramente até a garota escandalosa. Peguei-a no ar e parei em um galho.
– Você realmente acha que Eren nesse estado irá reconhecer sua voz???
– Me larga! Eu tenho que ir atrás dele! – Se debatia tentando se livrar de mim. O restante nos alcançou e parou no mesmo tronco.
– Mesmo que vá ele pode te matar, Mikasa! Não vê que tem algo de errado com ele? – Mesmo Armin entendia isso.
– Ela está desesperada, e vai acabar denunciando todo mundo por algum ato irresponsável.
Mike tinha razão. Então fiz o que me veio à mente, já que não temos tanto tempo e paciência para lidar com isso. Conforme ela se debatia, choquei minha cabeça contra a dela e a desacordei. Assustei-os com esse ato, mas não havia muito o que ser feito.
– Alguém precisa ficar e cuidar dela. – Segurava-a no colo. Ao dizer, todos olhamos para Sasha. Seria perfeito, pois conteríamos de uma vez duas que poderiam fazer besteira.
Guiei-os cautelosamente até a árvore que dava vista de Eren. Não queria ser o portador de uma notícia péssima – Ou visão, se preferirem – Mas não havia absolutamente maneira alguma de explicar aquilo com palavras. Não existiam palavras ou frases o suficiente que significassem mais que o sofrimento que eu via, por exemplo, estampado no rosto e escorrendo dos olhos de Armin. Vejo agora que desmaiar Mikasa foi de veras a melhor escolha, pois imagino o quão louca ficaria.
– Eren, meu garotinho... o que aconteceu com você? – Hanji ajoelhou e pôs as mãos na boca, sem preocupação alguma em conter o choro.
– Como chegaremos nele? – Mike tomou a iniciativa de quebrar o gelo da situação deplorável.
– Farão o mesmo que eu. – Olhei-o – Fiquei até agora esperando ele se acalmar ou só cansar, quando acontecer veremos o que pode ser feito.
– Ele voltará à forma normal? – Connie nos perguntou o que todos já se questionavam, mas que seria difícil pressupor pela sua atual situação.
– Talvez. – Fui breve – Mas não esperem muita coisa.
Recebi olhares furiosos, de uma maneira que nunca imaginei que receberia. Todos sabiam, por mais que não quisessem, que Eren poderia ter perdido sua humanidade. Isso agora era evidente pela forma com que esmurrava e lançava aquelas rochas gigantescas contra o nada e gritava como se vivesse em ódio todo o tempo.
O corpo do titã havia mudado. Bem mais alto, e bem mais forte. Mas nada comparava-se com o olhar. Eren transformado esbanjava inocência mesmo em fúria, e agora não vejo mais esse brilho em seus orbes. Não vejo sequer rastros do que um dia ele foi. E não era como se ele tivesse perdido a memória por breves minutos como já correu. Ele estava insano.
– Isso vai atrair titãs pra cá. – Disse, tomando a atenção de todos. – Caso isso ocorra ele morrerá.
– Temos que resgatá-lo antes então! – Berth disse.
– Alguma ideia de como se aproximar de um monstro daqueles sem ser atingido por uma rocha ou sem ser devorado? – Ergui a sobrancelha esquerda – Ou talvez de como cortar seu pescoço com a certeza de que não irá matá-lo mesmo com toda sua agitação e fúria? – Ficou em silencio – Esperança, meus caros, vocês tiveram até agora. Então a mantenham!
– Ele tem que cansar e se acalmar antes que os titãs alcancem a mata. Então quem irá pegá-lo quando acontecer? – Armin não tirava os olhos dele.
– Eu – Disse. Eu era o mais apto pra isso.
Mikasa se aproximou aos gritos de nós. Não por termos feito aquilo com ela, mas por Eren. Ela olhava adiante com o rosto encharcado de lágrimas. Se eu não tivesse à impedido ela teria passado reto e ido diretamente até o titã.
– Gente eu juro que tentei segurá-la! – Sasha chegou após Mikasa.
Tivemos que acalmá-la, já que infelizmente não poderia usar o mesmo golpe novamente. Foi difícil, apesar de começar a ficar entorpecida pelo sofrimento que sentia. Depois de ter ficado quieta, veio a sensação de que até enlouquecida teria sido melhor que ficar nesse estado de trauma e lentidão.
Foi uma longa espera. Árdua e dolorosa. Vê-lo daquela forma... Sem rumo, motivação e esperança. Definhando, sem ter alguém pra salvá-lo. Não posso imaginar o que é vagar por aí em companhia da própria sombra, esperando pela oportunidade de morrer. O que nessa situação seria uma dádiva.
Sentimos tudo tremer. E o barulho dos gigantes adentrando a floresta tomou conta dos tímpanos de todos. Sabíamos que o momento seria decisivo. Ou Eren finalmente morre, ou cede-se para que cuidemos dele.
Eu prometo nunca mais tirar os olhos de você. Fique conosco.
~*~
– Que se dane! – Pensei em voz alta e me levantei.
– O que vai fazer??? – Hanji segurou meu braço.
– Vou ir até o garoto.
– Rivaille, mesmo você não será capaz! Vai acabar morrendo!
– Mike, viemos até aqui sem a certeza de que viveríamos. Pra falar a verdade cheguei até aqui com a certeza de que o encontraríamos morto, ou nem isso... – Me livrei da mão de Hanji – Tenho que arriscar. Fiquem aqui, e atrasem o restante dos titãs.
Me lancei até as árvores da frente, parando na última, exatamente a que me dava a vista completa do titã. Ele estava parado, sem ações, provavelmente esperando para que os outros viessem até ele. O que não podia acontecer era ele se locomover indo na direção deles.
Se eu perdesse esse momento certamente não teria mais chances de salvá-lo. Eu tinha que agir, mesmo que falhasse. Isso seria suicídio, aliás, fui tomado pela ideia de que vou morrer agora tentando recuperá-lo. Como disse, dane-se, eu simplesmente tenho que fazer isso.
Me lancei. Entrei no campo de visão dele e fui notado. Já era tarde para voltar atrás. Rapidamente o ceguei, e então nesse momento ele gritou. Maldito Eren, seus berros haviam se tornado verdadeiramente agoniantes. Fiz o movimento depressa, na verdade nem eu mesmo conseguia ter o total controle do que fazia de tão rápida a velocidade que tomei. Fatiei seus braços e pernas ao mesmo tempo, e repetia insistentemente até chegar ao ponto que caíssem. Enquanto eu retalhava seus membros, sempre cegava-o novamente, pra não correr o risco de voltar a enxergar e me matar. Como a titã fêmea fez com meu esquadrão.
O titã desequilibrou e caiu por cima das pernas amputadas. Não acredito que consegui, dessa forma tão impulsiva. Somente o fiz sem a total consciência dos meus atos e sem temer por minha vida. Não sou assim tão imprudente, então aproveite isso moleque. Já que nunca agi dessa forma.
– Tsc, estão chegando. – Disse à mim mesmo. Olhei o pescoço do titã e Eren não saía de lá. Isso começou a me assustar.
Olhei de volta ao monte de titãs que se aproximavam. Ao redor alguns caiam mortos pelos golpes dos meus companheiros, mas aquilo não era o bastante para pará-los e impedir que matem à todos. E mesmo que lerdos pela noite, estavam vindo.
Será que matei-o?! Se ele realmente perdeu a humanidade morreu junto da consciência do titã ao ter sido assassinado por mim. Se Eren não fosse mais humano, a vida que o prendia nesse mundo se foi quando o amputei.
Fui até a nuca do gigante.
– Eren!!! – Gritei – Pirralho, não brinque comigo! Não... Não ouse me desapontar! Eu sei que você está aí, eu sei que está me escutando, Eren... – Comecei a cavar a carne do titã com as unhas – Garoto maldito, nós viemos até aqui por você!!... – Continuava gritando e arranhando a carne bem mais à fundo. – Você me trouxe até aqui pra te ver morrer?! Não faça isso comigo...
Senti uma vontade descomunal de despejar minha vida como a chuva daquela noite e morrer junto do garoto. Essa dor... Esse sufoco intenso que apertou meu coração com tanta robusteza, eu preferia mil vezes ser torturado fisicamente à isso. Eu estava encharcado de sangue e minhas mãos seguravam quilos de carne daquele maldito titã que não o libertava logo. Ele tinha que estar lá dentro, ele não podia ter sido suprido por esse monstro. Eu precisava vê-lo.
Cavei com mais urgência. A chuva adentrava o buraco que eu fazia e transformava tudo em uma poça imunda de sangue, fora a fumaça que me cegava. À poucos metros estavam os titãs obsecados por nossas carnes, e à esse ponto não sei mais se havia alguém com vida junto de mim. Eu só queria tirá-lo dali. Eu só o queria de volta.
Então seria nisso que resumiria o fim da minha existência. Guiar todos para a própria morte em busca de alguém que já se foi, mas que eu só não queria acreditar. E então eu morreria por último, afogado no mar de sangue das vidas que sacrifiquei, inclusive a de Eren.
Toquei em algo duro. Aparentemente havia chegado na espinha do monstro. Não consegui ver, pela poça de sangue impedir minha visão. Continuei apalpando, até que senti uma textura diferente e mutável. Puxei. Nada acompanhou minha mão, mas a chuva limpou o sangue e consegui ver tufos de cabelo presos entre meus dedos. Ele estava ali, pronto para ser salvo.
– Eren... E-eu estou aqui... Você v-vai ficar bem!...
Consegui cavar o redor de sua cabeça e tronco. Não sei se machucaria-o, mas agarrei sua blusa e tentava arrancá-lo dali. Continuava a rasgar as linhas de carne que ainda prendia o resto de seu corpo.
Ele estava agora em meus braços. Mais precisamente em meu colo, com a cabeça apoiada em meu ombro enquanto eu saia daquele lugar com o equipamento. Senti sua respiração extremamente fraca tocar meu pescoço. Em toda minha vida nunca senti um alívio tão imensurável.
– Pirralho... Você vai apanhar tanto...
~*~
– RECUAR! – Gritava enquanto ia em direção aos outros. – VOLTEM!!!
Meu sangue definitivamente fervia. O pavor de fracassarmos á essas alturas me induzia à agir como um imbecil desesperado. Eren estava no meu colo e todos viram. Seria imperdoável algo sair errado depois de termos passado por isso tudo.
Depois dos meus berros eles me seguiram. Dentre as várias árvores e a escuridão da floresta acredito que pude despistar os gigantes. Parei em uma daquelas árvores para descansar, e logo todos também pousaram na mesma.
– Eren... – Mikasa veio desesperada à nosso encontro. Por um momento até pensei que ela fosse se jogar em cima.
– Cuidado garota! – Afastei-me Junto de Eren – Toda cautela é precisa agora! – Não era bem isso que eu queria ter dito naquela hora. A possessividade dela com o pirralho me dava nos nervos.
– Passe ele pra cá! – Disse estendendo as mãos e me olhando como se fosse me amedrontar.
– Tá de brincadeira, né?! – Senti uma veia pulsar em minha testa.
– Me dê o Eren!!! – Engrossou a voz. Eu estava era quase largando ele no colo de alguém pra torcer o pescoço dela.
– Caso não se cale irei te desacordar novamente! – Falei bem mais ‘formalmente’ que queria.
– Meus amores, acabamos de resgatar o menino, parem com isso!! – Hanji tentava nos acalmar.
– Primeiro me dê o Eren, pode deixar que acabo com você depois! – Só podia ser brincadeira.
– Você deveria agradecer, ao contrário de você eu mantive a calma e salvei-o!
– Eu faria o mesmo se você não tivesse feito a covardia de me desacordar!
– Me chamou de covarde?! – Eu estava a um passo de dar Eren à quatro-olhos e resolver isso, mas no meio dos nossos berros algo me desconcentrou.
Ouvi a voz de Eren muito baixa e fraca dizendo algo que não pude entender, bem no pé do meu ouvido já que estava com a cabeça apoiada no meu ombro. Então repentinamente parei a discussão e eu mesmo senti minha face relaxar a tensão pela surpresa.
– Temos que ir, precisamos colocá-lo para descansar. – Disse a todos que observavam nossa briga.
Como o restante não reclamou, tentamos sair daquele local o mais silenciosamente possível. Após conseguirmos, com muito cuidado, fomos até nossos cavalos e montamos. Mikasa voltou a perturbar minha saúde mental querendo que o garoto fosse com ela, mas além dele estar sob minha responsabilidade, eu realmente não queria dar-lhe esse gostinho, já que teve a ousadia de me enfrentar. A pirralha atrevida mexeu com meu orgulho, e ainda pagará caro por isso.
Corremos até a casa. Ao chegar, a primeira coisa a ser feita foi colocar Eren deitado sobre a mesa para darmos uma checada nele e certificar que não há nada de muito grave em seu corpo. A quatro-olhos teria que se virar com o kit de primeiros socorros que encontrei naquelas casas, enquanto eu expulsava todos da cozinha. Coloquei Mike para ficar com eles na sala até terminarmos. Mais para conter a irmã do garoto na qual eu estava à um fio de injetar ar puro nas veias.
Difícil é explicar seu estado. Haviam roxões, machucados em carne viva e até mesmo cortes graves. Ao abrir a blusa do garoto minha reação e a da quatro-olhos foi de descrença. De como segurou sua vida dentro de um corpo destruído. Ver aquilo sinceramente detonou à mim e Hanji.
– Tudo bem... – Passava as mãos no rosto, apavorada, e sem saber por onde começar. – Levi, passe o soro fisiológico nos algodões, por favor... – Disse em quando lavava as mãos com solução antisséptica e colocava as luvas cirúrgicas. Fiz o mesmo que ela.
– Não seria melhor limpá-lo com álcool?
– Não! – Me olhou assustada – Isso agredirá mais ainda as feridas!
Sendo assim fiz o que pediu. Após terminar começamos a limpá-lo do próprio sangue, indo com mais cuidado até os ferimentos. Limpei-o da cintura pra cima e Hanji tratava das feridas das pernas.
Jogamos os algodões ensanguentados no lixo. Ela logo me deu uma pinça pequena e pediu para que junto dela tirasse as farpas e espinhos que adentravam o corpo do menino. Passamos um tempo considerável somente realizando essa parte.
– Certo! Agora pegue aquelas bolsas de gelo e ás encha, e depois coloque sobre os lugares inchados, tudo bem querido? – Pediu à mim, enquanto evidentemente se aprontava a fazer outra coisa.
– O que vai fazer? – Fui até as bolsas. E ela suspirou.
– Vou costurá-lo. – Senti um choque percorrer meu corpo. Esse garoto era mesmo forte.
Coloquei gelo nas bolsas e fui até os locais de inchaço, certamente das pancadas que levou, muito intensas pelo visto para estarem tão roxas. Hanji pegou as agulhas esterilizadas e às envolveu com a linha própria para o caso. Vi que deu uma pausa, estava bem aflita e trêmula.
– Quatro-olhos... – Chamei-a, com a voz calma, e então ela me olhou muito nervosa. – Confiamos em você. Eu e Eren.
Ela me abriu seu sorriso, e então se sentiu mais segura para fazê-lo. Segurando algumas bolsas passei a observar o processo. Conforme ela adentrava a agulha na carne do garoto ele soltava gemidos. Estava extremamente fraco mas a dor despertava-o.
Eu e Hanji não aguentávamos ouvir seu choro. Era óbvio que estava sofrendo muito. As lágrimas corriam da face dela enquanto tentava forçadamente penetrar aquela agulha em Eren. Vê-la chorar costurando-o e ouvi-lo gritar e se contorcer de dor espremia meu peito e ardia minha garganta.
– Você vai ficar bem amorzinho, essa é a última vez, nós prometemos... – Falava com a voz pesada dentre o choro e a concentração.
Soltei as bolsas e segurei a mão dele. Toda vez que sentia a agulha sendo fincada em si, apertava com força minha mão. Não sabia se ele tinha consciência de que éramos nós ali, mas nesse momento o senti entregar sua vida com total confiança.
Mikasa e Armin gritavam preocupados da sala pelos berros que o garoto fazia. Mike tentava os acalmar mas nada adiantava. Foi realmente complicado executar a tarefa e ao mesmo tempo ter que ampará-los. Jean que estava dormindo até tudo isso acontecer chegou a descer de seu quarto com as lâminas do equipamento totalmente assustado e sem entender a gritaria e desespero que tomou conta da casa.
Hanji terminou de costurá-lo nas feridas mais graves. Colocamos rapidamente uma compressa de gaze para conter o sangramento, passamos spray antisséptico e logo o enfaixamos com esparadrapos para fixar o curativo. No fim ele acabou quase todo coberto.
Seria bom que ficasse na mesa já que os ferimentos acabaram de ser costurados, mas senti que aquela tábua reta faria ainda mais mal à ele. Então com muito – extremo – cuidado o peguei no colo e avisei à quatro-olhos que ficaria de olho no garoto durante a noite. Então levei-o para meu quarto e o ajeitei na cama. Já que todas as outras estão ocupadas.
Preciso dizer que Mikasa e eu discutimos novamente?!
~*~
Olhei pela janela do quarto que dava vista para o campo e o riacho. O azul marinho do céu clareava, e mesmo agasalhado senti aquele frio desnorteado da madrugada se despedindo. Eu havia ficado naquela poltrona do lado da cama toda a noite com os olhos estagnados no garoto. Mas por mais que meu corpo reclamasse de cansaço, eu estava com a mente acelerada e os olhos totalmente em alerta.
Ele não se mexeu em nenhum momento. Da maneira que o deitei ele ficou até agora. Várias vezes até coloquei o dedo indicador em baixo de seu nariz para checar a respiração, mas estava tudo normal, mesmo que bem fraca.
Como amanhecia logo todos acordariam e viriam vê-lo. Então esse seria meu intervalo para descansar. E apesar de não querer eu deveria, já que antes dele despertar preciso ir novamente até as casas que não vasculhei para procurar por mais ataduras de crepe e esparadrapos já que teríamos que trocar esses.
– Levi? – Ouvi três batidinhas na porta e a voz da quatro-olhos.
– Pode entrar. – Abriu a porta e adentrou no quarto.
– Não pude dormir. – Disse se sentando na beirada da cama do garoto e esfregando os olhos inchados de baixo do óculos.
– Fiquei de olho nele o tempo inteiro, mas não aconteceu nada de errado ainda.
– Temo que aconteça. Ele acabou de ser costurado, imagina o problema se ele ficasse agitado! – Descobriu o garoto parcialmente, vendo o sangue manchar as ataduras – Temos que trocar as faixas ainda hoje...
– Vou com Mike nas casas pra isso. – Demos uma pausa, com os olhares em cima dele. Haviam muitas coisas que queríamos saber, mas tínhamos que ficar na espera.
Ele estava diferente. Bem mais magro, suas bochechas até sumiram. Mesmo em pouco tempo seu cabelo cresceu quase na medida dos ombros, já que pelo que me lembro estava na hora de cortar desde antes de sumir. O que eu não podia entender era sua regeneração. Como ficou tão machucado mesmo com a vantagem de se recuperar através do titã. Talvez ele possa ter se ferido sem querer e sem a intenção de transformação. Não sei. Só sei que ele está aqui. Isso que importa.
– Mike está acordado? – Levantei-me.
– Está sim.
– Fique de olho no garoto, vou falar com ele. – Hanji positivou e então sentou na poltrona, pegando a mão de Eren.
– Ei... – Ouvi uma voz chamar por mim antes de descer as escadas. Olhei para trás e era Mikasa na porta de seu quarto.
– O que você quer?
– Eu... – Olhou para o chão, tentando aparentemente encontrar as palavras certas – Queria pedir desculpas por ontem. – Disse com a expressão indiferente.
– Desculpas não servem pra mim. – Olhei-a com a mesma indiferença — Gostos de mudanças. — Pausamos, somente nos olhando com praticamente a mesma expressão. – Mas se redimir já é um começo. E não se preocupe, estávamos todos nervosos.
– Sim. – Sorriu de lado.
– Mas não aja como se somente você se preocupasse com ele, Ackerman. – Voltei a descer as escadas deixando-a lá.
– Mike! – Chamei-o me aproximando do mesmo.
– Hm? – Estava sentado no banco do lado de fora da casa.
– Preciso que me acompanhe até as casas, vou atrás de mais medicamento. – Ele somente acenou com a cabeça. Parecia estar com os pensamentos longe, olhando o nascer do sol. Então o deixei a sós com seus devaneios.
Fui até o banheiro. Estava uma lambança, todo molhado e desorganizado. Mas eu estava muito cansado então preferi não ligar. Me olhei no espelho já que fazia um tempo que não via meu reflexo, mas pude ver o quanto eu estava judiado, parecia até uma cobra vermelha trocando de pele — Infelizmente sou dos branquelos que não pegam cor nem assados de sol – Fora as olheiras que contornavam meus olhos, que a propósito estavam inchados até mais que os da quatro-olhos. Devo ter perdido alguns quilos também, assim como todos os outros.
Suspirei. Me sentia cansado, mas aliviado. Não havia mais tanta preocupação martelando minha cabeça, nem o peso da culpa. Apesar de ter muito ainda que ser feito. Fui até a sala e me joguei em um dos sofás.
Eu podia ter esse momento para descanso, já que a casa está silenciosa e provavelmente todos iam ver o garoto, além de Hanji estar cuidando dele. Mas minha mente ainda estava à milhão. Então só decidi deitar para relaxar as dores do corpo.
Passou algum tempo. Me peguei reabrindo os olhos. Eu havia dado uma cochilada pelo visto. Senti um aroma vindo da cozinha, possivelmente estavam fazendo o almoço. Sendo assim consegui dormir desde o amanhecer até pouco mais do meio-dia, todo esse tempo sem nem ter notado. Realmente apaguei.
Voltei ao banheiro e passei água no meu rosto. Escovei os dentes e fui até Mike, já que passou do tempo de irmos até as casas.
De dia o ambiente era totalmente diferente. O sol dava uma reavivada nas plantas e na coloração esverdeada do gramado. Passamos horas significativas só entrando naquelas casas velhas, sujas e caindo aos pedaços. Mas conseguimos tirar bom proveito do ‘furto’.
Chegando novamente em casa,separamos tudo e guardamos nos devidos lugares. Havíamos conseguido mais três kit de primeiro socorros, fora outros medicamentos separados. Além da prioridade aproveitamos para pegar mais coisas de necessidades básicas e separamos outros objetos caso um retorno. Fora que encontrei mais alguns vinhos e bebidas interessantes.
Deu o tempo do sol indicar seu repouso. O dia tomou um tom alaranjado sutil em cima do azul calmo e das faixas cor de rosa que contornava-o. Olhar a vista sobre o gramado verde-musgo claro e o lago transparente voltava a acalmar meu espírito. Apesar de não me dar muito com cores tão vivas.
– Ele ainda não acordou. – Hanji sentou-se no banco na minha companhia.
– Ele precisa comer. – Massageei as têmporas. Não sei se forçá-lo a acordar faria mal.
– Ele deu umas mexidas e suspiradas, mas continuou sem abrir os olhos. – Cruzou os braços. Passamos mais um tempo em silêncio. Então olhei-a.
– Hanji, tire seus óculos.
– Huh, por quê?? – Franziu as sobrancelhas sem entender.
– Anda! Faça o que peço! – Então ela retirou-os ainda com pontos de interrogação na face. Vê-la sem eles bastou para animar meu dia e me fazer rir um pouco.
– Ei!!! – Me cutucou — Por que está rindo?! Tem algo de errado comigo?!
– Você já se olhou no espelho sem eles?
– Não...
– Então vá lá e se olhe! – Continuei rindo e ela foi depressa para dentro.
Hanji nunca anda sem seus óculos já que acredito que deva ter mil graus de miopia, e pegamos muito sol durante nossas caminhadas, isso fez com que bronzeasse seu rosto mas não a região protegida pelas lentes.
– Isso é pura maldade!!! – Voltou rindo de si própria.
– Nem faz diferença, já que nunca fica sem eles. – Pensar nisso até me surgiram ideias incríveis, como tomar seus óculos caso me aborrecesse.
– Agora terei que ficar, para pegar sol nos olhos! – Isso me fez rir mais.
– Tá, mas enfim... Quem deixou cuidando de Eren? – Voltei a ficar sério.
– Mikasa. – Rangi os dentes. – Mas não fique nervoso, Levi, a coitadinha esperou muito por esse momento, então deixei!
– Esperou muito pelo momento que eu não estivesse por perto, não é?!
– Ah querido, não veja dessa forma! Você não pega leve com ela e desde o resgate do menino você não deixou ninguém perto dele! – Pôs a mão em meu ombro. – E Armin está junto. Eles são os melhores amigos dele, então não se preocupe, eles conhecem Eren mais que nós.
Não à respondi, mas compreendi. A noite já estava chegando então logo terei que entrar e olhá-lo novamente.
– Quatro-olhos, devíamos trocar as faixas dele. – Lembrei-a. Ela concordou e então fomos até o quarto.
Hanji pediu para que os dois saíssem. Fomos até Eren com os mesmos objetos que usamos para tratá-lo na cozinha. Retiramos o cobertor e com cuidado desenfaixamos os curativos mais ensanguentados dos braços. Limpamos novamente com algodão e soro fisiológico e colocamos a compressa de gaze, depois de aplicar uma pomada usada para a cicatrização. Depois dessa etapa enfaixamos novamente com as ataduras. Nas pernas foram mais complicadas pelo peso, mas conseguimos fazer sem arrancar reações suspeitas do garoto. A parte mais difícil seria o tronco – Barriga, peitoral e costas.
Passou um bom tempo, e o dia já havia escurecido. Conseguimos cuidar dos ferimentos profundos, fazendo todo o processo e higienização. Mas teríamos agora que virá-lo ou sentá-lo para que cuidássemos das costas.
– Pronta?! – Disse à ela, que estava do lado oposto da cama, segurando o braço e o ombro direito do garoto, assim como eu do lado esquerdo dele. Ela não respondeu mas positivou com a cabeça, então lentamente começamos a sentá-lo.
Decidimos que eu ficaria segurando-o de frente com ele e ela fazendo os cuidados das costas. Fiquei sentado na cama, praticamente abraçando o corpo do menino e apoiando sua cabeça decaída no meu ombro. Vez ou outra ele se remexia quando a quatro-olhos tocava em lugares que causavam dor.
– Levi, tem um machucado que está descosturando... E agora?! – Me olhou amedrontada.
– Costure, ué! – Ela se levantou e foi até a maleta, pegando a agulha e linhas.
Obviamente estávamos com medo dele começar a se debater como anteriormente, e isso seria péssimo, pois corria o risco de abrir mais pontos. Sendo assim segurei seu corpo com mais firmeza.
Ela começou. Soube pois Eren tinha reclamado em um grito. Mikasa e Armin logo entraram no quarto aos berros, aparentemente ficaram do lado de fora todo o tempo. Eles viram e então eles mesmo saíram. Bom que me pouparam.
Inesperadamente Eren começou a me afastar com as mãos. Larguei seus ombros e segurei-as temendo que pudesse abrir os pontos dos braços, nisso o corpo dele decaiu em mim aproximando-se mais, como se estivéssemos em um abraço. Ele estava fraco mas continuava resistindo. Passou agora a tentar gritar – bem próximo dos meus ouvidos – Mesmo que estivesse rouco e com a voz fraca. Mas estava ficando cada vez mais agitado.
– Oe! Eren! Só mais um pouco! – Aproveitei que estávamos próximos e falei normalmente em seus ouvidos. Mas não adiantou. – Sou eu... Nós vamos cuidar de você, só fique calmo! – Continuei. Então senti seu corpo relaxando aos poucos.
– Hehh... – Ouvi a pronúncia cortada pela metade pela fraqueza de sua voz. Me aproximei ainda mais do seu rosto. – He-eichou?! – Falou com muita dificuldade e sua voz quase não saiu, mas finalmente ouvimos alguma pronúncia vinda dele.
– Sim, Eren, sou eu. – Olhei um tanto surpreso à Hanji quanto a mesma esbanjava um sorriso que ia de orelha a orelha.
– N-não, isso é... É mais uma ilusão. – Franzi o cenho e Hanji fechou o sorriso instantaneamente.
– Eren, somos nós, viemos te buscar!
– N-não é verdade... – Parou para tomar fôlego – Todos me deixaram para trás. – Finalizou sem vacilações na voz. Hanji até parou de dar os pontos depois da fala do garoto.
– Não diga isso! Estamos aqui por você! – Firmei a voz.
– Já pedi para que saíssem da minha mente. – Voltou a tentar se livrar de mim.
– Eren, fique quieto! – Tentava ao máximo segurá-lo sem o machucar. Não foi tão difícil já que estava muito fraco. Hanji finalmente finalizou os pontos e fez o curativo. Voltamos ele para a posição inicial, e então retornou a dormir.
Voltei para a cozinha e preparei o prato dele. Ymir, Sasha e Christa haviam feito o jantar dessa vez. Subi e sentei ao lado do garoto. Tive que pelo menos o manter ciente de que estava ali para alimentá-lo, mesmo que estivesse num estado adormecido, já para não se engasgar.
Consegui fazê-lo comer tudo, mesmo que muito insistentemente e até tendo que limpar a sopa que escorreu da sua boca. Até me senti dando comida pra um bebê.
A noite seria longa, de novo.
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