Notas iniciais
Olá queridos *u* Entonces... Esse capítulo correrá como num dia-a-dia normal deles, e terá narrações de outros personagens, pra dar uma variada (fora as de Levi). Escolhi a Hanji e o Jean sedução, simplesmente por que os adoro! Então se encontrarem muitos diminutivos na narração da Hanji e alguns palavrões no de Jean não se assustem, pois condiz com suas personalidades, haha. E também ignorem alguns erros ortográficos como "muuuuito" já que foram propositais. Tem uma surpresinha no final para vocês... hihi c: Ah... O nome do horse do heichou aqui é Trovão gente :3 XD. Bom... Sem muito falatório, vamos ao que interessa u.u Boa leitura amores!

Hanji

– Não. – Cruzou os braços — Não, não e não!

– Mas que diacho, Levi!!

– Não era você quem estava preocupada com ele?

– Mas meu bem, antes de encontrarmos nosso garotinho temos que melhorar! Não adianta absolutamente nada essa pressa para o encontrar se não estivermos em condições! – Pousei minhas mãos em seus ombros, frente a frente com ele. Vi que deu uma bufada – A saúde do Armin ainda não está boa, ele não se recuperou direito, o que acha que aconteceria à ele se passasse pelo mesmo novamente?! – Virou seu rosto para o lado.

– Quanto mais enrolarmos mais ele se afastará, quatro-olhos. – Disse numa voz mais calma, porém ainda ansiosa.

– Hey... – Chamei-o e ele virou seu rosto novamente de encontro ao meu – Ele está vivo. Eu sinto isso, e sei que também sente, bem ai nesse lugarzinho... – Apontei em direção ao seu peito esquerdo. Suas bochechas deram uma leve ruborizada. Haha... Esse baixinho não me engana nadinha.

– Ainda não estou convencido. –Me ignorou e voltou a firmar-se. – E não fale asneiras.

– Lembra que eu disse ainda na mata que deveríamos ter ficado mais um tempo? – Ele positivou com a cabeça – Pois é, viu no que deu sua pressa?! Passamos super mal e o garotinho desmaiou. Por sorte estamos bem e aqui nessa casa. – Agora eu quem cruzava os braços.

– De fato... – Massageou as têmporas – Parece que devo desculpas.

– Se redima nos deixando ficar mais um dia, é isso que precisamos agora. – Me encarou, visivelmente pensativo e inquieto. Estava estampado naquele seu rostinho invocado que estava ás pressas por encontrar logo nosso menino.

– Amanhã bem cedo estarei acordando todo mundo, ouviu, quatro-olhos?!

– Yupiii!!! – Comemorei, abraçando-o com força. Ele obviamente achou péssimo, mas quem disse que me importei?!

Avisei á todos que teríamos mais um dia de descanso e ver o alívio em cada um foi inexplicável. Mas eu tinha certeza que se teríamos um dia de folga, o próximo seria bem duro, e Levi pegaria muito no nosso pé. Bom... Pensar nisso pra quê, se estamos bem?

Aprontei-me a fazer nosso cafezinho da manhã, que seria novamente sopão, já que não tinha mais nada ali. Na verdade nem faz diferença, pois sempre comemos quase a mesma coisa todos os dias. É, não é mole não.

Nossas criaturinhas estavam bem acomodadas. Alguns ainda dormiam e outros já estavam soltos ao redor da casa, vasculhando cada cantinho dela.

Assim que o café da manhã/almoço ficou pronto, fui para fora da casa gritar para que todos ouvissem. Até levei um pisão no pé do maldoso do Levi – Justo em cima da unha encravada — por ter gritado perto dele. Poxa que culpa tenho? Eu juro que não o havia visto do meu lado!

Alguns deles desceram e outros ficaram ainda nos quartos, indispostos. Vi que Armin era um deles, então fiz seu prato e subi para levar até ele.

– Armin?! – Bati na porta.

– Pode entrar, Hanji-san. – Ouvi sua voz bem fraquinha, então rodei a maçaneta.

– Trouxe uma deliciosa sopinha bem rica em fibras, vitaminas e minerais para você ficar bem saudável e beeeem fortinho! – Cantarolei.

– Ahm... O-obrigada, eu acho... – Fez um rostinho bem confuso e pegou o prato que ofereci. Talvez por ter cantarolado. Mas é inevitável, ele é tão fofinho!

– Já já eu volto caso queira mais, viu? – Ele agradeceu novamente e então me retirei.

Passei pelos outros quartos, alguns vazios e já outros com alguns ainda dormindo. Mas tive que acordá-los para que comessem, depois disso poderiam voltar à dormir. Levei sopa até eles e na volta, parei no quarto do loirinho para ver se já havia terminado. Peguei seu prato e desci. Coloquei a louça na pia e preparei outro pratinho para ele. Chegando lá me convenceu de que estava cheio, mas pareceu que estava era tentando economizar comida para os outros. Então mesmo assim o fiz comer, já que ele precisa ficar bem.

– Francamente, Hanji! – Levi chamou minha atenção — Você vai fazer vazar sopa pelos ouvidos do garoto, deixe-o em paz! – Pegou o prato da minha mão e voltou toda a sopa para a panela.

– Mas ele tá doente, precisa se alimentar bem! – Chorei.

– Esse é o terceiro que você prepara pra ele! – Franziu o cenho. – Dá pra ver que ele não é de comer muito, deixa de ser exagerada! – Fiz bico.

– Levi, você já foi dar uma olhada lá no andar de cima? O que será que tem por lá?

– Ainda não vi, mas bem lembrado! – Apontou o dedo pra mim como quem havia recordado-se de algo – Logo que arrumarmos a cozinha darei uma espiada.

~*~

– Huhuh, que interessante...

– To vendo a hora de sair um bicho venenoso daí e te picar. – Disse se virando a mim, referindo-se à caixa de documentos que eu vasculhava.

– Relaxa querido... Esqueceu que sou cientista?

– É inútil se você for picada, não temos nenhum medicamento conosco.

Realmente. Levi tinha razão, então comecei a tomar um pouco de cuidado. Os remédios eram muito caros, muito mesmo, então não teve como comprar antes de virmos. Haviam alguns no quartel, mas na sala de Erwin...

Aquela sala de livros – biblioteca residencial — era bem bonitinha. Bem ajeitada e iluminada pela radiação solar por conta da grande janela. Sem contar que haviam inúmeros livros sobre as prateleiras. Tive que insistir à Levi que entrasse comigo, pois este andar estava realmente muito, mas muuuuuito sujo. Pelo visto as pessoas hospedadas não o usavam.

– Argh... – Reclamou ao sentir o cheiro de um outro livro que pegou. Decidiu assoprá-lo para tirar todo o pó de cima, mas logo começou com uma sequencia de espirros.

– Viche! Desse jeito você vai ficar péssimo, pode descer querido, eu continuo vendo sozinha! – Vi que seu narizinho havia ficado bem vermelho.

– E dar as costas pra essa imundice?! – Falou como se eu tivesse dito algo tremendamente terrível – Ainda não fiquei louco! – Ele então prontamente saiu e pelo jeito foi buscar por algum produto de limpeza, o que duvido que tenha restado.

Decidi ajudá-lo. Procuramos nas gavetas e nos armários da cozinha, na sala e nas estantes (?), no banheiro do primeiro e no do segundo andar... Fomos pra fora da casa e encontramos um pedaço de sabão em pedra caseiro, umas buchas e alguns baldes perto do tanquinho. Levi ficou mais feliz que criança chupando pirulito. E eu já cansada antes dele me mandar limpar um cômodo inteiro – O que eu sabia que iria acontecer.

– Quatro-olhos, encha-os de água que irei procurar por um esfregão.

– Ah... – Gemi em fadiga e passei a mão na testa – Tudo bem...

Descanso? Desconheço. Quero é só ver como ficarão os pequenos quando ele mandá-los limpar a casa toda... Por que há de quem desobedecer esse baixinho...

~*~

Levi

Eu realmente não queria me meter novamente naquele andar empesteado de mofo, mas lá é o último lugar que ainda não procurei pelo esfregão. Tentando ver o lado bom, se achá-lo a casa vai ficar um brinco.

Subi. O único lugar que eu e a demente vasculhamos foi a biblioteca. Haviam mais alguns cômodos antes de me surtar uma série de espirros. Adentrei no primeiro – perto da biblioteca – E era um ateliê.

A sala era bem interessante. Assim como a outra estava bem iluminada com a janela da frente da casa. Todos os cômodos do andar provavelmente seriam assim, já que não reparei nas janelas por fora. Fui até ela e à abri, com um pouco de esforço e inclusive engolindo um pouco de poeira.

Andei pelo cômodo, observando cada detalhe... Era realmente incrível. Haviam telas limpas em prateleiras e outras nos cavaletes à serem pintadas. Algumas já prontas penduradas nas paredes e outras “à secar” em cima de uma mesa. Era a sala de um profissional, mas além disso, haviam duas mesinhas infantis com algumas folhas rabiscadas. Pressuponho que eram de seus filhos.

– Se Hanji vesse isso com certeza choraria. – Peguei um dos desenhos.

Uma família de seis membros rabiscados, uma casa, um lago. Sorrisos, balões em forma de coração, e algumas palavras desconectas de uma criança – pelo visto menina — que queria expressar o quanto amava-os. Coloquei o desenho já empoeirado de volta na mesa, junto de alguns outros que pareciam ser iguais. Preferi não admirar muito aquilo, nem pensar no quanto a família poderia ser ligada e também o que possa ter acontecido. Morte era algo tão recorrente em minha mente, que pelo medo posso exagerar nas suposições.

Fui na segunda mesinha. Haviam várias folhas limpas e um pote de giz de cor. Ventou forte pela janela e as folhas espalharam pelo chão. Eu não podia deixar a sala diferente de como estava quando à encontrei por respeito, então fui até as folhas e recolhi-as uma a uma.

Encontrei uma folha rabiscada escondida dentro das limpas. Levantei e tentei distinguir os rabiscos. Provavelmente era o desenho de um menino, e que por sinal não puxou o dom do pai pra arte. Os traços estavam visivelmente grossos sobre o papel, como se o houvesse feito com raiva. Espremi os olhos e continuei tentando entender. Aquilo era uma figura grande, eu conseguia ver os membros e a cabeça. Era um gigante, e em sua frente um bem menor, segurando uma lança. Então tive consciência de que aquilo era um titã e provavelmente o garoto com a lança na mão, indo enfrentá-lo.

Senti um vaco imenso no estômago, uma ventania demasiadamente forte que me fez rapidamente tapar a boca por enjôo. Dois irmãos totalmente diferentes, com suas realidades tão adversas. Uma menina meiga superprotegida e um garoto que evidentemente teve a infância destruída por esse lixo de realidade. Isso realmente me embrulhava.

Receios já engolidos e submersos vieram à tona. Não consegui conter os pensamentos que me questionavam se aquela família havia vencido pela vida, ou se aquele garoto conseguiu salvar à todos que amava. Se a menina doce sofreu e até mesmo teve uma morte dolorida.

Se Eren teve o mesmo destino deles.

Mordi a mão que levei à boca. Mordi forte, para tentar afastar a dor que vinha como um soco no meu peito. Fui até a porta e a tranquei. Encostei-me nela e respirei fundo.

Enxerguei-o naquele menino. Tenho que me controlar, minha mente está dopada de pensamentos ruins dele.

Não sei o que é mais intenso agora: Minha preocupação pelo garoto na qual sou responsável; A dor de mais uma vez perder um companheiro, ou o nó na garganta que resulta na confusão que isso tudo tornou a minha mente.

Desordem. Ansiedade. Mas o que mais posso sentir é o medo. Esse medo estranho que rasga meu coração. De que nós possamos ter te perdido.

~*~

Minha cabeça latejava. Senti meu nariz carregado por ter contido o que seriam lágrimas – Vindas de mim mesmo é um tabu até pra mim — Com certeza meu rosto incharia e todos veriam quando eu descer. Merda, por isso odeio recaídas... Não á evidencia mais óbvia de fraqueza, mesmo que contida.

Respirei fundo algumas vezes antes de sair de onde estava. Não posso vacilar novamente, tenho que manter a calma. Me virei e abri a porta, saindo do cômodo que com certeza eu não entraria até achar o pirralho maldito que está acabando com todo mundo.

Fui até o próximo cômodo. Estava um caos. Uma pilha de livros muito velhos e mofados e brinquedos quebrados espalhados pra todo canto, misturados com sapatos e peças de roupa jogadas... Eu diria que isso é um soton. E deve estar empesteado de insetos. Rapidamente fechei a porta ao pensar nisso.

Abri o quarto e último e me dei com uma visão esplendida, que até deu uma elevada no meu espírito que estava praticamente beijando o chão do inferno. Era um canto só de utensílios que provavelmente a diarista da casa usava. O cômodo era inteiro de objetos de limpeza e também de ferramentas mecânicas – certamente do dono – Caso algum problema ocorresse na casa.

Haviam quatro esfregões em bom estado, e alguns outros velhos e sujos. Também havia estantes com sabão em pó e em pedra, que inclusive eram enormes por serem caseiros. Além de alguns baldes, buchas, escovas, desentupidores, borrifadores, luvas, vassouras e rodos; Sem contar a grande quantidade de garrafas plásticas com sabão líquido. Havia até um traje de serva de limpeza. Que maravilha, Minha cara deve ter desinchado na hora.

– Jean, Sasha e Connie... – Selecionei-os, assim que reuni todos do lado de fora da casa – Vocês ficarão com o andar superior. Ymir, Reiner, Mikasa e Christa ficarão com o andar inferior. – Aceitavam fazendo a saudação da tropa. Não ficaríamos muito tempo, então não precisavam limpar, mas eu tinha que manter suas cabeças ocupadas e distraídas. – Armin, como se sente?

– Me sinto melhor, Heichou!

– Ótimo, fique com o grupo do andar superior, já que é o pior. – Dito isso, me olharam confusos.

– Mas e o andar do meio? – Berth perguntou-me.

– Cada um limpará seus quartos depois. Enfim... Berth, Hanji e Mike, limpem os banheiros, e depois colham as batatas e as cenouras.

– E o que você vai fazer?? – Jean me olhou feio.

– Vou percorrer ao redor para ter alguma noção do melhor lado para prosseguirmos amanhã cedo. – Eu estava com uma resposta melhor na ponta da língua, mas não queria mais dor de cabeça. – Aliás... Ao grupo do andar superior: NÃO limpem o ateliê!

– O que é ateliê? — ¬¬’

~*~

Jean

– Maldito, filho de uma égua!

– Jean!!! – Armin me beliscou.

– Olha a imundice que está esse andar! Nada em comparação com os outros... Sem dúvidas vamos ter muito mais trabalho!

– Mas esse só tem três cômodos para limparmos, ele havia dito que não era pra adentrarmos o ateliê.

– Armin, o que é isso? Perguntei pro heichou mas ele não me respondeu...

– Connie, é um espaço de arte, um ambiente que você reserva só pra esse tipo de coisa. – Voltou a passar o esfregão no chão.

– E por que raios não quer que vamos lá? – Perguntei.

– Não sei, mas mesmo assim é melhor... Menos um cômodo pra limpar. – Voltou o esfregão para o balde.

– Connie, olha o que você tá fazendo! – Olhei junto de Armin – Torça o esfregão no balde de água suja, e não na água limpa seu retardado!

– Oh, foi mal... – Corrigiu-se.

– Essa casa está caindo aos pedaços, tomem cuidado onde pisam, a madeira pode estar fraca. – Armin alertou – E Sasha, é pra limpar livro por livro, okay?! – Ouvimos ela bufar.

A primeira coisa que tínhamos feito era retirar todos os livros das prateleiras, e enquanto um limpava-a, o outro ia adiantando a limpeza nos livros. Eu já estava pra terminar e ir dar uma mão para Sasha. Armin e Connie estavam passando o esfregão no chão e iriam limpar a mesa e a cômoda que havia ali. Realmente esse troço de limpeza é horrível, não é a toa que minha mãe vivia enfurecida e tacando pratos em todo mundo.

Passou alguns minutos, talvez uma hora. Nós conversávamos enquanto limpava, pra matar o tempo e esquecer o cansaço. Armin ajudava com os livros que estavam em pouca quantidade agora, enquanto Connie limpava – ou tentava – a janela.

– Hey, Armin, dê uma olhada nisso aqui... – Dei o livro a ele.

– Muito engraçado, Jean! – Jogou-o de volta em mim, rindo timidamente.

– Qual é cara, é totalmente normal... – Abri e dei uma olhada.

– O que é gente?! – Sasha se entortou tentando curiar, mas rapidamente fechei o livro.

– Não veja Sasha, é besteira. – Armin alertou-a.

– Mas besteira como?

– Ela quer ver, então que mal faz? – Ri e dei o livro para ela.

– Seu infeliz, por que não avisou que era isso?! – Jogou o livro longe e tampou o rosto, fazendo nós dois rir.

– Mas eu avisei! – Disse o loiro.

– Olha, e pelo jeito há uma série de livros assim, me deparei com uns doze já.

– Deixe aí caso alguém precise... – Armin sugeriu.

– Posso levar para animar a viagem também. – Rimos.

– Hum... Olha se não é aquele livro idolatrado pelos religiosos... – O loiro levantou um livro de capa preta e dura, com escritas douradas e chamativas: “Bíblia Sagrada”. Logo abriu e folheou algumas páginas.

– Eu nem toco nisso... – Sasha logo disse – Esse livro parece ter uma enorme persuasão sobre as pessoas e as torna submissa à ele como se fossem totalmente manipuladas... Chego a ter um pouco de medo do que tem nisso aí!

– Verdade, mas não importa muito. Armin deixe esse livro de lado, afinal é só um livro. – Peguei dele e coloquei na pilha dos que já estavam limpos.

– Puts, não consigo limpar aquela sujeira! – Connie nos disse, depois de afastar novamente a poltrona para o lugar que estava.

– Você pelo jeito é mais baixo que o Rivaille, não consegue nem se subir na poltrona?! – Levantei — Quantos centímetros você tem? – Armin e Sasha riram.

– Bom, vou trocar a água suja, já volto. – Saiu com a cara fechada e extremamente vermelha.

– Xí, ele ficou bravo gente...

– Você acha, Sasha?! Tenho certeza que não é isso... – Armin e eu nos olhamos, sorridentes – Você é outra tapada.

– Como assim, Jean?! – Pôs as mãos na cintura.

– Ele ficou com vergonha de ter sido tirado pelo Jean na sua frente, burrinha... – o loiro sorriu à ela.

– Merda, essa sujeira está impregnada! – Esfreguei uma parte dela com a bucha – parece tinta ou piche... Não vai sair nunca!

– Raspa ela com força. – Sasha sugeriu.

Estava difícil, e bem alto até pra mim. Eu pude alcançar só uma parte dela, e tinha mais pra cima. Consegui raspar alguma coisa, mas ainda havia muito. Os dois prestavam atenção enquanto eu subia nas pontas dos pés para esfregar aquela merda.

– Jean, cuidado com o chão... – O loiro me lembrou que o mesmo era fraco.

Senti que eu estava me requebrando um pouco pra limpar aquilo, até me lembrei de quando minha mãe fazia isso, era engraçado, e eu devia estar do mesmo jeito. Olhei automaticamente pra trás por timidez e Sasha havia voltado a limpar os livros normalmente, mas Armin virou rapidamente seus olhos quando olhei pra ele, e ficou corado instantaneamente. Estaria ele olhando minha.... ?

Okay, que constrangedor. Mas é simplesmente impossível limpar essa sujeira sem mexer o quadril, então eu não tenho culpa!

Consegui limpar a ponta daquela crosta preta maldita, mas ainda tinha. Dei alguns pulinhos para alcançar e ao mesmo tempo raspar aquilo com a unha fincada na bucha. Ouvi Armin e Sasha me gritar desesperados, mas eu continuava pulando já que eu estava quase conseguindo. Decidi parar e então olhei à eles.

– O que foi?!?!

– Não — se — mecha! – Ele falou com cautela, com uma voz até baixa, olhando para meus pés. Segui sua visão e vi que eu estava ligeiramente ferrado. Merda, eu esqueci que a casa estava podre.

– Oh não... – O chão de madeira estava todo, TODO rachado ao meu redor. Mesmo parado, o bendito não parava de ranger e dar impressão de que iria desmoronar e me levar junto. – E agora? Como vou sair disso?

– Espera! – Armin se aproximava lentamente, pretendia ficar por perto para me segurar caso as madeiras rompessem.

Ouvimos um assobio ecoar no corredor até se aproximar da porta que ficava perto de onde estávamos, então paramos e olhamos. Connie empurrou a porta com a bunda e adentrou segurando dois baldes de água limpas.

– Connie, espera! – Sasha gritou. O careca olhou mas continuou andando.

– Não se mexe filho da put... – Gritei, mas eis que o imbecil largou os baldes em cima da madeira rachada. Depois disso só senti o chão de dois andares quebrarem no meu corpo e eu cair no térreo, de tabela até levar um banho de água com sabão.

– JEAN!!! – Ouvi pelo subconsciente uma voz me gritar. Abri os olhos com o corpo amortecido e definitivamente dolorido e vi os buracos que fiz nos dois tetos – chão do andar do meio e no chão do andar superior — Eu havia chegado até aqui. Devo ter quebrado alguma coisa em mim...

– Jean você está bem? Está vivo?! – Olhei para as cabeças dos três que me observavam pelo buraco.

– Connie é melhor correr pra bem longe quando eu me levantar... – Ameacei, mas acho que ninguém ouviu, de tão fraca que estava minha voz.

– Nossa, o que aconteceu?! – Christa começou a me apalpar o rosto. Somente olhei pra cima e ela pode ver.

– Como caiu de lá de cima? – Mikasa se aproximou.

– A casa está fraca, no mínimo ele ficou trotando por lá e acabou caindo. – Ymir soltou uma piadinha. Consegui forças para levantar o dedo do meio à ela.

Reiner me deu uma mão para levantar. Meu corpo não estava com sinais de fração, mas meu braço direito doía muito.

– Acho que desloquei... – Peguei em meu ombro.

Os três desceram para ver como eu estava, e a sorte do careca maldito era que eu estava realmente quebrado. Reiner e Bertholdt me ajudaram a subir para meu quarto, que por desavença ficava bem em baixo da biblioteca, então nos deparamos com o buraco enorme no meio dele.

Deitei na cama. Possivelmente não poderíamos mais dormir ali. Pelo menos nem eu e nem Mikasa, já que Armin dormia na cama e nós no chão. Provavelmente teríamos que ficar na sala. Só nós dois... Pois é, pelo menos posso tirar algo de bom disso.

~*~

Levi

Espero que aqueles dois estejam tomando conta dos outros, já que basta eu dar as costas para o mundo virar do avesso.

Possivelmente são quase quatro da tarde. Faz mais de duas hora que deixei a casa. Não coloquei Trovão para correr, nós somente andamos calmamente fechando um círculo a alguns metros de onde repousamos.

O dia estava consideravelmente fresco em comparação com ontem, eu diria que tanto ao ponto de cair algumas gotas do céu, que escurecia apesar do dia sereno. São esses dias que condizem comigo, eu realmente venero o tempo ameno, mesmo até frio e chuvoso. Mas já que seria assim melhor eu me apressar, pois pretendo dar uma checada nas casas.

Finalizando a caminhada pelo perímetro, comecei a seguir dali mesmo em direção ao vilarejo. Era amedrontador o clima de paz e calma que aquele ambiente trazia. A total sensação de vazio e inexistência. A exterminação daquele ambiente e o tempo que se passou por cima da história do lugar. Senti subir aquele frio desconfortável no estômago ao pensar que um dia o mundo possa chegar a ser assim: Desabitado, sem qualquer vestígio de vida humana.

Amarrei Trovão em uma árvore perto da casa que eu entraria, até o coitadinho sentiu medo de ficar ali sozinho pelo tanto que estava agitado. Estávamos eu diria que na oitava casa do ‘começo’ do vilarejo, na verdade a partir de onde não haviam residências destruídas.

Escuridão. Meus passos por mais que fossem leves faziam barulhos atormentadores, como se pudessem acordar algo ruim. Sempre fui acostumado à andar por esse tipo de lugar espantoso, mas agora não tenho mais a sensação inútil de proteção das muralhas – Como se elas fossem diretamente me salvar da morte – Agora é tudo diferente.

Curiei a dispensa e tinha algumas ervilhas enlatadas – vencidas – e vários potes de ração humana. Em cima da mesa central frutas podres, não havia mais nem moscas em cima e também não fediam de tanto tempo que estavam ali.

Saí da cozinha e fui em direção à sala. Bem simples, mas uma vitrola bem no canto chamou minha atenção. Muito empoeirada, velha, com teias e alguns discos guardados na estante. Se ficássemos nesse lugar eu poderia levá-la para nossa casa.

Subi as escadas e fui ao ultimo andar. As casas são praticamente todas iguais, porém essa em relação à nossa era bem escura. Fui aos quartos, decidi que pegaria algumas coisas que fossem úteis para nós. Recolhi alguns lençóis dobrados e fronhas. Dos banheiros recolhi papéis higiênicos, tesouras, e as toalhas dobradas que haviam nas prateleiras. Já que não havia vida aqui, a situação não é tão constrangedora para furtar coisas de necessidades básicas como papéis higiênicos, então fiquei despreocupado de ser pego nessa situação vergonhosa.

Acabou ficando demais para levar nas mãos, então rondei a casa mais uma vez à procura de alguma maleta ou bolsa. Coloquei tudo dentro da mala que encontrei e fui até meu cavalo.

Paramos em cinco casas depois daquela, recolhi mais algumas coisas para complementar. Encontrei até algumas garrafas de Veuve Clicquot, e logicamente trouxe comigo. Sabe-se lá quantas bebidas desse nível restaram já que não há mais fábricas.

Senti respingos contra meu rosto, eu estava certo quanto à chuva anteriormente. Bom, seria desnecessário correr até a casa, já que está longe e mesmo assim me molharia, então seria racional somente voltar da mesma forma que cheguei.

Antes de virar, centrei minha concentração para um amontoado de árvores consideravelmente distante de onde eu e meu cavalo estava, exatamente numa reta do caminho do vilarejo. Se corrêssemos até lá não levaria tanto tempo, mas o dia começou a escurecer ainda mais, além da ‘garoa’ engrossar e aquela mata ficar mais escura que a própria vila. Então não seria perspicaz arriscar, até por que não sei qual tipo de mata pode ser aquela.

– Vamos garoto! – Dei alguns tapinhas no pescoço do cavalo e o virei com a cela.

Aquela vista não melhoraria o percurso. Consegui sentir até receio de virar as costas pra aquela cidade fantasma. Ou estou ficando frouxo ou a coisa é realmente feia. Mas meu espírito me faz sentir mais intensamente que essa sensação de medo são as energias ruins passando pra mim o que possa ter acontecido de muito aterrorizante aqui. Aliás, massacrante. Realmente não me sinto bem e quero sair desse lugar o mais rápido possível. Mas a grama do caminho estava molhada e colocá-lo pra correr seria cruel. Pelo jeito tenho que engolir isso.

Você por acaso passou por aqui? Do jeito que é medroso contornou o caminho.

Ri, mesmo que num tom inaudível. Esse pensamento foi inevitável. Aliás... pensar nele seria inevitável. Como está, onde, se foi muito longe ou está de baixo do meu nariz. Pirralho... Se eu te encontrar vivo vou te espancar tanto! Você com certeza vai apanhar como nunca.

Respirei fundo. A chuva engrossou, e então senti uma corrente de ar forte e gélida encontrar meu corpo. Frio. Melancolia. Desmotivação. O tempo também não colaborava comigo, e eu só queria voltar bem. Meu cavalo caminhava numa lerdeza que parecia me punir, e até eu me ajudava nisso.

Eu não sabia mais. Talvez um sobrinho ou mesmo um irmão mais novo?! Uma companhia boa ou até um amigo?! Eu preciso saber de qual fonte vem esse sentimento tão forte de proteção e preocupação que me atinge recentemente. Posso estar tomando as tristezas de todos e me martirizando por ser responsável por ele. Tinha que ser isso... Por que doía, até em mim. Saber que alguém tão alegre como Hanji chegou a chorar por ele. Eren, o que você tem de tão especial?

Eren... O que você fez comigo?

Levantei a cabeça para o céu chuvoso e cinzento. Observei as gotas baterem e contornarem meu rosto dormente. Não sou de fazer pedidos, principalmente sabendo que serão em vão. Mas caso realmente haja alguém olhando de cima, peço para que mande coordenada de onde esse moleque esteja. Ninguém mais aguenta sua ausência.

Senti uma gota quente se diferenciar e percorrer minha bochecha à baixo. Sem importância camuflou-se com os pingos de chuva, e sem ligar abaixei minha cabeça.

~*~

– Você ouviu isso?! – Disse pra minha única companhia no momento. Obviamente fiquei sem respostas.

Um rugido. O mesmo que ouvi em meus delírios. Só podia ser mais um. Eu estava tão incrédulo que só aceitava ser coisa da minha mente. Não seria possível...

Parei o cavalo. Ouvia o grito cada vez mais intenso. Mais grave e mais... Desesperador. Não podia ser o Eren, essa súplica é absurdamente assustadora. Não tinha que ser ele. Simplesmente não era!

Tudo bem. Acalme-se. Não posso voltar sem antes checar o que seria aquilo, meu ser infelizmente me forçava a querer e induzia a correr até aquela floresta sombria e escura, para uma confirmação de que é tudo fruto da minha mente. Maldita seja minha curiosidade, em sã consciência eu correria pra longe de onde estava.

Voltei o cavalo para o caminho contrário, e o coloquei para correr em direção ao vilarejo. Ainda chovia e a noite caia. Puta merda, onde estou com a cabeça?! Só posso estar querendo morrer pra fazer isso.

À essas alturas do desespero e a alta velocidade que Trovão alcançou já passei o vilarejo fantasma. O vento cortava meu rosto, e eu não o sentia pelo frio. Se eu morresse provavelmente não sentiria dor pela adrenalina que percorria meu corpo inteiramente anestesiado e congelado.

Estou louco pra te resgatar... Mas que esse rugido não seja seu, Eren.

Quanto mais chegava perto das primeiras árvores sentia enorme vontade de voltar atrás e não ter avançado. Esse grito retalhava minha alma de medo. MEDO — isso me definia ao último fio de cabelo.

Fora os berros altos, eu podia ouvir sons estrondosos de rochas colidindo. Decidi amarrar o Trovão nas primeiras árvores, para qualquer coisa somente montar e correr para longe. Pra minha sorte eu tinha colocado o equipamento.

Adentrei. O monstro gritava, os barulhos de rochas ecoavam e de repente tudo retornava num silêncio absoluto. E isso se repetia, repetia, e repetia. Nos intervalos de silencio minha respiração me denunciava e o som da chuva tomava conta do ambiente. A mata parecia ser morta... Inabitada, sem vida nem diversidade de animais. Não me trazia nenhuma segurança como a anterior. E eu só podia ouvir, raramente enxergar algo.

Tive um extremo cuidado, pela terra estar lamacenta e ter me feito deslizar incontáveis vezes desde o pouco tempo que estive ali. As árvores eram enormes e com poucos galhos, quando tinham eram em seu topo, dificultando – Se tem como ficar pior – minha situação. Sendo assim decidi me arriscar ir andando, já que não havia outra forma.

Olhei pra trás, e já não avistava mais meu cavalo. A vontade avassaladora de correr me arrepiava a espinha, mas eu fazia o contrario e me aproximava para mais fundo naquele inferno negro.

Imbecil, você vai morrer.

Lancei as âncoras na árvore que avistei com um galho mais baixo. Subi. Depois disso me lancei nas próximas com os mais altos e assim fui me locomovendo. Do alto eu poderia não ser notado pelas folhagens que me escondiam. Então pude ver. Pude finalmente por os olhos naquele monstro descontrolado, enfurecido e sedento.

Pude finalmente naufragar no mar esverdeado que era o olhar de Eren, que agora se perdeu dentro de si.

Notas finais
Eita que esses meus leitores são guerreiros, viu!!! XD Levizinho um tanto sentimental nesse capítulo, aww *u* Eu realmente não queria fazê-lo ter que passar por recaídas, já pela sua personalidade, mas conforme fui construindo o capítulo isso simplesmente escorregou pelos meus dedos, como se tivesse que ser assim! Depois que revisei não tinha mais como mudar, pois encaixou perfeitamente. Mas mesmo assim a paixão ainda não surgiu, ok? Na verdade esses momentos foram mais de afeto e preocupação eu diria que até fraternais, como mesmo descrevi na história, por Levi ter uma certa responsa em cima dele. Mas não desanimem, a coisa ficará legal depois :3 hehehe XD Ah e qualquer coisa eu não leio o mangá viu minna. (ainda, eu acho. Já que não aguentarei de curiosidade e por ver vários spoilers sem querer :/) Enfim, chega de conversa, o próximo como podem perceber focará só no resgate da mula do Eren u.u Estou pensando em postar na segunda ou terça, já que eu queria adiantar essa parte da fic. Beijinhos da titia Moon!