Resgate
10 Encurralados.
Notas iniciais
Jean
Me notei acordando com um som ensurdecedor ecoando no corredor. O susto me levou a abrir num segundo meus olhos, sendo instantaneamente cegado pelo sol que adentrou nosso quarto. Esfreguei as pálpebras enquanto levantava o tronco, antes deitado de bruços.
– Armin, quem é o maldito que está fazendo isso? — Me virei para vê-lo, deitado sobre a cama.
– Não da pra ver que também não sei? Acabei de acordar com esse barulho! — Já nervoso, levantou somente a cabeça para me fitar no chão.
– Jacaré que dorme demais vira bolsa, cambada!!! Bora levantar! O dia será longo!!! — Ouvimos um timbre alegre demais para prováveis sete da manhã. E como se não bastasse, batendo de porta em porta.
– Ah não... — Armin massageou a testa. — É a Hanji, ela certamente nos mandará fazer algo.
– Sapo dorminhoco acaba conhecendo a cobra por dentro!!! — Soprou mais uma vez aquele instrumento grave, nos fazendo tampar os ouvidos. O barulho era tanto que incrivelmente derrubou a galhada que eu havia pendurado na parede. Agora pude notar o quê estava com ela.
– Onde... Diacho essa mulher encontrou um berrante??? — Perguntei a ele e somente levantou os ombros em duvida. Antes que soprasse aquilo novamente, levantei e fui direto até a porta, colocando somente a cabeça para fora. — Já acordamos, carrapeta doida! — Me olhou com brilho naqueles olhos saltados.
– Se apronte o mais rápido possível para não perdermos o dia!
– E por quê?
– Vamos dar uma volta. – Piscou. Voltei com a cabeça para dentro.
– Por que ela está fazendo isso?
– Disse que vamos sair. Agora pra onde, num lugar desses? — Peguei o cobertor da minha cama improvisada e comecei a dobrar. — Seja como for, essa lunática acabou com todo meu sono.
– Ainda temos que terminar a carroça, ela sabe disso? — Disse entre bocejos.
– É só avisar que temos que ficar pra terminar. Aliás, como Rivaille ainda não apareceu esgoelando ela? Até pela bela adormecida... – Me lançou um olhar repreensivo. – Ops, Eren.
– Eles devem ter dado uma saída. Ela não faria isso com ele dormindo. Ninguém faria. — Passou a dobrar igualmente seus cobertores.
Procurei meu traje da tropa pelo quarto até achá-lo. Como costume, vesti-o juntamente com as cintas-liga, mesmo por cima da blusa que usei para dormir. Armin fez o mesmo. Apesar de não sairmos da casa, estar sempre preparado para algum imprevisto é necessário. Não podemos perder o costume.
Nesse meio tempo, depois do despertar agitado por culpa da maluca, tive meu tempo para realinhar as coisas em mente. Olhei-o enquanto fechava a cinta no corpo e olhava para qualquer canto aleatório do aposento. Eu havia o beijado ontem, e isso com certeza ele não teria esquecido, aliás, provavelmente seria o que atualmente está em mente enquanto se veste fingindo estar só. Com essa atitude, aparentemente não deseja tocar no assunto. Seja por timidez, por deslocamento ou mesmo descrença... Já que até eu ainda estou com as lembranças desconexas em mente. Não posso acreditar no que aconteceu. Não por reprovação, mas... Só um segundo beijo para tornar as coisas reais.
– O que houve, Jean? — Subiu o zíper da bota montaria sentado na cama, e junto, seu olhar à mim.
– Ahn?! Ehr... Eu só estava me perguntando quando voltaríamos para as muralhas. — Disfarcei. E ele curvou um sorriso sutil.
– Pode parecer loucura, mas estou gostando de viver fora delas. — Levantou-se e passou por mim em direção a porta. — Você vem ou vai ficar ai brincando de estátua sozinho? — Parou, com uma das mãos segurando a maçaneta.
– Bom dia Armin! — Mikasa apareceu e beijou-o na bochecha. — Ah, bom dia pra você também Jean. — Disse automática, do seu modo costumeiro, quando me notou no quarto. Ainda não entendia o fato dela agir de bom humor somente com Eren e Armin.
– Bom dia. — Respondi normalmente, apesar dela não ter dado importância e ter saído antes de eu cumprimentá-la.
– Ainda gosta dela? — Armin me surpreendeu ao perguntar repentinamente.
– Nunca gostei. — Sorriu. — Qual a graça?
– Você é uma péssima pessoa pra mentiras.
– E você é muito desconfiado. — Correspondi o sorriso e me direcionei até a porta junto dele, saindo do cômodo em seguida.
Demos com o pessoal no corredor, ainda sonolentos e cansados. Em exceção de Sasha e Connie, como Hanji, um casal de lunáticos. Massageei o queixo como de costume, poucas horas não saciam meu sono. Ao entardecer já estarei beirando o sono de novo. Senti um aperto forte no ombro esquerdo.
– O que acha de uma aposta? — Me virei e acertei o palpite de quem era aquela mão robusta.
– Depende dela, Reiner. — Desci o primeiro degrau junto dele e próximo de Armin.
– O primeiro a matar qualquer ave tem direito a pedir favores pro outro por dois dias. — Armin me fitou.
– Feito. Mas quando? Se Hanji vai nos ocupar?
– Ela pretende nos levar em uma trilha que encontrou na mata próxima daqui. — Chegamos ao térreo.
– Perfeito. Eu topo. — Reiner se distanciou, indo para fora da residência enquanto Armin e eu sentamos sobre a mesa. Ele ainda me encarava de uma forma desagradável frente a mim.
– Está pensando em se separar do grupo por uma aposta inútil?
– Qual o problema? Não vai acontecer nada. É só uma simples ave. Fácil pra mim! — Ele bufou e eu desviei minha visão dele, para fora da casa.
Seu rosto tomou um tom rosado quente, provavelmente por tê-lo cortado. Ele rejeita algumas das preocupações vindas de mim, mas acaba por também temer que algo me aconteça. Sei que o aborreço por vezes, aliás, difícil seria alguém nunca sair do serio com alguém como eu. Reconheço que sei tirar as pessoas da paciência, na verdade eu mesmo não me aguento as vezes. Mas essa viagem pra tão longe de onde eu vivia, está me ajudando a mudar algumas coisas em mim. Como o temperamento difícil que complica minha convivência com outras pessoas. Mas pelo visto a pouca mudança até agora ainda não está bastando para ele.
– Carne logo de manhã? Isso é sério? — Connie resmungou choramingando, sentando ao lado de Armin e Sasha do meu.
– Coma ou morra de fome, careca insuportável. — Ymir colocou a bandeja de prata sobre a mesa, com vários pedaços de carne de veado fatiado com purê de batata e as mesmas outras coisas. Sentou conosco junto de Christa. Olhei de canto Armin e ele me voltou um olhar divertido de medo da sardenta.
– Parece que alguém amanheceu nos dias... — Armin arreganhou os olhos a ele. E eu já estava esperando sua cabeça rolar sobre a mesa. Mas incrivelmente Ymir não fez nada, creio que por estar na frente da loira.
Finalizamos a refeição e decidimos ir falar com Hanji sobre nossa ocupação com a carroça, do lado de fora da casa. Teríamos que finalizá-la hoje, como pedido do heichou, já que não saberíamos quando precisaríamos usá-la.
– Não se preocupa com isso meu amorzinho! Mike não estava afim de ir então pedi para que fizesse isso por vocês! — Deu um apertão nas bochechas de Armin quando a avisamos. Vê-lo envergonhado com isso foi um tanto engraçado.
– Ah... Então... Obr-rigada! — Caminhou pra longe dela e eu o segui.
Foi inevitável soltar alguns risos, mesmo com sua cara de revolta pra mim. Paramos de caminhar ainda em frente ao casarão, e nos sentamos em um dos bancos dali. Ainda não havia desfrutado dessa paisagem, ao contrário de Mike, que vive sentado nesse mesmo banco. É um lugar belo. Armin mantinha os braços cruzados, despojado no encosto do banco. Quieto e sereno. Observava o horizonte, assim como eu. Mas eu continuava com o pressentimento ruim de que apesar das várias brechas, ele ainda não estava a vontade para tocar em tal assunto. E eu temia que pudesse o chatear ou aborrecer mais ainda. Talvez um assunto aleatório não fizesse mal nesse silêncio comprometedor.
– Ei, Armin...
– Hum? — Ainda mantinha o olhar sobre o céu vasto.
– Estive pensando sobre o que Connie mencionou de Ymir... — Me fitou com um rosto afável e risonho — Como será que as garotas fazem para evitar que... ahm, bem...
– Jean, eu já sei do que se trata, pode dizer tranquilamente! — Riu.
– É que normalmente elas... – Tentei encontrar alguma palavra menos perturbadora da que eu estava em mente. – Elas... Se sujam muito, e como elas previnem isso, já que estamos sem muitos dos recursos que tínhamos, inclusive elas sem os protetores que usavam? — Apesar de ser um assunto um tanto estranho, ainda era uma dúvida minha.
– Com certeza vieram com lenços velhos. A lã absorve o fluxo sanguíneo, e depois é só lavar bem o pano para a próxima vez.
– Ainda não me deparei com lenços manchados nos varais que improvisamos.
– Talvez elas insiram rolinhos de grama, ou revestem ripas de madeira com várias camadas de retalho... — Brincou, gargalhando junto de mim.
– Que nojento. — Concordou. — Se aparecer algum pano velho hoje vamos saber que é dela.
Ouvir sua gargalhada, mesmo que equilibrada, soava de alguma forma confortante para mim. Mas não permanecemos ali por muito tempo, já que a esquizofrênica nos mandou colocar os equipamentos e arrumarmos algumas das coisas para irmos até onde ela nos levaria. Enchemos os cantis de água e ela nos fez passar creme nos rostos como protetores. O sol não estava tão quente, mas poderia nos queimar em muita exposição.
Com tudo já pronto, montamos nos cavalos e cavalgamos despreocupadamente até atravessarmos o vilarejo. Em mais alguns minutos havíamos chegado no começo da mata, então amarramos os cavalos nas árvores dianteiras em locais que faziam sombra. Reiner me olhou de canto e ergueu seu polegar, como um aviso de que a aposta já era válida desde ali. Armin notou, e para meu descontentamento fechou uma expressão zangada no rosto. Mesmo que passasse a me ignorar, passei a mão naquele cabelo claro até tocar seu maxilar e fazê-lo me encarar.
– O que você acha de me ajudar a encontrar alguma ave, hein?! — Massageei gentilmente seu queixo de uma forma que acreditei que o agradaria. Já ele olhou para o pessoal num aparente receio de que tenham visto.
– Isso preocuparia Hanji. Além de que será mais divertido caminhar com todo mundo que perseguir qualquer ave por ai. — Deu de ombros e andou até os outros. Contive o aborrecimento automático que tive. Armin servia perfeitamente como um mecanismo de exercitar minha paciência. Nunca conheci alguém tão enjoado.
Lancei-me nas árvores, fugindo da vista dos outros, apesar dele ter ouvido o barulho por ser um dos últimos da trilha. Antes de começar a caçar, observei-os até que se afastassem mais.
~*~
Armin
Após atravessar algumas árvores, os feixes do sol passou a iluminar nosso caminho por erguer-se um pouco mais ao céu. Lembrei do quanto era agradável o aroma úmido desse lugar. Os sons naturais esconderam-se atrás da voz da nossa guia divertida – Ou lunática, como ele diz – Quando passou a cantar uma canção qualquer dessas folclóricas. Até que sua voz é boa, mas eu ainda preferiria a cantoria aguda dos passarinhos. Passou a vez para Sasha, que por sorte foi trocada por Christa por cantar mal. Aliás, como a voz da loira era suave... Eu não podia acreditar que ela é realmente desse mundo caótico.
– Vamos lá Amin! Cante o refrão! – Hanji me pegou de surpresa bem mais à frente. Todos abriram caminho e me olharam, atrás.
– Ah-h eu não sei cantar essa música... – Ri sem jeito e abanei a mão na minha frente. – Eu passo a vez pro Berth, ele é um bom cantor! – Todos emitiram um som de decepção e a vez foi passada pra ele.
Eu definitivamente não estava no clima para cantoria, ou agitação alguma que fosse. Hanji ao notar isso, deixou que o pessoal prosseguisse enquanto parou de andar e foi alcançada por mim. Do meu lado, tocou meu ombro e me fitou.
– O que houve contigo meu bem?
– Nada demais, eu só... Estou um pouco sonolento ainda. – Dei de desculpa e ela bem esperta, ergueu uma das sobrancelhas em desconfiança.
– Me diga, onde está Jean? – Perguntou normalmente.
– Bom, ele está numa aposta com Reiner. – Decidi não acobertá-lo. Alias, ele não havia me pedido sigilo, então não faria mal.
– Sim, notei que Reiner também sumiu de repente... Mas qual a aposta?
– De qual seria o primeiro a matar qualquer ave. Não sei pra qual finalidade. – Abaixei o semblante. Na verdade eu sabia: Por que era um idiota inútil.
– Acredito que... Se Kirshtein estivesse presente seu humor estaria diferente. – Tocou-me o queixo e levantou meu rosto. Ao me fitar a mulher sorriu. Foi visível notar a percepção em seus olhos escondidos por trás da armadura do óculos. Ela parecia calcular até os tons de rubor da minha face e medir minhas pupilas que insistiam se esconder por entre as pálpebras e direcionar a visão fora do rosto dela. Ser analisado assim tão... Visivelmente, me intimidava.
Não a respondi. Não precisei.
– Ande conosco, não fique retraído aí atrás. Apesar do tempo estar calmo, sabe que ainda assim não é seguro. – Passou a mão gentilmente pelas minhas costas e eu afirmei com a cabeça. Ela então caminhou a frente deixando com que eu me decidisse disso sozinho.
Aquele estúpido. A falta de perspicácia dele não me surpreende mais. Ele sabe bem que algo pode acontecer, mesmo em dia calmo. Assim como Hanji me disse. Por mais que eu não quisesse seu mal, parte de mim estava ansiando pra que ele se esborrachasse por ai. Aquele... Estúpido!
Algo desceu da árvore acima rapidamente em minha frente, como uma aranha pendurada numa teia, mas muito maior. O baque de susto foi necessário para que eu desse um tapa forte nessa criatura antes que eu a identificasse.
– Jean!!! – Gritei, nervoso. – O que você está fazendo pendurado de ponta cabeça nesse galho? – Perguntei, ainda nervoso e em tom alto, mesmo que seu rosto estivesse quase colando o meu. Ele estava pendurado pelas ancoras do equipamento.
– Espero que esse tapa seja de felicidade por me ver! – Massageou a bochecha com um rosto contraído de dor.
– Você me assustou, seu imbecil! – Pus a mão na testa. E ele sorriu, levantando algo bem fedido com sua mão esquerda.
– Ganhei a aposta. – Era uma andorinha.
– Cadê Reiner? Hanji notou que vocês sumiram e eu não pude mentir! Aliás, saia desse galho, vamos conversar norm— Pôs o indicador delicadamente na minha boca.
– Não entendo pra que tanto estresse... – Acariciou meus lábios. – Sei de uma forma que o deixaria calmo bem rápido. – Sorri sarcasticamente de canto, ainda demonstrando nervosismo, sem o responder. Ele deslizou a mão até minha nuca. Os outros haviam quase sumido das minhas vistas, pelo que notei através do rosto de Jean à minha frente. – Também não entendo sua preocupação de ser visto assim... – Continuei em silencio. – Para mim, Armin, só existe nós dois nesse momento. – Meu peito congelou. Seu olhar era sério, talvez, eu nunca o tinha visto falar com tanta seriedade antes.
– Você não deve se arriscar por qualquer coisa. Não conhecemos direito o lugar! – Havia abaixado o tom, mesmo sem saber direito o por quê.
– Essa sua preocupação, mesmo que me perturbe as vezes, me dá uma razão para que eu não cometa algum erro e volte para o grupo. Sabia? – Sorriu de canto. Aquele sorriso que não saia da minha mente. Ele sabia mesmo me acalmar. Não pude evitar que brotasse igualmente outro no meu rosto, e desmanchasse minha expressão de raiva.
Ele pressionou a base da minha cabeça em direção a sua, e nossos lábios se tocaram da forma calma de outrora. Me concentrei em seu lábio inferior, até despertar uma mordida leve e carinhosa. Ouvi-o soltar uma corrente de hálito emitindo um som extremamente fraco dentro da minha boca. Seus dedos entremearam-se em meus cabelos pressionando ainda mais minha cabeça para perto da sua. Em algum momento, o beijo tornou-se mais profundo, então fora minha vez de anunciar o toque deleitoso com um som igualmente sufocado.
Ele nos separou. Seus lábios estavam perfeitamente inchados e avermelhados, evidenciando as curvas perfeitas da sua boca que se escondiam através do tom normal da pele local. As plantas ao redor se tornaram turvas a essa visão.
– Desce daí, Jean. – Franzi o cenho. Ele finalmente se deu por vencido e desatou as âncoras, caindo de costas na terra da mata e me olhando com uma cara de dor. – Sem comentários para essa sua arte, viu?! – Estendi minha mão a ele, ajudando-o a levantar. Ele riu. – A propósito... Arruma alguma sacola para guardar esse bicho morto, está fedendo. – Tampei o nariz.
– Quer seguir os outros ou... Quer explorar o lugar a sós comigo? – Piscou.
– Seria mais seguro que os seguíssemos, caso algo aconteça estaremos todos juntos. – Simplesmente disse. Ele retornou com um semblante insatisfeito, mas mesmo assim, me ouviu.
Íamos andando um pouco depressa para alcançá-los, até que Hanji saiu detrás de uma das árvores à frente, às pressas.
– Apareceu finalmente, Jean?! – Disse ligeiramente ofegante. – Armin estava preocupado! – Franzi as sobrancelhas a ela. – Estamos nessa direção... – Apontou para nossa direita, à frente. – Sigam para lá, eu estou voltando, pois me esqueci do kit médico!
– Tudo bem. – A respondi, então ela prosseguiu com seu caminho de volta enquanto Jean e eu tentava alcançar o restante.
~*~
Levi
– Senta aqui. – Puxei uma das cadeiras, assim que chegamos à cozinha. Ele prontamente se despejou pelo cansaço.
– Heichou, não é melhor que Hanji faça isso...? – Me olhou preocupado. Talvez pra algo relacionado à cuidados médicos dessa forma a quatro-olhos pareça mais confiável e experiente. Ajustei as luvas cirúrgicas nas mãos.
– Não vou te machucar, não se preocupe. – Retirei os algodões e molhei-os com soro. – Você passou pela parte pior, não ligue para o resto.
– Tem razão... – Sorriu ainda que em tensão. Fui até ele com os algodões, uma pinça e uma tesoura, me sentando na cadeira ao lado para que ficássemos frente a frente.
– Quando quiser é só dizer. – Continuava com o semblante tenso, mas afirmou com a cabeça num sinal. Me aproximei mais com a cadeira e me inclinei, me direcionando até a ferida que tinha no braço, perto do ombro e cortei o nó da linha. Haviam partes da ferida que já tinham descolado da linha naturalmente, pelo tempo necessário de cuidados e cura. Então não daria tanto trabalho ter que puxar o resto.
– Como foi para costurar? – Parei antes de começar e o fitei.
– Normal. Hanji o fez. – Me privei por dizer somente isso. Ele permaneceu quieto e não havia necessidade de dizer sobre o escândalo que fez naquela noite. Apesar de que a dor que sentiu foi de certa forma suprida como uma falsa lembrança para ele por aparentemente não se recordar.
Voltei a atenção na ferida.Todas elas já estavam com a cor quase igualada com a da pele saudável. O que é ótimo, apesar de algumas mais fundas ainda não estejam prontas para soltarem das linhas. Umedeci o local com algodões e, com a pinça, passei a puxar lentamente a linha já por partes dela estarem um pouco grudadas na pele. Ele começou a encolher as pernas e fechar as mãos em punhos. Mesmo assim continuei descolando até tirar completamente.
– Está doendo?
– Não exatamente. É só... Uma sensação ruim. – Mordeu o lábio inferior, encarando a ferida com as marcas deixadas da costura.
Após um tempo não muito longo, mas cuidadoso, consegui desprender as linhas que já estavam pouco soltas do resto das feridas. Recolhi todo o material e joguei no lixo, mas resolvi desinfetar as luvas descartáveis e guardá-las novamente. Logo estaremos com elas em falta. Enquanto estava na pia fazendo esse trabalho, fitei-o ainda sob a mesa. Notei que ele havia ficado um pouco angustiado por um tempo, enquanto encarava as cicatrizes deixadas na sua pele.
– Meu corpo... Está horrível. – Apoiou o cotovelo na mesa, de lado, e inclinou a cabeça até despojá-la na palma da mão. Fitou a fora pela janela.
– Está apenas com alguns cortes, não faça drama por isso. – Falei normalmente.
– Essas marcas não estão em seu corpo. Não sabe como estou me sentindo. – Me olhou, por fim. Finalizei o processo com as luvas e as guardei.
– Se você soubesse o tanto de cicatrizes que tenho, não diria isso e daria valor ao seu. – Me sentei junto dele enquanto me encarava ainda com a expressão de desânimo e desamparo. Desatei a cinta que prendia meu peito e as laterais do tronco, após isso, segurei a barra da blusa que vestia e retirei-a completamente, fazendo-o observar minha pele. – Algumas ganhei fazem anos, então são imperceptíveis de longe por não terem mais cor. – Juntamente apoiei o cotovelo na mesa.
– Como conseguiu essa? – Me perguntou surpreso enquanto tocava com o indicador o buraco pequeno que eu tinha na altura da costela esquerda.
– Um tiro. – Sorri assumidamente quando ele me voltou um olhar de espanto. – Era pra eu estar morto se o atirador não fosse um inútil ruim de apontaria.
– Nem brinca com isso! – Apesar do espanto deixou um sorriso surgir. – E esse corte? – Passou o mesmo indicador em todo o comprimento alongado e estreito, porem volumoso, da cicatriz que percorria meu peitoral.
– Aconteceu durante a comemoração de natal dos fieis de onde eu morava. Houve... Um tumulto, então acabei sendo esfaqueado num beco. – O garoto me esbugalhou os olhos. Seria melhor deixar os detalhes de lado, já que ele não conhece muito sobre meu passado. – Tenho vários cortes nas costas também, além de cicatrizes do couro da cinta que usamos por atrito com minha pele. – Continuava deslizando os dedos sobre outras pequenas marcas que haviam na mesma região. – Na vida que leva, não espere continuar limpo. O mais comum é ter traumas corporais. Você sabe bem.
– Sim... – Escorregou suavemente o tato do meu busto até alcançar a parte inferior do meu tórax. Deslocou o movimento contínuo e suave ao meu abdômen definido, e deslizou os dedos na parede de ondulações – ou gomos.
– Eren...? – Chamei-o casualmente.
– Suas cicatrizes... Elas... – Substituiu os dedos pela palma inteira, portanto poderia senti-lo me acariciando. – São legais. – Soltei risos nasais.
– Por que acho que não era exatamente isso que queria dizer? – Encarei-o, mas ainda fitava meu corpo. – Eu também não aceitava elas em mim, mas... Depois de um tempo soube que era indícios das coisas que já vivi, são marcas que estão contigo para te fazer lembrar de tudo o que passou para chegar até aqui. – Finalmente me subiu o olhar. – E eu também gosto das suas. Elas fazem parte de você agora, Eren.
Peguei pelo pulso a palma escorregadia que viajava pelo meu abdômen, e a subi ainda mantendo o contato com minha pele. Parei-a em minha nuca e por vez, deslizei a minha sobre o braço alvo dele, até alcançar seu ombro e, continuamente, descer por toda a extensão da costela até a cintura. Apalpei de leve a região, enquanto guiava seu quadril para a ponta da cadeira, afim de uma proximidade necessária. Sem desviar o contato visual, tocou sua testa na minha.
– E o Mike...? – Sussurrou, roçando a ponta do seu nariz no meu.
– Está nos fundos do quintal, há várias paredes nos tampando então relaxe. – Sussurrei no mesmo tom, sentindo ainda sua respiração abafada e quente me tocar os lábios. Fiz com que não só isso me tocasse, e passei a sentir a pele frágil e macia agora sugando meu lábio inferior.
Houve um misto. Uma indecisão. Entre trafegar de uma vez naquele beijo, ou deixar que a vontade ardesse só mais um pouco sua ansiedade. Ele avançava, despejava um técnico intenso mesmo sem o toque molhado, e recuava separando o beijo, mas ainda totalmente envolvido nele.
Soprava minha boca com suspiros e não se agüentava na distancia que se impunha dela. Resolveu por fim lamber com veemência o interior da minha boca à procura da minha língua. Enlacei-as e esperei pela oportunidade de sugar somente ela, até levá-la para fora da sua boca. O fiz abrir os olhos, e então notei sua surpresa em algo que nunca sonhou em tentar. Soltei-a e toquei dois selinhos lentos antes de voltarmos o contato. Dominei, e resolvi intensificar para saber até onde ele estaria disposto a guiar sua vontade.
Levei a mão da sua cintura, percorrendo-a pela barriga lentamente até alcançar seu pescoço e apoiá-la em um dos ombros. O toque foi suficiente para observar sua pele arrepiando. E também bastou para que ele igualmente percorresse parte das minhas costas com a mão livre. Sua curiosidade me desafiava. Ele abriu os olhos e centrou sua atenção por breves segundos para fora da janela, soltando um grunhido assustado e nada prazeroso dentro da minha boca.
– O que foi garoto? – Fechei o rosto sem entender.
– A Hanji. – Continuava olhando para fora, segui sua visão e encarei a janela. – Ela está escondida. Ela... Tentou não ser vista mas descobri ela antes.
– Não vi nada meninos, podem continuar! Olha, sou uma samambaia! – Ergueu uma planta qualquer até a altura da janela.
– Me diz, por que mesmo sua visão não foi totalmente afetada?
– Que crueldade, Levizinho! Como se eu já não soubesse! – Levantou finalmente e Eren me encarou como um tomate. Levei os dedos até a testa, massageando-as.
– O que você faz aqui, sua calanga? – Juntei as sobrancelhas.
– Esqueci o kit médico. – Direcionou-se até a maleta que eu havia usado no Eren. – Ah!! E estamos lá na mata caso queiram ir!
– Deixou os outros sozinhos lá?
– Bertholdt está de olho neles, querido. Ele é responsável. Fica tranqüilo! – Minha voz interior estava certa quando mandei-a ocupá-los. Eu deveria tê-la ouvido e não deixar essa responsabilidade com ela.
– Quer ir? – Voltei minha atenção ao garoto. Ele parecia estar indeciso e aflito quanto a isso. – Dessa vez você vai estar comigo, e com eles. Será bom pra superar.
– Sim, eu... Preciso disso. – Se levantou.
Visivelmente estava animado, mesmo que não deixasse isso transbordar ao contrário da quatro-olhos quando decidimos ir. Pulou e o abraçou esquecendo que ainda estava machucado. Aliás, há quanto tempo ela espiou pela janela? Ou melhor... O quanto ela já viu de nós dois, das... Outras vezes, e eu não sei? Ela definitivamente me assusta.
~*~
Armin
Posso dizer que estou acabado. Minhas roupas estão lamacentas e adquiri até alguns machucados por escorregar por lá pela chuva inesperada, andando depressa pelo caminho de volta, bem quando resolvemos parar a trilha e descansar entre as árvores. O dia teria sido perfeito se não houvesse essa surpresa. E se Jean não tivesse me tirado do sério mais cedo.
Mas havia rendido boas risadas, como quando o heichou deixou escapar seu medo de borboletas ao sermos atacados de uma hora pra outra por várias delas, perto de uma das rochas. Vê-lo apreensivo e tentando esconder isso salvou meu dia. Rendeu também bons assuntos, como o que nos aguardaria quando voltássemos para as muralhas. Ou se acabaríamos não voltando. Pra onde iríamos se tivéssemos liberdade pelo mundo... Todo esse dia nos rendeu mais aproximação, e nos livrou um pouco das dores de cabeça.
– Opá! — Um vulto apressado percorreu Jean e o empurrou para a parede, adentrando o banheiro na sua frente, enquanto nos direcionávamos a ele.
– Foi mal Jean! Mas a vez é minha!!! — Gritou ao fechar a porta.
– Seu... Connie seu... AHH! — Gritou estressado e chutou a porta. — Você me paga desgraçado!
– Calma, você pode tomar depois seu banho, não tem probl—
– Mas esse filhote de rato demora duas horas no banheiro! – Me cortou, nervoso.
– Vamos esperar em algum dos banheiros do primeiro andar... – Tentei o acalmar.
– Não vou esperar todo sujo do lado de fora! Quer saber? Vou pro rio! — Se direcionou até a escada na minha frente com o sangue na cabeça.
– Jean, o rio é um pouco longe e está anoitecendo! — Acabei ficando sem resposta enquanto o via descendo acelerado as escadas. Me impressiona como pode ser tão estourado por pouca coisa. O pior é que ele acabava me estressando junto. — Espera! — Desci os degraus para o acompanhar, quando me viu parou o passo. — Vou contigo.
– Se não quiser não precisa ir. Vou rápido e volto.
– Não. Eu aproveito e tomo banho por lá também. Tem muita gente na fila dos banheiros, e estou cansado, quero ir dormir rápido. — Concordou com o semblante e continuou com a cara fechada e cruzou os braços. — Vou subir pegar nossas coisas. Me espera do lado de fora e prepara os cavalos.
– Tudo bem. — Nos afastamos.
Subi novamente os degraus e fui até nosso quarto. Céus... Eu deveria lembrar de trancar quando eu saísse, por precaução do heichou não vir dar uma espiada. Esse lugar está uma desordem. Consigo ver até cuecas largadas fora da mala de Jean, por sorte estão todas lavadas. Peguei uma delas, a azul clara que estava mais acessível, e uma regata limpa, verde musgo clara. Fui até minhas malas e peguei uma boxer preta junto de uma regata cinza escura e duas toalhas. Me certifiquei de que não estava esquecendo de nada, então sai do aposento. Trancando a porta logo em seguida, e por coincidência, dando de cara com o heichou no corredor.
– Já tomou banho garoto? — Me fitou com seu rosto sério e pouco antipático.
– Ahn, não, os banheiros estão todos ocupados. — Somente disse e fui logo até as escadas antes que me perguntasse onde iria. Ele poderia não gostar de eu e Jean irmos até o rio. Que pelo jeito iriamos escondido.
– Pegou tudo? — Me perguntou quando apareci ao lado de fora da casa. Afirmei com a cabeça em resposta. — Conseguiu algum sabonete?
– Não. — Pus a mão na testa. Na verdade eu nem tinha lembrado. Droga, eu teria que voltar pra dentro de novo. Deixei as coisas com ele e adentrei.
Como não havia sabão líquido próprio para banho fora dos banheiros, teríamos que nos virar com os sabões caseiros do ultimo andar. Entrei novamente dentro de casa e tentei ao máximo passar sem que percebessem minha pressa. Subi ao segundo andar, e ao ver o corredor vazio, fui até a escada para o terceiro.
Estava um breu sem as lamparinas acesas. Tateei as paredes até o final do corredor que dava na sala que mantinha os produtos de limpeza. Chegando nela, apesar de esbarrar em alguns esfregões e quase derrubar a estante de sabão líquido consegui encontrar a pia com os blocos de sabão em pedra. Antes de tentar quebrar algum, escolhi pelo cheiro para não ficar tão evidente que acabamos tomando banho com sabão de lavar roupa.
Peguei o sabão com o perfume mais suave e voltei o percurso ainda tateando as paredes. Com minha demora Jean já deveria ter terminado de preparar os cavalos.
– Quem ta ai? — Porcaria, era a voz do heichou. Se fosse pelo menos a Hanji, poderia ignorar essa. Devo ter feito muito barulho para ele me ouvir do segundo andar. Bom, seja como for, tenho que andar logo. — Quem está ai? Não vou perguntar uma terceira vez! — Droga.
Soprei um grunhido bem fino, na tentativa de imitar um gato qualquer, apesar de ter saído um som perturbador e nada convincente. Não acredito que estou realmente fazendo isso...
Esperei imóvel por mais algum tempo em silencio até ter certeza de que ele se afastasse da escada para poder descê-la. Passei pelo corredor do andar de baixo quando vi que não estava mais ali. E como Jean disse, Connie ainda estava no banho.
– Fabricou o sabão? — Fui intimidado por Jean já em cima do seu cavalo, ao sair do lado de fora.
– Foi difícil fazer tudo isso sem que estranhassem! — Coloquei os pedaços de sabão na mala de arreio e montei. Sem mais enrolações saímos de pressa para que não acabássemos sendo notados a esse ponto.
~*~
Sasha
– Sai desse banheiro, Sasha! Não tem só você para se lavar!!! — A sardenta socou a porta me fazendo quase escorregar no chão do banheiro de susto.
– Existe o banheiro de cima sabia? — Comecei a me enxugar as pressas. Vai que Rivaille ouve essa gritaria e me tira a força do banheiro...
– O inútil do seu namorado está lá! — Ouvi seus berros abafados pela porta de madeira.
– Quantas vezes eu preciso dizer... – Suspirei em derrota. Tentei me acalmar. Não vale a pena desmentir isso, já que mesmo sem ter acontecido nada entre nós todos insistem — Já estou saindo!
Abri a porta, mesmo ainda enrolada na toalha e com o cabelo encharcado. Passei pelo corredor até a sala, e mesmo assim, ainda não senti faro algum de comida sendo feita. Antes de subir as escadas, espiei a cozinha. Hanji e Christa estavam separando os alimentos para começar a preparar. Não há castigo pior no mundo que passar do horário de alguma refeição. Isso era realmente angustiante. Enfim subi.
– Ai, ai! calma! Já estou aqui fora! — Reiner levantou Connie pela gola da camisa e deu um tapa na sua cabeça.
– Próxima vez te faço descer pelo ralo, cabeça de prego. — Andei rápido para nosso quarto, para acabar não levando outra bronca. Apesar de Connie ter sido lançado pra lá antes de mim.
– O que aconteceu com todo mundo? — massageou a careca na mesma posição em que foi lançado por Reiner.
– Muita convivência. — Sorri e o ajudei a levantar. — Está todo mundo nervoso, mas logo acaba! Eren já está melhorando, então poderemos voltar.
Revezamos o quarto como sempre fizemos desde que chegamos ali. Me troquei rápido para que ele em seguida pudesse fazer o mesmo. Peguei meu pente de madeira em cima da cômoda e comecei a desembaraçar meu cabelo. Estava totalmente ressecado pela falta dos cremes que eu usava, então penteá-lo era uma tarefa bem difícil. Estava quase para aderir o "penteado" de Connie e virar outra cabeça de prego. Bem mais prático!
– Sasha, o que acha de passamos o tempo lá fora? Até... Prepararem a janta? — Coçou timidamente uma das bochechas.
– Tudo bem. — Seria bom passar o tempo desfrutando do clima fresco pela chuva passageira, mesmo que ainda um pouco morno pelo dia caloroso. Eu definitivamente adorava ver o céu escurecer e estrelar. É uma boa ideia para enganar a fome até não poder sacia-la.
Saímos do quarto e como combinado, fomos até o gramado da casa. Um bom período em silencio entre nós dois foi bom para nos acalmarmos do estresse do dia a dia com esse pessoal esquentado.
– Connie, você sente falta das coisas antes de decidirmos vir pra cá?
– Eu simplesmente não fico pensando nisso. Nós concordamos em vir atrás dele, certo? — Afirmei, enquanto ele passou uma das mãos por trás das minhas costas. — Então desde que saímos de lá, começamos a viver uma vida nova. Não tem por que lamentar o que ficou para trás. Isso só te bloquearia a ir mais a frente caso precisasse.
– Tem razão... — Fitei a lua. — É que... Eu sinto saudade dos meus pais.
– Eles estão bem. Estão mais seguros que você então não fique muito preocupada. — Me olhou a fundo — Vem comigo... — Pegou minha mão e me levantou do banco. — O que acha de acendermos esses lampiões? Está bem escuro aqui fora. — Andou até o primeiro lampião da frente do casarão e me pediu ajuda para que acendêssemos fogo no óleo.
Distribuímos o fogo no restante dos lampiões da frente da casa até ficar bem iluminada. Todas essas luzes acesas fora da casa evidenciavam a beleza desse lugar no jogo de iluminação com o escuro da noite. Senti a mão dele entrelaçar vagarosamente na minha, e nisso, um baque alcançar meu peito de ansiedade.
– Você está bem? Está pingando de suor... — Me questionou enquanto referia-se a minha palma.
– Ah... É que... Sabe, todos acham que temos algo... — Ele sorriu a mim.
– Nós temos...? — Me encarou como se estivesse a um passo de tentar me beijar.
– N-não sei... — Toda essa aproximação e tensão que ele provocou no momento me apavorava. Eu nunca... Havia passado por algo assim, e só agora sei o quanto é sufocante. Eu podia me sentir como uma gata em uma sacola, ou mesmo extasiada. Ao mesmo tempo, com vontade de correr o mais longe possível e esconder todo meu nervosismo.
– Ei, Sasha, minha presença te faz tremer? — Sorriu e acariciou minha mão. Droga... Como posso deixar essas coisas tão evidentes sem ter a intenção? E ele estava me provocando vontade de optar pela ultima opção: Correr pro mais longe possível e enterrar minha cabeça no chão. — Se continuar assim eu vou... — Aproximou seu semblante do meu.
– Vai... Fazer o que...? — Senti seu hálito tocar meu rosto. Ele estava tão... Cheiroso pelo banho...
– Vou... — Largou da minha mão e me segurou pela cintura com ambas. — Vou fazer cóceguinhas!!! — Berrou e passou a provocar as malditas cócegas na minha cintura e barriga. Eu detesto cócegas justamente por não conseguir resistir a elas.
– Para!!! Connie, para agora com isso!!! — Eu queria no fundo da alma ficar seria para brigar com esse idiota, mas eu não consegui parar de rir.
– Não! Só se você disser: Connie é o cara mais gato que já conheci!
– Nunca! Me solta!!! — Gargalhamos. Mas eu contra a vontade. — Droga, Connie! Para com isso agora! — Tentei gritar sem rir e fazer cara de má, porém recebi mais risos por parte dele.
– Você fica muito fofa assim! — Finalmente parou. Não conseguia já nem mais respirar direito. — Descobri uma arma contra você! — Piscou de canto pra mim.
– Connie... — Encarei-o com fúria — Como ousa desafiar um samurai? — Fechei um punho.
– E-ei! Eu s-só estava... Brincando! C-calma! — Tentei me manter o mais seria possível mesmo com sua cara de pavor. — Você vai me pagar, soldado! — Me posicionei em combate.
– Ah... Então é assim? — Sorriu e igualmente se posicionou. — Que fique claro que se perder vai levar mais cócegas! – Piscou. – Mas espera... Que... Cheiro é esse? — Connie esbugalhou os olhos a mim, e juntos olhamos pra frente da casa.
– Droga!!! E agora??? — Eu de alguma forma sabia que era uma má idéia acender todos aqueles lampiões de uma vez, mas eu nunca imaginaria que algo assim ocorresse...
– Vai encher algum balde de água! — Vimos o fogo se alastrar cada vez mais pelo gramado e uma fumaça começar a tomar vida.
– O que você fizeram aqui fora??? — Mikasa apareceu pela porta.
– Merda, merda, merda!!! Deixe só Levi ver isso!!! — Hanji correu para fora da casa com as mãos na cabeça, e logo todos os outros sendo atraídos pelas chamas ainda pequenas.
– Vão encher baldes de água! Todos ficarem no desespero não vai adiantar! — Mike tentou acalmar-nos. Mesmo o pessoal assustado, começaram a procurar baldes pela casa e os encheram. Fui com um deles até as chamas no quintal e joguei a água, mas não bastou para que impedisse do fogo passar a se alastrar na madeira velha da frente da casa.
Todos começaram a jogar insistentemente água no local do fogo, porém só conseguíamos fazer mais fumaça e isso nos impedia de nos aproximar para tentar apagá-lo. A esse ponto, os cavalos começaram a ficar agitados e escandalosos, o que pro nosso medo poderia atrair algo muito pior.
– O que vamos fazer agora, Mike? — Hanji estava definitivamente no desespero.
– A casa é velha, não tem muito o que ser feito. A tendência é o fogo só consumir a casa, já que madeira antiga é combustível. — Dito isso, não restava mais esperanças de recuperar os locais já atingido pelo fogo. — Temos que tirar todos de dentro da casa e recuperar o que der dos nossos pertences antes que o fogo se torne mais alto. — Finalizou.
– Por que vocês fizeram isso seus... Seus imbecis???
– Não sabíamos, Mikasa! Não tínhamos idéia que isso aconteceria! — Connie tentou nos defender.
– Os lampiões são antigos, e muitos deles estavam quebrados e vazando óleo, como não pensaram nisso??? — Pôs a mão na testa.
– Gente, o que está acontecendo??? — Ymir saiu ainda molhada do banho, mesmo estando vestida, de dentro da casa. — Onde está a Christa??? Ela não pode ficar exposta à fumaça!!!
– Ela foi acalmar os cavalos, fica tranqüila! — Berth tentou amenizar sua preocupação.
Depois de estarmos cientes de que não havia mais o que ser feito, entramos na casa na tentativa de recuperar o máximo de coisas possíveis antes de abandoná-la. Passar pela cozinha me fez lembrar de que não havia jantado e que iriamos embora sem nossa refeição. E sabe-se lá quando iriamos comer novamente. Pensar nisso me fez sentir uma tristeza absoluta.
– Sasha? O que você pensa que está fazendo???
– Eu morro queimada mas não morro de fome, valeu? — Peguei mais um pedaço da carne que estava sendo preparada na panela ainda no fogo e assoprei, logo inserindo na boca.
– Nos ajude a pegar as coisas sua gulosa estúpida!!! — Ymir me arrancou pelo braço da cozinha, mas continuei segurando a panela de carnes.
~*~
Levi
– O que raios está acontecendo nessa casa??? — Tive que sair no meio do meu banho ainda enrolado na toalha por causa da gritaria que pude ouvir ainda dentro do box. Notei então uma fumaceira terrível me atingir pelo corredor.
– A casa ta pegando fogo!!! Tá pegando fogo!!! — Enxerguei apenas um vulto atravessar a milhão minha frente, bem agitado e desesperado em direção à seu quarto. Identifiquei a pessoa pela falta de cabelo.
– Eren!!! — Corri em direção à nosso quarto e o vi sentado na cama vestindo as primeiras peças de roupa do uniforme da tropa. Fui até a janela e pude ver a parte da frente da casa parcialmente em chamas. — Tenta se vestir rápido enquanto eu separo nossas malas!
Me troquei em um segundo e passei a pegar nossas roupas fora da mala e mesmo sujas ou ainda molhadas, guardei-as. Se Eren não fosse tão desorganizado não perderia tempo procurando peças de roupa mesmo em baixo da cama. Após isso, o ajudei a prender todas suas cintas e a calçar a bota. Seu DMT ficou dentro da mala própria já que ainda não consegue usá-lo. Ele estava tão confuso quando eu nessa desordem, seria fácil esquecer algumas coisas pelo desespero que tomou conta do lugar. Ajudei-o a levantar e passei seu braço em meu ombro enquanto eu segurava sua cintura para podermos sair logo dali. Já estávamos tossindo pela fumaça.
– Eren!!! — Ouvi um timbre feminino em desespero vindo do corredor.
– Mikasa, vá separar suas coisas e nos espera do lado de fora da casa. — Ordenei.
– Não, não vou deixá-lo sozinho! — Disse entrando no aposento. — E já carreguei meus pertences para fora da casa.
– Ele não está sozinho! — A vi o pegando do outro lado. Decidi deixar que o levasse para fora da casa enquanto eu tentaria pegar mais coisas. Sua ajuda seria útil agora afinal de contas... — Cadê Arlert e Kirshtein? — Ambos me encararam com a mesma dúvida em mente.
Sendo assim, dei as malas para os dois carregarem para fora e fui até o quarto dos outros dois. Eles deveriam estar perambulando por ai e nem fazem ideia do que está acontecendo. Girei a maçaneta mas a porta estava trancada. Droga. Levaria muito tempo para que eu a conseguisse abrir sem as chaves. Optei por chutá-la até quebrar, o que não seria tão difícil já que a casa é podre. Ao conseguir, pude entender o por que de terem trancado.
~*~
Armin
– Um pouco mais pra esquerda... — Tombou o rosto para frente.
– Assim? — Fiz o que pediu.
– Hum... Isso! Nossa... Vou dormir dentro da água... Está muito bom! — Me informou com a voz bem calma e sussurrada.
– Como é suja suas costas! Como você deixa ficar assim?!
– Eu não sou flexível!!! Não alcanço essa parte das costas! — Riu.
– Armin, por acaso você está sentindo um cheiro de queimado? Ou é só impressão minha?
– Agora que disse, consigo sentir... — Cheirei o vento. — Esse som... Jean, estou começando a pressentir algo ruim. Acho melhor irmos! — Se virou de frente à mim e me fitou.
– Eu queria aproveitar um pouco mais desse tempo aqui no rio. Está ótimo, fresco... Sem ninguém perturbando...
– Mas Jean, não sei se é loucura mas estou ouvindo uns sons iguais a passos de... — Olhei nosso redor — ... Você sabe...
– Besteira. Você deve estar com a consciência pesada por que veio escondido do heichou e fica imaginando essas porcarias. Tira isso da mente! — Acariciou meu rosto.
– Não. Já ficamos muito tempo aqui. Melhor voltarmos! — Nadei um pouco até alcançar a margem e sai da água, enquanto Jean me encarava com uma expressão de mal humor.
Em pé, com uma visão mais ampla da redondeza, consegui avistar silhuetas disformes sobre a luz da lua. Como eramos os últimos humanos distantes, aquilo não poderia ser um de nós.
– Eu não disse??? Saia já dai e vamos rápido até os outros avisar!!! — Vesti o restante das peças rapidamente, após me enxugar. Jean se levantou e também os avistou.
– São... Três... — Apertou os olhos para tentar enxergar melhor. — É só não chamarmos muita atenção. — Vestiu as primeiras peças de roupa.
– Mesmo assim! Quer ficar aqui e correr o risco? — Guardei a toalha e as mudas sujas dentro da mala de arreio e montei. No cavalo, tive uma melhor noção de quantos eram. — Jean... É melhor irmos rápido, são muitos! Não podemos sozinhos com eles... — Ele então montou rapidamente e também os avistou.
Colocamos os cavalos para correr o mais rápido que podiam em direção à nossa casa. Eu e Jean não tiravamos os gigantes de vista. Até agora, tivemos a sorte de não nos depararmos com sequer um deles, o que tenha nos deixado um pouco descuidados e confiantes demais na segurança do lugar. Mas não me deixo de perguntar o por que de terem surgido tão repentinamente. Voltei com o semblante a frente e aquela visão caótica abateu meu espirito de espanto. Aquela... Não podia ser nossa casa. Eu em algum momento teria que acordar e afugentar todo esse terror da mente. Só podia ser algum pesadelo bem... Vívido.
– Jean... — Senti inevitavelmente algo úmido percorrer e molhar meu rosto. Ele virou-se para frente e contemplou o desastre que por mais que eu não quisesse acreditar, estava acontecendo.
– Armin, me diz que essa não é... — Tampou a boca com a mão e a escorregou pelo resto do rosto até pousá-la nos cabelos. Olhei atrás e eles ainda vinham como pragas persistentes. — Nossas coisas, Armin, nossas malas...
– Não consigo pensar em nada além da vida dos outros. — Nos aproximamos mais.
– Droga! Droga, droga, droga... Não posso acreditar nisso! — Gritou e agitou seu cavalo para tentar fazê-lo correr mais de pressa.
– Onde você estava Armin??? — Mikasa me gritou em fúria quando nos aproximamos necessariamente para nos comunicarmos. Eles estavam parados nos cavalos um pouco distantes da casa em chamas.
– Isso não importa mais! Como pegaremos nossas coisas ai dentro?! — Pôs as mãos na cabeça, bem preocupado, ainda em cima do cavalo.
– Agora sabemos o por que dos titãs... — Por um momento havia esquecido que deveria os avisar.
– Há titãs vindo para cá??? — Hanji carregou algumas malas familiares em nossa direção e nos entregou. — Pegamos para vocês.
– Da próxima vez... — Rivaille se aproximou e ergueu Jean pela gola da camisa. — Próxima vez que saírem, avisem a mim! E se tentarem por algum acaso me despistar, vou acabar com os dois. Estou entendido??? — Após somente afirmar com o rosto, Heichou o jogou no chão. Desci do cavalo e retirei meu equipamento de uma das malas e comecei a me preparar rápidamente, sendo seguido por ele.
– Hanji, toma conta do Eren. Eu e Mike vamos eliminar alguns dos titãs que estão sendo atraídos para dar tempo de vocês se equiparem. — Ambos montaram nos cavalos. E antes de se afastarem nos deu uma ultima encarada e fitou Hanji novamente. — Em hipótese alguma, deixe aquilo acontecer. — Começaram a correr com os cavalos para longe até desaparecerem no escuro. Sabíamos, ou ao menos eu, o que ele temia. Eren não podia passar pela transformação, caso ocorresse, não haveria recursos o suficiente para pará-lo. Nem posso imaginar no quanto isso seria catastrófico.
Engoli seco e observei nosso redor após ter finalmente ajustado o equipamento no corpo. Esse seria um momento crucial para pensar em algo. Suei frio. Eu não estava calmo o suficiente para reajustar meu raciocínio e pensar numa estratégia que nos salvasse disso. Respirei fundo. Jean me encarou. Nossa visão não alcançava muito, pelo negro da noite, apesar da claridade do fogo e da lua. Consegui ouvir grunhidos mais próximos, e apesar de saber que vinham lentamente, talvez a situação e essa escuridão perturbadora que nos privava de enxergar muito além começava a me apavorar. Passei a mão na testa limpando o suor. Eles poderiam vir de qualquer um dos lados.
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