Resgate
11 Frenesi.
Notas iniciais
Armin
– Reiner, Berth e Connie! – Jean gritou – Atraiam os titãs por volta do vilarejo para a floresta e os mantenham por lá! – Andou às pressas até uma das malas e retirou um objeto peculiar, logo oferecendo-o à Reiner. – Use isso!!
– Quer que sopremos o chifre enquanto tentamos ir para a mata?! – Perguntou num deboche ligeiro, com a face desmanchando em descrença.
– Ficou louco? Quer nos matar? – O careca fechou os punhos.
– Você tem total certeza de que amanhecerá com vida? – Jean cruzou os braços. – Olhe sua volta, essa escuridão é a única coisa que verá quando cair morto por sua covardia, Connie. – Engoli seco. – Ao menos tente!
– Não está ajudando, Jean! – Bertholdt chamou sua atenção. – Já passamos por isso, mantenham a calma!!
– Estávamos em nossos territórios! – Connie insistiu — Paredes para escalar, telhados, becos... Aqui só existe a planície, não importa o quanto corra tem o risco de ser esmagado ou chutado. – Suas palavras golpearam a calma que eu exercitava. Coloquei a mão no estômago, ao sentir minha pressão decair e embrulhar meu interior. Tapei a boca por reflexo, e Jean se aproximou ligeiramente, pousando uma das mãos em meu ombro.
– Rápido Reiner!!! – Voltou a gritar à ele. O trio subiu aos cavalos e após breves minutos de reflexão e hesitação, colocaram os animais finalmente a correr. Acompanhei-os com atenção e temor até minutos depois de desaparecerem das minhas vistas.
– Me escuta com atenção Armin... – Se pôs à minha frente. Suas palavras somente subiram a minha consciência quando insistiu em virar meu rosto ao dele. – Se concentre em mim! Eles... Vão ficar bem!
– Se as coisas terminarem aqui, Jean, mentiras são as últimas coisas que eu gostaria de ouvir. Não preciso de consolo! – Empurrou minha cabeça contra o peito dele, breve e impulsivamente, como se fosse um dos últimos atos que faria. Me liberou olhá-lo.
– Tenho uma sugestão! – Cuspiu as palavras ligeiramente. – Nossos arcos não pegaram fogo, isso inclui as flechas. Pensei na possibilidade de amarrarmos laços em chamas e atirarmos presos às flechas ao redor. Nisso ampliaríamos nosso campo de visão e poderemos acertar os titãs mais próximos escondidos no escuro. Poderemos eliminar os dianteiros atingidos pelo fogo, antes que se aproximem muito... – Suspirei.
Nos aproximamos das garotas e de Eren. Jean explicou sua sugestão à eles e deixou a parte difícil às meninas. À Mikasa e Hanji não seria problema. Eren se solicitou para que fosse no lugar de Sasha, mas não tomaríamos essa decisão sem o consentimento do heichou. Jean teria que atirar por ter uma noção maior em amplitude quanto ao tiro à flecha, e precisava que eu lhe apoiasse e ajudasse Eren a incendiar os pedaços de pano antes amarrados nas flechas.
As garotas estavam aos cavalos. Eren permaneceu entre Jean e eu numa linha dianteira. Após reajustarmos o arco, miramos em qualquer ponto no horizonte e esperamos pelo sinal de Jean para lançar as primeiras flechas.
O infortúnio de primeira, de acertarmos pontos em movimento à distancia, retirou minha paz da chance que acreditei termos. As três prontamente correram em direção à eles e pelo menos poderíamos vê-las longe. Nos preparamos em seguida, e em pouco tempo lançamos mais chamas. A flecha incendiada de Jean atingiu o solo, já a de Eren e minha, outros dos membros em movimento. Minha calma corriqueira retornou por momento ao ver que um a um, eles caiam e as chamas apagavam. Elas estavam dando conta. E logo me senti culpado por não termos feito isso antes do heichou e de Mike se arriscarem em ir às escuras.
Lançamos as últimas vezes, logo me lembrei de que a sorte não caminhava ao nosso lado. As flechas haviam acabado e só sobraram os arcos e os pedaços de pano. Hanji, Mikasa e Sasha não podiam permanecer no escuro sem atacar. Jean deu sinal para que retornassem rapidamente até conseguirmos reformular outro plano.
Sem mais recursos o suficiente e com a separação dos outros, o anseio nos atingiu. Passei a forçar minha mente mesmo que não estivesse na calma necessária, e estimular alguma estratégia. Porém, ao contrario de mim havia quem abandonava o senso e se doava ao descontrole. Como Sasha à um choro excessivo, Mikasa sem a paciência necessária para acalmá-la e Jean manifestando sua ira sobre a morena por ter sido severa com a garota batata. Eren repugnou a atitude de Jean e ambos resolveriam na violência se eu e Hanji não os apartássemos. À altura, via o ponto de agachar ao lado de Sasha e desentalar todo o enjôo junto à ela. Mas relinchadas guiou minha atenção à frente na certeza de que eram aqueles dois de volta.
– N-não... Não podemos mais ficar aqui! – Mike soltou seus braços de Rivaille em apoio, quando puderam aproximar o suficiente após descerem dos cavalos. Heichou agachou por pouco tempo no gramado para descansar. — O fogo atrai mais e mais... – Apoiou uma das mãos na cintura e repousou outra em sua testa, limpando o suor que tampava seu rosto. Reparei um rasgo longo em sua calça, manchado de sangue. — Temos que arriscar alguma direção fora da luz.
– Não! Dessa forma não teríamos chance! – Eren gritou.
– Qual outra opção, pirralho?! – Arrancou uma das mangas, já parcialmente rasgada da jaqueta e deixou à mostra um rastro assustador de sangue na sua pele. Provavelmente teria um corte feio como de Mike. — Entre arriscar a vida tentando, e esperar a morte parado aí, sabemos qual escolheria... – Foi até ele e agarrou inesperadamente a gola da sua camisa verde musgo clara, por baixo do uniforme. – O que está em mente, Eren? – Encarou-o com seus olhos inexpressivos, porém inexplicavelmente intimidadores.
– Tem que me deixar tentar...! – Disse num tom remansado, ao que quase não pude ouvir, de forma que a palavra somente fosse direcionada à ele.
– Levi, ele pretende passar pela mutação! – Hanji às pressas diminui a distancia entre eles. Foi visível o desapontamento em Eren, e a preocupação dentro da raiva que abatia a rara paciência do heichou. Eu não pretendia interromper a discussão, porém nosso tempo estava fluindo e erradicando nessa incerteza. Algo teria que ser feito logo.
– Preciso que me ouça!! – Retirou rispidamente as mãos de Rivaille da sua blusa em impulso. – Se a transformação tiver metade da porcentagem de êxito em salvar a vida de vocês, essa seria minha escolha, e ninguém me impediria!
– Sua escolha tem o mesmo risco de acabar com nossas vidas, pivete! – Gritou asperamente, aproximando a face no que podia em prenúncio. – Além da sua! Não é a hora certa! Não temos a certeza que manterá o controle, e se isso não acontecer, nossas vidas estará em jogo! – Parou por um momento, apenas olhando-o à fundo. — Sou seu responsável e acredito poder te impedir! – Apontou o dedo no rosto dele em ameaça.
– Sabe que não pode! – Manteu sua voz no grave atencioso, e aproximou seu semblante até o indicador dele tocar seu rosto, porém não desviou o contato visual – Eu só precisava do seu consentimento, heichou. Sua vida está entre as que poderei salvar. Acha que eu não tentaria mesmo nas mínimas chances de sucesso? – Aos poucos, o indicador dele pareceu exaustar e abaixou sua mão até decair completamente. – Você tem que me deixar tentar...! – Pedia quase numa súplica.
– Seja qual for a decisão, que seja rápida. Eliminamos os possíveis, Rivaille. Logo um maior número nos alcançará. – Mike voltou a montar em seu cavalo e pediu assistência à Jean, Sasha e Mikasa com os titãs por perto.
– Eren... – Passou a mão nos cabelos, totalmente aflito. – Seus pontos... Acabaram de melhorar...!
– Isso é algo positivo, não?! – Sorriu. Era evidente que, aquele sorriso tremia em igualmente aflição, mas havia alívio e a determinação que por tempos me deixou na saudade. Para o heichou acreditei ser algo diferente, visto que foi perceptível uma fraquejada em derrota pela ocasião. – Eu preciso retribuir o que fizeram a mim... Você tem que entender! – Um soluço seco de pranto evidenciou em contraste à ambos.
– Eren... Não pretendo te costurar de novo! Não... Não faça isso! Vamos pensar em algo diferente! – Tapou parte do rosto. Hanji quase não pode explicar em voz a consternação que evidentemente sentia. Eren a envolveu em um abraço apertado e inesperado.
– Posso te fazer um pedido? – Afagou seus cabelos e a distanciou para olhá-la nos olhos. – Quero que fique de olho em mim enquanto estou na outra... Forma.
– Mas isso eu faria mesmo se não quisesse! – Franziu as sobrancelhas e Eren sorriu.
– O pedido é que... Se as coisas saírem do controle, você...
– Você não pode me pedir isso...! – Rangeu a face em dor e deixou fileiras de lágrimas alcançarem as roupas dele. Novamente afagou seus cabelos e voltou a apertar no abraço acalentador.
– Eu faço. Como da última vez. – Heichou cruzou os braços. – Hanji não agüentaria. – De veras ele tem a frieza suficiente para fazê-lo.
– Ahm... Bem... Não quero atrapalhar, mas Eren... Quanto antes, melhor! – Decidi os apressar. Ele então soltou de Hanji e veio até mim.
– Não tivemos um tempo para nós, Armin. Me desculpa... – Me envolveu igualmente em um abraço, apesar de mais robusto e familiar.
– Eren, não... Não dificulte as coisas, está bem?! – Sorrimos ao me soltar. – Teremos nosso tempo, quando tudo isso acabar! – Me lançou uma última olhada decisiva, e juntamente aos outros dois. Deu de costas e se distanciou o suficiente, parando em um ponto qualquer no meio do gramado, da escuridão... E na dianteira dos titãs da redondeza.
– Quando quiser, Eren!! – Heichou gritou ao empenhar as espadas às mãos. E Hanji não estacionava o choro em momento algum. Tudo envolveu-se em uma onda turva à minha mente. Os passos esmagadores ressoavam e pisoteavam minha alma. A chama desastrosa já não mais incomodava. O único som que resplandecia na forma delongada eram meus socos cardíacos. E uma voz aguda, feminina e impetuosa, que rasgou meus tímpanos da anacusia num berro preciso, como se fosse um suspiro terminal.
Após isso, o clarão e o estrondo de uma explosão tomou nossos tímpanos e visão. Seguido de um rugido vigoroso que de qualquer forma, retornou a acalmar meu espírito.
~*~
Levi
– O que vocês fizeram??? – Mikasa, após levantar-se por ter sido lançada de onde estava junto de seu cavalo por culpa da explosão, se pôs à correr mancando enraivecida até nós aos berros e como a quatro-olhos, com o rosto encharcado. – Armin!!! Como pode deixar isso acontecer???
– Ackerman, Não é hora para isso! Essa foi a escolha dele, não pudemos impedir! – Tentei ser o mais breve possível, antes de qualquer atitude do titã, por ter congelado em uma posição aparentemente prudente enquanto a fumaça ainda o cercava. Forçava, assim como Armin e Hanji, enxergar além e compreender a situação, mas Mikasa se mostrou hostil ao tentar me atacar com socos e golpes certeiros e irresponsáveis.
– Mikasa!!! – Armin correu até nós e tentou segurá-la enquanto eu a contra atacava em defesa. Na tentativa de me atingir em um soco, acertou acidentalmente o rosto do garoto por trás com o cotovelo e o fez cair no chão. Usei sua distração na preocupação por atingi-lo para aplicar uma técnica que a paralisaria até poder acalmá-la.
– Você está bem, garoto? – Ao segurá-la com o braço torcido por trás das costas, notei que o nariz de Arlert sangrava quando ele retirou as mãos do local e acenou em positivo com o semblante. Tentou levantar mas pareceu tonto pelo ataque forte.
– V-você me paga!!! – Vociferou e gemeu em dor por ter levantado aos poucos seu braço enquanto se debatia. – Você me fez machucar o Armin! Seu... Seu imbecil!
– Mikasa, controle-se! Nossa prioridade agora é o Eren! Não faça as coisas piorarem! – Armin a repreendeu, com a face retorcida em impaciência enquanto passava as costas da mão no sangramento.
– Eu mato você! Quando tudo isso terminar... Eu juro que te mato! – Sua voz aguda e autoritária entalava minha paciência. Agarrei com a mão livre seus fios negros e me aproximei dos seus tímpanos:
– O que acha que Eren pensaria ao te ver fora de controle? E cuidado com o que diz... Por que ainda pode precisar que eu salve sua vida hoje, pirralha! – A soltei e larguei no chão. Hanji gritou por meu nome e bastou para que retornássemos a concentração à Eren. Ele somente clamava no fragor familiar, então passou a correr em passos largos até os outros dele.
– Droga!! – Armin pestanejou — Jean, Mike e Sasha ainda estão lá! – Subiu suas mãos aos cabelos. Mas suas recentes preocupações foram aliviadas quase de imediato quando os avistamos correndo pelos cavalos, entre os passos cataclísmicos de Eren, até nós. Pedi para que descessem dos animais e aproximassem-se o bastante de todos para que eu explicasse o que seria feito à essas alturas.
Não houveram divergências, pois não havia a insegurança entre nós. A confiança, mesmo que não nos restasse tantas esperanças, reergueu-se no momento de desespero e decidiram então despejar suas vidas em minhas mãos ao aceitarem minha estratégia.
Simples em teoria, e na aplicação em prática. Tinham a resistência suficiente para assegurar suas vidas em prol das de seus companheiros, e isso era o essencial. Seria seguro separá-los novamente em equipes equilibradas, portanto selecionei-os pelas qualidades que sobrepujavam os defeitos dos seus companheiros. Como a resistência de Jean, que se sobressaia na fraqueza física de Armin, que por sinal recompensava em inteligência sobre a falta dela em Kirschtein. Mikasa era um complemento necessário na questão da correção de falhas cometidas por eles, no impulso racional e na facilidade de assistência por sua destreza com o equipamento.
Apliquei nos outros de seqüência, resultando por fim em Sasha, Hanji e Mike. Ymir aparentemente havia saído em busca de Christa que pelo que soube, acabou sumindo. Bertholdt, Reiner e Connie haviam sido selecionados anteriormente por Jean para ficarem responsáveis em afastar o bastante para a mata. E eu partiria da sua mesma linha de raciocínio. O plano à ser seguido, se mantinha em Sasha, Hanji e Mike cuidarem dos titãs que vinham do leste. Mikasa, Armin e Kirschtein do oeste. Enquanto permanecíamos com a casa em chamas ao sul e Eren era uma bom bloqueio ao norte. E eu lhe daria apoio. Nos livraríamos do máximo possível para a abertura de um caminho à prosseguir por um dos pontos cardeais. Ao caso do descontrole, cada equipe partiria para direção do sentido proposto e ao amanhecer, ou até os titãs não serem ameaça, retornaríamos à base.
Já em suas funções, na vantagem da fraqueza considerável dos gigantes à noite, realizavam a tarefa proposta. Ao cavalo, prossegui em direção ao titã de Eren, aparentemente na sanidade normal e disposto a ficar do nosso lado. Abandonei trovão e usei Eren de muro para que lançasse minhas âncoras e alcançasse a altura e o impulso suficiente para eliminar os titãs que tentavam aproximar-se dele, enquanto ocupava-se de aplicar os golpes costumeiros nos que conseguia. Estávamos conseguindo. Saia tudo conforme o esperado, apesar de que a quantidade aproximando permaneceria negativa à nós quando o cansaço nos alcançasse.
Repousei com cautela em seu ombro, quando tirou uma pausa para recuperar as forças e o ar. Acredito não ter notado nem que estou presente, pela adrenalina que o tomou. E igualmente, só ao repousar para respirar que pude senti meu corpo queimar em pulsação. Eu não poderia parar, senão não conseguiria retornar. Voltei a visão ao leste e oeste em fiscalização, mas já não conseguia mais localizar os outros. Recuperei a calma que quase esvaia, então retornei a matança.
Sete, doze, e mais alguns poucos, não bastava, pois sempre chegavam outros à repor. Não adiantaria por muito tempo. Eren cansaria, e eu teria que dar um jeito de tirá-lo do titã.
Ao retornar para as costas de Eren para conseguir o impulso necessário e partir para a nuca de outros dois em minha mira, de inesperado Eren repetiu os movimentos de Mikasa de outrora e, seu cotovelo alcançou com brutalidade minha perna esquerda no meio da locomoção ao ar, isso ajudou para que eu fosse lançado para trás e caísse novamente no gramado. A dor que me infortunou foi indescritível. Meu joelho, panturrilha e os dedos dos pés ficaram imóveis. Esse infeliz acaso por um tempo me subiu o temor à mente, mas lembrei que ela não seria problema por matar titãs com a ajuda do equipamento. Eu só teria que ignorar a dor.
– Levi!!! – Ouvi uma voz à muito distante. – Levi!!! – Insistia, e insistia. Até tornar-se mais próxima e eu a identificar. Sobre seu cavalo já visível à mim. — O leste está travado... Não conseguimos qualquer fenda, e com o passar do tempo isso ficará insuportável! Temos que fazer algo logo...! – Tentei levantar, mas minha perna fraquejou. Hanji me encarou. – O que houve com você?
– Acho que quebrei. – Me olhou com espanto.
– Justo em uma hora dessas?! – Pôs a mão à testa, e logo desceu do cavalo para me dar assistência.
– Hanji, preciso que fique por aqui e me ajude com o Eren. – Ela somente concordou e me levou até meu cavalo. — Preciso que agora vá aos outros e mande que corram para suas direções até encontrarem refúgio. Peça para que se escondam até o amanhecer! – Me fitou com uma expressão lamentável. Eu já não queria mais vê-la daquela forma, de qualquer maneira começava a criar um sentimento de desistência.
– Mas...
– Hanji!!! – Gritei repreensível e hostil por propósito. – Eles tem que arriscar aproveitando a noite! A escuridão os torna quase invisíveis, e os titãs são fracos nesse período. Lembra? – Abaixei o tom ao ver que havia a libertado da inércia momentânea. Apoiei minha mão em seu ombro. – Faça o que peço! – Deu de costas ligeiramente e montou em seu cavalo. Voltei minha atenção à Eren. Ele ainda mantinha o mesmo ritmo, mas uma sensação horrível atormentou meu estômago repentinamente, como uma má intuição martelando minha consciência. Algo de ruim aconteceria.
Então vi algo se diferenciando. Ao contrário dos passos lentos, alguma criatura rara corria em passos bruscos e ligeiros. O vento soprou meu rosto com robusteza como se o horizonte guardasse alguma surpresa desagradável. Montei em trovão com a perna boa e o coloquei a correr até encontrar novamente a quatro-olhos.
Ao achá-la, e antes de informá-la, um baque intenso nos lançou aos ares junto com os cavalos. Eren havia decaído, certamente sido jogado ao chão. A poeira nos impossibilitou de identificar o causador disso, mas sem dúvidas algumas, chegou até aqui para não nos permitir uma chance de sobrevivência.
Hanji novamente me deu suporte, e Eren levantou rapidamente colocando-se em posição de batalha. Ao baixar da névoa que transpirava de seu corpo, o titã à sua frente ficou precisamente visível.
– L-Levi... Eu não... Não posso acreditar… — Disse em voz trêmula e sussurrada, como se aquele espécime pudesse nos ouvir.
A voz me desertou. Por hora, acreditei ver um titã atrás ou mesmo em cima de outro ao dar a impressão de vários membros e mais de uma cabeça. Mas seu corpo movia-se como somente um e, ao perceptível clarear sutil dos céus, sua silhueta não nos deixava dúvidas de que o proprietário de todos aqueles braços defeituosos, e daquelas outras duas cabeças mal formadas ao lado de uma normal, era de aparentemente um titã siamês.
– Hanji... Temos que tirar o Eren de lá...
– C-como... – Parou por um segundo reflexivo — Levi, esse... Esse titã tem…
– Sim Hanji, três nucas. Isso não seria problema se ele também não tivesse os vários braços para nos impedir de alcançá-las. – A situação me provocou risos desagradáveis. Permaneci incrédulo ao ser surpreendido com isso. A tenuidade entre o cômico e a caos que envolve esses gigantes me embrulhava. Retirei minhas espadas do dmt e as usando de apoio, tentei dar os primeiros passos em direção à meu cavalo.
– Mas Levi!! – Me impediu, segurando um dos meus braços. – Olha para o Eren, ele parece estar disposto a matá-lo! Não pode tentar interromper sozinho! Isso seria desastroso!
– Exatamente, Hanji! Olha para aquele titã! Ele passa a altura do Eren, é mais vantajoso e acabaria com ele sem esforço! – Provoquei um choque na quatro-olhos. – É exatamente por isso que não posso deixá-lo se sacrificar sozinho... – Me virei e voltei a caminhar com a ajuda das espadas.
Logo a senti segurar minha cintura e desprender minhas espadas do chão. Contornei-a com meu braço e me sustentei nela. Estava pronta para me ajudar. Só havia permanecido nós três no local, mais um indício de que era a hora de abandonar o necessário pela sobrevivência. Mesmo as fraquezas sorrateiras.
Em uma breve distração minha, algo pouco menos barulhento atingiu o gramado. Nossas visões foram tomadas pela direção e soube ligeiramente que era um dos braços do titã de Eren. Automaticamente subi o semblante até alcançar sua altura, e a pouca luminosidade da lua que se despedia sem pressa aos céus clareou um liquido amarelado percorrendo o ombro em que o titã de Eren havia sido mutilado. Aquilo tinha aspecto de vômito, mas podia esfumaçar e parecia ter uma temperatura excessiva. A boca do titã anormal ao qual o corpo pertencia igualmente derretera, porém como o braço de Eren, voltava a regenerar. Enquanto as cabeças laterais permaneciam somente remexendo e gemendo morosamente.
– A-Aquilo por acaso é... Vômito... Ácido? – Nos entreolhamos.
Tive uma suposição de que o alvo era a cabeça de Eren, mas pode desviar e sacrificar seu braço. As várias mãos tentavam segurá-lo para que repetisse o ato, e aquilo tornava-se prova de força e resistência. Nosso titã estava menos ativo, portanto não saberíamos até onde poderia resistir. Passei então a reformular as coisas à mente. Ir direto à nuca de Eren e tentar tirá-lo do titã poderia matá-lo. Por noção, o espécime raro obtinha seis braços, fora as duas pernas, então mutilar seus membros sem antes regenerar seria impossível. Cegá-lo nos faria correr o risco de sermos atingidos pelo vômito. O único meio eficaz era continuar usando Eren como distração para que contornássemos o titã raro e acertássemos suas nucas.
Expliquei brevemente à Hanji e então após me ajudar a montar, deixou que eu seguisse na direção oposta à ela em contorno aos dois seres gigantescos.
Houve um tremor, porém consideravelmente menos estrondoso. Nosso titã resistia em socos e pode quebrar dois dos braços mais ativos do titã anormal. Em um momento, em percorrê-los até alcançar uma posição posterior do gigante rival, Eren o chutou com violência provocando-lhe um cambalear em recuo. Tive sorte de ainda não estar por trás. Teríamos que tomar cuidado igualmente com o que Eren poderia fazer, já que aparentemente ele não nos vê pela concentração no inimigo.
Não pude avistar Hanji, mas de certo ela já deveria ter alcançado a posição pelo lado oposto. Eu havia percorrido com meu cavalo onde pretendia, só teria que aguardar pela primeira oportunidade menos perigosa para escalar as costas do titã.
Desci do cavalo. Apesar da altura, me concentrei arduamente nos três alvos. Era visível que o gigante siamês obtinha suas qualidades e forças no titã central, e sua nuca quase afundava na carne das outras duas cabeças paralelas. Hanji deveria acertar a nuca de seu lado, enquanto faço o mesmo e atingimos finalmente o ponto vital. Ambos titãs não permaneciam estáveis, e eu corria o risco de ser pisoteado por estar exatamente à baixo.
Sem perder mais tempo em planejamento, resolvi partir para o ato. Incrivelmente a atenção do titã fora desviada de Eren mesmo meu peso sendo-lhe imperceptível, então compreendi quando notei uma de suas cabeças voltadas à mim. Duas de suas mãos começara a me perseguir, e em concordância Hanji, que acabara de realizar o mesmo feito.
– Hanji!!! – Gritei-a, enquanto se esquivava de modo imprudente das mãos gigantes. Ao finalmente perceber meus chamados, dividiu sua atenção em poucos segundos. – Tenho uma idéia!!! – Uma das mãos mal formadas bateu nas cordas da âncora e conseqüentemente as arrancou da pele do titã, me forçando a fincar uma das espadas em suas costas para me suspender, e assim, atormentar ainda mais a criatura. Estacionei por um momento enquanto o gigante mantinha sua agitação e Eren o socava. A quatro-olhos e eu estávamos a um fio. – E... E eu preciso que você me deixe por em prática...!
– Por favor, Não invente de morrer... – Reprimiu seu semblante e me pediu numa voz chorosa.
Soltei minha espada ao dar impulso com a perna saudável nas costas do titã e então atirei novamente as âncoras antes de atingir o chão. Cortando vento, contornei o titã no movimento e pousei em seu ombro. Antes que voltasse a atenção à mim, finquei as espadas no contorno de sua boca e cortei parte da sua bochecha. À esse ponto, suas mãos mesmo em uma velocidade vaga, subiam em encontro à nós. Me lancei abruptamente dento de sua boca quando finalmente abriu o feixe necessário para que meu corpo espreitasse. Antes que a trancasse novamente em uma mordida, ouvi Hanji gritar meu nome.
Úmido, pegajoso, repugnante... E o odor era insuportável. Meu estômago embrulhou e uma tontura terrível me atingiu enquanto ainda permanecia por hora sobre a língua asquerosa da criatura. Sem precisar mastigar minha carne, o maldito me atirou pelo canal da sua garganta. Escorreguei em sua saliva gosmenta e segurei firme seu sino no final da boca. Como uma corda, passei a me balançar até que pudesse me jogar no local onde calculei que seria sua nuca pelo lado de fora. Antes de realizar o que pretendia, uma temperatura elevada começou a subir rapidamente e me preocupar.
Ainda sustentado pelo sino, uma luz sutil iluminou um caminho inverso por dentro do titã, ao que me deixou certeza de que era o canal pelo qual o vômito ácido passaria até a boca do titã principal. Sua carne cristalizava centímetros antes do líquido fervente avançar. Certamente um meio de protegê-lo da própria arma. Eren seria novamente alvo do ácido.
Esperei a temperatura baixar após a liberação do líquido. Os cristais desfizeram, então podia prosseguir com um melhor plano.
Larguei o sino do titã invasor, então permaneci escorregando em sua saliva até o ponto em que o corpo não mais os dividia. Desviei meu caminho para o canal do titã principal, que por sinal o dividia em mais um tecido. Mesmo tendo consciência de que ele sentiria, rasguei a parede de carne e invadi seu organismo. Lancei as âncoras na parte superior daquele túnel, já no canal, e subi rapidamente até a altura do sino na cabeça principal. Em segundos aquele vômito ácido tentaria me expulsar, então tentei localizar sua nuca o mais rápido possível. Ao supor o local, arrisquei um salto num chute impulsivo e dentro de um giro imposto em meu corpo, risquei insistentemente a carne de sua nuca pela parte de dentro, até sentir que as espadas alcançariam o lado de fora.
Ele rugiu. Senti a dor de como se minha cabeça sofresse um trauma, e após isso uma surdez me atingiu. Eu só podia avistar uma onda amarelada e quente aproximando o topo. Com as âncoras, me sustentei no local atacado e insisti em desfiar o que restou da pele até me libertar por uma fenda na carne. Sem sucesso, e prestes a morrer pelo vômito, impulsionei meu corpo novamente no giro em que potencializaria o ataque das espadas.
Senti o ar fresco, e pingos dos céus atingir meu rosto. Me notei do lado de fora em questão de segundos, com a vista ocupada por jatos de vômito com sangue evaporando, juntamente a cabeça do maldito terminando de ser arrancada por um soco de Eren. Por pouco não o socou antes e me matou. Conseguimos destruir o principal, porem o corpo ainda permaneceria vivo pelas outras cabeças.
– Hanji!! – Gritei o mais alto que pude, porém não a avistei. – Droga! – Lancei as âncoras nas costas do titã até alcançar o solo em segurança, então voltei a desprendê-las. Ainda usando as espadas de apoio para minha perna esquerda, caminhei rapidamente até meu cavalo e montei, percorrendo ambos às pressas à procura dela.
Os vários titãs que se aproximavam da luta, por sorte não eram preocupantes ainda. Estavam lentos, fracos. Ao menos os outros tiveram uma grande chance de sobrevivência.
Ainda com a atenção à cima em procura da quatro-olhos, vi que Eren pode terminar de assassinar o titã anormal, batendo repetidamente ambas as cabeças uma na outra, até amassar o bastante para que fossem decapitadas. Minha preocupação de Hanji ter seguido meu plano passou a me perturbar. Ela morreria se estivesse dentro de um deles.
Eu deveria agora antes de tudo tirar Eren de dentro de seu titã. Focando nessa prioridade, contornei o cadáver do espécime raro que por pouco não lançou a mim e trovão aos ares novamente. Desci e então à vi sobre um dos ombros de Eren, pronta para começar a desmembrar o titã. Enquanto faria aquilo, decidi me ocupar em usá-lo até onde poderia como suporte para terminar de matar os outros ao redor.
Ela não era tão rápida quanto à mim, mas conseguiu concluir a ação. Eren ter cansado facilitou, e eu havia conseguido retirar alguns titãs próximo, concedendo assim um espaço maior para a retirada do corpo do garoto do bolo de carne gigantesco. Aproximei da nuca do titã estirado junto da quatro-olhos.
– Faça o que eu fizer, Hanji! – Disse simplesmente, então quebrei uma das espadas e dei metade a ela. Passei a cortar o excesso de carne antes de começar a retirar sem a ajuda das lâminas. A evaporação dos gigantes nos deu vantagem, além de nos esconder por hora dos outros titãs enquanto o desprendíamos de seu corpo descomunal.
Eren permanecia desmaiado, e antes de tentar prosseguir em qualquer direção, chequei seus batimentos e respiração de forma concisa. Acalentei Hanji de que o garoto estava bem, então o peguei no colo e o apoiei em um dos meus ombros. Com a ajuda dela, descemos do que sobrou do titã e nos direcionamos até nossos cavalos.
No horizonte, por dentre as gotas finas de água que escorria do céu, e atrás do nublado da madrugada, a lua ocupava sua última posição antes de oferecer o mundo ao sol. Deitamos Eren em Trovão e Hanji me ajudou a montar na frente. Seguida de mim, montou em seu próprio. Dei partida por primeiro, e ela corria atrás de mim para ficar de olho no garoto por minhas costas.
Nos guiamos na direção do local que levei Eren para treinar. Já que havia avistado certo dia nuvens estreitas e diagonais de fumaça subindo aos céus, à uma considerável distância de onde estávamos acomodados. Um indício que poderia indicar rastros de migrantes sobreviventes. Ou nas mais esperançosas hipóteses, povoamento permanente.
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