Resgate
9 Convivência 'costumeira'.
Notas iniciais
Levi
Despertei com a consciência ainda lerda e com o corpo sonolento. Esfreguei com as costas da mão minhas pálpebras. Por culpa da janela alta a luminosidade pouco clara da manhã atingiu minha visão, e isso acredito que tenha me acordado. Ou seja pelo meu relógio natural, talvez mesmo com a perca da rotina habitual.
Arrastei minhas pernas para a lateral da cama, me descobrindo sem agitar os cobertores para não acordar o garoto. Sentei por fim na beirada da cama e esfreguei o rosto como ato costumeiro. Olhei de relance Eren, e estava tudo normal. Bem despojado e parecia ainda estar preso dentro do sétimo sonho. Na verdade desde a hora que fui me deitar ontem à noite. Ele realmente tem o sono bem pesado, diferente de mim. Passei os dedos penteando minha franja longa e bagunçada para trás e me impulsionei a levantar. Já de pé, arqueei minhas costas e levei meus braços para cima, provocando a sensação ótima do espreguiçar e bocejar. Senti uma ventania chocar contra minha pele, mesmo mansa estava ainda gelada e me provocou alguns arrepios.
Dei uma olhada automática para fora do vidro que permitia a luz fraca e o ar sereno adentrar o cômodo. Deveria ser umas cinco, ou pouco mais. O exato momento do dia que Erwin fazia questão de despertar Hanji, Mike e a mim.
Aos poucos fui me sentindo mais desperto, e com isso minha consciência voltava. Flashes vieram à mente de um certo período do dia de ontem. Voltei a visão ao garoto. Aquilo havia realmente acontecido. Passei uma mão na testa, e logo a depositei novamente aos cabelos. Senti algo desconfortável me perturbando na região do diafragma. Era um indício de que minha consciência começava a pesar aos poucos, quase como em uma tortura. Ótimo... Tive um bloqueio justo no começo do dia.
Voltei a me sentar na cama, com o olhar ainda estacionado sobre o menino. Suas bochechas estavam bem vermelhas, e agora que notei parecia respirar com dificuldade. Toquei sua testa e pescoço. Ele estava quente, mas deva ser pela temperatura das cobertas.
Enquanto ainda estava com a mão pousada sobre sua pele, se remexeu e espirrou em um tranco, sugando logo após o ar gelado que provocou aquele espirro ríspido. Antes que pudesse retirar minha mão ele a enlaçou normalmente junto das suas enquanto às repousou perto do rosto e à baixo do travesseiro. Fiquei curvado com a mão presa nele, mas por ato reflexo relaxei o tronco em cima da cama e me apoiei com o antebraço enquanto subia as pernas novamente pra cima do coxão.
Certamente minha mente precisava esclarecer as coisas. Não consigo ser impassível à todo momento. Sinceramente, a parte inalterável é a de fora, mesmo que eu reconheça minha imparcialidade. Me dispus à elucidar essas questões que nos rondava, mas não havia certeza residindo se mesmo Eren ainda podia esta confuso interiormente, por culpa dos acontecimentos. Pode ter aprendido finalmente a camuflar as coisas, mesmo de alguém como eu.
Deu mais algumas remexidas mansas e bocejou, com uma gota transcendendo o canto do olho ainda fechado. Pensei em limpar aquela gotícula, mas mesmo retirando com cuidado desmancharia por inteiro a posição aconchegante que ele se pôs. Além de que minha mão estava recebendo uma correnteza agradável de calor vinda dele. Diminuindo quase por inteira minha disposição de levantar dali. Estava tão... Confortável. Pude sentir o sono querendo voltar à minha consciência. Levantei meu antebraço que me apoiava e despojei o peso agora sobre o cotovelo, levando minha mão a fim de apoiar minha cabeça que pesava de fadiga.
Ele é o extremo oposto de mim, além da diferença abismal de idades. Mesmo que não importe se ele tem quinze e eu o dobro. Passamos pelas mesmas situações todos os dias, e sonhamos com uma realidade mais acolhedora. Navegamos o mesmo barco e aprendemos a remá-lo pelas nossas vidas quase efêmeras. Por isso, mesmo que ele seja imbecil, não é imaturo e o mundo o fez deixar de ser criança assim que matou sua mãe.
– Eren... Eren...! – Soprei seu nome junto de um suspiro pensativo que acabou escapando da consciência.
Não adianta pestanejar agora. Encorajei-o assim que continuei a beijá-lo mesmo que pelo calor do momento. Cedo ou tarde ele procuraria por mais. Sua idade, curiosidade e seja o que for que ronde seus pensamentos pedirão por continuidade.
Movi minha mão do seu pescoço aquecido e subi vagarosamente até seu queixo. Afaguei a ondulação do mento e subi meu polegar até o lábio inferior. Estava morno, rijo e um pouco ressecado. Me aproximei. Veio à mente por alguns milésimos que poderia não ser tão interessante como tivera sido ontem, já por eu ter sido de alguma forma... Persuadido pelo garoto.
Encontrei novamente aquele toque. A forma com que os lábios dele intercalavam e encaixavam impecavelmente com os meus chegava a ser engraçada. Me impressionou, além disso, sentir a mesma sensação que ontem mesmo em apenas um selinho. Bastou conectar esse beijo pra um “bater de asas” terrível atingir meu estômago. Isso foi o bastante como prova. Larguei dos lábios dele. E junto retirei minha mão das dele, sentindo o frio cobrir a pele local e desfazer toda a sensação aquecida e deleitosa. Pensei que ele pudesse acordar com isso, mas continuou com o semblante bem calmo.
Mesmo de calça de algodão e uma regata velha, peguei meu agasalho do conjunto e sai do quarto. Fui até o banheiro fazer minha higiene, e logo após, fui ao aposento quase em frente. Abri a porta lentamente e adentrei pelo feixe.
O ronco de Mike me irritava de uma forma explosiva. Ao ouvir aquele barulho repugnante entrar pelos meus tímpanos minha vontade era de sufocá-lo até a morte. Detesto o barulho mais insignificante que seja na hora que vou dormir. E já tive que dividir quarto com ele, o que me fez pegar trauma disso. Engoli o barulho que saia da goela do infeliz e fui até Hanji. Chegando um pouco mais perto da cabeceira da cama, notei que ela grunhia em tom de reclamação. Deveria ter perdido a noite por conta do ronco.
– Quatro olhos? – Como estava deitada de lado, toquei seu ombro e dei uma balançada de leve. – Oe, Hanji! Sei que está acordada... – Segurei o ombro e a virei gentilmente para meu lado. Ela ainda dormia. Pelo jeito falava dormindo... Nada fora do normal quando se trata dela. — Hanji!!! – Chamei-a um pouco mais alto, já que não teria problemas por Mike dormir feito pedra.
– Não sei de nada!!! – Levantou o tronco abruptamente gritando e agindo na defensiva. Ainda mantinha os olhos fechados.
– Sou eu!
– Oh... nossa... – Tateou o criado mudo perto de mim ao abrir os olhos. Peguei seu fundo de garrafa e entreguei a ela. – Pensei que fosse Erwin...
– Não. – Franzi o cenho. Pelo jeito mais alguém sentia falta da rotina. – Se ajeite e desça pra cozinha. Preciso conversar sobre algo com você.
– Certo! – Esfregou os olhos por baixo do óculos. Me afastei.
Fui novamente ao meu quarto. Pensei em ir acordando Eren, já que ele enrola na cama por mais de uma hora depois de despertar. Mas antes aproveitei para organizar algumas coisas que acabaram ficando fora do lugar. Ver peças de roupas largadas em qualquer canto, desdobradas e jogadas, além de móveis tortos... Me provocavam ânsia, e eu sentia necessidade de ajeitar tudo do modo certo, senão meu dia não começaria bem e nem renderia. Além disso, o moleque mal se recuperou já está acumulando sujeira de comida e bagunçando tudo. Mal posso esperar ficar cem por cento bem para que eu o quebre de novo.
– Acorda pirralho! – Puxei o cobertor de cima dele. Começou a reclamar entre gemidos chorados com a voz ainda rouca pela sonolência, e tentava puxar o cobertor de volta numa malemolência que me irritava profundamente. – Eren, levanta! Seu pedaço de merda!
– Ah... Mas ainda tá escuro lá fora heichou! – Abriu os olhos, mesmo que um ainda continuasse preso. Deu algumas piscadas e voltou a me encarar com o rosto um pouco amassado.
– Devem ser umas cinco. Já clareia, e quero que o dia renda.
– Mas por que está me acordando tão cedo?
– Vamos treinar. – Franziu as sobrancelhas.
– Tá brincando, né?!
– Não. Levanta. – Pôs as mãos no rosto e o massageou.
– Minhas pernas ainda doem...
– Sem conversa, Eren. Estou te esperando lá em baixo! E vista o traje!– Dei de costas e fui até a porta. Olhei para trás novamente e ele se jogou de volta na cama.
Já na cozinha, dei uma checada nos armários numa esperança vaga de que tivesse pelo menos algum alimento diferente. Nada. Fui até o fogão à lenha e destampei uma das panelas, ainda havia um pouco de sopa de ontem. Joguei um copo de água à mais antes de esquentar, já que aquilo estava papa pura. Ateei fogo na lenha e remexi a mistura. Enquanto esquentava cruzei os braços e me apoiei no balcão de frente à mesa.
Ouvi passos descendo os degraus, e após isso caminhando na sala. Em pouco tempo Hanji apareceu perante minhas vistas. Direcionou-se até outro lado da mesa e, após topar com uma cadeira e quase a derrubar, se sentou. Ainda estava sonolenta e bocejava mais que tudo enquanto eu a observava na mesma posição.
– O que te aflige meu querido? – Disse normalmente posicionando a cabeça entre as mãos e com os cotovelos na mesa, me encarando. Suspirei.
– Pretendo começar a aquecer o pirralho. O que acha disso?
– Achei que já tivesse feito... – Me olhou com astúcia e soltou uma das suas risadinhas atrevidas. Arqueei uma das sobrancelhas.
– Como? – Apertei o olhar a ela.
– Digo... – Empurrou a armadura do óculos em encontro com o rosto e tomou um ar mais sério. – Ele ainda não está fraquinho pra exercícios, Levi?
– Ele está bem.
– Uh... Eu percebo... Você deve estar cuidando bem direitinho dele! – Riu pra si mesma. Seja qual for o pensamento que tivesse em mente à agradava. Mesmo caindo de sono ainda continua demente das idéias.
– Não faço mais que o necessário. Mas a questão não é essa...
– Então qual?
– Em algum momento deveríamos treiná-lo na forma titânica. E... bom, não sei se ele ficaria insano como estava. Além disso, não temos algo que possa segurá-lo caso saísse do controle.
– Teríamos que treiná-lo em outro lugar.
– Sim. Não podemos voltar para as muralhas com ele desse jeito.
– Verdade... – Estacionamos o assunto.
Ela visivelmente refletia, assim como eu, nesse problema que teríamos em questão do garoto. Até senti minha cabeça começar a doer com isso em mente. Seria bem problemático tratar dele enquanto está transformado, mesmo se conseguíssemos tomar frente da situação batendo de peito com todo o perigo caso saísse de consciência. Mesmo que o levássemos para as muralhas, creio que não o conteríamos por ter tomado proporções maiores e mais fortes. Seria sem dúvidas melhor cuidá-lo por essas bandas, já que eu posso dar conta de qualquer problema que ocorresse à fim de salvar os outros. A questão é que... Eu teria que matá-lo em casos mais graves, e eu não sei se teria a coragem de quando o conheci para fazer... Até por que, do que adiantaria ter vindo resgatá-lo?!...
Espiei banalmente Hanji enquanto refletia, e ela me encarava também bem pensativa, mas estava mais pra quem analisava algo, com aquele seu indicador na boca e com os olhos bem apertadinhos... Certamente não seria algo que prestasse. Convivemos muito tempo e, apesar de ser esperta, já decodifiquei alguns dos seus gestos. Mas ela me encarava muito fixamente, como se quisesse arrancar algo de mim só pelo olhar. E isso... Estava me constrangendo. Será que o pirralho por acaso deixou escapar algo à ela...?!
– Hm... – Grunhiu, balançando a cabeça em afirmação.
– O que foi?
– Nadinha não... – Tombou a cabeça de lado. – Como foi a caminhada ontem com o Eren? — Perguntou repentinamente, de uma forma bem rápida, certamente para tentar arrancar algum sinal corpóreo que eu desse. Merda, senti que respirei um pouco mais forte pelo susto da sua pergunta. Mas foi inevitável ao ouvir o nome do pirralho, já que eu estava com esse receio em mente...
– Bom, foi normal. – Respondi normalmente. A vi levantando as sobrancelhas como se estivesse surpresa com algo.
– Ah, é que vocês voltaram quase ao anoitecer. – Passou a bater as unhas na mesa. Maldita, ela era realmente boa nisso. Já pela experiência que tomou no quartel aos interrogatórios que já realizou.
– Ele está mais lerdo que o normal, então ainda tenho que ficar servindo de muleta pra ele. Por isso demoramos. – Disse simplesmente.
– Ah, mas e em relação aos banhos? Ele ainda precisa de ajuda? – Não encontrei alguma intenção específica nessa pergunta, ela à realizou de uma forma muito normal. Mas pude me sentir novamente constrangido, sorte que eu podia camuflar isso. Senti meu rosto involuntariamente fervendo... Porcaria.
– Levi... – Me chamou cantarolando.
– O que é?
– Você tá bem vermelhinho! Aqui ó... – Tocou as bochechas com os dedos indicadores. Essa traça cientista me paga...
– Acabou o interrogatório, quatro-olhos? – Franzi o cenho.
– Então você confirma??? – Sorria absurdamente e aparentava conter algum ataque.
– Confirmo o que, sua louca?
– Ahh... Você sabe bem...
– Não. O que você pensa que fizemos?
– Mãos ao alto Sr. Ackerman! Você foi pego! HÁ!!! – Estava bem vermelha e parecia que iria explodir a qualquer momento. – Eu sabia que vocês tinham feito algo!!! – Bateu na mesa. – Meu amor, você se entrega muito fácil! – Bati com uma das mãos na testa.
– Você que não bate bem, não faço idéia do que está em mente!
– Mas eu sei o que está na sua! Provavelmente alguns flashes... Que estou curiosa pra saber quais são! – Gargalhou assustadoramente.
– Hanji, você esqueceu de tomar seus remédios do tratamento da esquizofrenia por acaso?
– Querido, sabe como te peguei? – Me encarou – Primeiro, você hesitou ao dizer que o dia de vocês foi normal. Segundo, você ficou igual um tomatinho em relação à pergunta do banho! Terceiro... Você não é de se justificar, o que foi exatamente o que fez quando eu disse que voltaram ao anoitecer. E quarto... Não negou nenhuma das minhas suspeitas, somente se deu por desentendido...! – Arreganhou os olhos e mostrou sua língua, que por sinal passava do queixo.
Santa paciência. Bufei massageando as têmporas. Todo cuidado é pouco em relação à essa mulher. Assustador é ela ter conseguido coletar informações em perguntas tão idiotas. O pior de tudo foi eu ter caído na telha dela. Inadmissível.
– Ah Levizinho... Não tem mais pra onde fugir! Me conta... Vai?! – Fez bico. Ela me encheria até eu assumir algo. Inferno.
– Tsc...
– Hum... Ficou nervoso...! Outro indício!
– Olha, eu te conto e você chispa pro seu quarto de bico fechado, ouviu?
– Ouvi sim! – Pôs as mãos no rosto, ansiosa, e ainda contendo seus ataques.
– E outra... Não vá falar com o Eren sobre isso!
– Conta logo!
– Só pra você saber foi um acidente! – Cresceu um sorriso enorme no rosto dela. – Ele... Me beijou.
– Nossa! Não acredito!!! – Tapou a boca — E ai...???
– Sem berros, tá certo?!
– Foi mal! Mas e depois? O que houve??
– Só isso. Foi só um beijo. – Desmanchou seu sorriso e ficou amuada. – Agora rala peito.
– Ah eu quero detalhes!!
– Não.
– Se não contar vou gritar! – Cruzou os braços.
– Você não faria isso!
– Sabe que eu faria... – Sorriu.
– Sua tarântula.
– Me ama! – Me deu uma piscadela. Me sentei frente à ela para que conversássemos mais baixo.
– Não sei exatamente como aconteceu. Quando dei por mim já estávamos nos beijando. Na verdade... Ele me pegou de surpresa e me senti preso e tive que continuar.
– Defina preso...
– O clima estranho que nos rodeava. – Forcei a mente para encontrar os termos certos, mas não havia como. – Olha, quatro-olhos... Não sou bom com essas coisas então não sairei disso.
– Eu consigo entender. – Suspirou. — Levi... Você e o Eren... Eu já notei faz um tempinho.
– O que?
– Não é de ontem, nem desde que viemos atrás dele. Eu senti que vocês ficariam mais envolvidos quando ele entrou pro seu esquadrão. Eu... Também não sei explicar... Fui pela minha intuição.
– Enfim... Quero te pedir algo.
– Sou toda ouvidos!
– Ocupe os pirralhos enquanto eu estiver treinando o garoto.
– Pode deixar! — Se levantou — Ah! E... Vou pensar em alguma solução para o caso do treinamento do Eren. Não se preocupa! – Afirmei em resposta e então ela se distanciou até as escadas. – A propósito... – Apareceu novamente. – Que cheiro ruim é esse?
– Merda! Deixei a sopa queimar! Esqueci completamente!!! – Me levantei e fui até o fogão à lenha. A sopa estava podre, bem preta e havia estragado a panela também. Droga, como pude deixar isso acontecer?! Agora o cheiro vai empestear a cozinha...
– Anda muito distraído, viu...?! – Sorriu daquela sua forma brincalhona – Guardei um pouco de sopa em uma vasilha dentro do armário. Era o jantar do Eren, mas já que ele não comeu ontem acabei esquecendo de retirar daí.
– Obrigada. Vou esquentar pra ele. – Peguei outra panela limpa e despejei a sopa dentro. Igualmente molhei-a para que a sopa tivesse pelo menos um caldo. Ouvi passos novamente descer as escadas e vir até a cozinha. Dessa vez era o garoto. Ele coçava a parte de trás da cabeça e se direcionou até o outro lado da mesa, arrastando uma das cadeiras e se sentando, ficando de frente à mim.
Cruzamos os olhares por um longo período, quietos, até eu ouvir o caldo da sopa borbulhar. Me virei novamente para a panela e comecei a remexer a sopa. Quase no ponto fui à procura de pratos. Mas estavam todos sujos. O único recipiente que restava era a vasilha, que servia perfeitamente, mas para apenas uma pessoa. Despejei a sopa ali mesmo e voltei com a panela para a pia. Me sentei junto de Eren à mesa com a vasilha, e duas colheres.
Repentinamente, assim que levei a primeira colherada à boca ele pegou a sua e se levantou, indo em direção à pia. Franzi o cenho a ele e então se virou.
– Tinha uma sujeira bem na ponta. – Justificou, simulando um rosto de nojo.
Além de uma única vasilha, havia sobrado apenas uma colher. O que me impressiona é quanto o Eren pode ser esperto quando está com suas abobrinhas em mente.
– Coma. Vai precisar mais que eu. – Arrastei a vasilha até ele.
– Eu não faria isso!
– Anda Eren, pra onde vamos tem frutas. Eu como quando chegarmos lá. Além de que você não jantou ontem!
– Podemos comer nós dois, tem muita sopa ai!
– Certo. – Cresceu um sorriso discreto curvando seus lábios. Era claro o que pretendia.
Levei mais uma colherada a boca. E mais outra, e outra... Ele me olhava com as mãos encolhidas sobre as pernas, aparentemente esperando por algo de mim. Com um rosto bem afável e contido. Enchi a colher e parei-a a frente do meu rosto. Olhei fixamente à ele com um olhar propositalmente cativante por uns segundos consideráveis. Com isso ele se aproximava mais, bem vagarosamente. Fui igualmente aproximando a colher com sopa perto do seu rosto, na medida da sua boca, assim como se faz com crianças pequenas. E ele até abria um feixe nos lábios acreditando que eu adentraria a colher ali.
Quando vi que estava quase para pôr realmente a colher na boca dele, recuei-a e levei-a até a minha. Não descruzei o olhar do semblante dele, então observei sua expressão fechando e curvando tudo num beiço bem redondo e emburrado. Arrastei novamente a vasilha até ele.
– Vou me trocar. Assim que terminar me encontre no terreno perto dos cavalos. – Levantei. — E escove os dentes, ouviu?
– Não precisa me mandar fazer isso... – Reclamou em um tom baixo e envergonhado.
~*~
Já no terreno fui preparando as coisas. Coloquei dois recipientes cheios de água na montaria do Trovão, e como o pirralho estava enrolando, deu o tempo de encher mais dois para ele.
– Está tudo certo? – Perguntei ao vê-lo saindo pela porta de casa e vindo de encontro à mim.
– Sim. Onde vamos? – Me encarou agora próximo com os olhos apertados pelo sol.
– Um pouco mais longe que ontem. Mas hoje iremos a cavalo. – Fitei-o por um tempo. – Acha que consegue montar?
– Bom... Tentarei. – Sorriu de uma forma que me fez paralisar a atenção só naquela curva delineada.
– Hum. Então tente primeiro sem minha ajuda. – Fui atrás de um dos cavalos amarrados nas árvores próximas e soltei um deles. Eren descruzou os braços e caminhou em minha direção. Ainda mancava um pouco.
Eles já estavam com as selas e todo o equipamento necessário pronto. Antes de deixar o pirralho tentar subir, acalmei o cavalo para que não estranhasse algum deslize que Eren pudesse cometer ao montar. Fiquei à frente dele enquanto observava-o colocar o pé esquerdo no estribo. Suspirou e deu alguns pulos curtos com a perna direita, impulsionando o salto que contornaria o cavalo. Subiu finalmente e lançou a perna direita, mas sua esquerda acabou fraquejando e se eu não tivesse por perto, o tombo acabaria de quebrá-lo de vez.
– Eren, esqueceu como se monta? Você não pode estacionar o giro na metade! – Disse depois de tê-lo segurado. Ficou quieto me encarando, ainda em cima do estribo. – Desça. Te ajudarei... – Fez o que mandei.
Segurei sua mão ao lado oposto do cavalo. Posicionou o pé no equipamento e subiu apertando minha palma. Eu sentia que só esse suporte não seria o suficiente, já por conhecê-lo e saber que repetiria o mesmo erro. Então decidi soltar de sua mão e segurei firme sua cintura. Ao fazer isso ele deu uma vacilada no corpo. Mas encarei como acanhamento. Ignorei e dei um sinal de que já poderia tentar montar.
– Ahm... Heichou, ainda sinto que tem algo de errado... – Disse antes de montar.
– Diga.
– É que... Bom... – Coçou com o indicador sua bochecha. – Primeiro me prometa que não ficará bravo!
– Fala de uma vez, Eren!
– Me promete?
– Tá, tá! – Bufei. Detesto enrolação. — Prometo. O que é?
– É que seus braços já estão... Ahm... Digamos que consideravelmente levantados enquanto está segurando minha cintura, e... – Pausou e me encarou, com um visível temor na face – Isso indica que não adiantaria muito por que não alcançaria a altura o suficiente pra me dar o impulso...
– Seja direito. – Continuei com o semblante costumeiro.
– É... É que... – Tentava aparentemente encontrar as palavras certas. E espero que consiga, se for o que eu tenha realmente entendido. – Heichou, sua... Altura não vai me ajudar...
– Minha... O quê? – Estimulei uma expressão de desentendido que eu sabia que apavorava o pirralho.
– Por f-favor! Não entenda errado! – Soltei sua cintura e nisso ele se apoiou no cavalo pra não tombar para trás.
– Monte! – Ordenei num tom autoritário e nada agradável. – Agora!!! – Me afastei dele e cruzei os braços, com o rosto mais fechado que de costume. Já o garoto me fitava de uma forma arrependida. – E se por um acaso cair, vou desfigurar o que você chama de rosto, pirralho cretino. – Saltou os olhos.
– Mas—
– E tem coragem de questionar uma ordem minha? – Levantei a sobrancelha esquerda. – Sem “mas” Eren. Obedeça!
– Não faz isso heichou... Eu não quis te ofender! Eu... Até que gosto da sua altura... – Desviou o olhar para o chão e a qualquer outro lugar que não fossem meus olhos. – Mas nesse caso não daria certo! – Tentou justificar.
– Além de baixo sou inútil, é isso?!
– Não!!! Você está entendendo tudo errado!!! – Eu adorava vê-lo desesperado dessa forma. Mesmo ainda nervoso pela questão da altura, estava satisfatório deixá-lo sem jeito. Portanto estava mais simulando a ira que realmente a sentindo. E como ele era lento o suficiente para não sacar isso, podia continuar. Ele fica tão... Mordível... Quando se embaraça com algo...
– Monte. – Mandei por último. Antes de se virar e arriscar, retornou com aquela sua expressão de birra se dando por vencido.
Quando estava pra começar o impulso já de costas à mim, me aproximei. Deu uns três saltos e antes que desse seu último que contornaria as costas do cavalo, segurei uma de suas nádegas e empurrei-o com a força necessária, o lançando para que conseguisse montar. Sentou por fim na sela e me encarou assustado e tremendamente vermelho.
– Na próxima, garoto, dê adeus à sua língua maldita. – Fui até meu cavalo.
– Hum... De que forma vai arrancá-la? — Disse em um tom brincalhão.
– Como? – Voltei até ele.
– Não! E-espera!!! – Arranquei-o do cavalo pela jaqueta e o joguei no chão. – Ai ai, heichou! Calma! Era só uma brincadeira...! – Segurava meus braços. Cheguei perto do seu rosto no gramado e puxei com força seu cabelo, deixando seu rosto bem ereto e mirando sua visão em mim enquanto gemia de dor.
– Escuta bem, moleque atrevido, você acabou de sair das fraldas enquanto eu completei a ida e meia volta. Não ache que eu não te castigaria por isso!
– T-tudo bem... Eu e-entendi... Por favor, você ta me machucando!
– Perdeu totalmente a noção do perigo, não é?! – Sem soltar seus cabelos deslizei meus dedos um pouco mais perto da sua orelha e a puxei, provocando mais gemedeiras por parte dele. – E espero que o que tenha acontecido fique entre nós.
– Certo. Só entre nós! Eu juro! – Soltei sua orelha, mas continuei com o rosto próximo.
– Mal sabe o que é beijar e já quer ser tratado com sadismo? – Sorri de canto. – Um passo de cada vez, Eren... – Relaxou seu semblante e me olhou mais aliviado. Me levantei e estendi minha mão à ele.
Ajudei-o novamente a montar, mesmo que pelas nádegas, já que era onde eu podia... Alcançar. Após isso fui até trovão e montei. Seguimos com os cavalos calmamente até alguns minutos de distância, até eu me certificar de que Eren não cairia se passássemos a correr numa velocidade mais alta. E enfim, foi exatamente o que fizemos.
A aragem batia de encontro com meu rosto como um afago intenso. Fechei meus olhos e aproveitei desse vento misto num morno quase frio. Abri novamente os olhos ao ponto em que meu rosto ficou quase dormente. Me saciei agora com a paisagem da planície esverdeada e a linha horizontal que dividia o céu turquesa claro e limpo. O sol estava esbranquiçado, gentil, embora bem luminoso. Lancei o olhar ao lado quando o cavalo de Eren alcançou o meu. Enquanto a brisa forte batia em seu rosto, arqueou-o para trás e igualmente fechou as pálpebras. O vento tratava de bagunçar modestamente seu cabelo já quase batendo no pescoço. As ondulações das mechas dançavam juntamente com a ventania, e eu já não podia desviar minha atenção. A paisagem estava linda, era só isso que minha mente permitiu que me viesse à razão enquanto me senti preso dentro daquela cláusula interminável de tempo que escorria dentro do meu inconsciente. E ele, como um conjunto, ou talvez no primeiro plano da miragem, estava igualmente à nível.
Não posso enxergar problema algum no garoto dessa forma. Talvez ele realmente esteja normal apesar de tudo. As vezes, só quer esquecer e enterrar o que tenha passado sem compartilhar com alguém. Como se nunca tivesse acontecido.Mas eu estava curioso, apesar de também não pretender tocar no assunto caso não convir.
– É ali? – Me perguntou repentinamente, me distanciando dos devaneios. Ao avistar o local somente afirmei. Corremos um pouco mais e paramos os cavalos em alguma árvores do lugar. Não chegava a ser uma mata, aliás, em comparação era significativamente menor. Mesmo assim, era um lugar ideal. Calmo, fresco...
Ajudei o garoto a descer. Dessa vez o segurei pela cintura normalmente já que só foi preciso ele se lançar em minha direção. Mesmo assim o pirralho teve de soltar um comentário infeliz, dizendo que eu teria que começar a carregar um banquinho pra onde eu fosse. Realmente esse moleque supera o medo que tem de apanhar pra fazer essas brincadeiras que sabe que detesto. Só não entendo a finalidade disso...
– Certo. De que forma começará a me punir? – Pôs as mãos nos joelhos, um pouco agachado e já demonstrando cansaço. Estávamos parados sobre a sombra de uma árvore consideravelmente grande.
– Faça os alongamentos comuns. – Abri um dos recipientes de água e dei alguns goles.
Observei-o passar as mãos na nuca pressionando a cabeça para baixo, logo após aos lados e trás. Movimentou-a novamente em sentido horário e anti-horário. Pressionou os cotovelos, esticando os braços. Passou-os para trás e alongou a região dos ombros. Notei que não havia distanciado as pernas ao fazer os alongamentos. Fui próximo à ele ainda com os braços cruzados e levei minha perna direita sobre uma das suas, distanciando-a necessariamente. Após fazê-lo, me deu uma olhada automática. Mantive a postura e novamente me afastei um pouco.
Realizou todos os alongamentos sem problemas. Teve um pouco mais de dificuldade ao alongar as pernas. Mas com um apoio meu – ou mesmo dos meus pés empurrando suas pernas mais longe uma da outra – Conseguiu finalizar. Mesmo na gemedeira de sempre.
– Comece a pular. – Nos entreolhamos – Oitenta pulos, só pra aquecer.
– Certo! – Começava a ficar disposto. Mas já nos cinqüenta ficou lento. Chegou finalmente aos oitenta e mandei que continuasse até cento e vinte batendo palmas sobre a cabeça. Seu corpo pesava conforme fazia mais.
– Tudo bem. Salte sessenta vezes com cada perna.
– Até quando vou ter que ficar pulando?
– Até quantas vezes eu mandar.
– Mas heichou, o lugar que mais sinto dor é nas pernas!
– É justamente por isso que tem que exercitá-las! – Retruquei com o tom mais óbvio que pude.
– Ahh... Saco...! – Reclamou com a cara fechada e voltou a saltar, mesmo que bem desajeitado. Continuei mandando que pulasse até ver que estava em seu limite.
Ao finalizar se jogou no gramado. Estava pingando suor, tanto que a luz do sol podia refletir em sua testa. Fiquei de pé ao seu lado. Após tomar fôlego com as mãos tampando o rosto abriu seus olhos cansados até cima, podendo me fitar.
– Está com sede? – Perguntei. Ele somente afirmou com o semblante. Pousou uma de suas mãos na barriga e jogou a outra junto de seu corpo no gramado.
Abri o recipiente e comecei a despejar um filete de água em sua testa. Ele fechou os olhos. Pude ver sua pele do busto arrepiar com a temperatura da água contrastando com a pele quente pelos exercícios.
Dei um passo à frente, lancei um pé do lado esquerdo da sua cintura e deixei o outro do direito. Ele me observava por baixo ainda cansado, mas mesmo assim concentrado. Ficamos frente à frente. E minha visão dele deitado no meio das minhas pernas, com aquele pigmento ruborizado colorindo suavemente suas bochechas e junto toda sua boca delineada, admito que roubou minha concentração por algum tempo. O olhar... De esperado na tentativa de me cativar com o verde esmeralda que distorcia toda a coloração do gramado.
Voltei a derramar água nele, mas por vez na altura do peitoral. Ele suspirou, novamente na questão do choque térmico. Espalhei em toda a região, e seus mamilos começaram a ficar à mostra à medida que a água transparecia o tecido da sua camisa verde musgo desbotada. Aquilo era um desperdício de água, mas de alguma forma... Saciava a sede do seu corpo suado.
Parei. Fitei-o. De cima despejei novamente o líquido, agora mais delicadamente mirando em sua boca. Ele abria gradativamente conforme a quantidade de água que eu aumentava. Até o momento que mesmo a língua passou a manter contato com a água.
Interrompi. Fechei o recipiente de água e o joguei perto de nós. Me ajoelhei num segundo onde havia posto os pés, e então me sentei por último entre suas pernas. Necessariamente, nas suas coxas, um pouco antes de chegar em sua zona de perigo. Deveria despejar meu peso ali para que fizesse o exercício que eu o mandaria realizar. Sua palma ainda estava descansando em sua barriga. Peguei-a e joguei ao lado. Toquei a brecha de pele que havia ficado de fora da blusa, na região à baixo do umbigo. Olhei-o.
– Sessenta abdominais, Eren.
– Não sei se consigo fazer tudo isso.
– Consegue sim... – Sorri de canto, enquanto ele me olhava confuso. – Tente o primeiro, só pra testarmos.
Ele então posicionou as duas mãos na nuca e se ajeitou à fim de levantar seu tronco. Tomou um pouco mais de fôlego e então subiu normalmente, ficando agora com o rosto quase colado ao meu, ao ponto que senti a ponta de nossos narizes se roçarem.
– Viu?! Eu disse que conseguiria. Será que seria tão doloroso assim repetir isso... Sessenta vezes? – Sussurrei e olhei-o com volúpia. Senti-o ofegar em meu rosto.
– Posso fazer oitenta? – Mirou seu olhar na minha boca. Soltei risos nasais.
– Agora são cinqüenta e nove. – Empurrei-o até bater as costas no gramado novamente. Rapidamente levantou seu tronco e o senti até mais colado de mim dessa vez. – Anda, Eren! Sem parar! – Disse agora em uma voz mais alta e autoritária.
Ele começou a realizar seriamente os abdominais. Conseguiu passar dos trinta sem muito esforço, mas ao fazer mais seis seu corpo começou a pesar e passou a fazer caretas de cansaço e dor, até não conseguir mais chegar perto de mim. Eu estimulava-o a continuar com gritos e ameaças, isso sempre era um combustível que o movia em relação a coisas desagradáveis. Mas não estava funcionando. Não sei se seria joguinho ou era apenas preguiça.
– Não... Não dá, não consigo mais que isso... – Enxugou com as costas da mão o suor que percorreu sua testa.
– Você é uma vergonha! Não consegue fazer ao menos quarenta sem esforço? Quando voltarmos vou te dispensar da tropa, Eren! – Juntei as sobrancelhas. E ele continuava a me olhar com aquele rosto de cansaço, aparentemente não dando importância por achar que era da boca pra fora.
– Estou com sede. – Pediu indiretamente por água. Eu havia jogado o recipiente próximo de nós, mas tive um pensamento melhor...
– Se conseguir fazer mais um, até a medida da minha palma... – Estendi a mão encostando a parte de trás em meu peito. – Eu te deixo beber água, se não conseguir, aumentarei os abdominais para cem. – Arreganhou os olhos e juntou forças pra se aproximar até mim. Se levantava bem lentamente, com estímulos da minha voz, até encostar seu tórax em minha mão.
– Consegui... Heichou... – Sussurrou. Bem próximo ao pé do meu ouvido por ter depositado sua cabeça em meu ombro. Olhei o reservatório de água jogado no gramado por cima de um de seus ombros, no qual tampava quase todo meu rosto, pelo tamanho exagerado do pirralho.
– Eu vi. – Voltei meu rosto frente ao dele. Segurei sua cabeça e toquei nossos lábios. – Consegue agora fazer o restante dos abdominais? – Disse ao nos separar e fitá-lo. Me jogou um olhar disposto.
Voltou à sua posição inicial e iniciou novamente o exercício, enquanto eu fazia a contagem regressiva e beijava sua boca todas as vezes que chegava ao topo. Em certas vezes eu até me esticava pra trás para fazê-lo alongar um pouco mais, já que estava tendo como meta meus selinhos. Isso estava realmente funcionando. Finalmente conseguiu chegar até o fim da contagem, ao zero ele estacionou seu corpo sem jogá-lo para trás, passou sua mão pela minha nuca e tentou um beijo diferente e profundo.
No colo dele, enquanto estava ainda no chão, realizávamos agora um beijo mais casual. Ele movia seus lábios com uma tensão sobre os meus, mas por vez certamente com pressa e ansiedade por avançar além de tudo que teve a oportunidade de conhecer da minha boca. Queria adentrar mais à fundo daquele toque que começou a ferver seu rosto e esquentar seus lábios. Eu os sentia escorregadios ligeiramente sobre os meus, mas por estar anos luz à frente de Eren nessas coisas pude tomar frente sem qualquer esforço. Eu sabia como lidar com beijos ansiosos. Assim pude controlá-lo, guiá-lo e fazer esperar nessa pressa avassaladora por mais. E claro que ao mesmo tempo, provoquei jurar saciar a sede desses toques precisos.
Enrolamos nossas línguas. Senti Eren lamber sutilmente até o último dente da arcada de baixo. Ele realmente queria satisfazer toda sua curiosidade e prazer com apenas um toque preliminar. Essa sua inocência até que conquistou meu interesse. Sugávamos nossos lábios. Mordi gentilmente a ponta da sua língua e fui puxando-a para trás, até fazê-lo abrir os olhos e olhar dentro dos meus.
Por que fiz isso? Havia me esquecido de como os olhos dele eram... Hipnotizantes. O pirralho pode fazer minha respiração falhar, mesmo que pouco. Depositei um pouco mais de força na mordida, e ele me presenteou com um gemido bem manhoso, que até aqueceu meus tímpanos. Soltei sua língua.
– Posso arrancá-la agora? – Provoquei-o intencionalmente com a voz mais baixa e tentadora, apertando de leve sua cintura. Fiquei sem alguma resposta clara. Ele apenas olhava para meu rosto, intercalando a atenção entre meus olhos e boca. O que era algo bom, pois tinha o deixado novamente sem jeito. — Hora das flexões. – Não deixei dessa vez qualquer vestígio libidinoso escapar na voz. Levantei-me e ele logo após.
– O que ganho se fizer cem dessa vez? – Disse em naturalidade, limpando sua roupa ao levantar.
– Acha que tenho cara de quê moleque? – Me virei à ele. – Se não fizer o que mando você apanha! Bem simples... – Devolvi na mesma naturalidade. Ele riu e agachou no chão novamente, agora com as costas para o alto e com as mãos tocando o gramado.
– Quantos quer que eu faça? Heichou... – Sua última palavra chamando por mim ecoou muito provocativa, num tom extremamente lúbrico.
– Te ofereço duas opções... – Cheguei mais perto do pirralho, mesmo ainda em pé. – cem flexões sem peso, e cinqüenta com peso. Qual prefere?
– Ahm... – Desviou seu olhar pensativo. – Qual seria o peso?
– Eu nas suas costas. – Ergui uma das sobrancelhas.
– Acho que... Posso te agüentar. – Optou pela segunda opção. Sendo assim sentei-me nas suas costas, com as duas pernas para o mesmo lado e com os pés ainda no chão, mesmo que sem servir de suporte. Ele deu uma fraquejada nos braços. Pelo jeito viu que não sou tão leve como aparento.
– Comece! – Ao mandar, ele passou a dobrar seu antebraço encostando o peitoral quase no gramado. Fiz a contagem regressiva em cima das costas dele, e desta vez, ele conseguiu chegar aos vinte e cinco sem gemer. – Mais rápido! – Gritei, assim como nos nossos antigos treinamentos. Chegou aos dez mesmo quase morrendo e sem fôlego. — Só faltam nove! – Rangeu os dentes e começou a ficar bem vermelho. Sai de suas costas e mandei que continuasse, fui até Trovão e peguei o chicote de hipismo. – Ótimo. Agora continue até os cem. – Disse em pé quase ao seu lado.
– Mas heichou—
– Calado! – Ergui o chicote. – Anda, Eren! Só mais outros cinqüenta. – Bufou pingando suor. – Ou não quer ter sua recompensa? – Desmanchou num segundo seu semblante cansado. – Cinqüenta... Quarenta e nove; quarenta e oito... – Caminhei mais perto dele enquanto se exercitava. – Quarenta e sete, e seis... – Levei a ponta triangular de couro do chicote e passei em suas costas. – Quarenta e três, e dois... Um... – Voltei-o para o fim de suas costas e adentrei por dentro da blusa, quase a levantando. Ele deu umas brecadas. – Por acaso eu mandei parar, pirralho?! – Bati sem força com a ponta do chicote na cabeça dele. – Continua! – Voltou a realizar o exercício.
Quando se aproximava dos dez, empurrei seu tronco de lado com a sola da minha bota, e ele então decaiu deitado novamente de barriga para cima. Bem cansado e avermelhado. Voltamos para a posição dos abdominais.
– Está com sede? – Ele afirmou com a cabeça. Peguei o recipiente e despejei água em seu rosto, sem o cuidado de atingir apenas a boca. Na verdade ao invés de saciar sua sede quase o afoguei. Levei o chicote até seu rosto, e acariciei com o couro da ponta da haste sua pele. Passei-o sobre a bochecha direita, alisei até o queixo e toquei a ponta do seu nariz delicado. Voltando o percurso e estacionando novamente a chibata na maça do seu rosto. E nesse local dei uma batida de leve... Algumas vezes.
– Qual o próximo exercício? – Me perguntou rouco pelas tossidas provocadas ao se engasgar com a água.
– No próximo podemos correr a distancia que percorremos com os cavalos, até chegar em casa. – Suspirou e depositou sua mão direita sobre a testa, fechando os olhos. – Mas antes, recompense as dez flexões nos abdominais. – Me sentei em suas coxas, como antes. Observei-o posicionar as mãos atrás da nuca, dobrando os cotovelos.
– Qual será o incentivo dessa vez? – Me olhou com uma expressão sorridente. Dessa vez bati com força com o chicote no seu rosto.
– Isso que ganhará seu sem vergonha. – Fechei o semblante e ele fez um bico. – Comece! – Sem desmanchá-lo subiu em seu primeiro abdominal. Segurei sua cintura antes que decaísse novamente e mordi com força seu lábio inferior que formava aquele beiço de birra, enquanto ele grunhia entre dentes de dor. Apertei sua cintura e parei a mordida. – Odeio quando faz isso, Eren! – Ele sorriu.
– Isso? – Formulou novamente o beiço.
– Exatamente. – Olhei aquilo. – Detesto. Espero que perca essa mania de por tudo fazer esse beiço irritante.
– O que não te irrita?!! – Riu baixo, demonstrando todos seus dentes níveis.
– Boa pergunta. – Empurrei-o até o solo para que continuasse.
Enfim terminou todos os abdominais. Ficou bem esperançoso achando que eu o beijaria após finalizar. Fui até nossos cavalos e peguei outro recipiente cheio de água e dei a ele enquanto descansava sentado perto das árvores. Esperei-o recompor-se por uns poucos minutos e o apressei para que fossemos para casa. Queria voltar cedo e aproveitar o resto da tarde.
Decidi soltar os cavalos na frente, já que iríamos correr o percurso da volta. Mandei que ele tomasse uma velocidade baixa, e que fosse me acompanhando caso ela mudasse. Nesse período permanecemos calados, na verdade, só com o som abafado dos suspiros e dos passos precisos sobre o gramado. O sol estava sobre cima de nossas cabeças, nisso tive consciência de que passou algum tempo após o meio-dia e que chegaríamos pouco depois do almoço.
Por questão de tempo ele se deu por vencido pelo cansaço novamente e parou a corrida. Ficou parado por um bom tempo tomando fôlego e com uma das mãos no abdômen e enrugando as expressões faciais. Certamente teria respirado errado e ficou agora com dores. Pude ver o quanto estava fora de forma depois de hoje, mas seu motivo era mais que compreensível. Olhei nossa frente e avistei nossa casa. Consegui fazê-lo correr até uma distância boa.
– Consegue continuar?
– Correndo não... – Quase não ouço sua voz pelos sopros apressados da respiração. Notei que ele massageava o músculo vasto lateral da coxa, ainda com uma das mãos no abdômen. Talvez eu o tenha feito exercitar mais que o necessário as pernas, e agora posso sentir sua dor nas minhas. Já que normalmente a região mais dolorida é essa. Caminhei até ele.
– Suba. – Me agachei de costas à ele e levei as mãos para trás, esperando até que fosse até mim. Decidi... Aliviar o resto do caminho a ele, já que piorei sua dor muscular.
– Sério...?!
– É. – Fiz sinal com as mãos para que se aproximasse. — Não se acostume. Hoje é exceção.
Após algum tempo ele aproximou suas panturrilhas das minhas mãos, enlaçou seus braços nos meus ombros e depositou o peso nas minhas costas. Segurei suas pernas e ao levantar, ajeitei-o melhor na posição para que facilitasse carregá-lo dessa forma. Apesar de Eren ser bem alto, não pesava o quanto eu imaginava.
Comecei a caminhar. Após um tempo o senti fechando os braços em volta do meu pescoço em uma tranca leve, ao que pode segurar uma mão à outra. E nisso, também o senti repousar a cabeça do lado da minha, mesmo que com a atenção igualmente voltada a nossa frente.
– Você é forte... – Soprou brandamente as palavras com a voz bem terna. – Em tudo. – Pareceu finalizar. – Quando eu crescer quero ser como você, heichou. – Soprei um riso contido pelas narinas com sua afirmação ingênua.
Voltamos ao silêncio. À apenas os sons harmoniosos do ambiente. A cantoria dos pássaros preencheram meus tímpanos enquanto minha visão recheava-se da vista. Mas tudo pareceu um breu, quando senti um toque molhado e demorado atingir em cheio parte da minha bochecha, e logo após, um estalo gostoso dos lábios do garoto ecoando em meus tímpanos, finalizando e distanciando o beijo.
O vento batia no local, e o frescor mantia a sensação daquele beijo, como em um lembrete de que permaneceria ali, até meu rosto baixar a temperatura elevada.
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