Rescue Me
6 Vingança
Foi um dos finais de semana mais longos da minha vida. Eu mal conseguia me mexer, e quando conseguia, não podia ir muito longe por causa da algema no braço. Só podia comer no quarto, tinha horário pra estudar e até pra ir mijar. Não era a primeira vez que eu passava por aquilo, mas era a primeira que eu ficava tanto tempo trancado, e ainda por cima por culpa de um filho da puta que jogou toda a culpa em mim.Não preciso nem dizer que quando me soltaram da porra do quarto domingo à noite eu já tava com sangue nos olhos de tanta vontade de me vingar. Liguei o computador de madrugada mesmo e tratei de jogar no google o nome do tal do Johann. Eu ia descobrir alguma coisa a mais sobre esse cara custe o que custasse.
Descobri um monte de coisa que eu já sabia – ele passou no vestibular, entrou na USF um ano depois do engomadinho morde-fronha metido a professor, os dois se formaram juntos, mas ele graduou em música clássica. Mas acabei encontrando algo interessante também: ali mesmo, na USF, tinha um mestrado em Piano e uma das listas continha o nome dele.Eu já tinha tudo que precisava pra caçar ele. Botei a foto original do bosta do professor na mochila, anotei tudo que achei importante e assim que deu saí. Claro que uma missão importante daquelas era muito maior do que qualquer coisa que pudesse acontecer no mundo, então mandei a aula de segunda à tarde tomar no cu e fui atrás dele.Chegar na faculdade foi a coisa mais fácil do mundo. Ela era vizinha ao colégio, e os alunos das equipes de esporte usavam o mesmo ginásio que o nosso quando tinha treino e torneios. Então, não foi muito difícil convencer um dos carinhas de lá que eu ia só bem ali falar com o papai, apenas o diretor acadêmico da faculdade, pra entrar pela porta do lado do ginásio com todas as honras de um visitante ilustre. Que bom que meu pai era do tipo de pessoa que odiava ser atrapalhado, porque se aquele guardinha pilantra resolvesse subir lá pra avisar que eu tô na faculdade o pau ia comer de novo, e ia ser no meu couro de novo.O segundo passo foi a coisa mais ridícula do mundo: chegar no prédio de Artes e perguntar pro primeiro otário que apareceu onde era a sala do amante do Goma. Eu conhecia bem os prédios de lá justamente porque era filho do imbecil do meu pai. Pela primeira vez na vida aquilo tava sendo útil.E bem, perguntando por aí acabei achando a tal sala. Bloco 2, terceiro andar, sala 05. Não tinha erro: só de ouvir as badaladas do piano sabia que era lá que a turma da pós em música ficava. Olhei um pouco pelo vidro da porta, e vi que o pessoal tava numa baderna só, alguns conversando, alguns escrevendo, e um cara tocando piano. Na certa não tinha professor na sala.Bati de leve na porta, e uma menina loirinha com uma bandana toda colorida na cabeça veio ver o que era. E puta que pariu, ela tinha um senhor par de peitos... uma garota daquelas, universitária e peituda, só de ter visto o decote dela já tinha valido meu passeio.- Tá procurando alguém, fofo?- Quero falar com o Johann, ele tá aí?- Ah... – ela fez uma cara esquisita quando ouviu isso, e ficou me olhando meio curiosa, como se de repente tivesse aparecido um tentáculo na minha cara. Eu, hein... – Tá sim, peraí...Ela entrou e bateu a porta de novo. A música do piano parou por um minuto, e a mesma garota voltou uns minutos depois.- Seguinte, ele tá tirando uma peça agora... ele pediu pra perguntar se tem como vocês se falarem depois ali naquele jardim que tem lá embaixo.Tsc... isso não tava nos meus planos.- Vai demorar muito?- Não, acho que uns 15 minutos... – ela olhou pra dentro de novo, e deu pra ver os peitos dela pulando. Caralho. – Não, uns 10 no máximo... pode esperar lá numa boa, ele não vai te dar cano não!Ela piscou pra mim, e eu não tinha muito o que fazer. Até pensei em tentar chamar ela pra sair, mas resolvi deixar pra lá. Agradeci mais pra parecer legal do que por gratidão e fui pro primeiro andar esperar.Por sorte a espera não foi um tédio total. O lugar era bem confortável: um espaço mais aberto, tipo um jardim de inverno, com plantas e algumas mesinhas. Tinha alguns poucos alunos ali, discutindo aulas, fazendo (ou copiando) deveres ou até comendo. Mesmo assim, era um lugar bem confortável pra se conversar. Eu só não sabia se era discreto o suficiente...Bem, pelo menos eu não tive que ficar ali olhando paisagem à toa. 10 minutos depois, selado, ele apareceu. E não tinha nem como não dizer que era outra pessoa. Ele tinha o mesmo cabelo preto comprido da foto, passando um pouco do pescoço, olhos verdes meio escuros, o rosto um pouco mais velho comparado com a foto.Na verdade, acho que a única coisa que eu não podia criticar naquele professorzinho de merda era que ele tinha bom gosto. O cara era bonito, tinha um jeito que chamava a atenção, sei lá, um charme estranho... ele tava com o cabelo solto, algumas mechas caíam no rosto dele, o brinco que ele tinha na orelha ia balançando... acho que ele era aquele tipo de cara pela qual as meninas suspiram quando ele passa. Mas aí eu lembrei, eu também era esse tipo de cara... heh.
Como ele tava olhando meio perdido resolvi levantar de onde eu tava e acenar pra ele. Sorte que ele não tava muito longe.- Oi... Johann, né?- Aham... é você o rapaz que foi me procurar lá em cima? – ele também ficou me olhando como se tivesse aparecido um buraco negro na minha testa. Que merda!- É. Queria falar contigo, pode ser?Ele chegou mais perto, e aí eu notei que todo mundo que tava ali tava mesmo olhando pra ele. Só que não era do jeito admirado que eu imaginei, era mais uma coisa de incerteza com nojo. Pela cara que aquela gente tava fazendo, ele era tão querido ali quanto uma bola de lama no tapete da minha casa. E claro, ele como não era cego nem paralítico nem retardado nem burro, sentiu isso.- Tudo bem, sem problema nenhum... vem comigo, tá?Eu dei de ombros e fui seguindo ele. Tanto fazia onde ia ser a conversa, o que importava era que eu precisava dele pra ferrar o filho da puta que me obrigou a andar de manga comprida o dia inteiro por causa das marcas da surra. Ele foi andando pra um canto um pouco mais afastado do jardim, onde a mesa ficava meio escondida por uma árvore e uma laje cheia de mato. Quem quer que tivesse perto foi recolhendo suas coisas e saindo, como se aquilo fosse algum tipo de código da faculdade pra “quero conversar sozinho, não me atrapalhe”. Quem era aquele cara, afinal? Aquilo não era coisa de um simples aluno de música. Tinha coisa ali. E de repente, podia me beneficiar bastante.Ele não se deu nem o trabalho de sentar. Assim que a gente ficou sozinho o bastante, ele se encostou na mesa e ficou me olhando ali, parado perto da parede.- Então, desculpa se vai soar meio grosso o que eu vou falar agora, mas eu não costumo atender gente menor de idade.Ok, aquilo sim foi inesperado. Que porra de moleque boçal e pretensioso ele era que não podia falar comigo só porque eu era de menor? Puta merda, só podia ser gente da laia daquele viadinho metido a arrumadinho...Minha vontade foi de mandar ele tomar bem no meio do olho do cu, mas eu ainda precisava dele, então suspirei e tentei ser o mais delicado possível.- Olha, eu não quero te atrapalhar nem nada do tipo... eu só vim aqui por causa do Saffron.Abaixei um pouco a cabeça, como se estivesse preocupado e ao mesmo tempo envergonhado. Claro que o pateta caiu que nem pato, e ficou me olhando meio surpreso com o assunto.- Ué... foi o Saffron que te falou de mim?- Bom... mais ou menos...Ele fez uma cara mais curiosa ainda.- Taí uma coisa que não acontece todo dia...- Então a gente pode conversar agora?- Olha... – ele ficou pensando por um breve segundo. Puta merda, cara mais indeciso... – Eu não costumo fazer muito esse tipo de coisa, já falei que não gosto de me envolver com adolescente, mas se você diz que o Saffron tá sabendo disso...Yeah! Deu certo. Ele achava que o boiolinha era meu amigo... eu ia descobrir tudo que precisava pra ferrar ele, e ia ser agora. Que otário.O problema é que a reação dele não foi bem a que eu esperava. Quando eu abri a boca pra começar a fazer as perguntas que eu queria, o cara simplesmente se afastou da mesa, foi até mim, me empurrou de leve pra parede... e me beijou.Ok, agora o otário que estava com sérios problemas era eu...No fundo, eu admito que não queria que ele me soltasse. Era e ao mesmo tempo não era um beijo comum. Não era como me esfregar naquelas putinhas assanhadas do colégio. O cheiro dele era diferente, o jeito que ele beijava parecia mais cheio de emoção que qualquer outra coisa que eu podia lembrar. Era muito estranho.Mesmo assim, eu sabia que aquilo era cagada. Por mais escondido que fosse o lugar, nada ia me salvar se alguém fofocasse pro resto da minha família que eu tava me beijando com um cara da faculdade. Daí eu fiz a coisa mais sensata que me veio na hora: empurrei ele devagar. Ele se afastou um pouquinho, ainda me olhando. É, os olhos dele eram bonitos mesmo... não só os olhos, na verdade...- Desculpa se isso te assustou, eu não tenho costume de agir assim... – ele foi ficando vermelho. Vermelho! Ele tava sem graça! E eu, tava o que? No mínimo, tava multicolorido Restart. – Se quiser a gente pode sair daqui, você andando comigo com esse uniforme do colégio aí do lado não vai pegar nada bem...Pela primeira vez na vida, eu não sabia o que dizer. Tava completamente mudo. E envergonhado. Sem falar em confuso. Não imaginei que aquilo fosse ser... daquele jeito. Acabei não dando uma resposta pra ele, e acho que ele interpretou aquilo como um sinal de “tá tudo bem”. Senti ele se escorar na parede, com os braços meio que me prendendo ali, e voltar a trazer o rosto pra perto de mim...Foi aí que lembrei que tinha que ser racional, e fiz a coisa mais racional que me veio à mente. Tirei a foto do bolso e botei na cara dele antes que ele chegasse perto demais. Foi o jeito que eu achei de fazer ele parar antes gritar um monte de palavrões – ou mesmo de não fazer ele parar.Ele pegou a foto da minha mão, e quando viu ele mesmo beijando aquele imbecil loiro na formatura, retomou um pouco da razão – e da vergonha. Ele tava ficando mais vermelho que antes.- Ah... e-era isso q-q-que você queria? – ele se afastou bem rápido dessa vez. – E-eu... desculpa, é que... ah...Aquele cara tinha dupla personalidade, não era possível. Uma hora ele tava dando em cima de mim, na outra tava pedindo desculpa que nem virgem mal comida?- Olha... – eu ainda tava bem constrangido por causa daquela situação toda. – Eu só queria...- Escuta, não querendo te interromper nem nada... – ele já tava me interrompendo. – Podemos sair daqui antes de conversar sobre o que quer que seja? As fofocas aqui correm bem rápido, e você sendo aluno daqui do lado não vai dar muito certo...É, parece que não tinha jeito. Guardei de novo a foto no bolso e deixei ele me guiar pra onde quer que fosse.
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