Notas iniciais
Resolvi finalmente botar nomes decentes nos capítulos. Eles ainda estão meio em fase de teste, então não estranhem se até o cap. 10 ou 11 eles mudarem do nada...

Eram quatro da tarde, e a gente tava parado na frente de um café estilo parisiense, curtindo o friozinho do ar condicionado e o cheiro de doce com a maior chuva caindo do lado de fora. O que tava errado com essa cidade, afinal? Agora deu pra chover todo dia, por acaso? Ou será que chovia quando eu resolvia sair com algum baitola?

O estilo do Johann era completamente diferente do namoradinho viado dele. Enquanto o professor de merda ficava sofrendo num fiat velho e acabado e suando pra pagar as contas dele e do filho, o Johann me levou pra tomar café numa das docerias mais caras da cidade, de carona num Hyundai i-30, com o ar condicionado do carro no máximo.

- Pode pedir o que quiser, eu sempre peço a mesma coisa quando venho aqui, mas você não precisa ser tão chato na hora de escolher... – disse ele assim que a gente chegou. — É por minha conta, viu?

Pra falar a verdade, o cheiro de chocolate doce daquilo tava me deixando meio com náusea, então tratei logo de pedir um café preto bem amargo pra quebrar aquele clima diabético do lugar. A pedida dele de sempre era um café com leite acompanhado de um pãozinho cremoso com recheio de queijo. Parecia gostoso. Fiz uma nota mental pra pedir um daqueles quando voltasse àquele lugar com alguém.

O café tava vazio a essa hora, mas mesmo assim fomos sentar numa mesa mais reservada, atrás de uns biombos da decoração, que a garçonete fez questão de apontar assim que viu o Johann. Depois do pedido, ela mesma veio servir tudo na mesa. E adivinha, ela também ficou me encarando como se eu fosse o filho do diabo com a Meryl Streep. Caralho! Se mais um me olhasse daquele jeito, eu ia pedir pra ir no banheiro ver qual foi o filhote de cruz-credo que brotou na minha cabeça.

Mas o Johann entendeu tudo melhor do que eu. Ele virou pra garçonete dando um sorriso meio sem jeito.

- Ah, não, Dannai, ele não é cliente... é só um amigo que veio conversar comigo. Não precisa fazer essa cara.

- Ah, bom! – ela deu um sorriso, parecendo bem mais aliviada. – Você sabe que é complicado... eu já tava ficando preocupada!

Foi aí que caiu a ficha. Tudo bem, eu já esperava que o Saffron fosse burro e fácil de ser enganado, mas ter um caso com um garoto de programa era outra história bem diferente. E bem interessante...

Ela foi embora logo em seguida, e eu senti que ninguém mais ia interromper a gente se não quiséssemos ser atendidos. Eu decidi que não ia mais perder tempo e fui direto ao assunto.

- Então foi por isso que você foi me agarrando lá na faculdade? Achou que eu ia te comprar pra passar uma noite comigo?

- Ah, eu não tinha certeza... – o assunto foi deixando ele meio sem jeito. Aquilo era bizarro. Desde quando o cara era gigolô e tinha vergonha? Bom... na verdade fazia todo o sentido, mas ainda assim... – Sabe, todo mundo na faculdade sabe o que eu faço, apesar de não falar na minha cara. Então quando você chegou pra falar comigo, eu achei que fosse isso...

Acho que vender o corpo por aí pra arrumar dinheiro não era exatamente o ideal de vida que ele tinha pensado pra si mesmo. Ainda assim, não é como se ele pudesse reclamar... não era qualquer um que dirigia um i-30. Não era qualquer universitário que comprava um carro de 60 mil num reles emprego. Até mesmo a doceria era podre de cara. Se duvidar, ele ainda pagava a faculdade com aquilo.

- Olha, sério... sinto muito se isso te deixou sem graça. – ele falou isso olhando pra parede, com a cara meio vermelha. – Eu não sabia que você não curtia esse tipo de coisa...

- Tudo bem, deixa pra lá. Finge que não aconteceu nada, tá? – falei, mesmo porque não tinha muito o que fazer numa situação daquelas. – Nem foi pra isso que eu vim falar, mesmo...

- Ah, é verdade... – ele tomou um gole do café. – Você queria falar algo sobre o Saffron... aconteceu alguma coisa com ele?
Foi aí que meu golpe começou. Fiz uma cara meio penosa, como quem tá bem preocupado com alguma coisa, até dei uma mordidinha no lábio. Só espero que esse cara não pense que isso é charminho pra cima dele e tente me beijar de novo.

- É... eu ando meio preocupado com ele, ele parece todo tempo chateado, cheio de coisa na cabeça... – e não era mentira. Primeiro, porque ele vivia atarefado no colégio. Ele dava aula pra um caralhal de turmas. E segundo porque, tendo um caso com um garoto de programa, a cabeça dele devia estar bem cheia... de chifre.

- Ele sempre foi assim, sabe? O Saff é daquele tipo de pessoa que gosta de carregar o mundo nas costas... acho que deu pra você perceber isso, né?

- Aham...

- Desculpa te perguntar, mas você falou em colégio... ele é seu professor no Silvério?

Merda. Aquilo não era bom. Eu não podia deixar ele saber muito de mim. Mas agora não tinha mais volta...

- Aham, ele dá aula de português pra minha turma.

- Sei... ele trabalha em um monte de lugares, é normal ele viver cansado... a gente discutiu um monte por causa disso há uns anos atrás.

- Ah... – fingi uma curiosidade bem discreta, quando na verdade eu queria é voar no pescoço dele e arrancar tudo que ele sabia. – Você se importa se... eu perguntar um pouco sobre isso?

- Se você não for sair contando pros seus colegas de sala, acho que não tem problema... – ele sorriu. Cara, que mongol... se ele soubesse a merda que tava se metendo... e ainda tava sorrindo pra mim!

- Não se preocupe, nada do que a gente tá conversando vai sair daqui! – falei, ainda tentando parecer inocente. Um simples garoto curioso de 16 anos. – Além disso, eu não me dou muito bem com o pessoal da minha sala...

Bem, isso não era de todo mentira. Nunca tive muitos amigos naquela turma. De vez em quando conversava com a sentinela Akio quando precisava de algum favor ou derrubar alguém que tava me atrapalhando, mas fora isso... era mais interessante procurar as meninas gostosas das outras salas.

Johann tomou mais um gole do café e começou a comer o pão de queijo com o talher. Quem é que come um pão com talher? Esse cara não era normal...

- Bom, você já deve saber que o Saffron tem um filho que estuda lá no colégio também, né?

- Aham. – como era mesmo o nome do moleque? Leonardo? Leandro? Lúcio? Ah, sei lá. – A gente já conversou uma vez.

- O Saff já teve que passar por muita coisa por causa dessa família desestruturada. Quando a gente se conheceu, eu tava no segundo ano de faculdade, e ele tava tendo que fazer dependência de algumas matérias que ele não conseguiu passar. Como essas matérias não tinham mais no curso dele por causa de uma mudança de grade, ele acabou caindo na turma de música... e a gente foi conversando.

- Tsc.. quem diria que ele poderia ser um mau aluno... – comentei.

- Você também acabaria reprovando se tivesse um filho recém-nascido pra cuidar e brigasse com a família e a esposa todo dia. – ele falou, meio sério. – A gente se conheceu numa fase meio complicada da vida dele, ele tinha dois empregos, pegava bico no final de semana, estudava à noite e mal tinha tempo pra família... cansei de ouvir ele pegando esculhambação dos professores porque tava dormindo na aula, porque chegava atrasado, porque não fazia trabalho...

Fiquei calado, escutando o que ele tinha a dizer. A maneira como ele contava parecia quase um desabafo.

- Ele tava fazendo de tudo pra dar uma vida melhor pra mulher e pro filho. Mesmo com a família ajudando, ele sentia que nada era suficiente e tentava fazer mais e mais coisa... ele não comia direito porque os horários dele eram sempre muito apertados, geralmente quando ele largava um trabalho já era hora de correr pro outro ou ir pra faculdade, ele tava sempre estourado... quando a aula acabava, em vez de ir dormir, ele ficava até 3, 4 da manhã cuidando do filho e ajudando nas coisas da casa...

Admito que ouvir aquilo me deixou impressionado. Ele já tinha me dito que tinha passado uns bons perrengues com essa história de gravidez na adolescência... mas eu não imaginava que era nesse nível de coisa.

- Sabe, não querendo tomar crédito nem nada, mas a maioria das matérias dessa época ele só passou porque eu ajudei... a gente ficou muito amigo, e eu comecei a ajudar ele nas coisas da faculdade. Eu admirava ele... não imaginava que existia uma pessoa tão dedicada assim na face da terra. Então, com todo esse esforço descomunal que ele fez, você imagina como ele deve ter se sentido no dia em que a mulher dele resolveu dar o pé na bunda dele, né?

Fiquei calado. Era a primeira vez que eu parava pra pensar por esse ângulo. Eu já imaginava que o Saffron não se desse bem com a ex... mas imaginar algo assim era quase revoltante.

- O que aconteceu? – não consegui me segurar.

- Acho que toda essa rotina dele tava estressando ela, vai ver ela sentiu que nunca ia poder se comparar a ele e largou ele... aí ele ficou mais perdido que cachorro no dia de mudança, afinal, ele tinha feito tudo aquilo pra tentar dar pra ela o melhor possível, e ela resolveu retribuir todo o esforço dele chutando ele e levando o filho junto.

Tá, eu tava começando a ficar revoltado.

- Peraí, ele não tentou fazer nada? Simplesmente deixou, assim, sem mais nem menos?

- Claro que não... ele tentou de tudo, mas como o direito da mãe nesses casos é prevalecido, ela ficou com a guarda... além disso, a Rafaela traiu o Saffron e se casou com um cara rico. É claro que o juiz ia dizer que uma mãe que tem dinheiro tem mais chances de cuidar direito do filho que um pai pé-rapado que nem o Saff.

Era a primeira vez que eu ouvia o nome da vadia: Rafaela. Até o nome dela era nojento... eu lembrava muito bem da expressão de malandra que ela tinha naquela foto. Como eu não falei mais nada, o Johann continuou o relato.

- Ele mudou completamente nesse tempo, sabe? Ele tava arrasado... era como se ele tivesse perdido as forças pra tudo. Não conseguia se concentrar na faculdade, largou os empregos e os bicos e ficou trabalhando num lugar só, por causa do financiamento do apartamento. Levou muito tempo pra ajudar ele a se recuperar... eu fiquei muito preocupado, achei que ele fosse trancar a faculdade e jogar tudo pro alto, ele faltou quase um mês inteiro...

Ele parou de falar meio sem motivo, e eu comecei a suspeitar que aí tinha mais coisa. Não custava jogar verde, não é?

- Foi nessa época que vocês começaram a namorar?

Johann foi ficando sem graça de novo. Mesmo assim ele resolveu contar.

- Eu sempre fui apaixonado por ele, desde a primeira vez que a gente se conheceu... eu via ele lá, sentado do outro lado da sala, pensando em um monte de coisa, e não pude deixar de notar que eu gostava dele... ao mesmo tempo, ele sempre soube... bem, o que eu faço, sabe? Ele nunca concordou, mas também não me recriminou como todo mundo da nossa sala.

- Uhum...

- Quando ele se separou, eu fiquei meio dividido entre apoiar ele só como amigo e tentar alguma coisa com ele. Ele sempre soube que eu só gosto de homens, e nunca se incomodou muito com isso, então eu comecei a pensar que talvez ele não me rejeitasse tanto... aí quando foi uma vez, a gente saiu... e não parou mais ali, sabe?

Fui reparando que a expressão dele simplesmente mudava quando ele falava do Saffron. Ele ainda tava bem envergonhado, mas parecia feliz em contar aquilo, como se lembrar dos momentos que eles passaram juntos trouxesse uma alegria monstruosa pra ele. Que nojo. Ao mesmo tempo que sentia ódio daquilo, ficava me perguntando como seria sentir aquilo por alguém – dividir seus momentos com ela. Ou ele. Sei lá.

- Vocês ainda estão juntos?

- Não... nós namoramos por quase três anos, mas depois a coisa foi desandando... a gente brigava cada vez mais, ia se afastando, ficava com raiva sem motivo... e um belo dia, a gente se separou.

O triste fim da história de amor. Como diria o senhor Omar: Trágico.

- Ah. Bom, já era de se esperar, no final todo relacionamento acaba assim...

- De certa forma... – ele terminou de comer o pão e reclinou um pouco na cadeira, olhando pro teto. – Na verdade, se você quer saber, nada me tira da cabeça que ele só terminou comigo porque achava que atrapalhava...

- Como assim?

- Bem, eu sou um garoto de programa... se o meu namorado ficasse com ciúmes porque eu tenho que trabalhar saindo com outros caras, ele estaria atrapalhando meu trabalho, não estaria?

- ...Você tá brincando comigo. – aquilo era sério mesmo? O Saffron ia simplesmente abandonar ele assim por isso? – Se fosse por isso, por que ele não pediu pra você largar e pronto?

- Vê bem... aliás, como é seu nome mesmo?

- Ah... Acer. Acer Halmarut. – não me pergunte por que eu resolvi usar o nome do aluno que morreu num acidente de (meteoros) moto quando eu tava no primeiro ano. Eu só usei, e pronto.

- Ah, prazer... – ele apertou minha mão. — Pois é, Acer, vê bem... eu já não falei que o Saff é o tipo de pessoa que sustenta tudo nas costas? Eu comecei a me vender porque precisei, não porque gostava...

Ele suspirou de um jeito parecido com um fumante. Tomou um gole de café e continuou.

- Eu sou praticamente órfão, nunca tive pai e a minha mãe morreu quando deu a luz ao meu irmão mais novo, então vivi sempre cuidando dele. Ele e eu fomos adotados por um senhor que eu chamo carinhosamente de avô, e ele sempre nos deu tudo na medida do possível, mas é difícil sustentar três pessoas com um salário de aposentadoria... além disso, hoje em dia não basta só pagar um colégio, tem o inglês, os cursos, a minha faculdade, e isso tudo custa caro... eu comecei pra tentar pagar minha faculdade, e fui ficando mais dependente desse dinheiro, comecei a sustentar meu irmão e meu avô... e até hoje dependo disso.

- Sei...

- O Saffron sempre quis que eu parasse, mesmo ele nunca tendo me dito. Ele sabe que não é nada glorioso, é arriscado e você acaba se machucando muito, mais nos sentimentos do que simplesmente no físico... mas é difícil parar, não é simplesmente dizer “chega” e arrumar um emprego decente...

A chuva finalmente parou. Eu não sabia mais o que dizer. Senti que muita coisa do que eu pensava a respeito dos dois mudou drasticamente. Meti a mão no bolso e desliguei discretamente o gravador que tinha escondido dentro da roupa.

- Acho que é melhor eu ir, já tá ficando tarde...

- Ah, desculpa... eu esqueci que você deve ter horário pra voltar pra casa... – ele foi ficando sem graça de novo. – Se quiser posso te deixar de volta na faculdade, fica bom pra você assim?

- Tá, tanto faz, qualquer coisa pra mim tá bom.

Ele levantou e foi pedir a conta pra garçonete. Eu só botei a cabeça na mesa e terminei de tomar o café. Em dois tempos já távamos no carro dele de novo, com ele dirigindo. No caminho, mais uma surpresa: notei um maço de cigarro perto do câmbio.

- Não sabia que você fumava... – comentei mais pra descontrair o clima estranho. Ele ficou meio sem jeito com aquilo.

- Ah, eu não consigo parar... não sou muito fã, mas quando você fuma é mais fácil de puxar papo com clientes, sabe?...

Resolvi não perguntar mais nada. E só por garantia, peguei um cigarro dele na surdinha quando ele virou pro lado pra olhar uma placa. O que os olhos não veem o coração não sente. Na hora de descer do carro, ele me chamou.

- Ei, Acer...

Ok, não foi exatamente a mim que ele chamou. Mas naquela hora, dava na mesma, até se ele tivesse me chamado de Paris Hilton.

- Fala.

- Toma. – ele tirou um papelzinho do bolso e meu deu. Vi que era o cartão dele, bem simples, só com nome e telefone. Vai ver ele só imprimiu pra não ter que ficar escrevendo aquilo toda hora. – Me liga se precisar de alguma coisa.

- Não tem problema você ficar me dando seu telefone? – resolvi brincar com ele um pouco já que ele deu a chance. – Alguma companhia sua pode ficar com ciúme...

- Ah, todo mundo tem meu telefone, mesmo... – ele sorriu. – Um a mais, um a menos não vai fazer diferença. Além disso... – ele parou de falar um pouco, ficou olhando pra mim como se me analisasse. Mas tinha algo errado. O jeito que ele me olhou não era normal, cara. – Não sei, sinto que isso ainda vai ter serventia uma hora ou outra.

Ele acenou pra mim, entrou no carro e se mandou – e não era sem tempo. Aquele olhar sinistro que ele me lançou fez eu me sentir em algum tipo de filme de perseguição e espionagem. Se bem que, em se tratando de espionagem, não tava tão errado assim... eles só não sabiam que os alvos eram eles.

No fim, ele me deixou na porta do colégio, e eu só dei a volta pra encontrar o motorista parado ali na frente. Etapa 2, concluída.


Ainda tava pensando em tudo isso quando cheguei em casa de noite. Os seguranças do pangaré velho ainda tavam lá no apartamento, com uma vontade louca de me encher de porrada de novo. Não dessa vez. Mandei servirem minha comida no quarto e me tranquei lá pelo resto do dia. Eu precisava agir, e tinha que ser logo.

Fiquei escutando a gravação toda, reunindo tudo que tinha aprendido. No fim, acho que acabei descobrindo muito mais do que imaginava que ia encontrar quando comecei tudo isso. Acho que eu tinha material pra perseguir o Goma pelo resto da minha vida com aquilo. O plano tava indo bem melhor que o esperado, agora eu só precisava arrumar uma desculpa pra devolver a foto original onde encontrei, e tudo estaria perfeito. Ele ia correr daquele colégio em dois tempos...

Mas ainda assim, tinha alguma coisa errada. Era como se tivesse algo faltando. Mas o que?