Tá, depois de tudo aquilo na casa dele eu confesso que não tava esperando aquilo. Ele era viado mesmo! Fiquei olhando aquela foto doidinho, sem saber sequer o que pensar. O cara tinha jeito de ser da mesma idade, e tava com uma beca azul. Com certeza não era do mesmo curso, mas estavam se formando juntos.

Tratei de pegar o álbum de novo e fui vendo todas as fotos que eles apareciam juntos. Como eu não tinha reparado que eles estavam meio agarrados em quase todas elas?! Fiquei observando se algum deles tava de aliança. Pelas fotos, não deu pra ver nenhuma, só o anel de formatura.

Alguma coisa caiu lá na cozinha, e eu me lembrei que ele com certeza não ia gostar de descobrir que eu sabia daquilo. Coloquei o álbum de volta no lugar e, só pra garantir, coloquei a foto dentro da minha mochila – que por sorte ele tinha deixado perto do sofá. Achei que ele fosse voltar pra sala, mas nada aconteceu, então tratei de fingir que passei esse tempo todo assistindo televisão como um bom menino.

Mesmo assim, eu não tava com cabeça pra assistir nada, nem que fosse filme pornô com mulheres peitudas e gostosas. Será que foi por isso que o casamento dele com a mulher lá não tinha dado certo, porque ele descobriu que mulher não era muito a praia dele? Ou será que ele botou um fim no casamento pra ficar com aquele cara?

E aquilo não era tudo. O Leon não tinha falado algo sobre um tal Yoh? “O Yoh era bem mais legal”, ele disse. Será que isso significava que o filho sabia que ele era gay, e ainda por cima conhecia esse cara? Será que ele era o tal Yoh? E toda aquela história de “ela vive falando que eu não presto”... claro que tinha a ver com isso!

Aquilo tudo tava muito interessante. Tão interessante, que eu queria descobrir um pouco mais. Eu só não sabia como.

- Tá passando alguma coisa que preste? – e nessa hora, o Saffron veio da cozinha pra falar comigo. Olhei pra ele, mas por mais legal que fosse ficar falando da vida dele, eu tinha uma coisa mais séria pra descobrir. Tratei de levantar do sofá.

- Já vou.

Ele ficou me encarando como se em vez de ter dito “já vou” fosse um “você é gay, seu putinho”.

- Ué... já? Eu ia te levar, se quiser me espera, o carro tá ruim mas pelo menos dá pra andar...

- Não precisa, fica aí. De boa, eu sei achar o caminho sozinho.

- E pra onde você vai?

“Te interessa? Eu não tenho que ficar te dando satisfação do que eu faço...”.

Bem, se fosse uma situação normal eu até diria isso, mas... não sei. Senti que não precisava ficar dando patada nele toda hora. Mesmo ele sendo boiola.

- Pra casa...

- Tá, eu vou te deixar lá... – ele deu meia volta e foi pegar a chave do carro em cima do móvel. Fui até ele e puxei o ombro dele.

- Não precisa, sério... teu filho vai ficar chateado. Vai lá brincar com ele, arrumar tuas, coisas, sei lá... não precisa ficar bancando a babá pra mim.

Ele com certeza tava ficando desconfiado dessa minha insistência em ir embora. Mesmo assim, não falou nada; virou de novo pro móvel, pegou a carteira e abriu.

- Vinte reais serve pra você tomar um táxi?

- Que táxi o que, eu vou só... é só me falar onde tem um ponto de ônibus...

- Você não tá indo pra casa? – ele me encarou. – Então acho que daqui pra lá não dá mais que isso. Pode ficar com o troco se sobrar. Essa rua aqui não é muito segura, e a essa hora deve estar deserta. Você vai voltar de táxi.

- Toda vez que seu filho vem pra cá você paga um táxi pra ele? – ergui uma sobrancelha.

- A mãe dele tem carro, o motorista deixa ele na porta do prédio, e daqui ele só sai comigo. – o tom de voz dele continuava sério. – Mas se você quiser, podemos chamar o seu motorista pra ir te levar em casa...

Bem, não tinha muito o que argumentar ali, ele não ia me deixar sair se eu não aceitasse. E eu não preciso nem comentar o que achava da ideia do meu motorista vir aqui. Peguei o dinheiro da mão dele, botei no bolso de trás e joguei a mochila na costa.

- Então... posso ir agora?

Saffron abriu um sorriso de quem estava se divertindo.

- Bom, você que sabe... mas vai mesmo querer ir pra casa assim?

Foi aí que eu lembrei que ainda tava com a cueca e a camisa dele. Porra! Ele começou a achar graça da minha cara e foi buscar a roupa que ficou secando no varal lá da sacada.

- Já estão secas... pode se trocar lá no meu quarto. Eu te espero aqui.

Não levei mais que cinco minutos pra trocar de roupa, mas foram os cinco minutos mais xingados da minha vida. Porra, quem ele pensa que é pra ficar me fazendo de besta? Assim que botei o uniforme de novo, voltei pra sala. Fui andando até a porta, e ele se virou pro corredor.

- Ô Leon, vou deixar o Sven na portaria, não abre a porta pra ninguém!

- Sim senhor! – respondeu o moleque lá de dentro.

Dei de ombros, e fomos descendo juntos até a portaria do prédio. Fui direto pro único elevador do corredor, e apertei o botão, mas a luz não acendeu.

- Ué?...

- Pra variar, deu pau de novo... – Saffron olhou para aquilo como se não houvesse novidade. – Anda, vamos de escada, mesmo.

Bem, foi aí que eu descobri que o prédio dele tinha seis andares. E que ele morava no quarto andar. E que, como eu não acordei até estar no quarto dele, ele provavelmente me carregou no colo na noite passada. Será que era tudo preocupação?

O prédio não tinha nada de bonito, e parecia velho demais. As paredes do primeiro andar estavam cheias de limo por causa de infiltração, e tudo ali parecia bagunçado. Como uma pessoa que fez faculdade e podia estar ganhando bem se prestava a morar numa pocilga daquelas, eu não sabia.

Ele ligou do celular dele pro ponto de táxi, e em menos de cinco minutos o carro já tava me esperando lá na frente. É, não ia ter jeito de fugir.

- Você tem certeza de que já tá bem? – perguntou ele, parecendo mesmo preocupado.

- Saffron, eu só fiquei um pouco tonto com a batida, não vou morrer nem nada do tipo. – respondi. Por que ele tinha que se incomodar tanto, afinal?

- Tá... vê se não vai faltar aula hoje, então. – ele passou a mão na minha cabeça de um jeito bem simpático. – Se cuida...

Eu apenas acenei e entrei no carro. Quando abri a janela pra ver, ele já tava entrando no prédio, e alguns andares acima tava o Leon olhando tudo pela janela. Garoto esperto, viu? Gostei dele.

O táxi pra minha casa deu menos de dez reais. E ainda dei mais sorte ainda: todo mundo tinha saído em casa. Só estavam os empregados. Pedi pra empregada preparar uma bandeja com alguma coisa boa pra comer e subi direto pro quarto. Tirei a roupa, troquei de cueca, joguei tudo no chão, tirei a foto da mochila e joguei o resto em cima da cama.

No fim, eu dei muita sorte. Se ele descobrisse que eu vi – ou pior, que eu tinha roubado aquela foto – eu ia ficar muito enrascado. Mas aquele não era meu maior problema agora. Esperei a empregada me trazer os sanduíches com café preto, comi um pouco e tomei minha primeira providência: ligar o pc.

No fim, o Saffron era formado, e se ele tinha dito que financiou aquele apartamento pra morar com a mulher e o filho queria dizer que ele tava morando aqui na cidade quando se formou. Ou seja, a faculdade só podia ser daqui. E se ele e o outro viadinho estavam se beijando de bata, tinham se formado juntos... esse era o primeiro passo pra descobrir quem ele era.

Aquilo era a coisa mais fácil de saber. Assim que o computador terminou de ligar, abri o navegador e digitei minha palavra mágica no Google: Saffron. Ok... talvez não tão mágica assim. Saffron era o nome de uma planta azul, de uma ativista africana e de um tempero com raiz forte. Ah, e era nome feminino, segundo o lindosnomesproseubebe.com. Que merda.

Bem, eu no mínimo ia precisar de um sobrenome. É, pela primeira vez na vida a escola ia servir pra alguma coisa útil... empurrei a cadeira do computador na direção da cama e comecei a remexer meus papéis. Achei facinho o que tava procurando. “3ENM-A, Primeira Avaliação Bimestral, disciplina Português Contemporâneo, professor Saffron Demeter.” Isso me fez lembrar que eu não sabia o que tinha de contemporâneo na matéria dele, mas aquele não era o X da questão...

Nova busca no Google: Saffron Demeter. Dessa vez apareceu um site sobre mitologia, sobre uma mulher chamada Saffron que tinha num sei o que chamado Demeter. Não arrumei saco pra ler, ainda mais que tava em inglês.

Mas dessa vez meu intento deu certo. Saffron Demeter, acadêmico de Licenciatura em Letras do ano de 2003. Não é que caí bem na página do currículo virtual dele? Cliquei no link... e o link foi direto pro site da escola. Merda... depois dessa, vou lembrar de fuçar um pouco esse site quando quiser descobrir alguma coisa sobre um professor.

Bem, ele se formou em 2003, em letras. Quando fui ver, a faculdade era justamente a Universidade Silvério Franco. A maldita USF, que ficava do lado do meu colégio. Mais um território que a minha família comandava.

Apaguei tudo da barra e redigitei: “formandos 2003 letrass USF”. O google corrigiu minha busca, depois me jogou direto onde eu queria: a lista de formandos. E o melhor: com as fotos do convite de formatura. Amanda, Breno, Cindy, Felipe, Gabriella, Juliana, Monna, Raíssa, Roselle... Saffron. É, era essa turma mesmo. Era a mesma cara deslavada da foto, mas tava com terno e gravata e uma expressão séria, tipo aquela cara de cu que se faz quando vai tirar foto 3x4.

Repassei a página toda, procurando a tal criatura de cabelo comprido, e não achei. O único que tinha um cabelo comprido o suficiente, o tal do Filipe Maia, tinha espinhas demais pra ser o mesmo cara da foto. Fail. Reclinei um pouco na cadeira do computador, tomando mais um pouco do café, e fiquei encarando a foto. Tinha que ter alguma coisa ali que me ajudasse a descobrir quem era esse cara.

Bom, a única coisa que eu tava conseguindo extrair dali era que os dois gostavam muito de se beijar. Um dos braços do Saffron tava passando por trás do pescoço do moleque, e a mão colada no rosto dele, enquanto o moleque tava puxando ele pela cintura, colocando as mãos de um jeito... bom, eles sabiam o que estavam fazendo.

A única diferença marcante entre eles era que a cor das batas era diferente. Entretanto, eu não sabia o que picas significava uma beca azul e uma roxa. Talvez...

Tirei o óculos e limpei a lente com cuidado no lençol. Isso me fez pensar, será que eu dormi com o óculos na cara e o Saffron não tirou? Assim que tava tudo limpo, olhei a foto de novo. Dava pra ver o símbolo no capelo do moleque: uma nota musical.

Matei. Entrei no site da USF, vi a lista de todos os cursos – e dei de cara com Bacharelado em Música, ênfase Erudita. Troquei de novo a busca — dessa vez pra “formandos 2003 musica USF” – e assim que apareceu a lista, eu achei o patife.

Johann Stadtfeld Kerwald. Não tinha nem como ter dúvida: ele tinha o mesmo cabelo preto comprido, olhos escuros, um brinco discreto em uma das orelhas. E era bonito. O rosto dele, o perfil, até a cara que ele tava fazendo na foto, parecia um daqueles modelos de roupa. É, o Saffron sabia escolher bem.

Por via das dúvidas, salvei todas as fotos dele que achei, junto com o nome e os dados da formatura dele e do Saffron. Aquilo ia acabar me sendo útil uma hora ou outra. Dei a última mordida no sanduíche, virei o café todo goela abaixo, escaneei a foto e salvei em várias pastas, uma em cada partição. Recuei a cadeira de novo e fui dormir.

Primeira etapa, concluída.

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A sesta da tarde tava tão boa que nem tava a fim de acordar mais. Quando acordei era umas 3 da tarde, e eu não tava a fim de fazer mais nada, claro. Na verdade, nem sei o que foi que me deu pra querer ir pro colégio. Comi meu almoço bem devagar, troquei de roupa e me mandei.

Entrei pra assistir alguma coisa da aula justamente depois do intervalo, e adivinha de quem era? Ele mesmo. Na verdade, eu acho que ele se assustou de me ver entrando na aula dele com menos de uma hora de atraso, até parou de falar por uns 5 segundos. Ou será... e se ele já tivesse dado falta da foto? Aí eu tava fodido de vez.

- Sven, eu sei que é quase um milagre você vir pra classe, mas pode se sentar em uma carteira, ou precisa de um convite formal pra isso? – ele falou, de repente, fazendo toda a turma achar graça.

Aquilo me deixou puto. Não foi ele que falou ontem que queria que eu chegasse cedo na aula? E agora ele me tratava assim, me humilhando na frente de todo mundo... joguei a mochila de qualquer jeito e sentei numa cadeira perto da parede, me achando o maior idiota.

E pensar que eu achei que ele fazia questão de me ver ali...

Também, eu já não tava mais nem aí pro resto da aula. Baixei a cabeça e tentei dormir, mas ele tava falando alto demais, e eu já tinha roncado demais em casa. Fiquei desenhando, olhando pela janela, divagando, até consegui cochilar um pouco.

Quando acordei, a aula já tinha acabado. Acho que tava no segundo intervalo já. A sala tava vazia, mas o material do engomadinho ainda tava em cima da mesa. Ele ainda ia voltar pra buscar as coisas, então resolvi me habilitar pra cair fora antes que ele voltasse e começasse a me passar sermão. Não queria mais ver a cara dele nem pintada.

Pois bem, eu como sou muito cagado, abri a porta da sala e lá tava ele do outro lado do corredor. Pra completar, ainda tava conversando com meu avô. Puta que pariu, era muita merda pra um dia só.

- O senhor tem certeza do que está me dizendo, professor Demeter? – eu conhecia aquela voz de unha em quadro de giz. – Sabe, o que está me dizendo pode acabar trazendo problemas a alguém, e nós sabemos que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco...

- É por isso mesmo, professor Anselm, que lhe dou certeza no que digo...

Que beleza. Lá tava o velho ameaçando o viadinho do professor. Será que se ele ia começar a desbundar e soltar a franga se ficasse com medo o bastante? Isso seria engraçado, devia ter trazido a máquina pra bater umas fotos...

- Pois muito bem. Irei investigar tudo isso a fundo, professor. E fique despreocupado, o senhor será o primeiro a saber quando alguém for punido...

E aí o velho foi embora na direção da coordenação. Aproveitei pra sair de fininho pelo outro lado do corredor, e quando me vi longe, comecei a achar graça. Aquele engomadinho quebra-pulso tava muito ferrado... ao mesmo tempo fiquei curioso. O que será que ele tinha feito pra irritar logo o meu avô?

Foda-se. O que quer que fosse, eu tinha certeza de que ele merecia. Passei o resto do dia rindo daquilo. Será que ele ia tomar advertência? Ou talvez uma suspensão? Quem sabe até fosse colocado na rua...

Foi aí que lembrei que só tinha um motivo plausível pra ele ter se encrencado desse jeito. E se alguém tivesse visto ele comigo? Aquilo começou a me preocupar... no fundo, não seria justo se algo acontecesse com ele por minha culpa.

Só tinha um jeito de descobrir aquilo: indo pra casa. E foi exatamente o que eu fiz quando acabaram as aulas, entrei direto no carro do motorista e pedi pra ele voar pra casa.

Mas a surpresa foi bem diferente do que eu imaginei. Claro que o velho já tinha decidido quem era o culpado no que quer que fosse. Assim que entrei no apartamento ele tava me esperando na sala.

- Sven, sente-se por favor.

Fazer o que, fui me sentar. Ele tava muito sério. Aquilo tava me irritando e me deixando com medo ao mesmo tempo.

- O que foi?

- Sven, pode por favor me explicar que história é essa de ficar dando voltinhas no carro dos professores da minha escola?

É, fudeu. E dessa vez foi pra mim.

- Quem disse isso?

- Não interessa quem me disse. Eu tenho meus próprios meios de descobrir as coisas dentro daquela escola, achei que já tinha lhe ensinado isso... sinceramente, onde foi que você aprendeu essas coisas? Será que já não deixei bem claro o tipo de coisa que espero de você?

- Ei, peraí, eu não...

Mas aí ele bateu palmas, e eu sabia o que aquilo significava. A porta do canto abriu, e dois caras de dois metros de altura saíram.

- Chamou, patrão?

O velho continuava olhando pra mim. Caralho, eu tava muito ferrado...

- Você ficará o final de semana inteiro em casa, de castigo. Espero que nesse meio tempo pense bastante sobre tudo que estou tentando lhe ensinar, e aprenda a se comportar como um dos Anselm.

- Ei, peraí... PERA, PORRA!

Mas aquilo era fim de discussão. Ele levantou, saiu da sala, e assim que a porta bateu os dois caras voaram pra cima de mim. Me arrastaram até o quarto de empregada e eu tomei uma surra como se não fosse ter amanhã. Só sei que quando acordei, tava jogado no quarto, todo dolorido, e ainda por cima com um braço algemado na cama.

É, eu tava fodido mesmo... mas eu sabia de quem era a culpa. E assim que o final de semana passasse, quem ia estar muito mais fodido era ele.