Rescue Me
15 O erro
Notas iniciais
Mais uma vez, obrigada, OBRIGADA pelas reviews ♥ Vou guardar todas com muito carinho no meu coração! E é também por causa dela que os capítulos andam saindo mais rápido. Eles só não estão a todo vapor porque ando muito cheia de coisas do trabalho e da faculdade pra fazer... tanto que meu 7 de setembro foi preenchendo provas e formulários D: (independência KD/)
Bem, espero que estejam gostando, e pra quem anda sentindo falta do Saffron, eu achei esses dias um especialzinho que escrevi, se eu me animar a terminar talvez poste aqui em algum lugar, ou como uma side fic... bem, deixem sugestões xD
Morro Doce é a típica cidade do interior onde todo mundo quer morar. É aquele lugarzinho no meio do nada, onde todo mundo sabe o nome de todo mundo, as pessoas compram as coisas geralmente em mercadinhos e os velhos sentam na porta de casa à tardinha pra ver os outros passando.
Claro que eu não tô nada feliz com aquilo. Tudo bem, é a cidade onde eu nasci, e onde o Azhi também nasceu, mas nunca passamos muito tempo por aqui. Na verdade, já fazia uma boa década que eu não pisava por essas bandas. Não sei quem foi que sugeriu ao meu avô levar a cambada da família pra cidade grande, mas foi uma boa ideia, e eu era bem feliz (na medida do possível) morando em um lugar civilizado. Mesmo porque, minhas lembranças desse inferninho rural em que me jogaram não são das melhores, especialmente quando se trata da Emi. Mas não quero pensar nisso agora.
Bom, estar aqui tem suas vantagens. Primeiro, isso aqui deixou de ser território do meu avô há muito tempo, então ele não tem como me rastrear aqui, e ele teria um puta trabalho se resolvesse mandar uns gorilas atrás de mim. Os velhinhos sentados na porta de casa servem pra isso...
Segundo, a cidade não tem nada. Não tem TV a cabo, não tem internet (só as via satélite e algumas de 3G pegam direito), e o melhor jeito de saber das coisas é lendo jornal. E claro que o jornal que vende aqui só vende aqui...
Terceiro, e o meu preferido: em cidade pequena quem você conhece ou deixa de conhecer faz toda a diferença. Gente que acabou de chegar e gente que parece ser estranha fica marcada de cara. Só que isso não se aplica a mim, por causa do meu irmão, e ele é quase uma autoridade política por aqui.
Azhi trabalha como médico, e montou a clínica dele por aqui mesmo, pra poder estar mais perto de pessoas que realmente precisassem. Além disso, ele é o pastor e líder da maior igreja daqui, a igreja da Caridade e Fraternidade em Cristo, e isso somado com o carisma natural que ele tem pra atrair pessoas faz dele um cara quase tão influente quanto o prefeito. E claro que ser o irmão mais novo dele me traz umas boas vantagens.
Eu acho a casa dele uma das mais legais daqui. Fica num prédio na praça matriz, a um quarteirão de qualquer coisa que ele precise. O primeiro andar é a clínica, e o segundo e o terceiro são a casa. Sem contar que ainda tem mais um prédio de dois andares no nome dele, a umas duas quadras daqui, que é onde fica a sede da igreja.
O duplex dele mais parece um hotel. É cheio de quartos e todo decorado com umas coisas estranhas que ele gosta de colecionar. Em compensação, umas coisas triviais que todo lugar devia ter, como TV em todos os quartos e ar condicionado não tem. Mas estamos falando de Azhi Anselm, não é como se ele fosse o cara mais sofisticado do mundo. Pra ele a melhor vida é a vida simples. A coisa que ele valoriza mais é o valor sentimental, e só.
Dentre todas as coisas que ele sempre leva pra cima e pra baixo, uma delas é uma chave inglesa de ferro, vermelha, grande o suficiente pra poder desparafusar um caminhão sem muitos problemas. Ele nunca me explicou como a conseguiu nem porque é tão apegado a ela, mas isso não tem nada a ver comigo, também, então eu acabo deixando pra lá.
Azhi é o cara mais legal que você pode imaginar conhecer um dia. Ele sempre fala com você como se você fosse a pessoa mais importante do país, sempre dá um jeitinho de te ajudar, e se encanta com crianças como se elas fossem... sei lá. Ele é um cara tão bacana que às vezes nem acredito que tenho ele como irmão. E bem, graças a ele eu tô vivendo de novo, em vez de ficar só apanhando feito cavalo de estância.
Daqui do 3º andar dá pra ter uma vista privilegiada. Como é cidade do interior e não tem shopping nem essas coisas de civilização moderna, as pessoas quando saem de casa sempre vão pra praça, e eu posso olhar cada um deles dando voltas e voltas na calçada como se tivessem tentando cavar um buraco ali.
Mas o que tá realmente abrindo um buraco na minha cabeça não tem nada a ver com a cidade. Muito pelo contrário. Se por um lado eu tinha deixado todos os meus problemas pra trás na hora que ele me trouxe pra cá, por outro eu ter deixado tudo pra trás era exatamente o meu problema. Não é me escondendo atrás daqueles velhinhos de bengala que eu vou conseguir colocar um ponto final nas coisas que me atormentavam.
O fato é, eu preciso voltar pra capital. Eu sou o responsável por tudo que tá acontecendo ao Leon, e apesar de eu não ser o cara mais justo do mundo, alguma coisa me diz que eu tenho que dar um jeito de consertar essa cagada toda.
Já faz duas semanas que vim pra Morro Doce. Nesse meio tempo, não ouvi nenhuma notícia da capital, nem sequer um suspiro. E eu sei muito bem que nesse espaço de tempo muita coisa pode ter acontecido, o que me deixa mais ansioso ainda pra voar pra lá e resolver tudo. Só que ao mesmo tempo, não adianta eu sair correndo daqui, onde tô protegido e seguro, pra ir lá ficar encarando o Saffron sem nada pra dizer que possa ajudar. Se for desse jeito eu vou acabar piorando as coisas.
Pensar no Saffron é algo que também me deixa confuso. Eu me pego frequentemente pensando nele, imaginando o que ele tá fazendo ou se ele ainda consegue viver depois de tudo que eu fiz pra arruinar a vida dele. Penso se ele me odeia, e o que ele faria se me visse de novo na frente dele. E tudo isso me faz ficar mais confuso ainda.
Talvez ajudar o Leon não seja a única razão pelo qual eu queira tanto voltar, mas do que adianta? Não é como se comprar uma passagem pra capital fosse resolver tudo que causei. E aí, de novo, não sei o que fazer.
O Azhi também não ajuda. Ele tem evitado me dar notícias da capital, e eu fico mais perdido do que já tô. Meu celular ficou em casa, já que meu avô confiscou quando me enviou pro castigo no sítio, e eu também não lembro o e-mail de ninguém, então mesmo que eu conseguisse umas horinhas na lan house ali da esquina não ia ser de muita ajuda.
Espera, a lan house... eu poderia acessar meu MSN de lá. Poderia falar com alguém, poderia pensar no que fazer... era tudo ou nada.
O problema agora era ter dinheiro. E de repente, parecia que meu cérebro tinha lembrado que eu era o cara mais foda na escola quando se tratava de armar as coisas. Meus problemas parecem se resolver bem rapidinho, à medida que eu ia traçando a minha estratégia.
Pego a cópia da chave que Azhi deixou pra mim na cozinha e saio do apartamento, sem me importar muito em trancar a porta. Ele mesmo não fazia isso, era uma cidade pacata o suficiente pra fazer com que esses detalhes não fossem tão importantes. Na praça, o sol tá tão forte que me faz querer pegar uma lona preta e cobrir a cidade toda, mas não é hora de me preocupar com isso.
Vou marchando até a lan house o mais rápido que posso, pra fugir da droga do calor, e no caminho vejo que as pessoas olham pra mim. Elas acenam e sorriem, como se eu fosse uma celebridade, e é exatamente isso que quero. É muito fácil se deixar controlar num ambiente desses.
Assim que entro, olho pro balcão, e confirmo que quem está lá é o dono. Eu esperava um cara gordo de óculos comendo batata frita e deixando o farelo cair em cima do teclado, mas pra minha surpresa é um cara novo, de uns 30 anos, moreno e sem óculos, tomando uma garrafa (sim, uma garrafa, de vidro) de refrigerante e deixando os respingos de coca-cola caírem nas teclas. Ok, não foi uma surpresa tão grande assim.
Antes de dizer qualquer coisa, começo a sondar o ambiente. Sei que ele é o dono porque o lugar só tem 6 computadores, todos eles com monitor de tubo de imagem e teclados com as letras pintadas em corretivo de tão gastos que estão, e um lugar assim com certeza não precisa de funcionários, ou não pode arcá-los. Vejo três clientes, duas meninas acessando o Orkut e um senhor mais velho sentado mais na frente, que está com o monitor virado na direção do balcão, provavelmente pra mostrar algo ao dono enquanto acessa. Em cima da CPU dele tem uma bíblia marrom, pequena, e tem uns papéis com dizeres religiosos jogados por cima da mesa do dono também, com alguns respingos de refri.
Aquilo era mais do que perfeito.
Fecho a porta com um pouco de força desnecessária, e todo mundo fica olhando pra mim. Também, nem precisava. Eu sou o estranho na cidade, essa era a reação mais óbvia que aquele bando de gente sem vida poderia ter. Dou alguns passos na direção do balcão, e faço uma cara de quem está apenas passeando.
- Ah, olá! – agora tenho a confirmação de que o homem é o dono. Na janela do computador dele, num canto, está escrito “Bem vindo, Alfredo Dias!”, e o nome que tá na fachada é Cyber Dias. – O que vai querer?
- Nada, só tô dando uma volta por aí... – digo, fazendo cara de inocente. Como ainda não me recuperei totalmente e o Azhi ainda não tirou todos os pontos, forço um pouco a expressão e ponho a mão no ombro, onde tem uma marca que tá tão roxa que nem parece que faz tempo que parei de apanhar.
- Ei, garoto – o homem sentado do lado afasta um pouco a cadeira, reparando em mim. – Você não é o irmão do pastor Azhi? O que sofreu um acidente?
Então foi isso que ele contou pras pessoas... que engraçado.
- Ah, sim... mas não se preocupe, já estou bem melhor! – digo, parecendo animado, mas não tão animado que pudesse parecer bem de saúde. – Meu irmão tem cuidado de mim, graças a ele e a Deus posso levantar da cama de novo.
Claro que um comentário desses era de impressionar. As menininhas de trás pararam um pouco de olhar as fotos do álbum de sei lá quem, e ficaram me olhando escondidas por trás do monitor. O tal do Alfredo também fez cara de susto.
- Você não devia estar num hospital descansando ou alguma coisa do tipo?
- Ah, sim, esse era o certo... – falei, com a voz um pouco mais fraca. – Mas já faz mais de um mês que não saio pra nada, meu irmão se preocupa muito comigo, e eu precisava respirar um pouco de ar fresco de novo...
Aquilo não era exatamente mentira. Entre o tempo que passei na chácara, os dias que passei me recuperando na casa do pastor Felipe, a transferência pra casa do Azhi e o dia que consegui levantar sem ficar com vontade de desmaiar de tanta dor, se passou mais ou menos um mês. O que eu esqueci de mencionar é que eu não tinha saído antes porque odiava aquela gente, mesmo.
Abro mais um sorrisinho fraco, e o homem da máquina perto da porta levanta e puxa uma cadeira pra eu sentar. A cadeira é a da máquina do outro lado, que ficava em um ângulo que não deixava ninguém ver o que o usuário estava acessando.
- Fico feliz de ver que você está se recuperando. – diz ele, sentando de volta no lugar dele. – O pastor Azhi e todos nós aqui da cidade temos rezado bastante pela sua saúde.
- Ah, fico feliz em saber... o senhor é nosso irmão da igreja, então?
- Sim, graças a Deus... – sorri ele, como se estivesse muito orgulhoso de tudo aquilo. – Seu irmão é um excelente líder. É uma pessoa muito gentil, amigável e dá o exemplo pra todos nós da cidade.
- Isso me deixa muito feliz, de verdade... – não dá nem pra imaginar o quanto. – É animador pra mim saber que tenho alguém assim tão perto de mim.
- O seu irmão, o pastor... – fala o Alfredo, se metendo na conversa exatamente como eu queria que ele fizesse. – Ele foi passar um tempo na Alemanha, não foi?
- Ora, Alfredo, todo mundo sabe disso. – interrompe o outro. – Ele tava há mais de 3 anos fora. Na verdade, foi até uma surpresa pra gente saber que ele voltou só por sua causa...
- Meu irmão salvou minha vida. – falo, dando um ar tráfico à coisa toda. – Ele abandonou tudo, tinha uma vida promissora lá, mas mesmo assim resolveu voltar pra poder me ajudar a me recuperar do acidente...
- Sim, isso é verdade. Pra nós todos foi uma surpresa saber que ele voltou a assumir o templo. – diz o homem. – Ficamos muito felizes com a volta dele, ele é uma pessoa que traz paz à essa cidade, mas ao mesmo tempo ficamos muito tristes de saber que uma pessoa tão próxima a ele passou por algo tão terrível.
- Está tudo bem agora... – completo. – Já passou, já estou melhorando. E Azhi é o grande responsável por isso...
- E então, diz aí, — diz o Alfredo. — Que espécie de acidente foi esse?
Eu tava esperando ansiosamente ele fazer essa pergunta. Nessa hora eu fecho um pouco a cara, como quem passa mal ao lembrar algo tão terrível e trágico, e só pra completar engulo em seco. Tá certo que as sessões de espancamento do meu avô não eram nada fáceis, mas eu já tava acostumado a isso. Claro que essa foi a pior de todas, mas eu ia parar naquele sítio dos infernos pelo menos uma vez por ano, quando saía o boletim final do colégio.
- E-ei, não precisa se forçar a lembrar disso se não quiser... – responde o Alfredo, todo preocupadinho, vendo a cara que eu fiz. E pensar que até hoje nunca me indicaram ao Oscar, que desperdício... – Olha, tome um copo d’água...
Ele vem me trazer a água, enquanto o amigo dele se aproxima pra ver se eu tô legal.
- Ah, eu estou bem... é só.. um pouco difícil, sabe?... – falo, fazendo cara de sofrimento. – Eu tava na estrada, tava indo pra um retiro espiritual com o pessoal da igreja... aí o caminhão veio... a gente tava na estrada... e o ônibus...
A essa hora todo mundo tava olhando pra mim, nervoso, até as meninas retardadas lá do fundo. Dava pra ver que ninguém mais tava respirando. Todo mundo tava doidinho pra ouvir mais da tragédia, principalmente porque eu sabia que o Azhi odiava mentir e que ele não ia ter comentado nada excessivo sobre o que aconteceu comigo pra não ter que ficar inventando mais coisa. Pra aquela gente alienada do interior, era como se eu tivesse contando a coisa mais incrível do século todo. Mas não era por isso que eu ia dar esse gostinho pra eles.
- Eu não sei o que teria acontecido comigo depois de tudo isso se meu irmão não tivesse me buscado e me trazido pra cá. – completo, dando um suspiro. Acho que era a coisa mais sincera que eu tinha falado desde que cheguei na cidade. – Ele é uma pessoa incrível, e sem o cuidado dele eu não sei o que eu faria... a propósito, vocês tem ido na igreja?
E aí o clima pesou um pouco. O cara encara o dono da lan, e as meninas se fazem de desentendidas e voltam a ver o Orkut. O dono da lan faz uma cara de perdido, meio sem jeito de falar a verdade. Foi o cliente velho que salvou a pátria.
- Estamos sempre acompanhando os sermões do seu irmão na igreja. Semana passada ele ministrou muito bem, foi uma glória pra nós ouvir as palavras sábias dele.
- Ah, que bom... isso me deixa bem contente. Espero poder me juntar a ele logo. Sabe, ele ficaria muito chateado se soubesse que eu saí de casa, mas eu precisava dar uma volta pra espairecer... vocês não se importam, né?
- Claro que não... – responde o homem, sempre o homem. – Pode sair por aí sempre que quiser, ficaremos felizes de ter você aqui na cidade durante esse tempo. E eu vou garantir que você não seja importunado por ninguém.
Ele me mostra a carteira, e eu descubro que ele é na verdade o delegado da cidade. Ora, quem diria. Talvez isso me seja útil uma hora ou outra.
- Ah, muito obrigado... estou muito feliz de poder conhecer todos daqui. Ah, importa-se se eu usar o computador? – aponto, com um ar de curiosidade.
O dono da lan faz uma cara meio desconfiada, mas o delegado Freitas olha pra ele de um jeito bem expressivo, e em seguida responde pra mim.
- Pode ficar à vontade, garoto. – e fazendo um gesto apontando o computador, diz pro dono da lan. – Ponha a hora dele na minha conta.
Isso foi bem melhor do que eu esperava. Achei que fosse ter que fingir que ia pagar pra ver se o Alfredo ia me oferecer a cortesia. Bem, melhor assim. Quem diria que o delegado era tão prestativo assim?
Enquanto ligo a máquina, vou contando mais algumas histórias de como Azhi é um bom irmão e merece usar uma coroa e reinar todo o mundo como o mais digno pregador da igreja. Em alguns minutos, o delegado encerra o tempo da máquina dele e vai ao balcão pagar a conta. Ele se despede de mim, conversamos mais ou pouco e ele vai embora, me deixando livre, leve e solto pra ver na mais santa paz tudo que preciso.
Mesmo assim, depois dessa enrolação toda esperando ele sair já perdi 15 minutos de acesso. O dono da lan não tá nem aí pra mim, e eu tenho certeza de que não consigo arrancar uma hora a mais dele, então acho melhor ser rápido.
Resolvo não perder tempo olhando as notícias. Entro no msn, e vejo que muita gente que a essa hora estaria online não está. Me bloquearam, com toda certeza, mas isso não interessa agora. Dou uma passada rápida em quem sobrou dos meus 560 contatos – e pra minha sorte a pessoa que eu mais queria está lá. Sophia.
A professora Sophia não é a pessoa mais tecnológica do mundo, ela gosta de mergulhar nas coisas de literatura dela e de escrever um diário que ela tem e que ninguém ousa mexer, pois a lenda diz que aquela mulher vira um demônio quando tentam espiar as coisas dela. Apostar nela pra me ajudar a descobrir alguma coisa era muito arriscado, especialmente porque ela quase nunca acessava a internet, mas se eu sabia bem ela tinha entrado pra ver algum e-mail e o msn entrou. Fosse como fosse, isso já era meio caminho andado. Agora era mandar a primeira mensagem e torcer par que ela não tivesse deixado o computador ligado pra escutar música enquanto ia tentar cozinhar alguma coisa pro Hitori. (vai ver ele é sério e fechado daquele jeito porque tem que comer a comida dela.)
“Sven, é você mesmo?” BINGO! E não é que ela respondeu, em menos de 2 minutos de espera? Nossa, isso só pode ser coisa do destino... “Você sumiu, eu não consigo falar com você, ninguém tem notícias suas, então eu fiquei preocupada...”. Respondo a ela rapidamente que tive uns contratempos com meu avô por causa da confusão no Silvério Franco, e quando tô no meio de escrever a pergunta, ela manda de volta uma mensagem, a maldita mensagem que eu não queria que ela mandasse.
“Ouvi do Kamus e do Hexion que foi você que pagou pra que eles fizessem tudo aquilo... é verdade?”
Não tem como. Nenhum dos dois pedaços de merda é tão bom aluno assim a ponto de ir pra aula com frequência, então concluo que ela já deve ter falado com o Saffron, ele deve ter dito isso. Mesmo assim, não importa como ela descobriu, o que importa é que ela descobriu, e acabou. Apenas respondo rapidamente que sim, mas que aquilo tudo foi um engano, que não era para aquilo ter acontecido. Mesmo assim, a resposta dela é cruel: “Você é um irresponsável, Sven. No que estava pensando? Você não tinha o direito de fazer aquilo, principalmente para uma pessoa como o Saffron”.
E o discurso dela continua, até parece que ela não tava preocupada comigo: “Por conta da sua brincadeira inescrupulosa, ele perdeu o emprego, a reputação e agora está também em vias de perder o filho. Será que você faz ideia de como ele se sente?”
Eu não tenho palavras pra responder a isso tudo, então deixo ela falando mais um pouco. Até consigo ouvir ela falando, como se estivesse do meu lado: “Uma coisa dessas não se faz nem com seu pior inimigo. Não sei o que você queria ganhar com todo esse circo, Sven, mas espero que tenha valido bastante a pena. Parece até que foi de propósito, eu até cheguei a falar pra você que ele tava preocupado com a audiência com o juiz, e você resolve aprontar isso bem no dia em que a assistente social foi ao colégio falar com ele!”
Peraí, dessa eu não sabia. Comento isso com ela, e a resposta vem quase tão cruel quanto o resto do texto. “Imagine a reação da representante do juizado de menores ao ir entrevistar o pai de uma criança que está passando por um processo de outorga de guarda e ver aquele circo todo, aquelas fotos publicadas na internet!”
Aquilo faz a minha consciência voltar a pesar. Eu tinha, mais do que nunca, de dar um jeito de arrumar uma maneira de acabar com aquela palhaçada toda de juizado. Só de lembrar do que o Leon falava dela, me dava vontade de ir até a casa dela e dar um tiro nela...
Espera. O que o Leon falava... é isso! É disso que eu preciso pra dar a guarda pro Saffron. O plano foi se arquitetando rapidinho na minha cabeça, eu só ia precisar de um pouco mais de tempo pra aparar as arestas e colocar tudo em ordem. Sim, só um pouco mais de tempo e eu ia dar conta de tudo...
Pergunto a Sophia quando será a audiência, e ela responde que por conta de toda a cagada na escola, seguido do processo da mãe do Leon e dos pedidos de guarda feitos pela parentada do Saffron, a audiência foi remarcada pro dia 17. Isso me daria 9 dias pra agir... era mais do que suficiente. Mas nem a mudança de assunto fez com que ela parasse de em dar sermão.
“Sinceramente, Sven, eu não esperava isso de você... você pode ser muitas coisas, mas não achei que fosse tão insensível, tão desumano...”
Mesmo no msn, ela não me dá espaço nem pra explicar, e mesmo que desse, eu também não saberia o que dizer pra tentar remediar a situação. Mas quando estou finalmente perto de inventar algo próximo de uma desculpa pra toda essa merda, ela me desarma.
“Eu só queria saber o que te levou a fazer tudo isso. E ainda por cima, namorar com o ex do Saffron... fico até pensando se você não fez de propósito, por causa dos sentimentos dele...”
Aquilo tava começando a me cansar. Mando pra ela que eu não tenho anda a ver com os sentimentos dele, que ele pode gostar de quem quiser que eu não tô nem aí. E que se fosse pra destruir os sentimentos dele, eu ia ferrar o Akio, não ele.
“Como assim o Akio?” Ah, não, Soph, vai me dizer que só você não sacou o que tava rolando entre eles? Escrevo isso pra ela, e ela me retorna depois de um longo tempo. “Não, Sven, acho que você entendeu errado. Akio está namorando com Shian...”
Sim, claro, com o Shian e o Saffron ao mesmo tempo! Começo a contar pra ela tudo que aconteceu algumas horas antes da cagada na escola, quando resolvi seguir o japinha metido a besta e vi ele se agarrando com o eremita. Conto das palavras do Saffron, do dia que ouvi os dois conversando atrás do ginásio, enfim, acabo contando tudo que sei.
Sophia leva mais uma era pra responder, o que me deixa mais do que impaciente, já que agora só tenho mais quinze minutos pra conversar e cada minuto na lan é precioso. Mas quando a mensagem dela finalmente chega, eu sinto como se alguém tivesse jogado uma bomba de fósforo na minha cabeça, daquelas que não só explode, mas que queima e desintegra tudo.
“O Saffron não contou a você que Aki está grávida do Shian?”
Dessa vez quem demorou pra responder fui eu. Aki. Eu já tinha ouvido o Saffron chamar ele desse jeito, achei que fosse um apelido carinhoso, eles tinham um caso mesmo, então nem liguei... não, peraí. Homens não engravidam um do outro. E eu tinha certeza de que o Shian era homem, pelo menos eu já tinha visto ele tomando banho no vestiário masculino depois do jogo, mas o Akio...
De repente, toda aquela conversa estranha do Saffron com ele (ou ela) na escola ia voltando na minha cabeça. Ele tava confuso porque não queria contar pra ninguém quem ele realmente era, e tava pedindo ajuda pro Saffron porque ele já tinha passado por aquilo tudo antes. O Saffron disse que eles estavam juntos, e que ele podia contar com ele pro que quer que fosse...
E aí eu comecei a entender. Akio não era um homem. E se chamava Aki. E tinha um caso com Shian, e tinha engravidado dele. E tava pedindo conselho pro Saffron porque ele também teve filho aos 16. E eu tinha feito uma grande burrada, bem maior do que eu imaginava.
Sophia não quis contar mais detalhes disso, e nem eu queria saber, o caso era que eu passei dias e dias perseguindo o Saffron por uma coisa que, no fundo, não tinha nada a ver com ele. Mas esse não era o pior.
“Nesse caso, isso de certa forma explica por que você foi tão cruel com o Saffron, mas eu achei que ele tivesse contado...
ele disse que queria te contar, mas que tinha medo de como você ia reagir, ele tinha medo de que você passasse a odiá-lo por isso...”
Ah, vá. Era só ele ter deixado bem claro desde o começo que ele não tinha nenhum caso com aquele merdinha, será que isso era tão difícil assim?
“Não, Sven, não estou falando de contar isso. Estou falando dos sentimentos dele.”
Pelo amor de Deus, Sophia! Se ele queria comer o Akio ou a Aki ou seja lá quem for, eu não tô nem aí, será que é difícil de entender isso? O que eu tenho a ver com os sentimentos dele?
“Então pelo visto ele não teve tempo de contar... bem, acho que se eu tentar explicar não vai dar certo. Você pode receber arquivos daí?”
Olhei rapidamente no sistema da máquina, e não vi nada impedindo. Disse a ela que não tinha problema, e ela enviou um Msg_longa_colada_078x, que eu salvei rapidamente em uma pasta aleatória e tratei de abrir. Era um histórico de conversa, datado de três dias antes da confusão na Silvério. O primeiro endereço eletrônico era o da Sophia. O outro, eu matei só de ler: saff_d@gmail.com.
- Oi!
- Ah, alô, Saffron!
- Faz tempo que não te vejo aqui...heheheh.
- Pois é... você sabe que não gosto desse tipo de coisas, mas mesmo assim, estou aqui... você tinha me pedido pra entrar, lembra?
- Sim sim, é que esses dias não temos tido tempo pra conversar direito. E sempre que eu ligo pra sua casa você tá ocupada...
- Ah! O Hitori tem vindo aqui com frequência, estamos pensando em morar juntos, mas ainda não respondi... acho que preciso de um tempo pra me acostumar com a ideia.
- E eu acho um desperdício você ainda não ter aceitado... mas acho que isso é uma decisão que você tem que tomar, não eu. Hehehehehe E então, como vão as coisas?
- Fora isso, vai tudo bem... e você, o que queria conversar comigo?
- Acho que você já sabe o que é...
- É o Sven de novo, não é? Fica um pouco fácil adivinhar depois de ouvir você me ligando quase todo dia preocupado com ele...
- Sinto muito se tenho te incomodado demais com esse assunto, é que eu realmente não sei o que fazer, e não me vejo falando sobre isso com mais ninguém...
- Tudo bem, deixe isso pra lá. Diga, o que foi que aconteceu?
- Ah, eu não sei...sabe, as duas últimas semanas tem sido particularmente torturantes pra mim, acho que você deve ter percebido isso... Sven parece estar com ciúmes da Aki, e eu não sei o que fazer pra remediar isso.
- Saffron, você sabe que Sven é só um adolescente impulsivo, você não vai conseguir mudar o jeito dele...
- Sim, eu sei, mas não é esse o meu problema maior... claro que ando bastante preocupado com a Aki também, principalmente pelo jeito que ela se expõe, brigo bastante com ela pra que ela pare de agir como se estivesse querendo levar um soco na cara, mas isso não tem resolvido...
- Tudo bem, deixe a Aki pra lá. Vou pedir para o Hitori conversar com ela depois, ela parece o ouvir bastante, isso me conforta... mas, voltando ao Sven. Qual foi o problema dessa vez?
- Não sei, Sophia... eu não aguento mais essa situação. Sinto que preciso contar a ele o que eu sinto, mas não sei como... ele é meu aluno, tem quase a idade do meu irmão, é filho e neto dos meus chefes, isso sem falar que ele é um garoto... eu não consigo, não tenho coragem de falar pra ele, mas mesmo assim isso me incomoda...
- Se isso te incomoda tanto, Saffron, por que ainda não contou?
- Eu sei, sou um covarde, não passo disso... há muito tempo já vinha me perguntando porque me importava tanto com ele, e você sabe quase tão bem quanto eu porque... mas não sei se vou conseguir suportar ele virando a cara pra mim ou fingindo que não existo.
- Mas a meu ver ele sempre fez isso...
- Isso é verdade... hehehehe mas Sophia, não é simples assim... você sabe que não posso simplesmente virar pra ele e contar. Já imaginou, eu, no meio do jantar, olhando pra cara dele e dizendo: “Ah, Sven, tem uma coisa que eu esqueci de contar, eu sou completamente apaixonado por você, posso te beijar agora?”
E nessa hora eu travo. Meu corpo todo trava, eu não consigo sequer ler o resto da mensagem. A janela da Sophia pisca, indicando que ela tinha escrito mais coisa, mas eu não consigo nem mexer os dedos pra dar um Alt+Tab. Meus olhos travaram na última frase dele, e não parecem mais interessados em outra coisa.
Depois do que pareceram horas, consigo mexer as mãos no teclado de novo. Acabo apertando o Page Down, e sem querer avanço até o final da conversa. E de relance eu acabo capturando, no último parágrafo, mais um trecho profundamente constrangedor da intimidade dele.
“Eu amo o Sven, Sophia. Não porque ele é um homem, ou porque ele estuda na minha sala, ou seja lá o que for. É simplesmente porque é ele. E sabe, a coisa que eu mais queria, se eu pudesse mesmo pedir qualquer coisa, como você diz, é poder...”
Mas nessa hora, a máquina dá um super apito. Olho pro monitor, espantado, e vejo o Alfredo olhando pra minha cara.
- Acabou o tempo... só tem mais cinco minutos. Se quiser, eu coloco mais tempo, mas...
- IMPRIME! – grito, repentinamente nervoso, olhando pro homem. – Me deixa imprimir uma coisa... é importante, é URGENTE! Não posso perder isso...
Espantado, o homem acaba fazendo que sim com a cabeça, e aponta pra impressora com um gesto curto. Eu, nervoso, volto a olhar o computador e clico freneticamente no botão de imprimir. Assim que todas as folhas saem e ele coloca a impressão em cima do balcão, eu desligo o computador com um chute no estabilizador e pego o maço de folhas o mais rápido que meu corpo permite. Parte daquela encenação toda não foi mentira: eu ainda ando fraco demais pra sair passeando por aí à vontade.
Não consigo nem reparar no que tô fazendo. Quando vejo, já tô deitado na cama, com o papel na minha frente, lendo e relendo todo aquele texto. Mesmo assim, nada daquilo entra na minha cabeça. A culpa disso tudo é dele! Se ele tivesse dito... se ele tivesse dito antes...
Eu apenas fecho os olhos e deito a cabeça no travesseiro. Olhando o teto, eu tento achar algum jeito de entender o que tá acontecendo, mas não dá certo. Simplesmente porque não há o que entender, tá tudo muito bem dito ali na minha cara.
É, não tinha jeito. Eu cometi um erro grave. E se eu queria consertar as coisas, ia ter que ser agora enquanto ainda dava.
E assim começa mais um plano.
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