Rescue Me
16 Um novo plano
Notas iniciais
Não inventaram palavra no mundo pra descrever como eu tô me sentindo nesse exato momento.
Começo a revirar meu vocabulário inteiro, que por sinal nem era tão bom assim, pra tentar explicar pro Azhi como me sinto. Ironicamente, lembro que o Saffron era meu professor de português, e ele saberia melhor do que ninguém puxar palavras pra me ajudar na tarefa. Mesmo assim, tenho que começar por alguma coisa, então dou meu primeiro lance.
- Chocado.
Azhi me encara, ainda meio sorrindo, e dá de ombros. Ele leu a conversa na noite passada e sabe o que se passa comigo. E só pra ficar mais legal, ele tá relendo nesse exato momento também.
- Essa parece boa... O que mais?
- Surpreso, indignado, revoltado...
- Magoado?
- Ah, sei lá, talvez um pouco sim... Frustrado, triste, nervoso... Acho que essa é a melhor possível até agora.
- Nervoso... No sentido de irritado ou de receoso?
Penso um minuto antes de responder.
- Um pouco dos dois...
Ele lê mais dois parágrafos, ou seja lá o que for aquilo, e completa.
- Já pensou em feliz?
Pra falar a verdade, já. Mas o momento tá tão longe de uma comemoração que eu evito falar a respeito. Claro que, por se tratar do Azhi, ele entende muito bem a cara que eu faço e evita falar a respeito. Mas ainda assim, ele tá sorrindo. Parece que toda essa história deixou ele animado.
- Então, já decidiu seu plano? Tem certeza de que quer fazer isso?
- Não tem muita coisa pra se fazer a essa altura, Azhi... — respondo, pegando o papel da mão dele e fechando os olhos. — Além do mais, você mesmo concordou que de todas as opções essa era a mais segura.
- Claro, era a que envolvia menor risco de morte pra você... Mesmo assim, você sabe muito bem que se eu pudesse decidir nunca deixaria você fazer isso.
- Por isso eu tô dizendo que não tem muito pra se fazer. E será que dá pra mudar de assunto? Tô começando a ficar enjoado.
- Ah, claro, mudar de assunto. — ele abriu um sorriso maior ainda. — do que você prefere falar, da igreja ou sobre os avanços da medicina?
Voltei a olhar a maldita impressão, e ele conseguiu me devolver com ela aberta bem na parte do "eu me apaixonei por ele". Aquilo era tudo culpa dele. Ele devia ter dito, devia ter sido sincero... Era isso que me dava mais raiva... Se pelo menos ele tivesse me contado tudo antes, se pelo menos ele tivesse me explicado toda a situação...
Fecho os olhos de um jeito bem automático. Feliz... Será? Talvez nem tudo estivesse perdido afinal... Se meu plano desse certo, eu poderia até ter um espacinho pra esperança no meio disso tudo...
- Sven?
- Ah, oi?
- Você está sorrindo...
Agora que ele falou, eu vi que é verdade. O melhor é que não preciso explicar a piada pra ele, porque ele é o melhor irmão de todos e entendeu só de olhar a minha cara. Ele abre um sorrisão, bem aberto mesmo, e olha pra janela. Só que a alegria não dura muito.
- Eu não vou poder te acompanhar mais do que isso nessa jornada... Mas por favor, se houver alguma coisa que eu possa fazer, me chame... Estarei pronto pro que quer que seja.
- Obrigado, Azhi... Juro que se não fosse por você eu não sei onde eu estaria agora.
- O importante não é onde você está agora, e sim onde você pretende estar amanhã... Mas acho que isso já está bem decidido na sua cabeça, né?
Essa eu não preciso responder. Olho pela janela, apontando pros prédios altos e cheirando a mofo do lado de fora, e de novo ele capta minha mensagem. O carro vai parando, até encostar na frente de um certo condomínio vertical de luxo, e o motorista vira pra mim.
- Torre Veneza... É esse aqui, não é, pastor?
- Sim, sim, é só esperar um minuto... Sven, por que não agradece ao delegado a carona?
- Valeu, Freitas.
- Não há de que... Só por favor não vá se meter em outro acidente, sim? Seu irmão aqui ficou bem desesperado no último.
- Ah, não se preocupe, vaso ruim não quebra...
Ele desce do banco do motorista, dá a volta e abre a porta da viatura pra mim. Guardo o papel bem dentro da cueca, pra garantir que não ia se perder, e vou andando com ele até o hall do prédio, onde tem um velho gagá e dois brutamontes me esperando com uma cara nada amistosa.
- Oi, vô...
Home, sweet hell.
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Pra muita gente, parece muito complicado tentar entender a cabeça do meu velho. A Sophia diz com uma certa frequência que nem em mil anos a atitude dele vai fazer sentido pra ela. Mas na verdade, se você for analisar o esquema dele é bem simples: primeiro ele bate, depois ele pergunta.
- O delegado que te trouxe falou que você tava sozinho e sem documento nenhum na rodoviária, tentando comprar uma passagem pra ir pra fora do estado. — ele diz, batendo um pouco na mesa pra me intimidar. Ou me preparar, sei lá. — Se você ia comprar uma passagem, é porque tinha dinheiro. Então, quem foi que te deu esse dinheiro?
Não sei o que aconteceu com os dois brucutus que andavam com ele desde que eu era pequeno, só sei que ele arrumou dois novos dessa vez. E imagina só, eles são bem mais escrotos que os últimos. Fico me perguntando se não devia ter um limite pro quanto de força uma pessoa pode ter, mas aí eu lembro que se fosse por isso existe uma lei sobre bater em menores de idade, e esse não é bem o caso a se levar em conta aqui.
- Catei por aí.
Meu avô nunca me batia. Ele sempre deixava a parte divertida pros gorilas dele, mas dessa vez o ódio dele era tanto que ele tinha até se dado o direito de arrumar um pedaço de pernamanca pra me bater também. E não sei se é porque ele ainda tava chateadinho com os boatos do meu caso com o Johann, ou se é porque eu consegui fugir do sítio e ele não sabe que foi graças ao Azhi, só sei que ele tá demonstrando um prazer imenso em me olhar ali, de quatro, sem roupa, pronto pra ficar com uma marca na bunda que não ia me deixar sentar por um mês.
E eu não estou falando de nada sexual.
Minhas pernas já tão ficando moles de tanto apanhar, ainda mais num lugar sensível daqueles. Eu já não tô mais enxergando direito, tanto pela falta do óculos como pelo corpo ficando fraco. E a coisa só não tá pior porque eu tinha um lugarzinho no elevador perfeito pra esconder as coisas quando ele me arrastava pro apartamento, e eu escondi a impressão ali antes de subir. Eu já tava com umas perspectivas de sobrevivência bem ruins sem uma declaração de amor homossexual com meu nome.
- Sven, você pode até não ter nenhum compromisso, mas infelizmente eu não tenho a noite toda disponível. Você pode me dizer pra onde estava indo e como saiu de casa, ou eu posso ir dormir e deixar o assunto com meus novos companheiros. E eu garanto que eles vão ser bem menos gentis manipulando isso aqui.
Aquilo não era surpresa pra mim, mas mesmo assim a frase me dá um calafrio. O velho tá tão empolgado que eu já tô quase chorando. Imaginar aqueles caras dando o mesmo golpe no mesmo lugar e com a força deles não era um pensamento muito feliz.
- Eu já falei, eu só saí, não tenho culpa se aqueles caras tinham um retardo mental e não me viram...
Puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu... A paulada que ele deu foi tão forte que o barulho ecoou na sala inteira. Eu tento ficar de boca fechada, mas acabo gritando, e meu corpo tá mole demais pra agüentar ficar mais tempo ajoelhado de quatro ali. Eu já falei que ele me botou pra ficar em cima do milho?...
Sinto meu corpo bater de lado no chão, e um dos caras avança pra me botar de quatro de novo. Daí ele me levanta pelo cabelo, e eu vou continuar pendurado ali daquele jeito enquanto não ajoelhar de novo. Não sei o que é pior, tentar ajoelhar de novo ou ficar pendurado pelo cabelo da nuca. Puta que pariu, meu, de onde meu avô tira essas ideias de castigo, da Inquisição?
- Essa é a última vez que eu digo isso, Sven. Você é o mais valioso dos meus netos, e eu gostaria que você levasse isso em conta. Mas se você não se conscientizar de uma vez por todas de que eu decido que rumo sua vida vai tomar, eu também não vou hesitar de usar toda a força que me for acessível pra corrigir você.
Ele faz um último gesto, e o cara me larga. E só pra fechar com chave de ouro, ainda tomo um último chute no estômago antes de ver eles recuando.
- Vá dormir. Amanhã conversaremos sobre seu castigo. Espero que pense bem na conversa que tivemos essa noite.
Claro, isso tudo é só a conversa, amanhã é que vai ser o castigo. Puta merda...
Eles fazem questão até de apagar a luz ao sair, e eu me arrasto até o quarto com o mínimo me forças, não porque ele mandou, mas é porque o único motivo de eu ter voltado tá lá. Depois de sei lá quanto tempo, eu consigo chegar, e me sinto bem de ver a cama me esperando ali, apesar de toda a bagunça.
Meu quarto foi todo revirado antes de eu ser mandado pra chácara, então tudo mais parece um cenário de guerra. Tiraram meu computador e qualquer coisa minha que acesse a internet, e fizeram uma limpa em tudo que eu tinha guardado. Pen drives, papéis, cartas, tudo que parecesse levemente suspeito foi queimado na minha frente. QUEIMADO. Mas eu tava um passo à frente deles pelo menos nisso.
Dou um jeito de me arrastar até a cama, mas não pra deitar, pelo menos não ainda. Tateio rapidamente a parede, sem sequer precisar de luz, e sinto o pequeno vão escondidinho ali. Meto a mão por dentro, e não tem nada que me alegre mais do que sentir meu mp3 gravador, um pen drive com documentos, um maço de cigarros e um envelope contendo uma identidade falsa e dinheiro. Brutos do jeito que eram, eles não acharam meu kit de emergência.
Mas ainda tinha uma última surpresa. Fazia tanto tempo que eu tinha preparado aquilo, com medo do nível que meu avô ia chegar um dia, que eu tinha esquecido que junto daquelas coisas tinha uma chavinha prateada. Estico um pouco os dedos pra pegá-la, e só de tocá-la um pouco eu reconheço como sendo a chave da casa do Saffron. E nessa hora, apesar de estar todo fodido, eu me sinto o cara mais feliz do mundo.
Tampo cuidadosamente o esconderijo de novo, me enrolo com o lençol pra esse frio do diabo não me incomodar mais, coloco a chave pendurada no meu pescoço à la Leon mesmo e fecho os olhos pra tentar me recuperar por um segundo que seja. Porque amanhã, fodido ou não, meu plano vai começar. E eu não vou falhar dessa vez.
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- Muito bem... Agora me diga. Se analisarmos todos esses dados, quem vão ser os tigres asiáticos de segunda geração?
— E eu vou lá saber? Pergunta pro pai do tigre ué, ele é que sabe quantos filhos ou netos ele tem...
E lá vem mais um. Mais uma porrada com aquela porra daquele chicote de stripper. Não são nem 7 da manhã e já tô de pé, olhando um monte de cadernos e com uma bruxa encarquilhada me olhando. Claro que meu avô não ia simplesmente me acolher alegremente de volta em casa depois de uma mera surra. Mera pra ele, claro, porque eu ainda tava todo fodido mesmo depois de 5 dias.
A primeira providência dele foi chamar uma professora particular. Depois de tanta polêmica no colégio, ele nunca me deixaria voltar pra lá, especialmente porque depois de tudo aquilo ele não confia em mais ninguém e tem medo de que eu fique livre, leve e solto por lá como eu sempre fiquei. Além disso, se eu ia virar o grande médico que meu avô queria que eu virasse, eu ia ter que ralar muito pra passar no vestibular. Não bastava ser neto do reitor e filho do dono da faculdade. Tinha que convencer os fofoqueiros também.
Tudo bem que ele tinha quebrado o galho de ter pelo menos chamado uma mulher. Só que ela é tão feia, velha e ranzinza que nem a mulher do diabo concorre com ela. Acho que nem todos os demônios do mundo somados e fundidos num corpo só concorrem com ela. E eu ali, ouvindo um monte de merda e apanhando dela. Bom, pelo menos não eram os gorilas.
Isso tá começando a ficar ruim. Já perdi 2 dias de viagem por causa da distância e da situação da estrada, e agora mais 5 dias trancado em casa ouvindo sobre lisossomos e Oriente médio e geometria analítica. Em quatro dias o caso do Saffron ia ser julgado, e eu tinha que dar meu jeito de deixar tudo pronto até lá, mas sem computador, celular, iPod Touch, iPad ou sequer a rede wi-fi, e ainda por cima com aquele cão chupando manga de guarda, as chances estavam bem ruins pro meu lado.
Eu devia ter me organizado melhor. Devia ter pensado em uma técnica de emergência pra falar de novo com o Azhi e pedir ajuda pra ele. Devia ter deixado um celular extra nas minhas coisas, mas se duvidar meu avô deve ter colocado um daqueles inibidores de sinal eletrônico no meu quarto só pra me deixar completamente preso. Droga...
É, as coisas estão indo de mal a pior. E minhas ideias tão se dissipando, daqui a pouco não vou mais saber o que fazer. Se pelo menos eu tivesse força pra tentar fugir, mas não, eu tenho que ficar pegando porrada o dia todo que nem cachorro de rodoviária. Mesmo assim, eu tenho que tentar.
Faz dois dias que tô observando com cuidado o movimento da casa, mas é impossível, cara. Se eu já não aguentava morar nesse lugar mesmo antes de tudo isso, agora mesmo é que eu não consigo ficar mais aqui nem um minuto sequer.
Os dias vão se arrastando, e de repente eu me vejo trancado no quarto, com o sol se pondo lá fora e a velha olhando pra minha cara enquanto eu termino de comer. Depois daquilo, eu ia tomar banho acompanhado de um segurança, e depois eles iam me trancar no quarto até amanhã, quando a velha volta pra me encher mais um dia. Maldita rotina. Maldita família psicótica.
- Certo. O assunto que vamos ver hoje é português, então vamos começar por uma revisão sobre transitividade dos verbos, pra ver se tem alguma coisa que se salve nessa sua mente nebulosa com carência de conhecimento.
E no outro dia, tudo a mesma coisa. O mesmo inferno diário. É incrível como ela insiste tanto nisso de me educar. Espero que o salário dela seja alto. Bom, sua vaca ruminante fedida a bosta, A única coisa que eu quero transitar é um soco na sua cara.
Ela abre o livro, e eu me lembro vagamente de ter ouvido falar algo sobre esse tipo de verbo. Daí, como se eu fosse alguma criança retardada, ela fica lendo leeenta e pausadameeeeente. Vai ver a retardada é ela mesma. Imediatamente eu começo a viajar, a pensar na vida, na morte, na usina que explodiu no Japão, nos pássaros, enfim, afinal até uma televisão dessintonizada é mais interessante que ela.
E assim vai. Meus pensamentos começam a variar loucamente, mas mesmo assim a voz da velha continua entrando nos meus ouvidos, me forçando a escutar sobre verbos. Foda-se os verbos, meu, isso é uma coisa que eu nunca vou aprender, e nem quero mesmo!
"Vamos, não comece a molengar, Sven. Isso é fácil demais até pra você que tem preguiça de pensar. Olha só, o verbo transitivo direto sempre aparece na frase acompanhado de um..."
- Objeto direto?
- ...O que disse?
De repente eu acordo, e vejo a velha com uma cara mais babaca que o normal. Aí eu entendi o que eu falei, e até porque eu falei, e obviamente ela tá chocada demais pra acreditar que eu sabia alguma coisa. E pra falar a verdade, eu também.
- Bom, eu acho ótimo que tenha lido o livro antes, mas objeto direto é só na página 47, e ainda estamos na 45, então por favor se concentre no que eu estou falando.
Daí ela volta a falar aquele monte de abobrinha dela, então eu começo a forçar a minha cabeça antes que eu fique hipnotizado com a matéria chata. Na verdade, aquilo era meio assustador. Nunca fui de prestar atenção nas aulas, e também não acredito em aprendizado por osmose. Mas de um jeito bem inusitado, eu descobri que aquilo tudo tava lá.
Começo a tentar coisas das outras matérias também. Biologia, história. Geografia... Nada. Não que eu não saiba de absolutamente nada, mas não me vem nada sobre isso na cabeça, pelo menos não com a mesma clareza dos verbos...
O que me assusta não é saber que eu sei das coisas. É lembrar o porque de eu ter gravado isso.
- ... Olha só, é muito fácil descobrir a transitividade dos verbos. Você só tem que usar uma regrinha simples: perguntar pra ele.
- Ah, vá! — lembro muito bem de ter falado aquilo. De repente parecia bem nítido, como se não tivesse passado nem umas horinhas. — Agora você vai ficar dizendo que é pra conversar com os verbos? E me diz uma coisa, tem que ser pessoalmente, assim "olho no olho", letra na letra, ou pode ser por msn?
- Anda, Sven, para de graça e se concentra. Aposto que se usar toda essa sua vontade de vagabundear pra alguma coisa mais produtiva, até alguém como você vai conseguir aprender.
Porra, o que ele tava querendo dizer com isso? Que eu não era bom o suficiente pra aprender a matéria dele? Eu lembro que fiquei bem puto nessa hora.
- Bom, imagina que vocês tão numa boa no intervalo, fazendo sabe lá Deus o que, quando algum amigo ou amiga chega com vocês e diz: "Meeeeeu, preciso te contar uma coisa urgente!". Qual é a primeira coisa que vocês pensam?
- Ah... Sei lá, perguntar o que aconteceu?
Como sempre, Akio no topo das paradas. E pra variar, ele tava certo.
- Pois é, Akio. Essa é exatamente a nossa palavra-chave aqui. O que. O que aconteceu, o que houve, o que nós vamos fazer, o que vai acontecer agora, ah, conta logo mano!
Aí todo mundo ficou achando graça. Todo mundo menos eu, né. Ele continuou falando, olhando pra mim dessa vez.
- Tem 3 tipos de verbos. O primeiro deles é o transitivo direto. E daí vem esse "o que", entenderam onde eu quero chegar?
Claro que eu não tinha entendido porra nenhuma. E ele percebeu. E ele ainda tava olhando pra mim.
- Vamos, não comece a molengar, Sven. Isso é fácil demais até pra você que tem preguiça de pensar. Olha só, o verbo transitivo direto sempre aparece na frase acompanhado de um objeto direto. E o objeto direto sempre vai ser, nesse tipo de pergunta, a partícula "o que".
Dali ele passou pro quadro. Engraçado que eu lembro até da frase que ele colocou: "O menino derrubou o prato mais caro".
- Por que eu falo isso, se nem tem o que na frase? Bom, quem derruba, derruba alguma coisa. Daí eu pergunto pra vocês: o que o menino derrubou? O prato mais caro... Objeto direto, verbo transitivo direto.
- E os outros verbos, professor?
- Se as perguntas com o que são do transitivo direto, as perguntas do transitivo indireto vão ser... Indiretas! Eu sei que isso parece idiota, mas é um jeito de lembrar, pensa só... "Preciso comunicar o fato a Rita." quem comunica, comunica a alguém... Vai comunicar o fato a quem mesmo? A Rita, não é? Transitivo indireto... Lembrando que não é só o que e a quem, tem muitas outras preposições que vocês podem usar pra perguntar, tipo quem, do que, a que em que, de quem...
“Legal, dois tipos de verbos. Mas eu falei que tinha, 3, não falei? "Vou entregar este documento para o Caio". Você entrega o que? E entrega a quem? Nesse caso, óbvio demais, é bitransitivo...
- Ô profê, tu tem cara de que manja de um bi...
É, a bichice do Saffron nunca foi novidade pra ninguém. mas todos aqueles pensamentos tavam começando a me preocupar...
Cansei. Não dá mais.
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— Bem, isso é tudo por hoje. — e lá vem a velha me "elogiar". — Dê graças a Deus por eu precisar dormir, Anselm, porque se dependesse da minha vontade de enfiar um mínimo de conhecimento nessa massa nula que você chama de cérebro, você não veria a luz do sol por pelo menos uns 50 anos.
Ah, vá. Sério que você é tão dedicada assim? Por mim você podia pegar toda essa sua vontade de me ensinar e enfiar no cu. Talvez fosse até bom, afinal, vai ver esse seu mal humor todo é falta de rola.
Ela levanta, ainda me olhando meio estranho, como se fosse incapaz de acreditar que um dia eu tivesse sido capaz de aprender algo. Bem, foda-se o que você pensa. Até parece que educação vai me levar a algum lugar... se levasse eu até pensaria melhor nisso.
- Vem cá, o que foi? — pergunto finalmente, já não aguentando mais esse jeito maldito dela me olhar. Melhor achar um jeito de tirar a vista dela de mim, senão é capaz de eu ficar brocha pro resto da vida.
- Nada... só fico feliz de ver que estamos tendo algum progresso. Talvez se você continuasse assim poderíamos chegar a algum lugar...
E depois disso, ela bate a porta, e eu começo a rezar agradecendo a Deus por isso. Sei lá, esse papo de agora foi estranho demais... levanto, encosto o ouvido na porta e dá pra ouvir ela falando com o gorila do lado de fora. Se eu conheço bem a rotina deles, daqui a pouco alguém vai vir me soltar pra tomar banho e depois me trancar de vez no quarto.
Passos de salto agulha no carpete. A bruxa velha tava indo embora. Começo a conferir as coisas, mesmo já tendo arrumado tudo aquilo umas 20 vezes. Olho de relance no quarto, até achar alguma coisa que sirva. Em poucos minutos, a armadilha tava pronta.
De todos os planos que eu já tive, esse é o mais inútil e propenso ao fracasso que eu já tive, especialmente porque não planejei nada... pode me chamar de desesperado se quiser, foda-se, eu tenho uma coisa pra fazer e vou sair daqui. E vai ser hoje.
Daí o cara começa a bater na porta. É agora ou nunca.
- Ô moleque, hora do banho...
Fico calado, esperando alguma reação. Ouço o barulho das chaves, da tranca rodando, a maçaneta baixando...
E ele entra. Vira na direção da cama, porque sempre que ele vem me buscar eu tô deitado, afinal não tem como aguentar uma sessão de tortura diária com aquela velha e ainda me aguentar de pé. Ele vai até a cama, começa a sacudir os lençóis e puxa as cobertas pra tentar me tirar dali.
O problema é que aquilo não sou eu, é só um monte de travesseiros velhos. E quando ele finalmente percebe isso, eu já pulei no pescoço dele, tapando a cara dele com um cobertor mais grosso e puxando ele pro chão. Com o susto, ele cai no chão, e eu aproveito pra pegar o XBOX da minha mesa e tacar na cabeça dele. Paciência, nunca gostei muito da Live mesmo.
Checo rapidamente se o cara desmaiou, e parece ter dado certo. Na queda ele até derrubou o soco inglês. Quem diria, agora aquilo era meu.. por um mísero instante quase me senti poderoso. Guardo no bolso e saio do quarto, já sentindo o corpo tremer, o coração disparar dentro do peito. Se tudo desse certo... mais ou pouco...
Claro que aquele barulho todo da queda do videogame (e do brutamontes) não ia passar despercebido. E eu já tava preparado pra tudo. Ouço de longe outros caras subindo pra ver o que tinha acontecido, e ajeito a pochete dentro da roupa, sacudindo a lata de desodorante na minha mão. Assim que o primeiro aparece, e finalmente percebe o que tá acontecendo, acendo o isqueiro e aperto o desodorante.
As chamas sobem e o atingem no rosto, com o susto ele cai por cima do outro. Meu Deus, é inacreditável, tá dando certo! Só não sei por quanto tempo... por garantia, começo a correr, queimando uma das cortinas e jogando as cadeiras no caminho. Os caras de trás tão tentando apagar o fogo no rosto do cara, mas um passa direto e vem pra cima de mim... eles são grandes, não vai demorar muito pra me alcançar, então corro enquanto penso o que dá pra fazer.
Felizmente, já tô no corredor da frente, logo chego na sala... e por sorte só tem mais 2 caras, um na frente e outro que ainda tá correndo atrás de mim. Tenho que dar um jeito... chuto mais uma cadeira, pulo por cima do sofá e me preparo pra queimar a cara do que tá chegando. Dava pra ouvir a cagada por onde passei, gritos e alguma coisa sobre o telefone...
Bem, agora a coisa tava começando a ficar pesada. Os caras tavam vindo com porretes, com cara de quem queria matar, mesmo. Mas eu também não ia deixar barato. Em vez de continuar indo pra sala, como era de se esperar, e que eu sabai que a essa hora ia estar cheia de gente, corro pra cozinha. As empregadas se assustam, mas foda-se, passo correndo por elas e pego um cutelo pendurado na parede. Só pra garantir, abro a caixa de ferramentas embaixo do móvel e pego um martelo também. Vai saber.
Claro que nesses apartamentos de hoje em dia a cozinha sempre tem uma entrada, e eu ia me aproveitar disso. Aponto o cutelo pra empregada mais próxima.
- E aí, você vai abrir por bem ou eu vou ter que usar isso aqui?
Ela, assustada, corre até a porta e vai destrancando, bem na hora que mais dois caras entram pelo outro lado da cozinha. Ela abre a porta, e eu empurro ela pro lado... a coisa tava ficando feia...
Não ia ter como esperar elevador. Corro direto pra saída de incêndio, travando a porta assim que passo. No fundo, não ia servir pra muita coisa, mas mesmo assim resolvi tentar. Empunho o lança-chamas improvisado de novo, pronto pra atacar quem quer que passasse na minha frente. A essa hora, a coisa devia estar em um nível cataclísmico lá fora, e eu não sei mais o que esperar a cada degrau que desço. Mas era isso, ou eu saía de lá vivo... ou não quero nem pensar.
Uma porta bate lá embaixo. Espio por cima do corrimão, e vejo gente subindo... a polícia. Tá, AGORA fudeu de verdade. Volto a subir, pra sair no andar mais próximo e tentar achar um desvio. Difícil, mas não impossível.
Mais seguranças do Arceus. Desse eu consegui desviar sem muita bronca, mas eu tô começando a ficar cansado... meu peito arde, a respiração começa a ficar pesada demais. Preciso pelo menos de um lugar pra me esconder... não tem como, meu avô manda no prédio todo, só vou poder me acalmar quando cruzar a porta...
É isso. Puxo o martelo do bolso e quebro a janela do corredor. Olhando daqui, parece ser o primeiro ou segundo andar... não tem nada lá em baixo que possa me ajudar, só o concreto da calçada. Pelo menos não tinha policiais. A corda que eu improvisei com os lençóis não ia me ajudar muito nisso, mesmo porque eu não tinha lugar pra amarrar... pensa, Sven, pensa.
E os caras começam a chegar atrás. É, não tem jeito... Não tem o que se pensar aqui. Era tudo ou nada. Vai, Sven, vai dar certo, pensa positivo... você precisa fazer isso...
Um dos caras corre na minha direção. Boto o pé no parapeito e me empurro janela afora. Não consigo sentir nada, só o vento passando por mim como se eu não fosse nada... minha garganta queima, e repente, o chão chega...
Puta que pariu... definitivamente, não é sonho. Se meu corpo já tava ferrado, a queda só ajuda a piorar. Sinto algo no meu braço se mexer de um jeito que eu tenho certeza de que não era pra ser, e não teve como não gritar... minha vontade é de ficar ali deitado no chão, gritando, até que alguém venha me buscar e cuidar de mim, mas se eu fizer isso aí sim vou me ferrar de vez, então tento me recompor com o pouco que sobrou da minha coragem e vou andando pra longe do prédio... aos poucos a movimentação vai ficando pra trás, a bagunça fica pra trás.
É real, mas não consigo acreditar... minha vista começa a ficar meio estranha. Me sinto grogue. Corro pra rua, e vejo os carros pararem. Um branco... um branco, cadê... ali! Corro até lá, e com muito esforço abro a porta de trás. O cara me olha, desesperado, enquanto eu me jogo no banco e tiro do bolso uma nota de cem.
- Mas... mas o que... — ele murmura.
- Por favor... me leva... me tira daqui, pelo amor de Deus... — falo, sentindo a voz quase se prender. — Eu... preciso...
- C-calma, garoto, eu te levo pro hospital! — ele fala, já arrancando com o carro.
- NÃO! — berro assim que consigo. — Aqui... toma... me leva... pra casa.... por favor... pra casa...
Puxo o endereço do bolso, e entrego o papel a ele de um jeito nervoso. Claro que tô com medo, se ele resolver me levar pro hospital, eu me ferro e nada disso vai ter adiantado... mas agora, não tem mais nada pra fazer. Só posso rezar pra ele me deixar no lugar certo.
De repente, o banco do carro parece macio o bastante... a dor é horrível, e o sono começa a me dominar... talvez fechar os olhos por um minuto não seja tão ruim assim. Só um pouquinho... é só até eu chegar...
Me espera, Saffron, eu vou chegar... eu prometo...
Notas finais
E de novo, sinto muito pelo atraso hediondo. Dessa vez o capítulo sofreu não só com a minha falta de tempo habitual (depois de postar isso vou fazer trabalho da faculdade), mas também tive um bloqueio muito sério que desandou toda a minha programação. Por sorte alguns amigos meus do MSN deram sugestões (bem peculiares e mirabolantes, mas enfim), e foi pensando nas dicas deles que esse capítulo acabou saindo.
Sim, o final se aproxima a passos largos... na minha cabeça já sei todos os pontos-chave do final, mas unir todas essas cenas tem me dado um nó mental, e por isso o atraso nos capítulos. Estou tentando me esforçar mais, juro...
De novo, obrigada pelos reviews, fico feliz de ver que tem gente que não só comenta, mas que acompanha cada passo do Saffron e do Sven... saibam que a cada review de vocês o coração de um(a) autor(a) se alegra, e o meu também *-*
Ah, o próximo capítulo tá simplesmente ENORME (pelo menos comparado com a média da fic). Ainda não decidi se vou quebrá-lo no meio pra postar, ou se vou publicar todo de uma cassetada só, mas seja qual for a decisão, saibam que da próxima vez não vai demorar tanto assim!
E claro, gente, eu sei que eu não vivo online aqui no Nyah, mas qualquer coisa, QUALQUER COISA, podem me mandar PM, email, tweet, mensagem subliminar, sinal de fumaça, pombo correio, bilhetinho na porta da geladeira... posso até demorar pra responder, mas prometo que não vou deixar ninguém no vácuo! o/
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