A manhã seguinte surgiu rápido demais, até. Acho que foi porque acabamos indo dormir muito tarde no meio de tudo que aconteceu. Mesmo assim, eu não tava com a mínima vontade de levantar quando abri o olho e vi o quarto todo aceso. Olhei pra perto da porta, e o relógio na parede tava marcando oito da manhã. Puta merda.

Mas tinha alguma coisa estranha ali. Dava pra ouvir um barulhinho do lado de fora, como se estivessem discutindo sobre alguma coisa.

- Ah, vai, eu não vou fazer barulho!

- Já falei que não, eu mandei você ficar aqui! E vá tratando de ficar quieto, não quero bagunça aqui hoje!

Pois não deu tempo nem de pensar. Quando eu tava começando a especular o que era, a porta do quarto abriu, e um moleque loiro de uns 10 anos entrou.

Fudeu. Belo dia pro irmãozinho do professor resolver visitar ele, quando tinha um aluno dormindo clandestinamente na casa dele.

Pois o pirralho não se fez de rogado. Entrou, ficou me olhando, depois foi até o armário e pegou um sei lá o que do meio de um monte de caixa. Ele ia sair, mas parou pra me olhar de novo.

- Tá olhando o que, fedelho? – disparei.

E nessa hora, o Saffron entrou, só de bermuda e com uma cara de amanhecido que dava vontade de rir. Ficou olhando pra mim e pro moleque, sem saber o que falar, até que o loirinho soltou:

- Ô pai, esse menino é seu aluno, é?

Foi a minha vez de ficar chocado? Filho? O Saffron ainda tava na casa dos vinte e já tinha um filho, e ainda por cima daquele tamanho? Puta merda. Tinha alguma coisa errada no mundo.

- É, Leon, é meu aluno, e eu falei pra você não vir acordar ele! Anda, vai lá pra sala brincar!

- Eu disse que queria pegar o álbum do Max Steel! A culpa é sua que fica jogando as minhas coisas no meio dos seus livros! – protestou Leon, já saindo pela porta do quarto. – E aquele menino tem cara de babaca, o Yoh era bem mais legal!

O moleque foi lá pra direção da sala, e eu fiquei encarando o Saffron, chocado. Ele não parecia incomodado com a situação, apenas falou baixinho:

- Desculpa por isso... não quer tomar logo café já que tá acordado? Não tem muita coisa como deve ter na sua casa, mas acho que é melhor do que ficar com fome...

Eu ainda tava tentando digerir o que tava acontecendo ali. Saffron era no mínimo casado. E tinha um filho de dez anos. Isso enterrava tudo que eu sabia – ou achava que sabia dele. Mas ele não usava aliança... pelo menos eu nunca tinha visto ele usar. Será que era divorciado?

De qualquer forma, não adiantava ficar ali pensando. Levantei pra dar sinal de que ia comer, mesmo, e fomos andando juntos até a cozinha. Aliás, juntos é ironia... aquele apartamento era tão apertado que duas pessoas não passavam juntas no corredor. Ainda passamos na frente de mais um quarto, onde ficava o telefone – era provavelmente onde ele tava ontem tagarelando – e tinha um monte de coisa espalhada por dentro, e finalmente chegamos na sala, onde o tal do Leon tava sentado no sofá assistindo desenho e escrevendo alguma coisa no álbum.

Foi aí que descobri que aquilo era um apartamento. Primeiro, que do lado direito, perto do sofá que tava o moleque, tinha uma sacada bem estreitinha, com um daqueles varais de piso e a vista de fora indicava que a gente tava mais ou menos no alto – talvez quinto ou sexto andar. Segundo, porque aquele lugar era pequeno e apertado – só dois quartos – e nem as casas do Minha Casa Minha Vida eram tão espremidas assim. Pelo menos eu achava.

- Filho, vou botar café pro Sven, não vai querer comer nada mesmo? – bem, atencioso o Saffron era.

- Não. – aquele moleque tinha cara de ser uma verdadeira mala. – A mamãe não deixa eu sair de casa sem tomar café. Eu tô sem fome.

- Você falando assim parece até que é a sua mãe que cuida de você... – resmungou Saffron, confirmando a minha hipótese do divórcio. Mas algo no meio daquilo tudo tinha me deixado bem desapontado... eu só não sabia direito o que.

- Pai, você prometeu que não ia mais ficar falando assim dela! – Leon ficou bem irritado com aquilo. – Se num vai cumprir, então não fica mentindo como se fosse o melhor pai do mundo.

- Tá bom, Leon, você finge que não me ouviu falando isso, tá? – e ele seguiu pra cozinha, meio irritado, falando bem baixinho: — E eu finjo que não sei que a sua querida mamãezinha fala mal de mim o tempo todo...

Bom, eu não tava nem aí pros problemas familiares do professor, então tratei de ficar olhando a casa dele enquanto ele entrava na cozinha. A sala era bem apertada, e a mesa de jantar da esquerda tava metade com comida, metade com um monte de papéis e um notebook da Acer. Na estante onde ficava aquele projeto de televisão dele (22 polegadas, e nem era LCD... mais ou pouco e ela seria preto e branco), tinha a prova da minha especulação: uma foto do Saffron abraçado com uma mulher loira, meio com cara de vagaba, e um moleque loirinho no colo dele. Ele tava de aliança na foto.

- É sua mãe? – virei a foto pro Leon, ele olhou rápido e acenou que sim com a cabeça.

O Saffron ainda tava enrolado na cozinha, então decidi puxar papo com o moleque. Deixei a foto no lugar e fui sentar do lado dele no sofá (que não era nem de couro, mas pelo menos era de 3 lugares).

- E você dorme naquele outro quarto ali?

- Eu não moro aqui, só venho visitar de vez em quando. – ele não tava nem olhando pra mim, mas pelo menos tava falando. Não era tão ruim assim. – Papai me deu a chave, aí como eu entro mais cedo na aula dia de sexta e não tem aula de música, eu venho pra cá e ele me leva pro colégio.

- Ah, saquei... – ele era mesmo responsável. E eu ainda continuava estranhando tudo aquilo. Pensei em perguntar mais coisas, mas bem nessa hora o Saffron apareceu trazendo um bule de não sei o que.

- Tá na mesa, vem Sven... – ele foi botando as coisas na mesa, e realmente não tinha muita coisa: era só café com pão. Mas era muito melhor que ficar sem comer, ou ter aquele bando de comida como era o café de casa e ter que aturar a minha família na hora de comer.

Por sorte dessa vez ele separou o café preto do leite, e ainda não tinha colocado açúcar. Tão bom... só tava um pouquinho fraco, claro, mas era quase impossível ele saber o meu gosto pra café, então resolvi perdoar.

- Ô pai, a gente vai sair amanhã? – pela primeira vez em um bom tempo, o moleque parou de olhar a tv pra virar pra gente.

- Vai, vai sim... – reparei que o Saffron comia muito pouco. A xícara dele tinha menos da metade de café da minha, e o pão era metade de uma metade. Estranho. – Só acho que vamos ter que ficar aqui pelo parque mesmo, tem problema?

- Claro que tem! – Leon ficou realmente irritado com aquilo. – Você prometeu que a gente ia no Festival do Sorvete lá do shopping!

- Ué, você quer tanto assim ir ao shopping?

- Claro, amanhã é quando começa a pré-venda do novo lote da coleção Onda 6 do Hot Wheels! – ele abriu o álbum do Max Steel e tirou um folheto com um monte de fotos de carrinhos. — Ainda falta pra mim o Ford Thunderbolt, o Chevy Bel Air e o Lamborghini Reventon Spyder, sem falar que semana passada eu fui tentar comprar o Hollowback e quando eu cheguei na loja já tava esgotado!

- Heh, ainda bem que não sou eu que pago todos esses carrinhos pra você... – Saffron deu uma risadinha. – Fico feliz só de poder te levar pra escolher.

- Então quer dizer que a gente vai?! – o menino começou a pular no sofá. Era por isso que tava tão velho e sujo.

- Vai sim... só que vamos ter que ir de ônibus, vou ter que deixar meu carro na oficina e não sei se seu avô vai poder me emprestar o dele.

- UHUUUUUUUUUUUUU! É mais uma missão para o agente Demeter! – ele se desatou a pular do sofá pro chão. – Mooooooooodo... TURBO!!!

- Filho, se aquieta, não quero os vizinhos reclamando do barulho! Semana passada eu levei uma bronca desse tamanho do síndico por causa daquela sua brincadeira de ficar jogando lata de alumínio na escada.

- Mas eu precisava fazer aquilo! Eu precisava de um efeito sonoro de impacto pra quando o Cytro explodisse o Toxon, que nem no desenho!

- Mas os vizinhos não precisavam ouvir a explosão do Toxon... sinceramente, por que você não escuta nada do que eu te digo, Leon?

A cada segundo que eu passava ali, via que a coisa era bem diferente do que eu imaginava. Geralmente filhos de pais divorciados não tinham uma boa relação com um dos membros da família, e aquilo não acontecia com o Leon. Ele parecia ser tão apegado com o Saffron quanto com a mãe. Na verdade, mesmo que a gente não estivesse conversando nada, a casa dele tinha um clima agradável, com o filho dele se divertindo e achando graça do Hot Wheels Battle Force Five e ele lendo um livro enquanto comia.

Ao mesmo tempo, tudo aquilo fazia eu me sentir um intruso. Aquela era a casa dele, a família dele, enfim, a vida dele – e eu não tinha nada que estar ali, atrapalhando tudo como se eu tivesse algum direito de me meter naquilo. Além do mais, se ele tinha mulher e filho a teoria de que ele era gay ia toda pro saco, e eu não tinha mais nada pra fazer ali.

Eu me sentia de certa forma frustrado. Aquele pouco tempo que passei com ele foi divertido... e eu sentia que assim que fosse embora ia voltar tudo ao normal, e eu sentiria ainda mais raiva dele por ficar me perturbando na escola. Bem que ele podia pelo menos parar de me importunar...

Terminei de tomar café, e o dele ainda tava lá, ele mal tocava na comida. Leon viu que tavam terminando os programas de desenhos, e levantou do sofá.

- Ei, pai, posso pegar seu pc e ficar jogando lá no quarto?

- Tá, pega... – Saffron apenas acenou com a cabeça apontando o notebook em cima da mesa. – E vê se não vai passar o resto do dia no Ragnarok, daqui a pouco a gente vai sair!

Ele pegou o computador em cima da mesa e foi pro quarto do pai. Talvez fosse uma boa hora pra tentar puxar conversa.

- Diz aí, teu filho toca o que?

- Guitarra. – ele parou de ler pra me olhar enquanto conversava. – Ele toca faz um ano e meio já, até que tá se saindo bem...

Não deu pra segurar. Comecei a achar graça na frente dele.

- Que bizarro... um cara todo amarrado e engomadinho como você tendo um filho que toca guitarra. Você não acha isso estranho?

- Ué, fui eu que o matriculei na escola... – ele ergueu uma sobrancelha. – Ele era muito hiperativo, daí a professora dele, que é minha amiga, disse que era bom ele fazer algum instrumento ou um esporte pra liberar um pouco essa energia excessiva dele, e ele melhorou, começou a se concentrar mais no colégio... veja bem, se ele tocando guitarra já faz toda essa destruição, imagine antes!

- Então é você que paga as contas dele, é?

- Mais ou menos... – ele suspirou. Parecia que dinheiro era um assunto bem complicado pra ele. – Pago a escolinha de futebol, as aulas de guitarra e a escola eu não preciso pagar. Antes eu pagava metade do valor porque sou professor, mas esse ano ele pegou uma bolsa de estudos e deu uma aliviada... daí o inglês e o futebol tem que pagar separado, então eu tô pagando um e a mãe dele paga outro.

- Não acham que é muita coisa pra um moleque de 10 anos fazer?

- Bom, eu não acho... eu sempre disse pra ele que se ele estivesse se sentindo cansado que ele podia parar alguma atividade, mas ele tem se saído bem e dá pra ver que ele gosta, sabe? Ele foi comigo escolher a guitarra, quando tem aula ele anda com ela pra cima e pra baixo, e ele gosta de conversar do futebol...

- Você comprou a guitarra também?

- É... – ele tava ficando vermelho. Fiz uma nota mental pra perguntar pra alguém quanto um professor de ensino médio ganhava na Silvério.

- Vem cá, a mãe dele não paga nada? Por que você tem que ficar assumindo tudo?

- Bom, é complicado... — Saffron abaixou um pouco a cabeça e ficou brincando com o pão. Aí eu reparei que ele ainda não tinha comido nada, o café tava frio e ele nem tinha encostado na comida.

Cara, definitivamente TINHA alguma coisa errada com aquele homem. Ele não comia! Das duas uma, ou ele era anoréxico/bulímico, ou tava tão endividado que deixava de comer pra economizar. Mesmo assim, resolvi não falar nada.

- Seu casamento com ela não tem cara de ser o amor eterno que você achava que fosse ser quando casou. – comentei, meio por alto. – Além disso, isso tudo tem cheiro de gravidez precoce...

Ele concordou com uma cara de quem não estava muito feliz com tudo aquilo. Acho que aquele não tinha sido o projeto de vida que traçou pra si quando fez a redação do “o que vou ser quando crescer” na primeira série.

- Eu tava com 16 anos, a gente tinha acabado de se conhecer praticamente, daí já viu né? Fui imaturo demais... sabe aquela história de “nunca vai acontecer comigo”? Bom, eu mandei a camisinha ir tomar banho, e acho que já dá pra imaginar o que aconteceu. – e ele continuava brincando com o pão. – Na nossa primeira vez ela já engravidou.

Reforcei mentalmente pra sempre, SEMPRE usar camisinha quando fosse levar alguma garota pro ginásio. Meu futuro já tava bem encagalhado sem um filho aos 16 anos.

– Vocês casaram mesmo ou só se amigaram?

- Casamos no civil, não teve como fazer uma festa religiosa... – ele finalmente mordeu um pedaço do pão. – Os pais dela botaram ela pra fora, sabe? Meu pai ficou louco quando soube, meu irmão mais velho fez uma cara de quem ia me linchar, mas no fim eles acabaram me apoiando... eu tinha acabado de passar na faculdade, imagina a confusão.

- E aí?

- Bom, ela foi morar na minha casa, como era de se esperar. Comecei a trabalhar pra ajudar a sustentar a gente, porque meu pai disse que só tava emprestando o teto, que eu devia começar a me sustentar sozinho. Trabalhava de manhã e fazia a faculdade à noite, comecei a fazer bico no final de semana... levei dois anos pra dar entrada nesse apartamento, depois me formei na faculdade e aí não parei mais de trabalhar.

Acabei me servindo de mais um pouco de café. Era incrível como ele tinha passado por tudo aquilo e não tinha uma ruga sequer. E mesmo assim, ele viva tranquilão, tendo que criar um filho de 10 anos mais compulsivo por carrinhos do que mulher comprando sapato apenas com um salário de professor.

- E aí você virou professor.

- Demorou um tempinho, eu tive que terminar a faculdade e mais uma especialização... foi mais ou menos por aí que o casamento foi pro buraco.

Imaginava. Uma mãe que podia sustentar coleções inteiras do Hot Wheels não ia deixar o marido morando num ovo de codorna daqueles sem um bom motivo.

- A guarda do moleque é dela, né?

- Aham... tem dinheiro, tem casa grande, carro do ano, o juiz entende que isso ajuda na hora de criar o menino. – era a primeira vez que ele falava aquilo com tristeza. Não poder criar o filho direito feria o orgulho dele. Aquilo sim era um pai dedicado. Por um minuto até tive inveja... – Ainda dei sorte de pegar a guarda conjugada, pelo menos eu vejo ele de vez em quando... ele toma café comigo sexta, dorme aqui em casa e sábado eu levo ele pra passear, converso, essas coisas. A mãe dele apanha ele domingo de manhã.

- Parece legal... digo, vocês se divertem, e tal. Ele gosta de fazer as coisas com você... – virei o café todo, e ele levantou pra recolher as coisas da mesa.

- Ah, mas a gente se dá muito bem, sabe? Mesmo com essa separação, e tudo o mais... eu diria que a gente se entende em tudo, mesmo com a mãe dele falando toda hora que eu...

Aí ele travou. Parece que ele percebeu que ia falar merda e calou a boca na hora. Mas tarde demais, aquela informação me interessava.

- Você?...

- Ah... bom, que eu não... que eu não presto, sabe? – não tinha dúvida, ele tava escondendo alguma coisa. Ele era tão patético que dava pra ver que aquilo não era a verdade dos fatos, apesar de ter alguma coisa a ver com a resposta que ele deu. Então ele realmente tinha um podre... um podre que eu podia aproveitar se quisesse. – A gente não tem se dado muito bem desde que se separou, acho que você percebeu isso também.

Ele foi levando as coisas pra cozinha, e eu fui me jogar no sofá pra ver o que tava passando. De lá do quarto que o Leon tava, deu pra ouvir ele gritando.

- FILHO DA PUTA! VAI JOGAR O MOB EM CIMA DA SUA MÃE, TEMPLAZINHO DE MERDA!

- Ei, Leon, quer parar de gritar desse jeito?! – respondeu Saffron de lá da cozinha. – E eu já falei pra não ficar falando palavrão aqui dentro de casa! Se a tua mãe não te dá educação lá, é problema dela, mas aqui você vai ter de se comportar!

E a casa ficou em silêncio de novo. Só dava pra ouvir o barulho da pirralha na televisão girando a roleta, e de algum vizinho gritando em outro canto do prédio. Troquei o canal, mas como não tinha TV a cabo, naturalmente não tinha nada de útil.

Como o Saffron ainda tava ocupado na cozinha lavando a louça e fazendo mais não sei o que, e o Leon tava com cara de quem não queria companhia naquela hora, resolvi olhar a estante de novo. Ele tinha jeito de quem gostava de fotos: fora aquela da família antes do divórcio, tinha umas tantas outras do Leon tocando guitarra, se apresentando em alguma merda da escola, com uns moleques do futebol, e mais uma do lado do pai, em um parque de diversões. É, eles definitivamente se davam bem.

Tinha algumas com o resto da família também. Uma com um cara ruivo que parecia ser o irmão, uma outra com o pai (que era ele cuspido e escarrado), uma mulher de cabelo castanho que eu chutei que era a mãe, o ruivo, o eremita da minha sala e o Leon. E falando em colégio... não é que ele tinha uma foto com a Sophia?

Em uma das prateleiras, tinha uma mini coleção de álbuns de fotos. Nada pra fazer, ninguém pra conversar, puxei um com capa aveludada roxa e comecei a folhear. Dei sorte: era o álbum de fotos da formatura dele.

Todos com becas pretas e roxas, ele no lado esquerdo e sorrindo que nem um babaca. Imaginei que ele devia ter passado por poucas e boas pra ter conseguido se formar, com uma mulher chata e um filho de sei lá quantos anos pra sustentar. O rosto dele não tinha mudado muito, mas parecia só um pouco mais novo. Ele não tinha mudado tanta coisa de lá pra cá.

E aí a chatice de sempre. Fotos com a família, fotos com os amigos, fotos com um carinha de cabelo comprido, fotos com o filho no colo dele brincando com o diploma. Se aquele fosse realmente o diploma eu sentiria pena, porque o Leon tava apertando aquilo como se fosse fugir da mão dele.

Bem, não era nada muito interessante, mas pelo menos dava pra ter uma noção de como ele era há alguns anos atrás. Nem sequer me dei ao trabalho de ver tudo. Fechei o álbum e virei de pé pra colocar no lugar da estante que encontrei.

Foi aí que alguma coisa escorregou pra fora. Acho que era uma foto que tava solta. Fui me abaixar pra pegar ela do chão, e quase engasguei quando vi.

Era da mesma formatura do resto do álbum, e tinha o professor com o mesmo garoto de cabelo comprido que aparecia em um caralhal de fotos. A diferença é que eles estavam meio abraçados, com o rosto colado, se beijando.

Puta que pariu!!!