Rescue Me
3 Cuidados
Olhei pra fora, assustado, e vi um carro colado na porta de trás do carro do Saffron, ou melhor, entrando na porta. O filho da puta do motorista tentou pegar o rabo de sinal, e o impacto só não veio todo em mim porque o meu professor deu uma virada bem na hora...
Além de não ter limite pra beleza, não tinha limite pra ser bom nas coisas também? O que mais aquele cara fazia, salvava o mundo fora do expediente? Mas que professorzinho metido a sabe-tudo de merda! — Tá ficando doido?! – ele desceu do carro, sem se importar com a chuva, e foi atrás do outro motorista, parecendo bem irritado. – Não tá vendo que podia ter matado alguém?- A culpa foi toda sua! – disse o cara, tentando se fazer de desentendido. – Quem mandou sair do sinal antes da hora? O sinal do meu lado ainda não tava vermelho, tava no amarelo!Tentei achar um jeito de sair do carro, já que a minha porta estava presa. Soltei o cinto de segurança e fui me arrastando pra fora por cima do banco do motorista, com milhares de palavrões na ponta da língua prontos para serem jogados em cima daquele retardado. Mas então, me toquei de uma coisa. Não era eu que estava querendo mais um motivo pra ficar perto do professor por mais tempo? Aquilo era uma chance de ouro...- Eu devia comprar um manual de trânsito pra te esfregar na cara, seu pilantra filho da mãe! – berrava Saffron, enquanto a roupa dele ficava toda ensopada. Aquilo me deixava com mais vontade ainda de me esfregar nele, nem que fosse só uma vez. Fui andando até ele bem devagar, com uma das mãos na cabeça como se estivesse me sentindo zonzo. Era bizarro como ele tava puto e ainda conseguia manter o linguajar. – E se ele tivesse se machucado? Ele é só um adolescente, e você podia ter provocado uma... Sven, volta pro carro, eu já tô resolvendo isso...Eu achava que a expressão tranquilona dele era legal, mas esse semblante de raiva dele era muito foda. Os olhos dele pareciam tão cheios de garra... eu queria que ele me olhasse assim mais vezes, que aquele olhar fosse só pra mim. Que ele olhasse com aquela garra pra mim, e não só pra me esculhambar.- Saffron, eu... não tô legal... – me joguei um pouquinho pro lado, como se aquilo fosse realmente sério. É, eles escolheram o garoto errado pra testar. Logo eu, que sabia como ninguém convencer um professor a me mandar pra enfermaria dormir. Eu estava sendo tão realista que o motorista filho da puta que provocou o acidente estava ficando realmente horrorizado com aquilo. Mas claro, eu não podia parar ali. Ninguém ia me fazer perder mais nenhum segundo que fosse.- Sven? O que foi? Tá tudo bem? – Saffron correu pra mim como se eu estivesse morrendo. E na visão dele eu estava mesmo. – O que aconteceu? Fala comigo!- Não sei... tô meio zonzo... a minha cabeça, eu... quero dormir... – disse, fazendo uma expressão de pobre coitado que fez ele tremer nas bases. O cara lá estava até chegando mais perto pra ver, também.Então, pra encerrar minha atuação com chave de ouro, joguei meu corpo por cima dele, fingindo um senhor desmaio. Bem em tempo, ele me agarrou, me dando meio que um abraço pra não me deixar bater no chão.- Sven! – gritou Saffron, visivelmente nervoso. Eu podia sentir o medo na voz dele. Já pensou a merda que seria pra carreira dele se um aluno dele morresse depois de pegar uma carona com o professor sem que ninguém da família ou da escola soubesse? – Sven, pelo amor de Deus...Ele foi me carregando de volta pro carro, abrindo a outra porta de trás e me colocando deitado ali. As pessoas dos outros carros estavam descendo pra ver o que tinha acontecido, acho até que tinha gente chamando ambulância, e o motorista aproveitou a deixa pra entrar no carro de novo, dar a ré e sair voando dali. Eu teria achando muita graça daquilo se não estivesse tentando seduzir meu professor com o golpe da Bela Adormecida.- O que está havendo? – senti alguém se aproximar. Era voz de mulher. – Ele está bem? Não é melhor chamar um médico?- Não se preocupe, eu já fui voluntário da Cruz Vermelha, sei alguma coisa sobre primeiros socorros. – taí uma coisa nova que eu não sabia sobre ele. Epa... se ele sabia primeiros socorros, eu e a minha atuação estávamos com problemas, ele ia sacar na hora que era fingimento! – Ele deve ficar bem até o médico chegar...Senti ele botando uma mão perto do meu rosto e ele virando a minha cabeça lentamente. Podia sentir ele bem próximo, respirando por cima de mim, parte do corpo dele tocando minha pele de vez em quando. Era a primeira vez que o sentia tão perto. Dava pra sentir o cheiro do perfume dele, e aquilo não era tão ruim assim...- ALGUÉM, POR FAVOR, CHAME UM MÉDICO!!! – a mulher começou a se esgoelar, e eu fiquei com vontade de levantar e enforcar ela. – UM MÉDICO, TEM UM MENINO DESMAIADO AQUI!- Senhora, por favor não grite! – pediu Saffron, num tom de súplica digno de quem está se cagando de medo de coisa ruim. – Ele precisa de repouso! Sven, por favor, reage...Resolvi aproveitar a deixa e ir abrindo os olhos devagarinho, ainda com a tontura deslavada. Fui tentando sentar, botando a mão na cabeça.
- Saffron... ai... – olhei pra ele, e quase tive vontade de dizer que era mentira. A expressão dele era de uma preocupação tão intensa que dava vontade de abraçá-lo e dizer que tudo passou. – Minha cabeça...- Onde tá doendo? O que você tá sentindo? – ele perguntava, me empurrando pra eu deitar de novo no carro. Enquanto isso, a chuva escorria toda pra dentro do assoalho, a essa hora ele tava todo ensopado. A música no rádio mudou pra uma baladinha suave.- Me tira daqui... – pedi, dessa vez não fingindo. Aquela gente toda ao redor estava me deixando com raiva. – Quero descansar...- Não tá doendo nada? E a sua cabeça? Ainda tá zonzo? – ele parecia um pai preocupado. Ou talvez um namorado preocupado, não tenho certeza.- Me leva pra longe... me tira daqui... não quero ver ninguém... a minha cabeça...E fechei os olhos de novo, esperando que ele entendesse o recado. Ele me empurrou um pouco mais pra trás no banco e bateu a porta do carro, e poucos segundos depois ouvi ele entrar no carro e bater a porta da frente. Mais um tempinho, e o carro saiu andando de novo. Nessa hora, o frio da chuva foi me pegando, e aproveitando que já estava deitado ali mesmo, resolvi que tirar um cochilo não seria de todo ruim... ao acordar, estaria numa enfermaria de hospital, com soro no braço e ele do meu lado, cuidando de mim, dando atenção só pra mim.Era difícil de acreditar, mas naquela hora, era tudo que eu mais queria.----------Aos poucos, fui recobrando a consciência. Aquele cochilo valeu a pena mesmo. Senti que estava em algum lugar diferente, o colchão parecia um pouco mais confortável. Macio... não me deu vontade de abrir os olhos. Revirei o rosto um pouco pro lado pra evitar aquela claridade toda e suspirei. Aquele hospital devia ser bom mesmo, pra ter uma maca daquele jeito. Ou será que eu já estava em algum apartamento pra observação?A preguiça foi tanta que a vontade de acordar não vinha. Enquanto isso, eu me perguntava onde estava. Ouvi passos ao redor, e alguma coisa batendo de leve. Dava pra ouvir um barulho: pi, pi, pi, pi, pi. É, acho que era alguma enfermaria, mesmo.Mas aí o bipe parou. Estranho. Das duas uma, ou não era comigo, ou eu tinha morrido. E eu tinha certeza de que estava vivo. Se aquilo não era comigo, então quem...?Abri os olhos imediatamente, pensando que podia ter acontecido algo com Saffron. Mas eu consegui ouvir sua voz, em algum lugar ali perto, enquanto conversava com alguém.- Aham, mas acho que foi só o susto. Ora merda, aquele cara avançou a droga do sinal e ainda por cima bateu do lado do Sven! Imagina a cagada que ia dar se ele tivesse se machucado?Finalmente percebi que não estava em hospital nenhum, muito menos na minha casa. Sentei no sofá e comecei a olhar ao redor, curioso. Percebi que estava deitado em uma cama, em um quarto bem estreito e cheio de livros e jornais nas estantes. Bem na minha frente, um guarda-roupa meio velho e a porta que dava pro corredor. Talvez fosse uma casa.- Não, ele fugiu... o Sven, sei lá, teve uma crise de sei lá o que, desmaiou e eu fiquei com medo... eu acabei trazendo ele pra cá pra casa, fiquei preocupado, mas acho que foi só o susto, ele tá dormindo lá dentro...CA. RA. LHO. A casa dele. Eu estava na casa dele! Aquilo era muito mais do que eu podia sonhar, que eu sequer tinha imaginado quando fiquei esperando por ele no colégio. Eu estava na casa dele, no quarto dele, jogado na cama dele!- Sim, mas ele não pode ficar aqui até lá, né? – ele continuava tagarelando. Acho que era o telefone. – Ele tá bem, ok, mas eu não tenho o número dos pais deles, o que vai acontecer se eles tiverem chamado a polícia?Taí uma coisa que eu não tinha pensado. E se eles tivessem chamado a polícia? Fiquei imaginando uma perseguição policial na minha cabeça, no maior estilo GTA San Andreas, com o Saffron dirigindo o carro dele enquanto eu atirava nos caras.- Ah... você ligou? E o que eles disseram? ...ué, ele disse isso foi?Ok, agora as coisas estavam começando a se complicar. Seja lá quem fosse, essa pessoa tinha ligado pra minha casa e tinha descoberto que eu disse que ia passar a noite fora. Isso não era bom, não era mesmo...- Sim, mas isso não quer dizer que eu vou simplesmente ficar cuidando dele... putz, nem roupa ele tem! Ele vai ficar o resto do dia aqui em casa usando minha cueca, por acaso?Foi aí que olhei pra baixo. E ele tinha razão: eu estava usando uma cueca e uma regata que não eram minhas... por isso eu tava cheirando tão bem. Tinha o mesmo cheiro que senti quando ele me deitou no banco do carro e começou a “cuidar” de mim. Devia ser crime uma pessoa ter um perfume daqueles.- Amor, você não tá entendendo... eu tô com um aluno da minha escola que é no mínimo uns 10 anos mais novo que eu jogado lá no meu quarto depois de ter saído sozinho comigo sem ninguém saber e sofrido um acidente de carro. O que acha que vai acontecer comigo se isso chegar na escola? Vão no mínimo me demitir!Se meu coração acelerou quando vi a roupa, ele parou nesse exato instante. Eu não estava errado. Ele tinha mesmo uma namorada. E eu não passava de um estudante os olhos dele...- Se o professor Arceus souber dessa arrumação ele vai... não. Não. Maninha, escuta bem o que eu vou falar. Isso vai dar merda, tá me entendendo? Ele é filho do dono da escola!Ufa. Era só uma irmã. Mesmo assim, era engraçado... eu nunca tinha ouvido falar nisso. Até onde eu sabia ele tinha um irmão mais novo, que por sinal era até da minha turma... qual era o nome dele mesmo?... não sei, só lembro que viviam chamando ele de eremita lá na sala.- Não interessa se ele vive se metendo nessas coisas, a responsabilidade é minha! – ele continuava protestando. – Além disso, esqueceu que estamos falando do Sven, né?Ué, e o que tinha isso a ver? Levantei pra tentar escutar mais de perto da porta.- Mana, você sabe que ele deve ter a idade do Shian... como você acha que eu me sinto sabendo que ele tá aqui em casa?Ele parou por alguns segundos de falar, e depois baixou a voz de modo que eu tive que quase botar a cabeça pra fora do quarto pra ouvir. Foi difícil, mas deu pra ouvir uma pontinha.- Ele é neto do dono e filho do diretor da cadeira inteira, Soph. Esconder ele aqui com certeza vai dar problema pra mim depois... aliás... eu já tô tendo problemas o suficiente tendo que lidar com o fato de que ele tá aqui na minha casa, deitado na minha cama. Como você acha que eu me sinto?Suspirei. Então era isso. Eu no mínimo era um rebelde sem causa que dava nojo pra ele. Tudo que eu tinha pensado – e sentido – a noite inteira não servia pra nada. Ele era só um cara comum, e pensava a mesma coisa que todo mundo pensava de mim. Que perda de tempo.Levantei, e aproveitei a pausa que ele deu pra olhar um pouco do quarto. Sem dúvida era o quarto dele; estava cheio de livros e gramáticas e dicionários e manuais sobre provas de concurso público. Mais um que queria ganhar dinheiro fácil do governo. Nada pra fazer mesmo, comecei a revirar as apostilas dele. E até que surtiu efeito: bem lá embaixo, embalado dentro de um saco plástico, tava um álbum de fotos. Enquanto isso, ele, lá fora, agora tinha perdido um pouco do desespero e falava como se estivesse desabafando.- Você não sabe como é horrível ter ele por perto, eu nunca sei o que fazer... eu sei que ele me odeia, mesmo assim eu tento conversar com ele, tento agir normalmente com ele, mas sinto que nada do que eu faço dá certo, sabe? Acho que ele nunca vai gostar de mim...Aquela frase me deixou realmente pensativo. Será que aquilo era pra parecer o popular, pra dizer na sala dos professores que ele tinha amizade com todos os alunos? Será que era pra se aproximar do meu pai, ou do meu avô? Ou será que era simplesmente comigo? O que ele teria visto em mim pra querer me agradar tanto assim?- Ah, tudo bem, eu entendo... bem, vou deixar você dormir em paz, então. Desculpa ter te ligado a essa hora, é que eu realmente queria conversar com alguém...Botei o álbum de volta no saco imediatamente e ajeitei tudo como estava. Voltei o mais silenciosamente que pude pra cama, enquanto ele ia se despedido da pessoa e desligando o telefone. Fechei os olhos, fingindo que estava dormindo, esperando que ele fosse vir pro quarto, mas me enganei: pude ouvir os passos dele se afastando em direção a algum outro cômodo.Fiquei mais alguns minutos deitado, sem saber direito o que fazer. Eu já não tinha mais certeza se ia poder seguir adiante com o plano. E o pior, eu sequer lembrava porque tinha começado tudo aquilo afinal. Ele era uma pessoa bem diferente da que todos viam na escola. E o Saffron daquela carona e daquele apartamento era muito mais agradável que o engomadinho que puxava minha orelha no colégio.
Quando menos percebi, ele já estava voltando pro quarto, e dessa vez não deu nem tempo de assumir uma posição defensiva. Ele abriu a porta e me viu sentado na cama, acordado, mas quem mais se assustou fui eu: ele ainda estava com a roupa encharcada, até a meia branca toda encardida.- Ei... – ele acenou pra mim baixinho, e foi andando até a minha direção. – Como se sente? Sua cabeça já tá melhor?- Uhum... – na verdade, vê-lo ali ensopado me deixou bem sem graça. Eu já não entendia mais nada. E a coisa piorou mais ainda quando eu vi o que tinha na mão dele: uma caneca de café.- Trouxe pra você. – ele botou a caneca na minha mão e ficou me encarando enquanto mostrava um comprimidinho. – Só pra ter certeza, sabe?Não sei. Aquilo tudo parecia estranho demais. Mesmo assim, tomei o remédio e o café. Pena que tava doce. E um pouco fraco demais pro meu gosto.- Já tô bem, valeu. – entreguei a caneca vazia de volta pra ele.- Eu consegui o contato dos seus pais, o seu pai disse que você foi dormir na casa de um amigo. – ele estava realmente sério enquanto falava isso.- E daí? Vai me passar sermão por causa disso? – naquela hora, eu não estava nem um pouco a fim de discutir sobre aquilo. Mas se ele ia puxar esse assunto, eu já ia me preparando logo.Só que o que eu achei que fosse levar um bom tempo acabou sendo mais rápido do que eu imaginava. Ele passou a mão no meu rosto e suspirou.- Dos males, o menor... pode dormir aqui, se quiser. Você já tá na rua, mesmo... amanhã de manhã você vai embora pra casa. – aquilo me fez sentir algo que não consigo nem imaginar como se descreve. Eu olhava pra ele, sem saber como reagir. — Pode pegar um cobertor extra aqui no armário se precisar, eu botei sua roupa pra lavar porque tava toda ensopada...- Eu achei que professores fossem pelo menos um tanto inteligentes... nesse tempo todo que você teve pra me trazer aqui, lavar minha roupa e ligar pra minha casa não passou nem um minuto pela sua cabeça tirar essa roupa e botar algo seco?Eu não sabia porque tava sendo tão grosso com ele. Na verdade, eu tava puto. Tava morrendo de vontade de levantar e dar um soco nele. Por que?...- Ah... – ele parecia ter percebido aquilo só agora. – Não tem problema, eu boto na máquina quando for bater o outro uniforme da semana.Isso não tem nada a ver com o uniforme, seu merda, tem a ver com você!- Olha, eu tô com dor de cabeça. Dá pra por favor cair fora e me deixar dormir?Saffron fez uma expressão surpresa ao me ouvir falar aquilo. No entanto, ele não disse uma palavra sequer, só acenou com a cabeça e foi saindo do quarto.- Qualquer coisa pode me chamar, viu? – ele apagou a luz e deixou o ventilador na potência mais alta. – Eu vou dormir na sala, se você sentir dor ou calor ou frio ou...- Porra, eu não sou surdo! Se manda logo, eu tô com sono!Ele acenou com a cabeça de novo e bateu a porta devagarinho. Eu só fiz deitar a cabeça no travesseiro.Filho da puta...
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