Rescue Me
13 Concluindo o Serviço
Notas iniciais
(eu tinha escrito um monte de coisa aqui e a droga do post do Nyah de pau, então vou tentar ser mais sucinta dessa vez...)Não estranhem se o tom da narrativa desse capítulo parecer diferente, é porque ele foi feito numa parceria muito louca com os donos dos personagens Kamus, Altair, Sven, Saffron, Aki, Alia e Hexion. E mais uma vez agradeço a eles, e a todos os outros que aparecem aqui, por ter me emprestado seus filhos pra popular meu mundinho (yaoi) ♥~ Amo vocês!E assim a RM vai entrando na sua fase mais obscura e violenta... e essa é só a ponta do iceberg. Mesmo assim, estarei esperando críticas, elogios, sugestões, pedradas... acolherei todos com carinho. (Só não vale xingar a mãe, né gente?)
Mas então porque?...A cena vinha na minha cabeça pelo menos umas cinco vezes ao dia, e sempre nas piores horas. Num instante, eu tava gritando com ele por ter resolvido me abraçar simplesmente do nada e me encher os ouvidos com aquele papinho sobre o Akio. Deus sabe o quanto eu odeio ouvir o nome dele.- Quem você pensa que eu sou, algum tipo de substituto barato pra quando aquele moleque não tá por perto? — gritei, enquanto ele ainda tava tentando se recuperar do soco que eu dei no estômago dele. — Eu não tenho culpa se o seu amantezinho de pinto pequeno não tem peito pra segurar a barra que vocês tem que encarar!O Saffron ficou me olhando, pasmo, acho que mentalmente se perguntando de onde eu tinha descoberto tudo aquilo. Depois ele se levantou (o soco fez ele desabar no chão da sala), respirou um pouco e me encarou.- Você não entendeu nada, Sven... — disse ele, ainda meio zonzo. — Aki e eu... Estamos tentando resolver um problema... Estamos em uma fase um tanto difícil, eu esperava que você entendesse isso...Entender como? Aquilo não entrava na minha cabeça de jeito nenhum, e nem eu queria que entrasse. Na raiva, eu dei um empurrão nele, e fui andando até a saída. E ainda falei, sem olhar pra trás:- Eu não sou terapeuta nem psicólogo pra ficar entendendo o que se passa na sua cabeça e te ajudar a resolver seus problemas. E outra, você não é tão íntimo assim do Akio? Chama ele pra te entender, então!Sim, eu tava muito puto. Nessa hora, acho que eu já tava na faixa do ódio cego e mortal, sei lá. O que ferra tudo é que nessa hora ele me puxou pelo braço, fazendo eu voltar, agarrou meus dois pulsos e me pregou na parede de novo, fazendo eu encarar ele.Ele era forte até demais pra um professorzinho de merda que nem ele, então eu acabei não conseguindo me desvencilhar dele. E quanto mais eu tentava me debater, mais ele chegava perto, pra me prender ali não só com as mãos mas também com o resto do corpo também. - Será que você é tão burro assim pra não conseguir entender, mesmo com todas as indiretas que eu dou, que a pessoa que eu quero é você? — ele disse, usando um fôlego só e tirando o meu por completo. — O que mais eu vou ter que fazer pra fazer você entender que eu fico louco só de imaginar você aqui comigo?...Óbvio que eu não tinha nada pra dizer naquela hora. Aquilo me pegou completamente desprevenido. Eu tava com a guarda mais baixa do que soldado Taleban encontrado pelos americanos bem na hora que aquela ração estragada resolve agir. E eu nem tinha o que fazer pra reagir, afinal. Eu tava bem preso, com ele segurando meus braços, respirando praticamente o mesmo ar que ele, e com o corpo dele prendendo o meu na parede...Ele foi chegando mais perto, e eu não fiz questão nenhuma de afastá-lo dali. Fechei um pouco os olhos, e tudo que eu pude sentir foi a boca dele colando na minha, o peito dele encostando no meu, e uma das coxas dele se esfregando entre as minhas pernas. O resto não interessava mais. Aos poucos os dedos dele foram afrouxando, e os braços dele desceram pra encostar no meu peito também, enquanto os meus iam enroscando a cintura dele, puxando ele o mais perto possível. Senti um solavanco, e percebi que ele tava aos poucos me levando na direção do sofá, como quem quer continuar aquilo tudo com um pouco mais de conforto e menos de pressa.O meu corpo foi deitando, e ele ficou por cima. Dava pra sentir o peso dele me prendendo no sofá, mas eu não podia dizer que aquilo era desconfortável. Pelo contrário, eu tava gostando bastante daquilo...E bem, nessa hora eu abri o olho de novo, e vi que tava o tempo todo no meu quarto, na minha cama, com o short um pouco mais melado que o normal.Não que tudo tenha sido imaginação. A visita ao Saffron e a discussão com ele foram bem reais... O problema é que, na hora de ir embora, ele realmente me deixou ir, e eu caí fora de lá mais rápido que o Mario depois de entrar pelo cano. E pelas últimas três noites, eu tenho sido "presenteado" com a cena devidamente reformada e adaptada. Eu sabia muito bem por que aquilo tudo tava acontecendo. Aos poucos, eu ia me convencendo do que eu realmente queria com o Saffron. E enquanto isso, eu ia acendendo um cigarro, enquanto esperava a hora de agir.
Tenho que admitir que não era a primeira vez que um homem me chamava a atenção daquele jeito. Não... Não era isso. Pra ser bem sincero comigo mesmo, apenas homens me chamavam a atenção daquele jeito. Claro que eu gostava de mulheres, especialmente as gostosas e peitudas, mas era de outro jeito, e pra outra coisa. O Wolf, de matemática, também mexeu comigo na 8a série, mas acabou ali. Eu nunca tive coragem de sequer falar pra ele sobre aquilo... E mesmo que eu falasse, o que poderia mudar?Só que o Saffron era diferente. E eu não sabia explicar muito bem o porque. Talvez fosse porque eu tinha certeza do caso dele com o Akio. Isso me dava uma certa chance de agir... Pelo menos ele não parecia do tipo que ia pisar em mim ou me desprezar se eu resolvesse tentar apressar um pouco as coisas. Afinal, se ele tinha peito pra encarar um relacionamento com um moleque do ensino médio, eu não tava tão atrás assim nas minhas chances. E pra isso, eu só precisava dar um primeiro passo muito simples: me livrar do filho da puta do Akio.Por sorte, o meu alvo era um paspalho que nem abria o olho direito. E derrubar ele do cavalo ia ser muito fácil: depois de 2 dias seguindo ele, eu já tinha uma boa noção do que ele fazia e do que não fazia. E em meio às idas e vindas dele, acabei descobrindo que ele tinha duas casas. Na primeira ele morava com o pai, segundo o que um certo informante no setor de matrícula me passou. E na outra... Bom, era o que eu ia descobrir.Eu já tava na porta daquele apartamento há mais ou menos três ou quatro horas, esperando do outro lado numa boa, em um lugar onde ninguém ia poder me ver e com um maço de cigarros cheinho. Eu tinha visto ele entrar lá mais ou menos uma hora e meia depois do final da aula, o que indicava que ele tinha ido em casa fazer alguma coisa e depois ido direto pra lá. E ele entrou sozinho, tinha a chave, então era algum parente ou amigo dele. O que eu precisava era de um motivo bem convincente pra afastar ele do Saffron, e eu já tinha esse motivo.E mais quinze minutos depois, a porta do apartamento foi abrindo, e ele saiu todo contente de lá de dentro, como o bobo-alegre saltitante que ele sempre era. Essa era a minha hora perfeita pra agir. Pelos meus cálculos, ele trancaria a porta com a chave, colocaria o casaco, e iria embora levando a mochila do colégio e mais uma sacola de supermercado contendo qualquer coisa que não me interessava saber o que era.O problema é que, como tudo na minha vida, meu planejamento também deu errado. Assim que ele cruzou a entrada e terminou de botar o casaco, a porta abriu de novo, e deu pra eu finalmente descobrir quem era o morador de lá. Puxei meu binóculo e tratei de olhar pra lá. E quando eu vi, não deu pra acreditar.Alto, cabelo azul, jeito meio de bad boy misturado com um eremita autista. Era o irmão do Saffron, o Shian. E não era só isso. O Akio virou pra ele, com o jeito babaca e feliz dele, e os dois se abraçaram ali mesmo, no corredor, sem ligar se tinha gente vendo ou não.Aquilo tava muito errado. Devia ser algum tipo de engano. É, talvez fosse eu que não tivesse entendendo...Aí eles se beijaram, e eu me toquei de que que tava entendendo bem até demais pro meu gosto. O Akio não era simplesmente amante do Saffron. Ele era amante do Saffron e do irmão mais novo dele. Mesmo assim, aquilo tava virando minha cabeça. Ele era gay, ele tinha um caso com o professor, e agora chifrava a porra do professor com o irmão mais novo dele?!Pois eu não ia simplesmente deixar aquilo assim. Assim que os dois terminaram de se chupar no corredor, o japinha se despediu, e foi andando pra saída que sempre tomava, a escada. Essa era a minha deixa. Esperei a porta do apartamento do eremita bater, recolhi minhas coisas e fui andando na mesma direção. Menos de 2 minutos depois, lá tava eu no vão da escada, longe da vista de todo mundo e com o Akio travado na minha mira.Ele não tinha terminado de descer nem até o segundo andar, quando eu escorreguei um corrimão e pulei o outro pra cair na frente dele. Ele, obviamente, deu um grito que mais parecia o de uma bichinha — porra de moleque que fica dando pinta por qualquer merdinha — e prendi ele na parede.- A... Ah... É... Sven?! — ele falou, completamente apavorado. Dava pra ver que ele tava se borrando de medo. — O que... O que está fazendo aqui?- Vem cá, até quando você acha que engana os outros com esse seu teatrinho besta? — eu falei logo de cara, sem intenção nenhuma de ser gentil. — Achou que ninguém ia descobrir o seu segredinho? Bom, se fudeu, achou errado...Não é como se o meu plano não fosse aquele desde o começo. Eu sabia que ele fazia todos aqueles passeios escondido, e já tava pensando em confrontar ele com aquilo desde o começo. Mas aquilo tinha me deixado com um ódio que eu nunca tinha sentido por ninguém antes. A vontade que eu tinha era de quebrar a cara dele ali mesmo, sem pena nenhuma — mas não ia ser suficiente. Eu tinha que ter certeza de que ele não ia entrar mais no meu caminho, e aquela era a melhor hora possível pra garantir aquilo.- E-e-eu não sei do que você está falando!!! — disse ele, desesperado, mas sem olhar pra minha cara. Aquilo me irritou tanto que eu soquei a parede bem do ladinho do pescoço dele. Ah, se eu tivesse uma pistola nessa hora...- Ah, não sabe? — repeti, bem lentamente, encarando ele nos olhos sem medo nenhum de demonstrar que queria matar ele lenta e dolorosamente. — Eu vi, Akio. Suas conversinhas, suas idas e vindas, suas visitinhas íntimas com ele... Por quanto tempo você pensou que ia levar todo mundo na sua mão até que te descobrissem?- Sven, eu... Eu juro que...O outro soco foi bem mais perto da cara dele, e devo admitir que foi muito difícil fazer a mão desviar dali. Ah, que vontade de esmagar aquelas bochechinhas brancas...- Tudo bem então... Devo ter me enganado. Não sei de nada, mesmo. — e recuei um pouco, só pra dar a ele aquela falsa sensação de segurança. — Nesse caso, acho que você não vai se importar se eu sair mostrando umas... "coisinhas" suas pro pessoal lá da sala, né?...- NÃO!!! — ele gritou, afoito, e me puxou de volta. Era justamente o que eu queria que ele fizesse. E ele, claro, percebeu que se derrubou e abaixou a cabeça como o típico paspalho covarde que ele era. — Eu... Eu faço qualquer coisa, mas não conte pra ninguém... Ninguém pode saber disso, senão...- Senão o que? Sua vida vai acabar? — cheguei mais perto e falei no ouvido dele. — Pois eu vou te dar duas dicas, só duas... Cai fora da vida do Saffron. Não fala mais com ele, não chega nem muito perto dele, não se mete com nada que tenha a ver com ele... E tem mais, experimenta contar dessa nossa conversinha pra algum deles, pra ver se a sua reputação vai durar no colégio... Porque se você contar, eu vou descobrir. E se eu descobrir, vai ser pior pra você.O Akio a essa altura tava com cara de quem queria chorar. Meu maior medo era que ele resolvesse usar a reputação de faixa marrom do time de Karatê do colégio contra mim, mas por sorte apavorei ele o suficiente antes que ele pudesse pensar nessa ideia. Dei dois passos pra trás, pra indicar que ele tava liberado, e apontei a escada pra ele se mandar logo dali. Até pensei de novo em meter um soquinho na cara dele que nem eu fiz no estômago do Saffron, mas achei que isso ia dar bandeira demais.Ele foi descendo a escada correndo, e saiu mais rápido que uma bala. Esperei dar alguns minutos e fui embora também, com aquela sensação de dever cumprido. Olhando no térreo do prédio, não vi nenhum sinal dele, e isso era bom. Talvez ele não passasse de um covarde, afinal... isso eu ia descobrir nas próximas semanas de aula.O problema é que as aulas seguintes não vieram pra mim... pelo menos, não do jeito que eu esperava. ----------Se tinha um dia que eu não tava a fim de assistir aula, era aquele. Uma semana se passou depois da minha visitinha ao Akio, e eu nem tava indo pro colégio direito. Quando fui, assisti um pouco da aula só, e depois fiquei vadiando por aí. Só que, se eu quisesse mesmo que minha ameaça valesse, eu ia ter que ficar de olho pra ver se tinha surtido efeito. E nada melhor pra confirmar isso do que duas aulas de português com o professor Saffron Demeter.A tarde já começou bem. Foi uma luta pra sair da minha cama e me arrumar pra ir pro colégio. Aliás, nem me arrumei, na verdade, só troquei a camisa e me mandei. Não é como se alguém fosse reparar, mesmo...
Cheguei bem no finalzinho do intervalo, a campainha tocando e o pessoal se habilitando pra entrar na sala. Deixei aquele bando de aluno baba-ovo entrar, sem a menor pressa. Claro que o primeiro da turma foi o Akio, que já tava lá dentro, sentadinho, enquanto o paspalho do professor ia arrumando a mesa dele.Tá, nem todo mundo era tão disciplinado assim. Enquanto o Saffron ia escrevendo o tema no quadro, e todo mundo ia tirando o caderno, mais um tinha ficado de fora. Kamus. Pra variar, ele com um sobretudo preto de couro, cheio de bolso, parecendo mais aquele Mercador do Resident Evil. E ele não tava nem aí também, tava lendo num sei o que no iPad dele, enquanto tocava uma música de alguma banda underground altão pra todo mundo ouvir.Bom, eu não ia ganhar nada admirando a beleza do Kamus – ou a falta dela. Entrei na sala, sentei no lugar de sempre (o mais do fundo possível), e assumi minha pose de sono habitual. Encostei a cabeça na parede, com a cadeira meio inclinada, enquanto o bosta n’água do professor tentava chamar a atenção do pessoal.Eu continuava não acreditando na cagada que ele tinha se metido. Aquilo ainda tava me deixando revoltado e confuso. Como ele tinha conseguido se apaixonar justamente por um moleque que traía ele com o irmão mais novo? Devia ter mais gente no mundo que ia saber cuidar dele, e não um fedelho patife metido a Justin Bieber como aquele ali.E falando em gente que não prestava, o Shian não tinha aparecido até agora. O último a entrar na sala foi o Kamus, que foi andando pelos corredores com um sorriso tão sinistro que até olhei duas vezes pra parede pra ver se não tinha algum detonador (ou até um botão que eletrocutasse alguém da sala) escondido.Assim, a porta fechou, e a aula começou...- BAM!... ou não. A porta simplesmente voou na dobradiça e bateu com tudo na parede, e aí um pé coberto por um coturno preto apareceu. Todo mundo ficou calado, enquanto o cara mais convencido, mais filho da puta de todo o colégio ia entrando como se estivesse na sala da casa dele.Hexion Lionheart. O cara pagava de metaleiro fodão, mas pra mim, ele com aqueles óculos escuros e a corrente de aço no pescoço não passava de um pagodeiro de quinta categoria. Se bem que pagodeiros não usam cabelo verde comprido, nem jaqueta de motoqueiro...O cara foi andando pelas cadeiras, escolheu a que ele sempre usava (quando vinha pra aula, aproximadamente de 3 em 3 meses), passou a perna por cima e sentou, se achando o rei do barzinho. Claro, ele tinha síndrome de pagodeiro, não dava pra esperar coisa melhor. Enquanto isso, o choque do pessoal ia passando, e um dos moleques lá na frente já tava patetando pichando o tampo da mesa.Bando de idiotas. Aquilo só me fazia lembrar que eu odiava aquela sala. Naquela hora, se eu tivesse uma bomba ali, ia ter o maior prazer de jogar bem no meio da sala, só pra matar todo mundo. Levantei um pouco a cabeça, e fiquei olhando o Saffron escrever alguma coisa no quadro como se nada tivesse acontecendo. Puta professorzinho sem moral esse...Mesmo assim, era o professorzinho sem moral que eu visitava quase todo dia. E era a única razão pela qual eu tinha ido na droga da aula, porque eu queria ver se a armadilha contra o Akio ia resolver meu problema.Mas tinha mais uma coisa que eu não imaginava. Tava tudo muito bem, se não fosse por aquele viado de preto sentado ali do ladinho do namoradinho Hexion, me olhando. O Kamus me encarava com um sorrisinho, como quem tava esperando alguma coisa. - Professor, que horas são?A aula mal tinha começado, o Saffron não tinha aberto a boca pra falar de português não fazia nem meio minuto quando o moleque lá da frente, o Altair, levanta a mão e solta essa pérola. Não que eu tivesse a fim de assistir aula, mas parece que tem gente que pede pra ser chamado de idiota...- É hora de você ficar quieto e prestar atenção na aula — respondeu o professor, com uma cara de patife que até me fez dar vontade de achar graça, bem lá no fundo. Era o que eu diria se estivesse na pele dele. — Agora, o nosso assunto de hoje é o que está aqui no quadro, concordância verbal. Concordância verbal nada mais é do que...Dessa vez acho que foi uns 15 segundos de aula. Quando o graaaande professor finalmente ia começar o assunto, uma barulheira de guitarra com bumbo duplo e uma voz estridente começaram a soar do canto direito da sala. O barulho foi tão medonho que deu pra ver o Saffron dando um pulo. Tinha que ser viado, mesmo, frouxo desse jeito...Todo mundo (menos eu) ficou olhando pra ver de onde vinha aquela merda, até que deu pra localizar o Hexion tirando um dos fones de ouvido da orelha e botando um celular. Claro, pagodeiro não sabe o que é música, então qualquer porcaria barulhenta que tenha som de tambor deve servir. O barulho da "música" parou, mas a porra da voz dele continuou atrapalhando.- Fala. Não, gata, se liga, você é domingo. Hoje eu marquei com outra...A essa hora tava todo mundo ou meio assustado olhando como aquele merda fazia o que queria, ou meio assustando olhando pro professor que não fazia nada, ou fazendo coisa mais interessante, como o Altair desenhando na mesa e a Lurdinha mandando SMS pra alguma amiga da sala ou algum moleque pra quem ela ia dar no banheiro.- Assim fica difícil. Mas vamo fazer o seguinte, passa lá em casa hoje...- Professor, bota ele pra fora! — falou o Akio, sempre pagando de representante de turma.- É, professor! — completou o Altair, só pra incrementar a baderna. O Hexion obviamente nem ligou, e já tava terminando a chamada como se tivesse sozinho no camarim dele antes de ir tocar pagode no show.- Hexion, é proibido atender o celular em sala de aula... – claro que o sem-moral não ia conseguir nada.- Isso, e leva aquilo também. – continuou ele, sorrindo pro telefone. – Hehehe... bye, bye... – e bateu o telefone com força. – Vadia... Vendo que o maloqueiro profissional tinha dado sinal de que ia se aquietar, o Saffron voltou a olhar o material dele, tentando voltar pra onde parou.- Então... o que eu tava falando... ah, tá – ele deu uma olhada rápida no livro, respirou e retomou o discurso batido. – Concordância verbal é a concordância que existe entre o sujeito da frase e o verbo.Deu pra ouvir bem baixinho o Altair falando lá na frente.- Professor, você é um medroso.Aí a aula parou de novo. O bosta n’água do professor foi andando na direção dele, sério.- Disse alguma coisa, Altair?- Não, nada.Claro que uma oportunidade dessas eu não ia deixar passar NUNCA.- Esse aí só não faz algo por falta de masculinidade, mesmo.- Ah, tá, isso já tinha percebido...E assim a bagunça foi tomando conta de novo. Povo adora uma chance pra avacalhar, mas é palerma demais pra criar uma.- Você parece bem interessado na minha masculinidade de repente, Sven...- Olha, se isso é algum tipo de convite, sinto muito dizer que isso não faz parte do meu negócio.A sala toda começou a berrar, querendo ver mais briga. E eles iam ter, porque bem nessa hora o Hexion retirou os fones de ouvido.- Que merda, acabou a bateria... – disse. – Hey, Kamus, que horas aí? Quanto tempo vou ter que ficar aturando essa merda de aula?- Hexion, dá pra se aquietar aí? – berrou o Saffron, começando a perder o pouco controle que ele ainda tinha da situação. Sorte que o guardinha tava lá pra ajudar ele.- Se não quiser ficar, tem a porta ali... – falou o Akio, sempre se metendo onde não deve.- Qual é, irmão, tá de onda? – berrou o Hexion de volta, e a turma foi começando a se aquietar pra assistir. Ele levantou, e aquilo era sinal de perigo. – Tá me chamando pra mão?- Não estou te chamando, estou falando pra você ir embora mesmo.Agora o negócio tava bom. Com dois passos, o pagodeiro vagabundo metido a badass carioca atravessou a sala, pegou o Akio pela gola da blusa e levantou ele da cadeira, como se ele fosse um boneco de pano. Tive que virar o rosto pra não dar risada ali mesmo.- Qual é, irmão, tá achando que tá falando com quem?- EI! – quase tão rápido quanto o maloqueiro, o Saffron atravessou a sala também e foi lá apartar os dois. O pessoal da sala começou a bater nas carteiras, pedindo briga, e eu é que não ia ficar de fora do circo. O Hexion viu o professor chegando e deu um pisão no pé dele pra fazer ele recuar, mas ele além de ter continuado ali ainda fez uma careta. Coisa de frouxo, mesmo.- Ah, isso vai ser divertido... – o Kamus levantou também, pra ver melhor a onda.- Quem te deu permissão? – falou o Akio, olhando com aquele jeitinho boiola dele de quem é superior a todo mundo. – Me solte, AGORA!- Hexion, larga ele! – pedia o professor, tentando se fazer ouvir com a algazarra toda.E o mais incrível, não é que o Hexion largou? Ele largou... com uma rasteira que jogou o Akio de cabeça contra a cadeira. Ele caiu feito fruta madura no chão, só faltou se espatifar.O Saffron não perdeu tempo e tratou de ir lá acudir o Akio. Enquanto isso, o Altair se distraía jogando bolinhas de papel na cabeça das pessoas, até do Hexion. A Lurdinha agora tava fofocando com a Maiara como seria se o Fiuk e o Justin Bieber cantassem juntos.- Ei, Akio, tá tudo bem?...- Tá sim... – ele foi levantando meio mole. Meu, aquilo sim era uma aula boa! – Não vou brigar aqui porque é contra as regras...Não dava mais nem pra fingir que a classe era séria. Eu tava rindo demais daquilo tudo. Akio tava se estrepando todo, e nem era por minha culpa! Se todas as aulas de português fossem assim eu nem ia reclamar tanto de ter que ir pro colégio...- Ei, Hexion, — chamou o Kamus, sorrindo quase tanto quanto eu. A diferença é que eu não era um psicótico histérico. – Deixa um pouco pra mim se for quebrar tudo...- Hexion, eu acho bom você se botar pra fora dessa sala! – berrou o Saffron, agora completamente puto. Nem lembrava que era tão bom ver ele naquele estado de raiva. – E todo mundo, pro seu lugar!E assim foi todo mundo se ajeitando. Bando de gente pau-mandado, viu?- Já acabou? – lamentei baixinho, o suficiente pra até o porteiro da escola ouvir.- Qual é, irmão? Quer continuar o show? – o Hexion foi virando pra mim. – Só vir, rapá! Onde tem vaga pra um tem vaga pra dois!- Sven, quer parar de graça você também? – o Saffron virou pra mim com cara de quem ia me matar.- Professor, o Sven não fez nada! – e não é que o Altair servia pra alguma coisa? – Por que não chama a atenção do Hexion?O Hexion ficou encarando o professor, que por sua vez ficou encarando ele de volta. Foi a coisa mais bizarra que eu já vi na minha vida. Daí o aluninho machão foi andando na direção dele, com a cara mais franzida que criança quando come pimenta, se encarando como se fossem brigar a qualquer momento.- Eu mandei você sair... – disse o loiro aguado.- Ah, manda o Akio pra fora também pros dois terminarem... – falei, sentando na mesa. – Ou pro Hexion terminar o massacre...- Tá de sacanagem, né? – disse o maloqueiro rapper do morro, ainda encarando o Saffron. – Eu já quase não venho, e tu ainda quer me botar pra fora?- Se for pra vir arrumar confusão, é bom que não venha mesmo!- Confusão? Essa palhaçada? Mas tu é um viadinho mesmo, hein?... Isso foi só uma brincadeirinha!- Isso aqui é uma sala de aula, não é lugar pra brincadeira, muito menos desse tipo!- Okay, okay, como queira, senhor professor... — Hexion largou-lhe uma cuspida no chão, bem pertinho do sapato do Saffron, e se aproximou um pouco mais dele, pra falar bem perto do ouvido dele, mas num tom que ficou bem audível pra todo mundo da sala. — ...Depois vou te mostrar o que é uma confusão.E dito isso, ele se virou e foi andando pra saída. Uau. Que dia! Justo quando eu tinha esquecido o celular pra filmar... ah, não, a Rita já tava fazendo isso.- Hm? Já vai? – lamentou Kamus. – Justo quando tava ficando interessante?- Isso não terminou, SENHOR Hexion! – disse o Akio enquanto ele ia saindo. – Quando sairmos daqui, vamos terminar isso!- Akio, isso aqui não é um ringue! – berrou o Saffron.- Sim, por isso que não vou brigar aqui. – se justificou o japoronga, como se fosse a coisa mais normal do mundo. - Ah, mais uma cabeça pra minha coleção... – falou o Kamus, aparentemente bem satisfeito. Confesso que eu ia ficar bem satisfeito também...O Hexion parou no meio do caminho e deu meia-volta pra dentro da sala de novo, em um momento que foi tão cheio de tensão que todo mundo que tava só assistindo puxou o ar meio apreensivo, e se o lugar não fosse aberto eu ia correr o risco de morrer por asfixia. Todo mundo, até eu, achou que ele fosse voar no pescoço de galinha do Akio ali mesmo, sem mais delongas. Mas aí, ele desviou do caminho e foi andando até o Kamus. Os dois começaram a conversar aos cochichos, e aos poucos foi todo mundo desviando deles. As meninas voltaram a fofocar, os caras tavam reprisando os vídeos pra saber qual ficou melhor, e o Altair já tava transformando o desenho na mesa dele em uma réplica do teto da Capela Sistina.
- Akio, você é o representante de classe, — falou o Saffron, respirando um pouco e voltando pra frente da sala. – Devia dar um exemplo melhor...- Por isso mesmo! – respondeu ele prontamente. – Tenho que manter minha dignidade com relação a isso!- Você devia manter é sua vontade de estudar!- Tenho que zelar pela classe, ensinando para que maus exemplos como eles não façam isso de novo!E nessa hora, Akio apontou brevemente para o Hexion, sem olhar muito. Talvez fosse melhor assim. Do meu ângulo, dava pra ver o Kamus tirando um facão e passando discretamente pro parceiro de crimes, que foi logo escondendo aquilo entre a calça e a jaqueta. Vai ver aquilo era pra cortar a cana – ou os inimigos — no caminho da casa dele...- Vou sair. – avisou o Hexion, atravessando a porta com cara de quem nem ligava se iam responder ou não.- Não se incomode em voltar...- Que professor, hein? – falei, só pra ver se o fogo levantava de novo.- Não quer aproveitar pra se juntar a ele também? – mandou o Saffron na hora. Não é que ele tava virando homem?Ele deu um grito pra todo mundo se aquietar de novo e foi voltando a arrumar as coisas, pra tentar dar aula pela enésima vez naquele dia. Ao longe dava pra ouvir barulho de alguma coisa quebrando mas ninguém ligou. Depois de mais uns 5 minutos em que ele finalmente se recompôs, ele virou pra sala e voltou a falar.- Como eu dizia, há sei lá quanto tempo atrás... E nessa hora, a porta abriu de novo, e o Hexion foi entrando tão de fininho quanto uma baleia orca com rodinhas em uma igreja. Ele voltou pro seu lugar, cruzou as mãos, e fez a maior cara de aluno santo e comportado. Até eu já tava ficando de saco cheio da bagunça dele, caralho...O Saffron, porém, não disse nada. Ficou encarando o Hexion, como se esperasse que ele fosse puxar um lança-chamas pra matar todo mundo, mas não falou nada e voltou a olhar pro material.- Concordância verbal é a concordância que existe entre o sujeito e o verbo.- Professor, vai deixar ele entrar assim, sem mais nem menos?! – berrou o Altair, falando o que no fundo todo mundo tava pensando.E aí recomeçou o pandemônio. - Por que foi que você voltou mesmo? – falou o Akio, virando de costas e encarando o Hexion de novo?- Eu sou aluno, eu pago esse colégio, é meu direito entrar na hora da aula! – berrou o Hexion de volta, como se fosse a coisa mais natural do mundo ele querer assistir aula.- Professor, você tá sendo repetitivo! – falou a Iara – Quantas vezes você já não falou isso só nessa aula? - É sim, professor, para de enrolar e passa logo a matéria!Nisso a sala toda voltou a gritar e a bater papo, o Saffron tava perdendo a calma de novo.- CALEM A BOCA! – gritou o Akio, tentando remediar o irremediável.- Vem aqui calar! – berrou Altair de volta.O Akio virou muito puto, com cara de quem ia matar o moleque do Altair só com o olhar. E claro que o Hexion não ia deixar aquilo barato.- Uy, Akio tá gamadinha no Altair... olha só eles trocando olhares apaixonados! Bichona!- Cala a boca que a conversa ainda não chegou no puteiro!- Verdade, ela está no point GLS ainda...- GLS é a sua mãe! — gritou Akio, levantando com cara de quem ia partir pra porrada. O Hexion levantou também, porque não ia deixar aquilo barato mesmo, e quando eles iam partir pra ação um barulhão veio da frente da sala.O Saffron a essa altura já tava espumando de raiva. A expressão dele permanecia séria, mas dava pra ver nos olhos que ele queria jogar alguém de lá de cima, e que nesse lance ele ia acabar batendo o recorde de arremesso de peso. A porrada que ele deu no quadro foi tão forte, que a sala toda estremeceu, caiu um pouco de pó do teto (não que o prédio fosse a maravilha da arquitetura, claro) e a pele do pulso dele começou a inchar. Todo mundo ficou calado, e o Kamus assistia a tudo com o queixo na mão, como se fosse um filme.- Hexion, eu já mandei, pra fora! – berrou ele, apontando o dedo pra cima do Hexion. – E Altair, levanta e vai sentar no lugar do Sven!- MEU?! – berrei de volta, enquanto o Altair ia levantando. – Nem fodendo, eu só saio daqui se eu quiser!- Deixa eu sentar aí... – falou o Altair, me cutucando. Porra de moleque enjoado...- Sven, levanta logo a bunda dessa cadeira e vem sentar pra cá! – falou o Saffron.- Eu não, tenho alergia a giz.O Altair pelo visto não tava muito a fim de brincar, e foi tentar me puxar. Aí eu também me emputeci. Dei um empurrão nele e ele caiu em cima do Akio. O Akio também não gostou da graça e jogou ele pra longe, fazendo ele se esborrachar no chão.- Meu colo não é sofá!Pois nessa hora, o Hexion se esquivou de todo mundo e foi tirando o facão do esconderijo. Com a ponta, ele começou a riscar o quadro, escrevendo alguma coisa que nem me interessava. Assim que o Saffron viu, ele voou pro quadro e arrancou o facão da mão dele.- Professor, isso já passou dos limites! – berrou Akio, nervoso. – Vou chamar a diretoria aqui!- Professor, não pode matar um aluno! – gritou o Altair, vendo o facão na mão do Saffron e o Hexion do lado. E assim foi se instalando o terror, teve até quem tenha saído correndo da sala gritando a essa hora.- SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!! – começou a gritar o Hexion, fazendo cara de vítima. – O PROFESSOR QUER ME MATAR, SOCORROOOOOOOOOOO!!!Kamus já tinha sacado o celular e começou a filmar a cena. O que sobrou de alunos foi saindo correndo da sala, e no meio da confusão o Altair pegou a cadeira e jogou pra frente da sala. Pra se “defender”, o Hexion torceu o braço do Saffron e chutou ele logo onde não se deve. Aquilo doeu em mim, sério. O Saffron caiu, e o Hexion puxou ele de volta pelos cabelos, pra dar mais uma joelhada na cara dele.O Saffron caiu no chão e não levantou mais. Aí eu comecei a levar aquilo à sério. Ele com certeza tava machucado, e ainda por cima no meio de um campo de batalha.- E DEVOLVE MEU FACÃO! – gritou o Hexion, puxando a arma de volta.- PROFESSOR! – Akio dessa vez reagiu. Levantou, pegou a primeira cadeira que viu e deu uma porrada nas coisas do Hexion. O Altair, só pra aproveitar o clima, jogou uma cadeira pra cima dele, também.- MAS QUE PORRA?! – gritou o cabelo de alface de novo.- ESSE É O LIMITE! – Berrou o Akio, pronto pra dar porrada em quem quer que fosse.A essa hora, só estavam na sala os dois brigões, o desenhista de tampo de mesa, o Kamus, eu e o professor apagado. O rosto dele tava inchando, e o sangue começou a escorrer. Tratei de desviar de todo mundo e puxei o Saffron pra longe, sentando com ele no canto da sala. A cara dele tava bem feia, ele tava apagado mesmo, e eu comecei a ficar com peso de ter provocado tudo aquilo.- NINGUÉM SE MEXE, PORRA! – berrou o Hexion de novo, com o facão bem na garganta do Akio. Deu vontade de me mexer só pra ver ele matando o moleque, mesmo.- Nem eu? – sorriu Kamus.- Você pode. – ele foi puxando o Akio e chegou no Kamus. – Tá com o vídeo do professor tentando me matar aí?- Claro... – sorriu ele. – Ah, os diretores vão adorar isso, vão sim... – e eles foram andando pra cima da gente. Fodeu. – Anda, levanta aí, professor...- Oh? – o Kamus se abaixou, e puxou o cabelo do Saffron pra ver o rosto dele. – Tá apagado...Akio tentava se soltar, nervoso, e o Hexion soltou um suspiro de impaciência.- E você fica quieto, porra! – Hexion apertou mais o pescoço do Akio, e ele continuou tentando se sacudir.- Espera só quando você me soltar... - Quando eu te soltar o que? – ele meteu a mão na calça dele pra apertar as bolas do Akio. – Você disse alguma coisa? Não ouvi nada...- Vou levar ele pra enfermaria. – Levantei, puxando o Saffron. Já tava mais do que na hora de me mandar dali. – Se eu não levar não vai ter chantagem.- Oh, não, não terminamos ainda... – sorriu o Kamus, chegando perto. De repente, ele virou pro lado, e fez uma cara um tanto estranha. – Hm, Hexion, pare de abusar do garoto, não quer mais um pro seu harém, quer?- Caralho, o Akio tem piru pequeno... – ele começou a achar graça. – Não dá nem pra pegar! Hahahaa....- C-c-cala a boca! – ele foi ficando vermelho. — O que eu tenho aqui não é do seu interesse!Enquanto o Hexion se divertia com as partes íntimas do Akio (bem coisa de viado, mesmo), o Kamus foi se aproximando da gente. Ele se abaixou e começou a dar tapas no Saffron.- Vamos, acorda... – ele sentou do lado do professor, e foi dando uns tapinhas na costa dele. – Tá acordado?- Ei, Saffron, acordou? – comecei a passar a mão na frente do rosto dele. Ele foi abrindo os olhos, ainda bem atordoado e me encarou.- Vamos, vamos, não tenho o dia todo... – falou o Kamus, perdendo um pouco da paciência. O Saffron finalmente foi acordando, e virou pra ele.- O que...?O Hexion deu um passo pra frente, fazendo o Akio se bater na mesa, e falou.- Pergunta do milhão: você quer perder o emprego, ir pra cadeia e ter que ir no velório de um estudante... – ele puxou o celular do Kamus e mostrou o vídeo dele com o facão na mão — ou prefere pagar a conta de um restaurante pra todos da turma e esquecer que tudo isso aconteceu hoje?- Ah, nem se importe, Hexion. – comentou Kamus. – Com o dinheiro que ele ganha, e com o tanto que ele gasta, mal tem grana pra ir fora sozinho...- Foda-se, que venda os rins.- Provavelmente são ruins.- Foda-se, que venda o rabo!- ...Bem, isso ele pode fazer com proficiência!Nessa hora eu tive um calafrio. Não gostei do tom que a conversa tava pegando. Aquilo ia terminar pior do que já tava.- ... Eu pago por ele! – disse Akio, interrompendo.- Ninguém mandou você falar, amendoim. – falou o Hexion, cortando.- E nem ficar quieto, falo quando quiser!- Ah, é mesmo? – ele não teve pena e deu um puxão no cabelo do Akio. Até o Kamus tava olhando aquilo, meio contente. Mesmo assim, o japinha não cedeu e ficou caladinho, mesmo fazendo uma careta de quem tava sofrendo pra caramba com o puxão. – Tsc, é por isso que eu me divirto. O mariquinhas tenta resistir... valeu, machão!O clima tava começando a ficar bem barra-pesada, principalmente com o Saffron ferrado do meu lado. O que eu precisava fazer era dar um jeito de tirar ele dali, e rápido. Talvez eu conseguisse enrolar eles, dar uma desculpa...- Vou levar ele na enfermaria. – insisti. – Se ele morrer não vai ter jantar. - Não vai a lugar nenhum, já falei. – Kamus deu uma patada no meu peito, e eu acabei caindo. Aquilo me subiu um ódio enorme. Eu tava pronto pra levantar e dar um soco nele, mas ele se abaixou perto do Saffron, remexendo no bolso do sobretudo. – Então, professor, outro dia uma foto bem interessante caiu na minha mão, sabe... bem interessante mesmo, você tá nela, sabia?Aí eu gelei.- Que foto? – ele tentou falar, baixinho. – O que isso tem a ver...Todo mundo que tava na sala de repente parou o que tava fazendo. Altair, Hexion, Akio, por um minuto ninguém se mexeu.- Então, eu achei que você fosse querer dar uma olhada nela também – continuou o Kamus – Afinal, ela é meio particular, imagino como ela saiu do seu apartamento...Eu não tava acreditando. Aquilo era cagada demais na minha vida pra um dia só. De repente, eu tava entendendo porque os dois armaram aquele circo todo... levantei, puxei o Kamus pela mão e me afastei do Saffron com ele. Tinha que ter algum jeito de parar isso.- Já chega, não? – perguntei, encarando ele. Ele, no entanto, ficou olhando a minha mão segurando ele.- ... já chega?- Sim.E aí ele fez o que eu menos queria: foi levantando aos poucos, dando risada. Ele tirou a foto do bolso, ainda fazendo suspense pra “plateia” que aguardava ali.- Oras, foi você quem procurou meus serviços, não tem devolução.Situações desesperadoras pedem medidas desesperadoras. Puxei a mão do Kamus, arranquei a foto e comi antes que o Altair chegasse perto o bastante pra ver. Sim, eu comi a foto, e não adiantava mais ficar me olhando com essa cara de besta, Altair, seu inútil.- Gostou? – perguntou simplesmente o Kamus, ainda com o tom de quem tem tudo sob controle. É, quem tava fora do controle ali era eu...- O que... tá acontecendo? – o Saffron levantou do chão, se escorando na parede pra tentar entender aquela merda. O Hexion ia chegando junto com o Akio ainda pendurado pelo pescoço, e o Altair tentava por tudo no mundo chegar perto o suficiente do Kamus pra ver ele tirando outra foto ou coisa parecida.E bem, obviamente, ele o fez. Puxou o celular, apertou alguns botões e praticamente esfregou o display na cara do professor.- Esse aqui não é teu amante, o músico?Ao ouvir a palavra amante, o Altair quase pulou no colo do Kamus e entrou na pele do Saffron pra ver também. Akio fez uma cara de espanto, e o Hexion continuava olhando com a mesma cara de pastel de feira, esperando pra ver também. O único que eu não conseguia ver era o próprio professor, que tava com a cara espremida entre a parede e o telefone do Kamus.Bom, pelo menos agora sei que gosto tem papel.- Eu sabia que tinha visto ele em algum lugar por aqui, então fiz meu trabalho de pesquisar sobre ele. – continuou o Kamus, tirando o celular da cara dele e mexendo de novo nas teclas. – Ah, que belo casal vocês formaram alguns anos atrás. – ele terminou de mexer, e colocou o aparelho no bolso. – Mas sabe, eu estive pensando... é uma foto tão boa, ela deveria ser exposta pra todos, não acha? Tão artística...Agora dava pra ver plenamente a cara de choque do Saffron. Akio ia ficando mais revoltado a cada segundo que passava, também. Comecei a suspeitar naquele momento que ele sabia da coisa toda com o Johann. Mas ninguém conseguia falar nada na hora. Quem ainda chegou perto de pronunciar alguma coisa foi o Saffron, que só teve tempo de sussurrar.- Você não...- ...Tomei a liberdade de modificar o site da escola, e colocá-la na página inicial, para que todos possam vê-la. – completou o Kamus, arrematando a questão. – Espero que não se importe...E com um último bipe do celular dele, que tava dentro do bolso, o sistema de som da escola começou a anunciar uma mensagem nova, que com certeza tinha sido montada bem antes, e que estava esperando pacientemente até a hora de ser executada.“Olá pessoal, aqui é o diretor falando... demos uma modificada no layout da nossa página escolar, não deixem de dar uma conferida... agora estaremos colocando fotos do nosso corpo docente!”Altair puxou o iPhone, e o Hexion aproveitou o smartphone dele pra olhar o site. Em menos de dez segundos, a página carregou, e ele começou a rir escandalosamente, enquanto o pintor de carteira fazia uma cara de espanto misturada com nojo. O susto foi tanto que o maloqueiro-mor até largou o Akio pra poder rir mais livremente. Claro que o japinha aproveitou a chance e se afastou dos maníacos de fininho. Enquanto o isso, o Saffron olhava da cara de um pro outro, pra finalmente ficar encarando o Kamus. - Você não fez isso sozinho...- Oh, claro que não fiz! – respondeu ele, todo sorrisos, como se estivesse distribuindo brinquedos a crianças pobres. – Não conseguiria se não fosse a ajuda exemplar desse seu aluno! – e ele me puxou com tudo pela gola, fazendo eu quase sufocar, enquanto ia aumentando o tom de voz pra conseguir se fazer ouvir em meio aos urros de riso do Hexion. – Foi ele quem conseguiu a foto pra mim... direto da fonte, ouvi dizer.- VIADÃO!!! – berrava o Hexion, que nem uma bicha tresloucada quando encontra a amiga na rua. – QUEIMA-ROSCA! MARIA DA NOITE! TRAVECO!!!O Saffron e o Akio viraram pra mim imediatamente, sendo que o viadinho de pinto pequeno me olhava como se fosse me matar ali mesmo. Já o professor... bom... eu não consigo descrever a expressão que ele fez na hora. Eu não conseguia ver tanta raiva assim, não que ele não estivesse puto, é que... ah... é como se a amargura e o desgosto não deixassem nem ele se expressar direito.- ENTÃO É POR ISSO QUE VOCÊ NUNCA TOMA MEDIDAS DRÁSTICAS COMIGO! – continuava a puta do Hexion com o acesso de bichice dele. – A VERDADE É QUE... VOCÊ QUER DAR PRA MIM!!! - Isso é sério?! – foi a única coisa que ele conseguiu dizer pra mim, ignorando os guinchos de porco daquele outro animal e depois de ter revirado todo o vocabulário dele atrás de alguma coisa mais consistente. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive.- QUEBRA PUNHO! MORDE FRONHA! BICHONA! BOIOLA!!!- Sven, você também fez isso? – perguntou o Altair, ainda impressionado.Eu, claro, não tinha mais o que dizer.- Valeu pelo serviço, Kamus.- Oh, de nada... por que eu mentiria? – ele deu de ombros.Aí foi o fim da picada. O Akio veio andando pra cima da gente como quem queria matar. Mas eu não tava nem aí. O irremediável, remediado está. A única coisa que eu podia fazer na hora era tentar me safar daquilo o mais rápido possível, pra depois ver o que eu ia fazer com o Saffron. Ele ia ter que ficar pra depois...
- Ah, mas espere... – prosseguiu o Kamus, fazendo sinal pra Akio parar. – Tem um último favor pessoal, como prova dos meus serviços, sim? – ele puxou o celular de novo. – Gosto de satisfazer meus clientes, assim eles sempre voltam.... último favor? Cacete, o que...?- Sabe... tem uma seção especial no site da escola agora – ele continuou, respondendo à cara de leso que todo mundo fez. – chamada “Segredo”, é só adicionar a palavra segredo no final do link, lá tem uma surpresa...O Hexion só precisou mexer nas teclas. O Saffron finalmente saiu da letargia dele, avançou e tentou pegar o celular do Altair. O moleque viu, deu uma risadinha, botou o telefone na mão e virou ele na nossa direção, pra mostrar o que era o tal segredo.Era outra foto do Johann. Beijando outra pessoa. Eu, pra ser mais exato. Bem no dia em que conversamos pela primeira, na faculdade.Ah, não.- Gostaram da surpresa? – perguntou o Kamus, todo contente. - Caralho, bando de viado... – comentou o Altair por alto.A vontade que eu tinha era de meter um soco na cara deles todos, mas isso não ia resolver. Eu tinha que dar uma virada naquilo, e tinha que ser rápido.- Mas que porra? Tá mostrando teus talentos de Photoshop?– Essa foi particularmente difícil de conseguir... – continuou o Kamus, nem aí pro que a gente falava, enquanto o Saffron voltava a me olhar, escandalizado. – Mas claro, quando nosso Sven aqui veio me pedir o serviço, eu sabia que era a oportunidade perfeita pra usar ela...- Você e ele?! – berrou o Saffron. – Desde... desde quando?!- Caralho, Sven também queima a rosca? – falou o maloqueiro.- NUNCA! – gritei, perdendo o pouco da paciência que ainda me sobrava.- Então que porra é essa? — ele começou a dar com a tela do celular na minha cara. – Aposto que o Aki é outra bichona também...- NÃO SOU VIADO, NÃO SOU QUE NEM ESSE BOSTA! – gritei de novo.- Oh? – o Kamus fingiu surpresa. – Posso chamar ele aqui, então. – falou, apontando o Johann na foto. – Tenho certeza de que ele diria a verdade depois de algum... encorajamento.- Quem é esse viado da foto? – perguntou o Altair. – Ele dá pros dois?- Por quê, tá querendo ser comido também, tampinha? – falou o maloqueiro. - É esse queima-rosca que foi se enroscando pra cima de mim... – continuei.- Ele é um músico da Faculdade Silvério Franco. Um garoto de programa. – explicou o Kamus. – Sabe, um certo dia eu estava passando pela faculdade, vários clientes bons lá, quando me deparei com uma cena bem interessante... um certo aluno procurando um certo garoto de programa pra saber do passado dele, descobri depois.- Sven pagou por um garoto de programa?- NÃO PAGUEI PORRA NENHUMA! – berrei de novo.- Não mesmo, foi serviço preferencial. – completou o Kamus.Não tinha mais o que falar ali. Eu tava definitivamente ferrado. Não tinha coisa que eu dissesse que virasse o jogo naquela situação. Mas ainda tinha coisa pra fazer. Puxei o iPhone do Altair, joguei ele com toda a força na parede, virei e saí da sala. No caminho, dava pra ouvir a algazarra nas outras salas de aula, gente com o celular ou o netbook nos corredores, fofocando por cada cantinho porco e miserável daquele colégio cheio de filhos da puta. E assim que bati a porta da sala, não teve como não ouvir as últimas palavras do Kamus.- Ah, música para meus ouvidos... mais um serviço bem feito.
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