Rescue Me
10 Concessões
Notas iniciais
Bem, talvez cochilinho tenha sido um pouco exagerado demais da minha parte. Quando eu acordei de novo já tava dia, e eu já não tava mais na casa dos parentes do Saffron. Tava deitado em algum lugar confortável, usando uma camiseta e uma cueca cheirando a nova, e com umas notinhas de guitarra tocando em algum lugar por perto.
Na verdade, confesso que fiquei meio surpreso de estar ali de novo. Ou então, fiquei meio pasmo de não ter pensado que poderia acabar indo parar aqui uma hora ou outra, considerando quem foi que me salvou ontem.
Sentei na cama e olhei ao redor. Minha roupa tava toda lá, incluindo meu Reebok e meu Bulova perto da camisa. A carteira ninguém deu jeito de achar. Os cigarros também devem ter ficado de brinde pro eremita. Paciência, não se pode ganhar todas.
Como não tinha muito que fazer e a fome tava começando a apertar, resolvi levantar da cama de vez e procurar algo bom. Pelo menos a ressaca tinha passado. Abri a porta e percebi que a guitarrinha devia vir do outro quarto daquele cubículo que o Saffron chamava de apartamento. Dito e feito, olhando pela porta encontrei o Leon, sentado de lado num banquinho e tocando um solinho simples, mas bem bonitinho na guitarra dele. Do lado, o notebook do pai dele tava aberto numa página do cifras.com.br.
Até que o moleque tinha estilo. E tocava bem. Ia agarrar muita mulher peituda quando crescesse, a menos que ele resolvesse herdar a orientação sexual do pai.
- Ei.
- Ah, oi... – ele olhou pra mim e balançou a cabeça, sem parar de tocar. – E aí, tá tudo bem?
- É, acho que sim... – fui entrando no quarto e sentei na primeira cadeira vaga. Aliás, que diabo de quarto bagunçado. Era cheio de livro e papel por todo lugar. — Tá tocando o que aí?
- Fall of Pangea... tem no Guitar Hero. Conhece?
- Acho que não... e também, você tá fazendo só o começo da música, ela é só esse solinho?
(bem, pra mim é. Aquela música é uma droga.)
- Ah, eu não gosto muito dela... peguei ela porque a professora disse pra eu treinar melhor essas notas.
- Ué, tu tem professora de guitarra? Achei que só homem gostasse de tocar...
- Ah, não, a Flávia é legal, ela só fica meio chata quando a gente bagunça a aula. E ela é bem bonita também.
Bem, uma chance a menos do moleque virar gay. Ele começou a tocar outra série de notas, que me lembraram da introdução de uma música do Audioslave, num ritmo bem mais lento.
- Então, como você veio parar aqui? – ele me perguntou, sem esconder que tava curioso.
- Ah, sei lá... tentaram me assaltar ontem, eu bebi demais, quando vi já tava aqui. Você não viu nada?
- Cheguei aqui hoje de manhã, papai disse que você tava dormindo no quarto... aí eu vim pra cá tocar.
- Tá aqui faz muito tempo?
- Sei lá, umas duas horas.
- E você tem saco de passar duas horas só tocando? – por alguma razão, senti que se eu dissesse isso pra qualquer um da minha sala eles iriam começar a rir e a me zoar. Maldito duplo sentido.
- Ah, eu gosto, é legal... além disso, mamãe não deixa eu tocar em casa. Ela diz que eu faço barulho demais. Ela até mandou construir um estúdio num dos quartos pra ninguém me ouvir ensaiando.
Coitada da tia Rafaela se o Saffron tivesse botado o Leon pra tocar bateria.
- Olha, das duas uma, ou sua mãe é música profissional e enxerga todos os defeitos de quando você toca, ou ela é uma burra que só sabe encher o saco. – ele começou a rir. Até errou o acorde nessa hora. – E o teu pai, o que ele fala?
- Ah, ele não fala nada, ele até curte... às vezes ele tá trabalhando e fica perto de mim pra escutar quando eu tô ensaiando. Ele só reclama às vezes porque o barulho incomoda os vizinhos, mas fora isso ele gosta.
- Sei...
- Ô Sven, posso te fazer uma pergunta?
- Ah, manda...
- Você e o papai... vocês são... – ele tava ficando sem graça. — Tipo, vocês são só professor e aluno né?
Aquilo me deu muita vontade de rir. Ele tava tentando perguntar discretamente se eu tinha um caso com o pai dele. O problema é que ele estava sendo discreto como qualquer criança de dez anos seria. Na verdade, aquela pergunta tava colocando o ouro na mão do bandido. Era o tipo de coisa que comprovava que o Saffron gostava de outra fruta.
- É... mas por que tá me perguntando isso?
Juro que eu queria ter um gravador pra poder registrar a resposta dele.
- Ah... é que o meu pai não é de dar muita brecha pra aluno dele, e você tem dormido aqui um monte de vezes...
- Não foram um monte de vezes. Foram só duas. E as duas foram quase por acidente. Não é como se ele tivesse me convidado pra passar a noite com ele.
Sim, o duplo sentido foi intencional. Ele pareceu bem satisfeito e voltou a tocar guitarra, dessa vez uma música que eu conhecia bem: One Last Breath, do Creed. Admito que aquela me deu vontade de cantar junto, mas achei que ia ser pagação de mico demais, então fiquei calado. E como a fome tava me lembrando que eu tinha estômago, resolvi cair fora dali e procurar o Saffron.
E falando em coisas chocantes... não é que ele tava dormindo? Tava jogado no sofá da sala (agora esticado pra ser uma cama), mais torto que estrada que sobe a serra, usando só uma cueca samba-canção e pegando o vento que vinha da janela aberta da sacada. Não era perigoso deixar a janela aberta assim de noite? Bem, tá certo que era o quarto andar, mas hoje em dia não se pode duvidar de nada... se existia homem gay que tinha filho de 10 anos mais macho que ele, porque não podia existir um ladrão que subia até o quarto andar pra roubar?
Era estranho. Eu me sentia como se tivesse caído num momento muito pessoal dele. Afinal, não era qualquer um que podia ter acesso ao apartamento dele pra ver ele só de cueca esparramado no sofá. E agora, pela primeira vez eu tava reparando que ele tinha um corpo bonito pra quem não malhava nem fazia nada... se é que ele não fazia mesmo. Era só um palpite meu, afinal, uma das garotas que eu peguei comentou um dia desses que ele trabalhava em 4 escolas diferentes, e eu acho que com uma rotina dessas seria difícil arrumar tempo pra frequentar academia.
Outra: não vi nenhum aparelho de ginástica na casa dele. A casa era toda bagunçada, e só olhando rápido eu já tinha visto um monte de coisa. Tranqueiras da Polishop, coleções de DVD sobre história e gramática, uns CDs de músicos como Vivaldi e Beethoven, e mais umas coisas que deviam ser do Leon, tipo uma caixa pra guitarra e um monte de pacotes de cordas de todos os tipos; sem falar em uma pasta de teses de dissertação da faculdade, jogos de videogame, umas 10 raquetes de fritar mosquito, estojos de pintura, coisas religiosas, um taco de beisebol, medalhas, cadernos, e até um kimono médio com umas 3 ou 4 faixas.
E lógico, essa conta toda não inclui nenhum dos duzentos milhões de livros que ele tenta guardar naquele ovo de apartamento. Gramáticas, dicionários e coisas que ele usava na aula ficavam na sala, enquanto outros livros, como culinária, jardinagem, enciclopédias, coletâneas de partituras e até uma crônica de RPG de vampiros ficavam jogados no quartinho que o Leon tava tocando guitarra.
Aliás, quando foi que eu fiquei tão observador assim? E quando foi que eu aprendi tanto sobre a vida do professor?
Daí ele começou a se mexer. Achei até que ele fosse acordar e tudo, mas ele só se virou pro lado e botou a mão em uma almofada.
- Yoh...
Aquilo me subiu um ódio sem precedente. Virei de lado, fui até a cozinha, peguei a panela mais pesada e mais barulhenta possível e tratei de jogar ela no chão. O efeito foi imediato: quase deu pra ouvir aquele viadinho de merda pulando do sofá. Até o Leon se assustou, a guitarra dele deu um grito que com certeza não tinha no final da música do Creed.
Tinha alguma coisa de muito errado comigo. Esse professor tava me deixando com uns pensamentos muito estranhos, sem falar em rompantes de raiva muito sem noção. Mas agora não era hora pra se arrepender. Já tava feito, e acabou.
- O que... o que houve?! – ele invadiu a cozinha, olhando ao redor como se estivesse caçando um elefante na selva. – Tá tudo bem?
- Ah, não foi nada, me deu fome, eu tava tentando fazer o café e acabei derrubando isso sem querer.
Acho que já posso me candidatar ao prêmio de Cara Cínica do Ano. E depois de 5 segundos, percebi que ia ter que indicar o Saffron como Vítima Suprema no mesmo concurso.
- A-ah... desculpe, não foi minha intenção te deixar com fome... Eu já vou preparar alguma coisa...
Aquilo era inacreditável. Será que era crime chantagear demais alguém tão emocionalmente fraco como ele? Resolvi sair da cozinha pra poder rir um pouco mais livremente da cara dele, mas ele não deixou.
- Ei, espera, quero falar com você...
O tom de voz dele dava a entender que essa era uma conversa à qual o Leon não estava convidado. Sentei num dos banquinhos perto do fogão enquanto ele fechava a porta.
- Ah, só não senta muito perto do fogão que ele dá choque...
Não foi preciso repetir. Tratei de tirar logo a porra do banquinho dali e sentar do outro lado, bem longe de qualquer coisa que pudesse me eletrocutar.
- Então, vai me contar o que aconteceu ontem ou não?
E falando em ser direto... bem, aquilo não foi uma pergunta, foi mais uma exigência, do tipo Confesse ou Morra.
- Ontem o que?
Eu não ia dar o braço a torcer. Cinismo até o fim. E claro que aquilo não tinha deixado ele feliz.
- Ah, Sven, é que aconteceu uma coisa engraçada comigo ontem. – ele foi contando como se fosse a coisa mais natural do mundo. – Eu tava numa boa aqui em casa, quase dormindo ouvindo o meu novo CD do Tokio Hotel que eu mandei buscar, tentando terminar de corrigir uns simulados de lá do CETEP, quando meu irmão mais velho me liga pra pedir que eu vá buscar um moleque porre que desmaiou na porta da casa dele depois de quase ser assaltado e espancado, porque aparentemente o moleque é meu aluno do Silvério Franco. Daí, eu não tinha muita escolha, então fui lá ver do que se tratava e encontrei você, jogado no sofá da casa do meu pai, sem dinheiro, sem documentos, cheio de hematomas inexplicáveis, com a roupa trocada porque a sua original tava completamente entupida de vômito e uma ressaca e um cheiro de cigarro insuportáveis.
Ok. Aquilo era coisa demais pra minha cabeça. Tinha muita coisa errada naquela frase toda. Primeiro, ele tava ouvindo Tokio Hotel. Segundo, ele pagou por um CD do Tokio Hotel. Terceiro, ele deu dois nomes diferentes para o dono da mesma casa. Quarto, ele disse que tava quase dormindo enquanto tentava corrigir provas. E quinto... quem picas corrige prova às quatro da manhã, ouvindo Tokio Hotel como se fosse a coisa mais relaxante do mundo pra se fazer numa madrugada de quinta feira?
E eu reclamava do Johann comendo pão com talheres.
Enquanto isso, o Saffron ia interpretando muito mal aquele meu silêncio exagerado, e tava quase apontando uma lâmpada na minha cara pra começar um interrogatório. Aquilo era cagada demais pra eu tentar inventar uma desculpa pra tudo.
- Olha, eu não fiz nada de mais. Todo mundo sai pra se divertir na minha idade.
Ah, esse cheirinho de sermão novinho no ar...
- Se divertir? Essa é a sua ideia de diversão? Sair por aí bebendo todas pra depois desmaiar sozinho na rua não parece nada divertido pra mim, nem sequer saudável! Você nem por um segundo parou pra pensar no que poderia ter te acontecido?
Isso porque ele não sabia do lance da carteira.
- Vem cá, qual é o problema afinal? – retruquei. Já tava me cansando daquela merda daquele discursozinho de herói. – Todo mundo da minha idade sai pra curtir, e eu tenho idade suficiente pra poder decidir o que eu quero fazer de noite! E não venha me passar discurso cheio de moralismo, porque caso você ainda não tenha percebido, o seu querido irmãozinho também fuma, e com certeza deve beber também, e fazer as mesmas coisas que eu!
- Não estamos discutindo sobre o Shian!
- Você não tem moral pra falar comigo se não sabe cuidar nem da sua própria família! Resolva os seus problemas primeiro, e depois pense nos meus! Aliás, nem precisa pensar nos meus problemas, deixa que eu resolvo eles sozinho, não preciso da sua ajuda nem da de ninguém pra cuidar de mim mesmo!
- Você não é burro, sabe muito bem que sair fazendo um monte de besteira pro aí não vai resolver os seus problemas! Aliás, burro aqui sou eu, que fico me preocupando com você e com as coisas que você faz!
Por um minuto isso me deixou sem resposta. Ele tava mesmo preocupado comigo?
Mas só por um minuto.
- Eu não quero que você se preocupe comigo, eu já falei que cuido dos meus problemas sozinho! Ontem eu saí porque eu quis, não tinha nada a ver com meu estado de espírito ou algo assim!
- Sim, sim, e aquela sua namorada sadomasoquista que te enche de porrada no motel também faz parte da sua lista de como resolver os problemas né?
Ok. Eu tinha sido idiota demais de achar que ele ia simplesmente cair nisso. E ele falou de propósito, pra ver como eu reagia. Acho que deu certo, porque meu silêncio não era exatamente o que eu tinha em mente pra provocar uma boa contrarreação.
Ele suspirou, e por um minuto eu me senti desobrigado a dizer qualquer coisa. Ele abriu uma gaveta do armário e tirou uma chavinha prateada com uma corrente. Eu já tinha visto essa chave em algum lugar antes, mas não lembrava onde.
- De todas as pessoas com quem eu ando em contato ultimamente, você é a que mais me preocupa. – falou ele. – Eu não sei que tipo de problemas você tem ou que tipo de coisa você tem que enfrentar, mas eu não me sentiria bem de simplesmente deixar você aturar tudo isso sozinho.
Foi aí que eu lembrei onde vi essa chave: no pescoço do Leon. Não era exatamente a dele, porque o strap da dele era do Ben 10, mas com certeza era o mesmo modelo de chave que ele usava pra abrir a porta do apartamento do Saffron.
Aquilo só podia ser sacanagem.
- Olha, — ele continuou falando, chegando mais perto e mostrando a chave – eu sei que nada disso tem a ver comigo, e que talvez eu não passe de um professor que fica se metendo na sua vida, mas eu ficaria muito mais aliviado se pudesse te ajudar em alguma coisa.
- Do que... – eu não sabia nem o que dizer. – Do que você tá falando?
- Eu já disse que não sei, eu não sei o que se passa com você... só acho que uma pessoa que apanha na rua e que sai de madrugada pra beber até cair deve estar passando por alguma coisa muito séria pra ter que chegar a esse ponto.
Ainda tentei abrir a boca pra falar, mas foi inútil. Eu não tinha absolutamente nada a dizer. Eu tava pasmo demais. Ele aproveitou esse instante pra botar a chave na minha mão.
- Pode vir sempre que quiser, eu prometo que isso ficará apenas entre nós...
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