Notas iniciais
(Revisado em Setembro/2015) Se você quer saber o porque do nome dessa fic, experimente entrar no Youtube e escutar Rescue Me, do Tokio Hotel, a partir do locutor de rádio até o final desse capítulo.

A avenida nunca pareceu tão comprida na vida. A viagem do centro pra Zona Norte era bem longa, quase uma hora, e por azar naquele horário havia congestionamento. Eu não sabia, mas dois carros se bateram e um foi jogado direto no acostamento, e isso fechou três das cinco pistas da estrada, o que tornou a viagem um verdadeiro anda-para infernal. Pra completar, o carro não tinha ar condicionado, e o clima estava bem fechado. Se a chuva resolvesse cair, a temperatura ia ficar mais abafada ainda, e aquilo me deixava com muita raiva.

Mas naquele momento, eu não tava nem aí se tinham sido três carros batidos ou se o trenó do Papai Noel tivesse atropelado o coelhinho da Páscoa na ciclovia, se ia chover ou se ia cair mijo do céu. Eu olhava pro banco do motorista, e não acreditava que estava ali.

Alheio a todos os meus devaneios, Saffron apenas batucava no volante, enquanto cantarolava baixinho a música que tocava no rádio. Pela primeira vez na vida, eu tinha ele só pra mim, e estava vendo ele de uma maneira que ninguém da escola nunca sequer tinha parado pra pensar. Tá, eu sei que dirigir é algo normal, mas pra mim ver ele ali era algo mais do que interessante. Aquele jeito espontâneo dele não podia estar mais a meu favor: arrancar a verdade dele ia ser muito fácil.

Porém, no meio de tudo aquilo, eu sentia que tinha alguma coisa errada, não com ele, mas comigo. Apesar de todo meu ódio por ele, da vontade de bater a cabeça no volante, ele estava sendo bem interessante. A viagem de carro estava sendo até divertida – e isso era estranho considerando que ele era pra mim o mesmo que o Osama é pros Estados unidos.

– Nossa, acho que se a gente descesse do carro e fosse andando ainda ia chegar antes de conseguir atravessar esse trânsito... – comentou ele algum tempo depois, mexendo no dial do rádio. – Sinto muito mesmo, Sven, se eu soubesse que ia demorar desse jeito tinha deixado você ir com seu motorista...

– Ah, grande diferença. – Por que ele tinha que falar nisso? Eu já tinha até esquecido aquela droga de família... – Ele ia acabar pegando a mesma rua, e ia demorar o mesmo tempo.

– É, mas pelo menos você estaria no ar condicionado agora, e não morrendo de calor nesse congestionamento... Que eu lembre o professor Arceus comprou um carro só pra ir te levar e te buscar, não foi?

– Não me importo com isso – Falei, sendo bem sincero. – Do que adianta ter motorista se ele me deixa esperando mais de quatro horas na porta do colégio?

Saffron sorriu ao ouvir aquilo. Ele virou por um breve minuto pra me olhar, e foi bem na hora que o carro da frente avançou. Droga! Ele tava me olhando, motorista filho da puta!

– Seus pais não vão ficar preocupados de você chegar de madrugada em casa? – Perguntou ele de novo, parecendo realmente preocupado enquanto ligava a ignição pra botar o carro pra andar mais cinco metros. – Se você quiser posso ligar pra eles, daí você explica o que aconteceu...

– Não precisa, eu já tinha ligado pra eles antes de te encontrar. – Que mentira deslavada! – Além disso, eu não tô nem aí pro que eles pensam, mesmo...

– Você sabe que esse seu ar de rebelde não vai te trazer nada de bom, né? – Suspirou ele, voltando a armar aquele tipinho de professor moralista dele. Eu sentia que toda a diversão ia embora. Se tinha uma coisa que eu odiava no Saffron, era isso. Ele adorava me passar sermão. – Você devia tentar se aproximar mais dos seus pais, eles só querem o seu bem...

– Olha, me poupa desse seu papinho de mundo perfeito, tá? – cortei logo. – Sendo bem direto, o jeito que eu falo com a minha família não é problema seu!

– Pois você é quem pensa. – ele voltou a me encarar, mas não estava mais tranquilo. Os olhos dele estavam bem sérios. Era engraçado como ele olhava diferente pra mim, como se tivesse reservado um jeito de olhar só pra quando fosse me repreender. – Toda família tem problemas, mas não é por isso que você precisa ficar agindo como o moleque que acha que é. Em vez de se preocupar só em parecer o bonitão e ficar namorando aquelas garotas no ginásio, devia pensar um pouco em colocar alguma coisa nessa sua cabeça oca.

Ele cutucou a minha testa com dois dedos, enquanto eu sentia a garganta secar. Ele sabia das minhas escapadas pro ginásio, e mesmo assim não tinha me derrubado pra ninguém? Se fosse qualquer outro professor teria ido correndo contar pro diretor Ruuma...

– Como... como você sabe disso? Digo, das garotas...

– Eu sou professor mas não sou idiota, Sven. – Agora ele estava olhando de novo pra fora. – Eu só te vi uma vez, mas é fácil pensar como vocês adolescentes pensam e depois juntar um mais um quando as alunas mais estudiosas do colégio resolvem matar aula no mesmo horário que você.

– Sou tão previsível assim? – Perguntei, ficando meio sem jeito com aquilo. Ele reparava em mim. Ele era a primeira pessoa que reparava em mim em anos...

– Não é que seja previsível... – Ele de repente suspirou e relaxou mais. – Você é um adolescente, esse tipo de coisa é normal na sua idade, eu até entendo... mas isso não quer dizer que eu ache salutar.

Era a primeira vez na vida que eu ouvia alguém dizer que eu não estava sendo estranho ou burro em tudo que fazia. Bem, na verdade ele estava, sim... mas era diferente. Era como se ele estivesse mais preocupado comigo do que com minhas atitudes. Senti meu peito disparar. Ele realmente me entendia...

Olhando pra ele de novo, percebi que ele não tinha muita cara de professor mesmo. Dez anos de diferença... ele não parecia ter mais de 20. E naquele momento, conversando daquele jeito, ele nem parecia um adulto, parecia mais um amigo me dando carona pra algum lugar legal, tipo uma festa ou um barzinho. Me encolhi no banco, pensando que não seria nada mau se fosse isso, mesmo... uma noite de quinta feira, meio nublado, com um trânsito daqueles...

– Sabe de uma coisa? A gente podia dar uma parada em algum barzinho pra tomar uma enquanto esse congestionamento não passa...

Ele me olhou meio surpreso, com certeza não estava esperando um comentário desses. Por um milésimo de segundo eu até cheguei a pensar que ele tava realmente pensando nisso! Então começou a achar graça.

– Eu não bebo, sou abstêmio... além disso, o que te faz pensar que eu tenho dinheiro pra ficar pagando bebida em boteco?

– Que nada, a verdade é que você é muito fraquinho e não bebe porque tem medo de pagar mico no bar, pode confessar Saffron! – comecei a rir da cara dele, imaginando ele subindo em uma mesa e tirando a camisa.

– E você bebe, por acaso? – ele ergueu uma sobrancelha. — Você nem de maior é! Se você entrar num bar pra comprar cerveja eles vão te dar uma caixinha de leite e dizer pra você ir procurar sua mamãezinha.

– Isso por acaso é alguma experiência pessoal sua? Anda, vai, pode me contar, não precisa ficar magoado só porque te botaram pra fora...

Saffron virou-se com cara de quem ia dar uma resposta bem torta, mas acabou achando graça de novo.

– Tá, então o que você bebe, senhor Sommelier?

– Ora essa, eu tomo de tudo! Não sou fraco como certas pessoas... O que botarem na minha frente eu viro!

– Hm, acredito... O que mais você vai inventar, que seu lema é Sexo, Drogas e Rock N’ Roll?

– Não tá muito longe disso, não...

– No seu caso, só se for Punheta, Ice e Luan Santana.

Ele continuou rindo. Finalmente estavam tirando um dos carros da pista. Lá de longe, dava pra ver o trânsito voltando a andar normalmente, ou pelo menos a se mover a mais de 5km/h. Saffron engatou a marcha 2 do carro pela primeira vez em meia hora e foi pegando a pista nova que tinha acabado de ser liberada.

– Ufa, finalmente! – ele soltou um suspiro de alívio, e eu um de frustração. Meu momento de triunfo estava chegando ao fim. Em poucos minutos alcançaríamos a marginal que levaria pra zona Norte, e ele ia me deixar em casa... e o pior, se meus pais estivessem em casa ele iria descobrir que eu menti sobre tudo aquilo só pra ficar com ele... isso se meu avô não o acusasse de sequestro e começasse a perseguir ele.

Decepcionado, botei a cabeça na lateral do carro, olhando como as coisas agora estavam passando bem rápido pela janela. De repente todo o calor estava indo embora, graças ao vento circulando dentro do carro, mas aquilo realmente não me interessava mais.

Pensando depois de um tempo, não é como se aquilo fosse durar pra sempre... uma hora tinha que acabar, mas tinha que terminar tão rápido assim?

A única coisa que pude pensar foi “bem, foi legal até”. Foi aí que alguma coisa bateu com força na minha testa. Com o susto, balancei a cabeça, tentando sacudir o ar.

– Filho da puta!

– Sven, fecha logo essa janela, vai entrar água no carro! – Saffron se debruçou por cima de mim pra alcançar a manivela do vidro. Ele tentou girá-la rapidamente ainda controlando o carro. Me assustei com aquilo e, temendo que ele fosse bater ou algo do tipo, botei a mão na manivela também e girei o mais rápido que pude.

Quente. Depois do susto, notei que botei a mão por cima da dele. A mão dele era quente, e apesar de o dorso ser macio, as pontas dos dedos estavam meio ressecadas... talvez por causa do giz? Aquele gesto fez meu coração disparar, e eu não entendi o porquê. E nem estava interessado em entender também.

Porém, pra ele aquilo não significou absolutamente nada. Assim que eu comecei a girar o vidro, ele puxou a mão e voltou a guiar o carro direito, enquanto ligava o para-brisa.

Aquilo me desapontou um pouco. A chuva agora caía com tudo, pelo visto ia ser um pau d’água daqueles feios. Com os vidros fechados e a quentura subindo do asfalto pelo lado de fora, o calor estava começando a ficar insuportável. No entanto, eu comecei a usar a minha mente pra planejar algum jeito de ficar mais tempo com ele.

Mas aquele diabo daquele professor era foda de tão esperto que era. Quer dizer, eu acho que nem ele se tocava do que estava fazendo. Com o calor, ele começou a tirar o paletó e a abrir parte da blusa no primeiro sinal que parou.

Aí eu pirei de vez. Ele tava numa boa, se abanando com a gola da camisa e botando a cara mais perto do ventilador. Puta merda, ele era lindo!... Pela primeira vez, eu tava tendo a chance de reparar nele de verdade... o corpo dele, a camisa grudando...

Eu parei tudo que tava fazendo, tentando entender que merda de pensamento era aquele. As coisas tavam começando a se enrolar na minha cabeça. O que é que eu tava fazendo?!

E bem nessa hora, senti ele se mexer do meu lado. Saffron aumentou o volume do rádio, parecendo bem animado. Pela primeira vez durante horas, eu pude reparar em uma voz diferente da dele dentro daquele carro.

– E aqui estamos com mais um Love Songs, o seu programa de toda noite pra compartilhar aquele momento com a pessoa amada! Eu, o seu grande locutor Vítor Barreto, estarei selecionando as melhores do momento pra embalar o seu comecinho de noite. Chove bastante na cidade, um friozinho batendo, que momento melhor pra curtir uma grande paixão? Muito bem, vamos abrindo o programa com mais um sucesso...

A música começou a tocar, e Saffron abriu um sorriso, olhando pro dial como se houvesse alguma coisa mágica que fosse sair lá de dentro. Aí eu senti que levei um susto, meu peito pulando todo de uma vez só. A expressão dele estava totalmente diferente... eu nunca tinha visto ele sorrir daquele jeito na escola. Era um ar meio bobo, quase como se estivesse... apaixonado?

Deixei meu corpo afundar na cadeira de vez. Como eu não tinha pensado naquilo? Ele com certeza devia ter uma namorada... eu no fundo estava perdendo meu tempo achando que um cara daqueles, um professor super estudado, ia querer ter um casinho com um estudante, e ainda por cima homem. Aquela coisa toda nunca ia dar certo. Imagina se ele ia perder o tempo dele com alguém como eu?

Uma buzinada horrível vinda da traseira do carro assustou a nós dois ao mesmo tempo. Olhando pra frente, eu vi que o sinal já estava verde há um tempão, e ele só tinha se lembrado de acelerar o carro agora. Eu já tinha percebido que ele tinha lapsos assim de vez em quando. Era uma coisa que ninguém mais tinha reparado, eu tinha certeza daquilo.

– Ah... – Ele ficou tão sem jeito que seu rosto foi ficando vermelho. Ou será que era por causa do calor? – Foi mal, é que eu gosto de escutar esse tipo de música, sabe? – Tentou argumentar ele, enxugando o suor com a manga da camisa. – Não precisa achar que eu sou um lunático ou algo do tipo, viu?

Até parece que eu ia pensar qualquer coisa de ruim dele. Naquela hora, eu tava conhecendo um lado dele que eu nunca tinha visto, um lado que não era chato e nem um pouco irritante. A música dava um clima todo especial aquele momento, era como se fôssemos mesmo íntimos, sem aquelas frescuras de professor e aluno. Eu me sentia bem próximo dele. E mesmo achando que ele tinha uma namorada, eu queria que fosse mais...

O carro foi parando de novo no próximo sinal, e eu vi que já estávamos na zona Norte. Em menos de dez minutos estaríamos alcançando a rua que dava pro meu condomínio. O sonho estava acabando, mesmo... fiquei encarando o farol vermelho, pensando em como seria quando encontrasse com ele de novo na escola. Talvez eu desse começar a assistir as aulas dele decentemente, só pra variar...

– Então, onde é a sua casa? – Perguntou ele, olhando pro trânsito também.

– Ah, entra na Barão e depois segue até o Largo da Taiatiba. – Falei, não muito interessado. Na verdade, eu ficaria realmente feliz se ele se perdesse no meio do caminho. Pela primeira vez na vida, eu queria conversar com ele.

– Hmm... você deve morar em algum daqueles condomínios fechados que tem pra lá, né? Deve ter bem uns cinco deles só nessa rua.

– Fazer o que, né? – dei de ombros. Estava realmente ficando puto. Por que aquilo tinha que acabar, droga?

– Ah, me diz uma coisa – ele cortou, ignorando todo o meu mau humor e se virou no banco pra me olhar melhor. – O que você ia me falar lá na escola, antes de eu te oferecer a carona?

Engasguei de novo. Virei pra olhar pra ele também, e ele estava com uma expressão tranquila, um rosto gentil... afinal de contas, qual é o limite de beleza que uma pessoa só pode ter?

De repente parece que meu corpo se tocou de tudo que estava acontecendo ali. Eu tinha feito tudo aquilo pra me declarar, e aquela era a oportunidade perfeita... estávamos sozinhos, com a chuva caindo e aquela música romântica tocando no rádio... dava pra ver os lábios dele, o rosto meio úmido ainda, a respiração dele entrando no corpo de um jeito devagar...

– O que foi, esqueceu o que ia dizer? – ele começou a rir da minha cara de paspalho, lógico. Fiquei bem uns 30 segundos encarando ele e nem me toquei de abrir a boca pra falar... e nessa hora o sinal abriu. Perdi minha chance. – Bem, se você lembrar até a porta de casa você me fala, se for alguma coisa da escola eu até tento te entregar logo amanhã, não sei...

Não. Não tinha mais nenhum sinal depois daquela curva, ele ia seguir na preferencial direto pra minha casa, pra minha forca... isso nunca mais ia acontecer, não daquele jeito... resolvi mandar tudo pra puta que pariu.

– Saffron, eu te a...

– AHHH!

Então o carro virou com uma violência enorme, ouvi algo arrastando no chão, e um pouco depois do meu corpo ser prensado contra a porta do carro eu senti um impacto horrível na lateral.