República de Tigres
33 Capítulo 33
Notas iniciais
Brandon Ferazza, seu momento chegou.
Ele nunca foi criado como uma máquina de combate, propósito esse dado a Sean, Charles e Steven. Pelo contrário, ele nunca foi reconhecido pelo seu avô, sendo então o mais desprezado. Tal desprezo se dava por motiveis ainda mais desprezíveis: seus traços físicos.
Como é de todos já sabem, é característica de um Ferazza nascer com os cabelos bem pretos e a pele branca, fora o olhar profundo que impõe poder. Brandon não nasceu com nenhum desses traços físicos. Ele era loiro, seus cabelos eram vivos e brilhantes, os olhos tão azuis que hipnotizava.
Não bastasse isso, Lorenzo percebia a falta de vontade do garoto pelo poder.
Ele era o primo mais excluído das reuniões, por diversas vezes não recebendo sequer um elogio em encontros de família, ganhando presentes aleatórios sem nenhum acréscimo de comentário positivo, enquanto os presentes de seus primos eram escolhidos a dedo e com um propósito.
Esse mesmo tratamento recebia Cassandra, sua mãe. Era por isso que ela sempre encheu seu filho de amor, talvez por isso Brandon não cresceu amargurado. Ela sozinha deu o suficiente para torná-lo uma pessoa muito amável.
Mas essa falta de posicionamento, desejo por poder, egoísmo e coragem acabou tornando-o uma pessoa muito covarde. O fez ter medo do mundo, o fez calar a própria voz. Segundo sua mãe, era melhor não se meter nas confusões e assim não por em risco nada do que é seu.
E ele cresceu com esse medo.
Brandon decidiu não abrir a boca desde que foi pressionado por seu pai a falar a verdade. Por pouco mais de trinta minutos no carro, eles finalmente chegaram à Quadra e logo foram entrando na república dos tigres.
Brandon abriu a porta do quarto e encontrou Kai dormindo, até deu pena de acordá-lo, mas o momento era muito importante e decisivo.
— Kai. — sussurrou o loiro no ouvido dele.
Kai remexeu, mas não acordou.
— Kai, preciso que você acorde.
O mexicano revirou na cama e o olhou.
— Meus pais... Eles estão lá embaixo. É agora, Kai.
— O quê? — ele se sentou na cama de supetão. — Como assim?
— A verdade. Eles querem a verdade. E eu não vou falar nada sem você do meu lado.
Kai engoliu em seco, passou a mão esquerda no rosto, abriu o armário, buscou por uma camisa e até a vestiu ao contrário sem perceber.
— Você estava chorando? — Kai perguntou ao loiro.
— Sim. — falou ele abraçando o namorado e voltando a chorar novamente.
— Calma, Brandon. — sussurrou, mexendo no cabelo dele. — Vai ficar tudo bem.
— Mas que demora é e- — a voz era de Franz, pai do Brandon, que impaciente subiu ao quarto com Cassandra para procurar o filho.
A cena deixou o homem muito desconfortável, por isso Brandon soltou o namorado rapidamente. Kai ficou assustado e engoliu em seco.
— Então é ele? — Franz perguntou.
Brandon afirmou.
Franz avaliou Kai dos pés a cabeça. Cassandra, preocupada, ficou próximo ao marido para caso alguma coisa acontecesse.
— Então tudo o que o Sean falou é verdade?
— Sean? — Kai deixou escapar dos seus lábios.
— Depois eu te conto, Kai.
— Sean te entregou? — mas ele não resistiu e questionou.
— Sim, pai, é verdade. — Brandon não respondeu ao mexicano.
Franz suspirou, ele entrou no quarto com Cassandra o acompanhando, logo ficou atrás dos garotos que se viraram para o olhar.
— Por onde você vai começar? — perguntou o homem olhando para o filho.
— Calma, Franz, não assusta o garoto. — Cassandra falou.
— Quem está assustado sou eu. Assustado com o que vi no casamento e assustado com o fato do meu filho está com um garoto. Onde entra a Melissa nessa história? O que eu vou dizer à família dela?
— Eles não precisam de explicação alguma!
— Até parece fácil para você.
— Por favor, não discutam! — pediu o loiro.
— Então fala logo como isso aconteceu. — virou o homem ao filho.
Brandon engoliu em seco.
— Eu não sei explicar. Não consigo explicar, mas aconteceu, pai. Apenas aconteceu. Sean não mentiu, eu estava esperando o momento para falar com vocês.
— Não imaginávamos isso. — Kai comentou para ajudar o loiro. — O coração não tem regras.
Cassandra roía as unhas de tão apreensiva que estava.
— E digo mais... Nós dormimos juntos.
— Pra que merda eu tenho que ouvir isso?
— Não sei, pai! Eu tô nervoso! — falou ele.
Kai segurou na mão dele, entrelaçando os dedos, tentando manter a calma do namorado.
— Eu quero saber da Melissa. Onde ela entra nisso?
— Ela sabe da verdade. Eu contei para ela.
— Pobre garota, deve ter saído daqui chorando.
— Eu menti pai, me desculpa. Mas eu precisei dizer que terminamos por causa da distância porque eu não estava preparado.
— E você acha certo o que fez com ela? — Franz largou Cassandra e deu um passo a frente.
— Ei, calma! — a mulher se posicionou na frente dela.
— Eu estou calmo!
— Não parece. Você não vai fazer nada com o nosso filho!
— Eu já disse que estou calmo!
— Se você encostar um dedo nele, eu juro que não vou te perdoar.
— Eu não vou bater nele. Fica calma, mulher!
Os momentos de tensão permaneciam. Franz pôs a mão no rosto e respirava fundo. Cassandra olhava para o filho ainda dando conforto a ele. Kai estava tão apreensivo quanto o loiro, mas enfrentava tudo sem recuar.
— Você é gay? — Franz perguntou ao filho.
— Não sei.
Kai olhou para o loiro com medo.
— Como não sabe?
— Não sei, pai, eu não sei! — explicou ainda assustado. — Coloque dez homens enfileirados na minha frente e de nenhum deles eu vou gostar, não vou sentir nada. Com o Kai é diferente.
Kai sentiu o coração aquecer.
Franz passou a mão na boca.
— Então ele se chama Kai? Isso lá é nome de gente? — realmente questionou com curiosidade.
— Não o ofenda. — pediu o loiro.
— Você sabia disso? — Franz perguntou a mulher.
Ela olhou para o filho e em seguida para o marido:
— Desconfiava.
— O quê? — Franz quase gritou. Brandon também ficou surpreso.
— É o meu filho! Ele não escondia nada de mim, mas eu percebi algumas mudanças. Mas eu sabia que um dia ele ia me falar, eu sabia.
— Mas ele não falou, ele foi exposto pelo próprio primo. — Franz disse apontando para o filho.
— E desde quando é uma surpresa para nós situações como essas acontecerem? É a minha família! Nada de bom sai deles.
Kai e Brandon ficaram em silêncio assistindo os dois dialogarem.
— E para você isso é normal?
— Sim!
— Mesmo sabendo que sua família não concorda?
— Meu filho é a coisa mais importante para mim.
— Cassandra, você sabe que aceitar isso vai por você como um alvo da sua família.
— Eu não me importo com isso. Eu não ligo para mais nada. Depois desse casamento, eu tenho certeza de que o que mais quero é me manter longe dos meus irmãos. Me arrependo muito de ter ficado calada no dia em que vi Sean sendo tratado como um lixo.
— E o seu trabalho? Você ama o que faz.
— Amo mais o meu filho e a sua felicidade.
— Mãe, você não precisa fazer isso. — Brandon largou Kai e se aproximou dela.
— Já queria mesmo sair daquele hospital. Só eu sei o inferno que é trabalhar lá tendo a minha irmã e meu irmão. Eu não vou ficar sem emprego, confiem em mim. Meu pai pode até sujar meu nome em alguns hospitais, mas eu sou uma profissional capacitada e tenho amigos na área. Só confiem em mim.
— Eu peço desculpas pelo que está acontecendo a vocês. — Kai falou.
— Tem que pedir mesmo, garoto. — Franz o encarou.
Kai ficou quieto. Por alguns minutos, o quarto ficou em completo silêncio, tornando-se desconfortável para o mexicano que era o único desconhecido naquele lugar.
— Pai, eu o amo. — soltou o loiro. — Eu já pisei tanto na bola com ele, mas no final ele está aqui por mim. Mesmo que você me odeie, eu não posso deixar de amá-lo.
— E ele?
— Eu também o amo.
— Isso te faz realmente feliz? — olhou para o filho.
— Muito.
— Mas tem algo que não faz sentido. Eu lembro desse garoto, você dizia não conhecê-lo.
Kai abaixou a cabeça, o momento era muito desagradável para se lembrar. Brandon voltou ao lado dele e pôs a mão em seu ombro.
— Eu tive medo de vocês. — respondeu o tigre. — Muito medo da sua reação, pai.
— Mas isso me assusta. Minha mente tá explodindo de tanta coisa que se passa nela. Você nunca mostrou para mim que se interessava por garotos.
— Por ele, pai. Por ele.
— Tanto faz. Mas que seja. Se você é feliz assim, está tudo bem para mim. Eu só vou precisar me acostumar com isso e pensar num modo de falar para a família da Melissa a verdade.
— Espera... Está tudo bem? — Cassandra perguntou ao marido.
— Sim?
— Eu pensei que você ia derrubar tudo!
— Eu? Eu só tô assustado, mulher. Você queria o quê? Eu tinha um filho que até então namorava uma garota e agora tá com um garoto.
Ela sorriu aliviada e segurou na mão do marido.
— Se você está bem com isso e eu também estou, não há nada contra essa relação. Nosso filho precisa e merece ser feliz.
— Mas não é assim tão fácil. Esse garoto não vai escapar de um interrogatório meu. Quero saber quem é, da onde veio, o que faz, quem são seus pais e ainda tem a parte de saber se os pais dele também sabem dessa relação.
— Se quiserem, posso agendar uma mesa no restaurante dos meus pais. — Kai se atreveu a falar.
Assim já respondeu que seus pais sabiam.
— Seus pais têm restaurante? — Kai afirmou. — Se vista. Vamos agora. — falou o homem passando por eles e descendo.
Cassandra deu um salto de alegria e abraçou o filho e um beijo na bochecha do Kai, ela rapidamente desceu para acompanhar o marido para tentar acalmá-lo. Era realmente uma surpresa para ele tudo aquilo.
Kai e Brandon ficaram a sós. Um olhando para o outro, felizes. Brandon deu um sorriso que contagiou o Kai e o fez sorrir também. Os dois deram um rápido selinho.
— Eu pensei que ele iria me odiar.
— O medo nos faz criar muitas hipóteses.
— Você sabe o que isso significa, Kai? — Brandon segurou na mão dele. — Podemos finalmente assumir para o mundo.
— Pro mundo?
— Pra quem eu quiser. Eu não vou mais me esconder, eu juro para você!
Quando Kai ia falar algo, o loiro o beijou e o silenciou. Era muito felicidade para um só coração. Finalmente você deixou de ser covarde, menino Brandon. Aproveite da sua felicidade, você merece.
— Brandon! — gritou o homem.
— Tô indo! — respondeu afastando-se rapidamente do mexicano. — Anda, Kai, vai vestir alguma coisa.
Kai apenas sorriu, mas roubou-lhe outro beijo.
[...]
Era uma sala sem muita vida, as paredes unicamente cinzas e o piso num tom de cinza mais claro. Tinha mais daquelas para o mesmo propósito: visitas. Várias mesas retangulares alinhadas naquele espaço, com cadeira dos dois lados, para o visitado e o visitante.
Colin não era o único presente. O número de mulheres ali dentro eram maiores; ou seja, esposas e mães. Antes mesmo de o prisioneiro aparecer, Colin pôde presenciar uma mulher já chorando. Provavelmente era mãe sentindo a dor de ter o filho preso.
A porta de metal finalmente foi aberta, Colin arrumou sua postura. Prisioneiro por prisioneiro foi entrando algemado, parando apenas para procurar quem tinha ido o visitar, rapidamente se dirigiam para as mesas. Alguns com um sorriso no rosto, outros já com lágrimas e outros sem emoção alguma.
Diferente de todos, Colton entrou sentado numa cadeira de rodas sendo empurrado por um homem fardado. Ele parou próximo à porta e olhou para toda a sala até seus olhos encontrarem os de Colin. Ele sorriu. O leonino engoliu em seco. Colton apontou para a mesa. Colin juntou as mãos.
Finalmente um de frente para o outro.
Colton com aquele olhar presunçoso e único dele, muito satisfeito com a presença do leonino naquele ambiente. Colin com a mesma cabeça erguida para o seu inimigo, não mostrando fraqueza alguma diante de quem já foi seu maior problema.
— Fiquei surpreso quando soube que era você.
Colin permaneceu quieto.
— E então, o que aconteceu com o Sean para você me procurar?
Ele era muito ardiloso. Colin não precisou dizer palavra alguma para que ele já soubesse do que se tratava.
— Muito esperto. — Colin falou.
— Que outro motivo o traria aqui? Eu sou o ex do seu namorado.
Colin engoliu em seco, não quis contar sobre seu término.
— Quem é Larah?
— Larah?
— Você tem alguma ligação com ela?
Colton sorriu.
— Está me acusando de alguma coisa que nem mesmo eu sei? Já olhou ao redor, Colin? Sabe bem onde estamos?
— Você é esperto demais, Colton.
— Obrigado, sabia que você tinha inveja de mim nesse sentido. Infelizmente não posso dizer o mesmo. Mas me acusar de conhecer essa tal de Larah é muita burrice. Mas já que tocou nesse nome, qual a ligação dela com o Sean? — ele sorriu provocativo.
— Não importa.
— Vocês brigaram por causa dela?
— Não importa.
— Sean te traiu com ela?
— Não importa, porra! — gritou.
A sala toda se silenciou para mirar na mesa em que os dois estavam. Colin se sentiu constrangido, mas Colton mais uma vez sorriu, seus olhos diziam tanta coisa.
— Mas você tá brava?
Colin suspirou para manter a calma.
— Então toda aquela história de amor em que fui declarado vilão do casal foi por água abaixo?
— Não importa, Colton. Estou aqui por outro motivo. Se não sabe quem é Larah, então eu vou embora.
— Mas já? Mal chegou.
— Ah é? Acha que eu deveria ficar e bater um papo com quem quase tirou a vida do meu melhor amigo e a minha?
— Engraçado você me falar isso quando me procura para pedir ajuda.
— Pedir ajuda? Apenas imaginei que Larah fosse mais uma de suas jogadas. O que não descarto a ideia, aliás.
— Isso significa que você realmente acredita na minha capacidade de atacar você e Sean mesmo estando longe? Olha, nem mesmo eu acreditava tanto em mim. Mas eu gostaria realmente de saber quem é Larah. Mas pela sua cara, parece que é alguém que está envolvida com o Sean.
— Já disse que não interessa a você.
— Interessa... E muito. Ela conseguiu tomar o coração daquele forte homem? Meu Deus, imagina que loucura, não é, Colin? Sean te deixando pra ficar com uma mulher.
— Você pode até tentar, Colton, mas não vai conseguir me desestabilizar.
— Vem cá: Vocês ainda falam de mim lá na Quadra? Eu fiz história, não é?
— Ninguém lembra de você. — mentiu.
— Ah, é uma pena, mas um dia eu vou sair daqui.
— Encerramos por aqui.
— Contra quem você usaria as informações que conseguisse comigo?
— Não interessa, Colton. Não estou aqui para te revelar nada além do que você precisa saber.
— Você é um projeto menos desenvolvido de mim. Deveria ser eternamente grato a mim.
— Você deveria calar a boca. Não me compare a você. Aliás, você não sabe o que aconteceu, não tem ideia total do que aconteceu. Meu propósito aqui é outro, isso não significa que somos amigos e que devo contar minha vida para você. Você diz que não sou o mocinho dessa história, Colton. Acha mesmo que sou igual a você? Como você mesmo citou: “Já olhou ao redor, Colin? Sabe bem onde estamos?” Bem... Eu posso muito bem sair desse lugar, já você... Está preso numa cadeira de rodas e preso aqui.
Colin se levantou, caminhou até o segurança que protegia a porta de saída e logo saiu dali. O corpo quase despencou no caminho. Foi muito difícil está ali dentro por minutos sem socar a cara do Colton.
Colin foi tão forte por um dia resolver ficar cara a cara com o garoto que quase o matou, assim como também quase matou William e Sean, afinal o tiro era para ter sido no tigre. O ex do seu ex e rival dos dois.
[...]
Ian e Connor tinha acabado de parar em frente a entrada dos estúdios Green Leaf. Connor parecia uma criança muito boba visitando o parque da Disney pela primeira vez, mas ao mesmo tempo ele também estava muito nervoso com a ideia de ser entrevistado.
Após apresentados na portaria, a passagem foi permitida. Eles seguiram as instruções do segurança e chegaram ao estúdio do programa de Michael Supitt. Lá, uma mulher loira e de cabelos curtos e presos num coque, aproximou-se deles. Ela segurava vários papeis na mão e em seu crachá estava escrito: Liana Lones.
— Boa noite, Connor Millan, não é?
Ele confirmou.
— E meu namorado, Ian. — puxou o moreno para mais próximo.
— Me acompanhem, por favor. Michael os espera no camarim.
Bastante empolgado, Connor acompanhou a mulher, estando há dois passos a frente do namorado, que o seguia com um sorriso no rosto por se deixar levar pela contagiante felicidade do namorado.
Andaram por vários corredores, viram alguns artistas de TV e Connor parou em praticamente todos para tirar uma foto só pensando na quantidade de likes que receberia ao publicar a imagem. Ian era seu fotógrafo oficial daquela noite.
Finalmente chegaram ao camarim do Michael, com a placa já estampada na porta. Próximo à porta havia um sofá vermelho, o espelho ficava na parede de frente para a porta, com algumas cadeiras e uma prateleiras com materiais de maquiagem, cabelo e unha.
As paredes restantes viraram um bom lugar para as fotos do apresentador, sendo ele com amigos ou sozinho.
— Chegaram! — Michael saiu da cadeira e foi cumprimentar Connor — Estava só esperando por você.
— Oi. — o leonino disse meio sem graça.
Michael se prolongou no abraço e quando o soltou, passou a mão do ombro até à cintura de Connor, analisando-o bem, com segundas intenções para ser mais exato.
— Nossa, que bonito você é pessoalmente.
— Obrigado. — respondeu ainda sem graça, em toda sua ingenuidade. — Trouxe também meu namorado.
— Namorado, é? — Michael olhou para Ian, mas numa simpatia bem diferente dada ao Connor.
— Sim. Ele já apareceu em alguns vídeos meus. — Connor segurou na mão do namorado e o puxou para mais perto.
Michael cumprimentou Ian sem muita vontade, dando logo as costas para ele ao se meter entre os dois.
— Sim, lembro dele. Mas vem cá, quer alguma coisa para beber?
— Só uma água. Você quer, Ian?
— Não, obrigado.
Ian era muito educado para se deixar levar pela má recepção. Estava muito feliz pelo namorado para soltar alguma piada contra Michael.
Michael foi ao frigobar, buscou uma garrafa com água e entrou ao garoto.
— Sentem-se, vamos conversar um pouco antes das gravações.
Michael Supitt era um pouco na casa dos cinquenta anos, tinha cabelos loiros que ele nunca deixava de pintar. Os olhos castanhos e a pele esticada pelas plásticas, tentando sempre parecer mais jovem do que realmente é. Ele era assumidamente gay e aparecia em campanhas da causa.
— Está nervoso? — perguntou o homem.
— Um pouco. É que eu nunca imaginei estar aqui um dia, sabe? É assustador.
— Não precisa ficar nervoso. O programa não é ao vivo, então da para aproveitar bastante e qualquer coisa editamos.
— Normal. É sempre assim na primeira vez. Lá eu irei te fazer perguntas que não fogem da sua rotina, não se preocupe. Coisas da sua vida e dos seus vídeos. Você viu que você aparece como um dos convidados nos comerciais do programa?
— Sim! Eu até baixei e quase todo dia vejo com o Ian. Ele até resmunga de tanto que eu vejo.
Ian sorriu entredentes, preferindo não ter aquela informação exposta. Michael o olhou, mas naquele olhar havia muita pouca empatia.
— Logo mais o cabelereiro e maquiador aparece. Vamos dar uns toques em você.
— Que?! Não precisa não.
— Claro que precisa. Vai ficar mais bonito do que já é.
— Sinceramente? Prefiro ele assim. — Ian se meteu só para abaixar aquelas cantadas. — Teria problema se ele ficasse do jeito que está?
Surpreso, Michael ficou de lábios entreabertos e, para não estragar tudo, apenas balançou a cabeça.
— Tudo bem, tudo bem. Mas me fala, Connor, eu quero saber sobre essa história do bode. Sem dúvidas aquele foi o vídeo mais engraçado que eu já vi.
Connor já largou um sorrisão.
— Foi uma loucura! Estava numa competição com alguns amigos e eu precisava encontrar alguns números para formar uma senha. Não é que o maldito número estava no lugar que o bode ficava? Eu só fui muito burro e não sabia que o bode era violento. Eu achei que ia morrer! Se aquele bode me pegasse seria o fim da minha vida.
Michael caiu na gargalhada, um pouco artificial até. Ian somente sorriu, naquele momento estava realmente sendo engraçado.
— Vai preparando aí que eu vou perguntar a mesma coisa na gravação. Mas vem cá: você também canta, toca. Menino, você é um talento nato! Faz muita coisa boa. Eu daria tudo para ter alguém assim.
— Ah, eu tenho esse dom. Gosto de cantar para o meu namorado.
Michael odiou ouvir isso, seu semblante até mudou quando ele viu Connor sorrindo para o Ian.
— Que lindo! Vocês são um belo casal. Que sorte, hein... Como é mesmo o nome?
— Ian. Me chamo Ian. — ainda simpaticamente, o leonino respondeu.
— Então, como eu ia dizendo: que sorte, hein, Ian. Ótimo partido você arrumou.
— Completamos três anos de namoro.
— Sério? Jurava que era recente.
— Eu falo nos meus vídeos! — Connor entrou na conversa, Ian agradeceu.
— Mas então, Ian, o que você faz? Seu namorado faz vídeos para a internet, mas e você?
— Eu? Sou apenas um estudante.
— Ian é muito inteligente, Michael. Ele vive com a cara enfiada nos livros.
Ian sorriu entre lábios.
— Ah, ele realmente aparenta ser muito inteligente. Mas você poderia investir um pouco mais na carreira do seu namorado, não acha? Dar mais oportunidades, tornar-se influente no meio dos famosos...
“Está falando de mim ou de você mesmo?” pensou o leonino, evitando não falar nada.
— Torço muito pelo sucesso dele.
Em poucas palavras, Ian ia deixando Michael com inveja. A má índole de Michael era apenas invisível para Connor, que via nele apenas um cara muito legal por ter o levado a TV, fora que Connor era muito ingênuo quando se trata da maldade das pessoas.
A equipe de cabelo e maquiagem chegou ao camarim.
— Bem, vamos começar as primeiras mudanças, Connor. Eles vão cuidar da sua imagem.
— Como dizia meu amigo: Égua! — empolgado e esfregando as mãos, Connor, com os olhos brilhantes, sorriu para o namorado.
Ian precisou daquele sorriso para acalmar um pouco o coração que agitava pela cara de pau de Michael.
Sem sair do lugar, o leonino mais quieto não se meteu mais diálogo entre Connor e Michael, sendo que seu namorado não parava de falar um minuto de tão empolgado que estava, enquanto o dono do lugar forçava risos e risadas para parecer mais íntimo.
[...]
O som no quarto era vibrante, de uma máquina de cortar cabelo. Sentado sobre um banco alto, Charles, sem camisa, mostrando os ferimentos ainda não cicatrizados em seu corpo, deixava o ruivo mandar ao chão seus fios negros.
Ele, que era tão narcisista e amava se cuidar, chegando a causar inveja em pessoas pelo seu belo cabelo preto e brilhante, parecia não mais se importar com isso.
Joshua, como de costume, estava em silêncio. Charles agora teria cicatrizes para contar, assim como Joshua tem. Marcas que agora, definitivamente, farão parte de sua história. Trágicas, mas marcantes. Cicatrizes que nos fortalecem.
— Vai demorar? — Charles perguntou.
Joshua desligou a máquina, afastou-se de Charles e buscou por um espelho pequeno e o entregou.
Quando se viu, Charles achou que sua reação fosse pior, mas na sua mente só vinha a frase “esse é o novo Charles”. Daqui por diante as coisas seriam diferentes, quem ele era acabara de morrer naquele momento em que se viu.
— Ficou bom. — disse e não permaneceu mais se olhando.
Seu cabelo não estava completamente raspado, como de alguém que poderia sair agora no sol e parece que a luz reflete na sua pele. Na verdade Charles estava parecendo um garoto que acabara de entrar para o exercito. Seu cabelo estava curto, muito curto mesmo. Se passasse a mão parecia até que estava furando-a. Estava raspado.
Com dores ele se levantou.
— Seu nome é Joshua, não é? — questionou o moreno.
O ruivo confirmou. Ele estava limpando o cabelo que foi cortado, pondo-o numa pá e colocando-o diretamente no lixo.
— Qual o motivo dessas suas marcas?
Charles nunca teve medo de nada, quando queria saber de algo, não fazia arrodeio e nem tentava ser mais discreto.
Joshua o olhou, devolveu a vassoura e a pá ao canto da parede e respondeu:
— Vitórias.
Charles só contraiu os lábios, fez um gesto positivo e se sentou na cama.
— Já ouvi falar de você. Você é soropositivo.
Não se agradando muito da conversa, Joshua deu as costas e começou a limpar a máquina de cortar cabelo.
— Isso não me incomoda. — acrescentou o moreno. — Mas eu gostaria de te dizer algo.
Joshua o olhou, mas continuou limpando o pente da máquina.
— Aquele garoto que está lá no sofá, dormindo, gosta muito de você.
Joshua voltou seu olhar para a máquina, mas a frase causou efeito. Ele ficou muito feliz com a informação, mas se lembrar de que estavam separados era entristecedor.
— Você só precisa reconquistá-lo. Apenas isso. Não seja tolo, mude.
No dia em que Charles e Edgar saíram àquela madrugada para comer algo, Edgar não aguentou muito e contou tudo o que tinha acontecido. Charles aprendeu bastante coisa sobre a Quadra com o loiro, ouviu tantas histórias e ficou surpreso com algumas.
Joshua terminou de limpar a máquina, a guardou, pegou o banco e saiu com ele do quarto. Abriu a porta do bloco apenas para que o vento entrasse e assim ventilasse o loirinho deitado no sofá. No entanto, Edgar acabou acordando.
O loiro sentou-se no sofá, espreguiçou-se e esfregou o rosto.
— Que droga, peguei no sono. — falou para si sem notar a presença do ruivo.
— Você passou a madrugada acordado. — disse o ruivo, assustando-o.
Edgar disfarçou o susto.
— Tinha que ficar de olho nele. E se ele tivesse alguma reação?
Joshua também não havia dormido na madrugada. Apenas tomou um cochilo nas primeiras horas da manhã, mas acordou quando se lembrou que o ex-namorado estava ali.
— Preciso voltar para a república.
— Eu posso te acompanhar.
Edgar o olhou por uns segundos, pensou em rejeitar a oferta, mas acabou aceitando-a. Joshua apenas estava se esforçando para reconquistá-lo, ele reconhecia isso.
— Vou só dar uma olhada no Charles, já volto.
Joshua aguardou, Edgar não demorou. Os dois saíram do Ninho sem muita preocupação, já que dessa vez quem estava lá era o conhecido do ruivo.
— O que faremos daqui para frente? — Edgar perguntou ao ruivo enquanto caminhavam.
— Não sei.
— Ele não quer que ninguém saiba onde está.
— Não falarei pra ninguém. Posso dar conta dos que moram comigo.
— Sem violência, Joshua.
— Não disse nada, loirinho.
Edgar não soube o que falar.
— Mas como posso me segurar se eu vejo que alguém está te machucando?
Edgar o olhou enquanto caminhava. Era um sentimento muito bonito, da maneira errada, mas bonito. Joshua sempre ia deixar seu sentimento exposto quando se trata do loiro.
— Nada vai me acontecer. — disse o loiro.
— E se acontecer?
Edgar engoliu em seco. Ele não sabia se defender, era uma barata tonta quando se tratava de luta.
— Não sei, Josh... Não sei... — admitiu, finalmente. — Droga! — ele parou de supetão.
— O que houve?
— Acabo de perceber que o bolso da minha bermuda furou. Por sorte percebi antes de jogar o celular com tudo aqui dentro.
— Põe no outro.
Edgar o olhou, sorriu amarelo e disse:
— Esse tá furado há dias, sempre esqueço de costurar.
— Me dê que eu coloco no meu bolso. — pediu.
Edgar aceitou e o entregou o celular.
— Obrigado. Não é muito legal andar com ele por aí a mostra. Se bem que eu acho difícil alguém se atrever a tomar de você. Olha só seu tamanho e esses braços grossos.
Joshua não disse nada, mas internamente seu corpo fervilhava em felicidade.
Depois disso, ambos caminharam em silêncio. Edgar mantinha a calma enquanto caminhava, não tinha tanta pressa. Isso foi bom para o ruivo que pôde aproveitar mais da presença dele.
Não sendo muito longe, eles logo chegaram à Quadra Nove. Joshua ainda insistiu em levá-lo até lá dentro, em frente sua república, mas quando Edgar viu Caine saindo dos leões, gritou para o amigo e se virou para o ruivo:
— Aqui está tudo bem. Obrigado pela companhia. — agradeceu com um sorriso no rosto.
Joshua apenas fez um leve movimento de cabeça, aguardou ele se afastar e deu as costas.
— O que houve? Tá no mundo da lua? — Edgar perguntou ao ver que o amigo estava estranho.
— Não comenta com ninguém ainda. Mas eu acabei de sair daí de dentro e ouvi o Calvin perguntando para o Hugh sobre o Charles. Isso me faz pensar numa coisa: desde quando Charles e Calvin são amigos? Mesmo não sendo, mas o Calvin parecia preocupado, então alguma coisa tem entre eles.
Edgar esfregou o rosto, suspirou e, confiando em Caine, disse:
— O Charles está-
Nesse mesmo momento o Calvin tinha abrido a porta da sua república quando ouviu o Edgar falar o nome do Charles. Assustado, Edgar foi ao lado do amigo.
— Você o viu? — Calvin perguntou ao loiro. — Você sabe onde ele está?
— C-como assim? Vi quem?
— O Charles! Aquele demônio dos tigres.
— N-não, eu não vi. — falou não muito convincente, péssimo mentiroso. — Bem, vou indo. — Edgar virou as costas apressadamente, mas teve sua mão pega com força e foi puxado de supetão, assustando-se com a ação.
— Por favor, diz onde ele está, parece que ele precisa de ajuda. — as palavras ganharam força, mas ele apenas estava preocupado.
— Calvin, você está me assustando.
— Eu sei que você sabe! Edgar, nós somos amigos.
Foi só terminar de falar isso e um braço branco tocou no braço de Calvin e o puxou com força, liberando o loirinho. Como não fala antes de agir, Joshua já foi logo distribuindo socos e chutes até Calvin começar a recuar sem muita defesa.
Quando deu por si, lá estava um ruivo com um olhar muito violento para cima dele. Calvin, a princípio, não entendeu muito bem o que tinha acontecido, imaginando não ter feito nada. Mas não ia deixar as coisas daquele jeito. Foi quando avançou no ruivo, dando-lhe um soco, mas a mão forte do Joshua a desviou, no entanto a esquerda acabou acertando-o no rosto e, tonto, o ruivo deu um passo para trás.
Calvin então saltou dando um chute no peito do Joshua, embora forte, Joshua conseguiu manter-se de pé e quando ia receber outro ataque, só deu um passo de lado e a sua mão fechada foi bem certeira no nariz do leonino.
Calvin rapidamente levou a mão à região atingida e sentiu o líquido quente banhá-las.
— Para vocês dois! — Caine gritou.
Calvin nem ligou pro sangue que perdia, ele foi como um monstro para cima do Joshua. Dando-lhe um soco no rosto, um chute no estômago, outro soco no rosto, outro chute e uma rasteira. Uma só sequencia de ataques que finalmente derrubou o brutamonte.
Quando ia pisar no rosto do ruivo, Joshua rolou para o lado e segurou no pé dele, derrubando-o. Rápido e eficiente, Joshua montou sobre ele e começou a distribuir socos na face de Calvin, tão forte que o leonino sequer conseguia se defender direito, mas buscou força para retirá-lo de cima de seu corpo.
Definitivamente era uma briga de gigantes. De um lado aquele que tem a fama já bastante conhecida por destruir suas vítimas. Do outro lá alguém que cresceu em meio a violência dos subúrbios, aprendendo a sobreviver até os dias atuais. Mas Joshua também cresceu no mesmo meio, embora ambos tivessem uma vida bem paralela financeiramente falando.
Calvin e Joshua praticamente tinham o mesmo estilo de luta. Socos tão fortes que se fossem dados em pessoas menores e de porte físico inferior, certamente os fariam desmaiar. Calvin nunca tinha pegado um adversário a altura desde que chegara ali, seu nariz sangrando era uma novidade.
Joshua, quando foi derrubado, reconheceu a força do seu rival leonino, mas tinha lidado com coisa parecida ou até mais forte, o William, por exemplo. Quando recebeu a sequencia de ataques e caiu no chão, percebeu ali que ele era forte.
Com os dois novamente de pé, Calvin ousou socar o ruivo, mas o morador do Ninho desviou e revidou o soco, mas não conseguiu se proteger do chute na cintura. Calvin deu outro soco, Joshua desviou e o acertou com um soco. Calvin ficou tonto.
— Joshua! — a voz do loirinho o distraiu.
Calvin novamente deu uma sequencia de três socos no ruivo, que tonto, deu três passos para trás, mas apenas fechou o olho rapidamente e quando os abriu já foi logo para atacar. Ele deu um chute com os dois pés no peito do leonino, que ficou sem ar e caiu no chão. Joshua correu, conseguiu levantá-lo com as mãos em seu pescoço, sufocando-o.
Ali era o final para o Calvin. Se fosse equiparar força, naquele momento, Joshua estava numa posição onde poderia aguentar por mais tempo enquanto Calvin era enfraquecido pela falta de ar.
Joshua estava dando-lhe um golpe chamado mata leão — ironicamente o Calvin era membro dos leões, um leonino. Nada do que fizesse, podia fazer Joshua largar do seu pescoço. Calvin usava os cotovelos, as pernas, mas nada adiantava. Ele até sentia a visão escurecer pela falta de ar.
Onde já se viu piedade para o Joshua? Ele estava decidido a desacordar o leonino sem saber que isso poderia gerar consequências maiores.
— Joshua, por que você nunca muda?!
Quando olhou para quem tinha gritado, lá estava o loiro com os olhos cheios de lágrimas e ali, naquele exato momento, ele se lembrou do que o Charles disse “Você só precisa reconquistá-lo. Apenas isso. Não seja tolo, mude.”. Ele também teve lembranças do dia do término no carro, sabendo que isso era a parte mais dolorosa dos últimos tempos em sua vida.
“O que você está fazendo, Joshua?” — pensou o ruivo.
Foi quando ele cedeu os braços e Calvin caiu de joelhos, respirando muito fundo como se nunca tivesse respirado na vida.
Joshua olhou para o loiro que balançava a cabeça negativamente e, bem baixinho, fazendo com que Edgar apenas entendesse pela leitura labial, o ruivo disse: me desculpa.
Mas o intervalo não durou muito. Calvin, quando recuperou parte do fôlego, já se levantou dando um gancho no ruivo, que significava ser um soco diretamente no queixo, muito forte, praticamente nocauteando o rival.
Joshua caiu de costas no chão, acordado ainda, mas não pensando em reagir. Não podia fazer mais nada quando percebeu que havia magoado o loirinho mais uma vez, por isso mesmo podendo se defender, embora o soco o fizesse ver estrelinhas, ele não quis. Se negou a continuar a luta e apenas abriu os braços no chão.
Calvin, cego de raiva, já desceu dando-lhe um soco no lado esquerdo do rosto e outro no direito, alterando a cada segundo, molhando sua mão com o sangue rival. Joshua via o rosto de Edgar, em seguida via a república dos tigres, logo voltava ao rosto do loiro e assim ia se alternando. Em nome do ex namorado, ele se deu por vencido.
A surpresa veio quando o próprio Edgar lançou-se contra o corpo do ruivo, protegendo-o como se fosse uma criança encolhida dentro do seu corpo.
— Para! — bradou. — Para!
Calvin, que havia sido lançado ao lado, ofegante, não fez nada, além de se sentar, enxugar a testa e tentar estancar o nariz com a mão.
Os demais moradores dos leões só saíram todos no final da briga quando da janela, Pietro viu Joshua sendo socado foi comentar com Hugh.
— Caralho, o que merda aconteceu aqui? — Julius perguntou. — Porra, quanto sangue é esse no chão?
— Alguém me ajuda aqui. — Marcus pediu ao não ter forças para se levantar.
Hugh e Patrick foram até ele, levantando-o do chão, mas não retirando os olhos do rosto ensanguentado do ruivo, que tinha até as mexas dos cabelos ainda mais vermelhos pelo sangue que havia pegado nelas.
— Alguém também pode me ajudar? — Edgar suplicou.
E Julius não negou, assim como Marcus e os dois, cada um de um lado, ajudaram a colocar Joshua de pé.
— Levem-no para minha república.
Edgar sequer pediu ao Caine autorização, mas o amigo não pareceu se importar. Caine pegou no braço de Edgar e os dois juntos entraram na república dos águias.
[...]
A porta do quarto estava trancada por motivos muito óbvios.
Joshua estava sentado em um banco enquanto Edgar, sentado na sua cama, limpava todo o sangue de seu rosto, tornando a água límpida na bacia ao lado num pequeno mar vermelho.
— Consegue falar comigo? — Joshua perguntou olhando-o. Ele não demonstrava dor alguma, mesmo que o pano tocasse seus ferimentos.
— Estou cuidando de você.
— Onde conseguiu as luvas?
— Eu fui seu namorado, tinha que está preparado.
— Foi meu namorado... — repetiu.
Edgar ficou em silêncio. Devolveu o pano a bacia ao perceber que o rosto dele estava mais limpo, no entanto o nariz dava indícios de sangramento interno e que se ele fizesse esforço voltaria a sangrar.
— Não se mexe.
Bastou apenas terminar de falar e lá estava o sangue descendo. Edgar ficou de pé, buscou as pressas uma camisa sua que pudesse descartar mais tarde e estancou o sangue no nariz do ex namorado. Pressionou fortemente e sentou-se na cama ainda pressionando.
— Não fala nada. — pediu.
Obedecendo, Joshua ficou em silêncio. O recomendado, fuçou o celular e pesquisou por quando tempo deveria ficar segurando o nariz dele e descobriu que o recomendado eram dez minutos.
Joshua, por nenhum segundo, desviou os olhos do loiro. Já Edgar, estava começando a ficar constrangido, embora estivesse muito chateado, mas era encantador demais aqueles olhos o namorando.
E quanto mais olhava, mais parecia que o tempo ia devagar, como se estivesse congelado. Edgar abaixou a cabeça e sorriu, mas rapidamente se conteve e quando olhou mais uma vez para Joshua, o encontrou sorrindo.
O sorriso do Joshua foi resultado do rápido sorriso que o Edgar deixou escapar.
— Para. — pediu constrangido.
— Você me deixa assim.
Joshua dificilmente sorria, por isso para Edgar vê-lo sorrindo era encantador e constrangedor quando ele, por si só, era o motivo do sorriso.
— Fica quieto, estou tentando parar o sangramento do seu nariz. — falou pondo um semblante sério.
Joshua ficou quieto. Os minutos foram se passando até dar o prazo. Devagar, Edgar retirou a —camisa do nariz dele e percebeu que o sangramento parou. Então ele voltou a limpar o nariz dele com gazes que estava ali do lado.
Depois que tudo foi limpo, Edgar ficou de pé, colheu toda a bagunça e saiu do quarto para jogá-las. Joshua precisou aguardar por alguns minutos, minutos esses que foram bem demorados.
Edgar só quis realmente exterminar tudo para que ninguém entrasse em contato com aquele sangue. Pôs em várias sacolas de lixo e o jogou na lixeira do lado de fora.
Ele voltou ao quarto, viu Caine e os outros moradores sentados no sofá, sabia que os olhares que recebia eram todos julgadores pelo fato de Joshua estar ali dentro, mas ele forçou-se a não se preocupar, embora soubesse que isso poderia colocar em risco sua relação com os demais.
Ele voltou ao quarto e mais uma vez o trancou.
— Você precisa ir. — pediu. — O Danion vai me matar quando souber que você esteve aqui.
Joshua não disse nada, sabia que qualquer ameaçava feita a Danion só prejudicaria sua relação com o loiro.
— Você nunca vai me aceitar novamente na sua vida?
— Como te aceitar novamente se você n-
— Porque não reconhece o que eu fiz?
— O que você fez? Iniciou uma briga?
— Você sabe o que eu fiz.
Edgar desviou o olhar, caminhou até uma prateleira e fingiu arrumá-la.
— Loirinho...
— Você não precisava levar todos aqueles socos por mim.
— Era isso ou você nunca mais ia me perdoar.
— Eu não te perdoei.
Joshua pareceu engasgar. Seu coração foi metralhado naquele instante. Tanto é que ele ficou em pé, não ia querer ficar mais no quarto depois do que ouviu.
— Por favor, loirinho. — mas parando no meio do quarto, ele não resistiu e disse.
— Joshua, eu te dei várias chances.
— Eu mereço uma, uma só chance.
— E a que tinha você pôs abaixo hoje.
— Eu tentei! Eu me esforcei. M-mas quando eu vi aquele garoto e a sua expressão eu não pude me controlar.
— Calvin não iria me fazer mal.
— Eu não ia saber disso.
— Era só não sair batendo nele. Agora me responde: você estava me vigiando?
— Não, é claro que não.
— Então por que você voltou?
— Pra entregar seu celular! — sua voz elevou um pouco. Joshua retirou o aparelho do bolso e estendeu a mão ao loiro.
Constrangido, Edgar engoliu em seco e pegou o que era seu.
— Me desculpa.
— Tudo bem. — disse o ruivo, embora sentido.
Por alguns instantes de silêncio, Joshua ficou parado no centro do quarto enquanto Edgar permanecia em seu lugar, imóvel, apenas refletindo. Mas o loirinho não resistiu por muito tempo e soltou:
— Por que tem que ser assim? — Edgar virou-se de supetão e ele parou no caminho. — Precisa tomar todos aqueles socos mesmo? Precisava se machucar por minha causa? Ou machucar por minha causa? Por que tudo se resolve em dor?
— Eu faço tudo o que for preciso para te proteger.
— Batendo nas pessoas? É assim que você tem que fazer?
— O que for preciso. — respondeu sem se exaltar.
— Estamos terminados e ainda assim discutimos pelo menos motivos.
— Mas loirinho v-
— Como você pede uma chance se acaba de confirmar que faz de tudo para me proteger, isso significa que não vai mudar e vai continuar batendo nas pessoas.
— Eu me esforço, loirinho. Mas é q-
— É o quê, Joshua? É o quê? Qualquer um que te provocar já vai estar no chão apanhando.
— Eu não vou mais fazer isso. — abaixou a cabeça.
— Falar assim é fácil, mas na prática é difícil.
— Por que tem tanta pena dos outros? — questionou ainda de cabeça baixa.
— Porque ninguém é descartável, as pessoas sentem, Joshua. Prova disso são suas cicatrizes, marcas das suas lutas e que provam que você sobreviveu.
— E a ferida que está dentro de mim que nunca foi cicatrizada?
Edgar encerrou seu discurso ali e assistiu o ruivo levantar a cabeça devagar. O loiro sentiu que conseguiu o atingir, mas bem profundamente. Isso porque o olhar do Joshua parecia permanecer o mesmo, mas por Edgar o conhecer muito bem, conseguia enxergar o vazio através dele.
— Hein? — Joshua questionou.
— O que quer dizer?
— Pensei que tivesse resposta para tudo.
— Não sei do que está falando, então não sei a resposta.
— Porque é você.
— Eu?
— É você quem cura o que está dentro de mim, mas às vezes é mais forte do que eu e sai do controle.
Havia beleza no que ele dizia, Edgar reconhecia isso, mas também era trágico, também havia tristeza nas palavras do ruivo.
— Quer saber mesmo, loirinho? — Joshua começou a caminhar na direção dele.
— O que eu quero saber? — perguntou engolindo em seco, com um pouco de medo, dando um passo para trás.
— O que sempre quis saber, mas nunca insistiu. — Joshua parou.
Edgar parou de retroceder, manteve-se firme, respirou fundo e fez apenas um movimento leve de cabeça: sim.
— Eu fui estuprado por três anos.
Edgar levou suas duas mãos à boca, incrédulo.
— Tudo começou aos nove anos, quando eu ainda sorria todos os dias brincando com meus bonecos. Lá estava eu sentado no chão do meu quarto, sozinho, a janela do quarto aberta enquanto eu dava vida aos meus brinquedos. Até que ele chegou, perto das 16 horas, eu achei que ele brincaria comigo, mas tudo o que vi foi ele fechar as janelas e me pegar com força pelo braço.
— Joshua, não precisa cont-
— E então eu fui lançado contra a cama e lá iniciou tudo. A primeira vez foi a mais difícil de todas, mas como equiparar a força de uma criança de nove anos com a de um homem adulto? Ele me silenciou e tudo o que eu senti foi o sangue descer entre minhas coxas. Eu fui tratado como um lixo, eu era um lixo. Ele era inteligente, sabia como esconder tudo. As ameaças que meus pais recebiam eram diárias, e eu só sabia ter medo. E foi assim por três anos, nesse período eu sofri de todas as formas possíveis, fui submetido a situações completamente constrangedoras. Até no dia do meu aniversário ele convidar mais um. Mais um.
Edgar estava começando a ficar enjoado, sem chão, sem saber o que falar. Ele ainda permanecia incrédulo.
— Eu morri. Eu perdi a fé. Onde estavam as pessoas para me ajudar? Enquanto eu sofria, lá estava ele sorrindo na mesa de família junto aos meus pais. O filho da puta que me estuprava era meu tio. Da minha própria família! Sempre sorrindo e muito querido pelos meus pais. E foi só quando ele tentou repetir a mesma coisa com o Noah que isso que você tá vendo aqui, esse mesmo cara que você tanto briga por não ter pena de ninguém, precisou agir para defender meu irmão. Eu peguei a faca, eu o cortei profundamente. E sabe de uma coisa, loirinho? Eu amei, eu senti prazer. Eu poderia cortá-lo mais e mais, era o que eu queria, eu só queria acabar com a vida dele, mas não pude. E foi assim que eu cresci, cresci tendo que impor medo para que nunca mais me fizessem chorar ou sentir dor.
— Eu sinto muito.
— Não precisa sentir. É justamente por te amar tanto que eu não quero que você sinta. Não sinta nada do que sinto. Eu era igual a você, loirinho. Eu seria você se minha infância não fosse morta daquele jeito. — foi nesse momento que seus olhos marejaram. — Eu não aguento nada que te faça mal. Eu não quero que você se perca da mesma forma que eu me perdi. Você é tudo que eu tenho de mais precioso na vida. — Joshua então começou a chorar. Ele fez uma pausa, esfregou o nariz e os olhos — Você é a minha paz, a minha esperança. Você me faz acreditar na vida, me faz acreditar no mundo. Eu te amo tanto, loirinho. E me dói muito saber que você não me quer mais. E eu entendo. Entendo que em mim não há nada de belo, em mim só há guerra. Mas eu me preocupo com sua felicidade, me preocupo em saber como você está. Eu não suportaria te ver triste, seja com quem for. Da mesma forma que protegi meu irmão das mãos do Kelvin, sendo capaz de matá-lo, eu confesso loirinho, eu mataria qualquer um que te fizesse mal. Eu só não quero que você se transforme nisso. — encerrou apontando para si.
Edgar não conseguiu dizer uma palavra sequer. Tudo em sua mente estava revirando, mas se tinha uma coisa que ele nunca ia tirar da mente, eram as lágrimas do Joshua. Algo que ele nunca viu durante todo esse tempo em que esteve com ele. Um monstro chorando. E ele entendeu que o Joshua não chorou enquanto contava sobre seu passado, mas chorou quando tocou em nome e declarou seu amor ali.
Edgar abaixou a cabeça, continuou com as mãos na boca e ficou pensativo, foi quando ouviu o som da chave do quarto girar e ele percebeu que Joshua já não estava mais no seu lugar, e sim prestes a sair.
— Josh, espere. — pediu ao ruivo.
Joshua parou ainda com a mão na chave. Edgar caminhou até ele, tocou em sua mão na chave, e a girou novamente, trancando-a.
O loiro o olhou, mas logo o abraçou.
O abraço, às vezes, tem esse poder de causar paz, conforto. Joshua, por exemplo, estava precisando daquilo. Sentir-se amado, principalmente amado pela pessoa que ama. Ele beijou os fios dourados do loirinho e devolveu o abraço. Os dois ficaram naquela posição por minutos, em silêncio, pois palavras sequer precisavam existir.
Depois Edgar desfez o abraço, segurou na mão dele e o puxou para a cama, sentando-o e se sentando ao lado dele, repousando a cabeça no braço dele.
— Eu nunca mais vou deixar você aguentar tudo isso sozinho.
Joshua, quieto, não falou nada.
Quando tu parecia em paz, a porta do quarto parecia estar sendo derrubada.
— Edgar, seu filho da puta, saia aqui pra fora, agora!
Era Danion gritando enquanto batia violentamente na porta do quarto.
— Eu sei que ele está aí com você!
Joshua se levantou, Edgar rapidamente segurou na mão do ruivo, levou o dedo indicador à própria boca e pediu por silêncio.
Devagar, Edgar foi puxando o ruivo novamente para a cama e logo em seguida ficou de pé.
— Deixe que eu cuido disso. Por favor, não faça nada. Vai ficar tudo bem, ok?
O ruivo não demonstrou concordar bem com isso, mas permaneceu sentado. Edgar destrancou o quarto, retirou a chave, saiu do quarto e deu de cara com o branquelo que parecia soltar fumaça do nariz. Mas sem se mostrar intimidade, Edgar trancou o quarto novamente por precaução. Era melhor deixar Joshua trancado e evitar um problema muito maior.
— Trancou o quarto pra que ninguém pudesse entrar e expulsar ele daí?
— Danion, menos... — falando calmamente, Edgar pediu enquanto caminhava para longe da porta do quarto.
— Qual o seu problema, Edgar?
Quando finalmente chegaram à sala, com praticamente todos os águias presentes, Edgar pôde se virar para encará-lo.
— Dan, escuta, não vamos discutir, por favor.
— Não vamos discutir? — exaltado, Danion não falava baixo. — Eu perguntei qual é o seu problema.
Edgar não respondeu, suspirou, coçou a cabeça e olhou para os colegas, exceto Luke, Carter e Samuel que não estavam presentes, pensando que alguém poderia interferir e acalmar o branquelo, mas ninguém tomava a atitude, porém Edgar não ficou surpreso, sabia que tinha sido um choque para todos. No entanto, para sua surpresa, Caine compreendeu aquele olhar e se levantou:
— Danion, tenha calma, o Edgar só quis ajudar o Joshua.
— Caine, agora não, deixa que o negócio é entre eu e ele. — pediu estendendo a mão para o namorado não se aproximar.
Caine suspirou, olhou para o Edgar e o loiro fez um sinal positivo com a cabeça.
— Tudo bem, Danion, o que você quer? — Edgar cruzou os braços.
Edgar não estava agindo como todos esperavam, ele parecia está de saco cheio.
— Eu vou perguntar pela terceira vez: Qual o seu problema?
— Qual o meu problema? O meu problema, Danion? Quem parece está com problemas aqui é você. E poderia parar de gritar comigo? Eu não te fiz nada. Podemos conversar em paz.
— Você o trouxe pra cá! — exaltou-se o branquelo mais uma vez, num grito tão alto que podia ser ouvido da república dos tigres.
— Ei! — Carter, que só agora acabara de entrar na república e presenciou Danion gritando com o Edgar, falou já se aproximando.
Dessa vez Edgar quem estendeu a mão e fez o primo recuar.
— Sim, eu o trouxe! Ele estava precisando de ajuda. — falou o loiro com o tom de voz já fora do habitual.
— Não se faça de idiota, Edgar, nós sabemos muito bem de quem estamos falando.
— Do Joshua! Sim, do Joshua. — disse o nome do ruivo sabendo que isso poderia ser um erro.
Incrédulo, Danion olhou para os colegas, mas rapidamente encarou o loiro.
— Vocês ouviram bem? Vocês estão vendo isso? Todos vocês sabem quem é aquele cara e o que ele fez comigo, mas agora temos que aceitar aquele desgraçado embaixo desse teto, nesse lugar, no nosso ciclo.
— E o que você quer que eu faça, Danion? Que eu também me afaste?
— Não, estamos falando dele!
— DO MEU NAMORADO! — foi então que Edgar gritou, assustando os colegas que nunca o viram assim.
Lá do quarto, Joshua que andava de um lado para o outro, quando ouviu isso, parou instantaneamente.
— Luke tem o Samuel aqui, Carter tem o Patrick aqui e o Caine tem você, mas eu sou o único que nunca pude trazer o meu namorado para cá por respeito a você. Será que vai ser pra sempre assim?
— O seu namorado que quase tirou minha vida e fez com que meu namorado assistisse tudo! — revidou o branquelo no grito.
— E eu sinto muito por isso! Você acha que eu não sinto? Acha que eu simplesmente concordo com o que ele fez? Você acha que é fácil aguentar todos os olhares julgadores que vem sobre mim?
— Mas você pede por isso.
— Você pediu para amar o Caine?
Danion engoliu em seco.
— Se você estivesse no seu lugar iria entender. Nunca iria trazer esse garoto aqui para dentro.
— E eu não pretendia, mas a ocasião precisou. O que acha, Danion? Acha que eu o trouxe aqui apenas para te provocar?
— Eu não sei. Nunca vou saber de nada de alguém que consegue se relacionar com aquele tipo de gente. Alguém que distribui socos gratuitamente, que quase acabou com os jogos da Quadra quando decidiu atacar o Sean.
Edgar dessa vez ficou sem palavras.
— ELE QUASE TIROU MINHA VIDA, EDGAR! — gritou o branquelo, exaltando-se mais uma vez.
— E SALVOU A DO SEU NAMORADO E MELHOR AMIGO! — rebateu o loiro.
Os dois ficaram se encarando por um bom tempo.
— Pessoa, acho melhor parar. — Samuel tentou intervir.
— Samuel está certo, vocês dois não precisam brigar. — Caine falou aproximando-se do namorado. — Vamos sair Danion, esfriar a cabeça, você tá precisando.
Carter aproximou-se do primo, pôs a mão no ombro dele e sussurrou:
— ‘Cê quer que eu quebre a cara desse branquelo azedo?
Edgar negou.
— Você quer mesmo ser expulso? — Danion perguntou.
— Se o Caine quiser, eu saio daqui, Danion. Mas sairei porque ele mandou, sairei sem ficar chateado com ele sabendo que ele fez isso por sua causa, namorado dele. Sabendo que ele pensa muito em você.
— Então é assim, Edgar?
— De que forma tem que ser? Eu já tentei de todas as formas fazer você ter que lidar com isso. Joshua não faz mais mal a ninguém daqui. Ele pode se meter em briga, como qualquer outro desse lugar, mas vai ser para sempre condenado pelo que te fez? Até o Colin, o próprio Colin, foi agradecê-lo por ter saldo a vida dele e a do Caine.
— Já dizia o meu líder William: você vai se decepcionar com pessoas que gostam. Ele nunca esteve tão certo.
— Eu sinto muito mais uma vez por ter sido eu a te decepcionar, mas eu não vou deixar de amar uma pessoa por sua causa, Danion.
— Faça o que bem quiser, mas nunca mais olhe na minha cara. Você está proibido de entrar na minha república. Como você mesmo disse, essa aqui quem manda é o Caine, então ele sabe o que faz e se pensa que vou forçá-lo a te expulsar, está enganado. Ele decide. Mas na minha república, Edgar, você nunca mais colocará os pés.
Edgar abaixou a cabeça, suspirou, pensou um pouco e, decidido, falou:
— Não se preocupe com isso. Vou acabar criando um impasse entre você e o Caine. Então estou eu mesmo me desligando da república dos águias.
— Edgar! — Clara falou.
— Ei, claro que não! — Caine se manifestou.
— Égua, primo, não!
— O que vocês querem que eu faça? Danion está andando em círculos, ele prefere ter que odiar quem salvou a vida do namorado dele. Ele não precisa perdoar o Joshua, mas apenas aprender a conviver, ficar preso ao passado só vai torná-lo ainda mais numa pessoa rancorosa.
Edgar terminou de falar e quem imaginou que Danion fosse falar alguma coisa, se enganou, o branquelo retirou a mão do namorado do ombro e saiu da república. Caine correu para alcançá-lo, e até conseguiu:
— Para onde você vai? — perguntou enquanto o via levando a moto para a pista.
— Depois, Caine.
— Eu vou com você.
— Não vai. — Danion subiu na moto.
Caine foi ainda mais rápido e subiu junto à ele, cravando a mão em volta de sua cintura e colando o rosto às costas dele.
— Eu não vou te deixar sozinho.
Danion não viu escapatória e, mesmo com os dois sem capacete, o pneu da moto quase pegou fogo de tanto que ele acelerou sem sair do lugar, mas num supetão, quase derrubando o menor, os dois saíram.
Edgar voltou ao quarto e encontrou o ruivo em pé, impaciente. O loiro já sabia que Joshua havia escutado praticamente tudo, pois a discussão não foi nada leve, pelo menos conformava-lhe saber que a porta do quarto não foi derrubada no primeiro grito que Danion deu em Edgar.
— Vamos sair daqui.
— Você está bem? — Joshua perguntou.
— Não, mas vou ficar. Só precisamos sair daqui. Você consegue andar até o Ninho?
Joshua tinha essa dificuldade por causa da luta.
— Te carrego nas costas se for preciso.
— Então vamos, Joshua. Não quero mais causar problemas.
— Eu ouvi você dizer que vai sair daqui.
— Vamos agora? — cortou o assunto.
Joshua apenas concordou e passou por ele. Edgar fechou o quarto e, com toda a coragem que arrumou dentro do seu peito, ele passou na frente dos amigos acompanhado do ruivo, mas sem abaixar a cabeça.
— Primo, ‘cê vai me deixar aqui sozinho? — Carter chegou nele.
— Eu volto para conversamos, está bem? Por enquanto não se preocupe muito, nós conversaremos.
— Tudo bem. Ei, Joshua, eu gosto de ‘cê, tá bom? ‘Cê não liga não pra o que aquele branco azedo disse, ele só tá com raiva.
Joshua só contraiu os lábios, fez um movimento afirmativo e saiu da república.
Carter era um doce, mesmo quando não queria ser.
No caminho, depois de algum tempo em silêncio, Joshua não resistiu quando pararam para aguardar o sinal fechar.
— Eu ouvi você gritar.
— Até eu perco a cabeça. — falou o loiro olhando para a frente.
— Mas eu ouvi você gritar outra coisa.
— Eu gritei tantas coisas que não lembro.
— Me chamou de namorado.
Edgar não conseguiu olhá-lo, fingiu até estar desatento e isso quase resultou em um tombo seu quando tropeçou no próprio pé.
— Eu sou seu namorado? — Joshua perguntou.
— Só havíamos dado um tempo...
— Está voltando para mim?
Edgar não falou nada. Joshua caminhava sem retirar os olhos dele.
— Eu amo você. — disse o ruivo uma das poucas frases que mais são transmitidas em ações do que pelas próprias palavras.
Foi nesse momento que Edgar conseguiu olhar para ele, sorrir entre lábios e apenas balançar a cabeça positivamente.
— Eu também te amo, mas preciso ser sincero com você: apesar do seu passado, nada justifica uma agressão. Mas sobre isso, precisamos conversar, Joshua.
— Ouvirei tudo o que você tem a dizer.
— Só quero que me prometa uma coisa.
— O que?
— Aceite um tratamento.
— Se você quer, loirinho, por você eu faço.
Edgar tornou a olhar para frente e suspirou. Não podia conversar com ele sobre isso enquanto estavam ali caminhando, ainda estava pensando muito no que aconteceu com o Danion. Feliz ficou quando Joshua não tocou mais no assunto, mas com os dedos o ruivo tocou em seu braço, deslizou por ele até que encontrasse sua mão e, devagar, foi entrelaçando os dedos, uns nos outros.
Contente e confortável, Edgar, sem temer a olhares da sociedade, aceitou. Aceitou que o garoto ao seu lado, o gigante e temido Joshua, era, mais uma vez, o seu namorado. E mesmo que ao mundo causasse medo, a ele amaria.
De mãos dadas, seguiram os dois.
[...]
Abandonada, vazia.
Assim estava a república dos tigres. Como ordem e decreto de Enrico Ferazza, seus três netos foram expulsos daquele lugar e, consequentemente, ela foi fechada. Agora, nenhum morador mais reside naquela república.
Com isso, os tigres foram desligados dos jogos da Quadra, levando diretamente Leões e Águias para a final que será realizado nesse próximo final de semana.
Da janela de sua república, mais uma noite ele passou em claro. Lá estava o líder dos leões observando a casa que já dormiu algumas vezes na mesma cama do homem que mais ama.
Colin assistia república dos tigres ser esvaziada, sem poder descer, correr e perguntar o que estava acontecendo. Mas ele não tinha coragem. Enquanto isso, seu celular na mão tinha mais uma nova mensagem àquele dia, mais uma de várias que ele recebia diariamente, contendo sempre a mesma frase:
“Nunca vou te esquecer. Eu te amo, Colin Manson”
Escreveu o tigre.
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