Notas iniciais
Momentos necessários.

Hugh não saiu do seu lugar.

Ele se assustou com o grito dado por Nestor, se sensibilizou por Pietro caído no chão protegendo-se, mas seus pés estavam pregados no gramado da república, impossibilitando-o de fazer algo.

— Hein, moleque?! Você acha mesmo que eu não ia saber que você foi pego por policiais?

Pietro ficou calado, com medo. Olhava para o Hugh no fundo, mas sempre que Nestor falava ele descia seus olhos ao chão e encolhia-se ainda mais.

— Quantas surras precisarei te dar pra você se consertar?

Ainda calado, Pietro recuava arrastando-se no chão, mas seu pai o seguia em passos precisos.

Nestor ameaçou tirar o cinto.

— Não, não, por favor, não... — implorou o garoto no chão.

— Eu não vim de longe pra deixar você impune.

— Não vai mais se repetir, eu juro... Eu juro!

Quando Nestor ergueu o cinto, Hugh não aguentou mais. Ele saiu do seu lugar e entrou na república com a intenção de tomar alguma atitude, mas lá no primeiro andar alguém surgiu:

— Que gritaria é essa? — Colin questionou assim que abriu a porta do seu quarto.

O líder daquela república não foi o único a sair para saber o motivo dos gritos. Todos os membros presentes na casa saíram dos quartos e viram Pietro no chão, apavorado, ainda com as mãos protegendo o rosto.

Eles ainda não sabiam exatamente o que estava acontecendo, Patrick, por exemplo, chegou a pensar que mais uma vez Hugh estava batendo em Pietro. No entanto, quando visualizaram bem o homem com o cinto nas mãos, as coisas começaram a se encaixar.

Nestor olhou para todos os garotos presentes na república, mas não se intimidou por nenhum deles.

— São vocês os amigos desse moleque? São vocês as más influências?

— É o quê?! — Colin, como não engolia nada que parecesse ofensa, desceu as escadas mirando o homem. — Má influencia? Você tá maluco?

— Isso mesmo! Eu tô maluco!

Colin olhou para o Pietro no chão.

— Quem é esse?

— Meu pai. — respondeu rapidamente.

— Levante-se! — pediu o líder.

Pietro atendeu ao pedido, ficou de pé, mas bem afastado do seu pai.

— Vai se esconder atrás dos amigos? Eu vou te bater, moleque! — ameaçou Nestor.

— Você não vai bater em ninguém aqui! — Colin começou a elevar seu tom de voz.

— E é você quem vai me impedir? — riu o homem subestimando a altura dele.

— E se for? — o pequeno deu um passo a frente, cara a cara com Nestor. — Quero ver se você vai bater em mim.

Nestor rangeu os dentes e pressionou fortemente o cinto em sua mão.

Julius e Marcus imediatamente se colocaram ao lado do Colin, enquanto Hugh ficou atrás de Nestor.

Cercado, o homem olhou ao redor e logo depois sorriu ao encarar o filho.

— Pegue suas coisas, vamos embora daqui. — ordenou ao saber que não teria vantagem alguma contra todos aqueles garotos.

— Não. — Pietro, corajoso, disse.

— Eu sou seu pai, moleque! Me obedeça!

— Eu não vou! — continuou dizendo firmemente.

— Não está ouvindo? — Colin questionou. — Ele não vai. Agora saia da minha república, agora!

— Moleque atrevido. — disse Nestor já avançando em Colin.

Foi nesse momento que uma rajada de gritos cobriu a república por todos os lados, mas antes que Colin pudesse ter sido agredido, Hugh puxou Nestor, afastando-o do seu líder. Marcus e Julius, segurando o homem pelos braços, retirou o homem da república, lançando-o contra o gramado.

— Vocês acham que vão conseguir protegê-lo? — Nestor, levantando-se, falou.

— Nós vamos! — Colin gritou passando por Julius e Marcus, colocando-se mais uma vez na frente do homem. — Enquanto ele for um de nós, iremos protegê-lo! E não tô nem aí se você é pai dele. Ninguém bate em um dos meus na minha frente.

Nestor cada vez mais absorvia o ódio por Colin.

— Esse garoto não é o que estão pensando! Péssima escolha vocês fizeram em protegê-lo, vai causar muitos problemas a esse lugar.

— Estaria ele usando o senhor como exemplo? — Colin questionou.

— Eu vou te bater, moleque! E ninguém agora vai me segurar.— ameaçou o homem novamente.

Julius, Marcus e Hugh já estavam preparados.

— Então bata, eu quero ver! — gritou o pequeno.

— Ahhh... — louco, Nestor apertou mais o cinto.

— Bata! Eu tô mandando você bater! — gritou ainda mais o leonino. — Mas bata sabendo que vamos nós dois na delegacia. Assim você não vai poder reclamar do seu filho.

Nestor levantou o cinto.

— Você é um nojento! — Colin gritou fazendo gotas de salivar sair por seus lábios, não estava nem aí se era ou não pai do Pietro. — Um velho nojento! Acha que pôde vim na minha república bater em um dos meus embaixo do meu próprio teto?

Como já era noite e tarde, facilmente as repúblicas vizinhas podiam ouvir os gritos na república dos Leões. Foi assim que Sean ouviu a voz do seu namorado e sem nem pensar muito, usando apenas uma calça de algodão, desceu correndo as escadas da sua república, abriu a porta e viu o homem robusto ameaçando bater em Colin.

Como ele não tinha controle quando seu namorado parecia está sendo ameaçado, ele já saiu com os punhos apertados em direção ao homem.

— Velho ou não, eu bato em você aqui se encostar esse cinto nele. — disse o moreno ao se aproximar.

Colin olhou para o seu namorado rapidamente, mas manteve logo em seguida os olhos precisos em Nestor.

— O que tá acontecendo? — Caine perguntou, ele estava dormindo quando Danion o acordou falando dos gritos.

Colin não respondeu, permanecia encarando Nestor.

— Esse velho quer bater no Colin? — Luke, usando apenas um samba canção, perguntou assim que surgiu. — Porra, Sean, você não fez nada?

O líder dos tigres nem deu bola, somente olhou para o namorado encarando o homem e sentindo sua raiva. Era impossível não ver a influência que William teve sobre ele, agia perfeitamente como o loiro na época que protegia os seus.

Nestor ficou mais espantado com a quantidade de pessoas que estava começando a surgir.

— Pai, vai embora, por favor... — Pietro suplicou.

O homem olhou mais uma vez ao redor, marcando cada rosto em sua memória, até olhar para o filho furiosamente. No entanto, acabou retornando ao carro ali estacionado e saiu numa velocidade assustadora.

— Como você consegue chamar um lixo desses de pai? — questionou o leonino.

Pietro não se manifestou.

Colin estava pegando fogo de tão furioso que estava. Ai daquele que se metesse com ele naquele momento de raiva. Péssimo dia Nestor teve ao encontrá-lo naquele estado.

Se Colin normal já era arisco, imagina ele não estando nos seus melhores dias? É pedir para morrer.

— Todos vocês para dentro da república, agora! — ordenou o líder leonino.

Colin nem deu atenção aos companheiros Águias.

Nenhum outro leonino se atreveu a ficar ali fora. Todos rapidamente entraram na república, até mesmo o Danion que era um deles, e foram se acomodando aos poucos até Colin surgir na sala e, antes que pudesse fechar a porta, permitiu a entrada do seu namorado.

Se colocassem Colin lado a lado com cada membro de sua república, ninguém diria que aquele anão tinha a autoridade que tinha. Ele realmente tinha poder enquanto líder sobre todos aqueles ali presente, sim... Isso inclui até o Sean.

— Onde está o Calvin, Ian e Connor? — Colin perguntou.

— Saíram. — Marcus respondeu.

Colin suspirou.

— A partir de hoje, quem permitir a entrada daquele homem nessa república será expulso. Vocês entenderam?

Todos concordaram.

— Quem era aquele homem? — Danion perguntou.

— Pai do Pietro. — Patrick respondeu.

— Agora você entende, Colin? — Danion perguntou ao amigo.

— Eu não quero discutir, Danion. — falou ainda furioso. — A ordem foi dada. Ninguém está autorizado a receber aquele homem, nem mesmo você sendo filho dele. Se quiser se resolver com ele, se resolva bem longe daqui, lá na puta que pariu!

Pietro concordou.

— Não me façam descer aqui mais uma vez. — disse o pequeno já subindo as escadas. — E ah, amanhã eu quero ter uma conversa séria com você. — Colin disse para Pietro que mais uma vez concordou.

Colin entrou no seu quarto já sabendo que Sean o seguia, por isso não fechou a porta. O leonino apenas se jogou na cama de braços abertos.

— Péssima hora pra você aparecer aqui. — disse o pequeno.

— Quer um copo d’água?

— Não. Quero que me deixe em paz!

— Não posso fazer isso.

— O que foi, Sean? — Colin se sentou na cama. — Não viu o que aconteceu e já quer me estressar ainda mais?

— Caralho! Eu tô aqui sem intenção de brigar.

— Mas eu tô! Você decidiu resolver as coisas no pior dia.

— Não é a primeira vez que o vejo assim.

— Porra, Sean! Me deixa! — gritou.

— Não, Colin. Não! — gritou o moreno afastando-se da porta.

Dali em diante, eles só falavam aos gritos.

— Você quer piorar as coisas entre nós! — rebateu aos gritos o menor.

— Eu tô aqui porque eu quero melhorar esse clima entre nós dois! — devolveu na gritaria.

— É mesmo? Acha que uma simples conversa resolve tudo? — Colin se levantou.

— Quantas vezes eu vou dizer que nada aconteceu?

— Você nem se lembra, Sean!

— Puta que me pariu! Por que você prefere acreditar nela do que em mim?

— É o seu medo que me incomoda, Sean. Se você tivesse convicto disso teria me contado que ela estava grávida.

Sean odiava discutir com o Colin por isso; o pequeno sempre parecia está a frente dele nos argumentos. Colin era muito certeiro naquilo que dizia.

— Eu errei, tá bom? Tá satisfeito? Eu errei em te esconder a gravidez da garota. Mas custa você também entender um pouco a minha situação? Se colocar no meu lugar?

— No seu lugar eu teria contado a verdade. E não é a primeira vez que isso acontece.

— Porra, Colin. Para de me culpar por tudo e foca no agora. Vai puxar no livro todas as merdas que eu fiz?

Colin ficou calado. Pelo visto, a conversa com Danion não serviu para muita coisa.

Com raiva, Sean saiu do quarto sem nem mesmo o namorado precisar mandar. Desceu as escadas furiosamente e deu de cara com os leoninos reunidos na sala já sabendo que todos eles tinham ouvido a conversa e que agora, a história da gravidez, iria repercutir entre eles.

[...]

Depois de uma noite tensa, a manhã finalmente chegou.

Patrick decidiu dar uma olhada na movimentação da Quadra e por isso foi pra fora de sua república, acordou animado e bem disposto a fazer os deveres domésticos do seu dia.

Enquanto mandava pra fora toda a preguiça esticando os braços com o sol batendo em seu rosto, ele se atreveu a olhar para a república ao lado e se arrependeu no mesmo instante. Lá estava o Carter conversando alegremente com três garotas e um garoto. Ele não parava de sorrir, abraça uma enquanto duas seguravam em sua mão e o garoto dava saltos de alegria.

Desde que o vídeo viralizou na internet a vida do loiro se transformou. A rede social que o Connor criou acabou ganhando muitos seguidores e ele já até mesmo havia ganhado alguns presentes.

Eu disse que Patrick acordou animado e bem disposto? Pois bem, agora ele estava com raiva. Raiva essa que foi instantânea e que ele nem mesmo estava se dando conta de que tudo isso era por ciúme.

Carter o avistou e acenou, ele rapidamente falou com as pessoas que o cercavam e se afastou, mesmo com uma garota segurando o seu braço e o impedindo de caminhar, mas que logo desistiu quando suas colegas a puxaram.

— Égua, ‘cê viu?

— Está feliz com tanta gente atrás de você? — perguntou o leonino irritado.

— É legal, uai.

— Então volta lá pra eles.

— Não, prefiro ficar com ‘cê. Graças a Deus ‘cê apareceu, assim eu pude me livrar.

— Me usando como desculpa? Vai à merda, Carter.

— Égua, ‘cê acordou com o diabo no corpo?

— Não me estressa!

— Mas eu não fiz nada, uai. ‘Cê que tá aí me atacando de graça.

Patrick mantinha o olhar raivoso sobre ele, mas não dizia nada.

— Olha, sabe aquela coisa que o Connor fez pra mim? Tem um monte de gente me seguindo. — o mostrou no celular.

Tratava-se da sua rede social.

Patrick pegou o aparelho com violência e, curioso, viu o que Carter queria mostrar. Ficou abismado com a quantidade de seguidores que ele havia conseguido.

— Dez mil seguidores?! O quê?!

— Isso é muito, né?

Curioso, Patrick clicou na foto do perfil do loiro, ele estava tão bonitinho sorriso e com os cabelos penteados, mas o leonino jamais comentaria isso. Revoltou-se no instante em que viu a foto com quase três mil curtidas.

— Como você pode ter quase três mil curtidas tendo apenas uma foto? Eu recebo apenas quinhentas e olhe lá.

— Não sei, eu não entendo disso. Mas ‘cê deveria curtir também.

— Nunca! Se depender de mim, você jamais terá minha curtida.

— Égua, uai. Custa dar só uma curtida?

— Custa minha dignidade.

— Que bicho mordeu ‘cê hoje?

— Você já me estressou! Sai daqui, vai embora.

— Égua! Eu já disse que não fiz nada, uai.

— Ai, Carter, me deixa, vai.

Patrick logo retornou para sua república.

— Ei, espera!

Mas o leonino acabou fechando a porta da república e passando a chave por saber que Carter teria insistido tentando abrir a porta.

— Égua, que foi que deu nele? — perguntou-se o loiro.

[...]

Joshua não saia da cama desde o término. A última vez que havia comido foi no dia anterior e não foi muita coisa, apenas porque seu corpo realmente precisava, fora isso, ele não sentia vontade de fazer mais nada desde o tempo pedido por Edgar.

— Você não pode ficar aqui o dia todo. — Caleb falou enquanto arrumava o quarto para ele.

O celular de Caleb não parava de tocar, algumas vezes ele rejeitava a ligação e em outras simplesmente deixava continuar tocando.

Imóvel, o ruivo na cama permaneceu sem dizer uma palavra.

— Levanta, Joshua. Vai pelo menos tomar banho!

Mas nada adiantava, nada do que falasse faria o ruivo se mover. Caleb nunca o tinha visto daquela forma, completamente pra baixo. E era realmente muito estranho vê-lo assim por saber que Joshua era uma pessoa muito centrada e dificilmente tinha os sentimentos abalados, bastava lembrar o caso da sua ex-namorada e do seu irmão, nem mesmo esses foram capazes de deixá-lo assim, com o sentimento ferido. Realmente o Edgar tinha muito poder sobre o ruivo, alguém que chegou por acaso na vida dele e a revirou com facilidade, dando-lhes esperanças e fé na humanidade.

Joshua, mais do que tudo, amava o Edgar e perdê-lo era, mais uma vez, sentir sua alma morrer como na infância.

— Não consigo entender porque ele fez isso. — finalmente falou.

— No final vocês ficarão juntos, eu acredito nisso. Agora sai daí e vai tomar um banho ou eu mesmo farei isso.

Caleb largou a vassoura e segurou o ruivo pelo braço, surpreendendo-se por conseguir levantá-lo da cama. Joshua na verdade não estava resistindo, no entanto ele só não fazia questão de se esforçar, por isso foi arrastado até o banheiro, mas lá, sabendo que não se sentiria a vontade ficando pelado na frente do amigo, mesmo que um dia já tenha transado com ele, acabou dizendo:

— Eu faço isso sozinho.

— Ótimo, enquanto isso vou preparar alguma coisa para você comer.

Caleb saiu do banheiro e foi diretamente para cozinha. Lá ele fez alguns sanduíches de presunto e aguardou sentado à mesa o ruivo aparecer.

Joshua apareceu minutos depois, sem camisa e de cueca. Os moradores daquele bloco estavam todos em aula, mas não seria problema assistir o ruivo apenas trajando uma única peça de roupa. Na verdade era bem comum esse tipo de coisa entre eles.

— Não vem com essa de que não vai comer, tá bom?

Ele não tinha tanta fome, mas acabou pegando um pão e dando uma mordida grande e logo após se sentou, apoiou o cotovelo sobre a mesa e ficou encarando a própria comida na mão.

O celular de Caleb tocou novamente, mas ele rejeitou a ligação e pôs o aparelho sobre a mesa, mas não tardou muito para novamente tocar.

— Atenda. — disse o ruivo.

— Não precisa, não é urgente. Só um carinha que eu conheci nos Jogos da Quadra.

Joshua só o olhava.

Para entreter o ruivo, Caleb considerou falar tudo o que viesse em sua mente em buscar de manter um diálogo com o amigo.

— Ele é bonito, mas o acho muito novo. Mas acho que não estou pronto para me relacionar com alguém novamente... Uma lição eu devo aprender com tudo o que me aconteceu, certo?

O ruivo mordeu novamente o sanduíche.

— Também não quero passar por todo aquele processo explicativo sobre eu ser soro positivo.

— Eu conheço?

Satisfeito com a pergunta, Caleb respondeu imediatamente:

— Não sei... Ele mora aqui no Ninho, talvez você possa tê-lo visto em algum momento. Do jeito que minha vida tá tão corrida, acho que eu não daria conta de sustentar algo.

Nesse mesmo momento o celular dele voltou a tocar. Quando pensou em desligar a ligação, Joshua estendeu a mão.

— O que vai fazer?

— Só me deixe atender. — disse sendo muito objetivo.

Suspirando, Caleb entregou o celular e coçou a cabeça. Joshua atendeu sem dizer uma palavra.

— Ei, por que não atendeu antes? — Franklin falou imediatamente.

— Encontre-o hoje, às 19 horas, na lanchonete. Ele estará esperando-o.

— O quê?! Quem está falando.

— Joshua! — Caleb gritou e tentou tomar o celular, mas o ruivo desligou.

— Pronto, agora você tem um encontro e assim me deixa em paz mais tarde. — disse o ruivo ao se levantar.

— Mas eu acabei de te dizer que não quero levar isso a frente.

— Por medo?

Caleb engoliu em seco.

— Consigo ver nos seus olhos que esse garoto de alguma forma mexeu com você. Se você realmente não tivesse interesse já teria mandado a real. No fundo você sente falta de ter alguém, já faz um bom tempo que você está sozinho.

— Meu plano hoje era ficar aqui com você.

O ruivo saiu da cozinha, assim o ignorado e retornou ao seu quarto.

Joshua voltou para sua cama, encontrou seu celular e tocou a tela quando a foto de Edgar sorrindo surgiu. O loiro mesmo tinha feito isso no celular dele, quando numa manhã, ao acordar, tirou uma foto.

— Tá, eu vou para esse encontro, mas só porque você marcou. — Caleb entrou no quarto falando.

Joshua guardou o celular embaixo do seu travesseiro e só o encarou.

— Mas você precisa me prometer que vai comer.

O ruivo virou-se na cama e se cobriu até a cintura, ignorou Caleb por completo.

Caleb suspirou, seria difícil fazer um homem daquele tamanho buscar um novo sentido na vida, já que o único que ele acreditava acabara de o deixar.

[...]

Carter não estava tão feliz assim. Ver seu primo triste acabou influenciando em seu comportamento, deixando-o um pouco para baixo por não saber o que fazer para alegrar o loirinho. Por mais que Edgar dissesse para ele que tudo estava bem, era difícil de acreditar quando se via em seus olhos azuis uma profunda tristeza. Edgar era sua família ali e com quem ele tinha mais ligação.

— Pra onde você vai? — Samuel perguntou assim que o viu abrir a porta da sua república.

— Conversar com a cabrita.

— Mas você não disse que ele estava com raiva de você hoje pela manhã?

— Mas vai que passou, uai.

— Você nunca vai desistir dele, não é?

Samuel não estava sendo negativo, pelo contrário, estava sendo muito positivo ao por um sorriso no rosto como se dissesse: “é óbvio que você é apaixonado por ele”.

— Que ‘cê quer dizer?

— Nada, Carter... Nada... — sorriu e saiu do plano de vista do loiro.

Carter só coçou a cabeça e caminhou até a república dos leoninos. Acabou sendo atendido por Calvin que estava na presença de Kai e Hugh. Os três amigos conversavam no sofá algo que parecia ser bem íntimo já que o mexicano parecia constrangido quando Carter surgiu na sala.

— A cabrita tá aqui? — Carter perguntou.

— Quem é cabrita? — Kai questionou para os amigos. Ele ficou confuso.

— Lá com o Connor no quarto dele. — Hugh respondeu.

— Posso ir lá?

Calvin fechou a porta atrás dele, o que significou que ele era bem vindo.

Carter seguiu para o quarto já conhecido, desejando por diversas vezes dormir naquela cama abraçadinho com Patrick, mas era um sonho bem impossível quando parava para pensar em como o leonino o tratava, sendo capaz de derrubá-lo da cama caso só pensasse em se deitar nela.

Sem bater na porta, Carter entrou no quarto e ficou paralisado.

Sentado numa cadeira enquanto Connor segurava um espelho, lá estava o Patrick com uma peruca feminina longa na cor castanha, batendo na metade de suas costas, enquanto terminava de usar batom numa impecável maquiagem. Por ter alguns traços faciais femininos, como os olhos e a boca, Patrick poderia sim ser facilmente confundido com uma mulher.

Carter se sentia como se estivesse vendo Patrick pela primeira vez pisando grosseiramente no gramado que ele havia cuidado. Doce nostalgia.

— Merda! — Patrick gritou e se virou. — Sai daqui! Tira ele daqui, Connor! Ele não pode me ver assim.

Carter continuou paralisado, sendo preciso ter sido empurrado por Julius que estava entrando no quarto com os objetos de estúdio que Connor havia pedido para ele pegar no outro quarto.

Patrick olhou de relance par ver se Carter continuava no lugar que estava.

— ‘Cê tá muito linda. — disse o loiro no femino quase babando. — Égua da mulher que ‘cê seria...

— Cala a boca. — com vergonha, Patrick disse.

— Égua, eu tô te elogiando. Se ‘cê fosse mulher, ‘cê seria a mulher mais linda do mundo.

Julius que acabou dando a primeira gargalhada ao notar a paixão explícita de Carter.

— Mulherão da porra, não é, da roça? Se eu tivesse muito bêbado eu acho que até pegava se não soubesse que era o Patrick.

Carter semicerrou os olhos.

— Fecha essa porta! Não quero que mais ninguém me veja assim. — pediu o garoto.

Carter fechou a porta.

— Por que merda você tem que tá aqui agora? — Patrick questionou ao loiro. — Que droga! Não era pra você me ver assim.

Carter abaixou a cabeça e suspirou, ele fez uma expressão de tristeza, mas acabou não saindo do quarto. Apenas se sentou na cama de Julius e abaixou a cabeça.

— ‘Cê só me maltrata. — confessou.

— Coitado dele, Patrick. — Connor finalmente falou alguma coisa.

Patrick não disse nada, mas ficou sentido, fisgado por uma pontada de arrependimento.

— Não sei por que eu topo de fazer essas coisas. Tudo por visualizações! — Patrick resmungou. — Eu não deveria estar fazendo isso já que fui motivo de piada do último vídeo, agora que vão me zoar mais ainda.

— O que seria de mim sem você? O Ian não topa me ajudar nos meus vídeos. — Connor falou.

— Mas por que tem que seu eu a me vestir de mulher?

— Você foi o único que aceitou.

— Fui forçado!

— Ah, para, vai. É só um vídeo. Você vai fazer sucesso e ficar famoso!

Patrick acabou ficando incomodado com o silêncio de Carter, por isso acabou ignorando Connor e olhando de relance para o loiro quieto, encostado à parede enquanto olhava para a própria mão fazendo algum cálculo com os dedos.

— Nós vamos ter que gravar na rua.

— O quê?! — Patrick quase gritou. — Não mesmo! Essa informação não foi me passada. Eu achei que iríamos gravar aqui no quarto.

— Mas as cenas precisam ser ao ar livre. — Connor explicou.

— Já não basta eu ter que passar vergonha aqui dentro, tenho que me expor lá fora? Não mesmo!

— Para com isso, Patrick. É só um vídeo. — Julius participou da conversa.

— Então se veste você de mulher. — pediu.

— Já temos você. — brincou.

— Vai tomar no cu! Estou falando sério, eu não saio desse quarto para gravar vestido assim.

— Então deixa que eu faço isso. — Julius, sem medo algum, disse.

— Ótimo! — Patrick retirou a peruca da cabeça e pôde finalmente sentir como se os cabelos pudessem respirar. — Está aqui a peruca.

— Está falando sério, Julius? — Connor perguntou.

— Sim. Quem sabe eu fique famoso na internet? O da roça ficou, não ficou? E tenho uma ideia melhor assim, eu vou fazer o Marcus participar comigo. Pode deixar que eu vou dar um jeito nisso.

Connor não pôde deixar de esconder o sorriso.

— Mas ele disse que nem morto participaria de um vídeo vestido de mulher.

— Ah, mas agora ele vai... Eu sei que vai. — disse Julius com um sorriso assombroso no rosto. — Patrick vai nos maquiar.

Patrick não respondeu, mas estava de acordo.

— Vem comigo, Connor. Vamos ao quarto dele.

Julius acabou saindo às pressas do quarto e levou o primo junto, deixando Patrick e Carter sozinhos.

Era muito estranho o silêncio deixado naquele lugar, mas ainda mais estranho quando Patrick percebia que esse silêncio se dava porque Carter não parecia o mesmo de todos os dias, sempre falando aos cotovelos.

Desfazendo a maquiagem apenas com as mãos, o que acabou causando um enorme borrão em seu rosto, Patrick questionou:

— O que tá acontecendo com você?

— O quê?

— Você não me parece feliz.

— Ah, não é nada... — disse tristinho.

— Anda, Carter, diz logo. — ainda assim não perdia o costume.

Carter gostou da preocupação de Patrick.

— Eu só queria ser bom em alegrar as pessoas. O Ed não tá bem, mas eu não sei o que fazer para ajudar, ele não quer aceitar minha ajuda. Odeio ver gente triste.

Esse coração de gigante tornava Carter uma das pessoas mais belas que Patrick já viu, embora custasse a ter que admitir. O loiro simplesmente era a pessoa mais amável que ele já havia conhecido, sendo incapaz de ver maldade nele.

— O problema não está em você. Às vezes, algumas pessoas se sentem melhores quando estão sozinhas. Seu primo deve querer um tempo para ele.

Carter o olhou agradando-se das palavras.

— Como ele pode querer ficar sozinho estando triste?

— Pessoas são diferentes. Cada um com suas manias. Dê espaço para ele e logo, logo ele estará bem.

— Mas uai, eu não entendo gente assim.

— O mundo tá cheio de pessoas com suas diferenças, seja física, seja na personalidade. Ninguém é igual a ninguém.

— ‘Cê é perfeito mesmo. Égua das palavras bonitas, hein.

Patrick desviou o olhar pela timidez, nem mesmo se reconheceu fazendo aquilo.

— Chega de tristeza. Vamos comer.

— Comer?! Você vai cozinhar pra mim?

— Se você gostar de macarrão com queijo... Sim, eu vou cozinhar.

— Égua!

O truque da comida fazia qualquer se animar. Patrick foi esperto.

— Se eu não soubesse que ‘cê iria me bater, eu te dava um beijo agora.

Patrick revirou os olhos e passou a caminhar, mas Carter não se conteve de tanta felicidade e o abraçou por trás, reerguendo-o do chão. Esperneando-se, o leonino tentou se desfazer do abraço dele.

— Me larga, me põe no chão!

Carter não dava ouvidos, mas também não tinha tanta força contra o leonino, assim acabaram os dois no chão.

O que resultou foram dois rostos próximos, por dois centímetros de distância, respirações compartilhadas e olhos conectados.

Ambos estava ali, paralisados, sendo Carter tão sedento que engoliu em seco admirando os lábios de Patrick tão próximos do seu. Ele continuava achando o leonino a pessoa mais linda já vista, mesmo com a maquiagem toda borrada.

Patrick, por sua vez, não conseguiu se mover, permanecer sobre o corpo de Carter, sentindo a mão dele em sua cintura enquanto admirava aqueles belos olhos azuis dava-lhe um sentimento bom e acolhedor, como se aquele corpo fosse para aquecê-lo.

Patrick não se moveu quando percebeu que Carter estava prestes a beijá-lo, mas a porta acabou sendo aberta no mesmo instante em que o loiro já movia os lábios para tocar o do outro.

Julius sentiu como se acabasse de flagrar os dois prestes a realizar indecências, por isso ficou parado com a porta aberta até Connor surgir atrás dele.

Rapidamente o leonino se levantou e arrumou as roupas, tossindo sem parar enquanto Carter permanecia no chão.

— O que vocês estavam fazendo? — Connor perguntou.

— Eu caí por cima dele. — respondeu Patrick.

Carter continuou no chão ainda admirando Patrick.

— Hm... — Julius soltou um sorriso malicioso que deixou o amigo furioso.

— Não me olhe assim ou eu vou quebrar todos os seus dedos da mão.

— Você é um safado! Acha que eu não sei o que estavam fazendo?

— Julius!

— Da roça, não se mistura com ele, tenho certeza de que ele iria tentar transar com você no chão desse quarto.

— Eu vou te matar!

Foi preciso correr para fora dali senão apanharia muito. Patrick, muito furioso, saiu atrás de Julius soltando gritos e mais gritos tentando caçá-lo.

Carter não fez nada além de permanecer no chão, tocando o próprio lábio que poderia estar beijando aquela boca se Julius e Connor não aparecessem.

[...]

Mais um jogo a ser realizado, mais um time que será eliminado.

Dessa vez apenas, apenas um membro representaria sua equipe num jogo de conhecimentos gerais. Sendo assim, por unanimidade, Ian foi escolhido por sua equipe. Não fazia sentido escolher outra pessoa quando se tinha alguém considerado como o mais inteligente morador dos leões.

— E se eu perder? Vocês prometem que não vão me culpar? — questionou.

— Não. — disseram num só coro.

— Prometo que vou dar o meu melhor.

Ian ficou de pé, respirou fundo e seguiu caminhando ao centro do ginásio, precisamente no centro da quadra de basquete.

Ele estava descalço, como tinha sido pedido, usava apenas um calção de banho azul marinho e uma camisa regata branca, não usava óculos e nem relógio.

No centro da quadra havia cinco cabines posicionadas lado a lado. Embaixo de cada dessas cabines havia água e logo acima algo semelhante a uma prancha de piscina para os participantes sentarem.

Sabe aquele jogo em que você deve acertar com a bola um botão que aciona a prancha e assim derruba o participante alvo na água abaixo? Era semelhante, só que sem precisar acertar o botão, mas sim acertar com perguntas.

Ian só achou estranho porque tinha somente quatro cabines para cinco competidores.

— Então é você o favorito de hoje? — Charles posicionou-se bem a frente dele, assustando-o.

Ian, educado, não xingou, sorriu e disse:

— Oi, acho que sou... — falou e olhou para a arquibancada.

O ginásio não estava tão numeroso quanto os dias dos jogos de basquete, mas havia mais da metade da quantidade. O jogo de hoje era tido como um dos mais tranquilos porque se tratava apenas de perguntas e respostas.

— Veremos se você é tudo isso mesmo que falam. “O leonino mais inteligente”. — zombou o tigre.

— Desculpe, mas quem é você? — ainda educadamente, Ian perguntou.

— O garoto que vai acabar com sua raça aqui. Vou provar pra todo mundo que você não é tão inteligente como dizem.

— É mesmo? — Dimitri apareceu ao seu lado. — É aqui que você vai passar a maior vergonha da sua vida?

— Teve a ousadia de me enfrentar num jogo como esse? Vai perder. — falou o tigre encarando-o. — Mas no momento meu maior rival aqui é ele... — Charles voltou a olhar para o Ian. — O que mostra que você é muito insignificante aqui.

Charles agia assim porque não aguentou o dia em que Sean acabou elevando Ian e sua inteligência, dizendo que ele certamente venceria o jogo e humilharia todo mundo. Para provar ao primo, Charles só queria vencer e esfregar na cara dele a vitória.

Enquanto Charles e Dimitri discutiam, Ian apenas disse:

— Tudo bem.

Ele se afastou.

— Atenção! Atenção! — anunciou a voz do organizador, silenciando a todos.

— Ian, não liga para ele, esse garoto é um saco. — Samuel murmurou assim que se aproximou do leonino. Ele representaria os Águias.

Ian só balançou a cabeça mostrando realmente não se importar. Os cinco competidores estavam próximos um do outro mantendo a atenção no garoto que segurava o microfone e andava livremente próximo as cabines.

— O jogo de hoje não vai se tratar de habilidade física ou força, mas sim focar na inteligência de cada um de vocês. Dessa forma, se vocês esperaram um jogo em que aquele que apertasse o botão mais rápido e acertasse a pergunta ganharia ponto... Bem, vocês estão enganados.

— Que cara idiota... — murmurou o tigre, impaciente.

— Eu peço, por gentileza, que cada um de vocês escolha uma das cabines.

Assim, rapidamente os participantes se locomoveram. Charles, representando os Tigres, com toda rapidez, escolheu a primeira cabine, logo em seguida, Samuel, pelos Águias, ficou com a segunda, Dimitri, com os Deuses, na terceira, Jen, em nome dos Fantasmas, na quarta e por último, Ian, representando os Leões, ficou na quinta cabine.

— Cada um de vocês vão responder três perguntas por quatro rodadas, o que somam doze perguntas para cada. Das três perguntas, não é permitido errar, caso contrário perderá a chance de responder as que sobrarem da rodada, automaticamente caindo na água e passando a pergunta para o próximo participante. Entendidos?

Ian levantou a mão.

— Quer dizer que se, por exemplo, eu errar a primeira pergunta eu perco minha vez e não respondo as outras duas que sobrarem?

— Sim. Você também cai na água.

— Certo, tudo bem. Obrigado por responder.

O garoto sorriu, admirou-se pela educação do leonino.

— Ao final, os dois participantes que mais acertarem irão para o próximo nível que definirá o vencedor.

Não foi mencionado como seria o próximo nível, mas ninguém contestou.

— Posso começar? Lembrando que as perguntas são de conhecimentos gerais, tudo pode ser perguntado, desde perguntas óbvias até as mais difíceis.

Muito atento, Ian preparou seus ouvidos e manteve-se desligado do barulho de fora. Ele sabia que deveria se concentrar.

— Ao representante dos Tigres, dez segundos para cada resposta. A primeira é: O que é que nasce para todos?

— O Sol. — Charles respondeu imediatamente.

— Certo. Segunda pergunta: Qual é o elemento químico de símbolo Tc?

Buscando lembrar, Charles respondeu aos cinco segundos:

— Tecnécio.

— Correto! Qual o maior osso do corpo humano?

Charles sorriu, fazia parte daquilo que estudava:

— Fêmur.

— Próximo participante, representante dos Águias. Primeira pergunta: Qual é o vulcão da Sicília, considerado um dos mais altos da Europa?

— O quê?!

O garoto não respondeu ao questionamento de Samuel. Samuel não sabia, nem mesmo imaginou que uma pergunta sobre nomes de vulcões poderia cair naquela disputa. O tempo passou e ele foi o primeiro a cair na água.

Resmungando, ele retornou a escada atrás da cabine e voltou para sentar na prancha.

— Ao representante dos Deuses, a pergunta permanece: Qual é o vulcão da Sicília, considerado um dos mais altos da Europa?

— Vesúvio.

Não deu um segundo, nenhum aviso, Dimitri caiu na água. Ele, convicto de que tinha acertado, ficou extremamente com raiva ao sentir o contato com a água.

— É claro que é Vesúvio. — gritou enquanto retornava para a prancha.

Não dando bola, o organizador seguiu:

— Ao representante dos Fantasmas, a pergunta permanece: Qual é o vulcão da Sicília, considerado um dos mais altos da Europa?

Jen ficou quieto e apenas aguardou cair na água. Ele definitivamente não sabia.

Num suspiro, mas logo rindo, o organizador olhou para o Ian.

— Ao representante dos Leões, a pergunta ainda permanece: Qual é o vulcão da Sicília, considerado um dos mais altos da Europa?

— Etna. — Ian respondeu ainda no primeiro segundo.

A arquibancada gritou.

— Finalmente alguém acertou! Próxima pergunta: Qual a comida preferida do Garfield?

— Lasanha! Até deu vontade de comer... — brincou o garoto.

— Correto. Segundo a bíblia, quantos animais foram escolhidos por Moisés para entrar na arca?

— Bem, nenhum. Pelo que ouço das histórias, a arca foi de Noé.

Os quatro participantes ficaram impressionados com a última pergunta, eles não haviam notado a pegadinha feita ao substituírem o nome de Noé por Moises. Uma pergunta básica, mas que poderia derrubar todos eles se não notassem.

— Primeira rodada concluída. Retomamos ao representante dos tigres. Primeira pergunta: Qual é o maior animal vivo?

— A baleia azul. — Charles respondeu.

— Certo! Segunda pergunta: Quantos centímetros tem um quilômetro?

Charles revirou os olhos e respondeu:

— 100.000cm.

— Correto! Terceira e última pergunta: Qual o nome dos sete anões na História da Cinderela?

— Na história da Cinderela não há sete anões. Isso seria a Branca de Neve. — Charles olhou para o Ian como se estivesse dizendo: “eu também não sou burro para cair em pegadinhas”.

Quando chegou a vez do Samuel, ele ainda se encontrava irritado por ter caído na água na rodada passada.

— Vamos lá, Águias. Primeira pergunta, essa é fácil: Quem canta a música Happy, que tem feito sucesso nos últimos tempos?

— Pharrel Williams.

— Segunda pergunta: Qual é o satélite natural da Terra?

— A lua?! É, a lua!

O garoto sorriu, mas logo deu continuidade:

— É isso mesmo. Terceira pergunta: Na rosa dos ventos, qual ponto indicada a direção Setentrional?

— Norte.

Vendo que havia acertado, Samuel ficou satisfeito ao finalmente não cair na água.

As perguntas seguiram novamente até chegar em Ian, mas antes dele os dois participantes haviam caído na água.

— Vamos ver se você vai acertar já que os dois erraram: Qual é o corpo celeste que possui luz própria?

— As estrelas.

— Ainda na mesma área: Qual é o corpo celeste que não possui luz própria e gira ao redor de uma estrela?

— Planeta.

— Terceira e última pergunta da rodada e seguindo o mesmo tema: Qual é o corpo celeste que não possui luz própria e gira ao redor de um planeta?

Ian deu um sorrisinho:

— Satélite.

Novos gritos tomaram conta do lugar. Ian era, sem sombra de dúvidas, o favorito daquele jogo. Sempre quando ele respondia as arquibancadas gritavam, enquanto os demais tinham uma torcida mínima, enquanto Charles não recebia nenhum grito, nem mesmo dos colegas de times.

Quando chegou a vez do Charles, ele respondeu as três perguntas com convicção e sempre que podia encarava o Ian, mas o leonino nem estava dando a mínima, até o ignorava mantendo os olhos nos colegas de equipe esperando sua vez.

Samuel caiu novamente na água quando respondeu a sua segunda pergunta na terceira rodada. Dimitri acabou respondendo a pergunta, mas também caiu na água em seguida que fez gerar uma risada debochada do Charles.

Novamente chegou a vez do Ian e só nesse momento ele encarava o organizador.

— Vamos para mais um show de acertos? — questionou o garoto.

Até ele parecia muito confiante na vitória do Ian, conhecia o motivo que o tornava reconhecido dentro da Quadra. Essa simpatia acabou gerando em Charles um sentimento muito ruim.

Ian respondeu as três perguntas sem que parecesse pensar muito. Mais gritos tomou conta do lugar, deixando-o cada vez mais constrangido e Charles com mais raiva.

Na terceira rodada, Charles acertou novamente as três perguntas, Samuel errou na terceira, Dimitri também acertou as três perguntas e Ian, como já era de se esperar, permanecia invicto.

— Chegamos a quarta e última rodada.

Charles deu um risinho, ele sentia que a vitória estava em suas mãos naquele momento.

— Preparados para a derrota? — questionou o Tigre aos rivais.

— Não enche. — Samuel revirou os olhos, ele havia errado mais do que imaginava.

— Pobrezinho... Acha que vai ganhar. — Dimitri disse.

Mas a discussão terminou no momento em que a primeira pergunta foi feita:

— Ao representante dos Tigres: Quantas casas decimais tem o número pi?

— Trilhares.

Disse convicto, pois gostava de números.

— Segunda pergunta: Quanto tempo a luz do Sol demora para chegar à Terra?

— Oito minutos. — disse e sorriu, considerando a pergunta muito fácil.

— Vamos ver agora... — disse o organizador como se estivesse subestimando toda aquele orgulho. — Quais o menor e o maior país do mundo?

Foi aí que as pernas de Charles foram quebradas, simplesmente ele não conseguiu pensar em nada. Absolutamente nada veio em sua mente e no passar dos dez segundos lá estava ele na água, como se estivesse se afogando.

— Isso não é pergunta que se faça! — bradou.

Todos riram.

O organizador não deu a mínima e seguiu, assim foi com todos os outros, sendo derrubados na água até que chegasse a vez do Ian, onde ele apenas deu um simples sorriso, olhou para os colegas na arquibancada e respondeu:

— Vaticano e Rússia.

O organizador deu um sorriso e soltou um “yeah”, deixando explícito naquele momento que torcia para o leonino, gerando ainda mais raiva em Charles. O Tigre planejava não errar nenhuma pergunta, mas seu planejamento foi por água abaixo... literalmente.

— Chegamos aos resultados final. Em quarto lugar encontra-se o representante dos Deuses.

Dimitri fez uma cara de negação impagável e suficiente para fazer Charles dar uma alta gargalhada enquanto se enxugava.

— Em terceiro lugar, por ocorrer empate, ficou o representante dos Águias e o representante dos Fantasmas, assim fica explicado porque não existe um quinto lugar. Ambos erraram três perguntas.

Samuel suspirou, estava decepcionado consigo mesmo e nem cogitava olhar na cara de Luke sabendo que seria zoado eternamente. Também sentia vergonha pelo seus companheiros, ele não imaginou realmente vencer o jogo, embora quisesse, no entanto reconhecia a fama do leonino, por isso queria pelo menos se sentir a altura de Ian, quem sabe até chegar na próxima fase com ele.

— Em segundo lugar, com um erro apenas, o representante dos Tigres.

Charles ainda não estava satisfeito, por isso encarou Ian como se fosse comer sua cabeça.

— E invicto, acertando todas as perguntas, por isso merecedor do primeiro lugar, está o representante dos leoninos.

Os leoninos, todos barulhentos, dignos da fama que tinham, agitaram nas arquibancadas e assim acabou contagiando a todos, que logo começaram a cantarolar:

“Cabeça de ferro, mente de aço. Cabeça de ferro, mente de aço”!

Ian sorria encantado, mas mantinha-se no controle, mesmo muito eufórico por dentro.

— Assim fica claro que os dois a passarem para a próxima fase são os representantes dos Leões e Tigres, que como todos nós já sabemos, carregam nas costas uma rivalidade histórica. Quem vencerá esse embate? Tigres? Leões?

Apenas gritos tomavam conta das arquibancadas.

— Bem, vocês dois, venham comigo.

Eles se dirigiram a cerca de dois metros das cabines e encontraram uma mesa contendo vinte pequenos pratos contento tortas finas recheadas com chantilly.

[...]

Colin caminhava sozinho para ir ao banheiro no ginásio. Após o pequeno intervalo dado para organizar a segunda e última etapa do jogo de perguntas, o pequeno sentiu necessidade de fazer o número 1.

Enquanto ainda não tinha chegado ao banheiro, Colin olhou para trás duas vezes ao sentir que estava sendo seguido. Jurava ser Sean tentando de alguma forma ainda conversar com ele, por isso não estava tranquilo até ouvir uma voz que não era a do seu namorado.

— Ei!

Quando Colin se virou já era tarde demais. Um membro de uma equipe adversária o segurou pelo braço, exatamente onde ficava a pulseira e tentou retirá-la, mas Colin conseguiu se desfazer daquela mão forte, no entanto foi pego novamente pela cintura.

— Me larga! Me larga! — se debatia o pequeno.

— Me da a pulseira! — pediu o garoto.

— Nunca!

O que acontecia é que a pulseira poderia elevar a pontuação do time do garoto que estava prestes a ser eliminado nessa prova atual.

— Me larga, inferno! — gritava o Colin.

O pequeno acabou sendo preso contra a parede, mas resistia o máximo que podia escondendo seu braço para não perder a pulseira.

Num piscar de olhos, uma mão nova tocou o ombro do garoto que o atacava e acabou dando-lhe um soco tão forte capaz de derrubá-lo no chão.

Sean ia continuar batendo no garoto, mas Colin gritou:

— Não!

Imediatamente Sean parou. Com sangue nos olhos, Sean não parava de encarar o garoto caído que tocava o próprio queixo.

— Por que me bateu?

Sean não respondeu, continuou encarando.

— Faz parte do jogo conseguir as pulseiras, merda! — levantou-se o garoto, irritado.

Sean não perdeu tempo e então arrancou a pulseira cinza da mão dele com facilidade, o que acabou deixando ainda mais o garoto irritado, mas sem conseguir tomar alguma atitude além de correr com lágrimas nos olhos.

— Não precisava ter batido nele. — Colin finalmente disse algo e assim o moreno lembrou de que ele estava logo atrás dele.

— Eu achei que ele que estivesse te batendo.

— Ele só queria minha pulseira.

— Como eu ia prever isso?

— Lembrando que estamos nos jogos da Quadra?

Colin saiu andando e deixou o moreno para trás. Sean somente suspirou e olhou a pulseira em sua mão. Chateado, ele retornou para o lugar que estava e deixou o namorado sozinho.

O líder dos leões retornou alguns minutos depois e, para a surpresa de Sean, sentou-se ao lado dele.

Sem dizer uma palavra, Sean somente o olhava de relance esperando que ele falasse alguma coisa, mas Colin, em todo seu orgulho, parecia lutar contra a vontade de agradecer, sentindo-se péssimo por tratar o namorado daquela forma minutos atrás.

— Tá, eu vou te agradecer por ter me salvado. — disse o pequeno.

— Sua obrigação.

— Minha obrigação?! É assim que você quer melhorar as coisas entre nós. Eu nem sei porque fiz questão de te procurar. — disse ele já se levantando.

Mas Colin acabou sendo pego pelo pulso e foi obrigado a se sentar novamente.

— Chega, Colin. Chega, tá bom? Eu tô cansando já disso.

Fazia tempo que Colin não via Sean daquela forma: verdadeiramente irritado. Mesmo que ficasse irritado diversas vezes num só dia, Colin reconhecia que ele estava com raiva quando seu olhar negro e suas expressões faciais ganhava mais destaque ao contraí-los. Ainda mais quando sua voz, já grave, parecia se tornar ainda mais grave.

— Já não tá na hora de você parar de me tratar mal?

Colin olhou ao redor. Teria uma DR na frente daquelas pessoas?

— Vamos discutir aqui mesmo? — questionou o pequeno.

— Até no inferno se possível.

— Que é que vocês estão olhando? — perguntou o pequeno ao grupo que não conseguiu desviar os olhos e os ouvidos.

Rapidamente as pessoas fingiram não prestar atenção e se afastaram.

— Se quer conversar comigo, vamos lá atrás. — Colin disse e voltou a ficar de pé.

Como Sean não tomou nem uma atitude em puxá-lo de volta, o pequeno saiu batendo pé enquanto descia da arquibancada. Sean fez o mesmo e foi seguindo-o até que ambos estivessem em um lugar longe de qualquer pessoa que pudesse atrapalhar ou ouvir a conversa.

— Nunca mais brigue comigo na frente de qualquer pessoa. — ameaçou o pequeno assim que se virou para ele.

— É o que você mais faz comigo. É chato, não é?

— Estou avisando para você não fazer isso comigo. Eu posso fazer! Somente eu.

— Claro! Você pode tudo, pode me bater, me xingar, pode ficar com raiva, pode fazer a porra toda, inclusive errar... Mas quando eu faço isso parece que o mundo acaba para você.

Colin sabia que Sean estava extremamente zangado. Seus olhos estavam tão mais poderosos e profundos.

— Você realmente é bem infantil quando quer ser. — continuou o moreno. — Isso tá me deixando de saco cheio. Porra! — elevou o tom de voz. — Eu já fiz tudo o que tinha para fazer pra ficar bem, mas você nem mesmo tá abrindo espaço para aceitar isso.

— E você quer que eu fique agindo normalmente após saber que você pode ser pai?

— Colin, puta que pariu! — Sean deu até um passo para trás e levou a mão à cabeça. — Para e pensa: como eu seria capaz de trair com uma garota? Eu sou gay, Colin. Gay! Não sou bissexual, o que eu gosto está bem aqui na minha frente, mas porra, que merda é gostar de você, hein? Se você puxar na sua memória, vai lembrar do que que eu admitir gostar de você, mas sentir aquilo me deixava com medo. Vê agora as razões? Eu me tornei completamente submisso a você.

Calado, Colin ouvia palavra por palavra, dessa vez os papeis se inverteram e o leonino não sabia como se defender.

— Se você prefere acreditar numa garota que nunca foi vista na vida por nós dois, que certamente é mais algum plano de alguém tentando nos separar, sinceramente eu não queria ter que dizer isso, mas do que vale me namorar se você não confia em mim?

— Sean, para. — pediu ao ser atingido. — Nunca mais fale isso. Nunca mais!

Quieto, Sean optou por não reforçar ao reconhecer que seu namorado facilmente perdia o controle.

— Eu só queria que você se colocasse um pouco no meu lugar. — Colin disse. — É assustador, ok? Eu confio em você, mas ainda assim me assusta. Me assusta cogitar a ideia de que, sei lá... Aconteceu?! Porque você não se lembra, e dessa forma tudo pode ter acontecido.

— Mas Colin, é claro que essa garota está mentindo.

— Sim, Sean, eu no fundo acredito nisso. Mas eu já disse que é assustador pensar nessas coisas. Porque o que imagino é um futuro com você, nossos filhos, nossa casa, nossa família. Imagina como eu fico só de pensar que pode ser que algo tenha acontecido e tudo isso se arruíne? Todos esses planos que eu tenho?

Sean sentiu o estômago formigar. Colin já pensava em construir uma família com ele? “Nossos filhos” foi a frase que mais o deixou impacto, afinal, o maior sonho daquele grandão de olhos negros era ser pai. E ser pai para por em prática tudo aquilo que desejou, já que não teve uma imagem partida em que pudesse tomar como apoio.

— Foi você quem pediu para fazer o exame de DNA, eu nem mesmo cogitaria em fazer isso, pois acredito fielmente que eu não tenha feito nada. Mas se quer tanto isso, você verá que tudo não passa de uma armação.

Sem argumentos, Colin cruzou os braços, desviou os olhos e ficou batendo no chão com a ponta do pé direito.

— É engraçado como você se irrita quando lhe falta argumentos. — disse o moreno.

— Eu só não quero te humilhar. — disse o pequeno sem olhá-lo.

— Para de ser tão birrento. — falou Sean tomando-lhe pela cintura.

Colin nem recuou.

— Paramos de discutir? — questionou o mais alto.

Colin nada disse, estava de braços cruzados.

— Vou entender como um sim. — falou e descruzou os braços dele. — Agora desfazer essa cara de mal humor e olha para mim.

— Não.

— Vai dizer que nesses dias você não sentiu falta dos meus beijos?

— Há dois minutos você estava puto da vida, como pode agora agir assim?

— Nesse caso você faria diferente, eu tô apenas pretendendo esquecer isso.

Sem que desse aviso prévio, Sean tomou os lábios do seu namorado para um beijo. Colin até tentou... Realmente tentou não cede, mas não durou um segundo e ele já estava se debruçando no corpo do namorado.

— Ok, ok, ok... — disse o pequeno afastando seu rosto do dele. —Agora precisamos voltar.

— Qual a graça de assistir um jogo onde já sabemos quem será o vencedor?

— Quem será o vencedor?

— O engraçadinho do seu time.

— Está admitindo que o Ian vai vencer?

Sean balançou a cabeça.

— Fazer o quê, né? Está na minha república. — sorriu convencido. — Mas estou mais voltando para ver o seu primo ser humilhado do que pela vitória.

Antes que pudesse largá-lo, Sean deu-lhe um último beijo até que juntos voltassem, finalmente em paz, para as arquibancadas.

[...]

Pietro procurava desesperadamente algum colega de república, infelizmente não podia interromper o jogo e chamar por Ian. Quando finalmente encontrou alguém, desejou não ter encontrado, afinal, era a pessoa que ele menos desejava encontrar: Hugh.

Na verdade ele só não queria encontrar Hugh pelos problemas que ambos já tinham juntos, mas por falta de opção e desespero, não viu outra saída senão ir até ele.

— Hugh, preciso falar com você.

Hugh, que caminhava para as arquibancadas, o ignorou.

— Hugh, eu preciso falar com você! — repetiu com mais ênfase.

Hugh nem sequer olhava para trás, seguia subindo e ignorando Pietro.

— É urgente! Você acha que eu estava aqui atrás de você se não fosse por isso? — resmungava o leonino.

Hugh acabou parando numa fileira vazia, mas quando ia se sentar, Pietro elevou ainda mais o tom de voz:

— Vão acabar com a república!

Foi nesse instante que Hugh se virou para encarar o garoto, mas quando Pietro pensou que aquilo tinha sido o suficiente, ele apenas ouve:

— Você tá criando mentiras apenas para ter minha atenção?

Pietro apenas suspirou e não acreditou no que ouviu, Hugh simplesmente mantinha o orgulho maior do que qualquer coisa já vista. O que só reforçava em Pietro a ideia de que o havia magoado muito e seria muito difícil ter o seu perdão.

Chateado, Pietro não disse mais nada e saiu. Não podia mais perder tempo, sozinho teria que dar um jeito de conseguir impedir Andrew e seus comparsas de acabarem com a república dos leoninos.

A quem pedir ajuda? Pietro não conseguia pensar em ninguém. Ninguém gostava dele naquele lugar, seja leão, águia ou tigre. O líder da república da frente o detestava, inclusive acabara celebrando sua chegada nos leões com um soco. O líder dos águias não tinha nada contra ele, mas também não tinha algo a favor. No máximo tinha o Danion, mas não conseguiu encontra-lo.

Pietro chegou em sua república no exato momento em que Andrew e os colegas aproximavam-se com barras de ferro e de madeira nas mãos.

As pernas do leonino tremeram, mas ele conseguiu disfarçar. Pela expressão de Andrew, melhor seria correr dali e deixar tudo para trás.

— Já imaginávamos que iria nos trair — Andrew disse. — Não teve coragem de nos avisar que seus colegas não estavam na república.

Todos os outros três soltaram risos quando viram a cara assustada de Pietro.

— Tem que ter muita coragem para fazer o que você fez, Pietro...

— Eu avisei, não avisei? — Isis falou. — Estava óbvio que ele faria isso. Você

— Estão todos lá dentro. — mentiu o garoto. — É melhor vocês não fazerem nada.

— Estão? — Andrew sorriu. — Você acha mesmo que vamos cair nessa? Essa sua cara já entrega tudo.

— Por que tem que ser assim? O Hugh sozinho conseguiu derrubar nós dois. Você quer mesmo piorar tudo isso? Eles não vão deixar barato.

— Nós somos piores que eles! Engraçado como agora você revela de que lado está. O que eles fizeram? Qual deles te comeu para você ficar assim?

Pietro apertou os dedos, queria gritar sobre a relação existente entre ele e Andrew.

— Por que você não pode deixar isso para lá?

— Segurem-no. — ordenou Andrew.

Não deu dez segundos e Pietro rapidamente foi pego pelos braços.

— Para o bem de vocês, é melhor me soltarem. — furioso, Pietro disse. Ele ainda não havia perdido o seu jeito raivoso de ser.

Chris e Ewan apenas sorriram debochadamente.

Andrew andou devagar até para em frente ao Pietro.

— Você sabe muito bem como nós somos. — falou enquanto pressionava com uma só mão as bochechas dele. — Se você está do lado deles, isso significa que você não é mais um de nós, assim se tornando nosso rival. E você sabe como nós tratamos nossos rivais...

Andrew apenas olhou para Isis. Ao entender o recado, Isis aproximou-se da república e ergueu a barra de ferro.

Pietro não viu outra alternativa, senão ganhar algum tempo na esperança de alguém aparecer e ver aquela covardia, assim impedindo que sua república fosse destruída, por isso o leonino conseguiu retirar sua mão das de Ewan e assim socar Andrew.

Isis parou imediatamente.

Pietro então rapidamente foi atacado por Chris, que logo o segurou pelo pescoço, o sufocando. Andrew aproveitou a oportunidade e começou a socar o estômago do garoto, agravando ainda mais a falta de ar que ele já estava sentindo.

Depois de alguns socos, Chris soltou o Pietro ao perceber que se permanecesse por mais tempo o sufocando, agravaria a situação. Bater no Pietro era o suficiente, mas matá-lo não era uma opção.

De joelhos, Pietro acabou recebendo um chute nas costas por Ewan, assim caindo no chão. Andrew então começou a pisar em todo o corpo do garoto, tão forte que não percebeu que em um momento, quando Pietro tentou proteger o rosto, acabou quebrando o braço dele.

Ewan puxou Pietro pelo cabeço e quando se preparou para socar o rosto dele, sentiu uma mão segurar a sua.

A princípio, Ewan achou que tinha sido Andrew, achando que ele estava com pena de Pietro, mas Andrew estava agora afastado dele, junto ao Chris, ambos em posição de luta.

— Foi o maior erro da sua vida tocar nele.

Foi num só movimento que Hugh girou a mão de Ewan, causando enorme dor na região e dando-lhe um chute no centro das costas, derrubando-o no chão próximo aos amigos.

Ele nem pensou duas vezes e logo foi direto para a agressão, escolhendo como alvo, nada mais, nada menos, que Andrew.

Hugh não estava sozinho, Patrick e Calvin tinham o acompanhado, as únicas pessoas com quem ele conseguiu se comunicar no ginásio.

— Essa vagabunda tá com a barra de ferro tentando destruir nossa república? — Patrick falou. — Eu não acredito no que estou vendo.

— Eu não vou perder tempo... — Calvin falou.

Ele foi logo partido para cima do Chris, sendo que este conseguiu se defender e puxou um canivete, mas Calvin não teve medo, apenas buscava aberturas ao se defender dos ataques constante, livrando-se de sérios cortes que poderia receber.

Diferente de Calvin, Patrick acabou sendo atacado por Ewan, que ao perceber que ele estava de costas e ajoelhado examinando Pietro, cravou os braços em seu pescoço. Mas Patrick, não era fraco como muitos pensavam, por isso tinha aquele corpo... Fragilidade não fazia parte do seu físico.

Num só golpe, ele acabou lançando o corpo de Ewan contra o gramado.

— Você gosta de pegar as pessoas desprevenidas, não é?

Ewan ficou de pé.

— O que foi, bichinha?

— Sou bem veado mesmo, adoro. Pois agora você vai apanhar de uma bichinha como eu. — muito fora de si, Patrick disse.

Com raiva, Patrick já avançou aos socos, errando os primeiros, mas acertando a partir do terceiro em diante, o que deixou Ewan desorientado.

Diferente da última briga, Andrew não estava apanhando tão feio. No entanto, quem estivesse vendo a briga por fora diria que Hugh estava na vantagem, embora o nariz já estivesse sangrando quando tentou desviar da barra de ferro, mas logo em seguida recebeu um soco no rosto. Porém, Hugh conseguiu tomar a barra de ferro de Andrew e a lançar para longe, considerando mais justo ir com os próprios punhos, e foi aí que veio a desvantagem do morador do Ninho, que levou um soco, dois, e três, dando um passo para trás a cada dor sentida.

Hugh parou de bater em Andrew quando considerou ser o suficiente, mas não o deixou desacordado, o que poderia ter feito, mas optou por apenas socá-lo não só no rosto, mas no estômago.


Na luta de Calvin, ele acabou se ferindo se ferindo, levando um corte no braço quando Chris foi mais rápido e o atingiu, mesmo com a dor e o sangue escorrendo do seu braço, Calvin seguia persistente até conseguir chutar a mão do garoto e derrubar o canivete, tendo então a oportunidade de pegá-lo aos socos e chutes, batendo nele até que ele começasse a implorar para parar.

Patrick estava montado sobre o corpo de Ewan, prendendo os braços dele ao chão com a força de seus joelhos que os pressionava e a cada xingamento ele dava um tapa no rosto do garoto.

— Repita comigo: Um veado me bateu. — um tapa.

Calado, Ewan tentava resistir.

— Diga logo! Um veado me bateu! — outro tapa. — Não vai dizer? Então vai continuar apanhando. Você mexeu com meus amigos no meu pior dia.

Se Carter estivesse vendo aquilo, certamente teria muito medo de Patrick. Provavelmente ele soltaria um “Égua da cabrita braba”.

Enquanto isso, Hugh se defendia de Andrew, mas sempre conseguia encontrar aberturas e bater nele. Porém, no instante em que virou as costas para olhar como Pietro estava, acabou sendo atingindo por Isis com a barra de ferro, imediatamente seu pescoço foi banhado pelo seu próprio sangue e ele desmaiou.

— Hugh! — Patrick gritou e saiu de cima de Ewan.

Calvin também não pensou duas vezes e foi ao encontro do amigo, largando Chris, dando-lhe a oportunidade de respirar já que o sufocava.

[...]

— Bem, chegamos a etapa final da prova de hoje. Os dois maiores pontuadores estão aqui, peço para que escolham um dos lados.

Ian deu oportunidade para Charles escolher, o tigre rapidamente se posicionou do lado esquerdo, deixando livre o lado direito para Ian.

— A prova de agora não irá demorar muito. Como estão vendo, há vinte tortas com chantilly, provavelmente vocês já imaginam o que vai acontecer. Por favor, peguem placas e as canetas embaixo das mesas.

Ian obedeceu, a sua placa era pequena e servia justamente para riscar. Embora não mencionado pelo garoto, havia também um apagador, além da caneta.

— Eu farei dez perguntas, apenas dez perguntas. O que vai acontecer é o seguinte: A cada pergunta feita, vocês devem responder dentro de sete segundos e levantar o quadro quando eu pedir. Se um de vocês acerta, acumula uma torta dessas...

— E se der empate? — Charles, apressado, perguntou.

— Faremos uma nova pergunta para o desempate.

— Então quer dizer que uma resposta certa corresponde a uma torta na cara? — Ian questionou.

— Sim, no entanto, como falei, serão apenas dez perguntas. Das dez perguntas, aquele que marcar mais pontos, vence, assim, a depender do número de acertos, isso equivale o número de tortas na cara que vocês poderão dar.

A princípio, era algo muito bobo e comum, mas Ian apenas sorriu para Charles, recebendo em troca uma cara fechada do tigre.

— Entendidos? — ambos concordaram. — Então vamos para a primeira pergunta, ok?

— Ok. — apenas Ian respondeu.

Antes, o garoto começou a falar com o público, dando uma nova revisão do que aconteceria para que ninguém ficasse perdido. Samuel, frustrado, torcia para o Ian, mas estava tão aborrecido que não quis ouvir nada dos seus companheiros, principalmente de Luke, que no lugar de confortá-lo, fazia piadas.

— Primeira pergunta, atenção: Qual é o rio da Rússia, em cujo delta surge a famosa cidade de São Petersburgo? Sete segundos, valendo.

Ian buscou lá na cachola, por isso amava ler de tudo. Embora não estivesse muito seguro, acabou chutando. No final da contagem, ambos levantaram as placas contendo a resposta: Neva.

— Certa resposta, por enquanto um ponto para cada. Segunda pergunta: Qual é o polímero muito usado com finalidade estética, em forma de prótese (principalmente mamária)? Valendo!

Ambos os garotos acharam a pergunta muito fácil, logo estavam com as placas levantadas contendo a palavra silicone.

— Ok, ok, certo. Próxima pergunta: Qual é o nome da milícia fundamentalista islâmica do Afeganistão? Valendo!

Ian sabia dessa, mas Charles estava em dúvida.

— Levantem as placas! — gritou o garoto.

Na placa de Ian continha a palavra Taliban, já na de Charles estava em branco.

— Apenas Ian acertou, isso significa que agora ele está na vantagem, mas o jogo pode virar.

— Eu não vou deixar barato. — irritado, Charles ameaçou Ian, mas o leonino apenas sorriu sem provocação.

— Nesse momento, placar de três para o leonino e dois para o tigre. Vamos a próxima pergunta: Qual é o principal minério de exportação do México para os EUA? Valendo.

Mais uma vez, os garotos acharam a pergunta estúpida e logo responderam na placa: Petróleo.

— Respondam com verdade ou mentira: O diamante é a pedra mais resistente da terra?

Ian precisou pensar, Charles mostrava-se confuso e não sabia bem o que responder. Não conhecia bem de pedras.

No final da contagem, ambos levantaram as placas, porém, ambos chutaram. Ian na verdade só não tinha tanta certeza, lembrava-se de já ter ouvido falar disso, só não conhecia o nome da outra pedra.

— O leonino respondeu mentira, enquanto o tigre respondeu verdade. A resposta certa é: Mentira! — Ian pôde respirar tranquilamente, diferente de Charles que ficou aborrecido. — A lonsdaleíta é duas vezes mais resistente.

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— Ainda não perdi. — Charles falou.

— Então ficamos com cinco pontos para o leonino e três pontos para o tigre. Vamos lá... No mesmo esquema, respondam apenas com verdade ou mentira. Não existe gravidade no espaço?

Acharam fácil, principalmente Ian que adorava estudar sobre as estrelas, planetas e a galáxia. Ambos responderam mentira.

— Acertaram. Existe sim, até mesmo sideral, no entanto é muito fraca. Próxima pergunta: Qual era o deus do Sol e da Criação, no antigo Egito? Valendo!

Ambos responderam ligeiramente: Ra.

— Acertaram. Caro colega — o garoto olhou para Charles —, você vai depender dessas três perguntas para vencer, e isso caso ele erre as três, ou então causar um empate. Torça para que ele erre.

— Então o jogo começa agora.

— Ótimo, gosto de competidores assim... A próxima pergunta é a seguinte: Qual cidade foi a capital da Itália, entre os anos 1861 a 1864? Valendo.

Mais uma pergunta de história, o que deixou Ian feliz. Como ele já havia estudado sobre isso e continuava fresco em sua memória, ele logo respondeu: Turim.

— Vejamos, o leonino respondeu Turim, enquanto o tigre respondeu Veneza... Acho que você não prestou atenção nas datas... Turim é a resposta certa!

Ian sorriu, olhou para os colegas, todos já agitados e se sentindo vitoriosos. Enquanto Charles se negava a olhar para trás, sentindo raiva e vergonha por ter errado três perguntas.

— Então ele venceu, mesmo que eu acerte essas duas perguntas, ele continua na vantagem, ainda que ele possa errar. Para que continuarmos? — Charles disse entredentes.

— Porque são dez perguntas, equivalente a dez tortas na sua cara. — Ian finalmente disse algo na intenção de provocá-lo.

— Uou! O clima esquentou aqui. — disse o garoto ao microfone. — Ele tem razão. O jogo só termina quando as perguntas forem todas feitas.

— Eu não quero mais jogar.

— Consideramos então seu time desclassificado.

— O quê?!

— É isso que deve ocorrer, você está fugindo das regras desse jogo. Ainda faltam duas perguntas e elas devem ser feitas.

— Então vamos logo com isso. — falou e nem sequer olhou para o Ian.

Ninguém entendia o que estava acontecendo, já que o organizador falou longe do microfone evitando constrangimento.

— A pergunta seguinte é: Na Bíblia, como são conhecidos os cânticos de Davi?

Isso Charles nunca saberia, ele nunca tivera contato com a bíblia, enquanto Ian já há havia lido por conta de sua mãe, ainda quando nem estava na faculdade.

O leonino levantou a placa, enquanto Charles a deixou em branco: Salmos.

— O leonino acertou, estando então com nove pontos e já garantindo sua vitória, no entanto, vamos a última pergunta. Respondam com verdade ou mentira: Os antibióticos matam os vírus?

Charles se negava a errar essa, mas para seu azar, Ian tinha conhecimento na área por causa do William, assim, ambos responderam: Mentira.

— Os dois acertaram. Antibióticos matam as bactérias. Temos então um vencedor. Vitória para os leões! — gritou o garoto no microfone.

Nesse mesmo momento o ginásio foi tomado por gritos de todos que estavam ali, era bem verdade que ninguém queria ver uma vitória dos Tigres naquele jogo, já que a antipatia de Charles era tão explícita que praticamente ninguém gostava dele.

— Faça as honras, Ian. As tortas na cara fica por conta de você.

— Já posso? — disse ele pegando a primeira. — São dez, não são?

— Sim, você acertou as dez perguntas.

— Ótimo.

Ian pegou uma torta, da própria mesa de Charles, sorriu e disse:

— Isso é por você ter tentado me irritar no início do jogo. — e tacou-lhe a torta. — Essa segunda acontece pela provocação no decorrer do jogo. Essa terceira é a pedido do meu namorado, que tá ali gritando para esfregar bastante na sua cara. Essa quarta é pelo Colin, meu líder. A quinta é gratuita, pra você aprender a nos respeitar, já que em toda minha vida eu nunca fui antipático com você, aliás, nem o conheço para receber tamanho tratamento.

— Eu vou te bater.

— Posso não revidar, mas tenho companheiros que certamente me defenderiam. E por causa disse, receba essa torta na cara só pela audácia. — Ian esfregou ainda mais, lambuzando não só o rosto, mas como o peito dele. Assim seguiu com as demais, até chegar na décima torta. — Essa última é pela minha vitória de lavada. Por sua causa, eu fiz questão de me esforçar e acertar tudo. Nunca cante vitória antes do tempo.

Ian então tacou-lhe a torta na cara e, ao se afastar, lambeu os dedos.

— Se eu fosse você também passava a língua, está muito saborosa, acho que tem gosto de morango.

E saiu, sendo logo em seguida abraçado por seu namorado, que não teve piedade e quase o esmagou, os outros companheiros ali presente fizeram o mesmo, e gritavam pelo nome do leonino.

Charles não conseguiu disfarçar o ódio e todo sujo, limpando o rosto e com os olhos vermelhos pelas lágrimas após se sentir humilhado, afastou-se, queria urgentemente se esconder.

Até mesmo o Ian tinha seus momentos, ele não fez nada na intenção de humilhar Charles, mas abriu a boca para por para fora tudo o que estava sentido desde que Charles começou a provocá-lo.

Notas finais
O capítulo não está revisado, perdoem-me, mas eu senti necessidade de postar. Por que eu demorei? Passei por umas complicações em relação a minha saúde, então acabei tomando um tempo para mim e assim pensar na minha vida. Mas eu não vou abandonar a fic. Espero que compreendam e tenham gostado do capítulo. Amo vocês, aliás, senti muitas saudades. Tentarei responder todos os comentários pendentes do capítulo anterior. Abraços!