Notas iniciais
Apertos e consertos. (Meu ask para perguntas e meu twitter, alguns nem sabem que tenho: https://ask.fm/thomasnyah e https://twitter.com/thomaisnyah)

Patrick já estava bêbado, o que de fato não era uma novidade. Ao se tratar de bebidas, ele quase nunca pegou leve. Embora equilibrado, decidindo bem quando vai beber ou não, isso não significava que ele equilibrava o quanto de líquido iria ingerir.

Não era exatamente uma festa que acontecia, inclusive nada foi premeditado. Apenas algumas bebidas foram compradas para socialização, mas isso resultou em mais bebidas, música e conversa fora.

Calvin e Hugh eram únicos a não estarem participando da festinha, pois estavam no hospital cuidando do ferimento da cabeça do cabeludo. Pietro também havia se isolado em seu quarto, mas o próprio Colin foi levar bebida para ele e pediu para que ele fosse até a sala, mas mesmo assim, após muita insistência, Pietro pediu para ficar sozinho. Por incrível que pareça, foi Patrick quem havia cuidado dos ferimentos do garoto.

— É melhor você parar, Pat. — Julius disse ao amigo. — Já encheu a cara demais.

— Me deixa, eu mereço. — respondeu com seu jeito nada carinhoso de ser.

— Aposto que tá pensando no da roça. Ele tá famosinho, né? Acabei de ver ele lá fora com um pessoal conversando com ele.

— Vai se foder, Julius. Eu tenho coisas melhores para ficar pensando.

— É mesmo? — sorriu provocativo.

— Você nunca vai saber de quem eu gosto, desgraçado. — quis muito falar a verdade sobre seus sentimentos por ele.

— É de mim? — Julius, brincando, aproximou-se mais do corpo dele.

— Para! — disse o empurrando.

Patrick acabou se afastando, dirigindo-se para a porta de sua república, buscando confirmar o que Julius havia dito. Acabou constatando a verdade. Carter estava todo sorridente, rodeado por garotos e garotas, recebendo beijos e abraços.

Revirando os olhos, Patrick continuou a observar ele, espreitando-se na porta para não ser pego observando-o.

Carter parecia realmente bem animado, ele não tirava o braço dos ombros de uma garota loira, que mantinha o braço dela envolvido na cintura dele.

Patrick sentiu nojo e uma vontade absurda de jogar a bebida na cabeça dela, nem sequer se reconhecendo por isso.

— O que faz aqui na porta? — Marcus perguntou.

Com o susto, Patrick quase caiu.

— Que merda!

— Como assim eu te assustei? Estava observando alguém? — Marcus passou a olhar ao redor e encontrou Carter com o pessoal.

— Claro que não. Estou aqui distraído. — mentiu.

— Sei... Até parece. Fala que você tá caidinho no da roça. Tenho percebido isso... Até o Julius fala a mesma coisa.

— Eu? Nunca! Olha para ele, Marcus. Ele jamais fez meu tipo. — Patrick pareceu nervoso. — E mande o Julius ir se foder. Por que ele tá conversando com você a respeito da minha vida?

Enquanto Marcus nem tinha se preparado para responder, Patrick deu um jeito de mais uma vez olhar para Carter, no entanto acabou vendo uma cena que jamais desejou ver.

Lá estava Carter com a garota loira beijando-lhe.

Com muito ódio, ele esmagou o copo de bebida e o lançou no chão.

— Que houve?

— Quer saber? — Patrick virou-se e o olhou. — Eu vou dançar.

Como não tinha ninguém dançando, Patrick sozinho iniciou uma dança no centro da sala. Danion e Caine, que juntos estavam bebendo no sofá, pararam a conversa para observar.

Julius não parava de sorrir vendo-o soltar o corpo, mesmo num estilo bem desengonçado. Ian e Connor também sorriam, mas Connor sentiu a mesma vontade de Patrick e se juntou ao amigo.

— É impressão minha ou ele parece louco? — Danion perguntou para o Colin.

— Deixa o garoto se divertir. Você deveria ir lá dentro falar com seu amigo Pietro.

— Já fui. Ele não quer beber, prefere ficar sozinho. — respondeu.

— Parando pra pensar, ele virou saco de pancada. Apanhou do Sean, apanhou do Hugh e agora dos que eram considerados amigos...

— Tadinho. — Caine falou.

— Tadinho? Ele merece apanhar e tomar vergonha na cara.

— Como você consegue namorar isso? — Colin, olhando o amigo, questionou.

— Ah... A gente acostuma.

A conversa prosseguiu enquanto Patrick ainda dançava. O leonino já estava com um novo copo de bebida na mão, bebendo-o quase que sem parar. Quando finalmente a música terminou, ele parou seus passos e respirou fundo, estava bem cansado, mas seus olhos pararam na porta, exatamente quando Carter surgiu... Em um péssimo momento.

Carter sorria, um sorriso claro e cheio de luz após ter presenciado Patrick dançar, mesmo que por um curto período do tempo já que havia chegado no final. Patrick estava com a cara fechada, muito sério, deixando explícito o seu mal humor ao vê-lo.

— Da roça! — Julius gritou. — Veio beber também?

— Quê?! Não, não... Vim ver a cabrita.

Patrick não disse nada, pôs mais bebida no corpo e logo se retirou do cômodo. Para seu azar, Carter acabou o seguindo, imediatamente irritando o leonino que se virou no mesmo instante.

— O que é?! — falou quase que aos gritos.

Naquele mesmo momento, todos os presentes olharam para Patrick, mas Carter quem tomou o maior susto, percebendo que Patrick estava agindo com mais raiva, algo que não se equiparava as outras vezes em que conversou com ele mesmo recebendo grosserias.

—Égua... — disse o loiro, muxoxo.

— Por que você pega tanto no meu pé? — Patrick questionou. — Não consegue me deixar em paz um minuto? Eu quero beber em paz, caralho!

— Que deu em ‘cê?

— Nada! Eu só quero ficar em paz!

— Mas...

— Carter, você não tem chances alguma comigo. — disse interrompendo-o, sem nem mesmo ouvir o garoto ter dito algo do tipo. — Então para de forçar a barra, tá bom? Eu não gosto de você, eu nunca vou gostar de você. Eu gosto de outra pessoa. Outra pessoa! Porra! Me esquece.

— Égua! — foi só o que conseguia dizer, já que nem mesmo conseguia ter espaço por Patrick atropelar suas palavras.

— Se quer saber, seria melhor você nunca ter te conhecido. Vai viver sua vida. Aproveita que agora você tá famosinho, cheio de garotas e garotos em cima de você, e procura alguém para namorar. Quem sabe aquela garota loira que você acabou de beijar.

— Ei, e-eu...

— Patrick! — Colin, irritado com a atitude dele, gritou.

Mas Patrick já tinha dado as costas, deixando-os sozinhos na sala, com todos olhando para Carter, não acreditando em todo aquele show que Patrick tinha feito. Constrangido, Carter, encolheu os ombros e abaixou sua cabeça. Ele teria caminhando para a saída da república se não o chamassem.

— Ei, ei... — Connor, não se sentindo a vontade com o que viu, aproximou-se de Carter. — Não fica assim, ele não deve estar num bom dia.

— Mas égua, ‘cê viu o que ele disse?

— Esquece isso, senta aí.

Ian queria ter dito algo, mas preferiu ficar em silêncio. Não aprovou a atitude de Patrick, mas não ia se meter na vida dele.

O clima ficou tão pesado que ninguém, além do Connor, conseguiu se pronunciar. Até Danion, que costumava fazer piadas inapropriadas e em momentos impróprios, ficou quieto.

— Eu vou lá dentro perguntar o que foi que deu nele. — Colin, por fim, se manifestou.

Carter estava tão cabisbaixo que partia o coração de Caine e Colin vê-lo daquele jeito.

Hugh e Calvin apareceram na república, mas até eles sentiram o peso do clima. Como que todo mundo estava quieto, mas bebendo? Não fazia sentido numa república tão agitada como aquela. Kai e Brandon também estavam presentes.

— Finalmente! — Julius foi o primeiro a falar assim que os viu. — Querem nos matar do coração?

— E aí, no que é que deu? — Danion perguntou.

— Alguns pontos.

— Imaginei...

— Hugh pegou três pontos na cabeça, vai precisar raspar o cabelo pra facilitar a troca de curativos. Inclusive, já rasparam uma pequena parte ao redor do corte. Sorte que ele é cabeludo e da pra disfarçar um pouco. — Calvin disse.

— Você também pegou pontos? — Caine questionou ao Calvin.

— Cinco.

— E vamos deixar isso passar em branco? — Danion ficou de pé. — Precisamos dar uma lição daqueles garotos.

— E piorar as coisas? — Ian interveio. — Eles foram capazes de ferir dois dos nossos, quem garante que isso não possa ter um final trágico? Sabemos o que passamos na mão do Colton. Melhor evitar e seguir nossas vidas. Aposto que depois da surra que eles tomaram não vão mais tentar mexer com a gente.

— Mas não podemos deixar que eles façam o que querem. A intenção deles era destruir nossa república, tivemos sorte disso não ter acontecido. — Marcus disse.

— Não tivemos sorte, tivemos o Pietro. — Ian falou.

— Tá, você entendeu o que eu quis dizer.

— Ele merece ser reconhecido pelo que fez. Se não fosse ele, onde diabos estaríamos agora? — continuou Ian na defesa do garoto.

— Ian, você, às vezes, é muito chato. — Danion disse. — Caralho, vai ficar dando discurso agora?

Como nunca poupou palavras e vontades, o branquelo quase sentiu vontade de jogar seu copo cheio na cabeça dele.

Hugh ficou observando aquela conversa, mas não tirando Pietro de sua cabeça, sendo ele o motivo daquela discussão.

— Você precisa ir se desculpar com ele. — Kai sussurrou ao pé do seu ouvido.

Hugh somente olhou para o amigo.

— Não me olhe assim. Eu também não gosto dele, mas pelo que me contou, pelo menos um pedido de desculpas ele merece.

— Vocês vão ficar aí? Bebam também. — Julius elevou o tom de voz quando viu os recém chegados quietos, parados um ao lado do outro.

Hugh apenas se afastou dos demais e desapareceu no corredor, enquanto Kai, Calvin e Brandon acomodaram-se na sala, aceitando o pedido de Julius.

[...]

Samuel tinha terminado de lavar a louça. Para ser mais exato, ele lavou a dele e a do namorado, isso porque o moreno fez seu jogo de sedução e conseguiu se livrar da responsabilidade.

É lógico que Samuel também não tem a mente tão fraca para ceder tão fácil assim, mas como ele estava de bom humor e Luke havia sujado apenas um prato e dois talheres, assim aceitou sem resmungar. Minto... Ele resmungou, mas foi baixo e rápido demais.

Após secar as mãos, ele retornou ao quarto e encontrou o namorado mexendo no celular enquanto jogado na cama.

— Você não vai dormir aqui. — falou o loiro enquanto sentava-se ao lado dele.

— Vou sim.

— Não, não vai. Eu não quero.

— Não acha que já está na hora de voltarmos para o mesmo quarto? Edgar vai ficar melhor com o primo dele e você comigo. Isso significa que teremos mais privacidade, mais sexo, mais oral, mais beijo... grego.

— Por que você fala tanta coisa inútil?

— Porque você gosta de uma sacanagem.

— Como se você merecesse tudo isso. Ainda não te perdoei totalmente, então até eu decidir, vamos ficar dormindo em quartos separados.

— Ah, nem vem. Eu quero dormir com a cara enfiada nessa bunda branca. — disse o moreno tocando a nádega do loiro.

— Sou eu quem vou te comer na próxima vez que transarmos.

— Pode ser... Se você trocar de quarto, quem sabe eu deixe...

Quando Samuel ia abrir a boca, Luke o puxou pelo pescoço. Samuel teve mais força e conseguiu se afastar antes de ter um beijo roubado, mas chegou a sentir a barba do namorado... Grande.

Luke estava com a barba volumosa, a ponto de deixa-lo ainda mais velho do que aparentava. Embora não fosse uma imagem ruim de se ver, era até... digamos que... excitante.

Mas Samuel não gostava muito.

— Já mandei você fazer essa barba. — resmungou o loiro.

— Vou deixar pra fazer isso no banho.

— Então vai logo, Luke. Aproveita que o banheiro tá livre.

Samuel começou a sentir um cheiro estranho até perceber um sorriso na ponta dos lábios do namorado se formar.

— FILHO DA PUTA!

— Ah, escapou.

— Sai já daqui!

— Tô com dor de barriga, caralho.

— Então vai para o vaso, desgraçado. Que merda você comeu? Porra, eu não consigo nem respirar.

— Quem compartilha disso significa que ama verdadeiramente. — brincou o moreno, afastando-se para não apanhar.

— Sai, sai já da minha frente!

Luke apenas deu uma rápida corridinha e pegou uma toalha, aproveitaria então para tomar banho depois de fazer o que tinha de para fazer.

Samuel permaneceu no quarto, optando por arrumá-lo. Não que fosse exatamente necessário, no máximo havia alguns objetos fora do lugar; tipo livros, cobertor jogado na cama e travesseiro espalhado.

Após isso, ele ainda teve tempo de arrumar a cama do Carter. Era mais forte do que ele... Odiava bagunça, odiava ver algo fora do lugar.

Por fim, sentou-se na sua cama e começou a mexer no celular do namorado, não porque estivesse desconfiado de algo, até porque essa conversa já foi feita entre os dois. Ele só não tinha nada para fazer mesmo e olhar as fotos do namorado era melhor do que fazer nada.

Luke era realmente um safado. De dez fotos, pelo menos duas era do seu pênis. Agora para quê ele tirava? Samuel preferia não imaginar. Mas admite sentir um pouco de receio a levar em conta todo o histórico do moreno.

— TCHARAM!

Luke entrou no quarto fazendo esse som de surpresa, trajando a toalha branca enrolada em sua cintura e com bigode e cavanhaque.

Sim! Ele estava de bigode. Um bigode mustache. Aqueles que têm as pontas fininhas e curvadas para cima.

— Tô gato, não tô? — fazendo pose, Luke piscou para o namorado.

— Por que você é tão ridículo?

— Aproveita e tira uma foto minha, vai. — ele continuou fazendo pose.

— Eu vou jogar esse celular na sua cabeça, isso sim.

— Tira logo, Samuel.

Revirando os olhos, Samuel tirou a foto e jogou o celular na cama.

— Sério que você vai ficar de cavanhaque e de bigode?

— Sim. Por quê? Não gostou?

Samuel fez uma careta. Não é que ele não tenha gostado, mas era uma imagem novo que ele precisava se adaptar. E, aliás, Luke nem estava feio, estava bonito... Exótico. Parecia aqueles modelos fotográficos que tiram fotos com aquelas roupas alternativas.

— Gostou ou não?

— Tá, eu gostei... Mas pra ficar melhor você vai mudar o visual.

— Como assim?

— Vai deixar de usar essas roupas largadas e que nem sequer combinam ou contrasta com a outra peça. A propósito, vamos também dar um corte nesse seu cabelo.

— Quê?! Pra quê tudo isso?

— É assim ou arranco esse cavanhaque quando você dormir.

— Porra, hein. Já não basta ser chato com arrumação, agora quer fazer isso comigo também?

É o signo, Luke... O signo. Virginiano assumido.

— Fico pensando aqui no que combina mais... Algo bem alternativo, meio hippie. Vai ficar lindo.

— Não, eu não vou gastar dinheiro com roupas novas.

— Se você não vai, eu mesmo vou. Aposto que você vai adorar quando se ver no espelho com um novo visual.

— Larga de ser tão chato.

— Amanhã mesmo iremos fazer isso.

— Não.

— Uma semana sem sexo. — disse cruzando os braços e batendo o pé.

— Porra, não. Tá maluco?

— Duas semanas sem sexo. — fechou os olhos.

— Samuel, caralho!

— Um mês sem sexo. — levantou o queixo.

— Tá bom, merda. Eu vou. Que saco.

Samuel deu um sorrisinho e balançou a cabeça satisfeito com a ideia.

— Maldito seja o dia em que comecei a namorar você.

— Só pra você saber quem manda nesse relacionamento.

— Vai se foder, vai. — disse o moreno resmungando enquanto abria a porta do quarto para ir ao seu se vestir.

— Ah, mas você vai agradecer por isso mais tarde.

Luke mostrou-lhe o dedo do meio.

— Não entendeu o que eu quis dizer?

O moreno parou e ficou olhando-o.

— Daqui a pouco eu chego no seu quarto...

Quando compreendeu, Luke abriu um sorrisão e rapidamente seu pênis enrijeceu. Ele olhou para baixo e com a mão, tocou o volume, apertando a tolha em volta para destacar ainda mais a imagem.

— Caralho, como você consegue me deixar tão louco?

— Especialidade.

— Hoje eu fico por cima.

— É, vou deixar... Contanto que amanhã possamos tomar um banho de loja. Até eu vou mudar um pouco.

— Filho da puta, eu te amo pra caralho. Eu vou te foder a noite toda.

— Olha a boca, alguém vai escutar.

— Você vai ter que morder o travesseiro lá no quarto pra ninguém escutar. Eu tô falando que eu vou com toda a força, hein.

— Sai logo daqui.

Luke ameaçou tirar a toalha ali mesmo, mas rapidamente se virou com um sorrisão no rosto, já feliz porque ia transar. Afinal, o que ele mais gostava de fazer senão isso?

[...]

— Alguém vai lá dentro? Não nasci para cuidar de bêbado. — Colin apareceu de repente na sala.

— O que aconteceu? — Carter, que ouvindo aquilo sabendo que se tratava do Patrick, saltou do degrau e olhou para Colin, com os olhos tão arregalados que pareciam enxergar sua alma.

— Estávamos conversando até ele começar a vomitar. Que nojo! — o pequeno fez careta.

— Agora se fosse o Sean aposto que você estava lá de quatro limpando o chão. — Danion provocou.

— Cala a boca antes que eu vá aí e te meta a mão na cara.

— Eu posso ir lá? — Carter, ignorando toda a discussão, interrompeu.

— Deve.

— Eu também vou. — disse Connor e Julius ao mesmo tempo.

— Não, vocês não vão.

— O quê?! Por quê? — Julius perguntou.

— Não interessa. Quem vai é o Carter.

Sem entender, Julius nem questionou. Ian, percebendo que Connor ia questionar, segurou-o pela mão e deu uma única olhada repreensiva para ele, provavelmente deixando claro que entendia o que estava acontecendo.

— Vem comigo, Carter.

Carter nem pestanejou, logo acompanhou Colin até chegar no quarto e realmente constatar que ele estava mal, deitado na cama, mas com a cabeça pendendo para fora enquanto o vômito transparente, provavelmente só álcool, estava logo abaixo.

— Patrick, trouxe alguém pra cuidar de você.

— Julius? — questionou Patrick com a voz fraca.

— Não.

Patrick abriu os olhos e viu Carter lá. Não conseguia acreditar em como ele ainda estava ali.

— Manda ele ir embora daqui. — disse tentando se levantar, mas estava tão bêbado que não conseguiu.

— Não. Ele vai cuidar de você. — Colin o contrariou.

— Eu não preciso de cuidados.

— Não espere que alguém da nossa república vá ajudar um bêbado como você. Da última vez você me disse que esse garoto cuidou de você, não foi?

— Colin! — o repreendeu imediatamente. — Era para ser uma conversa só entre nós.

— Tá, desculpe. — Colin caminhou até onde Patrick guardava as suas roupas e selecionou algumas aleatoriamente. — Mas agora não adianta reclamar, você vai para os águias.

Carter o olhou assustado, não entendia o que estava acontecendo.

— Não! Nem morto eu vou sair daqui.

— Vai dormir num quarto tomado de vômito? Quem garante que você não vai vomitar mais? Prefiro que suje tudo lá do que minha república.

— Eu tô entendendo o que você quer, Colin... E minha resposta é não!

— Pode levar. — Colin olhou para o Carter.

— É-é sério? — gaguejou o loiro.

— Sim. Ele vai ficar lá com você. Não se preocupa que eu me encarrego de cuidar do Caine.

— M-mas ele não quer, uai.

— Garoto, vai fazer o que eu mando ou não?

— Por que eu virei objeto de discussão de vocês? — Patrick questionou. — Chamem o Julius, eu prefiro que ele cuide de mim.

— Cala a boca. — não dando a mínima, Colin encarava Carter.

Carter, mesmo sabendo que seria bastante xingado, acabou aproximando-se da cama e pegando Patrick em seus braços.

— Eu não quero sua ajuda, me larga! Me larga.

— Égua! Para de me tratar assim.

Mas Patrick não se remexia, muito menos fazia esforço para sair daqueles fortes braços que o segurava.

— Vai lá cuidar da sua amiguinha.

— Que amiguinha, uai?

— Agora você finge que não sabe de nada?

Colin, sem perda de tempo, colocou as roupas de Patrick sobre o ombro de Carter e deu leves empurrões em suas costas, dando sinal de que eles deveriam sair dali.

— Dê banho nele. — disse o leonino assim que passaram pela porta do quarto.

Ao chegarem na sala, ninguém entendia o que estava acontecendo. Patrick parecia desmaiado nos braços de Carter, nem mesmo abria os olhos. Colin só fez um gesto de silêncio para todos e aproximou-se de Caine.

— Patrick vai dormir lá, espero que permita.

— T-tudo bem, mas o que aconteceu com ele?

— Confie em mim, os dois precisam de um lugar sossegado e aqui eles nunca vão ter isso, ainda mais com todo mundo bebendo.

— É o que eu tô pensando? — Caine olhou para o amigo já desconfiando.

— Sim. Patrick gosta dele, gosta tanto a ponto de não aceitar o sentimento. Ele mesmo admitiu.

— Isso me lembra alguém...

— Calado!

Caine apenas sorriu.

Lá fora, Carter carregava um Patrick silencioso enquanto ainda estava atravessando o gramado de sua república. Entrando nela, os presentes na sala — Samuel, Gale e Clara — tiveram a mesma reação dos leoninos; estavam confusos.

Mas Carter ignorou todos eles e seguiu diretamente para o banheiro.

Patrick não se forçava a ficar de pé, talvez até conseguisse, mas ele não estava disposto. Se Carter queria cuidar dele, então teria que dar o seu máximo, aguentando até mesmo isso.

— Vou ter que dar banho em ‘cê? — questionou o loiro.

— Por que você insiste tanto?

— Ok, eu ajudo a tirar a camisa. — ignorando a pergunta, Carter segurou uma das mãos do leonino e puxou a manga da camisa, o mesmo fez com o outro braço, até conseguir deixá-lo sem a veste de cima. — Égua, que camisa fedorenta. Só fede a pinga e você também.

— Cala a boca.

— Tá...

— Por que você não me deixa em paz? Eu quero voltar para minha república.

— Não posso deixar. Seu líder mandou eu cuidar de você.

— Claro que pode! Eu vou acabar voltando sozinho, me deixa.

Patrick o afastou, mas deu apenas dois passos e quase caiu, sequer conseguia se equilibrar, mas Carter o segurou a tempo de vê-lo esparramado no chão.

— Por que ‘cê é tão teimoso? Égua! Viu que poderia tá sem os dentes agora?

— Égua, me larga.

— Tão bonitinho ‘cê falando égua. — sorridente, Carter falou.

Patrick bufou.

— Eu não vou dormir aqui. Eu vou dormir na minha república, no meu quarto, na minha cama. Me deixa ir embora!

— Mas eu não posso deixar.

— Eu te humilhei na frente de todo mundo, você deveria me deixar sozinho, bêbado por aí.

— Eu sei, mas eu ainda continuo me preocupando com ‘cê.

— Carter, para! Você não me merece.

— Vai querer que eu tire sua bermuda ou você mesmo vai fazer isso? — disse o loiro mudando de assunto.

Patrick não respondeu, assim deu oportunidade para o Carter tocar o botão de sua bermuda e desfazê-lo, no entanto acabou tremendo e parando a ação. Iria ver Patrick nu e isso o deixava nervoso.

— ‘Cê não vai me bater, vai? — o loiro perguntou olhando-o.

— Você é tão idiota, mas tão... — grunhiu o leonino nervoso ao perceber que não tinha mais insultos para proferir.

— Égua, para me xingar, uai.

— É impossível! Você só me estressa. Eu quero o Julius aqui cuidando de mim.

Carter abaixou a cabeça, nem conseguiu olhar para ele.

Patrick, ao perceber que o que tinha dito feriu o loiro, engoliu as próximas palavras que diria, mas engasgou-se no instante em que ouviu, numa voz fraca e sem vida.

— É dele que ‘cê gosta, né?

O leonino não conseguiu sequer pronunciar uma palavra, nem mesmo o olhou nos olhos.

— Deixa que eu tiro minha roupa sozinho. — falou e deu um passo para trás, mas acabou caindo de bunda no chão e soltando um gemido de dor.

Carter nem se moveu para apanhá-lo, permaneceu de pé só o olhando.

— Eu já volto. — disse o Carter abrindo a porta do banheiro.

Quando Patrick pensou em gritar chamando-o, Carter já tinha fechado a porta e o leonino, por fim, ficou sozinho no banheiro.

Arrependido, Patrick retirou a bermuda junto da cueca, ainda sentado no chão, com bastante dificuldade pela posição desconfortável em que estava. Logo depois retirou a camisa e começou a se arrastar até a banheira.

Carter voltou no instante em que ele já estava dentro dela.

— Por que saiu?

— Ah, fui só ali ver umas coisas. — respondeu, mas sem muita animação.

Carter se sentou na privada com a tampa fechada e ficou olhando para Patrick tomar banho.

Patrick não estava confortável com aquilo... Não tratava-se da presença de Carter, mas sim de como ele estava. Bem como a vez em que esteve no quarto triste por seu primo. Vê-lo triste era tão fora do comum. Mesmo que falasse aos cotovelos e geralmente coisas idiotas, era muito melhor do que tê-lo em silêncio.

— Eu quero leite morno. — Patrick disse.

— Já providenciei isso.

Patrick não compreendeu. Como Carter sabia que ele gostava de tomar leite morno antes de dormir?

Carter ficou de pé mais uma vez.

Ele se aproximou de Patrick, sentou-se na beirada da banheira e passou o sabonete nas costas dele, ajudando-o no banho.

Patrick adorava aquela mão forte e grande tocando-lhe de maneira leve. Carter tinha as mãos calejadas, talvez pelo trabalho árduo que ele tinha na fazenda.

— Você tá triste comigo? — Patrick perguntou.

— Ah, não... — sorriu.

Mas Patrick sabia que aquele sorriso não era sincero.

— Eu não queria machucar você.

— Égua. Tá tudo bem, cabrita. Ninguém manda no coração, uai.

Patrick dessa vez gritou e estapeou a água na banheira, molhando tudo que estava próximo, inclusive o Carter.

O loiro até se assustou, mas não recuou.

— ÉGUA! Eu tô confuso, Carter. Você me deixa confuso.

— Quê, uai? Que foi que eu fiz?

— Deixa pra lá. — falou chateado. — Eu já terminei.

Patrick ficou de pé, o que para Carter era um tiro no peito, capaz de fazer seu nariz sangrar só de ver aquela bunda. Isso facilmente o fez esquecer os pensamentos que tentavam entender o que o leonino quis dizer com estar confuso. Tão tolo, tadinho.

Carter correu atrás da toalha, mas quase tropeçou no próprio pé quando mais uma vez viu a bunda de Patrick. O loiro mesmo enrolou a toalha na cintura do garoto, enxugando a testa logo em seguida pelo nervosismo.

Quando Patrick pôs um pé para fora da banheira, acabou escorregando e caindo, mais uma vez, nos braços de Carter que o segurou. Pela segunda vez num só dia, Carter o protegeu de tombos graves.

— Eu ainda tô bêbado, não consigo nem caminhar direito.

— Isso que acontece com quem bebe demais.

— Cala a boca, eu nem me sequei direito. Me coloca de pé.

Carter nem obedeceu, com Patrick ainda em seus braços, ele saiu do banheiro e caminhou ao quarto. Lá pôs o leonino sentado sobre a cama e aí sim deu a oportunidade dele se secar.

— Eu vou pegar seu leite.

Carter caminhou até a cozinha e o deixou sozinho, o leite ainda estava em cima do fogão, felizmente ainda morno. Ele buscou por sua caneca de alumínio favorita, uma vermelha pela qual ele tinha uma relação afetiva. Assim como o Colin tinha pelo abajur, Carter tinha por essa caneca.

Ele pôs o leite nela e voltou para o quarto achando que Patrick pelo menos estava vestido, mas o leonino permanecia na cama, de cabeça baixa e olhos fechados, quase adormecido.

Carter pôs a caneca sobre a mesa de cabeceira e aproximou-se do garoto.

— Cabrita, não dorme ainda, ‘cê precisa se vestir.

Patrick somente levantou a cabeça devagar e resmungou.

Carter então decidiu ajudá-lo a se vestir. Recusou o nervosismo de ver Patrick nu novamente e arrancou a toalha da cintura dele. Começou a enxugá-lo em todas as partes, sem exceção. Passou a maior parte do tempo tentando secar ao máximo os cabelos lisos do leonino, por fim, largou a toalha de lado e vestiu nele a cueca.

Carter vestiu a camisa nele, pondo um braço de cada vez.

— Agora um perfume pra ficar cheirosinho. — disse o loiro.

Carter pôs o perfume na mão, esfregou e passou em Patrick.

— Pronto, agora ‘cê tá melhor.

Patrick o olhou e fez bico.

— Que tem esse bico? Ah, ia esquecendo.

Carter buscou em suas coisas um pente, voltou para Patrick e começou a pentear os cabelos dele, dividindo-os ao meio, dando ao garoto um aspecto engraçado.

— Ótimo! Assim tá lindo. Ainda tá fazendo bico? Já sei, seu leite.

Carter pegou o leite e o entregou. Patrick segurou a caneca com as duas mãos e amou sentir elas aquecidas pelo líquido.

Carter pôs o cobertor nas costas do leonino e o cobriu, enquanto ele ainda permanecia sentado e bebendo quietinho seu leite.

— O que tem aqui?

Patrick nunca havia bebido um leite tão bom como aquele.

— Leite, ué.

— Mas tem algo a mais.

— Eu costumo por açúcar caramelizado no fundo. Minha avó fazia assim. Posso fazer sempre que você quiser.

Patrick nem quis elogiá-lo, ficou em silêncio amando o líquido que bebida.

— Bem, agora que ‘cê tá pronto, acho que já posso ir.

— Ir? — Patrick questionou, abaixando a caneca e repousando a mão nas coxas.

— Sim, uai. Eu vou dormir no sofá. Você precisa ficar confortável.

Patrick relutou, mas não conseguiu esconder sua vontade por muito tempo:

— Eu não quero ficar aqui sozinho.

— O Samuel logo vem dormir, o quarto também é dele. Eu preciso arrumar a bagunça deixada no banheiro, mas eu juro voltar aqui pra olhar ‘cê de cinco em cinco minutos.

— Não, Carter, não.

O leonino estendeu a caneca, tinha bebido apenas a metade. Carter a segurou e ficou olhando-o.

Patrick se deitou na cama, de lado, como um bebê na barriga da mãe, e deixou um espaço vazio ao seu lado.

— Não vou deixar você dormir no chão como da última vez.

Engolindo em seco, Carter se perdeu nos seus próprios pensamentos.

— Deita aqui, por favor. — falou com a voz sonolenta.

Carter despertou e obedeceu. Ele retirou sua camisa, pôs sobre a cabeceira da cama, e se deitou de barriga para cima, com os braços sobre a cabeça, tentando o máximo dar espaço para Patrick se sentir mais confortável.

O que aconteceu foi que Patrick o abraçou. Seu braço direito se envolveu no tórax do loiro, assim como sua perna que enroscou na coxa do caipira. Patrick também puxou o cobertor, de modo que cobrisse os dois juntos, e ainda afogou o rosto na dobra do pescoço de Carter, fungando aos poucos e acomodando-se o máximo no corpo dele, sentindo-se cada vez mais aquecido.

Patrick também pegou segurou na mão do loiro e entrelaçou seus dedos ao dele.

Não passou dez minutos e Carter já pôde ouvir os leves assovios que Patrick costumava soltar enquanto dormia, já denunciando que ele apagou por completo.

Carter sorriu feliz. Estava deitado com o cara que mais gostava ali, deitado com o garoto por quem era apaixonado. E de maneira tão aconchegante, que temia se mexer e acordá-lo.

Numa voz baixinha, típica de quem falava com preguiça, ele ouviu:

— Cabrito.

Carter ia soltar um demorado “égua”, mas se absteve quando se lembrou de que o momento não era apropriado, mas o sorriso que soltou foi ainda mais largo, a ponto de fazer suas bochechas doerem de tão pressionadas que estavam sendo.

[...]

Hugh girou a maçaneta, mas não abriu a porta. Precisou se recompor, estava muito ansioso para vê-lo, tornando-se, por um instante, o velho Hugh de aparência frágil.

— Alguém aí?

A voz de Pietro invadiu os ouvidos do cabeludo, o que fez o coração dele acelerar mais do que já estava. Já no ponto de não aguentar mais, Hugh abriu a porta e entrou.

Pietro por pouco não saltou da cama, acabou se sentando e abrindo a boca para falar algo, no entanto se calou ao se lembrar que Hugh o ignoraria, não dando a mínima para sua presença, ignorando sua existência.

Pelo menos pôde sentir um alívio dentro de si, sabendo que ele agora estava dentro de casa e seguro. Pensou em inúmeras coisas horríveis que poderiam acontecer com ele longe dali, mas felizmente esses pensamentos não se concretizaram.

— Como você está? — Hugh perguntou.

Pietro o olhou com surpresa, tinha até resposta para a pergunta, mas ficou tão confuso que rapidamente as palavras sumiram de sua garganta.

Hugh o olhava, mesmo ainda estando de pé e próximo a porta.

— Acho que bem. — Pietro finalmente respondeu.

— Cuidou dos ferimentos?

— Patrick cuidou de alguns.

— O Patrick? — Hugh deu um sorriso de lado.

O Patrick era quem menos gostava de Pietro, o que mais reclamava do garoto desde sua chegada e agora tinha feito aquilo, não era para ser engraçado, mas quando Hugh lembrou de toda a história do início até o atual momento, não pôde deixar de sorrir.

— O que tem de engraçado? — Pietro, no seu jeitinho nada simpático, perguntou.

— Nada.

— Seus amigos estão bebendo.

— Eu acabei de vê-los.

— Por que não vai participar?

— Não tenho interesse, prefiro dormir. — disse aproximando-se da sua cama.

— O que fizeram com você no hospital?

— Levei alguns pontos. Minha cabeça ainda dói, não sei como conseguirei dormir numa posição confortável.

— Ah, sim... — falou sem saber como dar continuidade a conversa.

Por segundos os garotos ficaram em silêncio, desconfortáveis. Era uma situação estranha para ambos, principalmente por lembrarem que até horas antes ambos nem se falavam direito.

— Queria te pedir desculpas.

— Oi? — surpreso, Patrick o olhou novamente.

— Por não ter acreditado em você.

— Ah... Tudo bem. — constrangido, Pietro abaixou a cabeça. — Eu mereci. Ainda mereço, na verdade.

Hugh ficou em silêncio.

— Então... — sem jeito, Pietro continuou — E-eu vou dormir.

Agora sim ele poderia ir dormir em paz.

— Eu vou tomar um banho e tirar toda essa roupa suja.

— Cuidado com a cabeça. Quer que eu ajude?

— Não posso bem tomar um banho de cabeça. Não sei bem como vou fazer...

Novamente a porta do quarto foi aberta, dessa vez Colin surgiu com uma bacia média contendo água e uma toalha lavabo azul no ombro.

— Vamos, anda, tira essa roupa. — disse o líder apressadamente.

Pietro e Hugh olharam para Colin, mas logo os dois estavam trocando olhares confusos.

— Segura aqui. — Colin simplesmente entregou a bacia ao Hugh e saiu do quarto, voltou em dez segundos com uma nova bacia e sabonete em líquido. — Pronto, cheguei.

— O que você está fazendo? — Hugh perguntou.

— Vou te dar banho. — mas Colin não parecia muito sincero no que dizia, ele olhou para o Pietro e logo desfez a sua própria frase. — Pietro vai te dar banho.

— O quê?! Eu?!

— Sim, você. Acabei de lembrar que preciso ver o Sean, ele está doente.

— Sean doente? — Hugh perguntou. — Eu acabei de vê-lo lá fora assim que cheguei.

— É... S-sim, ele é teimoso, eu vou acabar dando uns tapas naquele estúpido.

Pietro e Hugh não acreditavam bem naquela conversa.

— Sabe dar banho em alguém? — questionou ao Pietro. — É a mesma coisa que dar banho numa pessoa acamada.

— Colin, o que deu em você?

— Em mim? Nada. Estou ótimo. Agora tchau.

Colin apressou seus passos e fechou a porta assim que saiu do quarto, deixando os dois garotos sozinhos e confusos, sem entender muito bem o que aconteceu; tudo foi muito rápido.

O mesmo silêncio que causava constrangimento se instalou no quarto, Pietro sentia-se ainda mais confuso. Estava tão acostumado a agir grosseiramente que manter-se daquele jeito o deixava com mais vergonha, não queria nunca ter dado espaço para que Hugh conhecesse o seu lado mais... como chamaríamos isso?

— Quer tentar? — questionou o garoto dos olhos acinzentados.

Hugh deu uma última olhada para ele e por fim retirou sua camisa. Pietro sentou-se num banco e pôs as duas bacias ao seu lado, em cima da cama, pouco se preocupando se iria ou não molhar ela.

Com um pouco de receio, Pietro molhou a toalha na água, descobrindo naquele instante que ela estava morna. Depois da toalha absorver água, ele a espremeu um pouco e olhou para o leonino dos olhos castanhos com certa timidez.

Pietro encostou a toalha sobre o tórax dele, esfregando na região levemente. Ele repetiu o processo de molhar a toalha, espremer e retornar ao tórax, buscando o máximo limpar a região.

O que incomodava não era encostá-lo, mas acabar esbarrando seus olhos naqueles olhos, fazendo com que suas bochechas enrubescessem.

A ação passou do tórax ao abdômen, de lá foi aos braços e logo depois nas costas.

Cada movimento daquelas mãos deixava Hugh relaxado, como se estivesse recebendo uma massagem.

Eram dois idiotas apaixonados, sim, apaixonados, que agiam com timidez esquecendo-se de que um dia já rolaram nos lençóis daquela cama em suor e gemidos quando transaram.

— Você me perdoou?

Pietro conseguiu perguntar, mesmo se arrependendo logo em seguida quando percebeu que Hugh deu-lhe o silêncio como resposta. Isso acabou gerando um desconforto para ele, que quase desistiu de limpar o cabeludo.

— Acho que sim...

Pietro o olhou surpreso, mas rapidamente desviou o olhar.

— Continuarei te causando problemas. Eu preciso ir embora daqui.

— Por que prefere escolher caminhos difíceis?

— Já é tarde demais para arrependimentos. Se eu continuar aqui vai ser pior.

— Vai fugir quando na verdade você deveria consertar os erros cometidos?

Pietro até parou de limpá-lo e ficou encarando-o enquanto dialogavam.

— E o que você quer que eu faça, Hugh? Eu atraio tudo o que é ruim.

— Ainda dá tempo de melhorar.

— Mas eu não posso ficar aqui. Não posso... Andrew não vai deixar as coisas assim. E meu pai é outro perigo para vocês.

— Eu cuido de você.

Os lábios de Pietro ficaram entreabertos quando ele jurava ter algo para falar, mas nada escapou de sua garganta. A frase dita por Hugh foi tão aleatória, mas ao mesmo tempo tão forte que o deixou sem palavras.

E não foi uma frase qualquer, para Pietro essa, a partir daquele momento, se tornou a frase mais importante de sua vida. Desde a morte de sua mãe, nunca ninguém tinha dito que cuidaria dele. Sempre sendo deixado de lado, mendigando atenção, precisando urgentemente de carinho.

Seus olhos até lacrimejaram, mas ele rapidamente desviou o olhar e voltou a limpar o garoto, ainda sem palavras.

— Prometo não deixar nenhum deles te tocar.

— E você acha que eu mereço? Eu sou um filho da puta.

— Você sabe que eu sou apaixonado por você. Você mesmo me disse isso...

Pietro se lembrou da conversa que tiveram na delegacia e acabou não ficando confortável ao se lembrar dela.

— E quem garante que eu esteja apaixonado por você? Por que confia tanto em mim se tudo o que fiz e faço é te insultar?

— Se fosse diferente eu não teria me apaixonado por você.

Pietro engoliu em seco, ficou levemente constrangido.

— Eu não sei explicar, só sinto que devo cuidar de você com a minha vida. — continuou o cabeludo. — Tem alguma coisa que nos conecta... Você acredita nessas coisas?

— Não.

— Tudo bem... Eu acredito. Acho que pessoas são predestinadas. No entanto, há caminhos árduos a seguir até finalmente terminarem juntos, infelizmente nem todos conseguem e desistem no primeiro fracasso.

Pietro estava começando a ficar confuso.

— Por que chegamos nessa parte conversa?

Dessa vez Hugh se calou, mas ele não resistiu por muito tempo.

— Você sempre esconde tudo aquilo que sente. Eu sei que aí dentro... — Hugh tocou o coração dele. — Há tanta coisa não dita.

— Acho que já acabei. — disse Pietro recolhendo a toalha e ficando de pé.

Quando o garoto pensou em se afastar, lá estava sua mão sendo pega pela de Hugh. Pietro não teve tempo nem de olhar para trás, acabou sendo puxado e caindo sobre as pernas de Hugh, tendo o rosto muito, mas muito próximo ao dele, ficando sem jeito e sem ar, mas tendo adorado a ação já que sempre gostou de atitudes como aquela.

E surpreendia ainda mais porque era Hugh quem tinha feito aquilo, geralmente sendo considerado tonto e bobo.

— Diga que quer. — Hugh sussurrou.

Pietro gaguejou, tentou falar alguma coisa, mas as palavras estavam presas em sua garganta.

Por menos de um minuto eles permaneceram daquele jeito, até Pietro engolir seco e tomar a atitude de tocar com a palma de sua mão o rosto de Hugh, acariciando aquela pele macia, como a de um bebê.

— Posso não ter o estilo garoto malvado, posso ser bobo ou qualquer outra definição que você acha, mas eu juro, juro de pés juntos, que eu nunca iria deixar nenhum mal te acontecer.

Hugh era realmente tão apaixonado por Pietro que sua raiva não tinha durado tanto tempo, ele que planejou perdoa o garoto quando somente se humilhasse, chorasse aos seus pés, lá estava admitindo sua paixão. Esquecendo-se de tudo o que ficou para trás, deixando mais uma vez óbvio que ele tem o coração gigante e o melhor... Longe de mentiras.

Pietro tocou os óculos de Hugh, que estava remendado com fita adesiva bem no meio e com uma lente rachada e o retirou da face dele, repousando-o sobre a cama e admirando ainda mais aqueles belos olhos castanhos claros.

Pietro jamais admitiria, mas sentia falta daqueles toques... Aqueles íntimos toques.

Beijou então Pietro o Hugh, fora do seu estado de negação, sem ter na mente aquele terrível sentimento de que se arrependeria mais tarde, pois agora ele tinha certeza do que queria... E queria, mais do que tudo, está dentro daquele abraço.

Ambos tomaram um susto quando ouviram a porta abrir. Pietro logo saltou das pernas de Hugh enquanto o cabeludo permaneceu sentado, mas com cara de assustado.

— Opa, foi mal. — Colin sorriu amarelo e foi fechando a porta devagar, olhando-os com um olhar sacana e divertido. — Acabei de ver uma chave bem ali... — disse o líder antes de sumir.

Pietro, abismado, olhou para Hugh e ficou mais chocado ainda quando viu o cabeludo sorrir.

— Achou isso engraçado?

— Não percebeu?

— Não percebi nada e nem quero perceber!

Hugh ficou de pé, caminhou até a porta e a trancou. Rapidamente voltou para perto de Pietro, que mantinha um olhar mal humorado, mas logo foi desfeito quando Hugh tocou-lhe a mão e o beijou, voltando ao ritmo que tinha sido interrompido.

Alguém aí prefere fingir que eles não vão transar ou prefere acreditar nisso?

A resposta está bem óbvia.

[...]

Colin saiu da sua república às 23 horas e 47 minutos. Decidido a dormir com o namorado, atravessou a rua e entrou na república dele, estranhando o motivo da porta de entrada não se encontrar trancada, mas então ele viu Brandon e Kai sentados no sofá e só os lembrou de trancar a porta antes de subir as escadas.

O pequeno parou em frente ao quarto do namorado, respirou fundo por temer tomar um esporro, já que havia ignorado as três ligações do Sean, inclusive visualizou uma mensagem e não respondeu. Por quê? Ele simplesmente não queria o namorado enchendo seu saco.

Colin cogitou em bater na porta, mas acabou girando a maçaneta e, para sua surpresa, ela estava aberta, o que o fez agradecer mentalmente. Quando entrou no quarto, acabou encontrando o namorado dormindo em meio a alguns livros... Logo entendeu porque a porta ainda estava aberta, seu namorado simplesmente pegou no sono enquanto estudava.

Em passos lentos, Colin foi até um banheiro, tomou um rápido banho e se enxugou em frente ao espelho. Estava estranhamente feliz, alegre... levemente alterado.

Enquanto ainda enxugava os cabelos, ele saiu enrolado a uma toalha na cintura e tomou um grande susto quando encontrou seu namorado sentado, com uma cara de pouca alegria, encarando-o.

— Pensei que estivesse dormindo. — falou o leonino ainda parado em seu lugar.

Sean, com aqueles olhos pretos e semicerrados, apenas levantou uma mão e o chamou com o dedo indicador.

Colin obedeceu sem reclamação alguma. Aproximou-se do namorado e Sean levou o nariz até os lábios dele.

— Abre a boca.

Colin abriu.

— Você bebeu. — disse o moreno.

— Merda, merda, merda! Eu sabia que deveria ter escovado os dentes antes de trocar de roupa.

— O que nós conversamos?

— Ah, foi só um copo. — falou o leonino dando de ombros, aproximando-se do armário onde ficavam algumas roupas suas.

— Um copo? Suas bochechas estão vermelhas e você me parece muito feliz.

— E eu deveria está triste? — Colin se virou para olhá-lo. Ele segurava uma cueca na mão enquanto encarava o seu namorado.

— Você é péssimo para bebidas, eu já disse.

— Eu não enchi a cara, Sean. Que saco!

Ele terminava de vestir a cueca quando Sean ficou de pé, o moreno começou a arrumar os livros que estavam em sua cama.

— E ainda tem a coragem de não atender minhas ligações e visualizar minha mensagem e não responder. Sinceramente, como você quer que eu fique depois disso?

— Então por que não foi atrás de mim? Ah, vai tomar no cu.

— Quer saber? Vista suas roupas e vá dormir na sua república.

Colin até parou de vestir a camisa e ficou o olhando, torcendo para Sean reverter sua fala, mas o moreno ficou calado, de pé e o encarando.

Sem dizer uma palavra, de cueca mesmo, Colin caminhou até a porta e girou a maçaneta. Sean correu a tempo de alcançá-lo, puxando-o para dentro do quarto e trancando a porta logo em seguida.

— Agora você quer que eu fique aqui? Quem não quer mais sou eu, me deixa sair.

— Ah, vai se foder. — disse guardando a chave no bolso.

— Você me expulsou daqui, seu filho da puta.

— Cala a boca e vamos dormir logo. — o moreno acabara de se deitar com os braços atrás da cabeça e pernas cruzadas.

Colin apenas suspirou, apagou as luzes e se deitou ao lado dele, mas não o abraçou. Inclusive nem estavam encostados, cada um numa extremidade.

— Por que você nunca me obedece?

— Por que deveria obedecer?

— Sou seu namorado.

— E daí? Não é porque namoramos que sou seu submisso. Namoro não significa prisão.

— Sempre com a língua afiada.

— Claro, não vou abaixar a cabeça pra macho nenhum. Nem mesmo você.

— Tá certo, Colin. Não vamos discutir.

— Você gostaria que eu desse ordens à você?

— Quando você não dá? Se eu não fizer o que você manda, é capaz de acontecer uma guerra. Evito me aproximar de garotas porque você acha que todas dão em cima de mim.

— E não dão? Você é bonito e sabe disso. Principalmente as garotinhas do prédio de medicina. Acha que eu não percebo?

Sean sorriu.

— Acha que eu não ouvi essa risadinha? Não tem graça, eu realmente odeio aquelas garotas.

— Percebeu então que há uma desigualdade? Você pode mandar, mas eu não.

— Claro! E tá ótimo desse jeito. A propósito, amanhã eu quero comer panquecas com calda de cereja e um suco de laranja sem açúcar e com bastante gelo. Espero encontrar isso na mesa quando eu acordar.

— Vai morrer de fome. — disse o moreno virando-se de lado.

— Vai ficar sem sexo.

— Puta que pariu!

— Estou falando sério. Se quiser transar, vai ter que fazer minhas vontades.

— Por que você tem quer ser tão baixo? Anão filho da puta!

— Um bom jogador usa as melhores armas, querido.

— Ah, é mesmo?

Sean, de supetão, rolou na cama e montou em cima do namorado. Colin até tentou empurrá-lo, mas força suficiente ainda não tinha, mesmo estando mais forte que antes, ainda assim era difícil vencer seu namorado nesse quesito.

— Então deixa eu foder você agora mesmo. — sussurrou o moreno.

— Não sei...

— Claro que sabe, inclusive eu sei que você vai deixar. Tô sentindo algo ganhar vida aqui embaixo, e olha... Não é o meu.

Sean então aproximou seus lábios e beijou o namorado, mas rapidamente Colin virou o rosto.

— Espera, espera...

— O que foi?

— Adivinha o que eu fiz hoje? Juntei dois casais. Tô torcendo para que eles estejam transando. Me senti um cupido dos bons, planejei tudo. Você sabia que rola um clima entre o Hugh e o Pietro? Eu demorei pra acreditar nisso... Até que aquele garoto vem surpreendendo, ele ajudou a proteger a república.

— Tá, mas e daí? Eu não quero ouvir essas histórias, eu quero transar.

— Espera, deixa eu falar mais um pouco. — Sean suspirou. — Tem também o Carter, aquele garoto, primo do Edgar, que fala “égua” a cada um minuto. Ele é super, mas super apaixonado pelo Patrick. Tadinho, tomou um esporro e mesmo assim não desistiu. Agora tá lá cuidando do Patrick, se bem que já passou um tempo... Será que transaram?

— Não sei. Mas nós dois vamos fazer isso agora.

Sean não deu nem oportunidade do namorado abrir mais a boca e logo o beijou. Colin, felizmente, aceitou o beijo e correspondeu aos toques, logo afastando as pernas para o namorado ficar mais confortável entre elas.

[...]

Quietinho, de joelhos encolhidas e cabeça baixa, Charles chorava. Ele estava sentado no degrau em frente a porta de sua república. Passava-se já das 3 horas da manhã e aquele foi o único momento em que ele finalmente pôde ter a privacidade que queria.

Preferia estar a céu aberto do que dentro do seu quarto, porque em momentos como aqueles ele gostava de ter o céu negro para contemplar.

O seu choro tinha um motivo, talvez fútil, talvez não, mas a derrota nunca era bem vinda em sua vida, no entanto, o seu choro aconteceu devido a maneira como havia perdido. Cobrou-se demais e acabou não alcançando seu objetivo, tudo que recebeu foi uma piada infame do seu primo Sean.

A sensação de ter sido humilhado não era legal, principalmente porque sua derrota só serviu para que muita gente olhasse para ele todo sujo fazendo comentários maldosos, piadas sem graça e elevando ainda mais a vitória dos leoninos, já perdeu a conta de quantas vezes havia ouvido o nome do Ian desde o jogo.

Ele até tentou segurar o choro... e de fato segurou, por várias horas, mas agora não conseguiu resistir mais. Realmente, ninguém naquele lugar dava a mínima para sua existência, ele percebeu o quão era detestado e desprezado era por ser um tigre, aquilo que ele tem maior orgulho.

Mas o favorito dos tigres é apenas o Brandon, exclusivamente ele. Os demais não são queridos, embora Charles não soubesse que Sean é ainda mais detestado pela maioria. Os Tigres tem fama e poder, uma parte gosta, mas uma parte também desgosta. Essa tal fama não é exatamente algo positivo, já que por vários anos eles eram tidos como temidos. Sean até tentou reorganizar sua república com novos membros, mas ele mesmo reconhece que mudar a imagem da sua república não é uma tarefa fácil, principalmente porque nem mesmo ele consegue ser legal.

Charles só não reconhecia que ele dava motivos para ser tão detestado, mas acredito que no fundo ele saiba... Ah, ele sabe.

Mas como mudar se isso tá em seu sangue? Ele cresceu sendo assim, foi moldado assim. Nem mesmo seu primo mais velho conseguiu abandonar parte do egoísmo herdado de sua família, parte da personalidade difícil e ar superior.

E Charles não queria mudar, nem desejava. No fundo, no fundo, um segredo seu era: ter um amigo.

Ele não tinha ninguém ao seu lado naquele lugar. Sempre sozinho, em tudo. Tem seus primos, mas Brandon não larga o Kai e com Sean ele não se dar bem, fora de que esse tem o Colin. Ambos os seus familiares tem alguém, mas ele está ali sozinho.

— Oi, posso ajudar?

Charles levantou seus olhos rapidamente e logo os enxugou. Já havia visto a pessoa a sua frente, mas não sabia seu nome. Era loiro, expressões inocentes, embora aparentasse estar triste.

— Não, não pode. — Charles logo respondeu.

— Tem certeza? Você parece está chorando...

— Já viu que horas são? Imaginei que não fosse encontrar ninguém por aqui.

— Ah, não consigo dormir. Pus a cabeça na janela e te vi aqui, imaginei que estivesse precisando de ajuda. A propósito, me chamo Edgar.

Edgar... Esse nome não foi tão estranho de ouvir. Charles acreditava ter escutado alguma história envolvendo esse nome.

— Você não vai querer ajudar alguém que pertence aos tigres. — a sensibilidade de Charles foi tanta, que ele nem percebeu que havia abaixado as armaduras.

Era isso Edgar fazia com as pessoas, algo nele conseguia abrir espaço até mesmo nos corações mais duros. Não é por acaso que namorou Joshua, o monstro.

— Já encarei feras maiores. Parece que o que é perigoso me atrai. — disse o loirinho sentando-se ao lado dele.

Charles só o olhou e se afastou, mas Edgar nem se incomodou.

— É você o garoto que perdeu para o Ian, não é?

— Veio aqui para isso?

— Não, claro que não. — se explicou nervoso. — Vim porque imagino que seu choro tenha sido por isso.

— Não mesmo, eu não choro por essas coisas.

— Não mesmo? Olha, sinceramente, se eu perdesse daquela forma, estaria chorando no meu quarto até agora.

— Vai embora daqui! — ameaçou.

Edgar sorriu.

— Ah, não é para tanto. Você nem deveria chorar, já passou... Logo mais ninguém se lembra disso, como todos os anos. Tanta coisa acontece nesse lugar e logo as pessoas esquecem. Tanta coisa mesmo... E você nem faz ideia. Na verdade, ninguém esquece, mas também não vivem por aí comentando o tempo todo.

Charles ficou calado, somente ouviu.

— Até parece que vão esquecer, eu perdi muito feio.

— Está duvidando? Dê uma semana e você verá, talvez no máximo duas. Quem vai pegar no seu pé são apenas os babacas que não gosta de ver ninguém feliz.

— E quem é você para dizer isso?

— Fui melhor amigo do ex-namorado do seu primo, o Colton. Certamente você já ouviu falar dele, todo mundo um dia ouviu e ouvirá. Colton foi responsável por quase tirar a vida do Colin e do William, inclusive a do seu primo também. Quer mais? Também sou ex-namorado da pessoa que é mais odiada que o seu primo e que nunca foi bem vindo nesse lugar. Quer informação maior que essa? Ele espancou, deixando em situação bem feia, o Danion, um dos melhores amigos do Colin.

Charles já até sabia de quem se tratava. Olhou para Edgar e não acreditou que ele, logo ele, era namorado dessa pessoa.

— Para acréscimo de informação, foi espalhado nesse lugar que ele é soropositivo, naquele dia foi a maior polêmica, mas hoje em dia tem gente que nem se lembra, ninguém mais comenta e até nem liga.

— E você me conta assim?

— Isso não é mais um problema e nem segredo. Quer mais? Todos os meus amigos descobriram que eu tinha algo com ele e eu precisei dar a cara a tapa e contar a verdade. Não foi fácil, mas hoje em dia também não tenho problemas com isso, meus amigos aceitam.

— Mas agora é seu ex.

— Infelizmente, por decisão minha. Mas nesse caso a história já é muito particular, não posso te contar.

— Eu não pedi para saber. — resmungão, Charles falou. — Eu nem sou seu amigo.

— Mas você viu? Parece que tudo aquilo que é considerado o que não presta acaba me atraindo.

— Está dizendo que não presto? — Charles o encarou.

— De jeito nenhum, mas você se considera odiado por ser um tigre, acreditando que ninguém se aproxima de você por isso.

Charles somente fechou a cara, suspirou e o ignorou, dando de ombros.

— Posso comentar algo?

— Você não vai calar a boca mesmo.

— Eu sei de você e do garoto dos leões.

Tal como a menina do exorcista, Charles virou o pescoço para Edgar.

— Eu os vi aos beijos um dia desses.

— Não pode ser.

— Como não pode ser?

— Não sendo, obviamente não era eu. Eu odeio todos os leoninos e não gosto de garotos, eu sou hétero. — nervoso, Charles tentou se explicar.

— Olha, o que vi foi algo bem quente... Se não era você, era alguém muito parecido. Vou perguntar a alguém da minha república se existe aqui na Quadra alguém parecido com você...

— Calado! — Charles tapou a boca dele. — Não ouse fazer isso ou eu juro que mato você.

Edgar levantou as duas mãos para o alto, sinalizando de que não precisava daquilo tudo. Charles então livrou seus lábios.

— Era só um teste pra saber se você confessava. Mas tudo o que eu vi foi só um beijo, recuei no mesmo instante em que presenciei.

— Você viu somente um beijo. — questionou meio duvidoso, preferindo ficar calado para não levar mais suspeitas.

— Sim. Eu tinha saído pra pegar um vento, mas quando vi achei melhor voltar. Foi bem no dia em que terminei meu namoro.

— Então é por isso que você tá aqui falando comigo? Não foi nem para tentar se aproximar de mim, mas sim para contar o que viu?

— Abaixa um pouco esses muros, eu tô tentando ser legal com você. Eu não contei para ninguém o que eu vi.

Charles bufou.

— Eu não gosto de espalhar segredo dos outros, então você não precisa ficar com essa paranoia toda. Eu poderia já ter contado para alguém se quisesse, não acha?

— Se contar você vai estar morto.

— Eu não diria isso perto do meu ex... Para o seu bem físico.

— Não importa, não tenho medo de ninguém.

— Já eu sou medroso, mas acho que disfarço muito bem. Uma vez que se enfrenta o Joshua, acho que não é possível ter medo de mais nada.

— Acha que eu sou fraco?

— Não sei, prefiro não dizer nada. Não gosto muito de violência, mesmo sendo impossível isso não existir aqui. Todo dia tem alguém apanhando ou batendo.

— Você não deveria estar sendo legal comigo.

— Ah, não tem problema. Eu só quero fazer novas amizades.

Charles bufou novamente, preferiu não dizer nada.

— Parece que veremos o dia clarear, hein. — disse o loiro. — Não estou com um pingo de sono.

— Tô quase saindo daqui para caminhar por aí.

— Contanto que esteja sem celular, acho mais seguro. Eu iria com você. Conheço um lugar que vende umas comidinhas bem gostosas e fica aberto durante a madrugada. Não é tão longe daqui, quer ir?

— Pra que essa intimidade toda?

— Ah, para, vamos. Não está com fome? Eu tenho pouco dinheiro, mas acho que dá pra alguma coisa.

Charles só o encarou. Como Edgar podia estar fazendo aquilo com ele? Ele se sentia estranhamente bem, não se sentia ameaçado e nem pressionado.

— Vamos? Sim ou bora?

— Tá ok, vamos. Mas só porque tô cansado de comer o que tem aqui.

— Aproveitamos para nos conhecer mais um pouco. Aposto que posso te contar tudo o que sei da quadra antes da sua chegada aqui. Há muitas histórias, bastante! — Edgar ficou de pé.

Charles ainda não conseguia compreender, mas realmente seria melhor sair, mesmo que de madrugada, do que ficar ali remoendo suas mágoas. Edgar parecia ser um bom colega, ainda não confiava nele e nem cogitava uma amizade, mas pelo menos daria uma chance para conversa.

— Vou guardar meu celular e já volto. — disse ele entrando na república.

Edgar apenas se espreguiçou e aguardou. Charles não demorou muito e logo os dois estavam caminhando naquela rua escura, com pouca iluminação, sem medo algum de ser feliz.

[...]

Caine tinha médico pela manhã, por isso seu namorado o acompanhou para até mesmo entrar no consultório com ele. Depois de não se sentir bem na madrugada da noite anterior, na manhã seguinte o branquelo rapidamente marcou uma consulta.

Segundo o médico, não parecia ser nada grave, mas acabou passando alguns exames para que fossem feitos.

Por Caine, o líder dos águias estaria na sua república, mas quando se tem um namorado como o Danion essa opção era inviável. O branquelo disse que não queria perder mais uma noite de sono tendo que cuidar dele, para isso iriam ao médico assim que o sol aparecesse.

— Eu disse que não era nada. — falou o menor.

— Mas e se fosse algo grave?

— Eu devo ter comido algo que me fez mal.

— E não me deixou dormir. Já percebeu que eu não levo jeito para cuidar de doente.

— Claro que leva. — sorriu ao perceber que Danion somente tentava disfarçar, mas lembrava-se de toda a preocupação que ele tivera. Sendo capaz de ligar para o William de madrugada para pedir auxílio.

Os dois estavam efetuando o pagamento da consulta. Danion logo retirou o cartão do bolso e o entregou para a atendente que o recebeu com um sorriso no rosto, mostrando uma simpatia forçada.

— A senha, senhor. — pediu ela entregando-se a maquineta.

Danion digitou a senha.

— Está com fome? — perguntou ele ao namorado.

— Sim.

— Vamos numa lanchonete aqui por perto.

— Cartão negado, senhor. — a voz da mulher interrompeu o diálogo.

— O quê?! — Danion, que segundos atrás olhava para o namorado, gritou, despertando a atenção de todos os presentes naquele espaço.

— O cartão foi negado.

— Devo ter errado a senha.

A mulher entregou-lhe novamente a maquineta e ele digitou a senha mais lentamente para verificar se tinha errado algum dígito.

— Cartão negado.

— Não pode ser. Tem alguma coisa errada nessa maquineta. — falou grosseiramente. — Tente esse. — entregou um novo cartão dourado.

— A senha, por favor.

Ele digitou a senha.

— Cartão negado.

— Que porra é essa? — ele perguntou a mulher como se ela tivesse culpa naquilo.

— Não sei, senhor. Aqui está mostrando que o cartão foi negado.

— Troca essa merda de maquineta. Isso não tá certo.

Naquela atual situação, todo mundo estava com os olhos vidrados no que acontecia. Quem não gosta de ver situações parecidas com essa onde alguém se submete ao constrangimento?

Caine já estava começando a ficar vermelho pela exposição.

— É melhor passar no meu, Dan.

— Não. Ela vai trocar de maquineta. Vamos, anda!

A mulher gentilmente obedeceu e pegou uma nova maquineta, mas não adiantou nada. Danion passou os dois cartões e até mesmo um novo, a mensagem se repetia em todos eles.

— Caralho! Vocês não tem uma maquineta que presta?

— Por favor, passe nesse aqui. — Caine foi obrigado a interromper, entregando seu cartão à mulher.

Obediente, a mulher inseriu o cartão na maquineta e logo entregou para Caine digitar a senha.

— Pagamento efetuado, senhor. — disse ela. — Deseja marcar o retorno ainda hoje?

— Farei isso por telefone. Agora eu preciso ir.

Caine recolheu seu cartão, pegou Danion pelo braço e o arrastou para fora do lugar.

— Isso não pode estar acontecendo. — falou o branquelo quase lançando o capacete no chão. Ele andou de um lado para o outro enquanto alisava o cabelo.

— Calma, Dan. Calma...

— Como calma, Caine? Você viu o que acabou de acontecer.

— Talvez... Talvez seja realmente problema da maquineta. — tentou ele ainda confortar o namorado.

— Uma porra! — gritou.

Caine olhou ao redor, ficou assustado.

— Vamos para casa. — pediu o pequeno, guiando o namorado até onde se encontrava a moto.

— Eles cancelaram todos os meus cartões, eu tenho certeza.

— Converse com eles...

— Conversar? Você quer que eu simplesmente converse com eles?

— Sim. Quem sabe você resolva esse problema.

— Para um minuto de ser positivo!

— Você tá ficando muito alterado. Vamos pra casa, lá é melhor de conversar.

Danion subiu na moto e pôs o capacete, Caine fez a mesma coisa e o abraçou fortemente pela cintura, tentando de alguma forma confortá-lo.

Se Danion já dirigia perigosamente, naquele momento as coisas duplicaram em adrenalina. Caine até pediu para ele ir mais devagar, mas o vento parecia levar sua voz e assim impedir do branquelo o escutar.

Danion até desrespeitou alguns sinais e por pouco não causou um acidente em que até mesmo ele poderia sair como vítima fatal, levando seu namorado junto para o céu... ou inferno.

Ao chegar na república, Caine não desceu da moto. Ambos ficaram por alguns minutos sentados nela, sendo que Danion não abria a boca para dizer uma palavra, no entanto Caine podia ver as duas mãos dele pressionando o acelerador, certamente ele queria descontar sua raiva em algo.

— Vamos entrar.

Caine desceu da moto, retirou o capacete e caminhou até a porta de sua república, mas bastou apenas virar para trás que tudo o que ele viu foi seu namorado ligar a moto cantando pneu e simplesmente sumir rapidamente por conta da velocidade.

Algumas pessoas até saíram de suas repúblicas com o enorme barulho que a moto fez, imaginando ter sido algum acidente ou uma corrida clandestina.

Caine ficou sem palavras e até atordoado. Seu namorado simplesmente foi embora, para onde ele não sabe, e sem ele.

— Caine, o que foi isso?

O seu melhor amigo, Colin, aproximou-se dele com curiosidade, mas ao perceber o rosto entristecido e ao mesmo tempo perplexo de Caine, rapidamente questionou:

— Qual foi a merda que o Danion fez agora?

— O que houve aqui? — Edgar também saiu de sua república.

Lá estavam os três melhores amigos reunidos.

— Os pais dele começaram a atacar...

— Atacar?

— Se lembra daquela história que eu contei sobre a mãe dele para vocês?

— Sim. — Colin respondeu.

Edgar apenas balançou a cabeça em confirmação.

— Então... Danion foi passar o cartão numa consulta médica que eu fiz e descobriu que todos eles foram cancelados.

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— Que merda...

— Mas tem algo que me preocupa mais ainda.

— Você não precisa se preocupar. Conhecemos o Danion, se ele ficasse na república iria quebrar tudo aí dentro. É melhor ele esfriar a cabeça por aí.

— Não é isso, Colin. Tem uma coisa que eu acho que você não sabe.

— Você tá me preocupando, Caine. O que é que tá acontecendo?

Caine ficou calado e engoliu em seco.

— Olha, eu acho que ela não fez isso para atacar o Danion...

— Mas para te atacar. — Edgar completou. — Talvez tudo que ela quer é somente te forçar a vender o terreno e assim vai começar a tirar tudo do namorado.

Caine encheu os olhos de lágrimas, sensível como era, não resistiu.

— Mas ainda assim isso não me preocupa tanto...

— Tem algo que você quer nos contar, mas não consegue. — Colin disse. — Caine, somos seus melhores amigos.

Foi então que Caine pegou o celular, abriu a caixa de mensagens e mostrou aos dois:

“Eu vou tirar tudo dele, inclusive você.”

— Por favor, não digam nada ao Danion. A mãe dele vem me ameaçando por mensagens já tem uns dias.

— Não basta a mãe do Sean, agora essa? Que inferno!

— Colin, você ainda não entendeu?

Edgar olhou para os dois, imaginava do que se tratava, mas não arriscou dizer.

— O quê? Fala, Caine. Essa cara tá me assustando.

Caine engoliu em seco e olhou bem nos olhos do amigo dizendo:

— Sua república, Colin. Ela não está no nome do Danion...

Colin, por pouco, não caiu no chão com o tiro que recebeu. Seus lábios ficaram entreabertos e tudo o que fez foi olhar para a sua república.

Sem lar novamente?

Notas finais
É isso. Gostaram? Bem, no próximo capítulo uma bomba vai estourar na mão de alguém. Vocês certamente sentirão o impacto. Amo vocês! ♥ Grupo no facebook: https://www.facebook.com/groups/1162058693824219/ Trailer de RDT: https://www.youtube.com/watch?v=yQFJQN4JbNs