Notas iniciais
Tranque a porta. [Capítulo final da primeira parte da fic]

Melissa entrou na república.

— Brandon! — Charles, que a havia recebido, gritou pelo primo. — Você pode aguardar aqui? Eu vou precisar sair agora.

A garota sorriu e fez um movimento de cabeça, afirmando estar tudo bem.

Charles se retirou da sala ao sair da república.

Brandon olhou pra o primo, ficou de pé, tomou coragem e foi até a loira que o aguardava na sala com um sorriso no rosto. O loiro forçou um sorriso entre lábios, mas estava nítido seu desconforto em estar diante dela. Melissa, a princípio, por conhecê-lo tão bem, sabia que algo estava errado.

— Podemos conversar lá em cima? — pediu o loiro.

Ela concordou e juntos subiram.

Brandon abriu a porta do seu quarto para a garota e Melissa entrou.

— Aconteceu alguma coisa, Brandon? — ela questionou virando-se para ele.

Brandon ainda estava do lado de fora do quarto, ele abaixou a cabeça, entrou e respirou fundo.

Por minutos um silêncio incômodo se instalou no quarto. O loiro começou a suar, sentiu seu coração acelerar e a coragem antes sentida, parecia se esvairia aos poucos. Brandon não conseguia sequer olhar pra ela por muito tempo, a paciência da garota estava matando-o, pois Melissa o encarava, preocupada, como se estivesse lendo seus pensamentos.

— Eu vou me preocupar, não é?

— Sou o pior tipo de pessoa pra você.

— Eu não estou entendendo.

— Há um tempo eu achei que... — ele travou. Brandon saiu do seu lugar, caminhou até sua cama, mas rapidamente retornou ao lugar que estava, com coragem, soltou de uma única vez. — Eu traí você.

Não tinha a necessidade de sair criando justificativas a respeito da traição. Brandon ter soltado a verdade daquela maneira foi o melhor a ser feito.

Melissa, nos primeiros segundos não acreditou. Ela até cogitou em sorrir e pensar que aquilo era brincadeira, mas ver os olhos do garoto a sua frente brilhar pelas lágrimas que acumulavam, acabou deixando-a apreensiva, um misto de sentimentos ruins tomava-lhe conta aos poucos.

— Não há nada que eu possa dizer pra justificar a traição. E-eu...

— Você sempre foi engraçado. É mentira, não é? — ela mesmo tentou acreditar nas próprias palavras. Melissa precisou forçar um sorriso.

Mas Brandon, decidido a não recuar, negou com a cabeça.

— Foi com um garoto. O Kai.

— Brandon? — Melissa, mais surpresa ainda, deixou a primeira lágrima cair. — Q-que está acontecendo aqui?

— Eu não posso mais mentir, Melissa! Eu não posso mais enganar você, eu não posso mais enganar a mim mesmo.

— Por favor, diz que isso é brincadeira sua.

Ele novamente negou.

— Eu juro que queria que fosse... — os olhos banharam-se nas próprias lágrimas.

— Você me traiu com o garoto que tanto dei conselhos pela amizade de vocês?

— Ele não tem culpa de nada. O que aconteceu... Aconteceu sem que ele soubesse que nós namorávamos. Eu menti. Menti pra vocês dois.

Ainda demorando pra digerir a informação, Melissa abaixou a cabeça e alguns fios loiros grudaram em sua face molhada. Ela caminhou pelo quarto sentindo o coração apertar. Brandon não negava em nenhuma das hipóteses que aquilo não se passava de uma brincadeira.

Por mais simpática que Melissa fosse e parecesse sempre estar feliz, somente Brandon conseguia vê-la em situações parecidas com aquela. Ele sentiu vontade de abraçá-la, mas seria estupidez da sua parte fazer isso.

— Você está realmente admitindo que nunca havia contado pra ninguém que namorávamos?

— Não. Não até você aparecer na Quadra.

Ela olhou pro teto, tocou o nariz, as lágrimas não paravam de descer.

— Quando eu conheci o Kai, eu não sei... Eu não sei o que aconteceu comigo. Eu só senti algo nascer em mim, não sei explicar. Melissa, eu juro pra você que por muito tempo eu tentei evitar que coisas daquele tipo acontecessem...

— Brandon, nós nunca mentimos um pro outro. — ela falou chorosa. — Eu nunca menti pra você em todos esses anos de amizade e namoro.

— Eu sei que não...

— Então por que fazer isso comigo?!

Ele não soube responder. Brando abaixou sua cabeça.

— Eu sempre esperei o melhor de você, Brandon. Sempre! E agora você me conta que me traiu com aquele garoto?

— Você sempre se perguntou tentou ajudar nós dois. Kai realmente não tem culpa de nada. A verdade é que ele me tratava daquela forma porque eu a traí. Ele nunca me perdoou pelo que fiz a ele e o que fiz a você. Eu sou o único culpado por tudo! Eu menti pra os dois.

Melissa agora abaixou seu rosto, ela não parava de chorar um segundo sequer.

— O que aconteceu com você?

Ele não conseguiu responder.

— Brandon...

Algumas pessoas conseguem falar sem parar em situações como aquele. Mas com Melissa, isso era diferente, faltava-lhe palavras diante tanta decepção. A garota chegou a soluçar por tanto que chorava.

— Eu sei, Melissa, eu sei que sou merecedor do seu ódio. Ainda mais por ser tratar de um garoto.

— Não é por ser um garoto! — ela gritou e o olhou nos olhos.

Melissa enxugou o nariz.

Brandon, assustado, a olhou.

— Eu não me importo se você é gay, bi ou qualquer coisa. — ela soluçou. — Mas enquanto você diz que eu era a mulher da sua vida, que iríamos casar e envelhecer juntinhos, me fez acreditar em um futuro entre nós dois. Eu tô magoada pela traição.

Foi nesse instante que Brandon passou a chorar ainda mais, relembrar de tudo o que já aconteceu entre eles dois. Melissa era boa demais para ele. A garota deixava explicito que tinha um coração enorme para respeitar as pessoas. Magoá-la acabou deixando-o sem chão dentro daquele cômodo. Ela era a única vítima.

— Você poderia ter terminado comigo, ter feito qualquer coisa, mas jamais me trair, Brandon. Eu nunca te dei motivos para uma traição. É difícil manter um relacionamento a distância, mas isso nunca vai querer dizer que você deve trair. Eu te perguntava todos os dias se estava tudo bem e você sempre dizendo que sim. Me dói saber que era tudo mentira.

O tigre não conseguia dizer nada. Não tinha razão em tentar justificar algo que ele admitia estar completamente errado.

— Você tem todo o direito de espalhar isso pra quem quiser, mas por favor, me dê um tempo até eu dizer aos meus pais.

Melissa continuava a esfregar o nariz.

— Brandon, eu como sua melhor amiga, se soubesse que você era gay, naquela época, continuaria sendo sua melhor amiga até hoje. Mas você me fez te amar como namorado e melhor amigo.

Ele tentou enxugar os olhos, mas não adiantou.

— No fundo, você é igual a todos os Ferazzas.

O tiro.

Melissa caminhou até a porta do quarto e abriu a maçaneta.

— Melissa, espere, vamos conversar...

— Conversar? — ela questionou ao se virar. — Conversar com um mentiroso?

— Deixe-me pelo menos te levar para onde você vai.

— Como pode achar que deve se preocupar comigo depois do que fez?

Brandon levou sua mão ao rosto e fechou os olhos, quando tornou a enxergar a porta, Melissa já não estava mais lá. Ele pôs a cabeça no corredor a tempo de vê-la descendo as escadas.

O loiro, acabado, ajoelhou-se no chão e encostou sua testa ao piso. Por muitos minutos ele chorou a ponto de soluçar e fazer Sean escutar do seu quarto, mas o moreno se negou a sair do seu cômodo. Brandon precisava sofrer sozinho, pelo menos naquele momento.

Ainda de joelhos e com a face colada ao chão, o loiro puxou o celular do bolso e discou para um número que ele nunca teria esquecido. Após alguns segundos, ouviu a voz dela. A voz que mais precisava ouvir.

— Mãe... — sua voz saiu em desespero, lágrimas molharam o chão.

[...]

Dias se passaram. Dias tristes, dias felizes. Muitos passaram por momentos difíceis, outros tiveram dias alegres. Há quem tomou pau em alguma disciplina, outros que por pouco passaram, alguns que perderam amores, outros que ganharam. Há quem tenha passado noites chorando, outros sorrindo. É vida. Viver é estar apto a ser enfrentar dias de tempestades.

Finalmente havia chegado a melhor época do ano para muitos: o mês das confraternizações e muita comida. Mês das férias de inverno, do merecedor descanso, do reencontro de famílias. Algumas pessoas já até haviam entrado de férias, como no caso do Samuel, que sabendo estar aprovado nas disciplinas e tendo poucas faltas, adiou sua viajem pra Aroma. E dessa viagem ele precisava, afinal, esquecer o problema — que recebia o nome de Luke — era o que ele precisava.

Já outros ainda iam viajar nos dias seguintes e uns faziam isso,exatamente agora:

— Égua! Por que eu tenho que ir?

— Já falamos sobre isso, Carter. — respondeu o Edgar.

Os dois estavam dentro do automóvel do ruivo. Carter sentado no banco de trás e Edgar ao lado do banco do motorista.

O descontentamento de Carter era pelo simples fato de não querer deixar Patrick sozinho. Patrick acabou dizendo que passaria seu natal com colegas na Quadra e o Carter, como um bobo apaixonado, mesmo sabendo que Patrick não queria nada com ele, preferia ficar ali. Fora que ele também estava bem animado com o fato de viver na cidade grande e toda aquela rotina agitada.

— Tio Toby vai encher meu saco com aquelas piadas infelizes dele.

Edgar sorriu.

— Estou ansioso pra isso.

— Égua, primo!

Tanto Edgar, quanto Carter estavam livres das aulas. Passaram sem maiores preocupações. Joshua já havia colado grau, mas ainda havia mais estudos pela frente em sua especialização. Sua foto com beca e capelo tornou-se um enorme quadro na sala da casa de seus pais. Foi uma cerimônia tranquila, no entanto, o ruivo evitou a festa organizada pelos alunos. Aliás, o ruivo comemorou com o namorado e família em um jantar em que até mesmo Carter participou.

Edgar não perdeu a chance em presenteá-lo com um cordão dourado e fino que, inclusive, ele já estava usando. Fora isso, também o presentou com sexo com direito a tudo que o ruivo mais gostava.

— É, tô com saudades deles... — admitiu.

— Eu sei que está.

— Vai ser meu primeiro natal sem a vovó...

Edgar parou pra pensar. Não queria ficar triste, por isso sorriu e olhou pra trás e assim encarar o primo dizendo:

— Ela estará feliz porque iremos comemorar o natal todos juntos.

— Sinto falta dela, Edgar, todos os dias.

— Eu também sinto, mas ela mereceu descansar, Carter. E hoje não é um dia pra ficar triste. Tenho certeza que Nora ficará feliz em saber que você passou, mesmo quase tomando pau... Você precisa se esforçar mais.

— Estudar é muito chato, uai.

— Já disse que você pode me pedir ajuda e também tem o Joshua, ele é mais inteligente do que eu.

— Não parece...

— Se não fosse por ele, eu teria tirado notas baixas em algumas matérias. A propósito, ele vai se especializar pra dar aulas. Você consegue imaginá-lo fazendo isso?

— Égua! ‘Cê não acha que os alunos vão ter medo dele?

— Talvez. Acho que ele vai ser o típico professor que vai ter uma aula silenciosa sem pedir por isso. Vai ser alguém que apenas vai falar o necessário e exclusivamente sobre a aula. Joshua é realmente muito inteligente, Carter, no dia em que visitei a vovó, contei pra ela que ele me ajudava nos estudos. Ele gosta do curso que faz, disso eu tenho certeza. Só não acho que vá ser tão bem aceito no corpo docente por causa das tatuagens.

— ‘Cê tá preocupado desde agora?

— É, ele ainda vai estudar e eu já estou preocupado como vai ser a recepção dos alunos daqui uns anos. Por que eu me preocupo tanto?

— ‘Cê sempre foi assim, uai. Igualzinho a tia Nora.

Os dois pararam de conversar quando o ruivo aproximou-se do automóvel, guardou algumas coisas no porta malas e entrou no carro. Como sempre não foi de falar, ele ligou o automóvel e rapidamente saiu dali de dentro do Ninho.

— Agora que você já colou grau, eu fiquei me perguntando: você vai sair do Ninho?

O ruivo o olhou.

— Eu ainda sou estudante.

— Mas você já é graduado, isso não influencia?

— Não enquanto eu permanecer estudando.

— Mas Josh, ‘cê não é rico? Por que que ‘cê fica nesse lugar? — Carter perguntou.

— Você sabe que eu sei que você não poderia morar no Ninho, não é? — Edgar olhou pro ruivo.

— Uai, por quê? — Carter questionou.

— O Ninho é oferecido para alunos que moram distante da universidade, isso quer dizer, pessoas de outras cidades. A casa dos pais do Joshua fica em Seattle. — O ruivo olhou de relance para o Carter, Edgar rapidamente acrescentou. — Por favor, não conte nada a ninguém sobre o Joshua.

— Pra quem que eu contaria? ‘Cês não confiam em mim? Égua!

Joshua não estava surpreso com o fato de Edgar saber daquele detalhe, afinal era óbvio, já havia apresentado a casa onde morava a ele.

— Depois conversamos sobre isso. — falou o ruivo.

Sem insistir, Edgar pôs o cinto e olhou pra o Carter.

— Eu confio em você mais do que qualquer pessoa. Joshua também confia. — afirmou sem sequer questionar ao ruivo, mas falava isso pelo simples fato de não deixar o primo chateado. Joshua não confiava em ninguém, com exceção do próprio namorado, e isso, às vezes, parecia que não acontecia, pois vivia a querer protegê-lo de tudo.

Joshua não falou nada, seguiu dirigindo com os olhos na estrada.

— Tia Nora disse que dessa vez vai ser diferente de quando você esteve na fazenda. Ela disse que vai cozinhar muita coisa, até me pediu uma lista de coisas que você gosta de comer. — Edgar falou, mudando o rumo da conversa.

— Eu nunca reclamei daquele dia.

— ‘Cê seria um homem morto se reclamasse. — brincou Carter.

Edgar sorriu.

E mais uma vez Joshua veria a família tão acolhedora que recebia o sobrenome de Turner. Seria seu primeiro natal longe de seus pais, mas também o primeiro natal junto a família do namorado.

Edgar tocou-lhe o braço enquanto ele ainda estava com a mão no volante.

— As estrelas escrevem, lembre-se. — e sorriu.

— ‘Cês não vão se beijar na minha frente, né? — Carter falou, interrompendo-os.

Nem Joshua resistiu, o ruivo soltou um leve sorriso e Edgar se afastou também sorridente, mas isso foi só fingimento, ele rapidamente beijou o canto da boca do namorado.

— Égua! — gritou o garoto dentro do automóvel.

[...]

Andrew gemia baixinho enquanto fumava. A porta do seu quarto estava trancada, mas ele sempre mantinha os olhos atentos nela. O oral que recebia era tão prazeroso que por vezes ele manteve-se no controle para não acabar ejaculando.

Pietro afastou sua boca do membro dele e começou a masturbá-lo. Em três minutos de masturbação, Andrew elevou seus gemidos e pôs pra fora o que havia produzido.

Em silêncio, Pietro se levantou e enxugou a boca. Sozinho abriu a porta do quarto, foi ao banheiro, lavou seu rosto e voltou segundos depois com Andrew terminando de fechar o zíper da calça.

Odiava sentir o que sentia por ele.

— Tem praticado nos leões? — brincou o líder daquele bloco.

Uma brincadeira de péssimo gosto, por sinal. Pietro imediatamente mostrou seu desagrado numa expressão que deixou seu olhar sério.

— Vou indo embora. — disse.

— Amanhã eu estarei sozinho a tarde. Poderemos transar...

— Não poderei.

— Por que não?

— Por que não quero.

— Eu preciso comer você. Se eu não estivesse com pressa, faria isso agora mesmo.

— Vai se foder, Andrew. — falou e recolheu uma bolsa em cima da cama.

— Amanhã, às 14 horas. Esteja aqui e ponto final. Se não vier, quem sabe espalharei o que você anda fazendo com a boca por aí. “Ele me chupou enquanto eu estava dormindo” — simulou e começou a rir da própria brincadeira.

— Eu juro que mato você!

— Estou só brincando, oras. Você sempre gostou das minhas brincadeiras.

— Vai se foder. — enfatizou.

Pietro saiu do quarto em passos leves e apressados. Rapidamente se viu longe do Ninho e já estava atravessando a avenida, passando pela lanchonete e finalmente chegando à Quadra.

O leonino cuspiu umas três vezes enquanto caminhava. Era tão submisso ao Andrew e suas vontades simplesmente porque amava aquele contato sexual que tinha com quem se dizia hétero para os quatro cantos do Ninho. Até hoje não conseguiu entender como foi capaz de se apaixonar por ele. Era pra ser simplesmente amizade, mas aconteceu que ambos se envolveram numa noite e desde lá essas pegações começaram a acontecer e Pietro se apaixonou. Sua carência.

Pietro chegou à sua república e quando entrou encontrou apenas Marcus na sala, os demais estavam conversando na cozinha enquanto comiam. Passar por todos eles sempre era um desagrado, já que o silêncio e os olhares criavam um péssimo clima. O primeiro a se calar foi Julius, em seguida Hugh e Calvin se silenciaram. Patrick até tentou prosseguir com o assunto falando sozinho.

Pietro não olhou pra ninguém e seguiu seu rumo para o quarto.

— Como ele ainda é membro dos leões se às vezes nem dorme aqui? — Julius perguntou.

— Danion também não dorme aqui e é dono da república. — Hugh respondeu.

— Não adianta, Julius, Hugh sempre vai defendê-lo. — Calvin falou.

— Por que vocês não se preocupam com a vida de vocês e deixam ele em paz?

— O que tá acontecendo com você? — Patrick, exasperado, questionou. — Desde quando você começou a agir grosseiramente com as pessoas? Agora a pouco você estava tranquilo conversando conosco, mas toda vez que esse garoto passa ou é citado, você simplesmente muda o comportamento.

— Desculpe. — logo não prosseguiu com a discussão. — Já faz meses em que Pietro está na república e vocês ainda insistem em criticá-lo. Ele não mexe com ninguém.

— Só o fato de ele pertencer aquele grupo do Ninho já é o suficiente para receber críticas. — Patrick falou.

— Tá ok, Patrick, eu não vou discutir com você. É melhor eu ir lá conversar com ele.

Hugh sabia que iria começar a murmurar sobre o ocorrido, por isso até começou a assoviar e assim não tentar ouvir o que falariam. Quando entrou no quarto, ficou surpreso ao encontrar Pietro chorando.

O garoto rapidamente se levantou da cama com um salto e enxugou o rosto. Preocupado, Hugh começou a fechar a porta, mas antes observou se alguém estava vindo procurá-lo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada. — respondeu e continuou a enxugar o rosto.

— Sério mesmo? Não quer falar sobre isso?

— Já disse que não me aconteceu nada, Hugh.

Hugh.

Pelo seu nome ele foi chamado.

Surpreso, Hugh não disse nada, mas sentiu uma ponta de felicidade quando ouviu seu nome ser pronunciado pelo garoto de forma que não o ofendesse.

— Já sabe onde vai passar o Natal?

— Aqui.

— Não vai passar com sua família?

— Não tenho família.

Hugh sabia que ele tinha família, mas compreendeu o que foi dito por isso não se aprofundou no assunto.

— Acho que só o Patrick vai ficar na república.

— Ele no quarto dele e eu no meu. Assim não terei que olhar pra cara dele.

— Não quer ir comigo?

— Pra onde?

— Minha família não veria problema em ter um amigo meu em minha casa.

— Eu não sou seu amigo. — curto e grosso, falou ao arrumar seu colchão. Iria dormir, mesmo não sendo noite.

— Um colega. — corrigiu. — Pelo menos você não teria que ficar aqui sozinho.

— Prefiro ficar aqui.

— Certo, não irei insistir.

O assunto se encerrou ali, Hugh até tentou ficar mais alguns minutos no quarto, mas Pietro se lançou sobre o colchão, se cobriu até a metade do corpo, pôs a cabeça sobre o travesseiro e fechou seus olhos.

Hugh saiu do quarto o deixando sozinho.

[...]

— Eu só não a humilhei porque o Sean não deixou. — disse Colin sentado na cama do namorado falando ao aparelho celular.

A noite finalmente tenha chegado.

O pequeno bem vestido, trajando calça marrom, camisa preta, sapatos escuros, estava com cabelos bem penteados e o relógio novo que havia ganhado do namorado estava em seu pulso esquerdo.

— Sério! Na hora eu fiquei chateado, mas Sean mandou a garota ir embora, na certa ele sabia que quando eu começasse a falar não ia mais parar. Você acha que eu falo muito, Will?

William Grandinni estava do outro lado da linha. O loiro, que havia deixado de estudar em Seattle, mas permanecia com seus estudos fazendo residência em outra cidade, ouvia o amigo atentamente, sorrindo com a indagação.

— Hm... — fez uma pausa. — Fala. — admitiu.

— Mas aquela garota merecia, Will! Ela criou toda uma situação pra prejudicar Sean e eu. Coitada, mal sabe que enfrentei coisa pior. Hoje ele é cadeirante.

— É difícil ter que admitir, mas o Sean fez o correto. Foi melhor mandar a garota ir embora, você poderia perder a cabeça, falar o que não deve.

— Eu não ia bater nela.

— Eu sei que não. — concordou.

— Mas o fato de eu beijar o Sean na frente dela valeu por tudo o que deixei de dizer. Você precisava ver o semblante de decepção que se formou na cara dela. — disse sorridente.

— Devo imaginar... Onde está o Sean?

— Tomando banho. Iremos jantar com o pai dele.

— Agora está tudo bem entre vocês?

— Discutimos, mas nos acertamos. — Colin não contou que rolou sexo depois. — Danion me deu uns conselhos, por incrível que pareça...

— E você seguiu? Danion é maluco! — exclamou assustado, Colin até achou que Sean seria capaz de conseguir ouvir William do outro lado da linha através do aparelho celular — Mas vai que ele está finalmente crescendo...

— Mas acho que o que o Dan disse faz sentido, deve ser paranoia minha. Além disso, não queria brigar com Sean sabendo que o Natal está logo aí. Péssimo momento pra ficar com essas coisas na cabeça. Aquela vagabunda só quer mesmo destruir meu relacionamento.

— É uma pena que não possamos passar esse natal juntos.

— Estou um pouco chateado... Brincadeira. — sorriu. — Eu entendo, Will. Você está quase casando, precisa sim passar um natal com os pais do Octavio, aliás, manda um abraço pra ele.

Colin ouviu William fazendo o que foi pedido e de longe ouviu a voz de Octavio retribuindo o abraço.

— Ele está tentando arrumar a batedeira. Já disse que podemos comprar outra, mas ele faz questão de fazer tentar essa funcionar.

— Octavio sendo Octavio desde sempre, não me surpreende ele tentar fazer isso.

William deu uma risada. Colin pôde imaginar perfeitamente aquele sorriso se formando no rosto do amigo. Deu saudades de vê-lo.

— O que você vai fazer agora que falta uma semana pra o final do semestre?

— Eu só vou estudar mais uma semana porque fui mal numa disciplina. O Caine passou em todas. Mas ok, vamos lá: Vou passar Natal aqui com o Caine e algumas pessoas da Quadra. Lá da república só ficará eu, Patrick e Danion, os demais vão pra casa dos seus parentes. Mas na virada do ano eu vou pra Aroma e você não trate de mudar de ideia. Minha mãe já está me ligando pra perguntar o que fazer pra você... Pobre Sean, ela nem tá se importando tanto com ele, tá mais preocupada com o que fazer pra você comer.

— Claro que ela deve me amar mais do que ama o Sean. Ela me ligou também pra confirmar se eu iria pra lá.

— E você vai, não é?

— Claro! Octavio e eu vamos. — respondeu animado. — Não é, Octavio?

— Sim! — Octavio precisou gritar do lugar que estava.

— Estou com muitas saudades, não vejo a hora de te ver. Sean com certeza vai ficar feliz em ver o Octavio.

— Ou talvez nem tanto, eu vou estar lá. Vou roubar a atenção da sua mãe, que por sinal é sogra dele.

— Mesmo longe vocês ainda são rivais...

— Tem coisas que não mudam. Aliás, falando em rivalidade, em especial a sua e a do Danion, diga pra ele atender aos meus telefonemas, estou tentando ligar pra ele desde hoje de manhã.

— Nós não éramos rivais, só discutíamos bastante, até hoje isso nunca mudou. Danion tá um pé no saco. Você se lembra da história do garoto chamado Pietro?

— Ele sempre foi um pé no saco, mas Danion não é uma má pessoa, só lhe faltam alguns parafusos na cabeça. Sim, me lembro. O fato dele ser o dono da república não permite, quer dizer, até permite... Temos que admitir, ele é dono da república, mas se a liderança é passada pra você, ele deveria pelo menos ter uma conversa em particular contigo, planejar as coisas e assim se decidirem em conjunto, pois o nomeado líder é você. No entanto... — fez uma pausa, aguardando Colin o xingar, mas isso não aconteceu. — Como eu disse, Danion provavelmente se vê nesse garoto e de alguma forma quer contribuir em sua formação. As pessoas crescem Colin.

— Mas parece que desde sua saída ele se tornou pior, está mais chato. Se você conhecesse esse Pietro, provavelmente concordaria comigo.

— Mas o garoto tem causado problemas ultimamente?

— Até que não... Mas todo cuidado é pouco. Às vezes rola algumas discussões entre os moradores da república por causa dele. O Hugh, o primo do Connor, sente uma empatia muito grande pelo garoto e costuma defendê-lo.

— Isso me lembra do Ian defendendo o Connor.

Sean saiu do banheiro, o que por sinal, assustou Colin que estava distraído e que quando se virou pra olhar pra trás viu o namorado muito próximo.

— Bem, eu vou desligar, ok? Amanhã eu te ligo. Ah, William, você precisa ver como aqui está bem iluminado com decorações natalinas. Nunca vi Seattle tão bonita desde que cheguei aqui. Dezembro é um mês lindo.

— Me mande fotos.

— Mandarei assim que estiver no carro. Eu te amo, ok? Espero que não esteja me trocando por nenhum outro melhor amigo.

— Impossível, Colin... Você me mataria.

— É bom que saiba disso. — sorriu.

— Abraços. Manda o Sean ir à merda.

— Ok, abraços. — e desligou. — Will mandou você ir à merda. — disse o pequeno ao guardar o celular no bolso.

Sean olhou pra o namorado, mas não deu a mínima para suas palavras. Enrolado com uma toalha na cintura, ele foi até o seu armário, abriu uma gaveta e retirou de lá uma cueca. O moreno caminhou pelo quarto até se aproximar da cama, lançou a toalha no namorado que o insultou e, com um sorriso no rosto, começou a vestir a peça de roupa.

Colin, sacana, não pôde deixar de olhar seu namorado despido.

— Foi por isso que demorou tanto? Estava aparando?

— Pra transar com você preciso cuidar dele.

Disse ao finalmente vestir a cueca. O moreno propositalmente arrumou o membro na veste.

— Se veste logo, para de brincadeira.

— Sabe que hoje eu tô querendo, não sabe?

— Quando você não quer?

Sean, cínico, deu as costas e buscou por uma calça. Ele foi muito prático ao se arrumar, não deu dez minutos já estava pronto, de pé, penteando os cabelos com os próprios dedos que já estavam grandes, caindo em sua testa, úmidos.

— Vamos.

— Finalmente. — o pequeno se levantou da cama.

Passando por Sean, Colin abriu a porta, mas foi puxado pelo moreno para ter um beijo roubado, sentindo o gosto forte do creme dental de quem acabara de tomar banho. Lambendo os lábios, Colin finalmente saiu do quarto, Sean trancou a porta assim que pôs os pés pra fora do cômodo.

Juntos eles desceram as escadas, Brandon estava sozinho, no sofá, vagando em canais da TV. Cabisbaixo, o loiro olhou pro casal e forçou um sorriso muxoxo.

— Me espera lá fora. — Sean disse ao pequeno.

Sem nada a dizer, Colin saiu da república dos tigres.

Sean, objetivo, disse ao primo:

— Você fez o que era correto. Já faz duas semanas desde que aquilo aconteceu, ninguém da nossa família se manifestou, eles ainda não sabem.

— Mas do que adiantou? Eu continuo aqui sozinho. Não vou atrás do Kai, não mais. Ele agora está com outro. Eu não quero mais passar por humilhação, Sean.

Sean o olhou, compadecendo-se da tristeza do primo.

— Disse pra meus pais que vou ficar aqui estudando nessas férias. Têm umas disciplinas disponíveis pra estudar online. Vocês todos vão sair, ficarei aqui na república sozinho, vai ser melhor, não estou com cara pra enfrentar meus pais caso perguntem da Melissa. O Charles já está viajando, eu deveria ter ido com ele, mas não tinha ânimo algum para isso.

— Irei te levar pra Aroma comigo.

— Eu não quero ir, vou preferir ficar aqui nessas férias de inverno. É bom que eu tenha um tempo só pra mim.

Sean não era de insistir.

— Não deixe o Colin esperando, vá logo. — disse ao voltar sua atenção pra TV.

Sean também não disse mais nada, ele retirou as chaves do carro do bolso e saiu de sua república.

Colin já aguardava próximo ao carro, o moreno apenas destravou o automóvel, deu a volta e entrou. O leonino entrou logo em seguida.

— Sabe onde o Kai mora?

— Sei. Por quê?

— Só me passe o endereço.

— Por mais que você me diga que eu não devo me meter em problemas da sua república, eu fico realmente curioso pra saber o que está acontecendo. Algum problema entre ele e o Brandon?

— Só me diz onde o Kai mora, Colin.

— Vai se foder. — o insultou pondo o cinto.

Colin finalmente deu-lhe o endereço e Sean rapidamente deu partida. No caminho, Colin quase fez Sean perder a paciência quando pedia pra ele ir devagar e, às vezes, parar apenas pra tirar algumas fotos e enviar pra o William por mensagem. O moreno não parava de insultá-lo, mas também não deixava de obedecer, especialmente porque sabia que pra transar com Colin seria melhor fazer as vontades dele naquela ocasião. Não demorou muito para chegar ao apartamento onde o mexicano morava. Aliás, Sean não conseguia imaginá-lo morando naquele lugar tão maltratado. Também se questionou como no passado Santiago foi capaz de morar naquele mesmo lugar que era tão incompatível com eles, dois tigres que saíram da luxuosa república para ir morar naquele local.

— Me espera aqui.

Colin nada disse, respirando aborrecidamente, encostou-se no banco, fechou os olhos e bocejou. Puxou o celular do bolso e voltou a trocar mensagens com William.

Sean saiu do carro.

Não havia elevador. Subir as escadas o fez julgar o lugar por completo, críticas que eram negativas e sem fim. Ao chegar no apartamento de número indicado pelo namorado, o moreno bateu e aguardou.

Quando Kai abriu a porta, se assustou com o moreno.

— Você aqui? — questionou com desprezo, quase o olhando de relance.

— Você deu seu endereço pra os leoninos, burrice sua. É obvio que eu o acharia.

— O que você quer?

— É assim que você fala com quem lhe cedeu moradia por um bom tempo? — a autoridade que ele costumava jamais era perdida, mesmo com quem nem mesmo era mais membro de sua república.

— Você sempre me desejou fora dali.

— Todos aqueles que vão contra mim são expulsos de imediato, você até durou... E sabemos que você durou exatamente por causa do Brandon.

Kai não conseguiu respondê-lo.

— É por ele que estou aqui. Você deve vê-lo.

— Não. — Kai estava fechando a porta, prestes a deixá-lo ali sozinho.

— Brandon já pagou pelo que fez, na verdade, só pagou uma pequena parcela dos seus erros. O pior virá depois.

Kai parou o que estava fazendo e, mais uma vez, abriu a porta.

— Não compreendo o que está falando. — perguntou confuso.

— O Brandon te ama, Kai, e você sabe disso. Brandon não teria terminado com a Melissa se não fosse por você. Ele contou toda a verdade pra ela.

Kai sentiu como se o chão abaixo dos seus pés se abrisse. Os olhos aumentaram com a informação recebida. Sem conseguir dizer nada, o mexicano engoliu em seco, olhou pro chão ainda surpreso.

— Eu não tenho pena do que o Brandon passou até aqui, mas tenho pena do que ele passará depois. Você, melhor do que eu, sabe que o Brandon é fraco, psicologicamente falando, acha que ele vai conseguir passar sozinho pela pressão que eu passei quando toda a verdade sobre mim chegou à minha família? Se não fosse o Colin comigo, talvez eu não conseguiria enfrentar tudo o que enfrentei. — admitiu o moreno longe do namorado. — Brandon é o mais fraco dos Ferazzas, você precisa estar com ele.

— Me pede pra que fique com ele por pressão? Por pena?

— Se assim você preferir interpretar... Eu não vou ficar aqui como um babaca enquanto você faz seu show ridículo na minha frente. Se você o quer, esse é o seu momento de finalmente ouvir tudo o que ele tem pra dizer.

— Estou começando a gostar de alguém, Sean.

— Está tentando começar a gostar de alguém. — o corrigiu. — Ninguém esquece o outro assim, do dia pra noite, da noite pro dia. Prefere mentir pra esse alguém e fazer o mesmo que o Brandon?

— Não me compare a ele! — levou como uma ofensa.

Sean manteve-se firme na suas palavras.

— Irei compará-lo sim. — Sean falava sem temê-lo, tranquilamente. — Você certamente não seria estúpido em fingir não conhecê-lo, mas negar o sentimento te igualaria a ele. Não te tiro o direito de viver da maneira que quer, mas se prefere ficar com remorso durante toda a vida, sabendo que tem oportunidade de ter o Brandon agora, é escolha sua.

— Falar assim é tão fácil, mas se estivesse em meu lugar saberia que é difícil.

— E você acha que está sendo fácil pra ele? Você é burro ou está se fazendo, Kai? Eu já disse que Brandon mereceu tudo o que passou, mas até aí ele é merecedor dessa dor. No entanto, o que vem depois ele não merece. Aliás, nenhuma pessoa merece ser condenada por seus sentimentos.

— E pra vocês é assim tão fácil? Ele terminou com a Melissa e eu vou lá pra substituir ela?

— E quem disse que você a substituiria? Não há quem ocupe o lugar dela. Não pense que você é o máximo. — era como se estivesse dando um soco no estômago do mexicano.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Eu sei que não, mas eu precisava dizer isso, assim você nunca mais tenta fechar a porta na minha cara. Essa é a chance, Kai. Esse é o momento. De uma coisa eu tenho certeza: ele já chegou ao limite em relação às pessoas. Se você não for atrás dele agora, não espere que ele vá até você. Ele aceitou a ideia de que você resolveu seguir.

— Que garantia eu tenho de que ele...

— Olha, vai se foder, essa porra de drama não dá certo comigo. Se você quiser ir, vai, se não quiser, morra nessa porra de apartamento podre. Seu orgulho está o deixando cego, assim negando-se a enxergar aquilo que está bem a sua frente.

Sean deu as costas sem se despedir.

Kai ainda ficou com a porta aberta, olhando-o descer a escada até que ele desaparecesse e pudesse apenas escutar seus passos pisando em degrau por degrau. As palavras duras, e ainda mais, proferidas por alguém tão prepotente quanto o líder dos tigres, martelavam em sua mente, corpo e alma.

Sean retornou ao carro, entrou no automóvel e sem dizer nada o ligou.

— Resolveu seu problema?

— Me segurei pra não dar uns socos nele. — confessou.

Colin revirou os olhos e tornou a mexer no celular.

O moreno deu partida e seguiu pra o restaurante.

[...]

Caine estava terminando de lavar a louça que havia sujado. Já havia jantado duas horas antes, mas sentiu vontade de comer o doce de frutas vermelhas que ele mesmo havia feito pra o namorado durante a tarde.

Enxugando as mãos, Caine arrumou a cadeira, apagou a luz e saiu da cozinha.

As luzes da sala já estavam apagadas, o ambiente apenas se encontrava iluminado pela luz da TV que passava um programa de esporte e Danion, deitado no sofá e enrolado no cobertor, assistia sem ânimo algum.

— Vai dormir na sala hoje? — Caine perguntou ao se sentar na poltrona paralela ao sofá.

— Só estou com preguiça de me levantar e ir pro quarto. Está fazendo frio, por que está descalço?

— Não estou com tanto frio. Acabei de comer todo o doce que eu fiz. Não tinha tanto, você comeu todo o resto?

— Sim.

— Dan! Tinha doce pra quase três dias.

— O que foi? Estava bom e eu não aguentei ficar esperando. Aliás, ia deixar pra comer o resto de madrugada, mas você acabou de dizer que comeu tudo.

— Tudo? Eu comi duas colheres e não tinha mais nada.

— Ótimo, amanhã você faz mais.

O pequeno somente suspirou e relaxou na poltrona. Danion era o que estava mostrando ser: não estava nem aí pra nada. Sempre fazendo o que queria sem qualquer precaução a ser tomada.

— Deita aqui comigo, aproveita e pega o controle da TV que está aí do seu lado.

Caine, querendo tê-lo próximo, não reclamou. Levantou-se, apanhou o controle e foi o seu encontro. Danion deu espaço no sofá, ergueu parte do cobertor e o abraçou quando ele havia se deitado. Em seguida o branquelo beijou-lhe a bochecha e o apertou tão forte que Caine precisou controlá-lo.

— Colin vai queimar a rosca hoje. — disse o branquelo.

— Você ama provocá-lo. Quando o Colin se irrita você não aguenta. A propósito, como sabe disso?

— O vi pela janela entrando no carro do Sean, provavelmente foram jantar e de lá transar.

— E como tem toda certeza disso?

— Não sei, só estou deduzindo. Colin estava um tanto calmo hoje.

— Você não muda nunca, Dan. Como foi ter saído com ele?

— Colin é menos corajoso que você quando se trata de andar comigo. Lembra de quando nós saímos de moto e eu te fiz desafiar a morte andando de moto?

— Onde eu tive que abrir os braços quando você dirigia numa velocidade absurda?

— Não estava tão rápido...

— Você quem acha. Já está acostumado a dirigir daquela forma. Foi a maior loucura da minha vida fazer aquilo. Eu era muito apaixonado por você, Dan. E muito imaturo, por sinal. Algumas pessoas ainda perguntam como fui capaz de ainda ser apaixonado por você depois de tudo que fez.

— São uns invejosos. Mas enfim, eu fiz o mesmo com o Colin. Ele não abriu os braços, ele ficou com medo e logo pediu pra parar. No final acabamos parando num restaurante da estrada e comemos juntos.

— Nem todo mundo gosta de moto. Eu já me adaptei, mas ainda assim tenho um pouco de medo.

— Eu jamais deixaria você cair da minha moto. Até parece que você não confia em mim.

Caine queria ter dito que não, mas optou pelo silêncio.

— Dan... — Caine acomodou-se no sofá, podendo olhar bem nos olhos do namorado. — Eu queria conhecer seus pais.

Foi então que Danion pareceu incomodado com a mudança drástica de assunto. Ainda mais porque ultimamente Caine falava bastante em querer conhecer os pais dele.

— Caine, por que quer tanto conhecê-los? Eu já falei que é melhor não.

— Mas você conheceu os meus.

— E não foi nada legal. Eles não foram com a minha cara.

— É claro que foram! Caso contrário eu estava proibido de continuar te namorando.

— A culpa é do Sebastian que ficou criando aquelas mentiras. Filho da puta!

— Meus pais só ficaram assustados, mas está tudo bem. Eu conversei em particular com eles, você tem esse jeito louco, qualquer pai ou mãe pensaria duas vezes antes de deixar seu filho ou filha namorar.

— Eu comprei até flores pra sua mãe.

— Ela adorou. Meu pai que foi mais cabeça dura... Mas não importa, já passou.

Danion se lembrou do quão inconveniente foi jantar com toda a família de Caine, principalmente porque Sebastian fazia questão de falar tudo de ruim que o branquelo já havia feito. O pior disso tudo é que mesmo estando na presente dos sogros, Danion rebatia Sebastian a altura, chegando a chamá-lo de chato.

— Deixe-me conhecê-los. Você fala tão pouco deles.

— Eles não darão a mínima, acredite. Nem mesmo perguntam sobre minha vida amorosa quando apareço por lá.

— Mas eu queria conhecê-los.

— Eles são ocupados demais pra ter tempo pra isso.

— Tente.

— Caine, meus pais não são boas pessoas.

— Eles te adotaram, isso é um ato de bondade. Fora que ainda pagam sua universidade e te dão dinheiro o suficiente pra sobreviver aqui.

— Me adotaram, mas esqueceram de um bocado de coisas. Se eles sabiam que seria difícil cuidar de mim, teriam me devolvido, mas não, eu cresci com uma babá que foi mais mãe e pai do que os próprios. Tenho certeza de que eles me adotaram pra aparecerem na mídia como um ato de bondade.

— Mas eles nem são famosos.

— Mas são sempre citados como uma das pessoas mais influentes quando se trata de negócios.

— Só uma vez! Uma única e eu juro que não irei mais insistir em vê-los novamente.

— Está andando demais com o Colin. Desde quando você é insistente?

— Eu insisti no seu amor. — relembrou e sorriu.

Caine fechou os olhos e suspirou.

— Certo, darei um jeito para que você possa conhecê-los.

— Sério?

— Não me faça ter que prometer.

Caine somente sorriu e o beijou. Danion até conseguiu sentir o sabor do doce das frutas vermelhas nos lábios do namorado.

— Assim eu fico de pau duro. — falou o branquelo descaradamente.

Foi então que Caine desceu sua mão para tocar o membro do namorado que estava despertando aos poucos.

— É tão raro tê-lo fazendo esse tipo de coisa. Tudo isso é porque eu disse que você vai conhecer meus pais?

— Vamos pro quarto. — falou o pequeno após terminar de beijá-lo.

— Caine, você não me provoca...

Caine se levantou e olhou pra ele.

— Tranque a porta quando chegar lá. Estarei esperando. — disse o menor.

Sem nem antes o pequeno sair do lugar, Danion saltou do sofá completamente duro, o volume estava visível na sua bermuda que ficou pontuda. Desligando a TV, ele apenas segurou o pequeno pela cintura e logo o beijou, tomando o seu corpo em seus braços e carregando até o quarto.

Teriam seu momento de prazer.

Talvez Colin realmente estivesse dando ótimas dicas para o melhor amigo. Conquistar o namorado através daquilo que ele mais gosta.

[...]

Ele ainda tinha a chave.

Parado em frente aquela república, depois de pouco mais de dois meses, ele relembrou da sua chegada naquele lugar. Foi o Colin quem o escolheu, lembrava-se bem disso quando foi “entrevistado” pelo leonino que simpatizou com ele.

Kai abriu a porta e entrou. Ainda nervoso pôs a cabeça pra dentro e observou a sala. Encontrou a TV ligada e o loiro deitado no sofá, dormindo. Em silêncio, o mexicano fechou a porta com delicadeza e, ainda de pé, tornou a olhar para Brandon.

Tão esparramado... Característica dele. Kai lembra-se bem das vezes em que o loiro ia pra sua cama e por pouco não o derrubava, da mesma forma aconteceu quando eles transaram e, durante o sono, Kai foi acordado por duas vezes com Brandon o empurrando e também o puxando para um abraço, mesmo que dormindo.

O mexicano sentou-se no segundo degrau da escada, pois não queria acordar Brandon. Sentia-se estúpido por estar ali, ainda mais depois de tudo o que foi dito, feito e aprendido. Era como se estivesse passando um pano em todo o seu rancor. Ainda sentia tanta coisa, mas as palavras do Sean foram tão duras que o fez refletir por um bom tempo antes de decidir estar ali.

Se queria a oportunidade de conversar, por toda a verdade na mesa, seria aquele momento.

Tanto “não” deu ao loiro. O tratou com frieza, com desprezo, ainda que lhe doesse a alma, era o necessário. Brandon merecia.

Kai se distraiu ao abaixar a cabeça, pensativo, não percebendo que Brandon aos poucos caía do sofá... até finalmente isso acontecer.

Brandon caiu de leve, sem se machucar, mas assustou-se com a sensação de estar caindo de um precipício, ele por pouco não gritou, mas o agudo de sua voz estava estacionado na sua garganta, implorando pra sair.

Kai rapidamente ficou de pé. Brandon o viu.

Surpreso, o loiro, ainda sentado, o encarou num misto de fascinação e nervosismo.

— Kai. — o nome saltou da sua boca num sussurro.

— E-eu, ah, é melhor eu ir embora. — falou gaguejando.

— Não, não... por favor, fique. Eu queria conversar com você.

Kai parou na porta, respirou fundo.

— Nós realmente precisamos conversar... — reforçou o loiro.

— Eu não deveria estar aqui, eu não deveria ter ouvido o Sean.

Brandon ao ouvir o nome do seu primo, ficou curioso, mas deveria ignorar a indagação que se formava na sua cabeça, precisava ignorar todo o resto e focar em quem estava ali na sua frente.

— Por favor, não vá embora. — ele finalmente se levantou ainda insistindo. — Me escute.

O loiro caminhou até a porta, segurou na maçaneta e olhou para o mexicano. Kai abaixou sua cabeça, não podia ser facilmente atingindo pelo poder daqueles olhos azuis intensos.

— Ok, vamos subir pro meu quarto... É melhor do que...

— Não, pode ser aqui mesmo. — o interrompeu.

Brandon o olhou, pausou sua fala, não insistiu.

— Ok, aqui. — disse ao voltar pro sofá e se sentar.

Kai permaneceu de pé em seu lugar.

— Hm... Por onde eu devo começar... — falava o loiro, perdido, ainda temendo as palavras. — Eu terminei com a Melissa. — falou e contraiu os lábios, franziu a sobrancelha e encarou o mexicano, esperando dele dizer algo.

Kai não ficou surpreso ao já saber da informação, mas ainda em silêncio, aguardou o loiro prosseguir.

— Foi horrível. — contou-lhe. — Me sinto péssimo, mas...

Brandon silenciou-se, respirou fundo e olhou pro chão.

— Mas...? — Kai, curioso, falou.

— Mas estranhamente me sinto livre. Eu deveria me sentir assim? — questionou olhando-o nos olhos. — Eu contei tudo, não neguei nada. Só que eu sinto que retirei um peso das minhas costas. Melissa tem todo o direito de me insultar por aí, eu a traí, ela pode a qualquer momento contar pra meus pais, a qualquer momento eu posso até estar longe daqui, não sei o que vai me acontecer... Mas eu realmente me sinto livre.

— Liberdade. Agora você não precisa esconder mais nada.

— Foi por você.

Dessa vez Kai sentiu.

— E eu estou me sentindo mal por isso. — admitiu. — Sentimento de culpa.

— Por quê?

— Melissa não merecia nada disso. Ainda que eu considere ter sido o melhor a ter feito, ela é a vítima da história.

— É claro que não! — exasperou-se. — Você não tem culpa de nada! Você apenas me fez abrir os olhos pra tudo ao meu redor. Se não fosse por você, eu ainda estaria sustentando essa mentira, esse meu jeito torto de levar a vida. Melissa fazia eu me sentir bem, mas não a enxergava mais como alguém pra casar e ter filhos, da minha parte era mais amizade, mas eu demorei a acreditar nisso. Na verdade, era muito complicado estar na minha situação. Melissa se preocupava com você, Kai... — confessou.

— Assim eu me sinto pior ainda.

Kai tocou a testa e tornou a se sentar no degrau.

— Para com isso! Eu já disse, você não tem culpa de nada. Eu sou culpado por toda essa confusão. Se eu não... Se eu...

— Se você não tivesse mentido.

— Sim. Eu não sou uma má pessoa, Kai. Eu posso ter cometido erros, mas eu não sou alguém ruim. Você me conheceu o suficiente pra concordar comigo. Eu infelizmente, cada vez que tento consertar as coisas, pareço errar ainda mais.

— Afundou-se nas próprias mentiras. — disse o que um dia Sean já tinha dito.

— É verdade. — admitiu.

— Não tem medo do que ela pode fazer?

— Tenho. Mas sinto que o problema com ela foi resolvido. Eu vou procurá-la depois, da maneira que conversamos não consegui falar tudo o que eu queria. Da mesma maneira que eu insisti e insisto em você, com Melissa não vai ser diferente.

Kai não disse nada. Mas ele sentia pena do loiro. Melissa era uma garota legal, apesar de tudo o que ocorreu entre os três e os sentimentos do Kai com o Brandon, ele sabia que nenhuma garota merecia ser traída. Na verdade, ninguém merecia.

— Eu tô com medo de entrar nesse assunto, porque tem um problema sério em contorcer tudo aquilo que eu digo, sempre partido pra defensiva, mas eu nunca, nunca na vida tive vergonha da sua cor. Eu juro!

— Ah, Brandon...

— Kai! — exclamou arregalando os olhos — Como eu teria vergonha dela se é uma das coisas que mais gosto em você? Me diz como eu teria vergonha de você se qualquer pessoa na Quadra sempre me relacionou a você no passado? Nós éramos melhores amigos, Kai, eu fazia tudo com você, ia pra todos os lugares se possível.

— Você não entende, Brandon...

— O que aconteceu foi medo de como minha família poderia te tratar... Você não sabe como eles são. Eu agi de maneira terrível ao dizer aquelas palavras, mas foi porque eu não estava pronto pra tê-lo frente a frente com meus pais, eu de alguma forma, tentei, sei lá, te defender.

— Calar-se diante de uma situação assim é terrível, coopera ainda mais pra o racismo.

— Você tem razão! Mas se coloca no meu lugar, eu estava assustado, perdido, com medo. Quando eu te contei aquilo no quarto, você saiu correndo, sequer me deu chances de explicar o que havia acontecido. Eu juro que passei dias tentando entender o que havia dito de errado, no final, cheguei à conclusão de que tudo dito por mim sempre vai ofendê-lo.

— Não foi fácil ouvir aquilo. Eu entendi bem suas palavras, Brandon, mas no contexto, eu também te vi como se tivesse vergonha de mim. Como disse, você se calou diante do problema.

— Eu cresci em um mundo completamente diferente do seu. Eu te dou a chance de passar uma semana com meus familiares e assim você vai entender como eu me senti.

— Me recuso a isso.

— Então você sabe como eles são. Sean é prova viva do sofrimento que ele passou na minha família. Você sabe mais da história dele com o Colin do que eu que sou primo dele. Sean sempre foi fechado e conta pouco sobre sua vida, mas o Colin certamente te contou do passado deles.

Kai não conseguiu dizer nada.

— Eu ainda tenho muito medo do que pode acontecer quando Melissa contar pros meus pais. Todos os dias eu tenho medo de atender o celular achando que são eles.

Kai lembrou-se do que Sean havia dito. O pior ainda iria acontecer e Brandon precisava de alguém que pudesse suportar isso com ele.

— Tudo o que eu mais queria era ter o seu perdão.

— E como você consegue?

— O seu perdão?

— Não. Consegue estar assim depois de toda a minha frieza, meu desprezo, mas você ainda insiste.

— Por muito tempo eu me perguntava isso, mas acho que já sei a resposta.

— E qual seria?

Brandon o olhou, respirou fundo a ponto de Kai perceber seus ombros elevarem e falou:

— Eu acho que amo você. — as sobrancelhas franziram e como se estivesse dizendo que aquilo era loucura.

Por um tempo Kai não soube o que pensar, até desaprendeu a respirar naquele instante. Mas rapidamente ele pôs um riso sarcástico na cara.

— Brandon, você não...

— É, é... Bem, eu não sei como, mas eu só sinto isso. — o interrompeu. — Que outra explicação teria?

Kai abaixou a cabeça. Ele estava também confuso, por uma vida esperou ouvir aquilo, na verdade, já tinha ouvido uma vez do próprio loiro, mas na época era apenas amizade. Não sabia em que sentido o Brandon estava falando agora, por isso não soube o que falar. Era essa a esperança do Kai. As coisas aconteceram bem diferente do que ele planejava. Quando Brandon esteve em seu apartamento, ele esperou que o loiro finalmente admitisse e falasse tudo dito nessa conversa, mas precisou ter ido atrás dele, precisou abaixar os muros de rancor.

— Por favor, Kai, me deixa tentar de novo. Me deixa ser seu melhor amigo novamente. Eu sinto tanto a sua falta.

— Esse é o problema, Brandon. — Kai na mesma hora rebateu.

— Qual?

— Melhor amigo. Será que você ainda não entendeu nada? Nunca se esforçou um pouco pra perceber isso?

Brandon suspirou, depois sorriu. Ele se levantou, foi até o mexicano, o que faz Kai subir um degrau recuando.

— Não pense que é tão simples. — o alertou ao perceber as intenções do loiro.

— Por você tem tanto que complicar as coisas? Você está sempre na defensiva, não importa o que eu diga.

— É claro! Olha tudo o que aconteceu com nós dois! — elevou o tom de voz, se levantou. — Eu não consigo simplesmente achar que tudo vai se resolver facilmente depois dessa conversa, eu não quero simplesmente passar uma borracha em tudo isso. Eu preciso de tempo, você precisa de tempo.

Kai não percebeu, mas estava andando da escada até à entrada da cozinha, indo e voltando numa mesma velocidade, de cabeça baixa, falando sem respirar.

— Por que esperar?

— Por que é o que tem que ser feito! Que garantia eu tenho de que novamente coisas ruins possam acontecer com nós dois? — ele parou e olhou para o loiro. — Eu simplesmente não posso aceitar isso. Pra você é fácil. — Kai novamente voltou a andar de um lado para o outro de cabeça baixa. — Eu simplesmente te dei vários nãos, um balde de água fria, você me magoou, eu provavelmente te magoei, circunstâncias nos separaram, eu ainda sinto mágoa, eu não quero que...

Kai parou quando viu os pés descalços do loiro a sua frente, quando levantou a cabeça para continuar falando, apenas sentiu os lábios de Brandon colados aos seus. Por três segundos, Kai demorou pra raciocinar o que estava acontecendo até sentir as mãos de Brandon tocar o seu quadril, assim juntando mais seu corpo ao dele.

Diferente das duas outras vezes, em que Kai virou o rosto ou então quando não moveu seus lábios, Kai aceitou o beijo, entregando-se, abrindo passagem para a língua do outro, fechando os olhos e compartilhando o ar que saiam das narinas.

Kai até tentou se afastar, pois pensou nisso por diversas vezes, mas estava tão bom, tão necessário para apaziguar a tempestade dentro dele. Foi por isso que o mexicano acabou se desequilibrando e caindo sentado no degrau da escada, no entanto, o que poderia se tornar engraçado, acabou não sendo, pois Brandon veio por cima do moreno e passou a beijá-lo novamente.

Brandon sorriu ainda em meio aos beijos, segurou na mão do mexicano e ficou de pé.

— Viu como tudo pode ser mais fácil entre nós dois?

Ainda impactado pelo beijo, Kai sentia os lábios queimarem.

— E eu não estou sentindo um pingo de remorso. Eu gostei, Kai.

— E-eu não posso passar uma borracha em tudo o que aconteceu. — disse o moreno, tocando os lábios e fitando o chão. Às vezes ele parecia engasgar nas próprias palavras.

Kai chorou. Ele simplesmente passou pelo loiro e saiu pela porta de entrada dos tigres. Brandon gritou por seu nome, mas não correu atrás dele. Reconhecer que apressou as coisas era um bom passo a ser dado.

[...]

— E aí, gente do mundo inteiro, prontos pra mais um vídeo? Hoje não tem música, não tem jogos, hoje vai ser mais um vídeo explicando sobre minha mudança. Primeiro, preciso explicar que o canal não vai acabar, pelo contrário, eu tô cheio de ideias novas pra gravar lá em Seattle...

Ele ouviu a porta do quarto ser aberta. Assustado, guardou a câmera e se lançou no sofá, mas não deu tempo de fingir que estava dormindo.

— Você ainda tá acordado? — perguntou o namorado.

Pego no flagra, Connor não soube como se defender. Estava sem camisa, apenas usando um samba canção branco de bolinhas vermelhas. Os cabelos ainda curtos e castanhos sempre bagunçados, no mesmo corte de sempre que eram ainda mais curtos atrás e dos lados, os olhos redondos como de uma criança travessa e os lábios maravilhosos que expressavam um sorriso grande e maravilhoso.

Já de pé, vestindo pijama, estava Ian. Os cabelos pretos estavam maiores, Ian agora tinha uma franja que caia sobre sua testa, o que o deixou ainda mais nerd do que ele aparentava ser. Tinha acabado de por os óculos que escondia os belos olhos claros. O rosto de poucas expressões, os lábios pequenos estavam entreabertos enquanto ele coçava a cabeça.

— Desculpe se te acordei, é que eu estava ensaiando pra o próximo vídeo.

— Vamos pro quarto, Connor. — sem alguma animação, apenas preguiçoso, Ian disse.

— Não vou conseguir dormir.

— Pelo menos deita na cama comigo. Você deveria realmente descansar, amanhã vai ser um dia de mudança. Ainda temos algumas coisas pra arrumar.

— Ah, Ian... — resmungando, Connor se levantou do sofá. — Eu tô sem sono.

Mas Connor não insistiu muito em ficar na sala. Ele mesmo foi ao encontro do namorado e pôs o braço sobre o ombro dele. Ian quem deu o primeiro passo e Connor foi seguindo-o.

Eles estavam no apartamento que moravam juntos, quinze minutos a pé da casa dos pais de Ian.

O já considerado morador mais estudioso dos leoninos, já era bacharel em direito, no entanto fazia pós-graduação para se especializar ainda mais na sua área de atuação. Para ser Juiz, que era o que ele realmente almejava, Ian jamais pararia de estudar, não era atoa que já estavam planejando em fazer um curso de oratória em breve e assim se dar melhor com o falar em público.

Já Connor, este, diferente do namorado, não tinha mais se adaptado ao curso. No atual momento, o garoto trancou o curso de design de games que fazia.

Ao chegarem no quarto, onde pelo menos boa parte das coisas estavam encaixotadas, Ian deitou-se na cama e quando Connor repetiu a ação, apagou a luz do abajur. Ian só lembrou que estava de óculos quando se encostou ao corpo do namorado, sendo assim o entregou o objeto e o fez por na mesa.

— Não vejo a hora de voltar pra Quadra.

— É por isso que está ansioso? Mas ainda temos um tempo pela frente.

— Eu sei, mas não consigo parar de pensar. Você não me deixar ligar pra o pessoal da república e avisar isso.

— Connor, não vá na esperança de que ficaremos na república, lembre-se que todo ano tem pessoas em busca de um lugar pra morar, aposto que já tem pessoas o suficiente na república. Eu irei falar com o Colin, caso tenha algum quarto vago, iremos.

— Mas e os águias?

— Está na mesma situação dos leões.

— Nem os tigres?

— Ali jamais seríamos bem vindos. Mas eu já disse, alugaremos um apartamento caso não tenha vaga para nós.

— Mas eu quero muito voltar pra Quadra. Tenho tantos planos em gravar vídeos lá.

— Lembre-se de que você também vai pra estudar. É o segundo curso que você tranca. Já disse que pra termos uma família é preciso de que você de alguma forma tenha responsabilidades.

— Desse eu não vou desistir! Você deveria ficar muito feliz, serei ator. Não consegue me imaginar em filmes de grande sucesso? Já até preparei meu discurso pra o Oscar.

Ian sorriu. Connor sentiu o queixo dele arranhar seu peito nu.

— Artes cênicas! Espero que meus companheiros de turma sejam legais.

— Me arrependo amargamente de ter saído de lá pra faz uma especialização aqui. Se eu soubesse que o método de ensino aqui é fraco, jamais teria saído de Seattle.

— Por que você gosta tanto de estudar?

— Porque eu tenho um sonho. Não é nada fácil ser Juiz, Connor. Quero ter um bom currículo, para isso farei especialização e quantas provas for preciso.

— Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço.

— E você a mais linda. — Ian tocou a mandíbula do namorado. — Guardou todos os seus jogos?

— Sim. Aliás, comprei um jogo legal pra gravar o próximo vídeo. Acho que vai estourar de views.

— Não gosto muito da ideia de que você que você tem fãs.

— Não são tantos, raramente as pessoas me conhecem na rua.

— Connor, uma garota atrapalhou nosso jantar só pra tirar foto com você. Sem contar que boa parte do jantar foi interrompida por ela simplesmente porque ela quis conversar contigo.

— Mas isso só aconteceu uma vez, não foi?

— Duas.

Connor tinha uma boa quantidade de seguidores em suas redes sociais. Desde que se tornou youtuber, ele não parava de ficar pensando em temas pra próximos vídeos, juntou tudo o que mais gostava de fazer e criou um canal. Nesse seu canal, que propositalmente recebeu o nome de Porco Rosa (PinkPig) — há tem um vídeo onde ele explica como surgiu o nome do canal — havia vídeos dele cantando, jogando e falando de diversos assuntos, além de desafios.

Ian jamais deu esperanças, dizendo que todo mundo atualmente quer ser youtuber e nem todos conseguem ganhar lucros com isso. Ian sequer apareceu em um vídeo, mas Connor em um vídeo revelou namorar um garoto, o que acabou sendo um dos vídeos mais vistos dele, porque ele, a propósito, havia deixado escapar a informação sem querer, mas fez outro vídeo explicando e se assumindo. O garoto todos os dias recebia mensagens dos seus seguidores, algumas ofensas também estavam inclusas. Suas fotos recebiam muitas curtidas, especialmente as aparecia sem camisa. Os vídeos preferidos os seguidores eram os de desafios ou quando ele cantava.

Connor era reconhecido na rua por alguns seguidores seus, mas isso não acontecia com frequência. Ele ainda estava crescendo nessa área e a maior parte dos seus seguidores eram do atual lugar que morava.

— Quem vem nos buscar amanhã? — Connor questionou.

— Meu pai. — Ian respondeu.

— O quê?! — Connor por pouco não gritou.

— Por que você ainda tem medo dele? Meu pai não morde.

— Só não morde porque foi educado pra não fazer isso.

— Meu pai só é militar, tem aquele jeito durão, mas te aceita numa boa.

— Ele me interrogou, Ian. Eu juro que vi as algemas e o carro da polícia lá fora me esperando.

Novamente Ian sorriu.

— Seu pai olha pra mim como se estivesse dizendo: “juro que o matarei se não andar nas regras”.

— Como já disse, meu pai segue a carreira militar, ainda mais porque ele tem a cabeça dura, então as coisas tem que ser do jeito dele, então ele é um pouco rígido, no entanto, ele gosta de você.

— Eu vou no banco de trás jogando algum jogo no celular.

— Se você conversar mais com ele, talvez mudasse um pouco a imagem que tem dele.

— Você já viu como ele me olhar através do espelho retrovisor? Ian, seu pai vai me matar e vai culpar o cachorro!

— Ok, ok, vamos dormir que já tá tarde.

— Eu só espero que seja um bom natal ao lado dele.

— É o seu primeiro natal com ele. Meu pai costuma cozinhar no natal, então tome cuidado com o que vai dizer.

— Eu já posso pedir pra morrer antes?

Ian somente tocou os próprios lábios do namorado, pedindo por silêncio.

— Depois de lá, levaremos a mudança pra casa dos meus pais, não é isso?

— Sim. Só iremos celebrar o natal. Passaremos a virada de ano com seus pais e ficaremos por lá até irmos pra Quadra. Já falamos sobre isso, Connor, agora durma.

— Me da um beijo.

Preguiçoso, Ian precisou se movimento para alcançar os lábios do namorado e assim dar-lhe um beijo leve, mas Connor não satisfeito, acabou rolando e montando sobre o namorado, segurando-os pelos braços enquanto agora, beijava-lhe com vontade.

— Estou cansado demais pra transar agora. — disse.

Connor então desistiu, escorregou sobre o corpo do namorado e caiu ao lado dele.

— E se o próximo tema do meu vídeo for: o que fazer quando seu namorado está cansado demais pra fazer sexo?

— Vá dormir!

Connor soltou uma risada abafada, abraçou o namorado e aguardou o sono. Ian não demorou cinco minutos, pois aquele abraço foi tão aconchegante que ele facilmente já estava dormindo.

[...]

Precisou de duas horas conversando com Hugh para novamente estar ali. Já era quase meia noite quando ele saiu da república dos leoninos e decidir entrar na república dos tigres. Brandon já não estava mais na sala e, de alguma forma, ele torceu para que o loiro não estivesse sequer na casa. No entanto, decidido a dizer tudo o que sentia, Kai subiu degrau por degrau devagar, parou no corredor do primeiro andar, fechou os olhos, os abriu, olhou pro teto, coçou a testa e finalmente caminhou até posicionar-se em frente a porta do quarto do loiro.

Kai bateu na madeira e aguardou.

Era como se Brandon estivesse sentindo sua presença, aguardando-o retornar. E foi o que aconteceu, mais uma vez, era Kai quem tinha ido atrás do loiro. Brandon, abrindo a boca pra falar, silenciou-se quando Kai, imediatamente, entrou no quarto falando.

— Eu te odeio, Brandon Christopher Schutz Ferazza. Te odeio por tudo o que me fez passar. Pelas noites acordadas em claro conversando. Pelos dias em que dormia na minha cama. Pelos passeios juntos. Pelas piadas babacas e sem graça. Por ter feito meus pais te amarem. Pelas vezes em que me defendeu. Por todos os sorrisos proporcionados a mim. Mas eu te odeio mais ainda por todos os dias em que me fez chorar, gritar e me sentir um lixo. Por mentir no dia mais feliz da minha vida. Por ter me beijado. Por termos transado. Pelas palavras não ditas e demoradas. Eu te odeio pelo simples fato de existir e me fazer, de alguma forma, se sentir péssimo em estar aqui de pé dizendo tudo isso. Porque eu sou estúpido! Eu poderia e queria estar bem longe daqui, eu poderia simplesmente te esquecer, mas... — pausou pra finalmente recuperar o fôlego — Eu te odeio! E eu odeio amar você.

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Brandon só o encarava. Não podia dizer nada. Não podia estragar tudo justificando frase por frase dita pelo mexicano. Era o desabafo dele. Palavras que por muito tempo estavam implorando para sair daquele corpo. O loiro reconhecia que Kai descarregava toda a sua raiva, o seu sentimento em cima dele.

Kai respirava com dificuldade, como se estivesse acabado de correr. Recuperava o folego e tinha os olhos arregalados e os lábios secos.

Brandon fechou a porta, virou-se e olhou pra o Kai. Em seguida o loiro em passos lento aproximou-se do mexicano, o segurou pela nunca e o fez afogar o rosto em seu pescoço, assim, abraçando-o. Conforto.

— Shhh... — chiou. — Respire.

— Você simplesmente não pode sair beijando as pessoas assim achando que vai resolver tudo. — finalmente disse, com os braços caídos sem abraçar o loiro, mais calmo e muxoxo. Uma lágrima desceu do seu olho.

Brandon engoliu em seco.

— Eu me precipitei, desculpe.

Era como se tudo houvesse invertido. Quem agora estava necessitando do cuidado do loiro era o Kai, que naquele simples abraço sentiu seu mundo ser sustentado pelos braços do loiro.

O silêncio se instalou imediatamente, nenhum dos dois se atrevia a falar nada. Mas aquele abraço era bom, tão bom. Tão capaz de apaziguar toda a carga sentimental de ambos os garotos.

— Por quê? — perguntou o moreno, ainda abraçando-o.

— Queria saber te responder, eu juro.

— Eu sinto que estou vivendo no inferno.

— Enquanto não me perdoar se sentirá assim.

Silêncio. Minutos se passaram.

Kai afastou-se do loiro e se sentou na cama, a sua cama, ela ainda permanecia lá, intacta, como se estivesse o esperando para aquele momento. O mexicano estava de costas para ele, enxugando o seu rosto. De alguma forma se sentia melhor, mais calmo, no entanto, não conseguia encará-lo.

— Quer beber um pouco de água?

— Não precisa, eu já estou bem. — confessou, mas nada entre eles estava 100% bem.

Mais silêncio. Brandon ainda de pé, via as costas do garoto e tentava de algum modo falar algo, mas às vezes sentia que ela melhor ficarem daquela maneira. Kai estavam em seu momento, depois de tanto tempo mantendo-se duro e firme com o loiro, ele havia desmoronado.

— Eu sou tão idiota. — como se estivesse com o nariz entupido, Kai falou esfregando-o. No entanto, ele sorria ao lembrar de todo o drama ocorrido.

— Achei que iria dizer que eu sou o idiota.

— Você sempre foi. — falou ainda enxugando o nariz.

— Ah, um pouco, você sempre dizia que não suportaria dois Brandons na sua vida. — sabendo que ele sorria, mesmo que não pudesse ver seu rosto, Brandon falou.

— Na minha mente eu não esperava que as coisas fossem se resolver assim. Eu imaginei tantas coisas... Tinha tantas frases prontas pra usar, tinha até todo um cenário, eu até imaginava vendo-o de joelhos pra mim, implorando o meu perdão.

Brandon sorriu.

— Dramático.

Kai o olhou.

— Eu achava que era eu o dramático de nós dois, mas pelo visto você venceu. — brincou.

— Você achou que ia morrer com uma simples dor de barriga. — disse o ao relembrar, novamente sorriu. — E olha que você tá em formação pra médico.

— Se não fosse isso você teria saído àquela noite. Eu pelo menos consegui te segurar na república.

— Foi por isso? — Kai ainda o encarando, com os olhos úmidos, falou.

Brandon soltou um “oh” a ponto de levar as duas mãos à boca.

— Não acredito que você tenha feito isso só pra que eu não saísse.

— Eu não queria ficar sozinho.

— Eu ia pra uma festa, você não quis ir. Eu te convidei.

— Mas eu estava realmente com dor de barriga.

— Mas não precisava de todo aquele drama.

— Eu só precisei usar todos os meus dons artísticos. Deu certo. Sabe, se eu não fizesse medicina, talvez seguisse na área artística. Ator seria uma boa.

— Ah, Brandon, vai à merda. — falou voltando a olhar pro chão. — Estou me sentindo idiota agora. — falou segurando-se para não sorrir.

— Pelo menos consegui arrancar esse quase sorriso seu.

— Eu não sorri. — de costas para o loiro, Kai disse.

— Eu consigo ver a sua bochecha se contorcendo, consigo ver até a covinha. — Kai virou ainda mais o rosto, constrangido. — E não adianta esconder, eu já vi.

— Você é babaca. Eu não estou sorrindo.

— Eu preferia vê-lo sorrindo olhando pra mim.

— Eu não estou sorrindo, já disse. Vê se para de ser idiota.

Mas Brandon, em passos silenciosos, foi caminhando, deu a volta na cama e posicionou-se ao seu lado, sussurrando:

— Naquele mesmo dia eu dormi com você na sua cama, você tentou me expulsar, mas não conseguiu.

Com o susto, Kai se virou. Brandon sorria enquanto o encarou tão próximo. O mexicano, a princípio, não sorriu com o susto, mas ver o loiro sorrir, o contagiou de modo com que ele não conseguisse esconder os dentes.

Os olhos verdes de Kai encantarem-se mais uma vez pela beleza dos olhos azuis de Brandon.

— Permita-se. — sussurrou o loiro.

Kai desviou os olhos ao chão.

Estranhando, Brandon desfez o sorriso e, preocupado, ajoelhou-se. Não queria perder sequer a oportunidade de olhá-lo nos olhos, pois por eles conseguia ver sinceridade. O mexicano rapidamente o olhou, mas suas orbes estavam marejadas.

— Eu preciso descansar, minha cabeça não aguenta mais tanta coisa. — pediu num murmúrio.

— O quarto sempre foi seu. Nunca retirei sua cama do lugar.

Brandon olhou pra ela, acariciou o colchão e em seguida olhou pro loiro.

— Eu preciso digerir tudo isso. — admitiu.

— Te darei todo o tempo do mundo. — falou.

— Você tem mania de achar que tudo tem que ser fácil.

— Mas você tem mania de complicar tudo com seu orgulho.

— Por que não é fácil. A imagem, a frase, o sentimento ruim, nada disso pode sair com facilidade. — confessou mais uma vez.

— Descanse...

Kai ainda ficou sentado, olhando-o. Brandon, por alguns segundos, ajoelhado, tocou-lhe a bochecha e acariciou a região. Kai estava sensível, ou seja, sendo quem sempre foi. Brandon sentia saudades de vê-lo daquela maneira, não triste, mas alguém que aceitasse ouvi-lo sem grosseria, sem dar respostas firmes a ponto de deixá-lo sem palavras, com medo do que poderia dizer e magoá-lo. Alguém que se mostrasse, finalmente, suas vulnerabilidades.

O loiro se levantou, foi até o interruptor e apagou a luz do cômodo. Em passos leves, Brandon caminhou e de joelhos colocou-se sobre a cama, em seguida ele tocou o ombro do Kai e, aos poucos, foi repousando o corpo do mexicano sobre a cama.

Kai pôs os pés sobre o colchão e a cabeça sobre o travesseiro, mas o conforto veio de quem estava atrás dele, que com braços leves o envolveu em um abraço, colocou o corpo ao seu e encostou a boca à sua nuca.

A mão de Brandon encontrou a mão do Kai, eles entrelaçaram os dedos, Kai os pressionou e colocou ao seu peito.

— Vai ficar tudo bem. — sussurrou o estudante de medicina. — Tudo vai se consertar.

Dormiu nos braços de quem tanto amava, como nos velhos tempos.

Mas ainda havia chão pela frente. Tais problemas não podem ser resolvidos com facilidade, como o próprio mexicano disse. É tempo. Dar tempo ao tempo. Tempo bom, tempo ruim. Esperar.

[...]

O carro estacionou.

A Quadra estava vazia e escura.

— Dorme lá na república. — disse Colin ao namorado.

Sean, retirando as mãos do volante, o olhou de relance.

— O que eu ganharia?

— Eu só estou pedindo pra dormir na minha república.

— Então não.

— Tem certeza? — Colin questionou com um tom de voz suspeito.

Sean mais uma vez olhou pra ele, mas foi por olhar pra o namorado que ele percebeu que a luz da sala da sua república ainda estava acesa.

— Acha que eles estão...

— Transando? — Colin perguntou e olhou pra república dos tigres. — Acho. Mas como você não vai me contar o que aconteceu entre os dois, não adianta muito eu ficar falando aqui. Então boa noite, até amanhã. — Colin abriu a porta do automóvel e desceu.

Sem nem mesmo olhar pra o namorado, o pequeno atravessou a rua e retirou as chaves do bolso. Quando Colin se aproximou de sua república, ouviu a porta do carro do namorado bater. Ele olhou pra trás e o viu se aproximando, pondo as chaves no bolso traseiro de sua calça enquanto os fios negros de sua testa voavam por conta do vento forte e a luz da lua reluzia nos seus cabelos, exatamente como Colin imaginou na primeira vez que o viu.

— Mudou de ideia? — questionou provocativo.

— Tem alguma roupa minha aí?

— Tem uma camisa e uma cueca, acho que somente isso. Mas por que mudou de ideia?

— Cala a boca e abre logo essa porta.

Com um sorriso desdenhoso no rosto, Colin abriu a porta. Sua república estava em perfeito silêncio, bem diferente de quando os moradores estavam acordados, fazendo daquela casa um inferno barulhento.

Sean passou por ele e imediatamente foi subindo as escadas. Sean conseguia entender o seu namorado, seu comportamento estava manso, como se ele quisesse que o moreno descobrisse o que ele estava querendo: sexo.

— A porta do quarto está trancada. — disse o pequeno.

Sean parou na metade da escada.

— E você deveria trancar essa. Vai ficar aí parado esperando algum ladrão aparecer?

Colin nem reclamou. O pequeno trancou a porta da sala, acendeu as luzes pra ver se tudo estava em ordem e a apagou novamente. Colin subiu degrau por degrau lentamente, mas quando aproximou-se do namorado, logo tocou-lhe o braço e o beijou.

Sean conseguia até mesmo saber que Colin queria sexo por beijos como aquele: intensos e calorosos. O leonino o beijou com tanta vontade que quase perdeu o equilibrou, mas o tigre foi rápido o suficiente e o segurou pela cintura, correspondendo o beijo na mesma intensidade.

— Se continuar me beijando assim eu vou te comer aqui nessa escada. — entre beijos, murmurou o moreno.

Colin somente mordiscou seu lábio e sorriu, em seguida soltou o braço do namorado e continuou subindo as escadas. Ao abrir a porta, Colin foi logo se desfazendo das suas roupas.

— Tem tolha no banheiro? — questionou o moreno.

— Sim. — respondeu o leonino.

Colin caminhou até as janelas do seu quarto e fechou as cortinas que havia esquecido abertas. Sean se dirigiu pra o banheiro e segundos depois o pequeno ouviu o som da água do chuveiro caindo.

O leonino se olhou no espelho enquanto o aguardava, logo separou a roupa que Sean um dia havia esquecido e pôs sobre a cadeira da mesa de estudos.

Sean foi muito rápido no seu banho e saiu enrolado na toalha, com as mãos nos fios negros ainda enxugando-os.

— Onde estão as roupas?

Colin apontou pra cadeira e entrou no banheiro, seria sua vez de tomar banho.

Sean coçou os olhos. Estava cansado, acordou bem cedo na manhã daquele dia e até aquele momento estava acordado, era quase três horas da manhã e ele só conseguia se imaginar acordando muito tarde.

Dando um bocejo, o tigre aproximou-se de suas roupas. Primeiro vestiu a cueca branca, depois pôs a camiseta amarela. Fazia um pouco de frio, especialmente por causa da época do ano, mas por enquanto não estava se tornando inconveniente... E as coisas esquentariam.

Aguardando o namorado, Sean sentou-se na cama, pôs os cotovelos nas coxas, juntou as mãos e abaixou a cabeça.

Sean somente ergueu a cabeça quando ouviu a porta do banheiro do quarto ranger e de lá o namorado surgir usando apenas uma cueca. O moreno só estava reparando naquele momento que Colin havia ganhado um pouco de massa muscular, o seu abdômen já tinha algumas linhas visíveis, bem discretamente e os braços um pouquinho mais volumosos. Só reparava mesmo quem o via sem camisa, de fato.

Com todo poder que tinha naquele olhar, Sean levantou uma mão e apoiou seu queixo nela enquanto encarava o pequeno a sua frente. Era como se ele estivesse desejando todo aquele corpo, sua mente trabalhava em promiscuidade.

Sean mordeu o dedo mindinho da sua mão.

— Alguma coisa me diz que hoje vai até o sol nascer.

Sorridente, Colin disse:

— Idiota.

— Estou tão cansado, mas vê-lo aqui, cheio de vontade, me faz recarregar as energias rapidamente.

Sean abriu as pernas e olhou entre elas. Destacado em sua cueca, lá estava seu membro ereto, fazendo volume naquele tecido branco. Com um sorriso safado na face, Sean admirava o seu próprio pênis fazendo jus a toda sua personalidade arrogante.

O toque de promiscuidade que fazia daquele casal o que era: quente.

Sean voltou a olhar pra o seu namorado que também já estava duro.

O moreno deu dois tapas leves em sua coxa, assim sinalizando para Colin sentar ali. Sem recuar ou reclamar, Colin obedeceu.

O dono dos olhos castanhos aproximou-se do seu namorado e sentou-se na coxa esquerda em que ele havia batido, em seguida, enroscou seu braço no pescoço dele e ainda ficou encarando.

O abismo daqueles olhos negros era melhor do que qualquer olhar colorido. Encarar Sean era como se perder em um caminho escuro e não mais encontrar saída. Mas quando ele mantinha aquele olhar sério mesclado em promiscuidade, era um caminho de desejos íntimos.

Colin já conseguia imaginar os maravilhosos suspiros e gemidos baixinhos que Sean costumava soltar em seus ouvidos.

Os narizes roçaram um no outro.

Colin inclinou a cabeça pro lado e no mesmo instante Sean passou a língua em seu pescoço, fazendo-o fechar os olhos. Todo e qualquer toque causava-lhe sensações prazerosas.

O leonino tocou os ombros do namorado e o empurrou na cama. Com força, Sean deitou-se. Colin, ousadamente, ficou por cima dele. Com a cintura do moreno entre seus joelhos, o pequeno fez questão de se sentar exatamente em cima do pênis do namorado. Encarando-o nos olhos, Colin sorriu e o beijou.

— Colin... — murmurou o moreno.

— Fale.

— Quando o William vai casar

Silencioso, Colin interrompeu o beijo para olhá-lo.

— Final do ano que vem.

Silêncio. Sean tocou o cordão militar que deu ao namorado.

— Algum problema? — perguntou o pequeno.

— Em algum momento da sua vida você se viu casado comigo? Enfim, esquece.

O moreno voltou a beijá-lo, mas nos primeiros segundos a pergunta martelou na mente do pequeno, mas foi esquecida rapidamente quando o moreno conseguiu lançá-lo para o lado e subir sobre ele, imediatamente atacando-lhe o pescoço e tocar entre suas pernas.

Colin era tão vulnerável a aqueles ataques do seu namorado. O pequeno sempre iria admitir que não existia pegada melhor do que o moreno tigre. Sean era preciso em tudo o que fazia na cama, sendo capaz de roubar gemidos do pequeno com apenas apertos.

Colin tocou o ombro do seu namorado e o olhou nos olhos.

— Deita. — murmurou.

Sean obedeceu. Colin ajoelhou-se na cama.

O pequeno, por segundos, ficou olhando-o e com as pontas dos dedos ficou tocando entre o tórax e o abdômen do namorado, mas sua mão travessa desceu até a cueca do moreno, assim, tocando-lhe o falo e o retirando daquela peça de roupa.

Colin sentiu água na boca quando o viu ali. Sean sorriu em satisfação ao ver o rosto do namorado desejando seu pênis.

Assim, Colin, ainda de joelhos sobre a cama, abaixou sua cabeça, beijou o abdômen do namorado e, aos poucos, foi descendo até por a glande de Sean em sua boca.

Sean pareceu ter sugado o ar com o gemido que havia deixado escapar, assim, levou sua mão direito até à bunda do namorado e desceu a cueca dele, esfregando o dedo do meio entre as nádega dele.

Sem qualquer pudor, Sean tentou se apoiar nos cotovelos, logo rasgou a cueca do seu namorado, impaciente em vê-la no corpo dele.

Colin o olhou, mas Sean já estava feroz demais, assim, o pegou pela cintura.

O rosto do moreno ficou entre os joelhos do pequeno, assim, ele ergueu a cabeça e levou sua língua ao ponto que tanto desejava. Colin fechou seus olhos, arqueou as costas ao sentir o toque úmido entre suas nádegas.

Satisfação por satisfação, Colin abocanhou o pênis dele.

E a noite seguiu banhada em gemidos e muito sexo.

Notas finais
Oi, gente! Esse capítulo encerra a primeira parte da fic, como anunciei nas notas iniciais. Isso não significa que a fic acaba aqui, pelo contrário, eu deixei muita coisa em aberto nesse capítulo justamente para que na segunda parte da história elas sejam resolvidas, como é o caso de Daine, Joshgar, Kaidon, Selin, Pugh... Entre outros. E ah, vocês viram que Connor e Ian vão voltar pra nossa Quadra Nove ♥ A segunda parte da fic promete grandes emoções. Fiquei feliz com o que pelo Brandon e pelo Kai, eles mereciam a paz. Breve volto aqui com o capítulo 21, estou super ansioso para as novas revelações. Coisas do tipo: O passado do Joshua sendo revelado ao Edgar. A família do Brandon sabendo sobre sua bissexualidade. Charles e Calvin e um segredo que habita entre eles, embora eles não saibam. Sobre a Larah... Carter e Patrick. Hugh e seu "despertar" em relação ao Pietro. A família do Danion e a família do Caine. Sim, tem muita coisa pela frente. Posso dizer que as coisas vão agitar um pouco mais na segunda parte da fic.Esse capítulo 20 é apenas um capítulo de transição para os acontecimentos futuros, assim, quando o capítulo 21 for lançado, será alguns dias depois de tudo isso escrito até aqui. E ah, antes que eu esqueça, eu retirei o lemon desse capítulo porque considerei que ele não encaixaria, então fica pra o próximo. ♥ É isso, amo vocês! ♥