Notas iniciais
Basta rugir. — final parte I

— Mãe...

Na primeira vez que ouviu isso, a voz estava distante como um sussurro. Logo se tornou intensa como um grito. Na verdade era exatamente isso... um grito.

— Mãe! Mãe! Mãe! — Colton gritava pela mulher que dormia na poltrona.

Lisa acordou aos gritos do filho que não falava outra palavra senão o seu nome. Ele olhava desesperadamente para suas pernas, impossibilitado de movê-las. A sua expressão de horror era de partir o coração daquela mulher.

— Eu não as sinto... Mãe, eu não sinto minhas pernas. — ele então a olhou, chorando.

Lisa aproximou-se do filho e balançou a cabeça negativamente. Ela não conseguia chorar, na verdade, ela não queria chorar. Ainda que seu coração estivesse prestes explodir, deveria se mostrar uma mulher forte, pois o que aconteceu foi consequência do destino trágico que seu filho decidiu ter.

— Chama o médico, mãe... As minhas pernas... — ele tentava se mover, mas Lisa tocou em seu peito, impedindo-o.

Colton continuou a gritar desesperadamente, o rosto logo foi tomado pelas lágrimas que não cessavam. Lisa, sua mãe, era obrigada a aguentar aquilo de tal forma que sua alma gritava em sintonia com o filho, mas o corpo permanecia firme na postura que deveria ter tomado a partir do momento em que encontrou mudanças nele.

— Chega, Colton! — ela finalmente falou, sem piedade alguma.

— Mãe... — ele a olhou, choroso. A mulher o encarou, dessa vez uma lágrima desceu de seu olho.

— Por que fez isso? Por que tentou matar alguém? Como pode fazer isso depois de tudo o que nós passamos? Eu só tenho você. O único que me restou e é assim que resolve honrar o seu pai e seu irmão?

— Mãe... — repetiu. — as minhas pernas. — chorava. — Eu vou voltar a andar, não vou? Isso é passageiro, não é?

Lisa não aguentou permanecer na postura de mulher firme por muito tempo. Ainda que resistisse por mais alguns minutos, logo desmoronaria. Assim fez ao encostar sua cabeça a do filho e alisar os fios escuros dele. Colton choramingava sem parar, sempre mencionando suas pernas em seu choro.

Nesse mesmo momento a porta da sala foi aberta e o médico responsável por Colton surgiu. Com Colton em lágrimas, ele realizou alguns procedimentos para ter certeza daquilo que já havia diagnosticado na cirurgia.

Colton assistiu sua mãe e o médico passarem pela porta do quarto e viu, através do vidro transparente, eles dois conversarem. Inclusive, viu quando sua mãe caiu novamente em prantos, porém, nada conseguia ouvir.

— Seu filho caiu de uma altura que, infelizmente, o trauma seria inevitável. — iniciou o médico. — Ele teve lesão situada abaixo da sexta vértebra cervical; como toda coluna tem "raízes" nervosas que se ligam a cada parte do corpo e, nesse caso, de trauma apenas será preservado os movimentos dos braços, os das pernas, infelizmente, é afetado pela lesão, o que ocasiona paraplegia. Apesar da situação delicada senhora, seu filho teve um anjo...

— Julian... — Lisa falou, baixinho.

— O que disse, senhora? — ele perguntou, mas a mulher moveu a cabeça negativamente dando sinal de que prosseguisse. — Como eu ia dizendo, seu filho teve um anjo, pois a lesão que ele sofreu quase foi acima da sexta vértebra, que poderia deixar ele tetraplégico.

Lisa ouviu as palavras como se estivesse segurando uma bomba. Ela olhou, através do vidro, o filho chorar ao tentar alcançar suas próprias pernas, mas sabia que ele não mais as sentia. O homem, ao seu lado, tocou-lhe o ombro tentando dar conforto.

Os gritos de Colton certamente demorariam a cessar, afinal, ninguém gostaria de acordar sem o movimento das pernas. Era desesperador, agoniante. Colton só não se lembrou de sua mãe durante todo o seu processo de vingança, na verdade, Colton só agiu dessa maneira em nome da sua mãe, em nome de Julian, mas esquece-se de como sua mãe reagiria no fim de tudo isso.

Tomando coragem para entrar na sala, a mulher assim fez. Respirou fundo e, sem a ajuda do doutor, caminhou até ficar ao lado do filho, sem conseguir expressar palavra alguma, apenas ouvi-lo chorar alternando olhares entre ele e suas pernas.

—A culpa é dela, mãe! Eu estou assim por causa dela!

— Do que está falando? — ela perguntou apesar de já saber de quem se tratava.

— Daquela mulher que matou o Julian, ela é a culpada, ela merece ser presa. — olhou, finalmente, para sua mãe.

— Você não sabe o que diz, querido... — soluçou.

— Você mesmo me disse que ela te tratou mal, que não gostou da nossa presença no hospital. Ela matou Julian pra facilitar as coisas.

— Não, Colton, ninguém matou o Julian.

— Ela matou o Julian! — ele gritou. — Ela matou o Julian, mãe!

— Colton, não! Ela te salvou!

Ele, finalmente, silenciou-se.

[início do flashback]

Lisa Green nunca mais conseguiu sorrir. Sorriso esse que tentava resgatá-lo desde a morte do seu marido, pai de Colton e Julian Green. Não havia nada capaz de motivá-la a fazer algo. Sua vida se resumia a viver dentro daquele hospital, aguardando por notícias e, infelizmente, nenhuma delas eram boas.

Mulher que assistiu sua família ser desfeita aos seus olhos sem ter a oportunidade de mudar o destino. Um de seus filhos, Julian, não acordava há alguns dias, enquanto o outro, Colton, estava indo de mal a pior.

— Venha comigo.

Lisa foi despertada por Suzana, que sequer parou para chamá-la, apenas seguiu caminhando até entrar no elevador. Se Lisa demorasse mais alguns segundos, a porta certamente teria se fechado.

— Você precisa fazer uma escolha. — Suzana falou olhando para os números digitais acima da porta.

— Qual escolha? — perguntou, nervosa.

A porta então foi aberta e as duas seguiram até uma nova sala, lugar este que Lisa já havia visitado algumas vezes. Era sempre a mesma visão, seu filho preso a fios e tubos, deitado em uma cama, sem se mover, em um sono profundo.

— Ele nunca mais vai acordar? — perguntou sem conseguir se aproximar.

— É o que todo mundo quer quando um paciente entra em estado vegetativo, raros são os casos em que eles acordam.

— E o que eu posso fazer? — perguntou, preocupada. — Julian precisa acordar...

— Seu filho sofreu um acidente de carro no qual o Estado Americano, por lei, diz que todo e qualquer hospital deve prestar socorro sem custo algum. O problema está em que já se passaram mais de dez dias e nada dele acordar, a partir de hoje cada dia que se passa será um gasto a mais em sua conta. Não há mais nada do que possa ser feito, absolutamente nada. — Suzana abriu as cortinas da sala e esperou ouvir algo de Lisa, não recebendo resposta, prosseguiu. — Meus médicos já tentaram de tudo. O quadro clínico do seu filho era grave, com sintomas de AVC, pela eficiência do nosso hospital, tratamos de operá-lo com rapidez. Acabamos envolvendo nossa cardiologista na cirurgia, porém, infelizmente, ele sofreu duas paradas cardiorrespiratórias.

Lisa então olhou para o filho sobre a cama e se perguntou o que havia feito para ele estar em uma situação como aquela. Julian era exemplo para seu irmão, este também estando no mesmo hospital que ele.

— Não posso fazer essa escolha. — a mulher balançou a cabeça negativamente, procurando por algum lugar pra sentar. Já começava a compreender o que acontecia.

— Não há mais nada que possa ser feito! — repetiu. — Ainda que sem os efeitos das drogas, ele não acorda. — mulher fria como sempre foi, parecia não se compadecer da situação.

— Como pode agir tão normalmente me passando essas informações? — Lisa enxugou o nariz enquanto olhava para Suzana.

— É o meu dever. — respondeu ríspida. — A cada dia que se passa é um gasto a mais para você e um dia a menos para seu outro filho. — revelou.

Lisa sentiu o seu coração bater mais forte, como se algo pesado caísse sobre ele. Ela se assustou.

— Refizemos o seu teste e deu negativo. — retirou os óculos e o guardou no bolso do jaleco.

— Meu Deus! — ela bradou. — Isso não pode acontecer!

— Minha sugestão é: Julian pode ser útil. Os testes dele foram positivos. Seu filho teve morte encefálica, senhora. Como já falei várias vezes, não há mais nada que possamos fazer por ele.

— Eu não vou sacrificar meu filho! — ela se levantou gritando e apontando para Suzana.

— Se demorar para pensar, poderá perder os dois. — falou e saiu da sala.

[final do flashback]

— É mentira... — ele falou baixinho, logo se elevou. — É mentira!

Lisa voltou a chorar ao perceber que seu filho, por um momento, esqueceu do seu desespero pela falta de movimento das pernas, e a acusava de ser mentirosa por simplesmente contar a verdade.

— Os remédios que você toma são justamente por causa do rim doado por seu irmão, Colton. — acrescentou, fazendo-o acreditar no que dizia.

Saber que sua mãe mentiu tornou tudo pior. Acreditava fielmente que os remédios eram por causa do acidente, mas não por causa do transplante.

— Você matou o Julian, você matou ele! Mãe! Você mentiu pra mim!— tentava tocá-la, chorando sem parar, soluçando.

— Não, Colton, não... — ela choramingava, ajoelhando-se. — Julian faria o mesmo por você.

— Saia daqui! Saia daqui!

Foi necessária a entrada de médicos e seguranças para retirar Lisa do quarto e conseguir controlar Colton que não parava de gritar pelo nome de sua mãe, de Suzana e de Julian.

Colton Green não somente perdeu os movimentos da perna, como também a liberdade e seu reinado. No auge da sua juventude, o garoto teria que ser julgado pelo que foi capaz de fazer ao tentar matar o Colin.

Para uma mãe, que já perdeu um filho e o marido, estava vendo agora, desmanchando-se em sua frente, o seu caçula. Este que provavelmente poderia seguir parte de sua vida por trás das grades, ainda que sobre uma cadeira de rodas. Afinal, a lesão na medula foi considerada irreversível.

Tal coroa imaginária que Colton carregava não passava apenas de uma ilusão. Não há pra onde fugir, é a lei natural da vida, assim como a morte. Em algum determinado momento teremos que pagar por coisas ruins que cometemos, mesmo que o mundo ou alguém tenha esquecido, pagaremos de alguma forma. De maneiras diferentes, mas pagaremos.

Alguns, infelizmente, recebem a morte como recompensa. Sim, uma recompensa, porque depois de cometer tantas atrocidades, morrer é tipo uma forma de escape para as consequências que viriam.

Outros deverão carregar consigo as consequências eternas como prova de que merece o que teve, afinal, ele pediu por isso.

Do lado de fora, policiais apenas aguardavam a autorização para entrar no quarto e colher seu depoimento, mas com tantas provas que já tinham, Colton iria a julgamento. Cadeirante e preso. Aliás, seus jogos de xadrez será um ótimo passatempo atrás das grades.

Parece que dessa vez, realmente, o xeque-mate aconteceu.

Fim de jogo, Colton Green.

[...]

Ainda nos corredores do hospital, Anita e Joseph aguardavam por notícia de seu filho, internado. Sean estava junto deles tentando de alguma forma dar apoio a família de seu namorado.

As suas mãos queimadas ardiam, mas ele não se importava com a dor. Já tendo dado o seu depoimento, o moreno contava para os pais de Colin como as coisas aconteceram, além de relatar mais da relação de Colton e os membros na Quadra Nove.

— Obrigado, querido... muito obrigado. — Anita falava enquanto tinha o corpo acolhido por Joseph. — Obrigado por salvar o meu filho.

— Não precisa me agradecer, William quem nos salvou. — confessou o moreno, abaixando a cabeça, constrangido.

— Você foi corajoso, garoto. — Joseph também falou, assim surpreendendo Sean. O moreno então levantou sua cabeça e o olhou. O pai de Colin tocou em seu ombro. — Muito corajoso.

— Toda mãe sente quando seu filho está em perigo! Eu te falei, Joseph, eu te falei! — Anita olhava para seu marido, apontando e querendo que ele concordasse com ela.

— É como se... — Sean temeu no que falaria, mas percebeu que o homem e a mulher o encaravam, precisava ter coragem pra continuar e assim fez. — Como se um cordão estivesse preso em você e no Colin. Se ele cair, o cordão consequentemente balança... Você então o sente balançar. É o amor de uma mãe para com o filho.

— Eu sei que você sentiu isso. — Joseph falou e novamente surpreendeu Sean pela razão que tinha nas palavras. — Eu sei que você o ama. Sabe, garoto, eu achei que você não valia nada e imaginei meu filho um dia me ligando pra bater em você, mas parece que me enganei...

— Sim... — Sean balançou a cabeça ao concordar com o homem, mas novamente constrangido por tais palavras. Joseph certamente tinha razão de considerá-lo uma péssima pessoa. — Eu senti isso. E-eu o amo. — gaguejou e não conseguiu olhar nos olhos dos outros dois presentes.

— Sei que Colin ficará seguro em suas mãos no dia em que eu partir desse mundo. Só não o deixe, ainda que isso não seja uma escolha minha, mas sim sua... Você, certamente, é o primeiro amor dele. Os primeiros amores deixam feridas grandes e, consequentemente, moldam qualquer coração...

Sean engoliu em seco e não soube responder ao pai de Colin. Seu coração sentia-se satisfeito pela aprovação de seu relacionamento com o filho deles.

— Mas há outra pessoa a quem vocês devem agradecer... — assumiu mais uma vez. — A quem tenho uma dívida eterna.

William era esse garoto, mas Sean evitou pronunciar tal nome ainda tendo o coração tomado pelo orgulho de tigre.

— Eu quero ver meu filho... — Anita interrompeu o diálogo de Joseph e Sean. — Eu quero ver se ele está bem.

Quando Joseph pensou em confortar a mulher, seus olhos foram firmes em uma direção. Sean percebendo que ele olhava através de seus ombros, resolveu olhar para trás e assim encontrar sua mãe aproximando-se.

— Sean, vamos embora. — Suzana falou firme.

Os olhos frios tomaram forma no momento em que o encontrou na presença de Joseph, alguém que ela bem se recordava. Encontros em hospitais estavam se tornando frequentes.

Anita não a conhecia e por isso ficou confusa ao perceber a troca de olhares entre ela e seu marido. Não que estivesse desconfiando de algo, mas conseguia corresponder o olhar do homem com quem dormia e sabia que ele não estava feliz na presença daquela mulher.

— Ficarei aqui. — Sean respondeu, seco. Ele resolveu se aproximar mais dos pais de Colin, embora estivesse apenas usando-os para causar mais raiva em sua mãe.

Suzana vestia um conjunto social preto, sobre seu antebraço uma bolsa grande estava suspensa de modo com que sua postura fosse de uma mulher poderosa, não sendo visto mais como uma médica, longe dos jalecos, mas algo como uma mulher da alta sociedade.

— Desculpe, senhora, mas se ele quer ficar, é melhor aceitar. — Anita, compreensiva, se pronunciou.

— Eu não pedi a sua opinião. — era possível sentir desprezo em suas palavras e na forma que seus olhos piscavam. — O filho é meu e infelizmente está envolvido com o que acho ser o seu. Se você acha que vou deixar isso permanecer, está enganada. A partir de hoje eu proíbo Sean de se aproximar dele.

— Mãe! — Sean gritou, interrompendo-a.

Anita assustou-se com a resposta e olhou para Joseph, desacreditada no que ouviu. Percebendo só agora que aquela era a mãe do Sean, alguém de quem Colin já havia mencionado um dia, só achava que ela era tão fria assim.

— Eu jamais serei vista como a vergonha dos Ferazzas. Então, é melhor que trate a me obedecer ou irei tomar medidas drásticas.

— Como quais? Vai ser capaz de tudo para impedir a felicidade do seu filho? — Joseph então tomou voz. — Não é recebendo o título de mãe que você age como tal. Pelo contrário, será confundida com um monstro.

— Fui eu quem me sacrifiquei para dar tudo o que ele tem.

— Me desculpe dizer, mas não existiram sacrifícios de sua parte. Olha só pra você, uma mulher que provavelmente sempre teve tudo o que queria, ao contrário de várias pessoas que se esforçam para conseguir algum trocado pra sobreviver durante o mês.

— Você não sabe de nada da minha família para que possa dizer isso.

— Não é preciso, você faz com que nós descubramos só pela postura que toma ao precisar esfregar sua riqueza na cara dos outros. — Joseph colocou-se a frente de Anita e encarou Suzana. — Ou acha que me esqueci do dia em que tentou comprar meu filho?

— A proposta ainda está de pé.

— Quer me falar de sacríficos? — prosseguiu, atropelando a fala da mulher. — Então me conte um dia em que você sacrificou do seu alimento apenas para alimentar seu filho. Ou quando se submeteu a fazer horas extras porque no final do mês provavelmente faltaria grana para gastos dele com a escola. Conte-me como é não comprar roupas novas para si para que no final do ano seu filho possa vestir algo. De quando você sabe que não vai conseguir dar algum presente de aniversário a ele e tenta se virar tentando construir algo criativo.

— Joseph... — Anita tocou o ombro do marido, emocionada pelo que ouvia, mas não impedindo-o de falar.

— Você sabe como é virar madrugadas numa confeitaria justamente para conseguir bater a meta de lucros para que eu possa doar um pouco ao filho que resolve sair da cidade e viver em repúblicas? — sua voz se elevou um pouco. — Ainda que não sirva para muita coisa, mas é a única grana que posso oferecê-lo. Você sabe como é difícil? Não. Você não sabe de nada! — cuspiu as palavras na face da mulher em uma expressão de nojo. — Você simplesmente teve tudo o que queria e nunca passou fome para o bem desse garoto. Isso são sacrifícios, minha senhora.

Joseph não chorou, mas os olhos estavam umedecidos e vermelhos, qualquer um notaria que ele estava a um passo de derramar lágrimas. O homem voltou a ficar atrás da mulher e envolveu seu braço no ombro de Sean, juntando-o de modo com que o moreno ficasse encostado a sua mulher.

— O garoto fica e não há nada do que possa fazer para retirá-lo daqui. — ele finalizou.

— O que pensa que está fazendo? O filho é meu.

— Ele não é mais uma criança, não é assim que vai conseguir fazer algo.

— Sean você vai comigo. — Suzana resolveu segurá-lo pelo braço.

— Me solta! — usou um tom de voz agressivo e retirou seu braço das mãos da mãe. — Eu só sairei daqui depois que ver o Colin.

— Por causa dele você quase perdeu a vida.

— Olha como você fala do meu filho! — Anita interveio.

— Cala a boca que você não merece dirigir a palavra a mim. — Suzana nem olhou nos olhos dela ao falar isso. — Vamos embora, Sean, eu ainda sou a sua mãe. Olha só essas suas roupas, precisa de um banho urgente. Você já deu seu depoimento ao policial, não há mais nada pra fazer aqui.

— Olha que na idade que eu tô ainda posso estapear cara de mulher! — Anita falou.

— É assim que você educa o seu filho? — Suzana finalmente olhou para ela. — Por isso não quero que o meu se misture. Sean tem tudo pra ser destaque na família. Só falta começar a seguir meus conselhos e eu não deixarei que um relacionamento errado arruíne todos os meus planos que tenho pra ele.

— Você falou certo. São os seus planos e não os meus. Então está fora de cogitação te seguir. — o moreno a respondeu.

— Você vem comigo! — ela tentou segurar nas mãos do filho mais uma vez, não percebendo que elas estavam machucadas. Sean gemeu de dor ao tentar afastá-las, mas a mulher conseguiu segurá-lo.

— Solte-o, Suzana! — Joe, pai de Sean, ouvindo tudo enquanto se aproximava, mostrou não mais tolerar a mulher.

Ele não teve a oportunidade de chegar mais cedo ao hospital, visto que dava uma palestra sobre saúde. Mas ao descobrir o que acontecia, numa ligação da própria Suzana, ele imediatamente largou tudo o que fazia. Já Nate, pai de William, estava com o filho, em outro bloco do hospital.

A mulher, assustada, largou Sean. Joe imediatamente correu para o filho que percebendo o machucado tocou-lhe delicadamente as mãos e avaliou seu rosto sujo.

— Eu fico com ele a partir daqui. — Joe falou. — Você pode ir, já fez a sua parte.

Joseph e Anita facilmente descobriram quem era Joe, principalmente pela sua aparência com a do Sean. Eram realmente parecidos e com traços semelhantes, ainda que o filho também herdasse traços da mãe, os de Joe eram mais destacados.

— Se me permite, senhor, podemos chamar a policia e dizer que ela nos incomoda. — Joseph sugeriu.

— Não vai ser preciso, ela terá que ir embora. — Joe não retirava os olhos da mulher.

— Não é você quem decide isso.

— Suzana, será que você não percebe que tudo o que faz é pensando no seu próprio bem? — Joe perguntou. — Eu também sou pai do Sean e permito que ele fique aqui comigo.

— Você apoia esse relacionamento, eu não. Meu filho não é de se misturar com gente assim.

— Meu filho não é pouca coisa pra você falar dele assim. — Anita ousou em se meter no diálogo.

— Seu filho é alguém aproveitador. Olha só para meu filho e depois olhe para o seu. É uma questão lógica.

— Escuta aqui, minha senhora, eu posso ser presa, mas eu prometo encher essa sua cara de tapas.

— Mais uma vez arrumando problemas, Suzana? Será que você nunca vai aprender?

Dessa vez, quem resolveu aparecer foi Nate, surpreendendo ainda mais Sean, que jamais esperou por isso.

— Como você está? — ele perguntou ao se aproximar do moreno.

— Bem. — Sean respondeu tentando parecer indiferente, mas feliz com a preocupação.

— Então, o que essa louca está fazendo aqui? — Nate perguntou para todos os presentes.

— Estou levando meu filho embora daqui. — ela respondeu.

— Contra a vontade dele, certo? Coisa que você sempre fez. — rebateu o pai de William.

— Agora você se preocupa com ele? — os olhos exalavam ódio. — Depois de tantos anos acha que pode aparecer assim e decidir as coisas? Você não pode se meter mais nesses problemas, Nate.

— Tanto posso como devo enquanto Sean estiver registrado em meu nome. E se você não sair daqui, eu vou lá fora e informo a impressa todo o nosso passado cheio de mentiras e brigas, envolvendo todas as traições de nossas partes. Seria lindo para nós dois que anos atrás saímos numa revista com o título de “família perfeita”. — fez aspas no ar. — Lembra do ensaio para essa revista? É a sua popularidade como médica que está em jogo, Suzana. Você é exemplo no meio médico, mas isso pode desmoronar aos poucos se souberem o quão terrível você é com seu filho.

Joseph quis aplaudir ao homem que nunca havia visto e sequer fazia ideia de quem era. Joe agradeceu a presença de Nate, sendo este o homem capaz de fazer a mulher silenciar por alguns segundos e se sentir nocauteada por suas palavras. Sean, no fundo, sentia pena de sua mãe, mas não poderia admitir que ela estivesse agindo daquela forma.

— Não vou admitir que façam isso com meu filho. Vocês não podem decidir por mim o que é bom para ele. Aquele garoto, aquele garoto que tá lá dentro... — Suzana passou a ficar nervosa. — E-ele deveria ter morrido naquele incêndio e assim deixado meu filho livro.

— É agora que serei presa. — Anita falou, juntando as mangas de sua camisa.

Ela não perdeu tempo falando mais nada. Simplesmente estapeou o rosto de Suzana fazendo sua bolsa cair no chão e a mulher cambalear. Depois disso, Anita saltou e cravou suas mãos nos cabelos dela, gritando e proferindo insultos terríveis.

Era digna de ser chamada mãe do Colin, ou melhor, Colin tinha mesmo a quem puxar.

— Socorro! Socorro! Tem uma louca me agredindo. — gritava.

— Eu vou encher essa sua cara de porrada, sua vagabunda!

A polícia apareceu bem no exato momento em que a confusão acontecia e correu para separar as duas mulheres. Suzana, coitada, infelizmente só tinha postura de mulher poderosa, porque força física ela não tinha se comparado a uma mulher que era conhecida por sua agressividade.

[...]

William já estava há três dias no hospital. Octavio fez do sofá sua cama, passando a fazer do local sua segunda casa, sempre voltando para a república para levar e trazer informações, além de tomar um banho e voltar com roupas novas.

Octavio e William viviam a conversar, e os assuntos fluíam até quando eles menos esperavam. Um ótimo meio de fazer as horas e os dias se passarem, já que a previsão do loiro sair daquele hospital era de seis dias.

Naquela madrugada, no bloco B, a calmaria era aceitável. Diferente do bloco A, onde o caos acontecia com várias ocorrências de pessoas acidentadas. William ainda estava acordado, assistindo algo na TV que Octavio havia conseguido, ele não fazia ideia de que programa era aquele, apenas via as imagens avulsas, já que decidiu deixar o volume no mínimo em consideração ao namorado que dormia no sofá do quarto.

Assustou-se ao perceber que a porta foi aberta. Imaginou ser algum médico, porém a falta de luz na região impediu de olhar no rosto da pessoa. Mas então o corpo foi ganhando forma, era pequeno e nada estranho, trajava uma camisola de paciente na cor verde, o mesmo tom das paredes.

Era Colin.

O pequeno fechou a porta e acelerou seu passo pronto para abraçar o seu maior pilar. William sequer conseguiu pronunciar uma palavra. Ele aceitou o abraço com os olhos fixos na porta, não acreditando no que via. Estava feliz, muito feliz, mas não esperava que fosse vê-lo ali.

Mesmo que recebendo visitas de seus companheiros em dias alternados, Colin também estava em observação em outra sala distante, já que havia inalado bastante fumaça.

— Graças a Deus você está bem. — o pequeno falou sem se desfazer do abraço.

— Eu digo o mesmo. — finalmente se deu conta de quem estava em seus braços e, assim, retribuiu a atitude.

Um abraço duradouro, carregado de saudades e preocupação. Passado alguns minutos, William se desfez do abraço.

— O que faz aqui? — falou baixinho. — Você é louco? Como conseguiu sair do quarto.

— Ser pequeno tem lá suas vantagens, dar pra se esconder em lugares que ninguém imagina. Já consegui isso uma vez. — relembrou do dia em que conseguiu ir ao quarto que Sean ficou após o acidente.

— Mas você também está em observação, Colin. — tomava todo o cuidado para não acordar Octavio.

— Eu estou melhor, acredite. Desde que me falaram que você estava bem, eu não conseguia fazer outra coisa senão dar um jeito de te ver. — murmurou.

— E-eu estou feliz em te ver, mas você é realmente louco.

— Só espero que Sean não acorde e me veja fora da cama. — falou sem olhar para o loiro. — Eu realmente precisava te ver, Will. Tinha medo de receber alta e não me deixarem te visitar.

— Agora tudo já passou, Colin. Ficaremos em paz.

— Obrigado por me salvar. — falou agora encarando-o, os olhos sinceros de quem realmente amava. A fidelidade de leoninos.

— Você faria o mesmo por mim, tenho certeza. — o loiro retribuiu o olhar confortante.

Um minuto de silêncio até que pudesse prosseguir com o diálogo.

— Meus pais querem me tirar da Quadra. Eu não quero ir embora. — assumiu, triste.

— Duvido muito Sean deixar isso acontecer.

— Fala isso pra minha mãe. — fitou a TV.

— Sean conseguirá, acredite. Não se preocupe, não vai ser Colton o garoto a destruir seus sonhos de arquiteto.

— Você e Sean trabalhando juntos pra me salvar... — desceu seus olhos ao chão ao se lembrar do momento. Colin aproveitou o momento em que William citou o nome do seu namorado para que pudesse pronunciar a frase.

— Eu não deixaria ele tomar os créditos disso tudo. — tentou descontrair. — Uma hora teríamos que dar certo, não é mesmo?

— Ele falou com você depois do que aconteceu? Sean não quer me falar nada a respeito.

— Ele esteve aqui. — falou ao recordar do momento.

— Do jeito que ele é, duvido que ele tenha falado muita coisa. Mas se ele te agradeceu, ficarei feliz por isso. Mas só me prometa nunca mais se lançar na frente de uma bala.

— E queria que atingisse o seu namorado?

— Não. Mas isso foi loucura! — tentou gritar no meio do sussurro, mas manteve o controle.

Octavio se remexeu no sofá, William e Colin gelaram, mas era alarme falso, ele ainda permanecia dormindo.

— Agora eu entendo porque você ama tanto o Sean. — o loiro falou, Colin o olhou desacreditado no que ouvia. Seus olhos até brilharam de felicidade. — Percebi o quão preocupado ele é com você.

— Sean só é difícil de expor sentimentos, seja ele qual for.

— Como ele está?

— Um amor de pessoa, mas sei que isso só vai durar até eu ir embora daqui. Quero o Sean prepotente e seco de antes, ele assim não tem graça.

— Quê? — William indagou assustado.

— É isso mesmo. Sean amoroso é um saco, exceto no dia em que estava dopado, ali foi estranhamente encantador. Ele até parece meu empregado, se eu o mandar coçar as minhas costas, ele coça. Porra, ele geralmente diz não até que eu insista.

William sorriu bobamente com aquilo. Colin era realmente uma pessoa fora do comum.

— No primeiro dia acordei com minha mãe no quarto, no segundo meu pai resolveu ficar, e hoje o Sean. Eles estão reversando. Amanhã eu recebo alta, provavelmente. Ouvi eles conversarem sobre isso.

— Bem, eu tenho mais alguns dias tediosos aqui. — falou o loiro, infeliz. — Só não está tão chato porque eu tenho Octavio. Sinto falta da gritaria de nossa república.

Octavio tossiu. Um breve silêncio.

— Meu pai me disse que nossos amigos foram quase expulsos do hospital, pois eles gritavam na recepção.

— Foi verdade. — dessa vez o sorriso de William foi maior e mais duradouro. — Eles rugiam, vale ressaltar.

— Quem vai dar conta de tudo isso quando você partir?

— Alguém será capaz. — falou olhando-o nos olhos, embora não revelando o seu nome.

— Só espero que essa pessoa não seja novamente o Danion, porque sinceramente... — revirou os olhos, William se segurou para não gargalhar.

William olhou por mais alguns segundos para Colin até ver, através do vidro da porta, alguém passar pelo corredor.

— Colin, é melhor você ir.

— Não queria. Mas sei que devo. — disse ao perceber que William tinha visto alguém.

— Amanhã, se receber alta, dê uma passada aqui. — Colin assentiu.

William tocou-lhe o braço e dessa vez tomou a atitude de abraçá-lo, mesmo com as dificuldades por estar deitado na cama. O abraço foi novamente duradouro, onde o loiro depositou um beijo na testa do pequeno leonino.

— Lembrem-se, qualquer coisa é só rugir e eu estarei rugindo junto a você.

Colin mais uma vez assentiu e sorriu entre lábios para o amigo.

Saiu do quarto da mesma forma que entrou: em silêncio. O caminho, felizmente, estava livre. Ele só precisou tomar mais cuidado dessa vez, pois alguns médicos de plantão passavam na hora e ele quase foi visto, por sorte escondeu-se atrás de um bebedouro.

Colin voltou para o quarto e encostou-se a porta. Seu coração batia acelerado e a adrenalina ainda percorria o seu corpo. Porém, estava satisfeito e muito feliz. Seu amigo estava bem e se recuperando. Vê-lo no hospital foi a melhor coisa que já lhe aconteceu depois do dia horroroso que teve.

Quando finalmente pensou em voltar pra cama, Colin quase gritou com quem viu sentado no sofá de braços cruzados e batendo o pé no chão. Sean não estava nada feliz.

— E-eu... — tentou se explicar.

— Eu sei onde você estava, é óbvio. Mas precisa mesmo sair escondido? — perguntou o moreno.

— Você não deixaria, obviamente. E nenhum médico me deixa sair desse quarto. Então eu fui lá e tomei minha própria decisão. — falou.

— É bonito sair por aí com uma camisola de paciente. Nem cueca você tá usando, Colin, eu consigo ver sua bunda por esses cordões soltos atrás de você.

Colin não deu ouvidos. Seguiu até a sua cama do hospital e deitou-se nela.

— Não vai falar nada? — perguntou o moreno, ainda sentado. — Nem mesmo como foi lá com William.

— O que quer que eu fale? Tô sendo tratado como um bebê por todos vocês. Odeio isso, ok? Então continue chateado, isso é nostálgico. Se quiser, pode até ser grosso comigo.

— Então está reclamando de mim? — perguntou irritado.

— Sean, por que não fode comigo aqui? Aproveita que tem só nós dois. — Colin recuperou sua ousadia ao tentar parar de ouvir sermões do namorado e oferecer sexo.

— Eu não! Você está sendo observado.

Sean negou sexo e Colin não acreditou naquilo.

— Fraco. — falou, seco. — Então volte a dormir no sofá.

— Era pra você tá assim mesmo? — perguntou ao estranhar o comportamento do namorado. — Caralho, você quase perdeu a vida e tá pouco se fodendo por isso.

— E o que você queria? Que eu dissesse que minha vida mudou radicalmente? Não mesmo. Isso é coisa de filme. Já tô me recuperando e cansei de ficar nessa cama, nesse quarto. Só propus transar com você, mas se é fraco, o que posso fazer?

Sean por pouco não o insultou, simplesmente arrastou o sofá até o lado da cama de Colin. Uma atitude que seria recriminada pelo médico que entraria ali na manhã seguinte. O moreno estava cansado, com muito sono mesmo.

— Não vai querer mesmo transar comigo? — Colin perguntou mais uma vez.

Sean simplesmente deu as costas ao namorado e dormiu.

Colin voltou a ser irritante. Isso era bom pois deixou o moreno feliz. Sean, escondido, deixou escapar um sorriso.

Notas finais
Não meus queridos, esse NÃO É O CAPÍTULO FINAL. HAHA. Mas como provavelmente o capítulo iria ser dividido em três partes, eu resolvi liberar essa enquanto concluo as outras duas que já estão encaminhadas. Olha, eu disse que definiria uma data para o final, mas acredito que não dará certo, então espero que até o final do mês eu apareça com os dois últimos capítulos, certo? É essa a previsão de data que tenho pra vocês. De qualquer forma, continuem me acompanhando no ask: http://ask.fm/thomasnyah Amo vocês e até breve com o último capítulo. E ah, me perdoem pelos dois meses de atraso, eu realmente precisei desse tempo para mim. Não significa que deixei de escrever a história, só decidi ter muita calma para cada cena dessa vez. E acreditem, eu tô amando tudo o que escrevi para o final, só preciso concluir de forma agradável aos meus olhos. Prometo não deixá-los mais dois meses esperando, HAHAHA, como disse, pretendo voltar aqui até os últimos dias desse mês. Beijos.