República de Leões
41 Capítulo 41
Notas iniciais
“Seja o melhor.” “Não admito erros.” “Foi isso que eu te ensinei?” “O que pensa que está fazendo?” “Vai deixar ele ser melhor que você?” “Seja sempre o primeiro.” “O lugar mais alto do pódio é seu.” “Lembre-se do seu sobrenome.” “Me dê orgulho.” “Sean, faça!” “Aquele garoto não pode te passar.” “Ser gay é anormal.” “Quando vou conhecer sua namorada?” “Eu quero que você tome o meu lugar no hospital.” “Eu te dou tudo, mas faça para merecer.”
A voz que soprava essas frases em seu ouvido era a mesma. Parecia ter recebido algum efeito, mas dava pra distinguir que era sua mãe falando. A perfeição era parte do seu aprendizado. Nunca poderia ficar para trás de ninguém. Pelo menos foi isso que sua genitora lhe ensinou.
Um som agudo e contínuo, seguido da voz de sua mãe, que vinha de algum lugar que ele não sabia, estava atormentando-o. Todo o seu corpo doía e ele sequer conseguia se mexer. A visão começava a ficar turva e o moreno procurou por seu celular primeiramente.
Não percebendo que não estava no bolso, preso ao cinto e de ponta cabeça, com o corpo suspenso, Sean viu o celular abaixo dele. Os dedos cortados, com dificuldade, tocaram o celular. Mesmo não conseguindo segurar o aparelho, Sean somente digitou a senha com o indicador. Colin era o único contato favorito e, por isso, apenas ligou.
O sangue que caía de algum lugar que ele não sabia passou por seus olhos e por isso ele foi obrigado a fechá-los. O seu supercílio estava aberto. Aos poucos, percebia que suas forças estavam indo embora e nada de ouvir a voz, mesmo que através do celular, da pessoa que mais amou em toda sua vida. Sim, era amor. E ele sabia disso.
Colin tornou-se remédio para suas dores, calmante para sua raiva e veneno para o seu coração. Para Sean, Colin era, é e sempre seria o garoto com quem imaginou toda uma vida junto. Por mais que nunca falasse isso, ele já tinha se tornado dependente dos mimos e estresse do outro. Colin tinha tudo o que ele não procurava em alguém, mas por ser assim, acabava destruindo o escudo que o moreno tinha construído... Parte por parte até não sobrar nada.
Os muros gigantes eram pisoteados por cada charme que o pequeno fazia. Ser frio era bom, pois ele reconhecia através da sua frieza que Colin era o único a nunca lhe viraria as costas. Não foram desafios criados para provar Colin. Colin não precisava disso. Um simples toque era capaz de destruir a muralha de Sean.
Sean o amava.
Percebendo que o pequeno não o atendia, somente falou quando o sinal pra mandar mensagem soou:
— Ei, Colin... Ai — Gemeu após sentir dor ao falar —, e-eu só queria ouvir sua voz. Independente do que aconteça, saiba que eu te amo. Espero... Ai — Outro gemido —, que um dia você me perdoe.
Sean não conseguiu mais prosseguir. O silêncio e a escuridão tomaram-lhe conta.
[...]
“Velejo sobre a crista dessas ondas oceânicas, com os olhos atentos à imensa linha: o horizonte. Perdido sobre esse gigantesco mar, relembro dos momentos em que tu abastecia-me. Saciava a minha sede deixando-me límpido. Chicoteando a minha face lá estava ele, não podia vê-lo, mas conseguia senti-lo: o vento. Substituíra os meus pés, levando-me a uma direção na qual nunca iria saber. O vento.
Acima de mim, o céu e sol;
Ainda vivo.
Logo, escureceu. O céu fora substituído por camadas de nuvens negras carregadas de chuva. O sol desapareceu, já não iluminava mais a minha pobre vida. Sobre meu barco estava eu, sozinho e com medo. E lá estavam elas, vindo em minha direção... As dores que eu iria sentir jamais seriam comparadas com as dores que senti enquanto estive fora daqui. Nada irá substituir a dor que ele me provocou. Vem sobre mim, ondas, mostra a força que tu tens, tirando-me a vida, é isso que eu quero. Assim como tu devastas a terra, faz isso em meu coração.
O vento que chicoteava a minha face agora estava mais rebelde, queria ele me derrubar dali, queriam eles me derrubar. Com movimentos bruscos conseguiu o que realmente queria, tão bela aos olhos de quem a observa de longe, porém, sem piedade de nós.
Acima de mim, águas;
Águas e águas;
Frio;
Ainda vivo, descendo em direção à escuridão.”
(Thomas)
[...]
Existem amores, romances, paixões. Há quem ame por um dia e outro por uma noite. Relacionamentos duradouros, os melhores. Os rápidos, devastadores. O que supera limites.
Porém, Sean e Colin eram amor, romance e paixão. Três em um. Se no mundo existem ligações tão fortes como a desses dois, é porque dali em diante não existirá ninguém capaz de substituir um ao outro. E se, por ventura, a morte fosse a culpada pela separação, cabe a cada um saber lidar com a dor.
Tudo é uma consequência, seja ela boa ou ruim. O efeito da ação e reação, segundo Newton.
A dor é uma consequência, tanto a física como a sentimental. Sendo a segunda a mais difícil de lidar. Porque não existe conforto, não existe abraço, não existe sorriso. Não importa quantas vezes te digam que vai passar. Não passa. Qual a consequência do sorriso, após a dor? Você! Ninguém melhor que ninguém para se autodeclarar feliz.
Colin e Sean.
Colin não era sequer para existir, levando em consideração que sua mãe perdeu o primeiro filho e mesmo estando em risco de vida, numa segunda gravidez, Colin veio ao mundo. Personalidade forte, extremamente impaciente e bom argumentador.
Sean, incompreendido. Incapaz de socializar com alguém. Sobrenome de poder. Alguém que por muito tentou não mais se apegar a ninguém devido às consequências da vida. Atraente e desejado, difícil de conviver pelo modo frio de se expressar, com sentimentos jamais expostos.
Quem sofre por amar, sofrerá para sempre. Quem sorri por amar, sofrerá para sempre.
Amar dói, Colin.
Amar dói, Sean.
Como curar? Amando.
— Colin? — A voz de Caine foi a primeira que o pequeno ouviu.
Colin tinha acabado de abrir seus olhos quando encontrou Caine de pé e Danion ao seu lado. Por trás dele William e Octavio passavam. O loiro deu uma última olhada e abriu a porta saindo da república.
— Qualquer coisa não se esqueçam de ligar pro número do hospital. — Disse Octavio. — Colin precisa se alimentar. — Finalizou e também saiu.
Colin sentiu suas roupas leves, afrouxadas. Passou a ficar sentado e olhou para Caine.
— Por quanto tempo eu fiquei desacordado?
— Não durou três minutos. Por um momento achei que a cena daquele dia com seu pai tinha se repetido. Mas William nos garantiu que não. — Danion tratou de responder.
— Ele quem afrouxou suas roupas e me mandou te dar esse copo com água. Octavio acha que isso aconteceu porque você não está se alimentando bem devido aos acontecimentos. — O pequeno lhe entregou o copo com água e açúcar.
— Meu coração está angustiado, aflito. Eu não sei...
— Eu ouvi você falar o nome dele. — Caine proferiu, preocupado.
A porta do seu quarto foi aberta e de lá surgiu Edgar, o rosto vermelho do provável choro. Ele carregava nas mãos o celular de Colin. Tentando disfarçar, ele sorriu para os amigos e companheiros de quarto.
— Já faz um tempo que ele toca. —Edgar disse e estendeu o aparelho para Colin.
Com o coração saindo pela boca, Colin segurou o aparelho. Para aumentar ainda mais sua aflição, viu que existia uma ligação perdida de Sean. Colin somente fechou seus olhos e aceitou a mensagem pendente que tinha para ouvir.
“Ei, Colin... Ai, e-eu só queria ouvir. Independente do que aconteça, saiba que eu te amo. Espero... Ai, que um dia você me perdoe.”
Colin imediatamente buscou retornar a ligação perdida de Sean e novamente, tomado pelo desespero, correu para a janela implorando para encontrar o carro do moreno estacionado na frente da república rival.
Quando uma notícia ruim chega aos nossos ouvidos, ela geralmente vem acompanhada de algo pior ainda. Naquele mesmo momento em que Colin mostrava-se preocupado. Danion sentiu seu celular encher de mensagens, consequência da popularidade de alguém que agora era o atual líder da maior república da Quadra.
Várias e várias mensagens com fotos do acidente de Sean, retiradas de algum noticiário.
Danion segurou Caine pela mão e puxou o namorado, aproximando-o. O branquelo tentou ser o mais cauteloso possível.
— Esse é o carro do Sean? — Murmurou.
Caine viu as fotos e não soube o que responder. Ele somente sentiu também seu coração apertar e a angústia lhe tomar conta. Colin não poderia ver aquilo, muito menos saber.
Ele reconhecia que Colin já não tinha mais estruturas para suportar problemas. Há dias não se alimentava direito, abrindo mão de várias refeições e comendo por insistência de alguns membros da república. Até Danion levou café da manhã pra ele.
Começou com a vitória de Colton sobre ele, perdeu Sean, logo em seguida brigou com seu maior pilar, William, e por pouco não perdeu o pai. Uma sequência de notícias ruins. Caine reconhecia através daquilo que seu amigo era forte para suportar todas essas coisas de uma vez, mas Sean era o homem que ele amava e, diante das circunstâncias, Colin provavelmente não iria aguentar.
Sean e Colin estavam ligados um ao outro, Caine sabia disso. Logo ele, maior defesa do amor.
— Sean morreu. — Danion murmurou com uma mensagem que tinha recebido.
Caine tapou sua boca e em seguida segurou forte a mão do namorado. Colin ainda estava distante. Os dois não retiravam os olhos do celular, ainda tentando acreditar no que tinham lido.
Ser membro da Quadra Nove era isso. Qualquer notícia sobre os membros, se julgadas importantes, facilmente seriam espalhadas e Sean era alguém bem influente no lugar. Não se sabe da onde veio, mas as imagens comprovavam mais e mais do acidente que tinha acontecido próximo à Quadra.
Logo a notícia chegaria aos ouvidos de Colin e dela não havia como escapar.
Danion checou seu celular mais vezes e então viu novas imagens, dessa vez com Sean sendo socorrido.
— O que?! — Murmurou desentendido.
— Estão espalhando uma falsa morte. — Caine, mesmo sentindo alívio, estava assustado com o que estava acontecendo.
— Eu conheço aquela ambulância, é do hospital em que William faz residência.
Caine não tardou a se afastar do namorado. Foi até o seu quarto, pegou alguns documentos e voltou para a sala. Colin jamais tirou os olhos de seu celular, provavelmente aquela era a décima ligação que ele fazia. Da oitava em diante o celular estava desligado.
— Eu vou até a casa dele. — Colin disse, levantando-se.
— Na verdade nós iremos para o hospital, é lá que Sean está. — Caine trouxe a bomba.
Colin ajoelhou-se imediatamente com o impacto da notícia.
Por um minuto tudo a sua volta deixou de existir, tornando-se negro. Com os segundos que se passavam, tudo voltava ao lugar, cada objeto, cada rosto, cada forma. Se tinha coração ele nem mais sabia. Preferiu estar morto. Sim, ele preferiu. Colin já não mais conseguia compreender o motivo da vida diante de toda essa longa e terrível tempestade que estava passando.
Colin apenas olhou para Caine e balançou a cabeça negativamente.
— Não... — Sua voz estava completamente mudada devido ao choro — Não... De novo não. — Pronunciava sem tirar os olhos do amigo.
Caine imediatamente saiu de seu lugar e foi ao encontro do amigo, abraçá-lo. Não existiam palavras o suficiente para acalentar aquele coração inquieto e perturbado. Coração este que sofria na calada da noite, em silêncio e que agora, diante de todos, não aguentou se esconder.
Danion também se aproximou dos dois, ajoelhando-se e tocando em sua cabeça. Caine e ele trocaram olhares e o branquelo reconheceu o olhar do namorado. Ele viu que foi daquela maneira que Caine se sentiu quando achava que ia perdê-lo após o espancamento.
Edgar, que estava sentado no sofá, apenas observando tudo, só foi conseguir compreender o que se passava quando também recebeu as fotos do acidente de Sean, seguida de mensagens em que Sean havia morrendo e outras da falsa morte.
A porta da república foi aberta com Leonard, que também aparentava ter recebido as mesmas mensagens que todos eles.
Ian e Connor, que não dormiam na república aquele dia, também receberam as mensagens. Sebastian, Lydia, Rickson e Gaspar que também estavam longe dali não escaparam. Todos estes que um dia fizeram parte da geração dourada — nome que Harry costumava dar para os destaques da Quadra Nove ou como Colton preferia chamar de Elite da Quadra — receberam as mensagens. Umas ou outras entre eles mesmos, outras de números desconhecidos, além das redes sociais.
— Não! — Colin agora gritava. — Eu não aguento mais. — Bradou e o céu certamente recebia o seu choro, tanto é que os primeiros flocos de neve, lá fora, começavam a cair.
O frio costuma castigar.
[...]
William e Octavio tiveram um diálogo monótono durante todo o trajeto até o hospital. O loiro reconhecia que o namorado procurava não se meter em seus problemas com Colin, principalmente depois de tudo. Octavio realmente não queria procurar mais confusão e motivos para um novo término.
— Desligou seu celular? — William perguntou.
— Desde que saí da república. — Respondeu.
Os dois estavam no vestiário arrumando-se para mais um plantão. Para ser médico, deveriam existir alguns sacrifícios, como o bom sono da noite.
— Vai comer alguma coisa antes? — O moreno perguntou acabando de pôr seu jaleco.
— No intervalo, provavelmente.
— Eu queria um beijo seu. —Octavio pediu.
— Você sabe que não podemos fazer esse tipo de coisa aqui. Não por nossa sexualidade, Octavio. Mas não é legal e desrespeita o nosso ambiente.
— Não tem ninguém...
William olhou para os lados e o vestiário realmente se encontrava vazio. Não resistindo ao olhar do namorado, ele lhe beijou rapidamente e lembranças do dia em que transaram no hospital tomaram sua mente.
O momento foi estragado quando eles receberam um sinal de emergência e imediatamente saíram do vestiário direto para o bloco onde precisavam da ajuda de ambos.
Assim encontraram o professor e também médico, responsável para auxiliá-los no período de residência.
— Qual a emergência dessa vez? — William perguntou.
— Acidente de trânsito. Já foi encaminhado para a sala de cirurgia, preciso que vocês também estejam prontos.
— Qual o nível da gravidade? — Octavio indagou.
— Risco moderado, mas de qualquer forma, precisamos agir rapidamente.
— A situação é crítica? — O moreno fez referência ao estado do paciente.
— Alguns ossos quebrados, inclusive a costela perfurou o pulmão.
— O que estamos esperando?
— O sinal de que está tudo certo para a cirurgia. As técnicas de enfermagem já estão na sala.
Não se passou um minuto e o sinal de que eles deveriam estar na sala foi dado.
Octavio e William e o instrutor entraram na sala já preparados para o momento. Perplexidade. Porém, o choque não foi encontrar alguém deitado e ferido, prestes a passar por algumas horas de cirurgia, mas sim, o de ser Sean a pessoa acidentada e William ser o responsável pelo seu bem.
Octavio olhou para William torcendo para que o namorado não fizesse de seus problemas pessoas a queda de sua carreira profissional.
— Eu confio em você. — Octavio disse, afastando-se e aproximando-se de seu próprio instrutor, um médio anestesiologista.
William se manteve firme e aproximou-se do corpo do moreno. Ao sinal após o final da anestesia geral, começaria a cirurgia.
Tudo era muito delicado diante daquela situação. Em certos momentos, o loiro sentiu vontade de gritar e fazer algo ruim. Mas o seu controle diante de uma vida era maior do que isso. William jamais colocaria problemas pessoas em primeiro lugar. William esqueceu que Sean era o seu irmão e maior rival e passou a enxergá-lo como um paciente, uma vida para cuidar.
Octavio não conseguia retirar os olhos de William. Era incrível como o loiro havia esquecido todos os problemas. Até uma hora antes tinha lidado com Colin desmaiado e simplesmente deixou esse problema na república. Sua postura profissional era digna da profissão que ele queria.
Afinal, era uma vida que estava em jogo e William não poderia acabar com tudo por causa da sua rivalidade com Sean. Os olhos demonstrando preocupação com o paciente, recebendo cada instrução do professor, sem errar um momento.
Ser médico era, sem dúvida, uma das profissões mais lindas do mundo.
Cada dia que se passava Octavio apaixonava-se mais e mais pelo loiro. Pelo homem que ele era, mesmo que orgulhoso. William, na verdade, era e sempre seria o seu maior orgulho.
Ao final da cirurgia, realizada por quase duas horas, William saiu de campo e ficou parado no canto da sala, esperando mais avaliações do seu instrutor.
“Quem diria...” Pensou o loiro.
[...]
Antes mesmo de o carro parar, Colin já havia descido dele às pressas. Caine, Danion e Leonard foram obrigados a correr e tentar segurar Colin. Edgar havia ficado na república para dar notícias para os que por ali aparecessem.
Colin nem mesmo seguiu as normas do hospital e, passando por todos, bateu sobre a mesa do balcão de atendimento.
— Sean Grandinni Ferazza. — Gritava diversas vezes o nome do moreno.
A mulher, mesmo já tendo visto situações parecidas, assustou-se com o desespero de Colin. Ela viu através daqueles olhos a súplica por notícias, o desespero e a dor. Sabia que Colin tinha sido pego de surpresa após receber alguma notícia.
Imediatamente ela vasculhou no sistema do hospital pelo nome que Colin havia gritado. Após encontrar, ela olhou para Colin.
— O que o senhor é dele? — Ela perguntou.
— Namorado. —Disse no calor da emoção.
— Alguém pode pegar um copo d’água para ele? — Pediu a um dos seguranças que, incomodados com a situação, aproximavam-se. — Vocês são amigos dele? — Ela perguntou para Danion, Caine e Leonard.
— Sim, somos. — Leo respondeu. — Sean está bem?
— O paciente está no centro cirúrgico. No momento são essas as informações que tenho aqui no sistema, sugiro que aguardem por mais notícias.
— Tudo bem, obrigado.
Leo puxou Colin até que ele se sentasse. Um garoto daquele tamanho conseguiu chamar a atenção de toda a recepção do hospital, até mesmo de salas mais próximas. Colin repousou sua cabeça nos ombros de Danion e passou a chorar mais, porém, dessa vez, o típico choro da calada da noite.
— Eu não vou sair do seu lado. — Danion disse.
Logo ele, que desde a chegada de Colin na república, vivia a trocar farpas. Bons amigos que, diante de todas as desavenças, não deixavam um ao outro.
Se Danion era o pai de Colin naquela situação, Leonard era a mãe. Caine sempre seria o irmão. Ser leonino era isso: uma família.
A mulher, que minutos atrás estava no balcão e viu a situação de Colin, apareceu com um copo com água e calmante para entregar ao pequeno. Ainda existiam pessoas boas no mundo.
[...]
Edgar estava sozinho em sua república, mas diante do problema que estava passando, aquilo era o de menos. Ainda não acreditava que seu namorado tinha decretado término, culpando a distância, sendo que foi ele quem sugeriu o relacionamento daquela forma.
Há uma semana, Edgar tinha comprado um presente ao namorado, já que tinha planejado fazer uma surpresa. Sim, o loirinho iria passar o final de semana com ele, mesmo que para isso sacrificasse um dia da universidade.
Faminto, consequência das horas seguidas sem comer e apenas chorando, foi até a cozinha. Não gostando do que estava encontrando, mais tarde diria para William que o estoque de alimentos estava acabando. Foi até seu quarto e procurou por agasalhos, pronto para sair debaixo da neve que caía.
O único lugar atendendo naquele momento era a lanchonete. O lar de todos os universitários quando faltava algo na república.
Ao chegar à lanchonete e se desfazer do agasalho coberto pela neve, Edgar optou por fazer seu pedido diretamente no balcão, julgando ser um atendimento mais rápido a ter que esperar alguém ir à sua mesa.
Devido à neve que caía, o movimento da lanchonete também tinha caído. Afinal, a maioria preferia estar dentro de suas repúblicas, protegendo-se do frio. Uma das melhores horas para dormir.
Feito o seu pedido, o loirinho caminhou para uma mesa no canto, próxima às janelas ao lado da avenida. Dali viu carros passando. Checou seu celular mais uma vez e viu mensagens do agora ex-namorado tentando conversar com ele. Edgar ignorava todas, ainda não estando preparado para conversar.
— Posso me juntar a você? — Perguntou um rapaz, educadamente.
Edgar conhecia aquele garoto. Era Harry, amigo de Colton. Só por pensar em Colton, o loirinho sentiu-se desconfortável. Mas como não conseguia dizer não, apenas balançou sua cabeça, dando sinal positivo.
Harry sorriu ao se sentar.
— Os seus amigos, onde estão?
— Em algum lugar por aí. — Respondeu sem querer ser grosso. Mas não confiando no garoto, jamais falaria.
— Pensei que todos estivessem na república discutindo sobre o acidente do Sean. Mas então eu vi que Colin e outros saíram, provavelmente para o hospital, é verdade?
— Por que não deixa o Colin em paz? Acha justo ter dedurado ele pro William?
— Acha justo ele permanecer mentindo para todos vocês? Só fiz um favor. Odeio que mintam para mim, então, não deixaria que ele fizesse o mesmo. Além disso, você está do lado errado. Deveria permanecer ao lado de Colton.
— Não existem lados. E-eu gosto do lugar que estou... Colton só fez escolhas erradas. Eu ainda espero um pedido de desculpas pelo que ele fez aos meus amigos. Eu o perdoaria.
— Quando eu te vi pela primeira vez, não imaginei que você pudesse ser tão frágil assim, Edgar. Era tão calado, apenas observando tudo e todos. Mas... Até que é bonitinho, sabe, nunca fui de ir para cama com alguém como você.
As bochechas de Edgar coraram.
— Está constrangido? — Sorriu, tocando o queixo do loirinho. — Como você fica lindo.
Edgar afastou seu rosto da mão de Harry.
— Eu gostaria que você me deixasse sozinho nessa mesa. Por gentileza.
— Mas já? Eu acabei de chegar. Temos uma noite longa para nos conhecermos. Não quer ir para outro lugar fora daqui? Posso prometer fazer um jantar melhor, sou cozinheiro de mão cheia. — Puxou sua cadeira para se aproximar de Edgar.
— Eu posso te denunciar por isso, sabia?
— Será mesmo? Poxa Ed, você esteve tanto tempo sem esse tipo de carinho, aposto que também está querendo o que eu quero. Posso ser melhor que seu namorado.
— Ex-namorado!
— Ótimo! Isso significa que podemos fazer as coisas sem ressentimentos.
— Posso ajudar, Harry? — A voz.
Como mágica, Joshua parecia ter se projetado atrás de Harry, colocando uma de suas mãos no ombro do garoto, pressionando. A cara de dor que Harry fazia declarava ali o quarto forte o ruivo estava apertando.
Harry olhou para trás e tentou afastar a mão que apertava seu ombro, mas não conseguia. Joshua o soltou alguns segundos depois quando percebeu que o garoto estava se contorcendo de dor. Harry ficou de pé, mas Joshua o segurou pela mão, dessa vez apertando novamente.
Os lábios do ruivo foram de encontro aos ouvidos do moreno, sussurrando:
— Da próxima vez que eu encontrar você encostando nele, juro que quebrarei seus dedos. Ou quer que eu faça isso nesse exato momento? — Pressionou ainda mais a sua mão.
Harry olhou para sua mão e, não aguentando mais, gritou, chamando atenção de toda a lanchonete. Joshua o soltou imediatamente.
— Agora sim ficarei feliz em sair na primeira página do seu jornal de merda.
Harry temendo responder optou por sair dali. Com certeza teria que tomar algum remédio para dor, pois o ruivo não havia pegado leve e, se quebrou algum dedo, nada poderia fazer. Afinal, Joshua não tinha coração para esse tipo de coisa.
Edgar estava com os lábios entreabertos e os olhos fixos no ruivo, que olhava para trás, vendo Harry ter dificuldade para abrir a porta e sair.
O ruivo então olhou pra o loirinho, que permanecia com a mesma expressão assustada ou encantada. Piscou e deu as costas.
— Não vai... Ficar comigo. — Edgar pediu.
Joshua parou imediatamente e se virou.
— Para o seu bem, eu não posso ficar próximo de você. — Disse, lembrando-se de Noah e Megan. — Mas ficarei sempre de olho, não se preocupe.
— Para o meu bem? — Indagou confuso.
— São coisas que você nunca vai entender.
— Eu estou triste, queria alguém para conversar. — Suplicou.
— Não sou um bom ouvinte, não sei dar conselhos.
— Só me escuta.
Vencido pela insistência do loirinho, Joshua sentou com os cotovelos apoiados à mesa. Ele arrumou seus cabelos e olhou para trás. Era incrível como ele conseguia atrair a atenção de todos, principalmente estando ali com Edgar. O oposto da sua personalidade.
— Primeiramente, obrigado por fazer Harry parar de me provocar.
— Ele não vai mais fazer aquilo.
— O que você sussurrou?
— Melhor não saber. Mas ele certamente entendeu o recado.
Nesse mesmo momento, o pedido de Edgar tinha chegado à sua mesa. Os dois ficaram em silêncio até que o garoto que servia foi embora. Edgar se levantou e foi até o balcão e voltou com uma faca, dividiu seu lanche ao meio e uma parte entregou ao Joshua, que segurou sem pestanejar.
— Você acha mesmo que minha fome acabaria com isso?
— Eu só tenho alguns trocados, não dava pra comprar outro. — Disse constrangido.
O ruivo sorriu e devolveu o pedaço do sanduíche.
— Não se preocupe, eu já tinha feito meu pedido. Ele provavelmente vai ser entregue em cinco minutos. Então, me conte o que está acontecendo.
Edgar abaixou sua cabeça ao se lembrar do namorado, que por minutos até havia esquecido. Ele mordeu o seu sanduíche e limpou a boca com o guardanapo.
— Ele terminou comigo por telefone.
— Chorou? — Perguntou, mesmo sabendo da resposta.
— Estava chorando até minutos antes de receber a notícia do acidente do Sean. Eu o amava, oras. Eu tinha comprado um presente, pois faríamos um ano e dois meses de namoro. Ia visitá-lo amanhã.
— Você deveria se sentir melhor. Seu relacionamento não estava te fazendo bem e vejamos, levando em consideração que você é universitário e precisa estudar bastante, sendo bioquímico, pouco era o tempo que você tinha para se comunicar com ele.
— Nós tínhamos combinado de sempre ligar um para o outro, mesmo que fosse apenas para um: “boa noite”. E sempre existe tempo, mesmo que alguns minutos.
— Você tem razão. Mas é esta a consequência de viver um relacionamento à distância. Eu acredito, mas sei das dificuldades e levando em consideração de que o prefiro solteiro, está ótimo para mim.
— Você não se importa mesmo, não é?
— Não.
— Tudo bem.
— Posso ir?
— Se quiser, não tem problema. — O loirinho abaixou sua cabeça.
— Amanhã eu te espero em frente à universidade, as 19hrs. Vamos sair, assistir um jogo de beisebol. Saiba que não terá hora pra voltar, então avise aos seus amiguinhos. — Disse, levantando-se. — Principalmente ao seu líder. — Não quis pronunciar o nome de Danion.
— Não irei, Joshua. Não é legal fazer isso com meus amigos, principalmente depois do que vem acontecendo com Colin. Não quero ser mais uma vítima ou vilão.
— Está marcado, amanhã as 19hrs. — Joshua deu as costas.
— É impressão minha ou você está me vigiando? — Edgar perguntou e surpreendeu ao ruivo, que novamente parou e se virou.
Joshua imediatamente puxou uma caneta do bolso e um guardanapo que estava na mesa, anotou seu número de celular, dobrou e pôs no bolso da calça que Edgar usava.
— Esse é meu novo número, somente você tem. Não deixe de me ligar se perceber que tem pessoas te seguindo, certo?
— Você tá me deixando confuso. Estou em perigo?
— Amanhã, tudo bem? Não quer dormir comigo hoje? — Perguntou.
— Você está começando a agir como o Harry... — O pequeno disse, constrangido.
— Não é isso... Quer dizer... — Joshua parecia estar nervoso — Eu só quero que você fique seguro. Nunca se esqueça desse número, Edgar.
Joshua imediatamente deu as costas sem antes dar a oportunidade de Edgar falar algo. O loirinho permaneceu em seu lugar, sentado, observando através da janela Joshua desaparecer. Dez minutos se passaram e finalmente Edgar voltou a comer o seu sanduíche.
[...]
— Onde está o Colin? — Caine perguntou para Danion, despertando-o do cochilo.
O mais novo dos Luduzi estava segurando, em suas mãos, uma bandeja contendo um prato de sopa e torradas. Ele tinha comprado no restaurante do hospital e, com muita insistência, conseguiu trazer o alimento até a recepção.
Danion, por sua vez, estava sem saber o que falar. Tinha pegado no sono e não viu que Colin tinha fugido.
— Deve estar com Leo. — Danion disse, procurando uma desculpa.
— Comigo? — Nesse mesmo momento Leonard apareceu discando o celular. — Que droga, William não atende. O que estava comigo?
— Colin. Ele sumiu! — Caine procurou ao redor.
Pela falta de presença que Colin estava tendo nos últimos dias, foi fácil conseguir passar pelo corredor, onde dois seguranças, distraídos, não o perceberam. Colin já não conseguia mais ficar parado esperando por notícias, há quase três horas estava naquele hospital, apreensivo e com uma angústia sem fim.
Se era certo ou errado estar fazendo aquilo, ele não sabia. Se iria se arrepender? Talvez sim. Porém, declarou diante de seus colegas que o seu lugar era nos braços de Sean. Porque a ligação entre ambos era visível, notável e bela.
Mesmo que seus amigos lhe virassem as costas, que lhe dissessem “não”, que o julgassem... Colin provavelmente seria capaz de abrir mão. O amor costuma cegar. Não que Colin estivesse cego, mas ele não iria mais sacrificar algo na sua vida. Se William o odiasse mais, teria que aprender a lidar com isso. Se ter um significa não ter outro... Ele teria Sean.
Colin passava pelos enfermeiros, embora chamando atenção pelas roupas amassadas e sujas, isso porque tinha passado todo o dia com as mesmas vestes.
Já tinha olhado cerca de dez salas, passado pela área vermelha e se assustado com alguns casos. Não era nada agradável estar dentro do hospital, sabendo que dali poderia receber uma péssima notícia.
Colin já estava no segundo andar do hospital, no terceiro corredor que entrou. Nele, já tinha passado por três salas, na quarta parou para descansar. Quando ficou na ponta dos pés e pôs a cabeça através do vidro transparente da porta, seu coração, imediatamente, congelou. Parecia ter engolido pedras de gelo e seu estômago começou a se contorcer.
Colin tocou a maçaneta da porta, preparado para girá-la.
— Colin? — Era a voz de William.
O pequeno se virou assustado, vendo William de branco, com as mãos nos bolsos do jaleco.
— Você não deveria estar aqui. É melhor ir.
— Eu preciso vê-lo. — Suplicou.
— Ele dorme, está dopado por remédios. Volte para a república.
— Eu só preciso vê-lo...
— Colin...
— Eu sei que terei seu ódio por estar aqui. Sei disso e de todas as consequências, mas William, eu não consigo, desculpe. — Ele abaixou a cabeça.
William, mesmo estando magoado, não disse nada. Por mais duro que fosse seu coração, por maior que fosse seu orgulho, ver Colin naquela situação, destruído, deixava-o entristecido e ao mesmo tempo com pena.
— Sean passou por uma cirurgia, Colin. Não é o melhor horário para visita, mas se você prefere entrar, faça isso.
Se era William ou o presidente, Colin não fez o contrário. Apenas abriu e a porta e entrou no quarto, o loiro, para sua sorte e conforto, o acompanhou, trancando a porta.
Apesar de tudo, William ainda permanecia sendo o protetor de Colin. Caso contrário, chamaria os seguranças ou ele mesmo o arrastaria dali. Coração de ouro.
Colin observou distante o corpo repousado do moreno sobre aquela cama, ainda recebendo soro.
As paredes do quarto eram verdes, uma poltrona estava ao lado da cama do moreno. Pequeno, mas aconchegante.
Colin aproximou-se mais do corpo do moreno, vendo as várias marcas do acidente espalhadas pelo seu corpo. Seu supercílio provavelmente tinha pegado seis pontos. Os braços também estavam com ferimentos, principalmente suas mãos.
Colin se virou e chorou, mas chorou abraçado a William, que não teve como prever aquilo e permaneceu em seu lugar. Ele não envolveu Colin em um abraço, mas deixou seu corpo como apoiou para o pequeno.
— Ele vai sair dessa, não vai? — Perguntou choroso.
— Sugiro que fique observando-o mais um pouco, Colin. A qualquer momento alguém entra aqui.
Colin se desfez do corpo de William e enxugou suas lágrimas. Ele também conseguia aceitar que aquela seria sua última vez ali, vendo o moreno. Por conhecer a mãe dele, ela certamente iria proibir a sua visita. E não importava dizer se era namorado ou não. Suzana era influente na área da saúde.
— Eu morri?
Quando Colin ouviu aquela voz, imediatamente se virou. Sean estava de olhos abertos. Ele parecia estar acordado há um tempinho.
Sean virou um pouco sua cabeça para o lado e viu Colin aproximando-se.
— É você o enfermeiro? — Perguntou. Colin negou com a cabeça. —Estou com fome. — Disse.
Colin olhou para William, mas o loiro não mostrou expressão alguma. Apenas murmurou:
— Ele está dopado, com falhas na memória. Logo passa.
Colin voltou seus olhos para Sean, mas ele sorria de lado. Colin estava achando tudo aquilo estranho.
— Cara, você não é mesmo o enfermeiro? — Aquela voz levemente rouca era típica do moreno ao acordar.
— Descanse, Sean. Acho que você não pode falar muito. — Leigo, disse.
— Você é bonito. — Colin corou e William ficou constrangido pelo pequeno. — Cara, você é muito bonito.
Colin novamente olhou para trás e William não retirou os olhos dos dois. Colin tocou os fios caídos na testa do moreno e os afastou.
— Quem é a sua namorada? Sortuda ela, hein. Se você fosse gay...
— Sean... —Colin interrompeu. — Cala a boca porque eu achei que você tinha morrido. — Nada muda quando um moreno descarado começa a falar.
Naquele mesmo momento o coração de Colin estava voltando a aquecer. Saber que o acidente não matou o cara que mais amava em toda a sua vida, era, sem sombra de dúvidas, a melhor notícia que já tinha recebido.
— Você ainda não me respondeu quem é a sua namorada. Seus olhos são lindos, enfermeiro.
— Eu não sou seu enfermeiro.
William era obrigado a suportar tudo aquilo.
— Eu sou seu namorado. — Colin disse, mesmo sabendo que aquilo incomodaria William.
Os olhos do moreno mostraram a surpresa que ele sentiu.
— Sério?! —Ele sorriu e gemeu de dor com os lábios também cortados. — Você só pode estar brincando comigo.
Colin pela primeira vez sorriu diante a tempestade. Um sorriso encantador.
— Quem é ele? — Sean perguntou para o loiro logo atrás. — Aposto que é ele seu namorado. Tudo isso é uma pegadinha.
— Quem dera você não se lembrasse do mal que já o fez. — Colin murmurou.
— O quê? — Perguntou.
— Você e eu somos namorados. — O pequeno sorriu.
— É nada... Você tá falando sério? Meu Deus! Eu sou o cara mais sortudo do mundo.
Colin sentiu seu rosto mais uma vez arder, certamente estava começando a ficar vermelho e torcia para que William não o odiasse mais ainda. Encontrar Sean naquela situação, com falhas de memória e o melhor, feliz e idiota, seria uma cena que para sempre iria recordar.
— Nós temos que ir... — William disse, interrompendo o momento.
Colin afirmou. Ele não queria forçar a barra. Reconhecia que William só quis ajudá-lo, por mais que doesse nele.
O pequeno olhou para Sean que mantinha um semblante diferente, até meus aquele olhar traiçoeiro e desafiador tinha perdido o poder que tinha, deixando-o dócil. Sean sorria para Colin e nesse mesmo olhar, balançou a cabeça, chamando Colin para mais perto dele.
Colin aproximou seus ouvidos do rosto do moreno.
— Sério que essa bunda é só minha? Cara, eu tenho muita sorte!
Se fosse Colin, o mesmo Colin do dia em que o conheceu, não importava os ferimentos de Sean, ele certamente iria tomar socos seguidos do pequeno. Colin somente afastou sua face e revirou os olhos. Passou seu polegar na maçã do rosto do moreno e lhe mandou um último sorriso.
— Vou procurar saber que remédio é esse... Acredite, você não é assim. — Disse o pequeno.
— Como assim? — Sean indagou.
Colin balançou a cabeça e, acompanhado de William, saiu do quarto.
William não disse nada, somente passou a caminhar sozinho em direção oposta à de Colin. Ele sentia-se fraco diante do pequeno, principalmente ao perceber como ele se sentia diante de Sean. Ele simplesmente percebia ali que não valia à pena. Colin sempre escolheria a Sean. O que lhe confortava era saber que Octavio o escolheu.
O loiro só parou de caminhar ao notar que Colin o seguia.
— A saída não é por aqui. — O loiro tinha dito.
— Eu queria te agradecer. — Colin abaixou sua cabeça.
— Não faça isso.
— Obrigado. — Dito isso, ele finalmente deu as costas e caminhou novamente para o encontro dos seus amigos que certamente estavam a sua procura.
William permaneceu em seu lugar por alguns segundos até também dar as costas para Colin. Os caminhos, a partir dali, seriam seguidos pela independência.
Colin e William não existia mais.
[...]
Colin voltou à recepção do hospital e encontrou apenas Danion. O branquelo chamou toda a atenção quando gritou por seu nome, dando-lhe um sermão que Colin jamais esqueceria. O típico sermão de alguém hipócrita...
O pequeno, como já estava acostumado, abaixou sua cabeça e naquele mesmo momento, ouviu a voz mais enjoada do universo: Suzana.
Colin levantou sua cabeça, Suzana o olhou. Os dois trocaram olhares cheios de ameaça, ódio e desprezo. Colin passou pela mulher sem abaixar a cabeça, Suzana permaneceu na mesma elegância de sempre.
Na saída, Danion ainda continuou dando-lhe sermões sobre o seu desaparecimento. Dizendo que aquilo não era coisa que se fazia. Que já estava ligando para a polícia e, pior, pensando que Colin tinha ido cometer suicídio.
— Se eu fosse teu pai, estaria te dando uma bela surra.
Danion foi surpreendido pelo abraço de Colin, cheio de ternura. O branquelo imediatamente deixou de proferir as palavras que ainda tinha a dizer. Estas ficaram presas em sua garganta diante daquele gesto.
— Não ache que vou calar a boca. —Disse mais calmo.
— Obrigado, meu amigo. — Colin murmurou.
Nesse momento Leo e Caine se aproximaram. Dali, novos sermões seguiram e Colin, coitado, teve que aguentar tudo até voltar para a república.
A notícia da sua falsa morte deixou de se espalhar, mas o seu acidente era real. Não existiu ninguém preocupado com isso, senão o leonino. Porém, Colin reconheceu, ao sair daquela sala, que precisava ter uma longa conversa com Sean.
Quando? Ele não sabia. Mas tinha certeza de que derrubaria a muralha chamada Suzana.
[...]
Todo plantão era cansativo. Pelo menos William sempre concordou com a frase. Quando o sol dava seus sinais de vida, dali em diante era considerado um novo dia. No plantão de doze horas, William trabalhou sem descanso, exceto os intervalos para alimentação.
— Não quer dormir em outro lugar hoje? Tem certeza de que quer voltar para a república? — Octavio perguntou.
Desde o que presenciou entre Colin e Sean, William sentia-se triste. Não era ciúmes por desejos mais íntimos. Não era isso e William tinha certeza. Mas era o fato de Colin ter feito escolhas. Como sabia que Sean e Colin provavelmente iriam conversar, William já estava começando a aceitar a derrota. Era tão próximo de Colin, mas este agora era apaixonado por seu maior rival.
— William? — Octavio chamou sua atenção, despertando-o. — Ouviu o que eu disse?
— Podemos ir para um hotel. Acho que vai ser melhor assim.
— Certo. Vou reservar um quarto para nós dois.
William confirmou com sua cabeça e deu as costas para o namorado.
— Para onde vai?
— Dar uma última checagem nele. Sou o responsável por isso, lembra?
— Estou orgulhoso de você.
William não sorriu e balançou a cabeça negativamente. Ele ainda se sentia idiota.
Como de costume, caminhou com as mãos no bolso do jaleco. Subiu de elevador, com preguiça de ir pelas escadas. Ao chegar no quarto de Sean, William respirou fundo para ainda manter o controle. Se fosse tomado pela raiva, seria capaz de cometer loucuras.
O loiro somente pôs os pés no quarto e ouviu a voz do moreno no mesmo momento.
— Sabia que você apareceria, mais cedo ou mais tarde. —Disse Sean.
Agora, não mais dopado de remédios e ciente de tudo o que lhe tinha acontecido. O moreno era quem sempre foi: frio e arrogante.
— É o meu dever cuidar de quem salvei a vida. —Jogou na cara.
Sean sentiu o peso daquelas palavras. O seu orgulho logo lhe dominou e ele se negou a aceitar aquilo. Logo William, a pessoa que ele mais detestava no mundo, foi o responsável pelo seu bem.
— Já vi o que tinha que ver. Meu plantão terminou. — Disse o loiro, tocando a maçaneta da porta.
— Nós precisamos conversar. — Disse o moreno, deitado e imóvel, olhando-o.
— Nunca seríamos capazes disso. — William também mostrava que era frio e arrogante.
— Colin.
William se virou.
— Ele não é o único problema entre nós dois. — Disse Sean.
— Ele seria o menor dos problemas se pegássemos toda a nossa história.
— Você pode me ouvir? — Sean indagou, para a surpresa de William.
William quis sair do quarto e ir embora, sabia que Octavio estava esperando-o. Mas a forma que Sean o chamou acabou sendo maior que sua vontade. Aquele dia nunca foi esperado pelos dois, novamente, tentaria manter o seu controle.
William fechou a porta e se virou, cruzando os braços.
— Eu não sei por onde começar. Ainda tenho vontade de te socar todas as vezes que te vejo. — Foi sincero.
— É recíproco.
Sean ficou em silêncio por alguns segundos e fitou o teto.
Da mesma forma que era difícil para Sean, também era difícil para William. Afinal, quem esperava pro um momento assim? O orgulho e a arrogância, quando se tratava desses dois juntos, eram maiores do que qualquer outra coisa.
Foram anos e anos seguidos de brigas e mais brigas, envolvendo até que não merecia.
Mas Sean tinha começado com isso e teria que ir até o fim. Chega de bancar o filho revoltado e invejoso.
— Por que não fez o que era preciso? — Perguntou o moreno.
— O que? Te matar? —William tinha imaginado esse tipo de pergunta.
— Você poderia facilmente ter feito isso. Qualquer complicação em minha cirurgia e você sairia vitorioso.
— Estaria indo contra todos os meus princípios médicos e eu não sou um assassino. Mas eu te respondo que me arrependo. Arrependo-me de ter feito parte da sua cirurgia. Qualquer um, menos eu. Mas estou fazendo residência e é meu dever seguir as ordens do meu instrutor.
— Não sei se devo agradecer... —O moreno tentou mover seu braço, mas doía bastante e ele permaneceu do jeito que estava. — Não estava nos meus melhores dias. Você sabe que eu o amo, não sabe?
— Eu não quero saber de nada relacionado a você e Colin, Sean.
— Sejamos homens maduros, não é mesmo, William? Se formos conversar sobre tudo, Colin estará envolvido. Não só ele... Octavio também.
— Vai querer contar suas vitórias sobre mim?
— Quem está com Octavio? — Perguntou o moreno. — Não é quem tem e quem não tem. Somos nós dois, William. Nós somos os problemas.
— Não, Sean. Você é o problema. Desde o dia em que descobrimos que éramos irmãos. Você declarou ódio a mim, graças a sua mãe. Eu cresci sendo perseguido e perdendo amizades por sua causa, o que de fato se repete até hoje. Porque você não é feliz sem tentar retirar algo de mim.
— Você tem razão. Se quiser, pode falar mais. Porque isso não chega perto do que já te fiz.
— Não devemos lavar roupa suja dentro do quarto de um hospital. Nesse caso eu posso sim fazer o que não fiz enquanto você passava pela cirurgia.
Sean sorriu por um segundo até ser desfeito:
— Eu sempre fui o número 2.
— Não diga isso. Você sabe que não. Quem viveu como filho bastardo fui eu. — William finalmente descruzou seus braços e sentou-se na poltrona, de modo com que suas costas não encostassem, suas pernas ficassem entreabertas e os cotovelos em suas coxas.
— William, me dói admitir, mas eu sempre tive inveja de você e por ser financeiramente mais agraciado, usava disso para te tirar o que não tinha. Você sabe que ninguém me suporta e na época, apenas Octavio era meu amigo. Não o quis perder para você. Eu te odiava e... Ainda sinto raiva de você por isso.
William não conseguia acreditar nisso tão facilmente, tanto é que não se sentia abalado.
— Sério, Sean? — Ele então olhou para o moreno. — Tudo isso por inveja? Inveja do seu irmão bastardo? Caralho! Você me infernizou durante toda a infância até maior idade e, pior ainda, envolveu os meus amigos em nossa guerra. Você veio para Seattle só porque eu fui chamado para cá.
— Em partes sim, você tem razão, novamente. Mas saiba que não estou em Seattle por sua causa. Estou aqui por Octavio e te digo com toda a sinceridade. Eu já fui apaixonado por ele, William. Engraçado, não? —Riu. — Pode me bater, eu sei. É a primeira vez que falo isso. Mas como eu era ingênuo e estava me descobrindo, percebi que não era uma paixão amorosa, você sabe... Octavio era o meu melhor amigo. O irmão que você não era. Mas do que adiantou? Eu tranquei a universidade.
— Você é burro por abrir mão de um sonho. Já deveria estar formado e você sabe bem disso. Sobre ser apaixonado por Octavio, eu desconfiava. Pior seria se isso fosse algo verdadeiro, eu iria te matar cedo ou tarde. Por sorte descobriu que tudo era apenas um amor de irmãos. Mas não adianta, o que você fez e o que vai fazer, sempre vai acabar afetando todos ao meu redor. Eu não acredito em lobos que vestem pele de cordeiro, Sean.
— É um direito seu, não vou te forçar a acreditar em nada. Tenho noção do mal que eu te fiz. Mas você também me fez mal, William. Se você sabia que Octavio era meu pilar, porque fez questão de tentar retirá-lo de mim? Não se faça de mocinho da história. Você também adorava me humilhar e querer o meu mal.
— Eu não poderia deixar você se sair por cima de tudo. Alguém tinha que te colocar no lugar. Não fui eu quem destruiu sua amizade com Octavio. Você mesmo é o culpado por isso ao planejar nosso término.
— Cada um luta com as armas que tem e apaixonado por Colton, na época, eu fui capaz disso. Mas não o culpo por nada. Eu certamente faria a mesma coisa novamente. Sinto falta do Octavio.
William não se pronunciou pelo namorado, somente ficou em silêncio. Ele já não via mais motivos de continuar tendo aquela conversa. Já que nenhum dos lados cedia, por mais que Sean estivesse dando ao loiro razões e mais razões, concordando com ele.
— Quando vai perdoá-lo? — Sean drasticamente voltou o assunto para Colin.
William passou a mão pelos fios loiros e abaixou sua cabeça.
— Não sou capaz de fazer isso.
— Colin está sofrendo e você o conhecia melhor do que eu para saber que falo a verdade.
— Eu achava que o conhecia, Sean. Olha a surpresa que eu andei tendo? — William imediatamente se levantou — Você o tirou de mim... Novamente procurando me derrubar.
Sean, deitado, balançou a cabeça negativamente.
— A diferença é que eu sou apaixonado por ele, William, e diante de você estou admitindo isso. Não me importa se você vai ficar mais triste com isso. Você sabe que não me importo. Minha intenção nunca foi te tirar o Colin, nem mesmo eu sabia que seria capaz de me apaixonar por aquele garoto.
O coração de William gelava mais e mais. O doce veneno do ciúme tomava-lhe conta.
— Como Colin está me odiando e nunca vai me perdoar por eu magoá-lo, novamente aceitando os comandos de Colton, eu abro mão da minha felicidade pela dele. Só você consegue resgatá-lo, William. Colin vai se transformar em outro alguém em breve.
William o olhou, incrédulo. O moreno já não olhava para ele e fitava o teto, os olhos umedecidos. Sean não se lembrava de horas antes quando estava dopado por remédios após a cirurgia, como se fosse um bêbado, e, agora, com as memórias no lugar, estava admitindo sacrificar sua felicidade para o bem de Colin.
— Você é louco.
— E então? Vai perdoar Colin? Eu prometo nunca mais te fazer mal. Sairei da Quadra e de Seattle.
— Sean, eu...
— Trato feito, ok, William? —Sean sorriu. — Quem diria, eu em você numa conversa de paz.
— Eu não posso fazer isso. — O loiro admitiu.
— Por que não?
— Não há nada que consiga separar vocês dois. Tanto é que nem mesmo a morte foi capaz de fazer isso. Quem sou eu diante dela? — O loiro o encarou, Sean o olhou. — Estou destruindo-o por não aceitar esse relacionamento de vocês. Mas, Sean, ainda não admito e não concordo. Porém não falarei nada, apenas deixarei com que vivam.
— William, Colin é como se fosse Octavio no passado...
— E é por isso mesmo que não serei capaz de acabar com o que existe entre vocês. Nós quatro estamos ligados de alguma forma. Você era melhor amigo do Octavio, mas ele é meu namorado. No final, esteve comigo. Colin me considerava seu pilar, mas é você com quem ele quer ficar. Acredite, eu vejo isso nos olhos deles. — Não revelou sobre a situação de hoje mais cedo.
Sean ficou em silêncio e não disse mais nada diante do que ouviu. William arrumou o seu jaleco e verificou um pouco mais da situação de Sean e seus ferimentos. Caminhou até a porta.
— Eu vou indo, Sean. Sabemos que depois que eu ir embora, tudo volta à estaca zero. Por isso, saiba que ainda não abaixarei a cabeça para você.
— Posso te fazer um pedido antes de ir embora?
William esperou, sinal de que aceitou ouvir o moreno.
— Quando eu receber alta, quero você e meu pai na minha casa. Precisamos conversar, eu, você e ele.
— Alguma ocasião em especial? — Olhou para o moreno.
— Muito especial. — Ironizou, não perdendo as raízes, Sean sorriu de lado.
William não disse nada, mas seu silêncio era uma resposta positiva.
[...]
Quando Colin pôs os pés no gramado de sua república, tomou uma decisão, surpreendendo a todos, o pequeno deu meia volta e passou a caminhar até a república dos Tigres. Ele bateu a porta educadamente e, quando foi atendido pelo seu maior rival, proferiu:
— Nunca mais ouse se meter na minha vida.
Nem mesmo Colton conseguiu prever o tapa na cara. Sua face virou e seus cabelos caíram sobre a testa. Colton somente sorriu de lado e esfregou a região onde foi atingido.
Colin estava furioso.
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