Notas iniciais
Conexão

Os primeiros flocos de neve caíam sobre os fios negros de Ian, que, preparado para a noite, já estava agasalhado. Connor estava ao seu lado, de pé. Juntos estavam parados em frente ao restaurante que Ian havia escolhido para aquela ocasião.

Connor, sempre hiperativo, não parava um minuto em seu lugar. Sempre dando voltas e voltas, olhando para todas as direções, ansiando pela presença de alguém. E este alguém não era seu namorado, certamente.

— Tem certeza de que eles vão gostar de mim? — Ian perguntou, apreensivo.

— Tenho, aposto que minha mãe vai te trazer algum presente.

— E seu pai? Ele...

— Chegaram! — Falou, interrompendo a frase do outro.

Connor permaneceu em seu lugar, sorridente. Olhando seus pais saírem do carro enquanto o manobrista adentrava, tomando o volante. A mãe de Connor era bem mais alta que seu pai. Os cabelos chegavam à cintura. Já o pai estava abaixo dos ombros da mulher. Quem não soubesse que eles eram casados, certamente estaria como Ian, confusos. E olha que este sabia disso, mas foi obrigado a engolir as milhares de indagações.

— Como é que se faz? — O pai de Connor perguntou, abrindo um sorriso de ponta a ponta.

Connor estendeu a mão e seu pai também, logo fizeram uma sequência de apertos com ambas as mãos, deram um giro, mais uma sequência de apertos até finalizarem com um salto e soco no ar.

Ian assistiu aquilo impressionado e cada vez mais confuso.

Connor abraçou seu pai, como se fossem velhos amigos. Nem sequer parecia uma relação de pai e filho, algo padrão.

— Não, eu não vou fazer isso. Estou de salto! — A mulher tinha dito assim que viu o sorriso bobo do filho.

Mas Connor apenas a abraçou, sem se preocupar com a roupa extravagante que ela usava.

— Senti saudades! — Ele disse, apertando mais forte a mãe.

— Connor, assim você me machuca! — Resmungou a mulher. Connor finalmente a soltou.— Você está cada vez mais bonito, às vezes me pergunto como fui capaz de fazer essa obra prima. — Disse a mulher, bagunçando o cabelo do filho.

— Ei, eu sou parte disso tudo. — O homem também tinha dito, achando injusto ela tomar todos os créditos.

— Por nove meses eu o carreguei na barriga!

— Ah é? Então imagina se... —Ela levou o dedo à boca do marido. Ele entendeu o recado.

— Precisamos procurar um novo jeito de nos cumprimentarmos, pai. Eu vi um vídeo na internet bem maneiro, vamos ensaiar depois. — Connor parecia bastante empolgado pela presença dos pais.

— Daqui a uns dias eu vou andar de cadeira de rodas só por causa disso. Espera, eu-vou-andar-de-cadeira-de-rodas! — Falou, pausadamente. — Isso é incrível! Imagina só, eu simplesmente falar: Me empurre! Cara, vai ser o máximo.

Ian sentia estar no lugar errado. Agora ele percebeu o porquê de Connor ser daquela maneira. Seu pai era tão bobo quanto ele e a mãe um pouco alegre. Ambos tratavam Connor como se ele ainda fosse uma criança e, pelo que Ian percebia, eles eram bem unidos.

Greta era a mãe e James era o pai. Eles se conheceram ainda na adolescência e só passaram a namorar três anos após o primeiro beijo que deram. Greta sempre foi mais decidida quanto a tudo e foi graças a ela que este relacionamento aconteceu. James era desligado demais para perceber que ela estava interessada nele.

— E então, cadê ela? — Greta perguntou.

— Sim, eu quero conhecê-la. — James falou, os olhos brilhando como se estivesse sonhado com aquele momento.

Foi então que Ian sentiu um buraco se abrir logo abaixo dele. Isso até seria bom, já que certamente não teria de enfrentar o que viria pela frente.

Connor coçou a cabeça e novamente sorriu como um bobo, mantendo o olho esquerdo fechado.

— Então...

Ian puxou sua camisa, não querendo que ele contasse a verdade. James olhava para o céu e estava de boca aberta, tentando engolir alguns flocos de neve que caíam. Por um tempo eles nem haviam percebido que estavam sobre a neve, mas Greta os induziu a irem para debaixo da sacada do restaurante.

— Nossa, que grosseria minha. Por um momento eu achei que esse garoto não estava com você. — Greta tinha dito.

Ian agradeceu por finalmente alguém notar a sua presença.

— Eu tenho a impressão de que lhe conheço de algum lugar. — James avaliava Ian, como se ele escondesse algum segredo.

— Eu te mandei fotos, pai. Do meu amigo, o Ian. — Connor explicou.

— Ah sim... Lembrei, mas sei lá, ele me lembra alguém. — Passava a mão em sua barba mal feita.

Ian ainda foi educado e estendeu a mão para James que aceitou sem pestanejar. Greta também aceitou o aperto de mão, mas o puxou para dar-lhe um beijo na bochecha e receber outro em troca.

— A sua namorada vai demorar para chegar? — James perguntou, olhando para o relógio. — Eu tô com fome, Connor.

— Eu não tenho namorada. — Connor disse.

Ian estava impressionado com a postura de Connor. O namorado não parecia assustado ou algo do tipo. Sempre mantinha aquele sorriso bobo, como se estivesse acabado de contar algo idiota que apenas ele achava graça.

— Eu tenho namorado. Ele é o meu namorado.

Após fazer a revelação, Connor pôs seu braço sobre os ombros de Ian, aproximando-o mais de si e, para piorar a situação — nos pensamentos de Ian, ele o beijou na bochecha.

Greta e James estavam boquiabertos. Por dez segundos eles mantiveram os olhos fixos nos dois, até então trocarem olhares.

— A culpa é sua! — Greta acusou.

— É sua! — James se defendeu.

Ian já estava pronto para ouvir insultos, mas não abaixou sua cabeça em nenhum momento. Somente olhou para Connor que parecia não estar assustado e apenas ria da situação.

— Seu pai é um burro! Eu disse para ele que deveríamos trazer algo unissex! Eu sugeri um livro, eu sabia! Eu sabia!

— Burro?! —Perguntou, sentindo-se ofendido. — Mas eu nem sabia que você iria trazer um presente.

— Ai, que vergonha, James! Eu trouxe um quite de maquiagem... — Greta até roeu as poucas unhas que tinha, não importando-se com o esmalte. — Você se maquia? — Isso foi realmente uma pergunta séria.

Ian negou com a cabeça e greta deixou o presente cair no chão. Ela deu giros em seu próprio lugar.

— Sou uma péssima mãe, sou uma péssima mãe, sou uma péssima mãe.

— Se aquieta, mulher! — James a segurou pelo braço.

— Como vou ficar quieta? Sou a pior mãe do mundo! Meu filho me apresenta o namorado, que eu pensava ser namorada, trago uma maquiagem e ele não se maquia. Dizem que dá azar quando não se leva presente em um encontro como esses. E-eu sou uma péssima mãe! Acabei com o relacionamento do meu filho.

— Para de acreditar em tudo que falam por aí. Eu hein, vai acabar ficando louca.

— Pai, mãe... — Connor tossiu logo depois. — Ian não se importa com isso. Na verdade...

— Na verdade, senhora Greta e senhor James — Ele tomou a palavra — fico feliz em finalmente conhecê-los. — Ele sorriu.

Ian não acreditava que os pais de Connor brigavam por um presente errado e não pela sexualidade do filho. Ele tinha certeza que seus pais estavam assustados com a informação repentina de Connor. Ian também estava assustado pelo fato do namorado nunca contar a verdade aos seus pais.

Greta olhou para trás, ainda desesperada tentando encontrar alguma loja aberta. Ela acreditava fielmente na teoria de que a sogra deveria dar um presente para a nora e assim ser considerada uma boa pessoa. Ela jamais queria levar a fama de sogra terrível. E já estava adaptada a ouvir histórias terríveis da sua vizinhança em relação a isso. Sogras eram confundidas com demônios e eram culpadas pelo término de vários relacionamentos.

Agradeceu quando uma bela moça, sorridente, passava com um cesto de rosas, provavelmente vendendo. Ela correu, ainda de salto e James, desesperado, foi atrás dela, achando que ela cometeria uma loucura.

Greta voltou dois minutos depois após ter comprado a rosa e entregado ao Connor, embora Ian tivesse estendido a mão achando que era para ele, naquele momento.

— Vai, entrega a ele. —Ela disse, olhando para o filho. Connor olhava para a mãe, desconfiado. — Vamos, Connor, anda.

Connor então entregou sua rosa e viu a mãe soltar todo o ar que prendia.

— Ufa, a maldição passou. — Ela realmente parecia aliviada.

Ian olhou para a rosa e depois para Greta, que estava apoiada, ou pelo menos tentando se apoiar, nos ombros de James.

— Estou faminta!

— Sabe do que eu sinto falta? — James perguntou, olhando para a mulher.

— Do seu bolo de laranja!

— Sério? — Seus olhos brilharam — Eu vou fazer amanhã.

— E daquele doce brasileiro que você sabe fazer... E daquele...

Connor sussurrou para Ian:

— Senão entrarmos, eles passarão horas aí. Vem, vamos sentar.

Ian apenas aceitou o que o namorado disse, embora estivesse achando tudo muito louco. Mas adorou saber que Connor tinha pais maravilhosos, embora fossem anormais. Eles fugiam completamente do padrão. Talvez fosse por isso que Connor tinha aquele jeito um tanto... Desligado.

— Ei! — Greta chamou. Ian foi o primeiro a parar. Connor e ele se viraram. — James quer fazer uma pergunta.

James olhou para Greta.

— Faz a pergunta.

— Que pergunta?

— A que todo pai faz quando conhece o namorado do filho.

James coçou a cabeça...

— É que... Eles são dois garotos, oras. E, espera... Quem de vo...

— Eu o amo. Como já um disse uma vez, se um dia eu o odiasse, seria como um veneno que aos poucos me mataria. Sei que pode parecer loucura, na verdade, é. Vocês estão me conhecendo pela primeira vez e, certamente, várias perguntas tomam conta dos seus pensamentos. Mas eu já não consigo viver sem o sorriso mais lindo que já encontrei na minha vida. Por ele suportarei todas as dores.

Connor sentiu seu corpo queimar e as bochechas arderem. Greta já estava com os olhos úmidos, prestes a puxar seu lenço. James ainda assim estava querendo fazer a típica pergunta existente entre casais homossexuais, sobre quem é ativo ou passivo, embora ele não soubesse bem as palavras que definiam as posições.

Connor somente respondeu a pergunta que seria feita por James a pedido de Greta.

Sem mais perguntas, Greta puxou Ian para si, afastando-o de Connor e juntos entraram no restaurante.

— Eu, hein, sua mãe é uma louca, mas vem cá filho, você... — James disse para Connor, já que estavam atrás.

— Estou feliz! — Completou. — É isso que quer saber, não é pai?

James pisou forte no chão.

— Droga, ninguém me deixa perguntar.

Connor coçou a cabeça.

— O quê? — Perguntou, inocentemente. Ele realmente não conseguia compreender o pai.

— Quem costuma segurar o primeiro controle? — Teve que optar por outra alternativa.

— Eu, é claro. Ian não sabe jogar bem, daí eu deixo ele com o segundo controle.

Connor jamais entenderia o verdadeiro significado daquela pergunta.

— Ótimo! — Bagunçou os cabelos do filho.

— Mas por que a pergunta, pai? O segundo controle é melhor?

— Não, só continue sendo o primeiro. — Dito isso, acelerou seus passos, convencido da resposta.

Nesse mesmo jantar, Ian passou por um interrogatório, embora não intencional. Na verdade, ele era o centro das atenções e Connor até sentiu ciúmes disso. Só recebeu atenção quando contou para seus pais que trancou a universidade e optou por viver ainda envolvido no meio de jogos.

Ian não conseguiu compreender por que o namorado temia tanto os pais se eles pareciam ser tão abertos a ajudá-lo em tudo.

Ian, com certeza, jamais esqueceria dessa noite.

[...]

Quando Colin acordou, ainda tinha enrolado ao seu braço o cordão de Sean. O pequeno olhou para o objeto por alguns segundos, lembrando-se novamente do dia em que o ganhou e da noite passada.

Porém, a mágoa era maior do que qualquer palavra de conforto. Colin levantou determinado a não se importar com aquilo, por mais que seu coração dissesse uma coisa e a mente insistisse em outra. Colin estava começando a ficar louco.

Parte de si dizia que deveria procurar Sean, outra, negava a ação. Colin sempre esteve disposto a esquecer do Tigre.

Ele se levantou, colocou o cordão dentro da sua última gaveta entre as roupas, evitando olhar aquilo sempre. Foi ao banheiro e tomou um rápido banho, higienizando-se.

Quando Colin olhou pela janela, viu que já era bem cedinho. Caine ainda dormia e Sebastian estava sobre um colchão no chão colocado ao lado da sua cama. Edgar dormia quietinho, como uma criança recém-nascida. Uma hora depois todos eles estariam na universidade.

Colin saiu do quarto assim que calçou suas sandálias. Somente o som dos pássaros era audível naquele momento.

Ao chegar à cozinha, pronto pra tomar algo, deparou-se com William. O loiro parecia estar lá há poucos minutos, pois acabava de abrir a geladeira e, quando olhou para trás viu Colin e a surpresa foi a mesma para os dois.

William, mesmo estando surpreso, sentiu o peso da mágoa tomando conta do seu corpo. Ele fechou a geladeira, tomou o prato de cereal que estava sobre a mesa e se sentou. Colin não existia para ele.

— Bom dia. — O pequeno disse.

Colin sabia que não iria obter respostas. E isso realmente aconteceu. William estava apenas atento ao seu prato, mastigando tranquilamente. O silencia castiga, maltrata e dói. Colin estava provando isso na pele.

O pequeno também caminhou até a geladeira, pegou a garrafa de suco e pôs a bebida em um copo. Em seguida, também sentou-se na mesa.

E então William se levantou, ainda mastigando. Pegou seu prato e deu as costas.

— Você nunca vai me perdoar? — Colin perguntou. — Nem mesmo me dar espaço para tentar explicar o que acontece?

William até parou de caminhar, mas isso durou apenas um segundo. Novamente caminhou e saiu da cozinha. Colin procurou não insistir e respeitou o silêncio do loiro. Respeito este que era um sacrifício. Afinal, quem aqui recorda de Colin abaixar a cabeça para alguém?

William saiu da cozinha sem o menor ressentimento. Por uma semana em que esteve fora, buscou fazer de Colin um nada, um vazio. Queria apagá-lo completamente da memória. William, às vezes, não conseguia entender por que foi tão apegado ao Colin. Primeiro que ele era o último leonino a participar da república, ou seja, seu tempo de relação com Colin era bem menor que com os demais.

Porém, não existia um coração tão duro e orgulhoso como o de William.

O loiro chegou à sala e sentou-se no sofá. Querendo mesmo ficar sozinho, respirou fundo quando ao seu lado Octavio se sentou.

Octavio já tinha algumas olheiras visíveis, pois há dias não conseguia dormir direito. Durante esses dias em que insistiu para ficar ao seu lado, pois não estava aceitando o término que William decretou, ele dormiu em um sofá e até mesmo no chão, tudo isso para que o loiro o notasse. William foi em uma balada, Octavio, mesmo cansado, ficou acordado a noite inteira vigiando-o. Sem contar as várias discussões que os dois tiveram ainda referindo-se ao fator Colin e Sean.

— Seu amigo está lá na cozinha, deveria ir falar com ele. — Soltou. — Que assim como eu, implora por você.

William pôs uma colher de cereal em sua boca e não contestou o que ouviu. Encontrou o controle da TV, milagrosamente e a ligou, embora não estivesse prestando atenção ao que se passava.

— Uma semana se passou e você vai continuar fingindo que não existo? Por você eu dormi em sofá, no chão, gastei dinheiro desnecessariamente e estou me humilhando todos os dias. Acha que isso é justo comigo?

William simplesmente pôs o cereal sobre a mesinha e olhou para Octavio.

— Te pedi para fazer isso? Te obriguei? Coloquei uma arma na sua cabeça? Não, Octavio. Eu não fiz nada disso. Injusto foi você ser meu namorado e mentir.

— William, quantas vezes eu vou ter que repetir? Que saco, hein.

— Então desista. Nós acabamos. — William novamente pegou seu prato e recomeçou a comer o cereal.

Octavio tomou os pratos de sua mão e o jogou para longe.

Ele certamente havia perdido a paciência. Até mesmo Octavio não conseguia aguentar as coisas por vários dias seguidos. William o olhou, mais curioso do que assustado.

— Se você me disser isso mais uma vez, William, eu juro... E-eu juro que...

— O que você vai fazer, Octavio? — O desafiou.

Pelo fato de Octavio ter jogado o prato de William para longe, sujando a rede e tapete, acabou chamando a atenção de Colin que estava na cozinha. O pequeno saiu às pressas até encontrar os dois na sala.

Colin pôs somente a cabeça para fora do cômodo e, quando viu do que se tratava, permaneceu na cozinha, temendo sair de lá.

— Já parou para pensar em mim? De tudo o que fui capaz por nós dois? Você simplesmente tá jogando tudo isso fora? Olha, William, segredos sempre vão existir, não importa se grande ou pequeno, eles vão existir. Ninguém nunca fala toda a verdade, mas isso não significa que é uma questão de confiança. Há uma necessidade para tudo. Eu só quis o seu melhor, tanto o seu como o daquele garoto.

— Eu queria poder acreditar em você.

— Eu não queria ter que te subornar, William. Na verdade, não quero que isso pareça um suborno, mas se você realmente tá terminando comigo, eu não vejo mais motivos de continuar aqui. A minha felicidade sempre foi você. Qualquer outro me chamaria de louco e que eu deveria pensar somente em mim, mas eu não consigo quando todo o meu eu vive por você.

Agora sim William sentiu o significado da perda.

— Você está mesmo terminando comigo? Eu juro que se você disser que sim, eu me levanto, vou pro quarto, arrumo minhas coisas e vou embora. Eu sigo minha carreira em outro lugar longe daqui. Vai ser difícil? Vai! Já está sendo, na verdade. Olhar pro homem que eu amo e não mais reconhecê-lo.

William ficou em silêncio. Ele também não olhou para Octavio. Abaixou sua cabeça e colocou as duas mãos sobre ela. Uma luta interna se iniciou.

Octavio o olhava, mas não recebia a resposta que queria.

Não foi apenas um minuto que se passou. Foram quase cinco com Octavio ansiando por algo positivo. Mas o loiro ainda permanecia em seu lugar, quieto.

— Certo. — Octavio se levantou. — Eu já entendi.

Octavio caminhou até o seu quarto sem olhar para trás. Por mais que chorasse, não enxugou as lágrimas que caíam. Queria gritar, mas respeitou o horário. Contudo, sofria em silêncio. Pois o loiro deixou claro que jamais o perdoaria.

Procurou por malas e as encontrou embaixo das camas, começou primeiramente por suas roupas.

Ainda não sabia para onde ia, mas sabia que iria sair dali. Iria se despedir, ou talvez ligar e falar o que aconteceu mais tarde.

Escutou quando a porta do quarto foi aberta. Mas não olhou para trás. Se era William, ele não sabia.

— Por que você torna tudo tão difícil? — O loiro perguntou.

Agora sabia quem era.

Octavio se virou, feliz. Ainda tinha esperanças.

— Você sabe para quem deve ser feita essa pergunta.

— Estou muito magoado com você, Octavio, e queria que isso passasse, mas...

— Eu entendo a sua mágoa. Mas não entendo como faz dela algo que te destrói.

— Não é fácil, tá ok? Saber que meu namorado estava envolvido em toda aquela mentira. E-eu tô me sentindo tão idiota, tão enganado. Só quero deixar claro que realmente voltei para essa república por sua causa, mesmo que minha vontade ainda seja estar longe daqui.

— Eu não pedi para fazer parte daquilo. Quando dei por mim, já estava envolvido. Assim como eu, Colin também não pediu por aquilo. Apesar disso, estávamos cientes das consequências. Eu só quis poupá-lo de tudo e não quis ter o ódio do Colin.

William sentou-se na cama e chutou as malas que Octavio preparava, o moreno, por sua vez, ficou de joelhos, olhando-o sentado. William somente relaxou seus ombros e em seguida despencou sobre a cama, pondo a mão na face.

E depois de alguns dias, Octavio pôde ver o William que realmente conhecia.

O moreno se levantou e deitou-se ao seu lado, pondo levemente a cabeça em seu peito, podendo até ouvir as batidas do seu coração. Com os dedos, tocou os fios dourados do namorado.

— O tempo, meu amor... Ele não é o melhor remédio. Eu sou o seu remédio e, se dependesse de mim e eu fosse capaz, eu suportaria a dor que está sentindo. Mesmo que não concordasse com a atitude que está tomando.

— Eu confiava nele, o tinha como um filho, um irmão...

— Podemos esquecer isso um pouco? Só não faça do seu orgulho o motivo da sua destruição.

William ficou calado e abraçou ao namorado. Por mais que estivesse magoado, seria sim um erro dele perder Octavio por este estar envolvido na sua confusão com Colin, por mais que Octavio soubesse de tudo, conseguiu entender a situação colocando-se no seu lugar.

Amava demais Octavio e sabia que o moreno só queria o seu bem.

[...]

Samuel estava em plena sala de aula. Sinceramente, aquele estava sendo um péssimo dia para o loiro estar ali dentro. A começar pela manhã agitada da república quando Danion resolveu gritar e discutir com Leonard que tinha dormido fora sem sequer falar nada, o que fez Colin acabar entrando na discussão o que tornava a coisa mais caótica ainda.

A sua madrugada também não foi nada agradável. Seu celular não parava de tocar e o anônimo só sossegou quando o loiro desligou o aparelho. Ao ligá-lo novamente tinha várias mensagens de um número desconhecido, todas elas eram cantadas ridículas que ele nem imaginava que existiam. Iria dar forte na cara de quem estava aprontando aquilo com ele.

Foi lembrando-se da terrível noite que Samuel acabou adormecendo, fazendo seu braço de travesseiro.

— Algum problema, Samuel? — Perguntou o professor de anatomia.

Nada pior, para Samuel, do que aula teórica. E, pela voz mansa do professor, certamente iria dormir uma hora ou outra.

Samuel apenas levantou o braço e fez, com as mãos, um sinal positivo.

— Está tudo ótimo! — Falou, ainda de cabeça baixa.

— Melhor vai ficar quando eu descontar pontos seus. — Continuou com o mesmo timbre de voz, mostrando-se superior a ele, afinal, era seu professor.

Samuel foi obrigado a manter a postura anterior e fixar os olhos ao professor, que sorriu vitorioso. O loiro queria uma arma naquele momento só para desfazer o maldito sorriso.

A aula continuou prosseguindo até a caixa de som, fixada na parede nos fundos da sala, começar a fazer um barulho estranho. Tantos os alunos como o professor pararam para olhar a caixa.

De repente, alguns gritos femininos acompanhado de alguns resmungos distantes passaram a ser transmitidos pela caixa. Os alunos riram imediatamente quando ouviram os insultos, algo como: “Garoto insolente. Você vai ser expulso! Saia daqui!”

E depois de alguns segundos de insistência do ser misterioso do outro lado, uma voz surgiu dizendo:

— Essa sua roupa ficaria ótima amassada no chão do meu quarto pela manhã, Samuel. Ai, pera aí... — Ele parecia novamente tentar discutir com a mulher que o impedia de falar — Samuel, aluno do primeiro período de medicina! Loiro, alto... — Finalmente o sinal foi cortado.

Quando Samuel virou seus olhos para frente, voltando sua atenção para o professor, quis fugir dali. Só agora tinha percebido que todos estavam olhando para ele e, pior ainda, a ficha caiu quando notou que era ele o garoto que tinha acabado de receber a pior cantada da sua vida.

— Já sabemos quem vai transar hoje à noite. — Desencanado, o professor disse.

Imediatamente, uma chuva de gargalhadas tomou conta da sala de aula.

Sim, Samuel foi capaz de pegar sua mochila e enfiar sua cabeça dentro dela. Ele mostrou o dedo do meio para todos ali presentes sem se preocupar com nada. Iria odiar ainda mais o professor por ter feito aquela maldita piada.

O que Samuel mais estava odiando, era a pessoa que foi capaz de fazer aquilo. Considerando o fato de que conhecia aquela voz, mas não iria acreditar que Luke foi capaz daquilo, Samuel deixou a mente trabalhar.

Se foi Luke ou não, ele iria se vingar.

Depois daquilo a aula fluiu tranquilamente e até passou mais rápido, pois Samuel acabou até virando assunto na anatomia quando destacaram certas partes do corpo. O loiro estava odiando seus colegas de classe e desejou a morte de todos.

No corredor não foi tão diferente, os olhares estavam direcionados a ele e, por isso, acelerava seus passos, embora mostrasse não se importar. Ninguém até o momento estava sendo capaz de fazer alguma piada de mau gosto.

— O que foi aquilo? — Ian perguntou ao encontrá-lo no corredor.

Samuel não disse nada, continuou caminhando e Ian o seguiu. Logo mais à frente, encontrou Leonard e Danion.

— Foi o Luke? — Leo disse, arrumando ainda sua mochila.

— Eu vou matá-lo. — Respondeu.

— Vai nada, até porque essa bundinha aí ele vai comer hoje à noite. — Danion, desbocado, disse.

Samuel poderia facilmente bater nele, mas o ignorou.

Eles caminharam juntos até o refeitório da universidade, naquele horário já estando cheio. O loiro teria aula em tempo integral durante essa semana, tanto ele como Ian, os outros dois poderiam ir para casa, mas como estavam com preguiça, preferiram por ficar ali.

Os quatro não escolheram nada, apenas sentaram-se na mesa.

— Antes que comecem, eu sou ativo. E eu odeio aquele garoto babaca.— Falou o loiro, pondo um livro pesado sobre a mesa.

Os outros três riram em conjunto.

— Alguém aqui disse alguma coisa? — Danion perguntou.

— Detalhe que na cantada referia apenas a roupa amassada e não a posição sexual. —Leo, ainda sorrindo, comentou.

— Até que seria um casal interessante. — Ian criou até histórias em seus pensamentos.

— Mas gente, Luke não é gamado pelo Colin? Que merda aconteceu para isso mudar tão de repente? — Leo quem fez a pergunta.

— Gente... É o Luke. Pegou até o Colton. — Ian revirou os olhos.

— Danion também pegou e... — Leo deu continuidade.

— Calem a boca, tá ok? — O branquelo encerrou o assunto.

Samuel estava fumegante. Fumaças imaginárias eram até visíveis acima da sua cabeça.

E, piorando a situação, Luke aproximava-se da mesa. Descolado, ele sorria e piscava para todos que encontrava no caminho. Luke era um completo sem noção e a qualquer momento iria perder a vida por ser assim.

Luke acabou fazendo sua última parada naquela mesa. Ele sempre evitava olhar para Danion, sabendo que sua relação com o branquelo, desde o ocorrido em relação ao Joshua, não era agradável.

— Gostou da homenagem? Eu vi na internet, achei a sua cara. — Luke disse sorrindo mais largo ainda.

Foi nesse momento que Samuel foi tomado por uma raiva incontrolável. Um pouco mais de força e ele seria capaz de derrubar a mesa. Como era de costume, aquele refeitório era ponto de confusão. Todo o dia alguém chamava a atenção para o que quer que fosse.

— Você por acaso tem problemas? — Samuel o puxou pelo colarinho — Que merda você tem na cabeça para fazer aquilo? Sua mãe deveria te dar uma boa surra para você parar de ser assim! Era você quem estava me ligando ontem à noite, não era? Me mandando aquelas mensagens ridículas!

Luke apenas erguia as duas mãos, temendo aquele ser raivoso à sua frente que explodia em palavras.

— Vamos, Luke, apaga meu número do celular.

— M-mas eu tenho anotado no caderno.

— Rasga a folha.

— Acho que também anotei em algum bloco de notas.

— Queima.

— E se eu tatuar? — Perguntou, sapeca.

— Eu arranco sua pele!

Samuel finalmente largou Luke. Ele não conseguia entender como o moreno ria de tudo aquilo.

— Gente, quanta raiva, vocês não acham? — Luke perguntou para os outros três. Ian e Leo sentiam vergonha alheia. Danion apenas gargalhava o mais alto que podia.

— Isso, Luke, continua! — O branquelo pedia.

— Eu faço uma homenagem a ele e sou tratado dessa maneira. Onde fica a delegacia?

— Para de ser idiota, Luke! Eu não estou achando graça nisso. Quem diabos te passou meu número?

— Eu ganho um beijo se eu falar?

Samuel se sentou quando olhou todos ao redor o observando. Mas em seguida, irritado, tomou o livro pesado e saiu do refeitório, caminhando a passos pesados e furiosos.

O loiro chegou a empurrar um grupo de garotos que estavam rindo dele.

Logo atrás dele estava Luke, gritando por seu nome. Não... Não existia ninguém mais insistente que Luke. Samuel agora sentia na pele o que Colin um dia sentiu. Luke era um chiclete que gruda no cabelo. Não parava de falar um minuto e, geralmente, coisas idiotas.

Samuel só foi ter paz quando conseguiu fugir dele e entrar em um banheiro, o mais afastado, próximo ao estacionamento.

Porém, quase desmaiou de susto quando a porta foi aberta e Luke entrou.

— Branca de Neve, Branca de Neve, jogue a suas tranças! — Se ajoelhou e estendeu a mão.

Samuel revirou os olhos. Como era idiota e pior, burro.

— Era Branca de Neve, não era? — Perguntou segundos depois.

— Me deixa em paz, Luke. — Samuel pediu.

— Por quê? —Se pôs de pé. — Não tenho culpa se já te faço propriedade minha.

— Garoto, você tem sérios problemas. Deveria procurar ajuda. Eu não sinto o menor interesse, tesão, vontade de ter algo com você. Pelo contrário, só sinto repúdio. Por que é tão difícil de entender?

— Desse jeito você me magoa, poxa. — Luke fez bico e encostou-se a pia do banheiro. — Caraca, você é pior que o Colin, hein.

— Pois é, vale lembrar que até a festa você vivia perseguindo-o.

— Ai, cansei dele, quero você agora. Mas Colin vai tá pra sempre no meu coração. — Sorriu. — Em pensar que beijei vocês dois na festa. — Sorriu mais ainda.

— É por isso que você nunca vai ter ninguém, garoto. Você é insuportável. Só fala merda. E, detalhe, antes que comece a me cantar, saiba que sou ativo.

— Pra tudo tem uma primeira vez. E eu já dei a bunda, dói pra caralho. Acho que é a mesma coisa que parir um filho.

— Para de falar como se fosse me comer um dia! — O repreendeu. — Você não entende que não quero você de papo comigo? Porra, hein. Pior que criança.

— Que custa ficar comigo? Quer que eu me ajoelhe?

Samuel revirou os olhos. Não tinha como discutir com Luke, ele era bem imaturo.

— Vai dizer que você não gostou do beijo? — Luke perguntou, sorrindo de lado e levantando uma sobrancelha.

— Aquilo foi nojento! —Samuel disse de imediato, embora mostrasse insegurança.

— Tem certeza? Hum? Hum? Hum?!

Luke se aproximou de Samuel que já estava mostrando a vulnerabilidade diante do moreno. Era fácil para Luke.

— Já disse que você tem uma bunda bonita? Deixa eu ver!

Samuel não esperava que Luke fosse capaz daquilo. Ele simplesmente o colocou de costas e, com facilidade, abaixou a calça do loiro.

Samuel quase gritou de raiva. Ele levantou sua calça às pressas e partiu para cima do moreno, que ria sem parar, mesmo recebendo socos, alguns leves, outros nem tanto.

— Lisinha, hein! — Disse o moreno, recebendo socos.

— As duas bichas vão me deixar cagar em paz?

De repente, uma voz saiu de dentro de uma das cabines. Logo depois o som da descarga tomou conta do banheiro até a imagem de um garoto baixo e cheio de tatuagens se formar diante de seus olhos.

O garoto somente caminhou até a pia, lavou suas mãos e antes de sair, disse:

— Agora façam bom proveito. Isso é quase um motel mesmo, sugiro a última cabine.

Tanto Luke como Samuel ficaram sem reação. Samuel já era branquinho por natureza, mas naquele momento estava vermelho como um pimentão. Podia facilmente bater em Luke, embora o moreno fosse bom de briga, mas o loiro não ficaria para trás.

— Eu te odeio, idiota.

Samuel finalizou a discussão saindo do banheiro e esquecendo seu livro.

[...]

— Para onde estamos indo? — Caine perguntou para Colin.

— Espere e você verá. —Respondeu, embora abalado por todos os acontecimentos, conseguia ser o mesmo Colin de sempre.

— Isso me assusta. Acho melhor voltarmos.

— Vai abrir a porta carro e se jogar? — Caine o olhou. — Desculpa, e-eu... Desculpa, Caine. — E pôs a mão sobre a do amigo, que a acariciou. — Eu preciso provar pro William que sou um leonino.

— Estamos indo para a casa do Sean? — Caine se assustou.

— Eu o odeio, Caine. Nunca mais fale dele, tudo bem?

— Você não pode simplesmente odiá-lo. Não quero ver o ódio te moldando, Colin. O amor supera qualquer coisa. E se não deu certo com ele, provavelmente outro será capaz de aparecer e fazer tudo o que ele não fez.

— Como o que, por exemplo? Você nunca superou o Danion. Odiar Sean é minha única saída.

— Está conseguindo?

A pergunta de Caine pegou Colin de jeito, deixando-o sem palavras. Colin olhou para a janela e não mais falou nada. Caine deitou sua cabeça no ombro do amigo e acariciou seu braço. Aquela amizade era única. Se Colin a perdesse, não mais conseguiria se reerguer. Pois o maior dos pilares foi perdido: William.

Colin e Caine desceram no centro da cidade. Pareciam duas formigas diante daquele vai e vem de pessoas. Foi quando Colin parou em frente ao enorme calçadão assim que atravessou a faixa de pedestre.

Estúdio de Tatuagem.

— Não me diga que...

— Eu irei fazer.

— Você não é capaz.

— Você também fará.

— O quê?

A conversa foi curta e objetiva. Colin logo puxou Caine pelo braço e o pequeno não conseguiu se opor a atitude do amigo.

Surpreenderam-se ao entrar no lugar ao darem de cara com vários homens fortes e tatuados, completamente assustadores. Os dois se sentiam alienígenas, seres de outro mundo. A começar pela altura, que de fato era bem notável. Uns bebês, digamos assim.

Até as mulheres eram tatuadas e cheias de piercings. Uma delas, de cabelo azul, estava no balcão de atendimento.

— Estão fugindo da escola e por um ato de rebeldia, é claro, irão fazer uma tatuagem sem que os pais saibam? — Ela sorriu, simpática. Percebendo que Caine e Colin não riram, ela desfez o sorriso. — Estou brincando.

— Eu quero fazer uma tatuagem e ele também.

— E-eu não...

— Sim, ele quer! — Colin o interrompeu.

Colin e Caine ouviram um grito. Caine saltou de medo, fazendo a mulher rir um pouco alto. Mas logo se conteve quando Colin manteve os olhos firmes nela, desaprovando aquela atitude.

— Vocês já tem o desenho pronto ou preferem olhar na tabela? Os valores variam de acordo com o tamanho da tatuagem e a quantidade de cores.

Colin ficou pensativo ao olhar aquilo. Ainda não tinha certeza sobre a loucura que iria cometer. Olhou para Caine, mas o amigo certamente estava contra aquela atitude. Na verdade, Caine estava realmente com medo.

— E se eu disser como que eu quero meu desenho?

— Ótimo, eu estou aqui para isso.

A mulher puxou um bloco e uma caneta preta.

— Adoro quando optam por isso. — Ela piscou.

Colin dessa vez retribuiu o sorriso e aproximou-se mais do balcão. Caine revirou os olhos e aproximou-se também. Não iria correr, teria que aceitar aquilo.

[...]

Há dias Joshua estava dormindo no Ninho. Pouco mais se importava com a vida depois dali, pelo contrário, até se sentia melhor. Já que a ideia de morar na Quadra surgiu do irmão, querendo derrubar todos os leoninos.

Porém, foi covarde o suficiente para não procurar Megan e ter uma conversa franca com a garota sobre tudo o que aconteceu. Joshua conhecia perfeitamente a mulher com que dormiu por alguns anos e, teria que admitir, estava um tanto apreensivo.

Ele retirou a chave do bolso e tentou inserir na fechadura para abrir a porta. Percebeu naquele instante que a chave não era mais válida e que Megan ou Noah certamente haviam trocado a fechadura.

Porém, a porta foi aberta e, para a surpresa do ruivo, Megan apareceu com os braços cruzados.

— Eu arrumei tudo. — Ela disse, mostrando as malas no canto da sala. — Fiz esse favor para você. Pegue e se retire daqui.

Joshua continuou em seu lugar ainda olhando para a garota.

— Não vou te pedir perdão, Megan. Não vou me ajoelhar e, principalmente, não farei algum teatro aqui. Se está me expulsando, certo. Vou aceitar.

Quando Joshua menos esperava, atrás dele Noah aparecia com uma mochila nas costas. O loiro pediu passagem para o irmão e entrou na república, posicionando-se ao lado de Megan.

— O que ele faz aqui?

— Veio buscar suas coisas.

— Ótimo, devolva, caso contrário irei queimar.

— Eu sou seu irmão mais velho, não me faça entrar aí e te dar uma surra.

— Faça isso e veremos o que sou capaz de fazer. Coisa que nem nossos pais imaginam. Aposto que nem mesmo eles sabem que você é soro positivo que transava com meu namorado. O meu namorado.

— Você nem tinha saído das fraldas quando eu comecei a sair com Caleb, portanto, é melhor abaixar a cabeça para mim. Pouco importa se você é meu irmão ou não, Noah. Há muito tempo eu quero te dar uma surra pra parar de ser desobediente.

— E fala na minha cara que saía com outro cara! — Megan tomou a voz. — Ridículo! Se quer ser veado, que seja veado e se assuma. Mas você me enganou, fazendo-me acreditar em várias histórias que eram mentiras. Eu corri o risco de ser soro positivo por sua causa.

— Fez o exame? É soro positivo?! Não! Graças a mim que fiz o possível para jamais te contaminar. — O ruivo tinha uma voz pesada e sem emoção, era alguém frio demais para mostrar sentimentos.

— Pra você está tudo ótimo, não é, Josh? Primeiro nos engana durante anos, depois ficava com meu namorado e o pior, mentiu para Megan sobre sua sexualidade. Como pôde demonstrar não se importar com tudo isso?

Ele se importava, mas não tanto como deveria.

Joshua sempre foi um cara que se adaptava aos momentos, mesmo não demonstrando. A vida sempre era tediosa para ele. Nada o animava, por isso vivia dentro do Ninho e não saía dali, exceto pelas insistências da agora ex-namorada.

Porém, sempre soube que sua relação com Megan era repleta de desconfianças e, por isso, desde o ocorrido, ele havia perdido todas as expectativas com a garota. Tinha-a mais como uma amiga ou parceira para sexo, embora pensando dessa forma, seja pura falsidade da sua parte.

Achou que sofreria mais com o que aconteceu, mas não... Ele só se sentia abalado e arrependido, mas não iria demonstrar isso. De resto, nada mais tinha importância. Só aconteceu. E, se juntarmos ao fato de Joshua ser bissexual e, no momento, estar interessado em certo loiro indefeso de olhos azuis, reforça-se mais a hipótese dele não mesmo se importar com ela.

Já em relação ao seu irmão, o sentimento era diferente. Porém, saberia que jamais teria o perdão do loiro e por isso não insistiria. Noah era maquiavélico quando queria e temia envolver os pais nessa briga criada por eles dois. Enquanto Joshua torturava fisicamente, Noah costumava cometer atrocidades psicológicas e teria que admitir para si mesmo que seu irmão venceria dele caso usasse algo do seu passado para atingi-lo.

— Está tudo arrumado? — O ruivo perguntou. — Posso entrar e pegar ou estão escondendo alguma arma?

Tanto Noah quanto Megan pegaram as coisas de Joshua e arremessaram sobre as pernas do ruivo, que ficou de pé, tornando-se o centro das atenções para os universitários que passavam por ali. Considerando o fato da polêmica sair no Jornal da Quadra, sua história estava sendo debatida há dias.

Joshua abaixou em silêncio e apanhou suas malas, uma delas se abriu e roupas se espalharam pelo gramado. Ele não queria causar confusão. Mantinha a paciência. Megan e Noah deveriam torcer por isso, pois se ele a perdesse, a casa literalmente seria derrubada.

Quando voltou os olhos para a ex-namorada e o irmão, viu que eles mantinham os olhos atentos em alguém atrás dele. Joshua imediatamente se virou para olhar e encontrou Edgar enxugando o rosto, provavelmente chorava.

O loirinho por um momento o viu ajoelhado apanhando as roupas, mas logo desviou o olhar e acelerou seus passos, odiando-se pelo momento. Entrou na república e trancou a porta.

Joshua só parou de mover a cabeça que seguia os passos do loiro quando o viu entrar e seus olhos permaneceram fixos na porta da república rival.

O ruivo só percebeu que tinha perdido a concentração quando Megan chamou sua atenção:

— Eu sabia que desde aquela porra de atividade na floresta você voltou estranho. É ele a vítima? O próximo garoto que você vai marcar com essa sua maldita doença? Bem que o Jornal da Quadra estava certo. Eu fui cega demais para saber que estava sendo traída.

— Larga de ser louca, garota. Nunca te traí.

— Em quem você pensava enquanto me comia? Nele? — Ela riu. — Veadinho.

Noah se sentiu ofendido, mas como o momento era uma sessão humilhação para o irmão que estava odiando, relevou.

— Fique de olho nele... — O loiro comentou.

Foi nesse momento em que o ruivo já adotou um novo semblante. Semblante este que não era tão novo assim: A testa franzida, os lábios tensos e os olhos furiosos.

— Não ouse tocar nele. — Ameaçou.

— E o que você vai fazer? — Noah indagou.

— Não brinque com isso, Noah. Ou nem mesmo nossos pais serão capazes de me perdoar com o que farei a você.

— Em pensar que tudo isso é por aquele garotinho. O que ele tem que eu não tenho? — Megan perguntou.

— O recado está dado. Se tocarem nele eu juro que... Eu juro que...

— Você magoou a última pessoa do mundo que deveria magoar, Joshua. Costumo trabalhar com vinganças. Não importa se é ou não meu irmão. Só quero que saiba que te odeio tanto que meu corpo um dia não suportará tanto ódio.

— Nós veremos. — O ruivo disse.

Ele novamente voltou a apanhar suas roupas e a porta da república que um dia morou foi fechada. De lá de dentro conseguiu ouvir os gritos de Megan, ela provavelmente estava chorando de raiva. Por que não se importava com isso?

Joshua novamente olhou para a república do lado e sentiu vontade de ir chamar pelo loirinho. Mas para isso, teria que enfrentar todos de lá. Não seria capaz, não agora.

[...]

Colin tinha acabado de chegar em sua república. Ele e Caine passaram um dia fora, literalmente. Caine arrependia-se amargamente pelo momento que passou. Chegou a considerar uma tortura física e psicológica. Recordou do constrangimento que passou dentro daquele estúdio de tatuagem. As piadas chegavam a um nível depravado só pela altura que Colin e ele tinham e a idade.

A maioria dos que estavam lá eram realmente assustadores, com várias tatuagens espalhadas pelo corpo. Um estilo único, porém, Caine não admirava e nem aprovava. Era assustador.

— Onde estavam? — Danion perguntou. — Eu te liguei e...

— Eu esqueci o celular. — Caine completou. Ele estava com as mãos para trás.

Danion então retirou o celular do namorado do seu bolso e lhe mostrou.

— Eu percebi. Tocou tanto que acabei acordando o coitado do Edgar que por algum motivo está chorando no quarto.

— Edgar chorando? — Colin perguntou preparando-se para ir ao quarto.

— É melhor deixá-lo. — Danion pediu. — Eu tentei, antes que me perguntem. Mas ele pediu pra ficar sozinho.

Colin parou imediatamente, obedecendo a voz do branquelo. Algo raro de se acontecer.

— Onde vocês estavam? Ou devo ser mais específico e perguntar onde estava o meu namorado?

— Bem, eu... Eh, ah... Eu resolvi fazer uma surpresa. — Caine então retirou as mãos escondidas em sua costa e estendeu a mão esquerda — E isso doeu muito, Dan.

O branquelo ficou boquiaberto ao perceber a tatuagem que Caine tinha feito, porém, sentiu a fragilidade ao notar a parte de cima da sua mão vermelha. Sentiu a dor do namorado só observando aquilo.

A tatuagem consistia na imagem de três penas dando a entender que elas estavam caindo. Eram pequenas o suficiente para caber na região, todas as três coloridas em uma textura gradiente. Laranja, verde e marrom. A tatuagem ainda estava protegida sobre um plástico transparente.

— Sebastian vai me matar. — O branquelo colocou a mão na cabeça.

— Você não gostou?

— Só que... Isso não é da sua natureza, Caine. Certamente está doendo bastante, não está? — Ele tomou a mão do namorado, delicadamente.

— Arde, na verdade.

Nesse mesmo momento William e Octavio saíram no quarto e apareceram na sala. Colin abaixou sua cabeça enquanto William aproximava-se de Caine. A reação que ele tomou foi a mesma que a do branquelo.

— Sebastian vai te matar. — O loiro disse, sem olhar para o branquelo e olhando a mão de Caine.

Octavio sorriu forçadamente para Colin que também retribuiu o sorriso. Eles dois ainda não pararam para conversar desde o ocorrido, mas como conheciam William, deveriam permanecer daquela maneira. Não existia mágoa entre os dois e Colin, mesmo tendo suas desavenças com esse moreno, o admirou por defendê-lo aquele dia.

— O que ela significa? — William perguntou.

— São penas de águia, é óbvio. — Octavio entrou na conversa.

— Sim, são. Mesmo que confundam com qualquer ave. Fiz questão da mulher procurar penas de águia e adicionar a arte dela. Eu particularmente gostei, apesar da dor. São pequenas, mas adoráveis.

— Mas ela não tem nenhum significado? — Reforçou a pergunta.

— Tem relação com minha república, primeiramente. Mas eu escolhi três cores de acordo com seu significado. A verde representa o Sebastian, que me traz paz, segurança e confiança. A laranja representa a Lydia, pelo estimulo, tolerância e gentileza.

— A marrom é claro que sou eu. — Danion bateu no peito.

— Que significa tudo o que você não tem, maturidade, responsabilidade e consciência. — Danion desfez o sorriso. — Mas saiba que vejo você procurando ter tudo isso. Além do mais o marrom esta associado ao conforto. E você é meu conforto, Dan.

William e Octavio sorriram com aquilo. Danion pouco se importou com todos na sala, tomou os lábios do namorado em um beijo rápido.

— Ainda assim, acho isso uma loucura. Só não brigo com você porque conseguiu calar a minha boca.

— Sou contra ao uso de tatuagens, embora devo admitir que algumas são bonitas. — Octavio disse.

— Eu fiz uma... — Colin disse como se não quisesse nada.

Os quatro olharam para ele. Porém, William o olhou com desprezo, o que era de se esperar. O loiro logo se preparou para sair da sala e ir para qualquer outro cômodo.

Colin então se desfez da camiseta que usava e, abaixo da sua tatuagem, uma nova surgiu: Um leão coroado.

Mesmo não sendo colorida, e pequena, do tamanho ou menor que a palma de sua mão, era bela. Traços bem desenvolvidos, destacando a juba bem desenhada entrando em contraste com sua pele. Até mesmo a coroa era de impressionar, um pouco declinada.

Abaixo, uma frase clichê: The Lion King.

Os olhos de Colin foram aos de William e, certamente, conseguiu chamar a atenção do loiro. Octavio, Danion e Caine também olhavam para William esperando alguma reação.

Colin recordava dos vários momentos em que William pedia para que ele provasse ser um leonino de verdade e fosse capaz de fazer uma tatuagem. E ali estava o pequeno, provando.

Porém, William apenas bufou em desprezo, deu as costas e rumou para a cozinha.

Colin somente abaixou sua cabeça e sorriu mais uma vez forçadamente, dessa vez para Caine. Como não podia ir para o quarto, sentou-se no sofá de modo que não o machucasse. Octavio balançou a cabeça e seguiu o namorado.

— Você não deveria ter feito isso, Colin. — Danion disse.

— Eu só quis provar, você via várias vezes as nossas discussões a respeito da tatuagem e agora que fiz, não tem a menor importância. Como fui idiota, passei horas insultando aquele maldito tatuador e ainda tenho que ir numa segunda sessão para finalizar os detalhes e aprimorar a cor.

Colin enxugou uma lágrima.

No mesmo momento em que enxugou a lágrima, seu coração apertou.

Dessa vez não foi por William e seu desprezo. Colin sabia disso. Jamais tinha sentido o coração apertar daquela forma e imediatamente sua mente foi invadida por imagens de Sean.

Colin fechou os olhos, levou a mão ao coração e respirou fundo, como se estivesse solicitando de ar.

— Colin? — Caine perguntou.

— Estou com um pressentimento ruim. — O pequeno disse em gemidos.

“Sean.”

[...]

Ele estava disposto. Mesmo lutando por quase 20hrs contra si mesmo para sair daquela república e tentar de uma vez por todas fazer Colin acreditar em suas palavras. Já não mais aguentava permanecer longe daquele.

Foram exatos 7 dias que passaram de tortura, isolando-se dentro daquela casa. Sem sequer aparecer na Quadra ou na universidade. Sean estava destruído, de fato. A mãe, Suzana, só o visitou uma vez, nas demais ela não foi bem vinda, pois Sean fingia não estar em casa. O seu pai, Joe, também tentou contato, mas não conseguiu. Nate sempre foi um pai ausente, e agora, pai de mentira.

O moreno apanhou as chaves em cima do sofá e abriu a porta, para o seu azar, Colton estava por ali.

— Não enche. — O moreno disse, passando por ele.

— Aonde você vai? — Colton perguntou.

— Acabar com toda essa palhaçada criada por você.

— Sean, volte aqui! — Colton pediu.

Mas o moreno o ignorou por completo e entrou em seu carro. Sean somente pisou no acelerador e seu pneu literalmente cantou, chamando a atenção da vizinhança.

Quem conhece Sean no trânsito, ou seja, Colin, sabe como o moreno dirige. Não respeitando quem está à frente ou atrás, ele simplesmente ignorava todas as leis existentes por aí. E, levando em consideração ao fato de estar com raiva e determinado a discutir com Colin a ponto de fazê-lo acreditar em suas palavras, nenhum outro carro existia na avenida senão o dele.

Sean buzinou, gritou, xingou.

Porém, mesmo sendo Sean, rico e poderoso quando queria ser, estava a salvo do mal existente no mundo. Nem sempre ele teria a sorte que o acompanhou em momentos como estes.

Sean só teve tempo de pisar no freio de uma vez por todas quando uma luz de farol alto tomou conta de seus olhos, atrapalhando sua visão. O carro capotou duas vezes até sair da pista com o moreno dentro do veículo.

Pode parecer clichê, mas aves voavam naquele final de tarde, como se fizessem uma despedida.

[...]

Colin somente ficou de pé quando seu coração apertou mais uma vez. A sensação era terrível e ele jamais imaginou sentir algo daquele tipo. O mau pressentimento era forte e ele sabia que algo de errado tinha acontecido.

Não conseguiu dar um passo, pois caiu desmaiado.

Notas finais
Queria muito ter postado esse capítulo na semana passada. Gente, minha avó chegou a falecer e eu não quero muito permanecer nesse assunto. Mas saibam que estou melhorando aos poucos. Eu ia resolver sumir, tanto é que desativei o ask por quase uma semana. Mas aqui estou eu postando capítulo sem antes avisar alguém. Novamente não respondi aos reviews, mas acredito que vocês vão compreender. Eu amo todos vocês. Me sigam no ask: http://ask.fm/thomasnyah (Copiem e colem) E também fiz há um tempo o trailer de República de Leões: https://www.youtube.com/watch?v=xM19H4G-tes