Notas iniciais
83266, 26546.

O inverno já tinha dado o seu início na Quadra. O céu nublado era um símbolo representante da estação. E a neve, que já caia, era bonita, mas ao mesmo tempo maltratava.

— Cadê o meu irmão?

Ninguém esperava ouvir isso no momento em que a porta foi aberta bruscamente e dali surgiu um ruivo. Ele tomava a mesma postura de quem estava prestes a agredir alguém.

Seus olhos foram de encontro a Caine e Danion sentados no sofá da sala. Apesar de a maioria estar na universidade, Clara, Colin e Samuel também estavam ali.

Caine foi o prirelmeiro a ficar de pé. Ele lembrou a vida de um soldado batendo continência para alguém de patente superior.

Pouca coisa havia mudado no ruivo, apenas o corte de cabelo e um a nova tatuagem no pescoço.

— Da próxima vez eu vou trocar a fechadura. — Danion disse, ainda sentado e olhando para a televisão.

Ninguém era tão insuportável quanto o Danion. Ele costumava piorar tudo que já estava ruim.

Caine caminhou até o irmão.

— Vocês dois. — Antes que Caine se aproximasse, Sebastian disse apontando também para Danion, exaltado. Caine parou. — Pro quarto, agora.

— Me obrigue. — Rebateu o branquelo, novamente sentado.

— Você acha que é engraçadinho, Danion? Não me faça perder a pouca paciência que já estou tendo.

Para Sebastian ninguém mais existia senão aqueles dois.

— Caine, vamos, admite que tudo isso é uma brincadeira de mau-gosto. — Sebastian finalmente colocou sua mochila no chão.

Caine negou com a cabeça.

— Pra que tanto alarde, Seb? — Danion finalmente desligou a televisão e ficou de pé. — E você não deveria nem estar agindo assim. A república agora é minha, esqueceu?

— Costumo arrancar dentes com um soco, Danion. — Sebastian deu um passo à frente, Caine se colocou entre os dois. — Como você deixou isso acontecer, Colin? — O ruivo perguntou para o pequeno.

— As pessoas aqui nessa república costumam surpreender. — Colin falou, recordando do seu erro.

— Tanta coisa melhor, Caine, e tu resolve ficar com isso? — Sebastian olhou novamente para Caine.

— Será que podemos conversar sem que você transforme a república em madeira queimada? — Caine olhou para Sebastian e os irmãos conversaram através do olhar.

— Ei, parem com isso. — Danion pediu, ciúmes.

Caine deu as costas e Sebastian o seguiu, quando Danion pensou em seguir, Sebastian foi ousado e o empurrou para o sofá. O branquelo caiu xingando e quando correu para alcançá-los a porta do quarto do pequeno foi trancada. Danion mandou vários insultos ainda socando a porta.

Quando Caine se virou, ele não disse nada, apenas abraçou o irmão o mais forte que podia.

— Eu senti sua falta. — Falou, querendo quebrar a tensão instalada.

Sebastian afastou Caine, o colocou sentado em uma cama e puxou uma cadeira para si, sentando-se em frente a ele.

— Lydia está tão assustada quanto eu. Que merda deu na sua cabeça? Achei que estava disposto a esquecer esse garoto.

— Danion me procurou.

— E você caiu mais uma vez nesse conto de fadas? Ai, Caine... Às vezes me arrependo amargamente de ter saído da república.

— Eu posso pelo menos falar? — Pediu. Sebastian assentiu.

Caine respirou fundo antes de começar.

— Sei muito bem como sofri por causa dele e você acompanhou todo esse processo. Muita coisa aconteceu enquanto você esteve fora. E quando falo em coisas polêmicas, o fato de Danion e eu estarmos juntos torna-se pequeno diante de tudo o que se passou.

— Eu tenho meus informantes... — Sebastian disse baixo.

— Não tem muito tempo em que Danion e eu estamos juntos, na verdade, tem apenas uma semana. Eu te contei no mesmo dia em que tudo aconteceu, porque eu jamais escondo algo de você. E Seb, eu queria que você fosse o primeiro a saber. Odeio te esconder as coisas, nós temos um tratado de irmãos, lembra?

— É difícil ter que engolir isso, Caine. Toda vez que olho para Danion, minha vontade é bater nele.

— E com razão. Conheço o meu namorado.

— Oi?

— Nós estamos namorando... Existiu todo um pedido e aquelas coisas todas. Estive tão surpreso como você está. E eu te falei por telefone.

— Se Lydia não tivesse conversado comigo eu certamente iria te arrastar para onde eu estivesse. E vale lembrar que ela tá também assustada por achar que você e Santiago dariam certo.

— Não falo com Santiago há dias, acho que isso também jamais irá acontecer. — Caine abaixou a cabeça.

— O que aconteceu entre vocês dois?

— E-eu, bem... Você sabe quando as coisas estão pra acontecer... — Ele não conseguia olhar para Sebastian.

— Não entendi.

— É embaraçoso falar sobre isso.

Sebastian levou sua mão para o céu e respirou fundo.

— Você e Santiago transaram?

— Não. E-eu não deixei que isso acontecesse e acabei contando a verdade de que ainda amava o Danion.

— Bom saber... — Disse, aliviado. — Na verdade, só a primeira parte. Sobre você ainda amar Danion não é nada bom.

— Ele me contou tudo o que se passava, Sebastian. Eu resolvi dar uma chance para ele.

— Chame-o aqui.

— Por quê?

— Só chame.

Caine também preferiu não ir contra a vontade do irmão. Levantou-se, abriu a porta e olhou para Danion, que já estava deitado no sofá. O branquelo saltou quando o ouviu, imediatamente correndo para o quarto.

— E aí, cunhado. —Danion falou, debochado, estendendo a mão.

Sebastian não rejeitou o aperto de mão. Porém, para a infelicidade do branquelo, ele não soltou. Danion sentiu seus dedos serem esmagados pouco a pouco.

— Ei, ei, ei... — Contestava, tentando retirar sua mão.

— Vamos começar do início: eu não concordo, mas aprenderei a respeitar esse relacionamento de vocês dois. Se machucar o meu irmão, como todas as outras vezes, nunca mais vai pisar nessa república mesmo sendo comprada por você, afinal, quer mesmo ir contra vários ruivos familiares do meu irmão? Pra encerrar, eu ficarei na república por sete dias. Durante sete dias você não dormirá com meu irmão, eu vou dormir com ele. Sim, foda-se se você tem os hormônios agitados. No sétimo dia, darei meu veredito.

Sebastian finalmente soltou a mão do branquelo, que gemeu de dor.

Caine se sentia como uma velha garotinha indefesa apresentando seu namorado ao pai.

Estava sendo engraçado.

— Ah, vale lembrar que farei alguns interrogatórios no decorrer dessa semana. Cada erro, um soco. Cada acerto, uma estrela positiva. Meu irmão não gosta de café, odeia cigarro. Se eu por acaso sentir esse cheiro nele, vai resultar em um soco. Para finalizar, queria informar que meu irmão vai ser tio, mas vou odiar ter você como membro da minha família.

O queixo de Caine foi ao chão. Como assim tio?

— Nós não esperávamos que isso fosse acontecer. Não planejamos.

— E vem falar que eu sou um irresponsável... — Danion disse, ainda esfregando a mão.

— Cala a boca! — Gritou. Depois voltou a atenção para Caine — Lydia e eu decidimos que você irá escolher o nome da criança. Na verdade, eu e ela passamos uma madrugada selecionando nomes masculinos e femininos, você vai servir para desempatar.

— Mas, mas... Você vai ser pai?! Seb...

O ruivo coçou a cabeça.

— Lydia está trabalhando e eu começo em um mês. Sim, finalmente consegui algo e vou receber uma boa grana. Mesmo não tendo planejado isso, a criança vai ser bem vinda e vou adorar que você ensine seus conceitos de vida a ela, descartando o fato de ter um namorado rebelde como o seu.

Caine não aguentou e explodiu de felicidade, abraçando o irmão várias vezes.

— Ei, eu também tô aqui. — O branquelo falou.

Mas Danion foi ignorado. Sebastian adorou ver a insatisfação do branquelo.

[...]

Sean estava em sua casa, deitado no chão. Há muito tempo deixou de cuidar da beleza encantadora que tinha. A barba era um sinal disso, mesmo que esta não estivesse tão grande assim, mas estava grossa o suficiente. Sendo bonito, ela o deixou atraente e mais adulto.

Seus pensamentos, todos os dias, horas e minutos estavam focados em Colin. Lembrar-se dele por algumas noites o fez chorar. Aquele mesmo sentimento que sentiu ao descobrir das traições de Colton no passado, porém, dessa vez duplicado. Jamais pensou que poderia sentir isso mais uma vez, principalmente de uma forma tão intensa.

Alguém bateu a porta e ele imediatamente se levantou para olhar. Ainda tinha esperanças de que o pequeno irritadiço, dono do seu coração, qualquer dia pudesse aparecer ali e tentasse conversar com ele.

Porém, quando abriu, tomou um grande susto. Era Joe, o seu pai verdadeiro, com o cabelo tomado pelos flocos de neve.

Parados, um de frente para o outro, era notável a semelhança. E há quem ainda acredite que William e Sean têm suas semelhanças, dando-se ao fato de acreditarem que eles são irmãos. Mas com Joe, era tudo mais diferente. Se não fossem os cabelos de Joe, encaracolados, diferentes dos de Sean, que são lisos, eles até pareceriam irmãos, principalmente por Sean estar deixando sua barba crescer.

O moreno, não querendo conversa com aquele, se preparou para fechar a porta.

— Espere, não feche. — Joe foi rápido o suficiente para por a mão na porta e impedi-lo.

— Não quero conversar com ninguém.

— Mas nós precisamos. — Joe disse, ainda segurando a porta.

Convencer Sean seria bem difícil.

— Não torne as coisas tão simples assim. Você é um filho da puta por estragar com tudo.

— Eu não discordo disso. Você tem toda a razão. — Sean então desistiu de fechar a porta. — Eu sei que é extremamente difícil para você ter que aceitar isso. Sei também que o fato de eu aparecer assim, de repente, o deixa mais nervoso. A minha abordagem está sendo errada. Eu simplesmente poderia te ligar e marcar para conversarmos... Mas certamente você não iria aceitar isso.

— Então se sabe que não é bem vindo, por que insiste e está aqui?

— Por que eu sou seu pai e, assim como você, descobri isso tarde demais. E também percebi que Suzana não é nada daquilo que eu imaginava. Olha, Sean, você pode até achar que é mentira, mas desde que eu soube que sua mãe estava grávida, eu suspeitei ser um filho meu. Mas ela negou diversas vezes e eu acabei retirando da cabeça a ideia de que seria pai.

— Você destruiu a linhagem da minha família. — Sean disse, agressivo. — Tanto Nate quanto você são uns desgraçados. Primeiro ele por trair a minha mãe e segundo você por também destruir com o relacionamento de maneira oculta. A minha família é toda errada, antes eu sentia orgulho do meu sobrenome e depois do que soube, sinto nojo.

— Nós, humanos, comentemos erros e olha que somos considerados seres racionais. Tive algumas aventuras com sua mãe sim. Sabia que ela era casada? Sim! Mas eu me encantei e acabou acontecendo. Nada justifica isso, eu sei. Não devo sequer pedir desculpas, pois estas jamais seriam aceitas.

— Você é um doente! É melhor ir embora daqui.

— Nós, humanos, comentemos erros... Será que você não ouviu o que eu disse?

Sean o olhou, confuso.

— Como sabia que você não iria querer conversar comigo sobre o fato de eu ser seu pai e, infelizmente, para você, eu sou. E isso você tem que aceitar. — Joe agora pareceu um pouco mais duro. — Eu preciso te falar que não tenho nada contra você e outro garoto se relacionar. Foi exatamente assim, como você está, que me encontrei quando percebi que estava apaixonado por sua mãe e ela era casada. Destruído por dentro.

— Ah, cala a boca. — Sean novamente forçou a porta para fechá-la.

— O que estou querendo dizer é que o garoto, aquele garoto — deu ênfase —, jamais merecia o que você fez. Você errou. Está apenas escondendo-se. Nem toda mentira dura para sempre, Sean. Se eu, seu pai, já sei que você é gay — Sean quase tomou isso como um insulto — por que ter medo do mundo? Se Suzana não aceita, eu aceito. Existe um equilíbrio nisso tudo, você escolhe o que quer para sua vida. Ser feliz aceitando o meu conselho ou permanecer aí, sendo insultado por sua mãe.

— Não ouse falar dela. — Sean logo abriu a porta e imediatamente se colocou à frente de Joe, ambos tinham a mesma altura.

— Você é meu filho único e eu farei de tudo para poder ser um pai. É tarde demais? É. Mas a vida continua e eu tenho tempo para consertar os erros que cometi. O primeiro deles foi te deixar tanto tempo viver sem uma figura paterna, te guiando. — Repetiu — Irei consertar isso.

— Não quero que você tente fazer isso. Prefiro continuar do jeito que estava. Sem saber que você existe.

— Eu tenho o direito e o dever de consertar os meus erros. Você deveria consertar os seus, Sean. O primeiro seria ir atrás do garoto. Porque eu lembro como você reagiu quando aquele baixinho ordenou que vocês se afastassem.

Sean dessa vez não disse nada, olhou para o carro parado próximo ao seu e em seguida voltou seus olhos para Joe. Deu as costas e entrou em sua casa, conseguindo fechar a porta sem que o seu pai verdadeiro impedisse.

Joe pareceu estar satisfeito, embora soubesse que precisava aparecer ali mais vezes e, certamente, isso iria acontecer em breve. Ele não pretendia abrir mão de um bom relacionamento com seu filho.

Sean caiu no sofá querendo berrar, mas não conseguiu. Apenas chorou em silêncio.

Tudo estava desmoronando.

[...]

Durante sete dias seu pai esteve internado no hospital. Em alguns minutos eles sairiam dali e, felizmente, voltariam para suas casas. Colin estava sentado na recepção do hospital, Anita estava na república. Ela e Colin planejaram de festejar a volta de Joseph com um bom almoço. Mas claro, com tudo sendo preparado sob a recomendação médica.

À tardinha, Anita e Joseph retornariam para Aroma, lá o homem receberia melhores cuidados e não viveria em uma república com vários jovens que certamente não o deixariam descansar.

— Olá, Colin. — Suzana disse, sentando-se ao seu lado.

Colin não conhecia Suzana pessoalmente. Nunca a tinha visto, só ouvido falar. Por isso a considerou uma estranha.

— Oi. — Respondeu, educadamente.

— Quanto você quer? — Ela perguntou.

Colin estava confuso demais para entender a indagação da mulher.

— Do que você tá falando? — Ele perguntou.

— Quanto você quer para deixar meu filho em paz?

Isso foi o suficiente para toda a ficha cair. Colin logo sentiu arrepios. Suzana causava realmente medo, principalmente pela postura de mulher má.

Mas Suzana certamente não conhecia aquele pequeno tão bem como todos os outros.

— Não tenho nada com seu filho e se um dia já tive, isso acabou.

— Ainda estou te deixando fazer uma oferta para deixar meu filho em paz. — Ela cruzou as pernas.

— Eu não preciso do seu dinheiro. Como você me achou aqui?

— Levando em consideração que sou médica, dona de um hospital e rica. Foi fácil comprar algumas pessoas daquele mísero lugar chamado Quadra Nove. E bem, até descobri aqui mesmo que você não é o responsável pelas despesas gastas nesse hospital. Quem é que não precisa de dinheiro?

— Eu não preciso do seu dinheiro. Seu dinheiro.

— Terei que tomar medidas drásticas, infelizmente. Estou te pedindo para deixar meu filho em paz.

— Está me ameaçando? — Colin a encarou.

Por incrível que pareça, eles mantinham um diálogo sigiloso, sem chamar a atenção de qualquer outra pessoa. Mas as palavras eram duras e só eles percebiam isso.

— Entenda como quiser. Estou aqui pelo meu filho que enxergou em você algo que... Francamente, eu não entendo. Sean é hétero e futuro médico. Isso que aconteceu entre vocês dois foi só uma aventura da vida.

— Eu fodia com seu filho quase todos os dias se é isso que você quer saber. — Colin foi extremamente boca suja na tentativa de ofender a mulher. — E quer saber? Ele fodia muito bem, extremamente bem. Gemia muito quando...

— É exatamente disso que eu falo. Promíscuo. Raça promíscua. — Interrompeu e olhou para as unhas, também pegando pesado. — E meu filho não deve se relacionar com pessoas assim.

— Como pode, uma mulher como você, ter a mente tão fechada? Não é digna da profissão que tem.

— Eu tenho condições, é diferente. Sou capacitada e tenho uma boa família.

— Você acha que eu não sei de nada, não é? Família bem estruturada é a minha, que me aceitam do jeito que sou e, ah... Meu pai nunca traiu a minha mãe. Infelizmente esse caso aconteceu na sua família, não é mesmo?

Suzana por alguns segundos ficou calada. Colin era realmente muito malvado quando queria ser.

— Acho que essa é a vantagem de ser pobre e não ter empregada. — Completou a ofensa.

— Você tem a língua muito afiada, garoto. Pena que isso não resolve a maioria dos seus problemas. Eu não te conheço muito bem, felizmente. Tudo o que eu quero é que você fique em silêncio sobre tudo o que teve com meu filho. Essa história vergonhosa não deve ser exposta.

— Está sendo egoísta a ponto de pensar apenas na própria felicidade. O fez trancar a universidade e, pior ainda, esconder quem ele é de verdade. Uma mulher como você jamais merece respeito. E eu não quero dinheiro que venha de você.

— Então você certamente falou para seus pais que é gay? — Suzana indagou, encarando-o. Ela não perdia a postura de mulher poderosa.

— Eu não te devo essa resposta. Olha, eu não te conheço e você não me conhece. Eu deveria te respeitar, sei muito bem disso. Mas sabendo agora que você é extremamente ignorante, eu peço para que se retire, senão faço eu mesmo. — Colin se levantou, Suzana permaneceu sentada, olhando-o.

Quando Colin pensou em dar as costas, ouviu a voz de seu pai. Ele estava acompanhado do médico que cuidava dele. Colin por um momento odiou que aquilo estivesse acontecendo, principalmente por Suzana estar ali.

O médico e Suzana se conheciam, o que foi mais desagradável para Colin que foi obrigado a vê-los aos elogios. Logo após mais algumas instruções, Colin e Joseph se prepararam para sair dali. Colin implorava por isso, para falar a verdade. Até esqueceu-se de abraçar seu pai.

— Ei, garoto, onde pensa que vai? — Suzana o chamou. — Nós ainda não terminamos de conversar.

Joseph foi o primeiro a olhar para trás, confuso. Logo depois Colin fez o mesmo.

Suzana caminhou sem pressa alguma e aproximou-se deles.

— Qual o seu valor para não expor tudo o que sabe? —Ela insistia em perguntar.

— Do que ela está falando? — Joseph perguntou para Colin.

— Essa mulher não merece nossa atenção, pai. Vamos, você precisa descansar, eu já pedi pelo táxi. Não quero ouvir asneiras de uma louca que usa do dinheiro para conseguir o que quer.

— Conte para ele que você é gay, garoto.

Suzana tocou em uma das feridas de Colin. O pequeno logo sentiu tudo mais uma vez desmoronando e o pior, pensou ainda mais na saúde do seu pai. Se ele caísse ali, Colin não responderia por si e seria capaz de tomar atitudes drásticas.

Mas, ainda assim, sentiu seu peito apertar e a falta de ar tomar conta de si. Odiou a mulher imediatamente.

— Eu sei. — Joseph disse, tranquilamente.

Isso surpreendeu Colin, que encarou o pai, buscando por respostas.

— Então concorda comigo que isso é errado, não concorda?

— Eu sou pobre e aparentemente você é rica. Eu sou homem e você é mulher. Meu filho é gay e eu sou hétero. Que diferença isso faz se somos todos iguais dentro da mesma sociedade? Sendo assim, minha senhora, eu não concordo com você. Pelo contrário, eu sinto pena.

Colin sentiu sua alma ser sugada e em seguida voltar. A resposta que o pai deu foi de surpreender. Nem mesmo ele seria capaz de falar algo do tipo. Certamente, estava no sangue ou ele aprendeu com Anita, uma possibilidade que não se deve descartar.

— Iguais? Acho que você está enganado, senhor. Se fossemos iguais, você não estaria dentro desse hospital.

— Certo, senhora. Você tem toda a razão em dizer que eu não deveria estar aqui. Mas novamente devo te falar que sinto pena. Tamanha elegância só mostra que você tem a mente pequena. Se falei que somos iguais, não disse sobre frequentarmos os mesmo lugares, de ter as melhores roupas, casas, carros... Futilidades. Estou falando da felicidade, minha cara. Que olhando bem para você, está faltando. Sou feliz com o pouco que tenho. E ah, sou merecedor dos mesmos direitos que você dentro da sociedade.

— Como pode pensar dessa maneira?

— Quer mesmo me ensinar a forma que devo educar meus filhos? E mesmo se meu primeiro filho fosse gay, eu continuaria amando-o da mesma forma. — O filho que não chegou a nascer — E não será diferente no caso de Colin. Eu jamais me privaria da felicidade de ter meu filho ao meu lado por algo tão pequeno. Pelo contrário, minha senhora, eu o ajudarei e apoiarei no que for preciso, sempre. Estou surpreso e com medo porque infelizmente no mundo em que vivemos ainda existem pessoas como você. E nós sabemos bem do que vocês são capazes. Um exemplo? Você tentando comprar meu filho.

— Não estou comprando. Estou ajudando-o. Veja bem, eu sou médica e dona de um hospital. Tantos benefícios que ele teria.

— Seu filho é gay, não é? — Joseph ainda mantinha a postura serena. Ele não estava agitando. Pelo contrário, estava dando uma surra de serenidade na mulher que passou a ficar nervosa. — Acredito que ele é o garoto que veio aqui dias atrás e beijou o meu filho. O mesmo garoto que esteve na minha cidade e dormiu na minha casa. O mesmo garoto que protegeu meu filho de alguns marmanjos — Joseph sorriu ao recordar disso. — O mesmo garoto que o magoou. — Finalizou.

Suzana olhou para Colin, procurando saber se aquilo era verdade.

— Faça o seguinte, pegue todo o dinheiro do mundo e compre a heterossexualidade do seu filho. Melhor ainda, já que você é médica, uma boa médica, só vou acreditar na sua capacidade quando você encontrar uma cura para a homossexualidade. Tem remédio pra isso? — Joseph fez um gesto simpático com a cabeça, acenou com as mãos, despedindo-se.

Logo deu as costas e deixou Suzana sem resposta alguma. Colin foi atrás dele, um pouco mais recuado e ainda surpreso pela postura do pai diante da mulher. Joseph não acusou o filho ou algo do tipo, ele só sorriu algumas vezes antes de entrarem no táxi.

Colin sentiu seu coração se agitar, mas não tinha coragem de pronunciar uma palavra durante todo o trajeto até a república. Queria descobrir como seu pai sabia de tudo. Não podia negar que também estava muito feliz por saber que seu pai não o acusava, julgava. O defendeu com unhas e dentes de uma mulher cujos valores morais eram completamente errôneos.

— Pai... — Colin chamou ao chegarem no gramado da república.

— Diga, meu filho. — Joseph perguntou.

— Aproveitando que ninguém ainda não nos viu aqui e sei que eu não teria a oportunidade lá dentro. Pode me falar como sabia de tudo?

Joseph apenas apertou seu ombro.

— Isso é história pra quando você for me visitar em Aroma. Por enquanto saiba que nada mudou. Eu te amo da forma que é e tenho orgulho do que você é.

Joseph já foi um cara como Suzana até seus dezoito anos de idade, quando tinha preconceitos e zoava dos colegas de classe. Um em especial, que teve a vida íntima revelada e todos descobriram que ele era gay. Joseph era uma das pessoas que mais o perseguiu no colegial.

Mas em um descuido do destino, quando esteve prestes a perder a vida em um ataque de um cão violento, o mesmo garoto que ele tanto magoou, salvou sua vida. A partir daquele momento eles tornaram-se melhores amigos, inclusive foi graças a ele que conheceu Anita.

Infelizmente a vida não foi tão justa com esse seu amigo, que faleceu aos vinte e quatro anos de idade, vítima de um acidente de trânsito. Mas Joseph tomou algumas lições para sua vida. Felizmente.

— E que na próxima visita, você apareça com Samuel. Aquele garoto não merece você. — Joseph falou.

Logo Anita o avistou da janela e correu para alcançá-los. Colin ainda estava parado, vendo sua mãe contente pelo momento. Alguns outros universitários saíram da república para parabenizar Joseph pela boa recuperação.

Naquele mesmo dia William apareceu na república. Colin viu o loiro passar e ignorar os companheiros. Eles trocaram olhares por alguns segundos, mas o William imediatamente entrou na república.

Colin sabia que aquele não era o momento para tentar conversar.

[...]

Leo tinha acabado de chegar ao centro da cidade. Demorou alguns dias para colher as informações de onde Santiago estava. Na verdade, foi fácil. Tendo o número da mãe dele conseguiu obter a resposta exata. O endereço foi mais fácil do que ele pensava. No mesmo apartamento em que antes havia realizado o seu projeto com Santiago. Só que desta vez, teria que subir algumas escadas a mais.

O apartamento era o de número 19, o primeiro em frente à escada. A porta dessa vez era marrom e completa de adesivos. Nem sequer tinha o olho mágico.

Leo estava agasalhado e usando touca. Era noite e a neve continuava caindo lá fora.

Ainda usando luvas ele bateu na porta. Bateu mais algumas vezes e ninguém saía de dentro. Por alguns minutos ficou parado em seu lugar esperando ser atendido. Leonard bateu na porta uma última vez e, quando percebeu que não havia ninguém ali dentro, deu as costas. Neste momento a porta foi aberta e lá de dentro Santiago apareceu, completamente assustado com a presença do outro ali.

Leo o encarou por alguns segundos enquanto Santiago fazia o mesmo, só que coçando os olhos.

Santiago sentia-se desnorteado cada vez que Leo o olhava daquela forma e, depois do que tinha feito, beijando-o enquanto ele estava bêbado, acreditava que as coisas iriam piorar entre eles.

Mesmo já se sentindo melhor em relação ao que era — apesar das suas crises de aceitação em alguns dias, Santiago sentia muito medo de como Leonard reagiria ao saber de toda a verdade. Se o julgaria.

— Oi, Leonard. — Santiago disse. Tentou parecer indiferente, mas não conseguiu. Agiu naturalmente.

— Por que se esconde? — Leonard sempre foi um tanto direto.

— Me escondo? — Perguntou.

— Você saiu dos Tigres e desapareceu do mapa, ninguém sabe do seu paradeiro. Não vai me convidar pra entrar? — Aproximou-se.

Santiago deu passagem para que Leo entrasse.

O lugar tinha a mesma estrutura do apartamento abaixo.

— Não repara na bagunça. Acabei de comprar esse aquecedor usado. — Disse, fechando a porta.

Santiago aproveitou o espaço do apartamento. Tinha uma Yucca no canto da sala. Ao lado, abaixo da janela, ficava um sofá branco. A televisão ficava logo à frente, sobre uma pequena estante decorada com alguns livros que ele nunca pegou para ler. Atrás ficava sua cama de solteiro, ainda bagunçada, denunciando que ele estava dormindo.

O aquecedor ficava próximo à porta.

— O que faz aqui? — Santiago perguntou e em seguida sentou em sua cama.

Leonard procurou se sentar primeiro. Caminhou até o sofá, retirou as luvas e o casaco, esperando que o aquecedor estivesse funcionando bem.

— Senti sua falta, tudo bem? — Leo disse, acomodando-se no sofá. Santiago não ousou olhá-lo depois do que ouviu. — E por mais que você esteja chateado comigo, achando que eu expus suas fotos propositalmente, eu quero me desculpar. Por mais que me digam que eu não devesse fazer isso.

— Está tudo bem, Leonard.

— É claro que não está. — Leo afastou-se do encosto do sofá, olhando para Santiago deitado. — Você simplesmente aparece no refeitório e me acusa daquela maneira e eu fiquei completamente sem reação e me sentindo culpado!

— Eu descobri o culpado.

Leo se levantou do sofá.

— Como?

— Harry tentou dar em cima de mim e confessou ter espalhado as fotos porque me achou bonito.

— E-eu não creio nisso. Pois estou indo agora mesmo denunciá-lo. Isso não pode ficar assim!

— Não se preocupa, Leo.

Foi Harry quem tinha feito tudo aquilo. Por um descuido da turma de artes a sala onde Leo guardava suas obras acabou ficando aberta quando os alunos saíram para uma reunião. Ele simplesmente entrou lá na curiosidade de ver os nus artísticos e encontrou a pintura de Leonard. Acabou retirando algumas fotos e expondo-a daquela maneira.

— É nessas horas que sou a favor da violência. — Disse, sentando-se. Leo estava um tanto irritadiço. — Se eu fosse forte, esse garoto estaria tomando uns belos tapas na cara.

Santiago segurou-se para não rir daquilo que ouviu. Continuou a focar seus olhos no pequeno inseto que caminhava no teto do apartamento. Às vezes duvidava se aquele apartamento merecia o valor que tinha. Infelizmente, teria que permanecer por ali até sua grana ir de fato embora. O dinheiro que a irmã ganhou do falecido pai, só o ajudou a sair do trabalho. As coisas de fato apertaram para ele e a família e se quisesse continuar na universidade, teria que passar mais alguns anos ali.

— Eu sei que tocar nesse assunto deve ser chato. Mas de fato, a sua exposição serviu para alguma coisa. Quero matar o Harry depois do que ele fez, mas...

— Eu não vou fazer isso novamente. — Interrompeu.

— Me escuta, Santiago. — Disse, muxoxo. — Olha, eu sei de tudo, tá? Você foi expulso dos Tigres e não tinha lugar para ficar.

— Caine te contou? — Dessa vez ele olhou para Leonard.

— Não. Não tenho falado tanto com Caine ultimamente, sinto que nossa relação sempre foi meio abalada desde Danion. Não tenho nada contra ele, o adoro. Mas sabe quando você percebe que falta algo para tornar tudo natural? É como se nossas conversas não fluíssem, fossem sempre objetivas. Artificiais.

Santiago depois disso não fez mais perguntas. Ainda se sentia um idiota desde aquele dia em que pensou em tentar algo a mais com o Caine e o mesmo revelou a verdade. Em parte, sentia-se aliviado, pois tentava apagar algo dentro de si. E este mesmo algo estava sentado há alguns metros dele, falando bastante, como sempre foi.

— Logo após saber pelo próprio Colton que você foi expulso, eu liguei para a Lydia e enviei algumas fotos suas. Por favor, me perdoe desde já! — Leo até se ajoelhou. — Eu sei que sua vontade é ir até a cozinha, puxar a gaveta e pegar uma faca e estacar no meu peito! — Dramatizou, novamente dramático.

— Você deveria respeitar o meu espaço, Leonard. Se eu te falei que não me sinto a vontade fazendo essas coisas, é porque realmente não me sinto e você não deveria me expor. Fiz aquilo para quebrar seu galho e olha o que você me faz. — Santiago finalizou sentando-se na cama.

— Eu sei. Você tem razão de estar zangado. Mas é que eu tive que analisar sua situação, Santiago. E poxa, você é bonito demais e tem pinta de artista. Eu apostaria todas minhas fichas em você no meio artístico. Santiago, se você soubesse o peso que sua beleza tem, jamais se esconderia. Já disse que sou apaixonado pelo seu olhar?

Leo só notou que a palavra apaixonado escapou alguns segundos após finalizar sua fala. Santiago sentiu seu estômago formigar.

— Q-quer dizer... Ele tem um poder sobre-humano.

— Isso não importa. Você deve parar de me expor.

— Você acha mesmo que vai passar o resto dos seus últimos anos aqui? Santiago, você precisa de grana. Eu enviei suas fotos no intuito de te exibir para o mundo. Não só em Seattle, mas no mundo todo, é essa minha meta no momento. — Disse, um tanto exagerado.

— Eu consigo viver aqui.

— Se eu abrir seu armário será que eu vou encontrar comida suficiente para uma semana? Duas? Santiago, eu te conheço desde que você era um leonino. Não me faça agir como um estranho. Com a grana que você vai ganhar, isso vai te sustentar por mais tempo.

— Se nada der certo aqui, eu volto a morar com minha mãe, Leo.

— Não quero que isso aconteça. Qual o seu problema em não pensar em mim quando você for embora? —Leo temeu que Santiago interpretasse aquelas palavras de maneira diferente. — Eu só estou tentando te ajudar, Santiago. Não quero prejudicar de forma alguma. Querem te usar como catálogo de Inverno para uma revista de modas. Eles nem sequer estão se preocupando com tua altura ou peso, eles apenas gostaram do que viram.

Santiago não disse nada depois disso. Ele se levantou, caminhou até a cozinha e foi buscar um copo d’água. Leonard estava indignado por ele adotar aquela postura e não compreendê-lo, por isso, levantou-se e ficou de pé no batente na entrada da cozinha.

Após pegar, virou-se de supetão e não viu que Leo estava ali. Por isso, acabou caindo por cima dele, derrubando toda a água.

— Droga, Leo! — Santiago disse, ainda sobre ele, mas imediatamente se afastando.

Leo também estava assustado com aquilo. Mas quando viu o rosto de Santiago sobre o seu, imediatamente veio na memória flashbacks de dias atrás, quando estava na festa. Ele continuou deitado no chão, apenas olhando para Santiago que permanecia de pé, com o olhar sobre ele.

O mesmo olhar daquele dia.

Novamente outro flashback. Agora já estando no quarto de Caine, Colin e Edgar. Quando abriu os olhos e viu um rosto semelhante. O rosto de Santiago, preocupado.

— Foi você. — Leonard disse, levando a mão à boca.

Santiago não era um burro. Ele era antenado e costumava pegar as coisas no ar. Aquele olhar de acusação de Leonard dava a resposta para a maior de suas duvidas: será que ele lembra? Sim.

Leo se levantou encarando Santiago, que ainda não respondia.

— Era você naquela festa, não era? — Perguntou.

— Acho que está na hora de você ir embora, Leo. — Santiago passou por ele e caminhou até à porta.

— Foi você quem me beijou, não foi?

— L-Leo... Está tarde, você deve voltar. Outro dia conversamos.

— Oh, meu Deus... Eu não estou acreditando nisso. — Leonard caminhava a passos lentos atrás de Santiago.

Santiago abriu a porta. Leo, delicadamente, a fechou, parando à frente a sua frente.

— Nós precisamos conversar sobre aquele dia.

— Você está confuso, Leo. Não sei do que está falando.

Santiago sempre fugia, afastando-se. Dessa vez caminhou até a cozinha, recolhendo o esfregão para enxugar o chão molhado.

Leo nunca foi alguém reprimido, tímido e recatado. Diferente de tudo isso, ele era alguém espontâneo demais e muito alegre. Se colocarmos Caine e Edgar ao seu lado, dos três, Leonard se sobressaia por não se restringir as suas vontades.

Sua camisa estava molhada e mesmo que o frio o matasse, apesar do aquecedor, ele não se arrependeu de retirá-la. Exibindo cada curva sua, do corpo moderadamente desenhado. Santiago estava ajoelhado e quando levantou seus olhos para olhar o outro, demorou para esconder o nervosismo que lhe tomou conta. O aquecedor, de fato, aqueceu.

Não era normal encontrar Leonard sem camisa na república ou na Quadra, apesar de na maioria das vezes ele usar regatas. E para quem só o viu uma vez sem camisa, era algo tentador para Santiago que abaixou a cabeça imediatamente.

— Vista essa camisa, corre risco de adoecer, Leonard. — Santiago disse, levantando-se e dando as costas para ele.

Por que Leo estava fazendo isso? Ele não sabia. Estaria sendo um completo babaca por ser ousado a este ponto. Mas perceber que Santiago estava se entregando aos poucos, servia como combustível para provocar mais e mais.

Santiago voltou para a sala ainda evitando olhar para Leonard. Ele ligou sua TV e sentou-se no sofá. Leonard continuava de pé, encarando. Santiago ousou a se levantar e ir até uma das gavetas no armário ao lado da sua cama, retirou uma camisa qualquer e jogou para Leonard.

Leo foi obrigado a vestir. Não deveria ser idiota a este nível. Estava sendo constrangedor até para ele. Se fosse com qualquer outro cara, Leo até ficaria nu. Mas agora quando a ficha caiu, ele optou por não mais fazer nada.

Não era à toa que Leo gostava da sensualidade em suas obras de artes.

Ambos ficaram atentos ao noticiário da televisão. Na verdade, Leonard apenas escutava, já que estava logo atrás do aparelho. A notícia pedia para que as pessoas ficassem em suas residências e evitassem saídas, pois a neve que caía lá fora tendia a piorar.

Santiago insultou mentalmente a repórter por ter dito aquilo, não iria aguentar ter Leonard ali dentro daquele apartamento com ele. Ambos não iriam suportar, afinal, um desejo ardente queimava o interior de cada um deles.

— Nós nos beijamos? — Leo continuou a insistir.

— Leo, vai mesmo insistir nesse assunto? Não faço ideia do que você está falando.

— Por que eu me lembro de você?

— Você estava bêbado demais para se lembrar de qualquer pessoa. Sabe, falando nisso, acho que devemos dormir. Estou cansado. Como você viu, não vai poder sair daqui e voltar para a república, sugiro que deite.

Santiago desligou a TV e buscou um cobertor e travesseiro, deitando-se no sofá. Ele se cobriu e virou-se de costas para Leo, que ainda permanecia de pé.

— Pode usar a cama.

— Custa ser sincero comigo? Não entendo por que de estarmos agindo assim. Poxa, Santiago, eu era o mais próximo de você quando ainda era um leonino. Depois que passou a se relacionar com Caine, me colocou de escanteio e me trata com indiferença. Nem quer me fala a verdade sobre o que aconteceu na festa.

Santiago não respondeu, permaneceu deitado fingindo ter pegado no sono.

Leo não iria desistir tão fácil. E se para isso precisasse de provas concretas... Iria consegui-las.

Leonard caminhou até o sofá, puxou Santiago e arrancou o cobertor do mesmo. Assustado, Santiago permaneceu apenas observando-o. Mais uma vez Leo o puxou e o fez se sentar.

— Como sabia que eu estava bêbado demais se você não apareceu à festa?

— Porque você costuma encher a cara. — Abaixou a cabeça.

— Qual o problema de dizer que era você aquele dia? E-eu me lembro de ter visto você. Pode parecer loucura, mas as lembranças retornaram. Meu deus! O que foi que eu acabei te contando àquele dia? — Temia a sinceridade de quando estava bêbado.

— Por que insiste tanto em que seja eu?

Leo não pensou duas vezes.

— Eu acho que gosto de você, Santiago.

Não existiu som ou movimento dentro daquele cômodo. Santiago sentiu o tempo parar ao seu redor. Nem mesmo o ponteiro do relógio estava se movendo. O coração iria explodir por tamanho choque que sentiu.

— Demorei para perceber isso e, bem, só fui notar quando você começou a se relacionar com o Caine. É, sou um idiota. Por mais que não seja recíproco, mas fiquei feliz em saber que você estava se dando bem com sua sexualidade e eu meio que me iludi.

Santiago ainda não tinha dito nada. Porém, dessa vez, ele conseguiu olhar para Leonard.

— E saber que você talvez tenha me beijado...

— Foi eu. — Admitiu, interrompendo-o.

Dessa vez quem ficou sem palavras foi Leonard.

— Olha, é loucura, tá bom? — Santiago dessa vez se levantou e andou de um lado para o outro. — Não sei o que deu em mim, mas eu não quero mais isso, tá? Prefiro continuar vivendo minha vida e eu não quero ser gay.

Mais uma vez, acabou tendo de repente uma crise de aceitação. Era algo engraçado que com Caine até conseguisse esquecer isso, provavelmente porque não o amava de verdade. Mas com Leo... Com Leo era real, forte, e não haveria escapatória depois que se entregasse àquele sentimento.

— Você pode me odiar depois do que eu vou falar. Mas acho que está na hora de parar com esse teatro, Santiago. Há alguns dias atrás você estava tendo um relacionamento com o Caine. Todos nós sabíamos disso, pois vocês dois viviam presos no quarto! — Odiava imaginar isso.

— Sim. Mas já passou. Eu acreditei que... Foda-se, Leo. Eu não te devo explicações. Eu não quero ter a mesma vida que você, é só isso. Meu padrasto morreu dizendo que homem tem que ser homem. E eu sou homem.

— Conheci o seu padrasto, Santiago, e ele nunca me desrespeitou. É uma pena quando você não consegue compreender o que ele quis dizer. Em nenhum momento essa frase aborda a sexualidade alheia. Homem é diferente de ser uma criança, um garotinho. Ser homem é ser maduro, adulto e responsável. Arcar com as consequências de suas atitudes. E não fugir delas.

Santiago ainda estava completamente magoado com o acontecido. E na menor oportunidade que teve, estava descontando em Leonard. Suas crises de aceitação aconteciam com frequência quando ele se via preso em algum problema e costumava culpar sua sexualidade por isso.

— Eu convivi com ele durante anos para saber que não é disso que ele fala e...

De repente todas as luzes se apagaram. A escuridão tomou conta do cômodo. Foi um péssimo momento para a energia ir embora. Maldito tenha sido aquele dia que nevava.

Leonard imediatamente puxou seu celular do bolso e iluminou Santiago, sabendo onde ele estava. O efeito do aquecedor logo perderia o efeito agradável e o frio iria tomar conta do cômodo.

Santiago aproveitou da pouca iluminação e caminhou até a cozinha. Leonard serviu de guia naquele momento, deduzindo os passos do maior. Santiago abaixou-se na última gaveta do armário e de lá retirou algumas velas.

Pegou algumas xícaras, pôs a vela sobre a traseira do objeto e acendeu algumas delas, suficiente para iluminar parte da sala.

Na oportunidade que teve, Leonard desligou seu celular e permaneceu de pé. Santiago também estava de pé, próximo a uma das velas. Ele olhava através da janela a escuridão lá fora. O vento, agressivo, era notável quando produzia sons assombrosos.

— Vá dormir, Leonard. — Santiago sugeriu, dessa vez mais calmo.

Leonard abaixou sua cabeça e sentiu a primeira lágrima descer. Era incrível como as pessoas tinham a incrível capacidade de magoá-lo. Santiago quando estava com Caine parecia radiante, mas na sua presença sempre se tornava frio, fazendo de tudo para que se afastasse.

Santiago não viu que Leonard chorava.

Leo caminhou até o seu casaco e o apanhou, vestindo-o logo em seguida. No momento em que deu as costas, a luz produzida pela chama da vela refletiu em sua lágrima. Foi só aí que Santiago notou o choro silencioso do menor.

Mas Santiago não conseguiu reagir. Ele ficou deitado, vendo Leonard caminhar de cabeça baixa até a cama.

Leo não chorava como uma criança, onde as lágrimas caíam sem cessar misturadas com soluços. Era um choro mudo, com lágrimas alternando a cada minuto. A cada pensamento a respeito do que Santiago se transformou, fazia sua alma doer. Sentia falta do antigo garoto que mesmo sendo fechado e, ainda hétero, lhe dava atenção.

Não era mais tempo para manter a postura.

Santiago se levantou do sofá e caminhou até a cama, sentou-se ainda no chão e teve sua face iluminada pela vela ao lado da cama. O maior tocou o rosto de Leonard para certificar-se de que ele ainda chorava. Leo não se moveu.

— Por que chora? —Perguntou.

— Nada é recíproco. Eu sou um idiota mesmo. —Dessa vez sorriu, porém, triste. — Acabei de dizer que gosto de você e como era de se esperar não é recíproco. Eu vou realmente acabar sozinho. Você me beijou na festa, eu descobri e por um minuto me iludi. Engraçado, não?

Leonard virou seu rosto e conseguiu enxergar Santiago graças à vela. A mesma sensação que sentiu no dia que o pintou. Como adorava o contraste da escuridão e luz ao mesmo tempo, dando destaque aos olhos enigmáticos que Santiago tinha.

— Talvez seja apenas coisa da sua cabeça.

— Eu não sou capaz de fazer nada que possa encantar um garoto.

— Lembra do dia em que você me viu trabalhando na lanchonete? Alguns dias antes eu ainda era usuário de droga, por isso o cabelo e a barba que você tanto criticou. — Uma pausa. — Depois da sua visita eu resolvi largar toda a droga de verdade e te fiz de motivação para isso. Todos os dias em que a vontade vinha, eu relacionava a droga consumida ao seu ódio. Cada vez que eu usasse, maior seria seu ódio. Eu tive medo disso.

Leo escutou em silêncio, porém, lisonjeado com o que ouvia. Quando pensou em falar algo, Santiago prosseguiu:

— Você é o verdadeiro culpado por eu sair da república de leões, Leonard. — Disse, olhando para o chão.

— Eu? —Indagou, temeroso.

Santiago apenas se levantou, colocou seus dois joelhos sobre a cama e em seguida montou em cima de Leonard, olhando-o no mais profundo de seus olhos. Leo não desgrudou um minuto os olhos dos de Santiago. Permaneceu parado em seu lugar, apenas vendo a face do outro acima da sua.

— Eu não mais suportava conviver com alguém que tinha tomado a minha alma sem eu nem perceber. Não existe Caine algum para cobrir o verdadeiro amor que eu sinto por você, Leonard.

O que eram os olhos famintos de Santiago sobre os de Leonard naquele momento? Da mesma forma que a luz tinha se apagado, o beijo aconteceu. Assim, rápido e de repente.

Leo imediatamente afastou suas pernas e Santiago se colocou entre elas. Era um beijo típico do momento, quente e, em se tratando de Santiago, extremamente sedutor. Ele procurou não se preocupar com mais nada senão beijar Leonard, mesmo que pudesse se arrepender em algumas horas depois.

Esse era e sempre havia sido um de seus medos: se arrepender, por culpa de sua dificuldade de aceitação, e magoar Leonard ainda mais. Porém ao vê-lo chorar, percebeu que já o magoava demais. Ele não queria isso, não podia deixar acontecendo, e esse impulso o levou a se declarar.

Por mais que a mente de Leonard se esforçasse para trabalhar e sua vontade fosse interromper aquele beijo, o seu corpo parecia desejar aquela pressão sobre si. Principalmente quando os dentes do maior cravaram em seu queixo por alguns segundos até voltar para os lábios.

Leonard só abria os olhos por um segundo e logo os fechava. Mas então, Santiago parou.

— Caralho, eu não deveria ter feito isso.

Santiago afastou-se sentou na cama, ainda ofegante pelo beijo. Ele não conseguiu olhar para Leonard depois do que fez. Seus lábios ainda ardiam e sua pele estava tão quente como a chama da vela ao lado. Sentiu-se confuso com as barreiras que começavam a ser derrubadas.

Leo permaneceu em seu lugar, estático. Ele tocou seus lábios e olhou seus dedos.

— Eu quero transar com você. — Leo foi direto ao ponto, ainda deitado.

— Isso é loucura, Leo. E-eu...

Leonard se levantou da cama e ficou de pé. Descabelado e com os lábios queimando, ele olhou Santiago ainda sentado.

— Santiago Kenneth Loren, 22 anos, cursa engenharia mecânica e é um gênio da matemática. Ex-leonino, ex-tigre e ex-drogado. Eu poderia puxar toda a sua ficha, Santiago. Eu te conheço melhor do que ninguém e você sabe disso perfeitamente. Como pode me dizer aquelas palavras e agora estar agindo assim?

Santiago tinha admitido o seu maior segredo para Leo e, por isso, não conseguia olhar em seus olhos. Não conseguia compreender tamanha insegurança que sentia diante daquele que estava de pé à sua frente.

Leonard ajoelhou-se e tocou o queixo de Santiago.

— Acho que já está na hora de você me valorizar mais. Não sou mais um garoto e você também. Somos adultos, Santiago. Não vivemos de romances baseados em livros. Se esta é a nossa realidade, teremos que vivê-la.

— Posso me arrepender, você me conhece...

— Então me diga o que isso significa...

A ousadia de Leonard era incrível. Sua mão em menos de um segundo estava tocando o membro já adormecido de Santiago, que ficou estático ao toque. No segundo que se passou, ele já estava novamente duro.

— Mostre-me do que você é capaz. Se foi capaz de me falar aquilo, certamente será ca...

Tarde demais para concluir a frase.

Leonard foi puxado bruscamente e ficou entre as pernas de Santiago, de costas.

Por muito tempo, dentro de Santiago, existiu um amor contido. Um desejo incontrolável, vontade sem nenhum controle. Como fera indomável que rugia dentro da jaula. Lá estava ela sendo liberta.

Aquilo foi o necessário para Leonard admitir que aquela foi a melhor pegada que já tinha recebido. O seu pescoço foi tomado por várias mordidas e sucções. Sabia que pela manhã veria marcas naquela região.

Quando menos esperou, as mãos de Santiago invadiram sua camisa, tocando a pele que havia por baixo. No passo seguinte, a veste foi retirada. O frio? Este estava deixando de existir aos poucos. O fogo iria tomar conta do cômodo.

Leonard virou-se e pôde encontrar os lábios de Santiago. Munidos de desejo, eles se beijavam como se fosse a última vez. Pelo menos para Leonard, sabendo que a qualquer momento Santiago poderia ter uma de suas crises, deveria aproveitar e provar daquele pedaço de mal caminho que estava prestes a consumi-lo.

Santiago levantou-se, interrompendo o beijo. Puxou Leo e ambos continuaram os beijos em pé. Logo, Leonard foi lançado contra a cama. — Caine não seria capaz de aguentar um Santiago daquele.

Leonard gemeu assim que seu pescoço foi tomado mais uma vez pelo corpo do outro que montou sobre si. Sua mão não era capaz de cobrir o membro de Santiago, ainda que por fora da calça, era uma das regiões que mais estava adorando tocar. E bem, aquela era a primeira vez que ele sentia aquilo.

Conseguindo encontrar o zíper, Leonard o puxou. Introduzindo sua mão dentro da calça de Santiago, descendo a cueca internamente e expondo o membro de Santiago para fora da veste. Estava aquecido, Leo sentia isso, principalmente por tocá-lo sem parar. Santiago até cravou os dentes na região da clavícula do menor, pelos choques de prazer sentido a cada toque.

— Leo, eu não consigo ser gentil. — Murmurou.

— Eu não me importo... Só continue. – Sussurrou.

Foi nesse momento que Leonard teve os dois braços presos pela mão do outro. Santiago olhou para a vela ao lado e a apanhou. Leo seguiu com os próprios olhos o caminho que a vela fazia até vê-la parar acima da sua barriga.

Santiago o olhou. Leonard não pareceu se intimidar. Santiago continuou olhando-o, precisava da confirmação do menor. Leo apenas balançou a cabeça e fechou seus olhos.

O maior apenas inclinou um pouco a vela e uma única gota derretida caiu sobre a pele clara de Leo, que por um segundo gemeu de dor. Uma dor passageira que não durava sequer dez segundos.

Uma segunda gota desceu. Outro gemido.

Na terceira gota, Santiago depositou a vela em seu lugar e soltou as mãos de Leonard. Não deveria ter feito aquilo, mas fez. Uma loucura? Talvez. Ele só aproveitou do momento para matar um de seus fetiches.

Leonard dessa vez sentou-se na cama e, abusado, fez com que Santiago se desfizesse das roupas que usava.

Já despido, Santiago deitou-se na cama com as pernas para fora e a cabeça encostada à parede.

Leo ficou de costas para Santiago e abaixou sua calça, retirando também os sapatos. Para Santiago, foi completamente tentador ver Leo despido e de costas para ele. A bunda lisinha de Leonard era motivo das suas várias ejaculações.

Santiago permaneceu em seu lugar e viu quando Leonard ajoelhou-se, colocando-se entre as pernas dele.

A partir dali, Leo mostraria do que era capaz. E bem capaz...

Seus dentes, primeiramente, mordiscaram a coxa de Santiago. Aquele toque era capaz o suficiente para dar prazer semelhante a um oral, embora não mais intenso. A mão de Leonard já masturbava lentamente o membro rígido do outro, já podendo sentir o pré-gozo tocar o seu dedo.

Ainda apreciando da coxa de Santiago, Leo ouvia os vários gemidos que Santiago deixava escapar. Os lábios macios de Leo encontraram a virilha de Santiago e por ali permaneceu até finalmente subir e mordiscar o falo ainda aquecido de Santiago.

Leo era ousado demais. Ele nem sequer havia introduzido o membro em sua boca, mas foi capaz de proporcionar prazer absurdo que Santiago jamais havia sentido. Levando em consideração de estar recebendo aquilo de alguém que tanto almejava na cama, amorosa e sentimentalmente.

A língua de Leonard percorria toda a extensão do pênis. Em certos momentos ele conseguia olhar para Santiago, embora estivesse com a face enegrecida pela falta de luz, e os dois mantinham a conexão através do olhar: dê-me prazer. Receba prazer.

Leo ainda não havia tocado, de fato, a glande de Santiago. Permanecia sugando o falo. Mas no momento exato, sua boca introduziu de uma vez por todas a metade daquele membro rígido que pulsou em sua boca.

O gemido dessa vez foi mais notável.

Depois daquilo, Leonard apenas fechou os olhos e seguiu em frente com seu oral. Sem interrupções. Mesmo que lhe faltasse ar, ele permanecia com o membro em sua boca. As mãos subiram e cada uma, respectivamente, acariciavam o mamilo de Santiago.

Como Santiago conseguiu aguentar a ejaculação por tanto tempo? E ele sabia que estava sendo difícil ter que se controlar diante daquele oral.

Na pausa que Leonard fez, ele o masturbou até que pudesse recuperar o ar e em seguida voltou a proporcioná-lo prazer. Distribuía sua língua nos pontos erógenos da região.

Santiago não aguentou e teve sua primeira ejaculação ali. Parte dela tocou a bochecha de Leonard, que sorriu com aquilo.

Leo ficou de pé e limpou sua bochecha com a própria mão.

— Não consegui me controlar. — Santiago disse, puxando-o.

— É normal... — Sorriu, beijando-lhe os lábios.

— Significa que vou receber o melhor oral da minha vida depois de hoje. — Disse, entre os beijos.

Seria estranho dizer que Santiago sentia do próprio gosto, afinal, minutos antes Leonard estava chupando-o com vontade.

Na medida em que o beijo prosseguia, Santiago deitava o corpo do menor sobre a cama e dois de seus dedos desceram até se colocarem entre as nádegas de Leonard que, com o próprio pré-gozo de Leo, passou a massagear a região.

Leo gemia baixinho enquanto sentia os dedos em si.

— Eu não transo sem camisinha, Santiago. — Murmurou, de olhos fechados.

Não importava se era Santiago ou não. Leonard sempre optou pelo sexo seguro. E não existiu sequer uma vez em que ele foi capaz de prosseguir o ato sem. Chegou até interromper alguns sexos pela falta da proteção. E não se arrependia disso.

Santiago rolou um pouco para o lado, com dificuldade puxou a gaveta. Teve mais dificuldade de achar no meio de suas roupas algum preservativo. Por sorte, encontrou a cartela. Ele fez questão de entregá-la a Leonard, que retirou uma e jogou as demais no chão.

Nesse intervalo de beijos, Santiago já estava novamente excitado. E Leo queria confessar em voz alta que estava adorando o fogo incontrolável que Santiago estava tendo. Nem todos teriam força para uma segunda excitação. Santiago seria capaz de uma terceira por Leonard.

Santiago rasgou o preservativo com os dentes e o colocou em seu membro logo em seguida. Colocou Leonard de lado e levantou uma de suas pernas.

Leo sentiu o membro lhe tocar, disse:

— Não me venha com papo de que vai me machucar. Porque isso machuca mesmo.

Santiago não falou nada. Ele simplesmente pressionou seu membro contra Leo até que finalmente o introduziu, mesmo que por inteiro. Leo tocou em sua cintura, impedindo-o de continuar.

Leonard respirou fundo várias vezes e procurou pensar em algo que não fosse a dor. Ele só tentou, mas não conseguiu. Não importava quantas vezes fizesse aquilo. Sempre iria doer. Mas era típico do sexo, doeria sempre. Uma dor que proporciona prazer ao mesmo tempo. Uma mistura de ambos.

Quando retirou sua mão da cintura de Santiago, o maior entendeu o recado. Centímetro por centímetro foi sendo introduzido em Leonard, que aguentava em silêncio. Mas no momento em que Leonard conseguiu sentir sua nádega encostar ao corpo do outro, gemeu, pois finalmente estava inteiramente conectado.

A partir dali, a cama tornou-se pequena para os dois. Todo o cômodo foi aproveitado.

Santiago era violento e Leonard estava adorando aquilo. As investidas do maior eram fortes a ponto de derrubá-lo. Mas Leo retribuía com gemidos, mostrando também ser forte.

A ousadia de Leonard foi tão grande, que ele foi capaz de abrir a janela e por a cabeça para fora, enquanto o outro estava logo atrás dele, penetrando-o. Leo só não gemeu, porque aí seria querer chamar a atenção. Mas ele sentia prazer em silêncio, observando os carros logo abaixo, estacionados, sendo tomados pela neve que caía. Era uma visão bela a do mundo tornando-se branco aos poucos.

Santiago nunca se sentiu tão capaz. Por muito tempo se sentia desvalorizado e considerado o cara mais azarado da quadra. Sempre foi tão reservado e mesmo pertencendo a duas das maiores repúblicas, ele não teve amigos nela. Exceto Leonard, mas esse daí não era apenas um amigo.

A noite prolongou-se para a madrugada e o ato sequer havia chego à metade. Leo e Santiago já estavam cansados, mas o desejo de consumo pelo outro era maior. Foram duas horas inteiras e mais trinta minutos com Leonard e Santiago gemendo.

Já estavam novamente na cama. Leo estava de costas, com as mãos apoiadas na cabeceira da cama, enquanto Santiago penetrava-o enquanto mordia o seu pescoço. Entrava e saía, ainda com a mesma força do início. Nesse quesito ele maltratava de Leonard que, infelizmente, pela manhã iria sentir o estrago que o outro estava fazendo.

Em determinado momento Santiago trocou seu preservativo a pedido de Leonard.

Leonard agora estava sentado sobre o membro de Santiago. Ele inclinou seu corpo para beijá-lo, ainda que outro estivesse dentro dele. Leo sorriu pela primeira vez após ser penetrado. Santiago sorriu com os olhos.

Durante todo o ato, Leo já havia passado pelo ápice por duas vezes sem que Santiago percebesse isso. A primeira vez foi no momento em que foi penetrado, a segunda quando estava na janela.

Investidas e mais investidas. Dos dois, quem era o sortudo?

— Leo, eu... E-eu... Leo! — Santiago disse em um gemido.

Às pressas, Leonard saiu de cima de Santiago, colocou-se de lado e retirou o preservativo do maior. Voltou a beijar os lábios de Santiago enquanto masturbava-o. Em menos de um minuto Santiago ejaculou pela segunda vez, dessa vez, gemendo sem parar. Leo apreciou cada urro, cada movimento involuntário de seu corpo.

Segundos se passaram e Santiago continuava a gemer e a se contorcer. Era como se estivesse colocando todo o prazer para fora de uma vez por toda. E foram anos com aquele desejo dentro dele.

O corpo de Santiago parou de se mover, ele puxou Leonard para si e o beijou uma última vez, exausto. Leonard sempre foi muito preocupado com sua aparência, mas por sorte estava longe de espelhos. Não iria querer se ver.

— Não pensei que você fosse assim na cama. — Leo iniciou o diálogo.

— Assim como?

— Sempre tão quieto e calado. Judiou de mim.

— Eu não queria falar sobre isso...

Leonard engoliu em seco e ficou em silêncio. Não seria possível...

— Eu só queria falar que essa foi uma das melhores noites que alguém já me proporcionou, Leo. Se soubesse o quanto estou feliz por você estar aqui, jamais iria embora. Não falo do sexo em si, apesar de que... — Fez uma pausa para respirar, ainda estava exausto — Cara, isso foi incrível.

— Está me dizendo o quê?

— Não estou te dizendo nada, Leo. Só estou te pedindo para namorar comigo. Mas namorar com compromisso, com direito a anel de relacionamento. Se quero ser feliz, começarei me assumindo para minha mãe, depois disso não me importarei com o resto.

Se Leo queria chorar? Sim. Afinal, ele sempre imaginou que ficaria solteiro enquanto todos ao seu redor teriam alguém. E ali, ao seu lado, embora não olhando para ele, alguém o pedia em namoro. Há quanto tempo não ouvia isso?

— Hein, Leo, você aceita namorar comigo? — Surpreendeu.

— O que eu ganho se falar que sim? — Perguntou, sorrindo. — Bem, levando em consideração todas as vezes em que você me evitou, eu devo te falar que não.

Santiago por um momento acreditou naquelas palavras.

— Está falando sério?

— Não. — Sorriu e enfiou sua face no pescoço de Santiago. — Só estou feliz demais para conseguir me controlar. Mas saiba que se assumir não significa se declarar para o mundo que você é gay. Infelizmente, para nós, ainda não é fácil. Mas faça as coisas sem ter medo a partir de hoje, aos poucos, você acaba se assumindo sem sequer precisar falar.

— Nós ainda temos muita coisa para conversar, Leonard. — Falou Santiago, não querendo transformar tudo aquilo em um mar de rosas, apesar de tudo. — A primeira delas é que eu sou ciumento.

— E eu sou independente. Mas vou adorar passar na república do Harry quando sair daqui e ter uma longa conversa com ele.

— Estamos tendo nossa primeira discussão de relacionamento? — Perguntou, sério.

A luz voltou no exato momento em que Santiago concluiu a frase. Leonard sorriu e viu todo o cômodo revirado pelas travessuras que cometeram ali dentro. Santiago não estava se importando com isso. Ele não retirava os olhos de Leo. Realmente, não estava arrependido do seu ato. Ao contrário, iria se arrepender se não prosseguisse.

Como ele já sabia, Leo não precisava falar que era gay. As pessoas já notavam assim que colocavam os olhos nele, pelo jeito levemente afetado. Leo era alegre, de bem com a vida e bastante sorridente. Santiago era tão oposto disso.

— Ex-leonino, ex-tigre, ex-drogado e ex-homofóbico. E sim, aceito seu pedido de namoro.

Santiago o puxou para beijá-lo. Leo interrompeu, silenciando-o com um dedo na boca.

— Faça o possível para que eu não te chame de ex-namorado.

O primeiro beijo após admitirem relacionamento aconteceu. Certamente, aquela seria uma das notícias que durariam uma semana no Jornal da Quadra.

[...]

Sean estava dentro do seu carro estacionado em frente sua república há quase uma hora. Ele viu quando membro por membro foi saindo de dentro da república e dali entraram numa van branca estacionada. Ele não viu Colin sair e, por estar desatualizado quanto às informações da Quadra, achou que Colin estivesse sido expulso.

O moreno ficou por mais alguns minutos dentro do seu carro até ver Colin abrir a janela do quarto.

A verdade é que todos foram festejar com Sebastian. Até mesmo Danion tinha ido, embora as farpas entre os dois fossem notáveis durante todo o trajeto. Colin não se sentia à vontade para ir por dois motivos: não estava animado e William estaria lá. Certamente o loiro não iria se o pequeno também optasse por comemorar o último dia do ruivo na Quadra.

Sean saiu do seu carro, pôs o capuz do moletom e olhou para os lados. Não se importou com sua república. Apesar de não ser mais sua e toda a Quadra já sabia que a liderança agora pertencia ao Colton. Com isso, sua moral e reputação vinham caindo.

Sean, de cabeça baixa, caminhou até a janela do quarto de Colin e, sorrateiro, saltou a janela.

Colin se assustou com a aparição do homem misterioso dentro do seu quarto, tanto é que imediatamente puxou debaixo da cama um bastão de beisebol que escondia, dica da mãe. Mas quando Sean retirou o capuz da cabeça, o pequeno sentiu o corpo tremer e o peito apertar, apesar da mágoa ainda sentida, era incrível como Sean sempre lhe causava impacto.

Ver aquela barba já crescida tomando conta da sua face e as olheiras notáveis foi de partir o coração. No que estava se transformando o homem que amava?

— Se te pegam aqui, te matam. —Disse. — Vá embora.

— Nós precisamos conversar, Colin. — O moreno disse, fechando a janela temendo que alguém o entregasse.

— Nós não temos nada para conversar.

Sean era mesmo um cara corajoso. Invadir a república dos leoninos só pelo pequeno era um ato de coragem.

— Eu quero te pedir perdão.

Um tigre nunca abaixa a cabeça para ninguém. Um tigre é conhecido pelo seu orgulho, poder e riqueza. Esse tigre, sendo líder — agora sendo um ex-líder, deveria ser exemplo para todos os demais. Mas diante daquele que amava, provou que orgulho não o levava a lugar nenhum.

Porém, duas vezes mais orgulhoso que ele, quando se tratava de um coração machucado, lá estava Colin, sem conseguir sentir a emoção daquelas palavras.

— E acha que isso vai consertar tudo?

Foram sete dias de lágrimas para o pequeno. Nesse dia, ele não iria chorar. Não queria. Por isso, permanecia firme.

— Pode ser que não. Mas estou aqui para isso. Pode ser que eu consiga provar para você que tudo não passou de uma armação do Colton. E, pensando bem, eu fui covarde.

— Não acredito em você. — Firme permaneceu, soltando o bastão na cama.

Sean se calou. Ele olhou para Colin e, pela primeira vez, o temeu. Colin estava irreconhecível.

— Eu não estou mentindo para você. Colin, eu...

— Não, Sean. Você nada! Não quero acreditar mais nas suas palavras. Nada do que você me disser apagará a humilhação que me causou àquele dia. Isso tudo aqui é mais um de seus teatrinhos para conseguir algo comigo. O que aconteceu? Colton novamente anda te traindo? Porque você nasceu para isso.

— Pode me insultar o quanto quiser. Sou merecedor de tais xingamentos. Só quero explicar para você que...

— Cala a boca! — Colin gritou. — Não me venha com drama. Nada vai mudar, Sean. Você foi capaz de me causar uma dor que eu não desejo a ninguém.

— Sabe a neve que cai lá fora? — Sean permanecia com as palavras baixas, enquanto Colin estava agressivo. — Você está frio como a estação que estamos atualmente.

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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

— Exatamente, Sean. E sabe a quem devo agradecer?

— Eu te amo, Colin. — Murmurou, com os punhos fechados e cabeça baixa. Os fios de cabelo, também grandes, cobriam parcialmente os olhos.

Colin fechou seus olhos e como um gato feroz, acelerou os passos em direção ao Sean. Dali, o primeiro tapa foi certeiro na face do moreno. Logo depois, tapas e mais tapas seguidos de chutes, porém, nenhum deles tinham força suficiente para derrubar aquele que era duas vezes maior que ele.

— Eu te odeio! Te odeio! — Repetia diversas vezes, ainda estapeando-o.

— Para! — Sean segurou em suas duas mãos e ergueu a cabeça.

Não foi uma única lágrima que descia da face do moreno. Ele caiu de joelhos e soltou as mãos de Colin, derrotado.

— Eu não sei o que fazer sem você, Colin. Eu só quero te contar toda a verdade, mas você não me escuta. Por mais que não acredite, Colton está por trás de tudo isso.

Colin não iria acreditar. A começar pela idade de Sean e não considerá-lo mais uma criança. Depois vem ao fato de que Sean não abaixa a cabeça para ninguém e Colton estava longe de ser uma dessas pessoas.

— Levante-se daí. Me poupe das suas lágrimas, Sean. As minhas também não tiveram menor significado para você. Já disse que minha meta é te odiar. Ódio jamais dá espaço para compaixão.

Sean poderia chorar por mais tempo, ainda ajoelhado naquele chão. Era a primeira vez que Colin o via chorar. Quando Sean chorava, deveria ser um momento para se registrar, pois não existia coração de pedra maior que o dele. Porém, o título foi passado para outra pessoa. E para piorar ainda mais a situação: uma pessoa a quem ele amava.

O moreno ficou de pé, não mais se rendendo. Enxugou suas lágrimas, mas ainda assim elas desciam.

— O fato de você me odiar não me machuca. O que dói é saber que fui eu quem te transformei nisso.

— Queria poder discordar de você, Sean. Mas depois disso aqui, está claro que foi tudo um erro e que pretendo fazer dele passado. Você também deverá fazer o mesmo. Não quero mais machucar as pessoas ao meu redor por mentiras.

Sean abaixou a cabeça, vestiu novamente o capuz e aproximou-se da janela.

— Use os cotovelos e joelhos quando for bater em alguém, Colin.

Sean então abriu a janela e saltou pra fora.

Foi nesse momento que a postura de garoto forte que Colin mantinha foi por água abaixo. Impedido de gritar, temendo que o outro o ouvisse, Colin buscou por descontar sua raiva em objetos.

Logo quando conseguiu ver, perto de si, uma pequena caixa de madeira, Colin a lançou contra a parede. O objeto se quebrou em duas partes e, por ironia do destino, o cordão que um dia ganhou do Sean, estava lá.

Colin caminhou lentamente até o cordão preto com dois pingentes militares. O pequeno o apanhou e o passou por entre os dedos, indo até sua cama. Após se sentar, Colin continuou a olhar o objeto.

Se perguntou como conseguiu permanecer com aquilo. Deveria jogar no lixo, não queria mais nada do moreno.

Colin então teve as lembranças do passado. Do início. O seu primeiro beijo e a sua primeira vez. Colin às vezes se perguntava como Sean poderia ser daquele jeito. Não existiam qualidades nele, mas era um completo sedutor. Atraente ao extremo e, de qualquer forma, conseguiu ir para a cama com alguém que jamais imaginou.

Era quase que um pecado recordar disso, afinal, ele queria odiá-lo. Mas as sensações dos toques enquanto deitado na cama do moreno, dos beijos e mordidas e até as investidas que recebia, deixava-o com o coração destruído.

Mas as memórias eram sem seu controle. Por mais que tentasse, elas tomavam conta de sua mente. Lembrou-se dos bons momentos em Aroma e até da loucura que cometeu na estrada, dentro daquele quarto.

Colin puxou o celular do bolso, pronto para ligar para Caine e contar-lhe o que aconteceu. Mas no momento em que ia digitar os números, parou e percebeu que não deveria fazer aquilo, afinal, não queria atrapalhar ninguém.

Por muito tempo permaneceu com os olhos fixos na tela do seu celular, depois olhou para o cordão e mais uma vez ao celular. A mente de Colin começou a trabalhar.

Colin correu para a gaveta para o armário e puxou um bloco de notas. Ali, anotou todos os números do colar: 83266 e 26546, depois disso, ao lado do número, individualmente, escreveu as letras que ficavam abaixo de cada número em seu celular.

Colin levou sua mão à boca e chorou ao descobrir a verdade.

8, T U V;

3, D E F;

2, A B C;

6, M N O;

6, M N O;

2, A B C;

6, M N O;

5, J K L;

4, G H I;

6, M N O.

Colin caiu na cama ainda chorando, pois sua alma implorava por conforto. Um choro mudo. Deveria rugir como um leonino e por para fora sua raiva, mas no momento, encontrava como um filhote do mesmo, indefeso, dependente da proteção.

Te amo, Colin.

Era o que o cordão dizia.

Notas finais
Olá, sei que atrasei, mas quem me acompanha no ask sabe que estou passando por sérios problemas familiares e escrever vem se tornando um refúgio em alguns momentos, mas eu não tive todo o refúgio que queria ter. Para entender melhor: http://ask.fm/thomasnyah/answer/123434784284 (Copiar e Colar). Por isso, não tive estruturas alguma para responder os reviews anteriores, mas tentarei fazer com que isso não se repita com os reviews deste capítulo. Amo todos vocês.