Notas iniciais
O ódio que eu alimento.

Ele já estava ali há duas horas ou mais. As lágrimas cessavam e, depois de alguns minutos, voltavam a molhar sua face. Colin não conseguia controlar o choro, era quase que inevitável. Não tinha coragem de voltar para a república, pois saberia que todos fariam perguntas e mesmo que dissesse que nada havia acontecido, isso seria uma mentira descarada e ninguém acreditaria. Não iria suportar olhar para William, sabendo que este seria o mais preocupado entre todos eles. “William... Perdoe-me.” Pensou o pequeno.

Colin estava sentado em um banco em frente a uma lanchonete. As pessoas que entravam e saiam olhavam para ele. Uns chegaram a perguntar se algo havia acontecido. O pequeno chegou a ser rude e gritar pedindo para que não olhassem para ele.

Queria entender o porquê de Sean ter feito aquilo com ele. Usar Colton foi como tomar um tiro no peito. Tiro esse que explode em seu interior e acaba destruindo-o por dentro. Mesmo dizendo em formas de sussurro que Sean não merecia uma lágrima sua, pronunciar o nome do moreno o deixava com mais ódio.

Um grupo de pessoas acabou saindo da lanchonete e despertou o pequeno daqueles pensamentos.

— Colin?! — Alguém chamou a atenção do pequeno.

Colin conhecia perfeitamente aquela voz. Ela tinha um tom bobo, leve e brincalhão. O pequeno odiou o momento em que Luke parou em sua frente.

Luke trajava uma jaqueta preta, calças claras e sapatos da mesma cor. Estava acompanhado de mais três garotos e quatro garotas.

O leonino sentiu um constrangimento terrível, principalmente com toda aquela gente o olhando.

— O que faz aqui? — Luke indagou.

— O que é que tão olhando? —O pequeno indagou, finalmente falando depois de muito tempo. — Hein?! Perderam alguma coisa?

— Ele é assim mesmo. —Luke se virou para os colegas. — Vou ficar por aqui mesmo. Podem ir.

Os colegas de Luke permaneceram em silêncio. Eles olhavam para Colin e em seguida para Luke. Dúvidas surgiram na mente de cada, mas eles não arriscaram em perguntar nada. Continuaram estáticos, sem expressão alguma.

— Podem ir, gente! Depois eu ligo pra vocês. Vão! — Dessa vez deu uma ordem.

Uma garota acabou tropeçando nos pés da outra e logo se recompôs. Eles finalmente saíram dali, deixando-os sozinhos. Luke permaneceu de pé enquanto Colin olhava para o chão. As lágrimas finalmente haviam cessado e ele apenas enxugava a pele umedecida.

— Foi expulso da república? Seus pais te abandonaram? Tá fugindo de alguém? A polícia descobriu algum segredo seu? O FBI? Meu Deus, não me diga que você matou alguém! — Não tinha mais o que falar. — Sei lá...

— Eu quero dormir, Luke. — Colin pediu, ainda enxugando os olhos.

— Certo. Eu te levo para a sua república. Eu vou pedir um táxi. — Luke puxou o celular do bolso.

— Eu não posso voltar para a república. Não hoje, não agora.

— Está dizendo que vai dormir na minha república? Cara, Joshua vai odiar isso, mas... Vamos! Tem minha cama, imagina só eu e você juntinhos!

— Você é idiota demais. — A voz já começou a se tornar firme. — Sua república é vizinha a minha.

— Então eu não sei... — Coçou a cabeça. — Só se você quiser ir pra algum mot... Ops, Hotel.

— Eu só quero dormir, Luke. — A voz novamente voltou a torna-se fraca. — Me leve daqui.

Colin literalmente fez uma suplica. Luke olhou para os lados e agradeceu por ver um táxi se aproximando. Estendeu a mão e foi correspondido. Guardou seu celular no bolso e olhou para o pequeno.

— Você vai me contar o que aconteceu e vai dormir abraçado comigo! Não adianta fugir, ok?! Leve isso como pagamento por estar te ajudando agora.

Luke estendeu a mão para Colin, mas o pequeno se levantou sem a ajuda dela.

— Eu não sou um coitadinho. — Disse e entrou no carro.

Luke revirou os olhos e antes de entrar no carro disse:

— Ah, claro, sou eu quem está chorando em um banco de lanchonete e me pedindo ajuda. — E entrou no carro.

— Eu ouvi isso! — Reclamou o menor.

Luke ficou boquiaberto e sem reação. Ele lembra que tinha falado baixo demais para que alguém escutasse. Colin se deitou no banco traseiro e se encolheu ali. Luke perdeu um minuto olhando-o, até que o taxista chamasse sua atenção com uma breve tossida.

— Quitinetes Douradas, sabe onde fica?

— Refúgio dos universitários. — O taxista sorriu simpático.

— É pra lá mesmo. Gente sem muita grana acaba optando por isso. E esse garoto me arruma isso numa péssima hora.

O taxista mais uma vez sorriu e pisou no acelerador.

[...]

Todas as luzes da república estavam acesas. Danion estava sentado entre Gale e Clara no sofá maior da sala. No outro William estava entre Edgar e Caine o loiro envolvendo os braços nos ombros dos dois. Samuel estava deitado no tapete da sala, usando o braço de travesseiro. Leonard estava sentado em uma cadeira que roubou na cozinha e Ian estava entre as pernas do namorado Connor que estava sentado e encostado a parede.

Todos eles estavam atentos ao filme que passava na programação. Foi tudo de repente, eles não esperavam que fossem acabar assistindo algo juntos. Geralmente, é impossível conseguir assistir algo naquela república, os gritos impedem que isso aconteça.

Os olhos fixos naquele suspense. Caine aos poucos ia encolhendo-se em William e o loiro não recuava, rindo interiormente do quão medroso Caine era. Sorriu também ao ver que Edgar tomava a mesma atitude.

— Ela morre. — Clara disse. — Por isso eu odeio esse filme. Ela é muito burra! Porra, por isso que vivem ofendendo os loiros, por isso sou ofendida. Como uma protagonista resolve...

Clara só se calou quando sentiu uma almofada ir de encontro a sua face. Foi Danion quem tomou a atitude. Leonard até desligou a TV depois de ouvir aquilo. Se todos estivessem com uma arma na mão ela estaria sendo fuzilada. Se com pedras, apedrejada.

— O que? — Perguntou desentendida.

— Você acabou com a graça do filme, o que quer mais? — William disse. Edgar e Caine se afastaram dele e só agora tinha percebido o quão próximos estavam do loiro.

Edgar ainda tinha a perna enfaixada por precaução médica, William estava ajudando-o nesses últimos dias.

— O que essa porra ainda faz em nossa república? — -Questionou Gale.

— Eu sou sua irmã, babaca.

— Morro de vergonha de você, às vezes.

— Gente?! — Ela até se assustou e se sentiu ofendida.

— Ai Clara, você acabou com a graça do filme. — Leonard suspirou, levantando-se.

— Acabei? Gente, ainda nem contei que o filho dela pula da janela porque o pai acaba sendo possuído. E também que...

— Que o pai é o vilão desde o início do filme. Ele sempre esteve possuído. — Dessa vez quem falou foi Connor, com a boca cheia de pipoca.

Fartos de saber outros comentários do filme, os garotos foram saindo um a um do cômodo, Clara ficou estática enquanto observava todos se afastarem.

— Ei, voltem aqui! — Ela pedia, ainda confusa.

Connor foi o único que pareceu não se importar. Levantou-se seguindo o namorado, ainda comendo da pipoca. Ian revirava os olhos a cada passo que dava. Connor e Clara numa mesma sala não era tão legal.

A maior parte deles estava resmungando, todos indo para os outros cômodos da casa, alguns deles para os quartos prontos para descansar. Mas alguém foi capaz de chamar a atenção de todos quando entrou gritando pela república.

— Eu tô livre! Finalmente tô livre! — Colton bradava com ar vitorioso.

Ninguém entendia aquela atitude do garoto. Colton estava com um sorriso de ponta a ponta.

— Finalmente vou me ver longe de vocês.

— Tá doido, menino? — Clara foi a primeira a perguntar.

— Livre? — Edgar indagou.

— Estou indo embora dessa república! Vocês não sabem como estou feliz por isso.

E então o silêncio tomou conta do lugar. Mas Danion... Sendo Danion, quebrou aquele silêncio com uma gargalhada única. Ele parecia ter se preparado para aquele momento há anos. O branquelo gargalhou o mais alto que podia, até aplaudiu.

— Porra! Finalmente mesmo, hein. Você longe da república, sou o único a ficar feliz com isso?

— HA-HA-HA! — Colton ironizou. — Me comeu e vem bancar o feliz por minha saída.

Caine engoliu em seco ao ouvir aquilo.

— Estou feliz porque não terei que ouvir suas discussões com o Colin todos os dias, estarei feliz porque não te ouvirei reclamando do menor que seja o problema. Estou feliz porque você vai embora, oras. Tem coisa melhor? Estamos felizes!

— A república ultimamente vem sendo motivo de vergonha, convenhamos.

— Foda-se. —William agora tomou a voz. — Nunca nos importamos com status.

— Por isso mesmo que os leoninos sempre foram o fardo da Quadra. E recentemente estava sendo horrível dividir o mesmo espaço com vocês, sinceramente, isso aqui é uma bagunça. Até os antigos águias eram mais organizados que vocês...

— Para onde você vai, Colton? — Edgar perguntou, interrompendo-o.

— Para os Tigres.

— “Longe de vocês.” — Leonard repetiu o que ele tinha dito. — Disse o garoto que vai pra república que fica em frente a nossa.

— Eu não vou apenas ir. Eu vou liderar os Tigres, Leo.

Foi nesse momento que o novo silêncio se instalou. Colton teve todo esse poder sobre eles. Mas apesar disso, Colton foi esquecido. A pergunta do momento era: “Somente membros da família Ferazza podem liderar a república. Como Sean foi capaz?”

Colton permaneceu no seu silêncio, olhando admirado os olhos daqueles ali presentes. Era tão bom o gosto da vitória. Causar impacto era prazeroso, às vezes mais prazeroso do que o sexo.

— Certo, pode ir embora. — Danion disse. Dessa vez ele adotou a postura de um líder. Danion até exalava liderança, principalmente quando deixou seu olhar se sobressair. Um olhar de quem comanda.

— Ainda não peguei minhas coisas.

— A partir do momento em que você disse que não fazia mais parte da república, significa que você não tem nenhum direito de por os pés aqui. E eu, como líder, estou te mandando sair daqui, agora! Imediatamente, Colton. — O branquelo caminhou até a porta ainda aberta.

— Está me roubando, Danion? — Colton sorriu.

— Tenho dinheiro para comprar o dobro dessas coisas velhas que você tem no quarto. — Apontou para a porta. —Saia daqui!

— Eu quero as minhas coisas! — Insistiu.

— Não ficarei com nada. Pode ter certeza que amanhã mesmo ela estará em sua nova república.

— Eu quero agora!

— Saia, Colton. Saia! — Gritou.

Ninguém ousou ir contra a ordem de Danion. Nem mesmo William que, mesmo não sendo líder, tinha a maior autoridade ali dentro só por sua reputação.

— Parece que estou tocando em algum ponto fraco seu. Sério que você criou laços por esses babacas? Por favor, Danion sei muito bem que você é incapaz disso. Pensa só em si.

— Se você tem amor por esses dentes, eu exijo que você saia da minha república nesse exato momento.

— Edgar, querido, ainda podemos ser amigos. Mas eu não posso continuar nessa república, tudo bem? E Clara, você é a única garota que presta nesse lugar. — Colton olhou para os dois, deu mais alguns passos e parou em frente ao branquelo, colocou-se nas pontas de pés e sussurrou no ouvido do branquelo — Sei que tudo isso é encenação, você nunca foi um bom líder. Amanhã eu quero minhas coisas, se deixar de mandar, você sabe do que sou capaz.

Por fim, Colton deu um último sorriso para os que agora são seus ex-colegas de república e rumou aos Tigres.

Danion fechou a porta com violência, assustando aqueles que ainda tinham os pensamentos em Colton.

— É disso que um líder precisa. —William disse, quebrando a tensão do lugar. — Postura.

Naquele momento Danion soltou todo o ar existente em seu pulmão, relaxou os ombros e os braços, ficando em uma posição engraçada. Parecia que tinha tirado um peso de seus ombros.

— Porra! Eu jurei que ele não ia sair! — Disse o branquelo, aliviado.

Foi inevitável não rir com aquilo que o branquelo tinha dito. Exceto Caine, que deu as costas e foi para seu quarto. Danion viu o pequeno se afastar, sentiu novamente o incomodo o atingir. Mas soube disfarçar perfeitamente quando os demais o elogiaram pela atitude de enfrentar Colton e o expulsar dali.

William sentou-se no sofá e cruzou as pernas, relaxando seu corpo. Ele viu Edgar isolado dos demais e quando pensou em se levantar para conversar com o loirinho, o mesmo tinha se afastado, rumando em direção aos quartos da república. Talvez fosse melhor deixá-lo ter seu tempo e em outro momento iria conversar com ele.

Quando olhou novamente para trás, os companheiros estavam se dissipando. Danion permaneceu de pé. William quis insultar Clara quando a viu insultando o Colton. Dias atrás ela estava abraçada com ele e ambos brincavam e agora ela estava assim? “Garota, se decida.” Pensou.

William esperou que a expulsão de Colton da república fosse algo bem polêmico e bastante comentado. Mas todos pareceram pouco se importar com isso. Talvez, porque ele não foi literalmente expulso. Pensou em como Colin adoraria ter presenciado aquele momento e até se perguntou pelo pequeno.

Tomou o celular do bolso e discou o número do Colin, que já havia decorado. Ligou três vezes e em nenhuma delas o pequeno o atendeu. Intrigado tentou uma última vez e não foi atendido. Talvez o amigo estivesse ocupado... Talvez. Não queria pensar em outra coisa.

William se levantou e bateu as mãos nas calças. Lembrou de que tinha que jogar o lixo fora. Recolheu os poucos que tinha na cozinha e colocando-os dentro do grande saco preto, rumou para fora da república. O loiro caminhou fitando o céu, percebendo que ele não estava tão estrelado como as noites anteriores.

William se assustou quando sentiu mãos apertarem uma de suas nádegas. Ele saltou para trás e viu Erica, sorridente. Ainda assustado, Will a olhou dos pés a cabeça. Loira como sempre foi, bonita e elegante. Erica era dona de uma beleza única. Com uma mochila nas costas ela cruzou os braços, avaliando-o.

— Você sabe muito bem porque estou aqui.

Quando William subiu os olhos para olhar sobre os ombros da garota, notou Octavio distante, aproximando-se da porta da república. Sentiu seu corpo estremecer ao ver o homem que tomou parte de suas vidas e é o dono dos seus pensamentos.

— Relaxa, Will, Octavio só está magoado e sem coragem de olhar na sua cara. —Erica disse, observando-o. — E mais uma vez estou aqui. Se não eu, quem?! Eu sou a madrinha da porra desse casamento de vocês que tá demorando pra sair.

William sempre sentiu saudades de Erica, mas nesse momento não tinha sequer tempo para pensar nisso. Estava sem ver o namorado há dias e não conseguiu retirar os olhos dele.

— Não vai falar nada?! Will... —Ele permaneceu olhando Octavio. — William Grandinni! — Se exaltou.

William piscou e tornou a realidade.

— Você sabe que acho lindo esse amor de vocês. Mas agora eu estou faminta, porque passei o dia inteiro vagando com Octavio por aí até ele decidir voltar para a república e te encontrar. Primeiro me dê comida, depois conversaremos e então vocês irão conversar.

— Ele tá muito chateado comigo, não é? — Indagou, finalmente. — E sei que vou tomar um sermão seu.

— Ainda bem que sabe. — Ela sorriu. Sorriso largo e cínico. — Joga logo esse lixo.

William não disse nada, deu mais alguns passos e depositou o lixo em seu devido lugar. Com Erica ao seu lado eles caminharam até a entrada da república. Octavio olhou para o namorado sem graça, mas ainda assim, educado como sempre foi, mandou-lhe um “oi” mudo.

Erica foi quem abriu a porta e deu o primeiro passo. Pensou que William e Octavio estavam acompanhando-a, mas se enganou. O loiro e o moreno estava trocando olhares, estáticos.

— Pode ir, Erica. —Octavio disse.

Por mais que Erica quisesse falar algo, ela era sábia o suficiente para entender que aquele momento pertencia a eles. Octavio mandou-lhe um olhar simpático, balançou a cabeça e voltou sua atenção para o loiro, que dessa vez olhou para o chão, sentindo-se culpado.

Octavio colocou e apertou a jaqueta jeans que usava e em seguida levou as mãos para o bolso da calça. Ambos ouviram a porta ser fechada. Mais algumas trocas de olhares até que finalmente William abraçou o namorado.

— Senti sua falta. — William disse, a voz foi abafada pelo ombro de Octavio.

Octavio não era orgulhoso o suficiente para não ceder a aquelas palavras. Principalmente vindas de William. Ele então aceitou o abraço, mas ainda assim permaneceu em silêncio.

— Me desculpa, Octavio. Eu sei que fui um tremendo babaca. — O loiro falou, desfazendo-se do abraço e olhando nos olhos do namorado.

— É bom ouvir isso. — Respondeu.

— Mas...

— Mas o quê? — Octavio o interrompeu. — Vai dizer que eu dei motivos para você agir daquela forma? — Indagou de supetão.

— E-eu não ia...

— Se eu não conhecesse o homem com quem me deito, certamente acreditaria em você. Mas sim, você iria dizer que eu tenho uma parcela de culpa no que aconteceu. — Octavio disse, sentando-se no pouco espaço que a soleira da porta oferecia.

William também sentou, em silêncio. Ele aceitou as palavras duras que tinha ouvido.

— Você não tinha que ter dito para a Erica que brigamos. — William disse.

— Ainda não chegamos nessa parte, Will.

— Você me chamou de Will.

— Isso é porque eu tô irritado com você. — Arrancou uma flor que estava ao seu lado e ficou observando-a.

— É estranho, porque costumam chamar pelo nome e sobrenome quando irritado. E você me chama pelo apelido.

— Isso não vem ao caso. — Octavio quis sorrir, mas se segurou, mantendo-se firme na postura.

— Precisamos mesmo conversar? Não tem o que conversar. Eu te amo, você me ama. A situação já foi resolvida, eu já te pedi desculpas.

— William eu...

Octavio não conseguiu dizer mais nada. Os seus lábios simplesmente foram tomados pelos do loiro que, não se importando em estar fora da república, em sinal de arrependimento, o beijou ali. Se fosse o William de meses atrás, certamente não teria essa coragem. Mas agora, amadurecendo com a vida, provou aos demais que já não existiam problemas com sua sexualidade em relação ao público.

O moreno se rendeu. Octavio não conseguiu sequer ir contra aquela vontade. Estava, também, com saudades daquela força bruta do leonino, ou melhor, do rei leão.

— Ei, bichas, isso é lugar para se beijar? — Alguém disse.

Por um momento o beijo foi interrompido. William tentou reconhecer o rosto de quem tinha dito isso, mas não conhecia. Certamente algum calouro que queria bancar o engraçadinho. Pouco era a movimentação de pessoas àquela hora da noite, apenas o indivíduo e mais outras três pessoas afastadas dali.

O loiro ficou de pé e Octavio por um momento achou que William fosse tirar satisfação. Mas William o puxou, tomou-lhe os lábios mais uma vez e, enquanto o beijava, mostrou o dedo do meio para o calouro.

Se não estivesse com os lábios tomados, o queixo de Octavio estaria no chão. Ele ficou completamente bobo com aquela atitude.

— Lindos! — Erica gritou da janela. — Lindos e meus! Quem é a porra desse garoto? Tinha que ser novato, gente, alguém cria uma lei pra banir essas porras da Quadra?! Calouros deveriam beijar os meus pés!

Erica, quando queria, era realmente agressiva a ponto de dizer algumas asneiras. Mas apesar do que tinha dito, ela não gostava de passar por cima de ninguém. Só foi um momento que usou para descontrair.

Os gritos de Erica chamaram a atenção dos membros da república que foram para a janela ver o que estava acontecendo. Até se depararem com William e Octavio, agora já não mais aos beijos.

Clara ficou encantada com a beleza de Erica, tanto é que não se moveu do lugar assim que se deparou com a garota. Erica sorriu para Leonard e Ian e em seguida voltou sua atenção para os dois que estavam lá fora.

— Vem, vamos entrar. Lá dentro conversamos melhor. —William disse.

Octavio não respondendo, segurou firme na mão do namorado e o esperou abrir a porta. Feito isso entrava na república e foram recebidos com gritos e assovios. Erica quem deu início a isso. Exceto ela e Caine, todos ali dentro não sabiam que Octavio e William tinham brigado, apesar de deduzirem. Mas Erica era realmente uma amiga e tanto do loiro e moreno a ponto de ser feliz só por fazê-los felizes.

[...]

O dia foi realmente cansativo para o mais irritado dos leoninos. Colin havia adormecido no ombro de Luke. O moreno sorria como um bobalhão, agraciado pelo gesto um tanto acolhedor do menor. O pequeno só despertou quando o carro parou e sentiu o braço de Luke ser estendido para pagar o taxista.

Colin desceu por uma porta e Luke por outra.

Após quase cinco minutos decidindo em qual quitinete ficar, Luke agiu como um perfeito namorado. Na verdade, o homem, dono do lugar, chegou a julgá-los como um casal. O moreno foi tão atencioso, abraçando-o no caminho, abrindo toda e qualquer porta, além de guia-lo.

Ao ver a cama, Colin não hesitou em caminhar até ela, retirou seus sapatos e se deitou. Fechou seus olhos e por um momento desejou voltar no tempo ou até mesmo desaparecer. Ele realmente estava triste. Mas Luke estava ali, a pessoa mais grudenta que Colin já conheceu e, por isso, não o deixou se perder naqueles pensamentos que o sufocavam.

Luke saltou na cama, agora sem camisa, e abraçou o pequeno. Que não reclamou em hipótese alguma. O moreno estranhou, mas adorou não ter que ouvir os vários insultos comuns do pequeno.

— Qual o seu problema em não dormir no chão? — Colin indagou. Ainda não havia perdido totalmente a grosseria e, no fundo, Luke agradeceu por isso.

— E te deixar sozinho nessa cama? Você deveria agradecer por isso. Certamente uma daquelas garotas com quem você me viu lá na saída da lanchonete estaria comigo rolando em algum motel. Talvez um dos garotos. Não sei, que confuso. — Luke parecia realmente estar tentando resolver um quebra-cabeça. Sua expressão era a mais duvidosa possível.

— É assim que vai tentar me conquistar? Falando que iria transar com outro? Você já foi mais encantador. — Colin virou-se de costas para o moreno.

— Não vou me responsabilizar se você ficar nessa posição. Sua bunda tá bem visível e isso tá me deixando excitado.

Colin sentiu as bochechas queimarem por tamanha cara de pau que Luke tinha. Não deveria ter ficado tão constrangido com aquilo que ouviu. Imediatamente se virou e adotando a melhor máscara, demostrou não ter gostado de ouvir aquilo. “Porra, eu gostei.” Pensou.

— O que foi? — Luke indagou.

— Seu cinismo irrita qualquer um. Vai pro chão, Luke!

— Vem cá, o que você acha que eu sou, hein? Eu te vejo num banco em frente a lanchonete, literalmente abandonado e, pelo que parecia, estava ali há horas e chorando. Você suplica por minha ajuda e quando eu faço isso quer que eu durma no chão?

Colin não conseguiu ser mais grosso a partir daí. Luke não tinha sido rude ao ter jogado tais palavras em sua cara, indagou com calma. Mas Colin conseguiu compreender do que aquilo se tratava. Luke estava apenas querendo ajudá-lo.

— Vai me contar o que aconteceu? —Luke perguntou, sabendo que Colin não conseguia obter respostas para sua irritação.

— Esquece. — E então Colin lembrou-se de tudo mais uma vez. Por poucos minutos havia esquecido do real motivo de estar ali. Lembrar de Sean era terrível. Principalmente por sempre imaginá-lo com Colton dentro da sua casa.

Mais uma vez deu as costas para Luke e não se importou de ter que ouvir mais uma piadinha. Luke dessa vez também não ousou em abrir a boca para irritá-lo. Aproximou-se mais do pequeno e repousou o queixo no braço de Colin.

— É o que eu tô pensando, não é? — Luke perguntou em um quase sussurro.

— Não sei no que você está pensando.

— Eu sei que você sabe. Colin, eu dou em cima de você há mais de meses e você nunca sequer cedeu as minhas investidas. Sempre me negando até um simples beijinho. Você é a pessoa mais difícil do mundo. Mas, ainda assim, sua personalidade não é o verdadeiro motivo para me rejeitar tanto. Eu sempre soube que você tinha alguém.

Colin por pouco não engasgou com aquilo que tinha ouvido. Ele imediatamente se mexeu na cama e se sentou, abraçando um travesseiro. Luke permaneceu deitado, com a cabeça apoiada em seu braço, sustentado pelo cotovelo.

— Isso não é verdade.

— Teria acreditado em você se não estivesse com essa expressão. E bem, mesmo que você esteja com alguém, você ainda é meu. Só não vale me dizer que é aquele garoto loiro e insuportável que acha que manda em você. Samuel? É Samuel o nome dele, não é?! Ai como eu odeio aquele menino.

— Eu vou dormir no chão. —Colin ousou em tentar sair da cama. Tentou fugir das perguntas de Luke, para ser mais exato.

— Não tem problema em não querer me contar quem é. Eu não tenho ciúmes, você é meu mesmo. — Luke o prendeu na cama. — Mas se você quiser minha ajuda, eu estou aqui.

Luke então soltou Colin e se acomodou na cama, no lado esquerdo dela. Deveria estar curtindo a noite com os colegas da universidade, mas acabou nesse lugar com o pequeno. Não sabia se estava arrependido ou não.

— Não sei se vou superar. —Colin finalmente tinha falado algo referente ao assunto. — Só consigo querer odiar mais e mais.

— Ele te magoou tanto assim? — Luke perguntou.

— Mais do que ninguém.

Luke evitou a próxima pergunta quando olhou nos olhos de Colin e viu as lágrimas dançarem e quando o pequeno piscou, elas despencaram. O moreno sentiu o peso daquela lágrima, carregadas pela tristeza. Um sentimento terrível que qualquer um, que olhasse para Colin, sentiria.

— Não sinta vontade de me abraçar. — Colin enxugou uma lágrima. — Eu não quero isso.

— Irei fazer isso a qualquer momento. Não é legal te ver assim. Gosto do seu jeito explosivo, irritado.

— Ah, Luke. — Colin sorriu, fraco, mas um sorriso. — Você é o bobo mais bobo que eu já conheci. Deveria investir no Samuel. Imagina que louco? Ele te detesta e sei que gosta de mim. Você gosta de mim e o detesta. Vai saber...

— Sai pra lá! — Luke realmente se ofendeu. — Aquele garoto é um ingrato. Eu o defendi de uma surra e ele nem pra agradecer direito. E ainda quer te tomar de mim.

E após aquilo, uma série de conversas aleatórias se iniciou. Luke fazendo o possível para Colin sorrir e gargalhar de suas maluquices. Contou-lhe histórias da infância e até segredos constrangedores dos seus primos. Colin até chegou a falar mais de sua história com Samuel, sobre como eles eram bons amigos em Aroma. Luke insultava o loiro sempre que podia e Colin não perdia a oportunidade de sorrir nesses momentos. Porém, ainda era notável que Colin não estava totalmente feliz. Ele tinha em mente as lembranças de Sean e por segundos ficavam em silêncio pensando no moreno.

Conversa vai e conversa vem, ambos acabaram dormindo. Luke dormiu todo aberto, com os braços e pernas estirados. Colin, no meio da noite, virou-se e repousou sua cabeça no peito nu do moreno e sua mão acabou relaxando no abdômen do mesmo. Foi acolhedor, ele concordou. Queria ter a sorte de ter Luke como namorado, mas não adiantava, seu coração já pertencia a outro.

[...]

— Que estranho o Colin não aparecer na república. — Gale indagou.

Gale, Edgar, Caine e Leonard estavam caminhando juntos em direção ao refeitório da universidade. Edgar estava caminhando com a ajuda de duas muletas. Todos que sabiam da viagem dos alunos de Bioquímica, olhavam para o loirinho dos pés a cabeça. Ele sabia que todos julgavam Joshua pelo acidente.

— Talvez esteja querendo ficar sozinho. Brigou com alguém. Colin tem aquele temperamento, nós conhecemos. — Caine tentou procurar desculpas. Ele sabia que Colin estava com Sean, mas assim como os demais, estava preocupado com o sumiço do amigo que não atendia as suas ligações.

Os quatro sentaram-se em uma mesa no centro do refeitório. Leonard retirou seu celular do bolso e o verificou por poucos segundos, estava ansioso por uma resposta.

— O que vocês vão comer? — Leonard perguntou assim que guardou o celular.

— Não estou com fome, apenas acompanho vocês. — Edgar respondeu.

— Acho que vou optar pela cantina.

— Gente, quem é aquele garoto bonitinho? — Gale imediatamente mudou o foco da conversa.

Seus olhos estavam fixos na fila em que os estudantes faziam para se servir.

— Quem? — Leo perguntou, também olhando para a fila.

— Aquele barbudinho de xadrez.

Quase como um coral os três garotos responderam:

— Caleb.

— Vocês conhecem? — Gale então retirou os olhos do moreno.

— Ele mora na república ao lado da nossa, Gale. —Leo foi o primeiro a responder.

— Notícias de que ele agora é um dos Tigres e terminou com Noah.

— Terminou com Noah?! — Leonard pareceu ficar chocado com a notícia.

— Você não sabia? — Caine indagou.

— Mas eles eram influencia para os casais da universidade. Sério, estou sem acreditar. Por isso o Noah quase não aparece. Não sei se fico feliz por isso.

Leonard sentiu uma mão pesada tocar em seu ombro. Ele imediatamente olhou para trás e se deparou com Santiago de pé. Quando pensou em cumprimentá-lo, Santiago o puxou pelo braço, forçando-o a ficar de pé.

— Por que fez isso? — Santiago indagou, irritado.

— O-o que? —Leo indagou assustado.

— Você sabe, Leonard. Você sabe... Como pode ter feito isso?

Santiago não se importou de ter despertado a atenção dos outros três que estavam ali. Até mesmo de Caine que iria se levantar, mas ao receber um olhar repreensivo, permaneceu em seu lugar.

— Olhe ao seu redor, Leo. Eu sei que algumas pessoas já tem a maldita cópia do quadro que você pintou.

— M-mas como assim? E-eu não mostrei pra ninguém, exceto o meu grupo de artes.

— Por um acaso você não verificou seu celular?

Como ironia do destino, foi o celular de Caine quem tocou naquele exato momento. O toque era o de mensagem e o pequeno imediatamente tomou o celular em mãos para verificar o que tinha recebido.

Era a pintura de Leo. Caine sentiu seu corpo estremecer ao averiguar aquela imagem e reparar que era Santiago ali, nu entre as velas, com cada parte do seu corpo sendo exposta.

Santiago notou que Caine acabou de receber a mensagem que estava atormentando-o desde que colocou os pés na universidade.

— Santiago, eu juro que...

— Porra, Leo, eu confiei em você.

— Mas eu não fiz nada. Tudo o que eu fiz foi expor apenas para o meu grupo de artes e o professor, é claro. Algum engraçadinho deve ter tirado uma foto e mandado para todos.

— E agora todos sabem como eu sou pelado. Que ódio, Leo, que ódio! — Santiago fechou o punho, mas não ousou e nem pensou em socar Leonard. Iria arrepender-se pelo resto da vida.

— Santiago, e-eu vou descobrir quem fez isso. Acredite em mim, eu não iria ser ridículo a esse ponto de te expor dessa forma. — Leo tentava se defender, muita das vezes tentando tocar em Santiago, mas hesitava sempre que lembrava que Caine estava ali.

Santiago não querendo mais ouvir nada, deu as costas e deixou Leonard de pé, falando ao vento. Caine imediatamente se levantou e seguiu o outro, querendo entender o que tinha acontecido. Ele seria a única pessoa a conseguir acalmá-lo nesse momento.

Leonard permaneceu de pé, olhando-o distante. Depois olhou para os colegas sentados e sentou-se completamente arrasado pela forma que foi tratado.

Pobre Leo, nem sequer sabia direito o que tinha acontecido. Seu peito apertou. Um sentimento que já não era mais estranho e que ele tinha certeza do que estava acontecendo.

[...]

Colin e Luke ainda passaram algumas horas da manhã juntos. Colin foi forçado a tomar um copo de suco que o moreno tinha comprado, por ele, não teria comido nada. Estava sem fome desde o ocorrido.

Agora já estavam dentro do táxi parado em frente à república do leonino. Colin tinha amanhecido pior que ontem. Acordou chorando, pra ser mais exato. Preferiu esconder isso de Luke, pois o moreno já tinha tomado bastante as suas dores.

Colin foi o primeiro a descer do táxi e Luke foi logo atrás, resmungando pelo fato do pequeno não o esperar.

Ao abrir a porta, Colin deu de cara com William e Octavio sentados no sofá. Samuel passava com um prato de comida e um copo de bebida. Os dois loiros pararam imediatamente o que estavam fazendo e olharam para Colin.

William conhecia o Colin. Samuel também o conhecia. Eles logo deduziram que Colin não estava bem. O olhar firme e chamativo de Colin não era mais o mesmo. Parecia que uma nuvem de tristeza pairava sobre a cabeça do pequeno.

— Ei, Colin... — William levantou-se pronto para tocá-lo.

Colin abaixou a cabeça e desviou do toque do loiro.

— Agora não, Will... — Disse ele, afastando-se de todos e rumou para o quarto.

William ficou sem entender o porquê daquela atitude, mas sabia que deveria aceitá-la. Afinal, Colin não dormiu na república e parecia estar bastante triste com alguma coisa.

— O que você fez com ele? — Samuel perguntou para Luke, largando o prato e o copo em cima da cadeira que iria sentar.

Luke o olhou. “Como ele ousa me acusar assim?” Pensou o moreno, achando aquilo um absurdo.

— O que eu fiz? Eu não fiz nada. E se vocês me dão licença, eu vou lá ao quarto dele. Talvez seja de mim que ele esteja precisando.

— Você não é bem vindo nessa república. E quem vai ajudá-lo sou eu. — William disse, colocando-se a frente do moreno.

— Calem-se vocês dois. Colin é meu amigo de infância e por muitas vezes eu fui seu confidente. — Samuel chamou a atenção dos dois.

— Se vocês não sabem, Colin passou a noite comigo. Então nada mais justo do que eu ir novamente conversar com ele. Sabe, fui eu quem o fiz sorrir.

William com ciúmes não era nada legal. Ele quis socar Luke ao ouvir aquilo.

— Vai embora daqui, garoto. Antes que eu te dê um chute na bunda. — Ordenou.

Todos se calaram ao ouvirem a porta do quarto ser fechada. Quando todos procuraram por Octavio, ele já não estava mais lá.

[...]

Octavio entrou no quarto de Colin sem a permissão do garoto. Também, pouco se importava com isso. Dessa vez, fez questão de trancar a porta. Sabia que os três que brigavam fora daquele quarto tentariam entrar, ou certamente, estariam se matando.

Colin estava deitado na cama, com a cabeça afogada em um travesseiro. Ele soluçava e ver aquilo não foi algo bom. Octavio até sentiu seu coração apertar. Por isso, caminhou até a cama e sentou-se ao lado de Colin. O pequeno permaneceu onde estava. Chorando e não se virou para saber quem estava ali.

— Você sabia que seria assim. — Octavio disse.

Ele já havia deduzido. Ele já sofreu da mesma dor que o pequeno sofria.

— Sean nasceu para magoar as pessoas, Colin.

— Eu o odeio. — Foi só o que disse.

— Bem, é isso que ele quer. Sean não quer que as pessoas o amem, que gostem... O ódio é alimento para ele. Mas não venha me dizer que você não sabia disso. Se chorar, a culpa é inteiramente sua.

— Qual é a sua, Octavio? — Colin finalmente o olhou, a face completamente vermelha e tomada pelas lágrimas.

— Por favor, Colin. Não se faça de vítima. Sei que nós temos algumas indiferenças. Porém, eu tenho total liberdade de te mostrar os erros que você cometeu para isso.

— Não faça da sua briga com Sean motivos para me dizer isso.

— Não estou fazendo. Apenas quero mostrar que Sean nunca vai ser a vítima. Não importa o que aconteça. Ele sempre foi egoísta e eu era o único a estar do seu lado. E olha o que ele me aprontou? Depois, foi apenas você e ele. E novamente ele magoa alguém. O único capaz de derrubá-lo foi Colton.

Ouvir o nome de Colton foi horrível. Colin só conseguia imaginá-lo deitado com Sean.

— Não quero mais ouvir você falar, Octavio.

— Tudo bem. Eu não iria aconselhá-lo. Só queria ter a certeza das coisas. Nós dois somos idiotas, Colin. E eu sei que em breve William vai descobrir. Por mais que você ache que eu não torça por você, meu silêncio é pra te proteger. Eu poderia simplesmente ir lá fora e contar para o William que sei o que acontece. Na verdade, eu poderia ter contado isso meses atrás.

— Deveria ter feito. A merda já está feita, não há mais como voltar atrás. — Colin parecia não reconhecer o lado de Octavio.

— É. Eu deveria ter feito. Seria como Sean e pensaria só em mim. Mas eu descartei essa possibilidade por pensar em meu namorado e também em você. Sei do imenso carinho que William tem por você, Colin. Quando ele descobrir que você e Sean tinha um caso, eu não quero nem pensar no que vai acontecer. Corro o risco de perdê-lo mais uma vez e todas as noites eu durmo pensando nisso. Mas sei que você também cuida do William quando não estou. Talvez você seja o melhor amigo dele e, na ausência do Sebastian, você definitivamente é. Estou me sacrificando. — Octavio suspirou e olhou para o teto.

— Se ele descobrir vai ser melhor. Cansei de mentiras.

— Então saia do quarto e vá lá fora contar a ele. Na verdade, vá lá fora e conte para todos. Mas sabe as suas lágrimas?

— O que tem as minhas lágrimas? — Colin tocou a face.

— São lágrimas de amor. Amor por duas pessoas. William e Sean. É incrível como esses dois nomes ferram com a gente, não é? Sei exatamente o que você tá passando. Um dia eu já estive em seu lugar. Você ama Sean, Colin. Ama como um homem para sua vida, um homem para aguentar seus defeitos, um homem para que se deitem juntos. E também sei que você ama o William, como amigo. Mas a rivalidade entre esses dois são como brasas de carvão, ela não só queima... Mas também deixa marcas. Ter um, significa não ter o outro.

Colin parou e refletiu em cada palavra que Octavio tinha dito. Sabia que o moreno tinha completa razão sobre tudo o que estava dizendo e, por isso, voltou a chorar em seu travesseiro.

Octavio já não tendo mais o que falar, levantou-se olhou uma última vez para Colin e saiu do quarto.

Os três garotos ainda continuavam lá, discutindo. Uma infantilidade fora dos limites. Octavio passou por eles e só agora havia chamado a atenção.

Tanto William, Luke e Samuel olharam para Octavio esperando alguma resposta.

— É melhor que ele fique sozinho por hoje. Não sei o que aconteceu, mas ele não está nada bem. — Mentiu. — Luke, também é melhor você ir embora. Danion logo mais volta e isso não vai ser legal. Samuel, sua comida vai esfriar.

Luke não tendo argumentos, fuzilou os dois loiros uma última vez e se afastou. Foi até engraçado vê-lo mostrando o dedo do meio, principalmente para Samuel, que pareceu pegar mais no seu pé.

Samuel também não se sentindo bem ficando no meio do casal dos namorados, pegou sua comida e foi para a cozinha.

William olhava para Octavio suplicando por algo, uma palavra. Octavio era obrigado a usar a melhor máscara que tinha. Doía ter que mentir para o namorado. A alma gemia de dor.

— Enfim, vamos para o quarto? — Tentou sorrir. — Não sei como Erica não acordou com essa barulheira que vocês fizeram.

Octavio deu as costas.

— Tem certeza que não tem nada pra me dizer? —William indagou. Imediatamente Octavio parou de caminhar.

— Como assim? — Perguntou.

— Às vezes eu sinto que você e Colin escondem algo. Mas deve ser coisa da minha cabeça. Não é? — Perguntou, esperando uma resposta. — Deixa, é coisa da minha cabeça mesmo. Não devo suspeitar de vocês dois. — Pressionou os lábios e sorriu.

Ele caminhou até o namorado, colocou a mão em seu ombro e o puxou. Juntos os dois foram para o quarto.

Do que vale mentir, Octavio?

[...]

Naquela república, desde que todos descobriram o estado em que Colin se encontrava ninguém se atreveu a gritar. Porém, ninguém sabia exatamente o que tinha acontecido. Uns até achavam que Colin estava doente e não queria contar para ninguém que tipo de doença que era. Outros acharam que ele perdeu um parente. Os mais espertos como Edgar e Clara disseram que aquilo era dor de um coração partido. Mas a grande dúvida era: Quem partiu o coração de Colin?

Dois dias se passaram desde que aquilo aconteceu. Colin mantinha pouco contato com os seus amigos, indo da universidade para a república e em seguida passava o resto do dia em seu quarto. William sempre procurou respostas, procurou animá-lo e até conseguia em algumas ocasiões, quando Colin mostrava estar bem. Mas, na maioria das vezes, ele não se animava. Evitava qualquer tipo de pergunta relacionada ao que aconteceu. Colin nunca respondia e pedia respeito.

A alimentação também não estava lá as das melhores. Comia pouco e ninguém estava percebendo isso. Colin também odiava ter que abrir a janela e se deparar com a república a frente. Por sorte, ainda não tinha visto Sean e Colton, se isso acontecesse, não saberia qual seria sua reação.

Tinha oportunidade de chorar no banheiro, enquanto tomava banho. Chorar como um garoto que se perde da mãe em um supermercado. Era aquele lugar o seu refúgio. Ninguém iria lhe perguntar nada. O silêncio também doía. Ter que fingir e não contar para ninguém o que tinha acontecido não estava sendo nada fácil. Precisava de uma mentira urgente. Mas quem iria assassinar para isso? Dizer que sua mãe morreu? Seu pai? Não, isso seria um absurdo. Até porque Samuel iria ser o primeiro a não acreditar. Ou poderia criar qualquer história com alguém aleatório da universidade. Não! William seria o primeiro a tirar satisfação com a pessoa e então toda a mentira iria por água abaixo. Mentiras... Colin já estava farto delas.

Sean já tinha largado a universidade, já tinha descoberto que também é um filho fora do casamento e que foi obrigado... Não, não foi obrigado. Foi covarde. Mas, apesar de tudo, aquele moreno cujos olhos são mais belos que a escuridão da noite, sofria. Estava preso em sua casa desde o término com Colin, não arriscava sequer por os pés na Quadra e se encontrasse o pequeno, seu coração não iria suportar tamanha falta que ele já estava fazendo.

O moreno estava assistindo algum programa aleatório, apesar de não prestar atenção no que passava. Seus pensamentos distantes não o deixavam se concentrar em nada. Tudo o que queria saber era de como Colin estava. Se feliz? Se triste... Só queria vê-lo.

De repente alguém bateu a porta. O moreno se levantou preguiçosamente e foi atender, pronto para xingar aquele que estava importunando-o.

Ao abrir a porta, calou-se.

— Esse dia em breve chegaria. — Octavio falou.

Sean ficou estático com aquela surpresa. Octavio, de todos os moradores da Quadra. Ele nunca pensou que aquele que um dia já foi seu melhor amigo, estivesse ali. E pela cara dele, coisa boa ele não iria ouvir.

[...]

— No que está pensando? — Leo perguntou para Danion, que estava jogando em sua cama.

— É amanhã... —Disse. O queixo repousado no joelho.

— Não deveria ser tão pessimista, é o seu dia.

— Eu odeio meu aniversário. Coisas boas não acontecem.

— Então eu farei acontecer. Farei dele o seu melhor aniversário. E também é o baile da universidade, nem precisa fazer festa, é só fingir que o baile é pra você.

O branquelo sorriu, fraco.

— Você é bem idiota, às vezes, Leo.

Danion finalmente se deitou, sem camisa, mas ainda de calça.

Em algumas horas o seu dia começa, branquelo. O seu dia e o de mais ninguém. Pena que não soube aproveitar os dias anteriores, infelizmente.

Notas finais
HAHAHA, mais um capítulo. Amo vocês.