República de Leões
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Por se tratar de festa, o clima da quadra era ameno. As pessoas pareciam acordar mais felizes, tudo numa perfeita paz e foi realmente durante assim até a noite.
O baile de máscaras teria seu início as 21:00hrs, mas os leoninos optaram por irem uma hora depois, horário que provavelmente a festa, de fato, teria começado. Todos eles bem bonitos, trajados com as roupas exigidas para o lugar. Blazers e ternos de diferentes cores.
Leonard já estava no salão de eventos da universidade, amplo e com estrutura suficiente para suportar a quantidade de alunos. Tudo bem planejado por Leo e seus outros companheiros que se encarregaram pela organização do lugar.
Logo antes de passar pelos portões de entrada, nos corredores, já começava dali a decoração. Leonard ousou por deixar o baile um tanto retrô, com dois postes de luzes na entrada e com máscaras fixadas nos portões. Ninguém sabia como, mas um carro de época estava estacionado ao lado da entrada, completando a decoração.
— É feito a papelão. — Leo disse, sorridente.
Lá estavam todos eles, parados em frente à entrada do salão: William, Octavio, Erica, Gale, Clara, Connor e Ian.
Apesar do tema retrô, eram exigidos trajes de gala. Leo dizia que a elegância era o princípio da festa e mesmo sendo um apaixonado por décadas passadas, ele foi o primeiro a discordar das roupas retrô quando sugeriram.
Em um minuto que se passou Luke, Colin e Samuel juntaram-se aos companheiros.
— Você é um babaca! — Luke resmungou.
— E você um burro. — Samuel rebateu.
— Ainda bem pergunto quem convidou esse garoto.
— Eu sou aluno daqui, seu estúpido. Se não tá gostando da minha presença, volta pra casa!
— Calem a boca! — Colin bradou, assustando os dois e aos demais. — Vocês me forçaram a sair da república e vão ficar assim?!
— Tudo culpa dele! — Luke e Samuel disseram ao mesmo tempo, um apontando para o outro.
Colin somente revirou os olhos.
— Acho que vai dar namoro. — Octavio brincou.
— Casamento, aliás. — Clara completou.
— Eu iria adorar ser a madrinha, acreditem! — Erica estava com os olhos brilhando.
— Morram! — Os dois, juntos, falaram mais uma vez e quando iam se insultar, Colin os fuzilou com o olhar.
— Caine não vem? — William perguntou para Colin, desviando o assunto.
— Ele preferiu ficar no quarto. — Colin sentiu um desconforto ao encontrar William ali. Desde o ocorrido, evitou qualquer contato com o loiro e até pediu para que ele não o perguntasse nada. E, por isso, seu clima com William não estava sendo o mesmo. Colin procurava motivos para que seus horários não se chocassem.
Leonard associava Caine com Santiago e, por isso, também sentiu incomodo ao ouvir aquilo.
— E você tá melhor? — O loiro perguntou. —Tá, ok... Esquece. — Octavio apertou sua mão.
Colin abaixou a cabeça.
— Alguma notícia do Danion? — William olhou para Leonard.
— Nada... Foi assim na última vez. Ele resolve desaparecer para ninguém parabenizá-lo e depois que o dia termina, ele aparece. Agora é só torcer pra que não recebamos alguma notícia ruim.
— Por que ele odeia tanto o aniversário? — Connor perguntou.
Ian, Leo, Octavio e William eram os únicos que sabiam disso.
Ian olhou para o namorado e sorriu, queria que Connor compreendesse que aquele não era o momento para a pergunta.
— Enfim, vamos entrar que a festa já começou há um tempo. — Leo sugeriu. — Oh, Deus... —Leo colocou levou a mão à boca e olhou sobre os ombros de todos a sua frente.
Quando olharam para trás, viram Danion. O branquelo se aproximava como se nada tivesse acontecido e ao se aproximar deles, permaneceu sério, mas não o encarou. Apenas olhou para os portões de entrada.
— PARANBÉNS, PRA VO... — Ian imediatamente tapou a boca de Connor, que incrédulo, olhou para o namorado.
— Eu só quero beber. — Danion disse e foi o primeiro a entrar na festa, não se importando se iriam ou não acompanhá-lo.
Antes de entrarem, cada um colocou a sua máscara. Danion era o único a não usar. Motivo? Ele não queria.
Pareciam que eles estavam em outro mundo, outro universo. A decoração estava impecável, principalmente a iluminação. No centro do salão uma pista de dança ocupava o espaço e tudo aquilo já estava preenchido com pessoas dançando. Ao fundo, um DJ estava sobre um pequeno palco, cercado por grades de alumínio. Em algumas extremidades, árvores artificiais — feitas pelos alunos de artes — recebiam uma iluminação que partiam do chão, dando um efeito especial. Até um chão de pedras foi feito. Mas ninguém poderia passar por ele, aquilo servia apenas para a decoração. Bancos de praça também estavam espalhados pelo salão, ao lado de postes retrô. Outros dois carros da época foram feitos e colocados em pontos estratégicos, chamando a atenção até de quem estava distante.
Quando se tem bebida no meio é de se esperar que os ânimos se alterem e que pessoas irão chorar e outras ficarão sorridentes. Era apenas o início.
[...]
Caine ouviu alguém bater na porta do seu quarto e segundo depois a cabeça de Santiago surge.
Ele estava trajado com as roupas da festa, mas o blazer estava dobrado sobre seu braço e a máscara em sua mão.
— Ué, não vai para o baile? — Ele perguntou, vendo que Caine vestia as mesmas roupas de horas atrás. Bermuda e camiseta.
— Não sei se quero ir. Na verdade, não estou tão empolgado. — Caine respondeu ainda sentado na cama.
— Aconteceu alguma coisa?
— Sinto falta do meu irmão. E... Ah, esquece. — Dito isso, Caine se deitou.
Santiago entrou no quarto e colocou o blazer e máscara sobre a cama arrumada de Colin, logo se juntou ao Caine, fazendo o pequeno repousar a cabeça sobre sua perna.
— Então eu vou ficar aqui com você.
— Não queria estragar um dia legal. Sei que você deve está morrendo de vontade de ir para o baile. Todos foram pra lá.
— Nem todos. — Santiago fez uma pequena pausa. — Colton e Harry continuam na república. Colton ameaçou me expulsar de lá e me mandou já procurar algum lugar pra ir. E eu sinceramente não sei para onde irei. A grana que eu tenho só serve pra me sustentar dentro da Quadra. Não sou como Danion ou Ian que certamente conseguiriam alugar um quarto e viver até terminar a universidade.
— Ele fez isso?
— Fez. E sei que ele não está brincando.
— Então vem pra nossa república.
— Lógico que não. — Santiago olhou para Caine. — Acha mesmo que William iria me aceitar de volta? E também tem o Danion... O Le... Ah, não iria dar de jeito nenhum. Eu não sou bem vindo aqui.
— Colton saiu daqui, certamente tem um lugar pra você.
— Falamos disso outra hora, mas no momento não é legal pensar nessas coisas. Não estou mal por ter que sair de lá, pelo contrário, me sentirei bem melhor. Alguma república menor irá me aceitar. Isso se ainda não estiverem com aquela paranoia de que sou um drogado e etc.
Caine evitou tocar nesse assunto e sendo assim se calou. Santiago acariciou os seus cabelos.
— Posso te perguntar uma coisa? — Caine perguntou em meio ao silêncio que havia se instalado.
— Pode.
— Se sente melhor em relação a sua sexualidade? Você sabe... Algumas pessoas já descobriram sobre nós. Tô achando bonito você não se preocupar com os prováveis comentários e aparecer aqui na república.
— Ninguém aqui me julga. Afinal, são todos iguais a mim. Mas eu sei que só me aceitam aqui por sua causa. Por você ser irmão de Sebastian. Caso contrário eu seria apedrejado.
— Isso não seria um bom motivo para você morar aqui? Se você conversar com o Danion...
— Hoje é aniversário dele, não é? — Santiago mudou radicalmente o assunto, aproveitando que o nome dele foi citado.
Caine pareceu engolir uma bola de gude. Imediatamente palavras lhe faltaram. Santiago olhou para ele curioso.
— É sim. — Caine jamais havia se esquecido daquele dia. E, por isso, preferiu não ir à festa.
Santiago e Caine não trocaram mais uma palavra por quase cinco minutos. Eles ficaram em silêncio. Caine tocava os dedos do maior enquanto recebia carícias da sua parte. Caine não sabia onde seu coração estava guardado agora. A confusão tomou conta de seus pensamentos.
— Ei, Caine... — Santiago chamou o nome do pequeno. Os olhos de Caine foram de encontro aos seus. — Posso tentar com você?
Caine achou aquela pergunta confusa.
— Tentar comigo? O quê? — Indagou.
— Eh... Você sabe. Só nós estamos aqui e eu... Eu... E-eu nunca...
Caine corou. Porém, pior que ele estava Santiago que não sabia procurar palavras suficientes para descrever o desejo que estava sentindo. Constrangido, ele silenciou-se. Caine desviou o olhar e fitou a parede. Foi um momento constrangedor para os dois.
Caine era o tipo de garoto que sempre iria ficar constrangido quando o assunto se tratava de sexo. Santiago se sentia constrangido porque nunca chegou a fazer isso com um garoto e os seus desejos mais íntimos eram despertados a cada vez que estava com Caine.
“Atitude, Santiago.” Pensou o maior.
Foi tomando atitude que ele retirou a cabeça de Caine de suas pernas e se pôs sobre o menor. Santiago tinha um olhar tão sedutor que fez o pequeno se perder e tremer perante o corpo do maior sobre si. Os narizes próximos e roscando-se um no outro até que então Santiago encostou seu lábio ao do outro.
Caine não rejeitou a atitude alheia. Fechou seus olhos e abriu os lábios deixando com que a língua do outro invadisse a sua boca. Caine relaxou o corpo, assim como Santiago. Ambos que minutos antes estavam tensos demais, agora se entregavam aos poucos ao momento.
Foi em questão de segundos para que Caine sentisse, pela primeira vez, o membro rígido de Santiago sobre o seu, mesmo que ainda usassem roupas.
Um beijo aqui, um beijo ali. Toques e mais toques. Aos poucos cada peça de roupa ia sendo retirada enquanto rolavam sobre a cama de solteiro que começou a se tornar pequena diante de todo aquele calor que sentiam. Caine não podia negar que adorou o momento em que viu Santiago desabotoar a camisa social preta.
Santiago e Caine haviam esquecido completamente da festa que estava acontecendo na universidade.
Os beijos eram quentes demais. As roupas de Caine já estavam no chão, o que não o deixava totalmente despido era a cueca que usava. Santiago permanecia de calça.
Santiago tocou a mão do pequeno e a guiou até o seu membro, fazendo-o sentir o que logo estaria dentro dele. Caine tocou o membro de Santiago ainda que um tanto receoso, afinal, era a sua segunda vez estando naquela a situação. Na primeira vez teve Danion lhe ensinando.
“E saltou prendendo suas pernas na cintura de Danion. Pusera suas mãos envoltas no pescoço do branquelo e continuou beijando-o.” Caine teve lembranças da sua primeira noite com Danion.
Imediatamente Caine parou e Santiago estranhou a atitude.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou.
Caine negou e em seguida tomou os lábios de Santiago. Odiou-se por ter parado aquele momento. Danion não poderia tomar conta dos seus pensamentos agora. Ele não tinha aquele direito.
Por isso, Caine começando a se irritar pelas lembranças que estava tendo, acelerou seu beijo e tocou o zíper da calça de Santiago, quase que o implorando para que tirasse. Deveria se entregar rapidamente ao momento e esquecer Danion de uma vez por toda.
“Danion o beijou para que ele pudesse esquecer a dor. Continuou fazendo movimentos levíssimos para que o outro pudesse se adaptar com o invasor dentro de si.” Outra lembrança.
Caine retirou sua cueca e olhou para Santiago. Seu coração apertou.
Agora teve a lembrança de ouvir os gemidos de Danion, dos toques e olhares. Mais uma vez Caine parou o que estava fazendo, negou o beijo que estava para receber de Santiago ao virar sua cabeça para o lado. A lágrima imediatamente desceu.
— Caine? — Santiago perguntou, ainda sobre ele. Tocou-lhe a face para verificar se aquilo era realmente uma lágrima.
Ao ter certeza, saiu do corpo do menor e se sentou na cama. Estava confuso demais com aquilo que aconteceu. Os cabelos bagunçados, o corpo suado e os lábios vermelhos denunciavam o que ele estava fazendo naquele quarto para qualquer um que abrisse aquela porta de supetão.
— Me desculpe Santiago.
— Desculpas? — Indagou ainda mais confuso. — F-fui tão mal assim?
— O problema não está no que iríamos fazer. E-eu só... Eu...
— Não está pronto? — Mais outra pergunta. — Tudo bem, eu vou respeitar o seu momento para quando estiver pronto.
E então Caine tomou forças para se levantar da cama e se sentar. Olhou firme para Santiago e disse:
— Eu sou incapaz de esquecer o Danion. — As palavras foram jogadas para fora, quase que libertas.
Santiago, a princípio, não sabia exatamente o que sentiu ao ouvir aquilo. Mas era algo semelhante a um soco, forte e pesado.
Ele se levantou, tomou sua calça jogada e a vestiu.
— Você tem toda razão de me odiar depois de agora. Mas eu não quero mais mentir. Mentir pra você e mentir para mim.
— Tudo bem, já entendi.
— Então me xinga. Fica estressado. Faz alguma coisa!
— O que você quer que eu faça? Que eu faça exatamente o que ele fazia com você? Você é burro, Caine.
— Sou e tenho noção disso. Mas é a coisa mais justa que eu já fiz em minha vida. Eu não iria aguentar mentir pra você. E-eu só...
— Já disse que te entendi. —Santiago o interrompeu. Ainda estava sem camisa enquanto amarrava os sapatos. — Esse diálogo precisa ficar maior do que já está? Você vai tentar justificar e justificar, não vamos sair disso.
— Só me desculpe. Estou sendo sincero com você. — A voz estava fraca.
Santiago recolheu o resto de suas coisas e saiu sem se despedir. Caine permaneceu no quarto, culpando-se por ter feito alguém de idiota. Odiando-se, na verdade. Era uma verdade incontestável... Seu coração sempre pertenceria ao branquelo. Era tão difícil ter que amá-lo.
[...]
Caine por vários e vários minutos rolou sobre a cama. Há poucos tinha acabado de dispensar uma pessoa que sempre foi extremamente carinhosa, com poucos defeitos visíveis, apesar do passado que vive a condená-lo. Santiago era sem sombra de dúvidas um garoto perfeito, mas não para Caine.
Não sabia ao certo se estava arrependido. O que ganharia se permanecesse mentindo para ele? Certo que há casos em que o sentimento possa crescer com os anos de relacionamento. Há quem namore por namorar e quando menos espera já está adaptado ao outro e, na menor que for a ausência, sente falta.
“Você teria orgulho de mim?” Se perguntou, ao lembrar-se de Sebastian.
Danion era uma loucura. Caine sempre foi o garoto certinho, desviando-se de tudo que lhe causasse problemas, não curtia bebida e não fumava, evitava brigas e tentava a todo custo ser simpático com todos. Mas era viciado. Viciado em uma droga que corroía a sua alma, o doce — e terrível primeiro amor.
Caine se levantou e caminhou até o armário do quarto, sentou-se no chão e puxou a última gaveta. Debaixo de algumas calças dobradas retirou o presente que havia feito.
— Não sei o que eu faço com isso. — Sussurrou passando a mão sobre a capa.
O que Caine segurava nas mãos era um álbum de fotografia. Um álbum que ele tinha feito com o passar dos meses, depositando algumas fotos mensalmente. Depois puxou outra caixa, dessa vez bem menor. Era preta com um laço prateado.
Antes de se levantar, Caine tomou uma grande atitude: Estava disposto em ir até a Danion.
Mesmo que estivesse evitando-o durante todo esse tempo, teria que compreender que esse dia era especial. O dia do seu aniversário e, de alguma forma, precisava presenteá-lo. Esquecendo-se de tudo o que ele já fez. Afinal, todos parabenizaram Danion e, até o momento, Caine foi o único a não fazer isso.
Caine foi até o banheiro do quarto, tomou um rápido banho e se vestiu. Como sabia que não era permitida a entrada sem qualquer outra roupa, teve que usar o traje que exigiam. Parecia um cavalheiro mirim, sua máscara era em veludo, num tom azul marinho e seu contorno era forjado por um fino cordão prateado.
Tomou os presentes na mão e rumou à festa.
O pequeno se deparou com a multidão. Não esperava que fosse tudo isso, no ano em que estivera na Quadra não foi realizada a festa que ocorre a cada dois anos e, por isso, toda a surpresa. Não imaginava que todos ali eram da universidade. Foi difícil consegui atravessar e procurar alguém conhecido. Caine demorou quase que dez minutos para encontrar William.
Apesar de ser um baile de máscaras e algumas pessoas se tornassem irreconhecíveis, a convivência com os membros da república ajudava a reconhecê-los. Talvez pela forma de se portar, gestos e lábios.
William e Octavio estavam juntos, não dançavam. Apenas conversavam parados ao lado da falsa árvore.
— Ei, Will, você viu o Danion!
— Caine! — Octavio exclamou, envolvendo o braço no ombro do menor. — Que bom que veio! — Caine sorriu.
— O Danion? Vai ser bem difícil encontrá-lo. Principalmente porque todos nós sabemos como ele é diante da bebida. Talvez esteja jogado por aí. — William respondeu.
Caine pressionou os lábios, não gostando de ter ouvido aquilo. Realmente, Danion deveria já estar bêbado e perdido.
— E os outros? Colin, Ed, Erica...
— Quando saímos, decidimos ficar em um lugar específico, o ponto de referencia é aqui, perto da entrada que vai de encontro aos corredores dos alunos de direito. Se você olhar ao redor, deve encontrar... Olha ali, a Erica tá dançando e pelo que parece a Clara tá quase partindo pra cima dela. — Disse ao avistar as duas garotas. — Gale tá logo atrás dela. Talvez eles saibam onde o Danion está.
Caine agradeceu e deu as costas, caminhando até Clara, a melhor amiga de Danion.
Caine tocou os dedos da garota, vendo que ela não prestava atenção nele.
— Um estuprador! — Exclamou e logo sorriu. — Quem é você? — Clara perguntou.
— Larga a minha irmã! — Gale, já alterado pela bebida, se colocou entre os dois.
— É o Caine. — Erica, que tinha ouvido aquilo, respondeu a pergunta de Clara. — Olha lá como vocês falam com ele.
— Oh, meu Deus, você aqui?! Isso significa que eu posso... — E então Clara abriu os braços e se preparou para agarrá-lo.
Erica quase estapeou a loira. Clara parou imediatamente ao ver a expressão da outra.
— Cara, como ela é gata. Por que tem que ser hétero? Deveria provar! — Clara comentou com Gale. Ele apenas sorriu.
— Vocês viram o Danion?!
Clara logo esboçou um sorriso, adorando ter ouvido aquilo. Mas então se lembrou de Danion e seu sorriso foi desfeito.
— Discutimos. — Ela disse. — Danion odeia o aniversário dele e, sempre que esse dia chega, ele começa a ficar alterado. Tentei animá-lo e ele rejeitou a minha ajuda. Até o Leonard tentou, mas ele não quer papo com ninguém.
— Vocês nunca me contaram porque Danion odeia tanto o aniversário. — Gale mostrou seu descontentamento.
— Larga de ser curioso! — Clara o repreendeu.
— A última vez que eu o vi, ele estava subindo as escadas. — Erica disse, sendo puxada pelo garoto com quem dançava. Erica se virou, repreendendo-o pela atitude. — Eu tenho namorado, babaca! Se eu dancei com você, isso não significa que iremos ficar ou transar. — E então voltou sua atenção para Caine. — Como eu disse, eu o vi subindo as escadas próximas ao banheiro. Estava sentado sobre um degrau, bebendo. Parecia com aqueles cachorros abandonados. — Ela foi obrigada a rir da desgraça alheia.
— Você vai dar pra ele? —Clara interrompeu! Todos se assustaram com a pergunta. — Dar o presente, gente. Não viram a mão dele?! — Completou.
— Essa garota é muito promíscua. Eu, hein. Vou até sair daqui e me juntar aqueles dois pombinhos. — Erica falou, referindo-se ao William e Octavio.
Clara não ficou feliz com aquilo, tanto é que fez biquinho.
— Danion não está usando máscara, então não se preocupe. E ah, desculpe pela forma que eu te abordei. — Gale apertou o ombro do pequeno.
Caine antes de dar as costas sorriu e agradeceu pela ajuda. Mais uma vez foi obrigado a enfrentar a multidão, recebendo alguns empurrões aqui e ali. Por pouco não tomou um banho de bebida.
Ao se deparar com as escadas, sentiu uma leve decepção por não ter encontrado o branquelo ali. Caine olhou ao redor e nada de encontrá-lo. Entrou até no banheiro, lotado, na esperança de achá-lo caído no chão. Tinha garotos largados, mas nenhum deles era o branquelo.
Caine subiu alguns degraus na tentativa de avistá-lo na multidão, talvez fosse mais fácil. Mas ainda assim era bastante difícil. Conseguiu apenas encontrar Luke e Samuel que aparentemente discutiam.
Quando Caine olhou para trás, encontrou um sapato jogado em um dos degraus. Segurou o álbum com um braço e apanhou o calçado com a mão livre. O pequeno levou seus olhos ao primeiro andar e teve a ideia de subir. Talvez Danion estivesse por ali.
Caine, ainda com o sapato em mão, subiu cada degrau.
O primeiro andar, restrito para pessoas autorizadas tinha diversas salas, geralmente para reuniões do conselho. Cada sala era especifica para cada curso, não todas, já que a quantidade era menor do que a quantidade de cursos.
O garoto passou por todas as salas, subiu uma nova escada e encontrou um novo corredor. Ele nunca havia estado ali antes, por isso encontrava-se perdido, apesar de saber onde era a saída. Afinal, o som fazia o piso estremecer.
Ao entrar no novo corredor ele deu de encontro com uma varanda, onde também tinha entrada para novas salas. Foi no final daquela varanda que ele viu Danion parado, de pé, com os olhos fixos no além — ou apenas vendo a Quadra Nove.
Sim, era possível ver toda a Quadra do lugar em que ele estava. A noite sempre destacava a beleza de uma cidade iluminada. Assim como tinha visto na torre, uma vez em que já esteve com Danion naquele lugar.
Caine caminhou em passos lentos e leves, tentando não assustar ou interromper os pensamentos do branquelo.
Danion estava sem um sapato, o blazer estava repousado na grade de metal em que seu braço estava apoiado. A gravata estava no bolso da calça, quase caindo. Os cabelos do branquelo permaneciam arrumados e ele segurava uma garrafa de bebida numa mão e um cigarro em outra.
Caine parou e permaneceu em seu lugar. Danion ainda não havia notado a sua presença. Era lindo ver a luz refletindo nos orbes dele.
— Você deveria estar lá dentro, com os outros, aproveitando o seu dia.
O pequeno finalmente disse, numa voz suave. Ele tentou não assustar Danion, embora quisesse chamar sua atenção a qualquer custo sem que o outro o insultasse pelo susto.
Mas Danion se assustou, não por ser pego de surpresa, mas por ouvir aquela voz que há bastante tempo tinha adotado a lei do silêncio. Quando olhou para Caine que no momento retirava a máscara que usava, sentiu seus pelos eriçarem.
O branquelo lutou para não esboçar nenhuma reação, tragou o cigarro e voltou sua visão para as luzes do bairro.
— E você não deveria estar aqui. — Foi só o que disse antes de beber com força um pouco da bebida.
Caine sentiu a frieza daquelas palavras, porém, permaneceu em seu lugar, ainda observando-o.
— Eu só queria te dar os parabéns pelo seu dia, um feliz aniversário. — Disse, aproximando-se.
— Ok, obrigado. Mas eu não gosto desse dia.
Caine assentiu, aproximou-se de Danion e pôs o sapato no chão, o álbum de fotografias e a caixinha preta. Deu meia volta e passou a caminhar para longe dali. Não deveria ter tido a ideia de aparecer ali, sabia realmente que essa era a reação que teria do branquelo.
Mas Caine já estava adaptado. Talvez, choraria horas depois por ter sido tão idiota. Mas novamente não se sentia arrependido de ter contado a verdade para Santiago.
— Isso, vai embora e fica lá com ele.
Caine parou e se virou, tentando compreender o que Danion estava falando.
— O que foi? — Danion perguntou ao notar o olhar confuso de Caine — Não é o que você vai fazer? Ficar com o Santiago? É a coisa que você mais faz ultimamente. Deixando até Colin de lado por isso.
— Do que você tá falando? — Perguntou, embora já estivesse compreendendo tudo.
— Ah, qual é, Caine, sem mi-mi-mi. É isso que você vai fazer. E tá fazendo da minha sala banco de praça para encontros.
— Está irritado por causa do Santiago? É isso? — Caine indagou ainda parado. — Você não tem o direito de falar comigo dessa maneira, principalmente de envolver o Colin nisso.
— Foda-se se estou irritado ou não. Pouco me importo com você, muito menos com aquele garoto. É melhor você ir embora daqui, eu estava super de boa até você aparecer. — Lançou o cigarro para longe e em seguida pusera para fora a fumaça acumulada.
— Ir embora depois do que acabei de ouvir? Você tocou em um assunto da qual eu faço parte e eu não irei sem antes te dizer algumas coisas.
— Dizer o que já me disse uma vez? Que eu sou um lixo e completou dizendo que eu seria sozinho e abandonado por todos. Ah, me poupe, não mereço ouvir isso mais uma vez. Se for pra proferir seu discurso, saiba que já o tenho decorado.
— Não era isso que eu ia falar, Danion.
— Não? E o que era? —Não estava dando oportunidade pra o pequeno se explicar. — Então vai dizer que está com pena de mim? Porque se você não percebeu, as coisas realmente começaram a acontecer, do jeito que você tinha falado. William está com Octavio, Connor com Ian, o Rick foi embora, o Colin certamente tá mentindo pra caralho e dando pra alguém que ninguém conhece, Leonard gosta do seu namorado. Você sabia disso? Leonard está gostando do Santiago. —Danion fez uma pausa e deu mais um gole na bebida, passou a mão nos cabelos e respirou fundo — Meus pais só me mandaram uma mensagem e um carro novo. O que me restou foi a Clara, mas sei que a estadia dela não vai durar na Quadra, ela é incapaz de concluir o curso. Até você me deixou. No final, eu realmente ficarei sozinho.
— As consequências foram geradas por você.
— E daí se foram geradas por mim?! Eu quero mais é que se foda e que se for pra ser sozinho, que seja. Não irei me preocupar com nada e ninguém. Nem mesmo com meus próprios pais que também foram capazes de me esquecer.
Danion sentiu uma queimação em sua face, sentiu as lágrimas implorando para serem derramadas. Mas ele não daria o gosto de Caine apreciá-las.
— E o que você ganha sendo assim? Para com isso, Danion. Desse jeito você não vai a lugar nenhum. — Tentou aconselhá-lo. Caine sentiu cada palavra do branquelo atingir em cheio o seu emocional. — Se sabe que vai ser sozinho algum dia, por que não tenta procurar alguém?
— Sabe por que eu não tento? — Danion deixou com que a garrafa escorregasse de suas mãos e caísse no chão, ela não se quebrou, mas derrubou o pouco da bebida que continha. — Porque a única pessoa que era capaz de aguentar todos os meus defeitos está agora com outro. A única a não me julgar e a rir das minhas piadas sem graça. — Danion apontou, como se estivesse julgando Caine por algum pecado imperdoável —Tornou-se um garotinho frio e egoísta por causa de uma nova paixão. E se você não sabe quem é essa pessoa, Caine, eu vou te contar, porque a merda já está feita e não tem como voltar atrás. Essa pessoa é você.
Imagine você caminhando sozinho pela rua quando alguém levanta voz de assalto. Você sente que seu corpo já não mais corresponde as suas vontades e você congela, sente que seu coração parou ou até mesmo bate mais forte, quase que saltando para fora. Foi assim que Caine se sentiu com aquilo que ouviu, principalmente porque o ladrão era Danion. Que roubou-lhe todas as incertezas existentes em sua cabeça. Que fez o tempo parar.
— Uma vez eu já te disse que ódio e amor são sentimentos paralelos, mas com a mesma intensidade. E é por isso que eu te odeio e me odeio. Odeio! Eu não quero ouvir nada de você depois do que acabei de te dizer. Se você quiser descer e contar tudo para as pessoas, faça isso. Eu juro que não me importo. Só quero você longe de mim.
A bebida também era a culpada por Danion está falando aquelas coisas, mas isso não significava que o branquelo não guardava tudo aquilo há bastante tempo.
— Quer que eu piore ainda mais a minha situação? Bem, eu vou te contar porque odeio o meu aniversário, só assim você tem mais motivos de sentir pena de mim. Se é que esse sentimento ainda existe em você.
Caine olhava incrédulo para a postura que Danion havia tomado. Principalmente quando os olhos fumegantes do branquelo iam de encontro ao seu.
— Desde os meus quinze anos eu procurei saber da minha origem. Me chamo Danion e sou de origem alemã, isso é meio óbvio se olharem bem pra mim. Eu descobri quem era minha verdadeira mãe. E advinha onde ela está agora?! — Uma breve pausa para o silêncio. Danion engoliu a própria saliva. — Morta! Minha verdadeira mãe está morta. Quem teve o prazer de me contar isso foi o meu pai adotivo, que numa discussão deixou escapar o ocorrido.
— Meus...
— Espera, não fala! Agora é a minha vez de falar! Eu não permiti que você abrisse a boca. Lembra que foi assim que você me tratou naquele dia perto do refeitório? — Forçou o pequeno a lembrar. Vendo que Caine se calou, Danion olhou para a lua antes de prosseguir — Minha mãe era uma imigrante alemã, que veio para Seattle em busca de algo melhor, já que o seu país de origem não lhe proporcionava isso. Uma imigrante grávida que tinha sonhos como qualquer ser humano. Até um maldito motorista desgraçado a atropelar. Ela foi levada as pressas para o hospital e, após o meu nascimento, ela não resistiu.
Foi quando Danion já não tinha mais espaço para guardar as lágrimas e as deixou transbordarem. Completamente destruído, o branquelo sentiu os lábios serem molhados e a língua provou do salgado que a lágrima oferecia.
Caine sentiu o coração ser desperdiçado quando a voz firme e estridente que Danion tinha naquele momento, mudou drasticamente. Uma voz chorosa, quase que pedindo clemência.
— Ela morreu por minha causa! Certamente, deveria estar viva se não estivesse gravida de mim. Continuaria em seu país de origem! Eu sei, eu sinto isso. — A voz cada vez mais opaca — Do que vale nascer em um dia como esse se sua mãe morreu na mesma data? Há exatos 22 anos. Tá bom pra você?! Tá bom pra todo mundo que vive me enchendo o saco? É por isso que eu odeio esse dia e para sempre vou odiar. — Danion procurou algo para se sentar, mas não encontrou. Tentou enxugar as lágrimas que desciam, mas outras persistiam em cair.
— Você está culpando-se por algo da qual você não tem culpa. Além disso, isso não tem sequer relação com o que você é atualmente. Danion, você está colocando culpa nos outros pelo destino que você mesmo traçou. Você escolheu ser isso que é atualmente. É você quem decide o que vai ser futuramente.
— Para de ser igual a todos eles! — Gritou com Caine. — Para de sempre colocar a culpa em mim. Sempre eu, sempre eu, sempre eu! Minha mãe morreu! Eu fui mandado para um abrigo logo quando era um bebê e dali fui adotado por pessoas incapazes de criar alguém. E mesmo assim ninguém sente pena de mim.
— E o que você quer de verdade? Que as pessoas passem a mão na sua cabeça e te façam de coitadinho? Desde o seu início como leonino você vive a se meter em confusão, e você sabe perfeitamente disso. A morte da sua mãe não tem sequer relação com isso, repito. Você foi forte o suficiente para aguentar durante todos esses anos. — Caine, mesmo sentindo seu coração despedaçado, continuava a tentar convencê-lo das atitudes impensadas que ele tinha.
— Eu tô cansando, sabe. Cansando de tudo isso. Uma hora todos se formam e eu vou trancar a faculdade, já que não faço porra nenhuma. Se um dia vou ficar sozinho, devo ir embora.
— Então vai. Faz isso. Mostra para todos que você é isso que está me mostrando agora. — Caine se surpreendeu com o que estava falando.
— O Caine que eu conheci não me falaria uma coisa dessas.
— Porque certamente aquele Caine se ausentou, mas isso não significa que ele foi embora, como você pretende fazer. Aquele Caine só soube vestir a melhor armadura para tentar esquecer.
Danion balançou a cabeça negativamente e apoiou seu braço novamente na grade de proteção.
— Posso pedir algo antes de ir embora?
Danion não respondeu, mas Caine disse:
— Pega o álbum de fotos e o abre.
E dito isso, Caine deu as costas.
A confusão psicológica de Danion era bem notável, misturado a bebida só agravava mais as suas palavras, que em alguns momentos tornavam-se confusas. Mas que ainda assim poderiam ser compreendidas e acolhidas, já que a sua dor era bem visível aos olhos do pequeno.
Danion até tentou não verificar o álbum de fotografias que tinha ganhado, mas antes de apanhá-lo, verificou o que tinha dentro da caixinha: Uma carteira de cigarros, o seu preferido. Caine foi gentil em fazer isso.
Danion guardou os cigarros no bolso do terno e já de pé abriu o álbum de fotografia. A primeira foto era sua com William e Rickson, todos os três sentados no sofá da sala da antiga república. O branquelo estava no meio deles, irritado por ser forçado a tirar a foto. A segunda foto era sua dormindo, com Leonard ao lado sorrindo, segurando uma pequena torta feita por Rick. Ele lembra bem disso, foi do seu aniversário há dois anos. Na terceira foto Danion estava em frente à república, junto ao William, Ian, Gaspar, Santiago, Rickson e Leonard, em uma típica foto de família. As próximas fotos já eram mais atuais, inclusive, Connor e Ian apareciam nelas. Foram cerca de quinze fotos. A penúltima foto era uma sua e ao fundo Caine apareciam sorrindo. Ele não se lembrava da foto. No final do álbum tinha escrito: “Nem só de defeitos você é feito, se eles te amam, saiba que é porque você tem qualidades. Amigos são heranças.”.
Quando Danion fechou o álbum ele já não sabia mais quem era. Se o antigo Danion ou se o novo Danion. Porém, de uma coisa tinha certeza, protegeria essas pessoas com sua vida.
“Caine.” Pensou o branquelo. E então percebeu a falta que o pequeno estava fazendo. Percebeu que foi cego por muito tempo e, agora sabendo que o outro largou o orgulho para parabenizá-lo, não poderia deixá-lo escapar. Não dessa vez.
O leonino apanhou o sapato caído no chão e correu. Parecia que tinha roubado algo valioso seu e fazia o possível para tentar recuperá-lo. O branquelo quase que caiu das escadas enquanto descia até se deparar com a multidão de pessoas que se divertiam.
Danion olhou ao redor na esperança de encontrar Caine por ali, mas não conseguia avistá-lo. Estava desesperado, tanto é que ignorou as perguntas dos colegas que encontrou no caminho.
O branquelo acabou saindo do salão e correu pelos corredores vazios da universidade até sair dela. Torcia para que Caine estivesse na república, na verdade, implorava por isso.
Foi quando no caminho encontrou o pequeno, caminhando sozinho pela rua deserta da Quadra. Caine estava com as mãos dentro dos bolsos da calça e a cabeça baixa.
— Caine!
Danion havia gritado pelo nome do pequeno.
E então, quando o pequeno se virou, Danion já estava próximo o suficiente para largar os presentes no chão, o agarrá-lo pela cintura e tomar os seus lábios, com muita sede e volúpia.
Não se importando com quem estivesse vendo ou com quem veria aquilo. Danion não se importou com mais nada, apenas queria recuperar o que havia perdido.
Caine, embora ainda assustado, fechou seus olhos e abriu seus lábios, dando espaço para a língua do outro, sendo assim, cedendo a vontade do maior. Tinha esperado por esse momento há mais de um ano e seria impossível ter que rejeitar isso.
[inicio do flashback]
Recém tinha completado seus nove anos de idade, Danion estava no shopping da cidade que visitava. Era um presente de aniversário que por vários dias tinha insistido aos pais. Foi logo na infância que despertou seu desejo por viajar o mundo, conhecer tudo e todos.
Já com aquela idade Danion tinha a pele pálida e olhos claríssimos, destacando-se diante de qualquer outra criança.
— Não solta minha mão, garoto. — Ordenou sua mãe, a adotiva.
Apesar de ser seu aniversário e estar em viagem, ele não estava tendo a total liberdade que queria ter. Resmungava sempre dizendo que já tinha nove anos e poderia se virar sozinho. Pobre Danion.
Ele e seus pais passearam por diversas lojas do shopping. Mas Danion estava achando aquilo tedioso demais. O pai havia decidido ir ao banheiro enquanto a mãe não tirava os olhos das vitrines com roupas elegantes que lhe agradavam.
— Mas e os brinquedos? — Danion perguntou.
— Outra hora nós vemos isso. Deixa-me primeiro escolher algumas roupas.
— Mas eu quero meus brinquedos!
— Danion! — Ela o repreendeu. — Já mandei você ter calma.
Há quase duas horas ela ainda estava decidindo o que comprar. E o branquelo era obrigado a ter que segui-la em todas as lojas em que a mesma decidia entrar. Sempre resmungando e já cansado por não estar se divertindo no dia do seu aniversário.
Na primeira oportunidade que teve de escapar do olhar atento da mãe, Danion desapareceu. A mãe tinha ido provar uma roupa no vestiário e pediu para que ele a esperasse. Mas não foi isso o que o menino fez.
O branquelo todo sorridente correu para fora da loja, olhou para as duas direções do shopping e seguiu seu instinto. Subiu e desceu as escadas rolantes, sempre foi uma criança travessa e por isso, quando um adulto tentava pará-lo e pedia para que ele não corresse, Danion simplesmente mostrava a língua e fazia a melhor careta.
Danion finalmente achou uma loja de brinquedos. Era enorme comparado ao seu tamanho. Uma piscina de bolinhas chamava a sua atenção e ver vários garotos mergulhando ali lhe causava inveja. Mas não era possível entrar sem que os pais estivessem ali e assinassem, permitindo assim a entrada do branquelo.
Teve se que se contentar com os bonecos da vitrine. Super heróis e vilões, e ele sempre preferiu os bonecos dos heróis. O seu preferido é o super homem. Danion foi capaz de imitá-lo ali na loja e quis esnobar as outras crianças que sem entender o que ele fazia e apenas riam.
— Burros, do que estão rindo? — Ele provocou.
Sentiu vontade de jogar o boneco em cima dos outros, mas se conteve. Por isso se afastou deles e caminhou até outra sessão. Lá só tinha livros infantis e Danion não suportava. Encontrou a parte também de brinquedos femininos e saiu dali correndo, voltando para o lugar que antes estava.
Não se sentindo bem no lugar, Danion decidiu procurar outra loja de brinquedos. Novamente subiu e desceu escadas. Por diversas vezes sabia que estava perdido e que passou pelo lugar mais de duas ou três vezes.
Danion prosseguiu agora tentando encontrar a loja em que sua mãe estava. Foi aí que no trajeto algo diferente aconteceu.
Danion viu de longe, um garoto chorando. Aparentemente com seus cinco ou seis anos de idade. Fantasiado de Pikachu, segurando uma das orelhas. O capuz cobria parcialmente o seu rosto, mas então caiu e Danion pode observar mais atentamente a criança que estava chorando.
Ele nem sequer tinha percebido que parou de supetão para olhar o garotinho. Ainda era incapaz de compreender a tremenda ligação que sentiu com o outro. Sentiu vontade de ir lá consolá-lo, dar o melhor conselho e dizer que o super homem não gosta de crianças que choram. Que todos eram fortes demais para chorar.
Deu mais alguns passos lentos em direção à criança que ainda chorava, agora mais desesperada e olhando de um lado para o outro. Ele parecia estar perdido, assim como Danion. Mas diferente do branquelo, ele estava assustado.
E então os olhos do garotinho que estava chorando foram de encontro aos de Danion. Embora o choro não tivesse cessado, Danion percebeu que ele estava esperando a sua presença.
Mas então Danion parou. Ele viu quando outro garoto maior ajoelhou-se diante do que chorava. Enxugou as lágrimas do menor e sorriu para ele. Ele era ruivo e já um pré-adolescente. Danion imaginou que fossem apenas amigos, afinal, ele era o ruivo e o menor não. Outra garota havia se juntado a eles. Ambos tomaram as duas mãos do menor e saíram dali.
Danion permaneceu em seu lugar vendo o garotinho olhar para trás uma ultima vez, talvez querendo se despedir.
— Te achei garoto maldito! —Alguém puxou sua orelha.
— Ai! — Reclamou pela dor que sentiu.
Era sua mãe, que já estava irritado pelo seu desaparecimento. Ela segurou no braço de Danion e o arrastou para longe dali.
Se Danion soubesse que o garotinho que estava chorando era o Caine, talvez eles tivessem sido amigos dali por diante. Eles provavelmente jamais iriam se lembrar disso. Mas o destino ousou em querer que eles se conhecessem desde a infância.
[final do flashback]
Aquele beijo não durou menos que cinco minutos. Sim, na calada da noite, no centro da Quadra Nove, aqueles dois evitaram a separação dos lábios. Como chave e cadeado, o dia e a noite ou peças de um quebra cabeça. Por muitos apuros aqueles dois passaram, mas agora diante de tudo o que aconteceu, Danion tinha certeza de uma coisa:
— Não me deixa. Eu... E-eu te amo, Caine.
Conseguiu finalmente dizer.
A verdade era que só agora Danion veio perceber disso. Seu sentimento pelo pequeno surgiu em sua primeira vez com ele, a partir de lá, o que ele acreditava que não sentia, sempre esteve ali. Era como gotas d’água que aos poucos enchia um balde, um lago, um rio... Um mar.
Caine ouviu aquilo e imediatamente seus olhos umedeceram, ele parecia uma criança que estava prestes a chorar. Os lábios entreabertos e vermelhos olhavam para os olhos claros do branquelo que implorava por alguma resposta, mas tudo o que Caine fez foi tocar o maxilar do outro e aproximar-se dos seus lábios, voltando ao beijo, porém, dessa vez mais calmo e cheio de amor.
Danion realmente sentia saudades daqueles lábios. Eram tão finos e macios que sentia certa leveza, ansiando por mais e mais. Caine, por sua vez, estava ainda surpreso por receber aquele beijo sobre a luz da lua. Geralmente as noites serviam para ouvir seu choro por causa daquele que sempre vivia a magoá-lo, mas agora ela estava sendo a madrinha daquele momento.
— Ei, Danion... — Caine interrompeu o beijo, abriu seus olhos e encontrou os do branquelo. — Por quê?
Danion ficou alguns segundos sem respondê-lo, apenas observando-o. Caine realmente precisava de uma resposta.
— Eu estou com medo de ficar sozinho. — Admitiu.
Caine foi fraco perante as palavras que acabou de ouvir, portanto, não lhe perguntou mais nada.
— Me desculpe por tudo que eu já te disse. — Caine tocou o tórax de Danion, logo uma mão subiu para o queixo e seus dedos tocaram os lábios do branquelo, vermelhos. Os olhares eram definiam cada sentimento, carregados de saudades e vontade. — Poxinha, me desculpe.
— Eu quem devo me desculpa por todas as merdas que eu já te fiz.
Caine se sentiu pequeno e constrangido, não estava sabendo lidar com um Danion todo amoroso e por muito tempo tinha esperado por isso.
O pequeno tocou os dedos de Danion e entrelaçou seus dedos aos dele, retirou as chaves do bolso e caminhou até a entrada da sua república.
Quando Caine abria a porta, Danion lembrou-se dos presentes jogados no chão e imediatamente voltou para buscá-los. Ao entrarem na república o branquelo jogou o que tinha em mãos sobre o sofá e puxou Caine pela cintura, mais uma vez.
Caine sentiu a vontade do outro só com aquele toque, principalmente quando seus corpos chocaram-se um no outro. O pequeno olhou para Danion, ambos com os lábios entreabertos. Caine apenas fechou seus olhos, delicadamente e em seguida sentiu a língua do outro invadir a sua boca, mais uma vez.
Beijos serenos.
Mas a serenidade durou poucos segundos quando Danion tocou as nádegas do pequena e ele imediatamente saltou, prendendo suas pernas na cintura do branquelo.
— No meu quarto. —Caine pediu.
— Não, no meu quarto. — O maior determinou.
Danion levou o pequeno em seus braços para o seu quarto e ao entrar, imediatamente o trancou. Não iria querer ou sequer admitir que alguém atrapalhasse aquele momento que era exclusivamente deles.
Quando se virou para encontrar Caine, o pequeno permanecia de pé, sempre esperando por atitudes do branquelo. Danion puxou a gravata do bolso e a jogou no chão, depois puxou Caine pela gravata, retirando o terno do menor, que caiu sobre seus pés.
Os olhos que antes Caine sentia medo, quando estavam fumegantes, agora estavam famintos. Se Caine deveria sentir mais medo ainda? Não... Ele simplesmente queria ser a caça daquele caçador.
Danion o puxou, girou e o lançou contra a porta, fazendo-a a estremecer. Caine gemeu e imediatamente teve o gemido interrompido quando Danion o beijou. Mas diferente de todos os outros beijo, esse foi carregado de vontade, prazer e muito mais intenso que o beijo que deram na rua.
Caine sentiu Danion segurar suas duas mãos e entrelaçarem os dedos, ainda que estivesse com o corpo pressionado contra a porta. Um beijo duradouro, descarregando todas as mágoas existentes entre os dois. Porque agora o passado tornou-se lembrança e o presente seriam os dois, dentro daquele quarto que aos poucos queimaria.
Danion colocou Caine de costas para ele e o tomou pelo pescoço, apreciando aquela região macia. Caine se entregava completamente. O pequeno se encarregou de retirar os botões de sua camisa, quase que apressadamente.
Danion viu aquelas costas nuas e suspirou ao tocá-la. Quando Caine se virou, viu as bochechas vermelhas do pequeno. Isso porque eles nem sequer estavam despidos. Danion, por ser branquelo, seria facilmente marcado, mas ele preferia deixar marcas no menor, embora não fosse necessário, já que Caine ficava vermelho automaticamente.
Caine sorriu, Danion retribuiu. E após aquele gesto, aos beijos eles caminharam até a cama do branquelo e caíram sobre a mesma.
Danion tocou o membro de Caine sobre a calça e sentindo-o duro, ousou em puxar o zíper. Pra que calça? Danion também a tirou e o melhor, com os dentes. A cueca de Caine também foi desnecessária quando o branquelo quase a rasgou.
Agora Caine estava finalmente despido na presença daquele que tanto amava. Mesmo já estando assim uma vez, ainda era constrangedor e seria eternamente.
— Você é lindo, Caine. — Danion falou.
Caine levou as mãos à face, constrangido. Danion as retirou de lá.
— Eu quero te olhar, adoro sua beleza. — Elogiou, e novamente as bochechas de Caine tomaram um tom avermelhado.
Danion somente sorriu. Aquele sorriso grande e enorme que só ele tinha. Um sorriso perfeito para os olhos do menor. Já o sorriso de Caine — que também foi contagiado pelo sorriso — era pequeno como ele mesmo, até mesmo os dentes. Mas não deixava de ser belo, deixando-o mais fofo do que era.
Danion rolou para o lado e ligou sua caixa de som. Imediatamente caiu numa música que por algumas vezes já lembrou de Caine. Lullabies, da Yuna. Numa versão remixada, sua preferida.
Após aquilo, ele já voltou tomando os lábios do menor que fechou os olhos e novamente se entregou ao momento.
Foi Caine que, ainda recebendo os beijos, levou suas mãos aos botões da camisa do branquelo e, lentamente, ia retirando um por um, até ver o branquelo se desfazer dela, ajoelhado sobre a cama.
Caine se sentou e olhou para Danion, seus olhos desceram até a calça do branquelo, mais direcionado ao seu membro. Foi ali que Caine pôs a mão e acariciou, sem conseguir olhar nos olhos do branquelo. Após isso ele retirou o zíper de Danion, deitou-se de bruços e antes de abrir a boca, fechou os olhos.
— Do jeito que eu te ensinei... — Danion murmurou e levou sua mão aos fios do pequeno.
Naquele momento em que sentiu o toque úmido cobri a glande do seu membro, Danion arqueou as costas para trás e gemeu, baixinho. Mesmo sendo desastrado na primeira vez, Caine parecia estar se esforçando muito naquele momento.
Ele era gentil, delicado e com lábios macios, proporcionava ao branquelo o melhor oral que já havia recebido. Não era necessário a brutalidade, apenas a calma era o suficiente.
Lá estava Danion de joelhos enquanto Caine deitado o saboreava. Danion fechava os olhos e suspirava em alguns momentos, guiando o pequeno. Em outro momento Danion se deitou sobre a cama e o pequeno ajoelhou-se, continuando o que antes fazia.
Após quase dez minutos, Danion puxou Caine para cima e tomou os lábios do pequeno, sentindo o seu próprio gosto. Caine, perdido e extasiado, apenas soube receber aqueles beijos intensos do branquelo.
Em determinado momento dos beijos, os papeis se inverteram. Danion estava novamente sobre o corpo do pequeno naquela cama. Seus lábios tocaram o pescoço de Caine o mordiscou na região, com mordidas e beijos ele foi descendo até passar pelo abdômen do menor e encontrar o seu membro. Danion apenas depositou beijos no falo rígido, logo depois afastou as duas pernas do Caine. Levantou sua coxa e, com delicadeza, passou sua língua pela virilha do menor até então atingir o ponto mais sensível que Caine considerava.
Foi de imediato o gemido do pequeno. Ele simplesmente deixou escapar devido ao toque extremamente agradável.
Caine só faltou se contorcer na cama ao sentir aquela língua brincalhona. Foi naquela brincadeira que Danion preparava Caine para recebe-lo, sempre umedecendo a região e, também, brincando com os dedos. A língua era realmente mais agradável que os dedos, assim considerava o pequeno.
Por cinco minutos Danion permaneceu fazendo aquilo, até então tomar o membro do pequeno em sua boca e sugá-lo por mais alguns minutos. Mais tarde, puxou Caine para si, afastou mais as suas pernas e encostou seu membro onde queria.
Danion viu quando Caine virou o rosto, na tentativa de escondê-lo e mais uma vez forçou o pequeno a olhá-lo. Teria que admirar aquela beleza enquanto estivesse adentrando-o.
— Posso?! — Danion pediu autorização.
Caine assentiu.
No segundo que se passou, Danion forçou a entrada e Caine contraiu seu corpo, impossibilitando o branquelo de continuar.
— Respire... — Danion desceu seus lábios ao ouvido do menor. — E relaxe.
Dito isso, Caine respirou e tentou relaxar. Danion novamente forçou a entrada e, com insistência, conseguiu o invadir com alguns centímetros.
Caine mantinha os olhos fechados e Danion não pediu mais nada depois disso. O momento também era dele e deveria respeitá-lo. Forçar Caine a fazer algo não estava nas suas vontades.
Danion moveu seu corpo, penetrando-o aos poucos.
— Dói! — Gemeu o pequeno.
Danion imediatamente parou.
— Muito?!
— Bastante...
— Quer que eu pare?
— Eu suporto.
“Eu já suportei uma vez.” Caine pensou. “Eu o amo.”
Caine respirou fundo e relaxou o máximo que podia. Foi nessa oportunidade que Danion teve de penetrá-lo por completo e se encaixar a ele.
Bateu certo alívio ao passar por aquilo, mas não tinha terminado.
Quando Danion iniciou seus movimentos, Caine permanecia sentindo os incômodos e em alguns momentos interrompia o branquelo de continuar.
Danion sempre procurou não machucá-lo.
“Eu perdi tempo demais fazendo isso. Não quero mais te machucar.” Pensou o branquelo.
Mas Caine já mostrava melhorias a cada movimento seu. E dando espaço a gemidos, Danion soube dosar a velocidade dos seus movimentos com a força.
E lá estavam os dois. Amando-se como se fosse a primeira vez e, de fato, era. A primeira vez em que o sentimento era recíproco, os desejos eram correspondidos, os olhares compreendidos, as vontades aceitas e o amor sendo real.
E transaram assim, sem proteção alguma, como na primeira vez. Mesmo que para Caine e Danion a segurança fosse primordial, eles pareceram não se importar com isso, afinal, dali por diante seriam apenas eles dois. E a segurança já existia.
Beijos, movimentos, beijos, investidas, mordidas, beijos, sussurros, gemidos, suspiros, beijos... Era quase tudo resumido a isso.
Danion saiu de dentro do pequeno e o colocou de costas, voltando a penetrá-lo. Dessa vez em movimentos mais precisos, fazendo Caine gemer a cada investida. As nádegas do pequeno já estavam vermelhas e o branquelo conseguiu ver isso quando o virou.
Depois, Caine sentou-se sobre a cabeceira da cama e Caine se sentou de frente para ele, novamente sendo penetrado.
Quem culparia Caine pela sua escolha? Quem o culparia só por amar? Pobre daquele que não sabe que o destino desses foi traçado desde o momento em que trocaram olhares na infância. Amar não era um erro. Errado era o Danion. Mas há quem conseguiu consertar aquele branquelo cheios de defeitos e, que ainda assim, tinha muito o que mudar. Não só ele, mas também Caine. Eles eram perfeitos individualmente e imperfeitos um para o outro.
Quando uma águia ensina seu filho a voar, ela simplesmente o derruba do ninho. Se ela perceber que ele não vai conseguir, em um voo rasante, ela o resgata. Mas não significa que aquilo vai parar por ali. Ela simplesmente ensina os seus filhos a beleza do voo.
Quando filhotes, os leões não apresentam jubas. Mas o tempo passa, eles crescem... O pai educa bem os seus filhos, preparando-o para os ataques... Ataques da vida. Mas a juba daquele belo leonino estava nascendo... Provando que de fato era um grande leão.
Oh, natureza... Tão bela e tão perfeita, justificando a natureza daqueles dois garotos.
Sobre gemidos e sussurros, o sexo teve o seu fim. Mas a história daqueles dois não estava nem sequer na metade. O amor agora fazia parte do vocabulário do branquelo.
— A festa ainda não acabou... — O branquelo disse, fraco.
— Pretende voltar?
— Sim, de mãos dadas com você e sendo chamado de namorado.
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