República de Leões
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Ian acordou no meio da madrugada com Danion quase o derrubando da cama. Olhou para a cama ao lado e viu que Leo ocupava o espaço, o que diminuía as chances de trocar de cama. Porém, Leo estava comportado, diferente do branquelo que colocou uma perna por cima dele.
Só então percebeu a falta que Connor fazia, mesmo que seu namorado fosse um tanto inquieto. O seu abraço era, sem sombra de dúvidas, o melhor. O corpo geralmente quentinho e a pele macia fazia de Connor o melhor travesseiro que Ian já teve. Não era atoa que sempre acabava cochilando em seu ombro, não importando o lugar que estivessem.
O moreno levantou-se da cama e lutou contra a preguiça até então tomar coragem de sair do quarto e caminhar até o seu. Ao abrir a porta se surpreendeu com a arrumação: tudo estava no lugar. Não parecia o mesmo de poucas horas atrás. A televisão, porém, ainda estava ligada. Ian viu Connor deitado na cama apenas com a toalha enrolada em sua cintura. O esfregão, vassoura e balde estavam no canto do quarto. Logo imaginou que Connor não resistiu e após o banho acabou dormindo tomado pelo cansaço.
“Coitado, nem se vestiu.” Pensou, após notar uma bermuda e cueca jogada na cabeceira da cama.
Ian caminhou até a TV e a desligou, logo em seguida foi até a cama e levantou o braço do namorado que estava caído, com delicadeza subiu na cama e foi até o lado próximo a parede. Diferente de todas as outras vezes, foi Ian quem puxou Connor e se fez um travesseiro. Connor parecia um bebê quando sentiu o aconchego do outro corpo e sorriu, embora ainda estivesse dormindo.
Connor remexeu mais algumas vezes e então acordou. Ao abrir os olhos viu as orbes verdes de Ian. Ao mesmo tempo em que mandava para longe a preguiça, abrindo os braços e pernas, sorria para o namorado que mantinha a seriedade anterior.
Connor apertou mais e mais o corpo do namorado até perceber que ele não se movia.
— Fala comigo, poxa. Não fica chateado. — Disse, a voz levemente fraca como consequência do sono.
— Oi, Connor... — Respondeu, logo suspirou.
— Que sem graça. Eu me esforcei para arrumar todo o quarto. — Logo o semblante mudou, entristecido.
Ian queria poder aquecer seu coração, mas era obrigado a manter a postura. Não podia sorrir, mesmo estando lutando para isso não acontecer.
— Não gosto de você irritado. — O maior falou, soltando o namorado.
Ian sentiu a falta daquele abraço em poucos segundos.
— Você poderia dizer se isso é justo comigo? — Ian perguntou, sentando-se na cama, encostando-se a parede e com as pernas cruzadas.
— Oi? — Connor ainda estava deitado, olhando para o namorado.
— Eu me mato de estudar e me esforço para te tornar uma pessoa mais responsável, perco horas do meu dia, apenas pensando em nosso futuro. O que eu ganho quando não obtenho resultado da sua parte?
— Isso é um término? — Os olhos de Connor imediatamente se encheram de lágrimas.
Ian sentiu o coração doer ao perceber aquilo, não era a intenção.
— Eu não sei se seria capaz de terminar com você, Connor. — Continuava sendo o mesmo intelectual de sempre. — E não, isso não é um término. Tudo que eu quero para você é o melhor. Eu não me importo com mais nada nesse mundo desde que passei a me relacionar contigo. Eu abriria mão da vida, caso possível. Mas enquanto vivendo, como pessoa, futuro juiz, preciso nos colocar em algum lugar.
— Não usa essas palavras difíceis, é complicado ter que raciocinar. — Connor disse, enxugando a única lágrima que escapou após o susto que tomou.
— O que eu estou querendo dizer é que eu te amo, Connor. Mas te amar não significa aceitar tudo o que você faz.
Connor ficou em silêncio. Levantou-se e foi até o centro do quarto. Ian ficou sem entender o porquê da ação do namorado, mas não ousou perguntar alguma coisa. Connor voltou a atenção para Ian, que permanecia olhando-o.
— Eu não sei se quero isso. Não me sinto bem, não gosto disso. Minha vida não é pra isso, no fundo eu não consigo ser igual a você. Você é focado em seu objetivo. Mas o meu objetivo não é isso que eu faço. Administração não é pra mim. — Connor deixou tudo bem confuso ao falar.
Ian também se levantou, caçou seus óculos e após colocá-lo em sua face, encarou melhor o namorado.
— Eu gosto da música. Gosto dos jogos. Gosto da vida, da aventura. Eu seria feliz sobrevivendo da música, Ian. E também seria feliz caso fizesse design de games. Mas por medo de decepcionar meus pais acabei parando aqui.
— Então faça. Faça aquilo que você mais gosta, aquilo que te faça se sentir bem. Faça e eu te darei todo o apoio do mundo. — Soou firme.
— Tenho medo de me arrepender. — Abaixou a cabeça.
— Você já está arrependido. Sei que o mercado de trabalho para um design de games é novo, mas não deixa de ser uma grande oportunidade. Mas quando você fizer o curso, faça focando em seu futuro. Faça sem medo.
Ian parou em frente ao namorado e tocou-lhe as mãos.
— Eu não quero você me odiando, Ian. Não quero você se decepcionando comigo. Você... Eu sou muito diferente de você. Sou um tremendo irresponsável. E-eu não consigo manter minha mente firme em uma só coisa, vivo com o pensamento longe e tenho noção disso. Eu sou um idiota por completo.
— Te odiar seria como um veneno, Connor. Aos poucos eu iria morrendo pelo sentimento ruim. Não importa o que você seja futuramente, eu só quero que você se torne responsável. Eu tenho um sonho de ter filhos contigo, Connor. E bem... — Ele soltou as mãos do namorado. — William, o urso, não iria gostar de ter um pai vagabundo, ou você acha que gostaria?
— Filhos comigo? — O bobalhão se assustou.
— Uma família, eu você e os vários Williams. — Ele sorriu e se sentou na cama. — Mas bem, você só conseguiria isso se focar no seu objetivo.
Ian era realmente inteligente, não importa onde: se nos estudos ou na vida. Por saber que Connor gostava dele o bastante, sabia que precisava de um incentivo para o namorado conseguir focar em seu objetivo.
— Você tá falando sério? — Perguntou, boquiaberto e surpreso.
— Por que não? A adoção é uma das coisas mais bonitas que existem. Já temos o Will, logo em seguida podemos ter algum animal...
— Um porco! — Connor disse, imediatamente, interrompendo o namorado. Pareceu se empolgar.
— Um porco? —Ian franziu o cenho.
—Um porco de estimação. Os pequenos são os melhores, aquele bichinho rosa de olhos pequenos e do nariz que parece uma tomada. Você nunca viu um?
— Claro que sim, mas por que um porco?
— Eles são fofinhos, Ian. Poxa! Você nunca viu um de perto, não é? Quando eu era mais novo, viajei pra fazenda dos meus tios e lá tinha um bem doentinho. Foi triste quando soube que ele morreu. Desde então eu quero um.
— Tudo bem... — As palavras ralentaram. — Depois do animal de estimação, podemos sim ter filhos. Dar a nossa educação. Você não sonha com isso?
— E então eu vou poder apresentar os melhores jogos! — Connor parecia um garoto de dez anos falando.
— Não antes de voltarem da escola e fizerem suas tarefas.
— Aposto que eles vão gostar mais de mim, tenho certeza disso.
Ian apenas sorriu e viu o namorado se aproximar. Connor provavelmente iria prolongar aquele assunto durante o resto da madrugada, ao que parecia ele ficou bastante empolgado com o que Ian estava dizendo.
— A partir da semana que vem resolvo minha situação, eu prometo. Terei que entrar em contato com meus pais e direi que trancarei a faculdade. Procurarei um curso de design de games e então tentarei me esforçar, focar no objetivo só para garantir meu porco. Mas enfim, você ainda está chateado comigo?
Ian então voltou a se levantar, ficando em frente ao namorado.
— Não mais, contanto que você realmente mostre que está querendo ser responsável. Eu sei que não é fácil, principalmente pra você que vive no mundo da lua. — Ian sorriu, tocando a ponta do nariz de Connor. —Também sei que você vive falando de mim para todos aqui na república quando não estou. E eu te amo, Connor. Amo você, seu bobão.
O velho formigamento no estomago fez com que Connor ficasse constrangido. Ian tocou a cintura do namorado e inclinou a cabeça. O maior, entendendo o recado, abaixou a sua e então selaram os lábios.
Delicado foi aquele beijo. Ian fechou seus olhos e entregou-se ao momento, sentindo a língua do maior explorar cada extremidade de sua boca. A mão de Connor tocou sua nuca e então encostou-se mais ao corpo do namorado.
— Me desculpe. — Connor disse, na breve pausa que tiveram, em seguida voltou aos beijos.
Ian pressionou a cintura do namorado e sentiu novamente a pressão que o lábio do outro fazia contra o seu. Connor parecia estar se animando com aquilo.
A toalha caiu.
Ian sentiu quando a toalha repousou em seus pés. O beijo foi interrompido. Ian olhou para baixo e viu Connor despido, completamente excitado. Duro. Olhou para cima e viu Connor coçar a cabeça, completamente sem graça.
Mas diferente do dia em que perdeu a virgindade, Connor apenas disse:
— A culpa é sua... Você me deixa assim. — E sorriu. Mas aquele sorriso bobo, totalmente constrangido. De uma criança que acaba de aprontar e tenta esconder dos pais. — E agora?
Ian sorriu. Dessa vez quem ficou constrangido foi ele.
Os beijos novamente tiveram início e Ian foi ousado o suficiente para por sua mão no membro ereto de Connor. Aquele único toque fez o corpo do maior tremer, algo excitante demais para suportar.
Connor até abriu os lábios e por cinco segundos o deixou assim, naquele suspiro duradouro.
Os beijos continuaram até que ambos acabaram em cima da cama. O corpo do maior sobre o do menor, que ainda estava com suas vestes. Mas isso não durou muito quando Ian se encarregou de retirar sua calça, cueca e calçados, ficando apenas com a camisa.
A madrugada? Foi banhada por sexo.
[...]
O sol ainda não tinha aparecido, estava escondido em algum lugar. Joshua estava de pé, em frente a sua janela, fumando. Mordeu o polegar e olhou para Megan que ainda estava dormindo. A garota vestia apenas sua camisa, parte de suas nádegas estava amostra. O ruivo caminhou até seu armário, onde retirou de lá uma touca marrom. No curto trajeto para o lugar que antes estava, acabou derrubando um copo vazio que por sorte não se quebrou.
— Puta que pariu. — Bradou.
Ele suspirou e em seguida bocejou. Não teve uma boa noite de sono, principalmente depois da discussão que tivera com Megan.
Joshua apanhou o copo e o colocou no lugar, em seguida voltou para a janela e repousou seu cotovelo ali. Em uma hora estaria realizando a atividade que seu curso oferecia, atividade essa que ele detestava. Sempre realizada duas vezes, quando se é calouro e depois veterano. Uma troca de experiência.
Quando calouro, Joshua fez dupla com um veterano abusado que ainda não conhecia a personalidade do ruivo. Resultado: Joshua derrubou o garoto de uma árvore, fraturando sua costela.
— Você tem mesmo que ir? —Megan indagou, a voz arrastada pelo sono.
— Se não for perderei esse período, que por sinal está uma merda. — Joshua tragou o cigarro. — E minha dupla, pra piorar, é aquele loirinho dessa república aí. — Apontou com a cabeça.
— Por quanto tempo?
— Um dia, Megan. Espero que se comporte.
Joshua era um cara ciumento. Megan odiava quando insistia em um erro do passado. Ele jamais esqueceria.
— Eu estava furiosa com você. Acabei sim beijando outro cara e teria feito coisa pior se você não tivesse aparecido. — Megan não perdia a oportunidade de rebater a medida, ela não temia aquele ruivo. — E você precisa controlar sua raiva, Josh. Qualquer dia você matará alguém.
— Teria matado se não me segurassem. Mas dois braços quebrados foram o suficiente.
Joshua tragou seu cigarro pela última vez e, após apagar, o lançou pela janela. Ajeitou a touca em sua cabeça e em saiu do quarto. Pegou suas duas mochilas que estavam na sala, uma colocou nas costas e a outra segurou em uma mão. Megan veio logo atrás, Noah fez uma piada referente a garota estar sem calcinha, o que foi bem notável.
Trocaram um longo beijo até que o ruivo finalmente saiu da república.
Ao passar pela porta, Joshua viu que Edgar também estava saindo no mesmo horário, também com duas mochilas e uma pequena mala. O ruivo o ignorou.
Joshua caminhou por cerca de cinco metros até ouvir alguém gemer atrás dele, um gemido de dor. Quando se virou, viu Edgar caído sobre as mochilas que carregava. Nesse momento o sol já estava dando seu sinal de vida, e a prova disso foi o raio de sol que repousou sobre a face do menor, que foi obrigado a comprimir seus olhos.
— Como eu sou idiota. — Edgar dizia para si mesmo, constrangido pelo que havia acontecido. Ele não olhava para Joshua, pois sabia que o ruivo não se importava com isso.
Edgar se levantou e mais uma vez tentou caminhar com as duas mochilas. Joshua permaneceu parado, apenas olhando aquela cena e, interiormente, rindo do quão fraco o loirinho era.
O ruivo olhou para os lados e vendo que ninguém observava, caminhou até Edgar e tomou-lhe uma mochila das mãos, deixando-o apenas com uma. Ainda sem falar nada, passou a caminhar, não se importando se o loirinho o seguia.
— Eu trouxe quase tudo o que precisamos. S-só não sei se vai caber nós dois dentro da barraca.
Joshua continuou sem dizer nada. Edgar queria apenas conversar, pobre coitado.
Edgar e Joshua não foram os primeiros a chegarem à universidade. Juntos caminharam até o auditório indicado onde mais da metade dos alunos já estavam lá. Agora, separados, sentaram em lugares distantes.
O loirinho sentou-se ao lado de Colton, que mantinha os olhos fixos em seu relógio, impacientes.
— Obrigado por me esperar. — Edgar disse, mostrando seu mal humor.
— Você demorou, não me culpe. E nada vai me deixar irritado hoje, estou feliz demais para que isso aconteça.
— Quem foi a vítima? — Edgar o encarou.
— Como?
— Você só fica assim quando faz mal a alguém, Colton. Eu te conheço.
— Não fiz vítima alguma. Só estou feliz, algum problema com minha felicidade?
Edgar engoliu todas as palavras que tinha. O conflito teve fim quando alguém tomou o microfone. Era um homem, o professor Barth, que odiava ser chamado de Bartholomew. O professor era baixo, mas forte na personalidade. Tanto é que era considerado um professor temido e que Joshua odiava muito.
Ele tossiu antes de iniciar a falar:
— Bom, como todos vocês já sabem, isso aqui não é uma colônia de férias. Vejo tantas malas que chego a acreditar que vocês vão para se divertir. Nada aqui é brincadeira, levem essa atividade a sério. Muitos — deu ênfase na palavra — aqui precisam dessa atividade para pelo menos fecharem nota.
Bartholomew parou de falar quando outra professora se aproximou, entregando-lhe algumas folhas de papel. Depois disso prosseguiu:
— Antes de começar a chamar os nomes das duplas, preciso passar algumas informações bem óbvias e necessárias. Como vocês sabem, estarão por um dia mata adentro. O lugar para onde irão é propriedade do governo, então eu imploro para que não causem algum dano. De qualquer forma, continua sendo uma mata. Os caminhos, geralmente, são sinalizados, mas ainda assim é perigoso para aqueles que resolvem passar dos limites da mata. — Barth fez uma pausa para por em ordem seus pensamentos — Tem alguém com celular aí? Se tem, levantem a mão. — Quase todos levantaram as mãos, Barth sorriu em alto e bom tom. — A única utilidade que ele vai ter é pra iluminação. Porque não há sinal lá.
Sussurros e gemidos, sinais de negação.
— O que vocês acham? Claro que não vai ter sinal. — Prosseguiu o professor. — Todos vocês trouxeram barraca, não trouxeram? Bom, eu já passei por isso e queria informar que dormir na mata não é nada agradável. Faz muito frio. Sim... Eu já passei por essa experiência, ela é rica em conhecimento. Vocês serão bioquímicos e a pesquisa é a base para a profissão de vocês.
— Nenhum professor vai participar da atividade? — Alguém perguntou. Edgar não sabia quem.
— Não podemos fazer isso. Chegou o momento em que vocês pesquisarão sem a nossa presença. Façam tudo... Recolham amostras, tirem fotos, descrevam... Vocês decidem o melhor. Porém, no dia seguinte, quando os ônibus forem buscá-los, quero que entreguem-nos um relatório sobre a pesquisa. Cada dupla terá que pesquisar sobre uma determinada planta, mas isso não significa que vocês devem focar apenas nela. Gosto de trabalhos bem feitos. E até onde sei, vocês já estudaram sobre algumas plantas. Se vocês realmente estudaram, vai ser mais fácil encontrá-la. Agora sem mais delongas, irei falar o nome das duplas. Cada dupla deve se direcionar para cada professor — os professores se aproximaram de Barth — daqui em diante tirem duvidas com ele enquanto estiverem na estrada.
Bartholomew colocou seus óculos e olhou para os papeis que segurava em suas mãos. O homem passou então a chamar dupla por dupla, um total de vinte pessoas para cada professor.
— Joshua McGraien e Edgar Stuart Tuner.
Mais uma vez, ao ouvirem o nome de Joshua, todos passaram a olhar para Edgar. Pobre garoto, que azarado. Era assim que muitos pensavam. Edgar caminhou, ainda com dificuldade por conta da mochila, até o professor que lhe aguardava. Todos pareciam olhar para ele. Joshua quem não se importava com isso, afinal, alguns ali relembraram do que ele foi capaz de fazer quando calouro.
— Espero que dessa vez você não faça nada de errado, senhor McGraien. — Bartholomew disse ao microfone.
Joshua fechou os olhos e suspirou, segurando-se para não chamar o professor de babaca.
Após a última dupla de aquele grupo ser chamada, eles caminharam até um outro ônibus que estava no estacionamento aberto da universidade. Joshua sentou-se no último banco, no fundo, enquanto Edgar sentou-se no primeiro, bem distante dele.
Foram exatamente três horas de viagem. Cada dupla tinha que descer em lugares diferentes, recebendo uma última informação do professor: Eles devem, no dia seguinte, esperarem exatamente no lugar que ficaram.
De repente, perceberam onde estavam... Pra onde foram os prédios? Casas? Lanchonetes? Nada disso poderia ser visto. Apenas a estrada poderia ser vista, que era exatamente o lugar que eles estavam. Joshua foi o primeiro a dar o primeiro passo e entrar mata adentro, Edgar o acompanhou, resmungando pelos arranhões que sofria de alguns galhos secos. Caminharam por cerca de três metros até acharem um lugar espaçoso o suficiente para armarem a barraca.
Edgar viu que logo atrás de Joshua uma trila se iniciava, ela era sinalizada por uma placa vermelha. Ao seu lado direito, uma rocha era coberta por diversas plantas, no lado esquerdo e atrás apenas árvores, flores e plantas.
— Você trouxe barraca, certo? — Joshua perguntou e Edgar assentiu — É grande?
— Acho que ela é média. Eu já dormi nela com outra pessoa. — O seu namorado, mas ele se limitou a falar.
— Essa pessoa tinha o mesmo tamanho que eu? — Edgar ficou pensativo. — Certo, então montaremos a minha e você dorme nela. Eu não irei perder tempo montando duas barracas, isso é chato pra caralho.
Joshua retirou uma mochila das costas. Ali dentro tinha apenas sua barraca, com capacidade para seis pessoas. Geralmente usada para os passeios dele, Megan, Noah e Luke.
O ruivo retirou de dentro o que precisava e separou peça por peça. Edgar ficou de braços cruzados, sem tomar coragem de falar alguma coisa. Já percebeu que Joshua não estava no seu melhor humor.
— Vai ficar só olhando? — Joshua indagou, sem olhá-lo. Estava ocupado demais tentando separar as peças.
Desperto, Edgar aproximou-se e tomou uma barra de metal nas mãos, olhou para Joshua e buscou nele alguma resposta para aquilo que segurava. O ruivo revirou os olhos.
— Certo, já vi que você não sabe de nada. Sinto que terei dificuldades. Acho melhor você recolher alguns galhos secos para montarmos uma fogueira e nos aquecer a noite. — Disse, ligando uma barra a outra.
— Você não quer comer primeiro? — Perguntou, cabisbaixo.
— Temos tempo pra isso? Já te falaram que o tempo dentro da mata passa rapidinho? Não vai demorar pra anoitecer.
— M-mas ainda é de manhã.
— Deixe só você esquecer das horas. — Mordeu o lábio, fazendo força para ligar outra barra.
Edgar preferiu encerrar o diálogo por ali e passou a procurar galhos secos ao redor, foi uma atividade fácil. Em dez minutos já tinha recolhido o bastante para uma fogueira para a primeira e última noite.
O loirinho sentou-se em cima das várias folhas secas que tinha ali e ficou observando Joshua montar a barraca. O ruivo estava tão centrado que quase uma hora se passou e ele não havia percebido até finalizar a barraca.
Joshua se desfez da camisa e touca, retirou da mochila uma garrafa com água e se satisfez logo em seguida. Edgar, mesmo sem pedir permissão, entrou na barraca com suas mochilas e quando ia se desfazer delas, Joshua chamou sua atenção, puxando-o pelo braço.
— O que pensa que está fazendo?
— Guardando as coisas.
— Você acha que temos tempo para isso? — Ele o encarou. — Os professores estão testando nossa capacidade de pesquisa. Não é atoa que bons pesquisadores passam por maus bocados em busca de uma resposta, não importando em que área atue. — O loirinho se encolhia mais em mais, sentindo a raiva do outro sobre si — Não temos tempo para permanecer aqui. Deixe as mochilas aí dentro e pegue apenas o necessário. Vamos começar agora mesmo a pesquisar essa maldita planta.
Dito isso, o ruivo apanhou uma mochila, envolveu a camisa em sua cintura e fizera o nó.
Edgar demorou a compreender o que Joshua tinha dito, ficou estático por cerca de um minuto até voltar pra dentro da barraca e retirar também sua mochila, de dentro pegou sua câmera fotográfica e a colocou no pescoço.
Edgar saiu da barraca e acompanhou o ruivo que entrou na primeira trilha que encontrou. O loirinho ia seguindo os passos do mais velho, que olhava para trás a cada minuto temendo perder o menor de vista. Edgar ia apenas retirando fotos de algumas plantas que julgou ser interessante e recolheu apenas a amostra de uma, desejando estudar sobre ela mais tarde.
— Sabe alguma coisa sobre a Rorela?
Rorela é o nome da planta que eles foram destinados a pesquisar sobre. Joshua já tinha ouvido esse nome, mas não conseguia recordar.
— Sei que ela serve como medicamento para algo.
— Sim, isso é óbvio. Mas com tantas plantas aqui, vai ser difícil encontrar. Se não percebeu, já andamos bastante e eu só estou focado em encontrar essa maldita planta.
— Pelo que recordo, elas costumam nascer próximos as montanhas.
— Tá falando sério? — Joshua parou bruscamente, o loirinho por pouco não tropeçou nele. — Por que não disse isso antes? Agora temos que voltar tudo, estamos indo no sentido oposto da montanha. Era só atravessar a estrada.
Edgar sentiu as pernas tremerem quando o ruivo passou por ele batendo pé. Sem dizer nada, acompanhou Joshua novamente, voltando pela trilha que tornou-se conhecida pela sinalização.
Edgar já estava cansado e se sentindo sufocado, deveria ter usado roupas mais leves. Trocou de roupas quando novamente chegaram à barraca. Sua mala tornou-se, de forma estranha, pesada, culpa do cansaço.
Juntos atravessaram a estrada e adentraram em outra trilha. Edgar novamente voltava a capturar muita coisa com sua câmera, inclusive as várias espécies de insetos. Recolheu mais duas amostras e fizera uma pausa, já cansado. Joshua resmungou, chamando-o de fraco e, tomando forças, o loirinho passou a caminhar.
Andaram sobre as águas cristalinas de um riacho e o ruivo fizera uma pausa para recolher água, o loirinho também recolheu. Duas horas se passaram desde que saíram pela primeira vez do lugar que armaram a barraca.
— Vem, vamos fazer uma pausa para comer aqui. — O ruivo sentou-se numa pequena rocha e colocou seus pés dentro da água.
Edgar concordou e também se sentou, encostando-se a árvore. Retirou da sua mochila uma garrafa térmica com bebida, um chá gelado que ele adorava — que agora, infelizmente, não estava tão gelado assim. Logo em seguida retirou um pacote de bolacha recheada, oferecendo para o ruivo que negou.
Joshua, diferente de Edgar, retirou da sua mochila um recipiente com dois pedaços de coxa de frango. O ruivo se deliciou da primeira coxa em uma velocidade incrível e se possível teria lambido os dedos. Edgar não retirou os olhos dele.
— O que foi? — Indagou, sentindo os olhos do outro sobre si. — Isso aqui me dará mais energia do que essas coisas aí que você come. Não quer? — Ofereceu a coxa que sobrou.
O loirinho sentiu o estômago realmente roncar ao perceber que a coxa estava aparentemente suculenta. Pusera o pacote de bolacha sobre a mochila e foi até o ruivo, tomando-lhe o pedaço do alimento. Deu uma única mordida e devolveu para Joshua.
— Pode comer, não se preocupa. Tem mais aqui dentro. Mas vai com calma, não quero ninguém passando mal.
Edgar voltou para o seu lugar, ignorando por completo as bolachas e se deliciando com o enorme pedaço de coxa de frango. Os dois terminaram juntos a refeição.
— Posso dar um mergulho? — O loirinho perguntou. — Isso se der tempo.
— Pode ir, sem problemas. Não está tão longe. Temos três horas para irmos até a montanha, recolher amostras e voltar para a barraca. Não é legal ficar na mata quando anoitece.
— Você já acampou alguma vez?
— Costumo fazer isso quando quero esquecer da correria que é a cidade. — Joshua caminhou até uma árvore e repousou seu corpo ali, descansado.
Edgar caminhou até as proximidades da água, considerando a região ótima para mergulho. Era possível enxergar as pedrinhas ao fundo de tão transparente que a água era.
Edgar retirou sua camisa e a dobrou, pondo-a sobre uma rocha maior, logo em seguida retirou suas botas e meias. A calça foi logo em seguida. Edgar poderia ser tímido, mas não viu problema algum em retirar sua cueca ali. Porém, não ousou olhar para trás.
Joshua não retirou os olhos do corpo despido do menor que estava de costas para ele.
Quando sentiu seu corpo arder, retirou os olhos da bunda do loiro e pendeu a cabeça para o lado, observando a trilha que iriam seguir. Estava se culpando pelo desejo carnal repentino.
Edgar colocou seu pé dentro do riacho e logo submergiu. A água estava gelada, mas ele pareceu não se importar com isso. O seu mergulho durou menos de dez minutos, Edgar emergiu e foi até as suas roupas e, ainda molhado, se vestiu.
O loirinho, passando as mãos pelos fios molhados, sentou-se há um metro de Joshua e ficou observando-o.
— Como é ser ruivo? —Ele perguntou.
Joshua olhou para ele, levantou uma sobrancelha e suspeitou da pergunta.
— Normal, oras.
— Você sabe... São uma raridade. Eu queria ser ruivo.
Joshua não deu continuidade ao assunto e Edgar percebeu que o ruivo não estava a fim de ter algum diálogo com ele. Ficou em silêncio, esperando o sinal do outro para que pudessem ir.
— Você é sempre assim? — Edgar se surpreendeu ao ouvir a pergunta.
— Assim como? — Respondeu de imediato.
— Fraco e medroso. — Curto e grosso.
— E como eu deveria ser? — O pequeno não se sentiu ofendido. — Mas devo confessar que tenho inveja dos meus companheiros de república, mas eu não consigo. Sempre vivi por trás dos maiores. Admiro a bravura do William e Sebastian, na época que o irmão do Caine ainda era líder, eu queria me espelhar nele. — Edgar então percebeu que Joshua revirou os olhos. — Perdão. Sei que você detesta todos eles.
— E eles me detestam... Principalmente depois do que fiz ao Danion. — Não se importou em falar. — Meu irmão se desfez de sonhos por causa daquele garoto. É por isso que você tem medo de mim, não é? Joshua, o garoto insano da universidade. — Fez uma piada com o próprio nome.
O silêncio do pequeno foi o suficiente para que ele percebesse que Edgar tinha medo.
— Você é como todos eles? — O ruivo perguntou.
— Em que sentido?
— Cara, vocês são moradores da república mais gay da Quadra. Você sabe que William virou notícia até hoje desde que resolveu assumir sua sexualidade para todos da Quadra. Não que fosse um problema, alguns já desconfiavam.
— Sou. — Foi firme ao responder, dando fim a piada que Joshua fez.
— É, isso eu também já sabia. Namora?
— Sim.
— É alguém da república? Você costuma andar com aquele garoto que o Luke é doido pra pegar e com o irmão do Sebastian. Quem dos dois é seu namorado?
— Nenhum! — Edgar respondeu rápido e assustado. — Eles são apenas meus amigos. Meu namorado não mora na Quadra. Vivo um relacionamento à distância. Eu sei que muita gente me critica por isso e mesmo não estando em uma boa fase de relacionamento, gosto do meu namorado.
— Hm. — Foi só o que disse antes de se levantar. — Vem, vamos.
Joshua recolheu sua mochila e lavou as mãos na água corrente e em seguida adentrou mata adentro. Edgar ia acompanhando sempre, não querendo se perder ali.
Edgar olhava para a musculatura delineada do ruivo e por isso acabava esquecendo-se de fotografar algumas outras plantas que, se tivesse visto, acharia interessante. Desviou os olhos daquele corpo quando Joshua olhou para trás.
Caminharam mais alguns minutos até que o ruivo sentiu uma gota d’água cair em seu ombro. Ele imediatamente parou e olhou para o céu, percebendo só agora que estava nublado.
— Isso não é bom... — Disse.
— O que tá acontecendo? — Edgar perguntou, assustado e olhando ao seu redor.
— Chuva. Temos que voltar, não podemos continuar aqui.
— Mas, mas... A montanha está logo a frente.
— Garoto, se você quer se perder aqui tudo bem, pode prosseguir, mas eu vou voltar pra barraca.
Joshua passou pelo loiro e seguiu caminho oposto ao que antes estava. Retirou sua camisa da cintura e a colocou dentro da mochila, planejando ter o que vestir caso fosse pego pela chuva. Edgar não tinha sequer justificativa para isso. Medroso e, tendo certeza disso, não poderia ficar sozinho naquele lugar. Mesmo com algumas sinalizações, ele seria capaz de se perder na mata.
Andaram por uns vinte minutos até que uma forte chuva desceu sobre eles. O ruivo acelerou seus passos e vendo que o loirinho não conseguia acompanhá-lo, tomou-lhe pela mão e juntos caminharam.
O ruivo perdeu noção do lugar quando viu que havia mais árvores do que o comum. Ele olhou ao redor e já não mais conhecia o lugar.
— Eu não me lembro de ter passado por aqui. — Pensou em voz alta. — Vem.
Ainda assim prosseguiu andando. A terra, às vezes, tornava-se escorregadia e por diversas vezes o loirinho segurava firme na mão do ruivo, tentando não cair. Joshua procurava não mostrar que estava preocupado, sempre buscando por caminhos que lhe mostrasse alguma saída ou que lhe levasse de volta a trilha.
— Estamos perdidos, não é? — Edgar indagou, sentindo gotas de água invadirem sua boca.
Seu corpo totalmente banhado pela chuva.
— Nós iremos sair daqui. —Não parava de caminhar.
Joshua mantinha os olhos fixos no caminho à frente. Ele sentia dificuldades tendo a visão prejudicava pela forte chuva que caía. Acelerou seus passos mais e mais e então, sentiu a mão do loirinho escapar da sua. Edgar escorregou e rolou por cerca de três metros até parar bruscamente em uma árvore.
— Não, não, não... —Joshua sentiu o coração bater mais forte, recordando-se do que aconteceu ao irmão.
Tomando todo cuidado para descer, ele chegou até o corpo sujo de Edgar que, felizmente, estava ciente do que tinha acontecido. O loirinho gemeu quando tentou se levantar e sentiu a perna direita doer.
A dor era absurdamente insuportável. Edgar estava chorando, embora suas lágrimas fossem confundidas com a água da chuva. Passou a mão em sua face, tentando retirar o máximo da lama suja. Olhou para sua câmera fotográfica e viu que ela já não estava mais em boas condições, a lente trincada e completamente molhada.
O pequeno Edgar agora estava assustado. Primeiro por estar perdido naquele lugar e segundo por estar impossibilitado de andar.
Joshua, sem dizer nada, retirou sua mochila das costas e abaixou-se logo a frente do loirinho que imediatamente subiu. O ruivo era obrigado a ter que manter a calma, mesmo também estando assustado.
Aos poucos o céu ia perdendo a cor viva, dando espaço a escuridão.
— Temos que sair daqui, rápido. — O ruivo disse, procurando alguma direção. Sabia que logo iria se encontrar exausto, vendo que levava um garoto nas costas e não podia se desfazer da sua mochila.
— Me desculpe. — O loirinho disse, enquanto ia sendo carregado pelo ruivo.
Joshua não tinha escutado aquilo. O ruivo queria apenas procurar um abrigo para que pelo menos pudesse passar a noite, sabendo que já não tinham mais chances de voltar ao lugar onde a barraca estava.
O ruivo sentia que estava girando em círculos. Tinha uma árvore que era difícil de ser confundida, principalmente pelas várias marcas que a mesma tinha, castigada por algum homem. A chuva ficando cada vez mais forte. O céu gritava. Os sons de trovões apavoravam o pequeno Edgar, que mesmo tendo a idade que tinha, era uma eterna criança com medo do mundo.
Josh sentiu quando Edgar o abraçou mais forte assim que o céu demonstrou mais da sua fúria. Sentiu vontade de protegê-lo. O loirinho não abriu os olhos sequer um segundo.
O riacho por qual passaram foi visto pelo ruivo, que sentiu uma leve esperança de conseguir voltar a trila. Joshua optou por seguir o caminho que o riacho fazia, as águas violentas eram visíveis e ele agradeceu por isso.
Não conseguiu ver algum sinal da trila, mas persistia em caminhar e encontrar alguma saída. Joshua viu uma cabana velha e provavelmente abandonada. Mesmo que alguém estivesse ali, pediria ajuda. Atravessou o lago, temendo ser levado pela força da água, e quando chegou na residência, bateu a porta, a mesma se abriu sem sua permissão.
Joshua adentrou a cabana, repousou o corpo de Edgar na parede, buscou em sua mochila a lanterna e assim que encontrou, iluminou parte do lugar, avaliando-o. Estava completamente vazia, sem nenhum sinal de vida, apenas um balcão e um armário feito da mesma madeira já velha que fora construída. Algumas rangiam quando ele pisava. No canto a água invadia a cabana devido à madeira que faltava no teto, mas ali onde estavam, sentiram-se acolhido e protegido da forte chuva.
— Estamos perdidos, não é? — Edgar indagou, muxoxo. Ele tocava a perna machucada, retirando a bota e levantando um pouco a calça. Joshua pusera a luz da lanterna sobre a região. Aparentemente estava bem, mas só Edgar tinha noção do quão dolorida ela estava.
— Amanhã pela manhã sairemos daqui. — Disse, sentando e revirando sua mochila. Suas roupas ficaram na outra mochila. Tudo o que tinha no momento eram fósforos, lanternas, produtos de higiene pessoal, a camisa e seu alimento. — Teremos que passar a noite dependendo dessa lanterna e o que eu tenho aqui na mochila. Agora vem cá e deixa eu te ajudar a retirar essa roupa antes que você pegue um resfriado.
Joshua novamente se levantou e foi até o loirinho, que sozinho retirou sua camisa. Apoiou-se nos ombros do ruivo e ficou de pé, o ruivo tocou-lhe a cintura quando Edgar desabotoou a calça e a retirou, jogando as roupas ao lado. Ele ficou apenas de cueca.
Novamente sentado no chão, Edgar se encolheu. O queixo entre os joelhos e os braços abraçando as pernas.
Joshua já estava sem camisa, retirou apenas sua calça e também ficou de cueca, novamente revirando a bolsa.
— Mais azar do que se perder na mata e ir parar em uma cabana é o fato de você não poder sequer fazer uma fogueira temendo por fogo nisso aqui. — Tentou fazer alguma piada para controlar o medo do menor.
— Sinto frio. — Edgar falou, aleatoriamente. A voz saiu abafada, já que seu rosto afogou-se nos próprios joelhos.
— Vai passar.
Eles sabiam que não. O frio de uma noite na mata castigava qualquer ser humano.
O ruivo retirou a camisa da sua mochila e a jogou para Edgar que antes de fazer qualquer indagação foi pego pelo cheiro forte que a mesma exalava. O tecido era extremamente confortável e ele por várias vezes pressionou entre seus dedos.
— E você? — Edgar indagou.
Joshua desligou a lanterna e se sentou.
— Eu suporto.
[...]
Danion estava na cozinha quando Colin chegou. O branquelo não perdia a oportunidade de fazer alguma piada e como sempre ser estapeado pelo mais irritado dos leoninos. Geralmente Caine estava com Colin, mas há uns dias isso não estava acontecendo.
— Caine saiu com aquele garoto novamente? — Indagou.
— Algum problema? — Colin parou e o encarou, em seguida voltou a se movimentar. — Não vai demorar até declararem que estão namorando. Caine está ensinando ao Santiago o que é ser gay, literalmente.
Danion balançou a cabeça negativamente.
— Está com ciúmes, donzela? — Clara sorria, provocando.
— Eu? — Por pouco não cuspiu. — Vai se foder, Clara.
— Ainda bem, porque hoje mesmo eu vou invadir o quarto daquele bonitinho e lhe roubar um beijo. Já que eu fui chifrada, tenho mais é que viver.
— Você é uma sapatão do caralho, deveria se aventurar na faculdade. Aqui só tem garoto.
— Eu sou bissexual, tem uma pequena diferença. — Ela sentou-se à mesa.
—Bissexual? Tu ia casar com uma garota. — Gale revirou os olhos. — Não adianta, Clara.
— Ela gosta de por a língua em outro lugar, isso sim... — O branquelo sempre pegava pesado.
— É, eu gostaria. E você poderia estar com a língua em um lugar melhor, que seria a boca daquele garotinho. — Revidou. — Mas agora ele provavelmente tá aos beijos em algum corredor escuro ou sabe-se lá onde ele tá colocando a boca... — Ela sorriu maliciosamente.
— Vocês podem respeitar o Caine? Eu ainda estou aqui, caralho. — Colin fuzilou todos.
Nesse mesmo momento o pequeno aparece na soleira da porta com Santiago atrás dele. Santiago tinha o boné ao contrário, uma camisa branca e calças jeans. Caine vestia uma camiseta verde, bermuda, um casaco envolvido na cintura e tênis.
Danion não conseguiu evitar e olhou para Santiago dos pés a cabeça até pausar seus olhos nos de Caine, mas isso não durou cinco segundos, ele voltou a olhar para seu alimento.
— Desistiu de sair, Caine? — Colin perguntou.
— Acho que vai chover a noite toda, prefiro ficar em casa.
Leonard tinha acabado de chegar da universidade e também apareceu na cozinha, onde a maioria estava reunida.
Ele olhou para Santiago e novamente sentiu o desconforto que sentira ao pintá-lo. Desde aquele dia eles não se falaram mais. Santiago viu o resultado da pintura por apenas alguns segundos, não resistindo olhar por muito tempo, estava constrangido demais para se avaliar nu.
Leo somente sorriu para o Tigre e se aproximou de Danion.
— Eu vou para o quarto com o Santiago. — Caine disse.
Colin não ficou satisfeito ao ouvir aquilo. Tinha planos de ir para o quarto, porém, preferindo respeitar a privacidade de Caine, apenas sorriu e o viu dar as costas. Santiago o seguiu.
Caine estava realmente decidido a esquecer de Danion, isso estava realmente acontecendo. Não. Não que pudesse manter longe seus pensamentos do dia para a noite, claro que tinha lembranças dos beijos e toques, mas o tempo o faria esquecer-se das coisas que aconteceram. Sentir saudades era a mesma coisa que sentir repulsa.
Santiago estava sendo extremamente carinhoso com ele. E aos poucos ia cedendo a sua sexualidade, mesmo não estando preparado para o mundo. Por alguns eram conhecidos como bons amigos. Por ser reservado demais e não ter amigos, o moreno não tinha ninguém para conversar sobre o que estava acontecendo. Até o momento, nenhuma piada fora feita em relação a aproximação dele e Caine.
O desconforto que Danion sentiu foi algo notável. Ele se levantou e foi até a geladeira, não encontrando nada, resmungou e se sentou.
— Me desculpa, donzela, mas você perdeu e tem noção disso. — Clara tinha dito, não sendo tão sapeca como era.
— É questão de tempo para o Caine te esquecer, Danion. — Colin comentou, não perdendo a oportunidade. Esse sim esperava por esse momento. — Você o fez sofrer demais.
— Não entendo o porquê de estarem me falando isso. Não estou preocupado com nada. Nunca gostei do Caine e nunca seria capaz de amá-lo. Não deveria me julgar por isso.
Leo foi o único a não dizer nada, estava com a cabeça fixa no prato vazio a frente... Pensando em Santiago.
— Se você diz... — Clara agora sorriu. Era uma tremenda filha da puta.
— Melhor assim. Mas há quem um dia tome seu coração, Dan. Não foi o Caine, mas futuramente irei conhecer seu namorado.— Colin, amigo, disse na tranquilidade. — Vou procurar o William, ele quer conversar comigo.
— A namorada dele sou eu! — Clara se levantou, sentando-se nas pernas do branquelo.
Todos na cozinha não falaram mais nada, de repente o clima tinha esfriado entre todos eles. Colin saiu, deixando os demais ali.
— Dan, seu aniversário tá chegando. — Leonard comentou, tentando mudar drasticamente o assunto.
— Odeio esse dia. — Ele disse, voltando a mastigar. Empurrou a loira que o insultou.
— Mas eu estou aqui e você irá ter o melhor aniversário da sua vida. Eu, gostosa, sairei de dentro de um bolo. Eu vou ser o destaque.
— Cai no mesmo dia que o baile da universidade. — O branquelo comentou, nada feliz.
— Baile? — Clara pareceu se interessar.
— É um baile temático que acontece a cada dois anos para comemorar o aniversário da universidade. Por que dois anos? — Leonard explicava — Porque o diretor da universidade gosta de economizar.
— E qual o tema dessa vez? — A loira perguntou.
— Baile de máscaras. O pessoal do meu curso vai ajudar nas decorações. O que acontece sempre, já é costume. Os próprios alunos também vão ajudar em certas despesas, não sei se já passaram na sua sala pedindo colaboração.
— Gente, onde vende máscaras?! Eu quero ir para isso. Imagina só a quantidade de pessoas que eu vou beijar.
— Você vai acabar pegando alguma doença, maldita. — Danion revirou os olhos.
— Se você quiser, eu posso fazer uma pra você. Não vejo problema algum. Eu já fiz para mim uma linda, depois te mostro fotos.
— Eu vou pro meu quarto. — Danion se levantou, impaciente.
O branquelo saiu. Clara e Leonard já começaram a entender o que estava acontecendo com o branquelo. E isso, logo mais, seria visível para todos.
— Por que ele não gosta do aniversário? —Gale perguntou, curioso.
— Vamos mudar esse assunto. Ele costuma ficar assim quando o dia do seu aniversário se aproxima. — Leo encerrou o assunto. Clara e ele trocaram alguns olhares, eles já suspeitavam.
“O aniversário e Caine, hein, Danion... Que azar você está tendo, amigo.” Leonard pensou.
[...]
William estava o seu quarto. Há três dias não havia dormido ali. A residência exigia muito dele e, por diversas vezes, preferia dormir em locais próximos ao hospital. Tentava fazer com que Octavio atendesse ao celular, mas isso não acontecia. Se pudesse contar, teria mais de cinquenta ligações feitas.
— Will? — Colin chamou ao entrar no quarto.
O loiro o abraçou no momento em que o pequeno entrou no quarto, assustando-o. Colin já se sentia um grão de ervilha perto do Will, vendo que seu corpo quase preenchido pelo corpo do outro.
— Eu deveria te bater por não aparecer nesses três dias. — Colin se afastou. — Você acha mesmo legal fazer isso com a gente? Eu sinto sua falta todos os dias.
— Sente? — William franziu o cenho.
Recebeu uma tapa no braço, leve. Mas William agiu como se fosse a maior dor do mundo ao contorcer o rosto.
— Como pode agir assim? — Colin deu de costas e se sentou na cama. — Conte-me o que aconteceu.
William então fechou os olhos e suspirou. Puxou a cadeira da mesa de estudos e se sentou.
— Octavio e eu estamos brigados. Ele não atende minhas ligações e eu não sei onde ele se meteu.
— Há quanto tempo isso?
— Tento ligar desde ontem para ele. O pior é que ele tem razão por estar agindo assim. Eu fui babaca demais.
Colin cruzou as pernas e relaxou os ombros, depositando o peso do corpo sobre as mãos apoiadas na cama. Parecia estar avaliando o William e sua história.
— O que você fez de tão idiota a ponto de irritá-lo dessa maneira? Porque todo mundo e a Quadra sabe que Octavio é extremamente e perdidamente apaixonado por você.
— E-eu... Ai! Eu estava de saco cheio, atolado de coisas para fazer, lidando com pessoas diferentes a todo tempo. Estresse momentâneo e acabei descontando nele.
— Fala logo o que você fez! —Colin queria ir direto ao ponto.
— Bom, no final do trabalho eu fui beber.
— Beber? — Colin se remexeu na cama. — Mas você odeia isso, William! Fumar e beber não são do seu feitio. Pelo amor de Deus, me diz que você não tá indo pro lado negro da força? Quem são suas novas amizades? — Colin se levantou. — Vamos, vamos, preciso conhecer seus novos amigos e dizer umas verdades.
— Calma, Colin. Eu fui beber sozinho. É que lá no hospital, tem um homem que vive dando em cima do Octavio. O Octavio sabe disso, o que me irrita profundamente. Eu estava próximo do horário de ir embora quando passei no corredor e encontrei Octavio e o carinha conversando.
— Ciúmes? Isso é aceitável, Will.
O loiro suspirou.
— Passei e ignorei Octavio. Não era necessária sequer alguma explicação, ele sabia que eu estava irritado. Como disse, fui pro bar e bebi. É, bebi. —Disse, arrependido. — Foi até irresponsabilidade da minha parte, imagina se algum parente de algum paciente do hospital aparece lá? —Fez uma pausa. — Octavio foi me procurar e bem... Eu só disse uma única frase. — William se colocou de pé e se jogou na cama. — Eu mandei ele ir foder com o tal carinha do hospital.
Colin o olhou, analisando-o. William mantinha o rosto afogado na cama.
— Como exatamente você pronunciou essa frase? — Perguntou com calma.
— Vai lá ficar de quatro pro Louis.
O pequeno balançou a cabeça negativamente e lançou um travesseiro contra as costas do loiro, forte o suficiente para fazer com que ele voltasse a se sentar.
— Você conhecendo bem seu namorado saberia que ele iria ficar bastante ofendido com essa simples frase. Eu, por exemplo, iria quebrar todos os copos daquele bar na sua cabeça, além de te dizer poucas e boas. — Repreendia o amigo. — O que o Octavio fez?
— Ah, Colin. Eu estava cheio e irritado, o dia foi exaustivo. — William tentava parecer estar irritado, mas não conseguia. Parecia um cachorrinho que latia e não mordia. — Ele apenas me olhou, assustado, logo abaixou a cabeça e saiu. Eu me lembro do olhar que ele me mandou... Como eu me arrependo.
— Octavio te ama demais para simplesmente desaparecer assim. Talvez ele também não queira mandar você ir se foder ou foder com outro alguém e está esperando a raiva passar.
— Não. Pelo que conheço do meu namorado ele deve estar chorando em algum lugar. Não estou preparado para um término. Não depois de tudo o que passamos.
— Relaxa, Will. Octavio pode estar magoado, mas não é burro e nem infantil demais para acabar com um relacionamento por isso. Mas se tu mandar ele foder com alguém numa próximo vez, até eu rompo a amizade contigo.
O pequeno estava intimidando-o. Ele o encarou por um tempo e depois sorriu, jogando-se nas pernas do loiro.
— Eu durmo hoje aqui com você. Não se preocupa. — Colin tentou confortar Will.
— Eu vou querer que você durma. Pelo menos assim não vou me sentir sozinho.
— Queria poder ir ao meu quarto, mas Caine e Santiago estão lá. Pelo visto vou ter que ficar com essa roupa, que saco. Estou odiando ter que dividir o Caine com outra pessoa.
— Santiago? —William sentiu curiosidade.
Colin sorriu de lado.
— Você anda perdendo algumas novidades, William. Mas não, por favor, não conta pra ninguém. — William permanecia atento em cada palavra, elaborando alguma teoria sobre o que estava acontecendo. — Santiago aos poucos está saindo do armário, a famosa fase da aceitação. Ele não tá completamente preparado para isso, mas Caine vem transformando aquele ogro numa boa pessoa.
— Santiago... O Santiago é gay? — Parecia ser a maior novidade do mundo.
— Bem, ele beijou o Caine... E só eu sei disso.
O loiro levou sua mão a boca e considerou aquilo a maior novidade do mundo. Pensou em ligar para Octavio e então lembrou do que aconteceu.
— Vou passar a dormir mais aqui na república e ficar por dentro dos assuntos. Mas isso não significa que voltarei a ser amigo do Santiago.
— Bem, isso vai virar assunto para o resto da noite. Agora vem, vamos pra cozinhar comer alguma coisa. Você aproveita e ensina o Danion a ser líder. Ele deveria expulsar o Colton dessa república. — O pequeno colocou-se de pé.
— Ai, ai... Vocês dois. — William também ficou de pé, procurando algum calçado no chão.
— Vai! Fica do lado dele também. Todos contra o Colin! Todos! — Dramatizou.
William apenas sorriu. Juntos saíram do quarto.
[...]
Edgar não estava bem e disso ele estava ciente. Embora estivesse fazendo frio, o que estava sentindo era anormal. Em alguns momentos sentia arrepios, sua cabeça dava indícios de que logo mais iria doer. O pequeno encolheu-se ainda mais no canto da parede e abraçou forte a camisa do outro.
— Ei, garoto, não quer comer? — Joshua indagou, Edgar levantou a cabeça e o viu através do feixe de luz.
Edgar negou e em seguida abaixou a cabeça.
— Você tá bem? — O ruivo perguntou.
— E-estou.
Seus dentes chocavam-se um no outro. Se levasse em consideração o horário que comeu, enquanto ainda caminhava na mata, deveria estar sentindo fome. Mas agora, nesse momento, lhe faltava apetite.
Joshua também não mais insistiu. Comeu sozinho e em seguida apagou a lanterna. A chuva já não estava tão mais violenta quanto antes. Era obrigado a ouvir o som da chuva caindo e em alguns momentos leves gemidos do pequeno.
O ruivo se levantou e acendeu sua lanterna, iluminando mais uma vez boa parte da barraca. Foi até o armário e o vasculhou. Potes de vidros vazios, algumas folhas mortas e uma mariposa, que voou logo em seguida. O ruivo tomou um susto grande e por pouco não gritou, apenas tropeçou, mas não caiu.
Na última prateleira ele encontrou algo que poderia ajudá-lo naquele momento. Era um pedaço de pano velho, semelhante a um cobertor. Era grosso e ligeiramente maltratado, mas ainda assim de grande utilidade.
— Acabei encontrando algo para você dormir. — Disse o ruivo.
Ele pusera a lanterna sobre o balcão e em seguida estendeu todo o pano procurando retirar o máximo de poeira. Depois de o bater no ar várias vezes, estendeu o pano no chão e dobrou ao meio, deixando-o mais confortável. O ruivo pegou a lanterna e iluminou o loirinho, que sentiu seus olhos queimarem devido à iluminação. Ele imediatamente fechou os olhos.
— Você dorme e eu fico de vigia. — Disse o ruivo.
— E-eu já estou com sua c-camisa. Não p-precisa. Estou bem. — Gaguejava por conta do frio.
— Anda, garoto. Você está cansado e, pelo que descobri hoje, é sua primeira vez na mata. Olha sua cara... Está morrendo de medo. — Exaltou-se.
Joshua foi rude o suficiente para dar uma ordem. Edgar sentiu a cabeça doer até com o que ouviu, o ruivo tinha falado em um tom alto. De repente, ouviu-se um som de trovão, distante. O loirinho por pouco não saltou pelo susto que tomou.
Edgar estava tão apavorado. Primeiro por estar perdido na mata, sem saber se amanhã poderia conseguir ajuda. Estava machucado, impossibilitado de andar e, com certeza, dando trabalho ao ruivo. Agora sentia-se estranho, mal, sem fome e com muito frio. Trovões não lhe traziam boas recordações. Edgar não resistiu, chorou.
— Você está chorando? — O ruivo indagou ao novamente iluminar e ver a luz refletir nas lágrimas que caiam. — Cara, você está chorando? — Reforçou a pergunta.
— E-eu tô com medo. — A voz manhosa.
— Com medo? Você só deveria ter medo de mim e nada mais. São os trovões que te assustam?
Assentiu.
— Os trovões e o fato de estarmos perdidos.
— Oh, Deus... Eu sinto que estou cuidado de um bebê. — Joshua passou a mão na testa. Edgar ainda era uma criança que precisava de cuidados. Dois paralelos em uma cabana. Enquanto Joshua aprendeu a se virar sozinho, Edgar sempre viveu sobre os cuidados alheios. — Vem, eu te ajudo a se deitar.
O ruivo caminhou até o pequeno e quando lhe tocou notou o corpo quente do garoto. Sem dizer nada tocou-lhe a testa e o pescoço. Engoliu em seco.
— Você está febril. — Disse, sem saber o que fazer. — Os remédios que eu trouxe ficaram na outra mochila, que droga.
— E se eu morrer? — Edgar indagou, mais choroso ainda.
— Você não vai morrer, garoto. Só está febril. Talvez por tudo o que aconteceu até agora e o fato de estar assustado só piorar ainda mais. Agora vem cá. — Joshua ajoelhou-se, pôs um braço abaixo das coxas de Edgar e outro em suas costas, ergueu o pequeno no ar e deu dois passos até se aproximar do pano que estava no chão. — Deixa eu te colocar aqui, você precisa apenas descansar. — Deitou Edgar, rasgou parte do pano que sobrou e colocou sobre sua mochila úmida, fazendo-a de travesseiro para o pequeno.
— O-obrigado. — O pequeno agradeceu a tamanha gentileza do ruivo.
Joshua apenas suspirou e se sentou bem ao lado do pequeno, novamente verificando sua temperatura. Encostou-se a parede e repousou os braços em seus joelhos, as pernas levemente abertas.
Edgar permaneceu no seu lugar, sem mover um dedo. A perna havia sido acomodada para que não sentisse desconforto. O loirinho fechou os olhos e esperava com que o sono chegasse.
Agradeceu mentalmente a presença do ruivo ali. E se não fosse Joshua? E se fosse outro parceiro? Isso tudo teria acontecido?
— Você não é mal, Joshua. — Edgar tinha dito.
— A febre tá fazendo você pirar. Vai dormir, garoto! —Ordenou.
— Ninguém nunca cuidou tão bem de mim como você está fazendo agora. —Persistia.
— Seu namorado, ele deve cuidar. — Novamente suspirou, achando aquele assunto idiota demais. Certamente Edgar estava delirando.
— É, meu namorado... —O pequeno encerrou o assunto, as palavras perdendo forças.
A chuva mais uma vez tornou-se violenta e novos trovões ecoavam pelo ar. O frio ainda castigava e, dessa vez, Joshua passou a sentir o desconforto.
Joshua acendeu a lanterna e iluminou de relance o corpo do pequeno, os olhos fechados, finalmente. Quando menos esperava, Edgar havia adormecido. O sono finalmente havia o abraçado, pondo fim ao sofrimento do pequeno que, se ainda acordado, estaria com mais medo dos trovões.
Deveria dormir, era isso que precisava. Apagou a lanterna e fechou seus olhos. Um gemido chamou-lhe a atenção. Ele novamente acendeu a lanterna e focou no loirinho. Edgar tremia, as pálpebras também.
Joshua não conseguiu explicar a absurda vontade de abraçá-lo. Não conseguiu compreender o porquê de querer protegê-lo daquele frio, daquele mundo. Foi algo de repente. Como se fosse um pai protegendo o filho de qualquer mal. Como se Edgar fosse um animal abandonado que dormia em sua porta. Não era possível. Ele jamais poderia sentir essa vontade. Noah e Megan eram os dois únicos capazes disso. Um terceiro não poderia entrar na lista. Principalmente quando este era um garoto chorão e medroso, que vivia pelos cantos da universidade sendo motivo de piadas.
“O que você fez, garoto?” Pensou antes de tomar a atitude de se deitar no pano, puxar Edgar para si e o envolver completamente com seu corpo. “Eu não deveria estar fazendo isso.” Joshua simplesmente não conseguiu controlar. Ele simplesmente perdeu o controle de suas ações. Precisava aquecer o pequeno.
Aos poucos, Edgar, mesmo que dormindo, sentiu-se acolhido naquele corpo que o aquecia. E, Joshua sabia que o loirinho também estava aquecendo-o. E naquela troca de temperaturas, tentando se proteger do frio, eles acabaram dormindo. O ruivo culpando-se pela atitude e Edgar sorrindo como um bebê que tinha um sonho bom.
A natureza em parceria com o destino.
[...]
Quando Edgar acordou não se viu mais dentro da cabana. Os olhos penetrantes de Colton estavam sobre si. Ele recordou que o lugar que estava era completamente de madeira e, agora, encontrava-se dentro de um carro em movimento. Tentou erguer a cabeça e descobrir quem dirigia, mas não conseguiu.
— Onde estou? — Ele perguntou para Colton.
Seu corpo estava repousado nas pernas do amigo. Tentou se levantar e então sentiu a dor em sua perna. Quase gritou, era absurdamente insuportável.
— Não está quebrada. — Colton disse, sorrindo. — Deu sorte, hein.
— O que está acontecendo, Colton?
— Estamos indo para o hospital, Edgar. Você não se lembra do que aconteceu?
— Até antes de dormir...
— E, mesmo depois de todas as informações passadas, esses garotos sempre fazem as coisas erradas. — Era a voz de Barth. O loirinho ainda não conseguia vê-lo no banco de motorista.
— A responsabilidade é inteiramente da organização da atividade. Se Edgar está machucado cabe a vocês cuidarem disso. — Colton falou.
— Nós não prevíamos a chuva. É uma atividade segura quando todos entendem as regras.
— Que seja. Eu odeio a mata, definitivamente. Não vivo sem a doce e maravilhosa tecnologia. — Sorriu ao recordar das provas que tinha em seu celular.
— Onde estão os outros? —Edgar perguntou.
— O Joshua, você quer saber? — Colton perguntou e o loirinho assentiu. — Já está a caminho da Quadra, eu acho.
— Alguém me explica o que aconteceu? — Dessa vez exigiu.
— Aconteceu que vocês dois, irresponsáveis, se perderam na mata. Tá que choveu, mas se continuassem seguindo a trilha e sinalizações, estariam seguros. Nós acionamos uma equipe de buscas no momento em que descobrimos que chovia. Você e Joshua foram os únicos que não encontraram e, durante a madrugada, te procuravam. Te acharam no início da manhã. Joshua ouviu quando chamavam por seus nomes e é isso.
Colton apenas confirmou a história para o loirinho que o olhava duvidando do que Barth falava. Tudo ainda era muito vago e ele precisava de mais perguntas. Sua mente estava focada em outra coisa: Certo ruivo causador de intrigas, malvado por natureza e, mesmo negando, bonito.
— Pare aqui. — Colton pediu e Barth obedeceu.
— Para onde vai? — Edgar perguntou.
— Minhas coisas estão no ônibus, irei pegá-las assim que voltar para Quadra. No momento preciso resolver um problema.
— E vai me deixar sozinho?
— Por favor, Edgar, você apenas machucou a perna. O nosso queridíssimo professor irá acompanhá-lo até o hospital. Eu sei que te encontrarei na república.
— Colton, você sabe que vai haver uma reunião com todos os alunos, não sabe?
— Iria ocorrer hoje se Edgar não estivesse machucado. Que agora, no momento, virou notícias. Fico rindo das pessoas que estão culpando o Joshua. O que não duvido.
— A culpa não é dele. — Procurou defender o ruivo.
— Joshua é um garoto problema, Edgar. Mais tarde conversaremos sobre isso. —Barth tinha dito.
Colton desceu do carro e acenou para Barth, que recusou o aceno. Mesmo sendo professor daquele garoto, sabia que ele não era uma boa peça. E, fora da universidade, não tinha direito sobre ele.
Os problemas do acontecido seriam resolvidos no dia seguinte. Edgar agora era prioridade da universidade e, cuidar do pequeno, era a primeira coisa a se fazer.
[...]
Tantas pessoas passavam por ali. Carros de várias cores e tamanho, mas nenhum deles era o de Sean. Colin estava ali há horas, sentado na praça próxima a residência do moreno. A mesma em que eles trocaram beijos sem se preocuparem com os olhares alheios. O sol, à frente, estava indo embora. A cor laranja se misturava com o azul marinho e mais tarde se tornaria lúgubre. O pequeno admirava a beleza proporcionada pela natureza.
Colin apenas queria conversar com Sean. Entender o que estava acontecido. Há três dias tinha notado uma mudança repentina no comportamento do moreno que não mais atendia suas ligações ou respondia suas mensagens.
A cada cinco minutos Colin olhava para trás. Finalmente avistou o carro do moreno se aproximar da casa e estacionar. Rapidamente se levantou e caminhou, tentando não ser tão notável assim.
Sean de dentro do carro conseguiu avistá-lo. O coração mergulhou em um balde de gelo. Aquele não era um bom momento para que o pequeno aparecesse.
— Faça o que deve fazer. — Colton disse.
Colton também estava naquele carro. Abusando do segredo, ele agora quem dava as ordens para Sean. E o moreno, coitado, nada poderia fazer. Era obrigado a ser motorista, levando-o para um restaurante e assim alimentá-lo.
— Não precisa ser hoje. — Falava enquanto via Colin se aproximar do carro.
— Apenas faça. — Ordenou.
Sean engoliu em seco e saiu do carro. Os vidros enegrecidos impediam com que Colton fosse visto por Colin.
Sean nunca fora de se sentir daquela maneira: com medo. As pernas tremiam.
Colin finalmente parou em sua frente. Dessa vez o pequeno não o olhava com irritação, como todas às vezes. Sem nenhuma provocação ou piada a ser feita. Colin, ao contrário desses dias, tinha um olhar interrogativo e, no fundo, triste.
— Nenhum oi? — O pequeno perguntou. Teria que adotar a postura de garoto irritadiço.
— Oi.
— Nossa, Sean. — Queria estapeá-lo, mas ainda tinha que manter o controle. Sean estava estranho demais.
Colin encostou-se no carro e ficou em silêncio. Pareciam duas crianças que quando brigam, ocupam o mesmo espaço, desejando com que o outro fale algo e assim reconciliem a amizade.
Sean permanecia parado. Ele colocou a mão em seu bolso da calça e em seguida olhou para o relógio. Colin, como de costume, tinha que sempre dar continuidade ao diálogo caso quisesse arrancar palavras do moreno.
— Eu senti sua falta, sabia? —O pequeno disse, constrangido.
Colin levou seus olhos a face de Sean, mas o moreno não esboçara nenhum sorriso. Ele apenas retraiu seus lábios e em seguida suspirou.
— Tudo bem. Você odeia expor sentimentos. Eu também. — Colin até sorriu, tentando sair daquela tensão que se instalou.
— Ei, anã britânica.
Colin tomou um susto ao ouvir aquela voz. O leonino olhou para trás e acabou vendo Colton saindo do carro. O seu maior rival não sorria, mas o ar de superioridade era notável. Colin olhou para Sean e em seguida para Colton que, agora, estava sorrindo.
Colton deu a volta no carro e ficou ao lado de Sean, olhou para o moreno, tomou-lhe as chaves do bolso e deu as costas, pronto para entrar em casa. Colin, boquiaberto e sem reação, sentiu seu interior fervilhar. O leonino deu alguns passos, pronto para bater em Colton, mas Sean o segurou pela cintura.
— Não, Colin. — Sean pediu.
Colton não olhou para trás, embora estivesse com o sorriso vitorioso estampado em sua face.
Colin não conseguia pronuncia uma palavra. Estava tão perplexo que só conseguiu permanecer olhando para Colton até que esse entrasse na casa, o olhasse pela janela e em seguida desaparecesse.
— As câmeras! Onde estão? — Colin olhava ao redor. — Vamos Sean, me diz que isso é uma pegadinha. — Parou e olhou para o moreno.
O moreno suspirou. Colton acabou piorando ainda mais a situação ao aparecer ali. Sean se viu sem saídas e, não querendo aceitar, acreditou que aquela foi a melhor das opções a se fazer. Voltar atrás por que se contra fatos não há argumentos?
— Nós não podemos mais...
— Nós não podemos nos encontrar? —Colin completou.
— Colin, só não podemos mais viver aquela relação oculta que tínhamos. — Sean tentava se manter firme. O coração não poderia amolecer diante daquele olhar, mesmo que furioso.
O pequeno já não tinha mais controle das suas ações. Foi tomado por uma raiva que nem mesmo ele entendia. O coração sangrava.
Avançou e tentou estapear o moreno. Mas quem era o pequeno perto daquele cuja força física era maior? Embora Sean estivesse sentindo um pouco de dificuldades para conseguir controla-lo.
Sean olhava sempre ao redor, temendo que alguém saísse de suas residências. Isso breve aconteceria, já que os gritos de Colin chamariam a atenção de qualquer um.
— Eu te odeio, Sean! — Bradou. — Te odeio, te odeio, te odeio e te odeio!
— Colin, parou! — O moreno ordenou, exaltando-se. Tinha que ser frio.
Colin continuou a se rebater por mais alguns minutos até que foi tomado pelo cansaço e seu corpo cedeu, colocando-se de joelhos. Colin levou suas mãos ao rosto e sentiu as várias lágrimas que desciam sem cessar. Colin chorava.
Os soluços eram audíveis para qualquer um próximo do pequeno. E, naquele momento, apenas Sean estava ouvindo aquilo.
Sean estava de pé. Queria poder ajoelhar e abraçá-lo. O acolher. Porém, o medo era maior do que quaisquer sentimentos pelo pequeno. Sean, no fundo, era um covarde e, diante do que estava vendo, admitiu.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Mas por quê?! — Ele retirou as mãos da face. Os olhos tomados pelas lágrimas. Parecia estar suplicando uma explicação.
Sean não foi forte o suficiente para suportar a dor no peito que sentiu ao ouvir a voz chorosa de Colin. Novamente contraiu seus lábios e olhou para o céu, procurando palavras e forças para aquele momento.
— Tudo por causa dele, Sean? — Colin indagou. — Poxa, e-estava tudo... Estava tudo tão bem entre nós dois.
— Não é por causa dele, Colin. Nós dois... Eu e você. O problema está nisso.
— E o que nós tínhamos?
— Você melhor do que ninguém sabe essa resposta. Nossa relação era marcada por conflitos, tapas e beijos.
— Que droga, Sean! — O pequeno tomou forças para se levantar. — Diz que você não está fazendo isso comigo.
— Colin, vá pra casa... — O moreno tentava ao máximo fazer com que aquilo fosse rápido.
— Qualquer pessoa, menos o Colton. Por favor, diz que é mentira. — Colin soluçou mais uma vez. Queria abraçar Sean e buscar refúgio, mas com o coração partido, resistia o máximo as palavras que ouvia.
E, mesmo com Colin falando que estava sendo trocado pelo Colton, Sean não admitia isso. Sempre procurando palavras para fugir dessa afirmação. Não queria pronunciar tais palavras. E jamais iria admitir.
— Já disse que o problema está em nós dois, Colin.
— Sean eu fiz tanta coisa pelo nosso bem e você me diz que o problema está em nós dois? Tá que... — Soluçou. — Eu sei que sou uma pessoa de temperamento difícil. Mas eu fui capaz de me perder contigo naquela cama —olhou para a casa — e fui capaz de mentir para amigos. Mentiras! Eu menti, Sean.
— Eu sou o vilão. O vilão costuma magoar as pessoas.
— Para, Sean! — Colin enxugou as lágrimas. Tentou tocar as mãos do moreno, mas este as afastou. — Colton não.
— Quer que eu te deixe em casa? — Sempre não admitindo.
“O que eu estou fazendo?” Colin pensou.
Toda armadura deve ser rompida algum dia. E a do Colin acabara de ser não apenas rompida, mas despedaçada em milhares de pedaços. Como um pássaro que toma no peito uma bala pelo maldito caçador. Como um boneco de vidro quando se quebra, sem reparos. Foi exatamente assim que Colin se sentiu.
Ele abaixou a cabeça e voltou a enxugar as lágrimas que continuava a cair. Quando levantou e mostrou sua face mais uma vez, adotou uma nova postura. Mais determinado, mais sério. Não poderia mais chorar. Sean não merecia as lágrimas.
— É pra te esquecer, não é? — Indagou.
“Não me esqueça.” A alma do moreno gritou. Ele ficou em silêncio.
— Sean, me diga apenas isso.
— Colin, você não deveria estar...
— Apenas me diga. — Interrompeu. —Me diga as palavras corretas. As palavras que eu preciso ouvir.
“Desculpe-me.” Sean pensou, fechou os olhos e abriu:
— Me esqueça. — Disse, sentido a voz falhar.
Quando as cortinas do teatro se fecham, dá uma sensação de vazio, apesar do dever cumprido. O que aconteceu com Colin foi semelhante. O seu show era por trás das cortinas. Um holofote acendeu-se sobre ele e tudo ao redor era apenas negro, vazio. Sem nenhuma voz, plateia.
Então veio as lembranças dos vários dias que passou ao lado do moreno. Alguns jamais esquecidos, como a sua primeira vez e o dia em que Sean admitiu estar com medo de sentir algo. Outros que deveriam virar piada, como o surto que teve com a atendente da loja de tintas. Momentos.
— Colin... — Sean disse.
— Não precisa falar mais nada. Eu não vou só te esquecer... Eu vou te odiar por todos os dias da minha vida.
O ódio? O ódio era o melhor amigo do amor. E, no caso desses dois garotos, quando alguém diz que vai odiar, é porque um dia já amou. E amou com todas as forças que poderia ter, amou com o coração, com alma.
Colin? Sim, o seu amor era maior que sua estrutura física, o seu tamanho. O leonino já amava o moreno e ao dizer que iria o odiar, acabou se declarando sem perceber.
Retirou seu relógio do pulso e o entregou para o moreno, quando Sean não pegou, o leonino apenas o deixou no chão. Colin abaixou a cabeça, deu meia volta e caminhou. Caminhou sem direção, sem rumo. Sem saber para onde iria ou onde pararia. Era a primeira vez que sentia aquilo. Tão intenso. Uma dor que nenhum remédio sararia. Que consolo não existira. Que abraços não teriam resultados. Que amigos, mesmo que os melhores, não conseguiriam amenizar.
Colin teria que ser forte dali por diante.
Sean? O moreno abaixou e apanhou o relógio. Olhou para Colin que cada vez estava mais distante e em seguida desapareceu entre as várias casas. O moreno caminhou até seu carro e repousou os braços sobre ele.
Quando via seu pai sempre sorrindo para William, Sean não chorava. Quando tomou uma surra do loiro e viu todos contra ele, não chorou. Quando Octavio rompeu a amizade, o moreno não derramou uma lágrima. Quando abriu mão de um sonho ao trancar a faculdade, o moreno não chorou. Quando descobriu que seu pai era outro e sua mãe mentiu por anos, não existiram lágrimas. Mas agora, vendo que magoou profundamente Colin, o único garoto que era capaz de suportar os seus defeitos, que não o enxergava como vilão, que cuidou dele quando machucado, que o fez sorrir como ninguém... Sean chorou.
Aquela lágrima que desceu de seus olhos e repousou em seus lábios? Bem, era a lágrima de quem novamente estava amando. Sean já amava Colin.
Quem disse que Tigres não choram?
[início do flashback]
Colton tinha na face o melhor e maior sorriso do mundo. A coroa de rei, mesmo que imaginária, estava ali, em sua cabeça, enquanto o troféu estava em suas pernas. Não havia duvidas de que ele estava pondo em ordem o seu reinado e, começando, mexeu em duas peças do quebra cabeças, inclusive, um deles era o rei: Sean. Mas esse já perdeu o cargo que tinha.
Suzana, Sean e o homem de nada falaram.
— Pensando bem, não acho que seja uma boa ideia conversarmos dentro desse carro. Vocês podem muito bem me sequestrar, não é? — Zombou. — Sinto faltas do seu quarto, Sean. Podemos ir até lá. — Colton se afastou do carro e caminhou até a porta da república dos Tigres.
Sean olhou para a mãe e não conseguia falar nada. Sentia-se sujo e ao mesmo tempo enganado. Suzana sentia-se da mesma forma. Mentiras encobertas. Confiança? Não existia entre aqueles dois.
Sean entrou em sua república e gritou expulsando todos aqueles que estavam presente. O seu ódio estava sendo tão nítido que ninguém se opôs a sua ordem e imediatamente saíram da república, uns até queriam ir contra, mas quando viram Suzana ali, pensaram duas vezes: Seriam expulsos.
— Não quero ninguém em meu quarto, podemos conversar aqui. — O moreno disse, ainda de pé no centro da sala. Jamais iria abaixar a cabeça para Colton.
— Mesmo com os muros derrubados, você nunca se rende, não é, Sean? — Colton indagou, virando-se para encarar o moreno. Em seguida se sentou.
— Garoto, deve estar havendo algum engano... — Suzana tentou falar.
— Engano? — Colton interrompeu. —Porra, hein, você quer mesmo que eu prove que esse homem é o verdadeiro pai do Sean? Eu não trabalho sem provas. Na geração que eu vivo, celular serve para tudo. E há gravações nítidas de uma conversa sua que gravei.
— Isso não significa nada... — Tentava, mas não adiantava.
— Não há porque mentir. — Sean então disse, encarando a mãe. — Você está entregando o jogo cada vez mais.
Colton sorriu, adorando aquele clima pesado entre mãe e filho.
— Você é gay e não está negando. — Suzana também o confrontou, mostrando seu repúdio.
— Podem calar a boca?! — Ordenou o menor. — Eu ainda não terminei de falar.
Colton agora estava sério. Adotou a postura de um verdadeiro rei, estrategista a nível máximo.
— Vocês podem resolver essa discussão familiar depois que eu ir embora, realmente não me importo. — Continuou — Apenas dependo dessas verdades para conseguir o que eu quero e — Colton sorriu maliciosamente e mexeu os dedos com frequência — vocês podem me ajudar com isso.
— E se eu não quiser? — Sean perguntou, não temendo o pior.
— Bom, vamos lá, se você não quiser, todos irão saber que você é bastardo e que viveu por anos uma mentira, que você não é o verdadeiro líder da república, já que a liderança dessa república é passada para os verdadeiros Ferazzas, se bem que se levarmos em consideração a separação de seus pais, você não merece da mesma forma. — Sean fechou o punho, queria socar Colton. — Além de ter sua sexualidade exposta na quadra e eu conheço o preconceito ainda existente no mundo. Você não iria suportar, até porque eu te conheço muito bem. A propósito, vivíamos a transar escondido e você jurava para os outros que era hétero.
Suzana olhava incrédula, não acreditava que Sean foi capaz de se deitar com aquele garoto.
— Eu suspeitei àquele dia. — Ela comentou, lembrando-se do dia em que viu Colton no quarto de Sean.
— Só uma cega não seria capaz de suspeitar. Você é burra demais para isso, tanto é que deixou escapar uma informação preciosa e olha quem está aqui usando isso contra você? — Colton não tinha medo. — Continuando: Sei que você iria odiar ter sua vida acabada dessa maneira, você é orgulhoso e adora estar no topo. É uma escolha sua aceitar minha proposta...
— E qual seria?
— Você não iria fazer isso com ele. — Finalmente o homem abriu a boca.
— Joe? — Suzana virou para olhar o homem.
— Eu estou apenas calado e sendo obrigado a ouvir o que esse garotinho está falando. Não podemos apenas dar dinheiro a ele? Porque está óbvio que é isso que ele quer.
Joe era um homem alto. Os cabelos encaracolados cobriam metade das orelhas, a barba um pouco grande deixava-o mais sério do que já era. Ele tinha os olhos pretos como os do Sean, e isso era uma semelhança entre os dois. Vestia paletó, deixando claro que ele era um homem de negócios.
Sean sentiu certo repúdio ao ter ouvido aquilo.
— Você fala? —Colton ironizou. — Seria muito fácil me comprar com dinheiro.
— Vocês estão falando de mim como se eu fosse algo negociável. — Sean tinha a voz pesada.
— Isso não teria acontecido se você não fosse gay. — Suzana não perdia a oportunidade de agredir o filho com palavras, mesmo que ainda não estivesse tendo a oportunidade de falar tudo o que quer. — Não é dinheiro que você quer? — Ela perguntou para Colton.
— Talvez, quem sabe futuramente.
— Você não irá fazer mal a ele. —Joe, mesmo sendo recente na vida de Sean, estava tentando defendê-lo.
— Não irei? Claro que não irei. Sean é forte demais para se sentir tão abalado assim. Eu não quero fazer mal a ele, jamais. — Colton parecia querer brincar com todos os três ali dentro.
— Diz o que você quer, Colton. — O moreno foi direto ao assunto.
Colton esfregou as mãos e sorriu. Olhou para os três ali que mantinham os olhos fixos sobre ele. Como adorava o gostinho da vitória. Nada poderia pará-lo naquele momento. Absolutamente nada derrubaria o novo rei da Quadra Nove.
— São duas coisas. A primeira delas é que eu quero ser líder dessa república.
A princípio era uma proposta fraca, assim os três consideraram. Mas só Sean sabia o peso de ser o líder daquela república, mantendo-a com o status de sempre. A república dos Tigres na mão de Colton seria um verdadeiro caos.
— A primeira? — Suzana perguntou.
— Depois conversaremos sobre a segunda parte. No momento é isso que quero colocar em pauta com vocês. Quero a liderança disso aqui e, o melhor, quero que todos saibam que você, Suzana — encarou a mulher —, me passe a liderança. Não me importa se Sean saia daqui ou não. Apenas quero controla-la. Decidir quem entra e quem sai. A república dos Tigres já perdeu sua verdadeira essência há bastante tempo. Hoje é só uma república qualquer.
— Muitos ainda desejam pertencer a ela. — Sean defendeu a sua república.
— E se descobrirem que o líder é gay vai se tornar piada como a república que faço parte. — Não perdeu a oportunidade. — O seu quarto seria meu, Sean. O melhor quarto da casa. E ah, quero que Harry torne-se um Tigre. Sei que Caleb é um novo Tigre e não tenho nada contra ele. Até pensarei em deixá-lo aqui, os outros... Bem, irei pensar.
Joe olhou para Sean e notou o grande valor sentimental que ele tinha pela república. Joe não era um péssimo homem, afinal de contas. Mesmo estando bem atrasado na vida do moreno.
— Escolha qualquer república, eu te compro. — Ofereceu o homem.
— Eu quero essa república! Tá difícil de entender? Nada melhor do que liderar a república dos Tigres. A que tem a melhor estrutura física, a mais qualificada, apesar dos seus pesares.
— Eu te faço líder dela. — Suzana encerrou. — É isso que você quer? Ótimo! Você irá tomar conta dela.
— Sério?! — Fingiu surpresa. — Vou entrar para a história como o primeiro líder que não tem Ferazza no nome. Magnífico! Achei fácil demais.
Sean não conseguiu falar nada depois daquilo. Encarou Suzana e a mesma retribuiu o olhar. A qualquer hora do dia eles teriam uma longa conversa.
— O que mais você quer, Colton? — Sean indagou, retirando a atenção da mãe.
— Bem, essa é a melhor parte.
— Diz logo. — O moreno estava encarando-o.
— Quero você longe do Colin.
— Você só pode tá brincando. — Subitamente as palavras fluíram por seus lábios.
Colton até se assustou com o que ouviu. Sean pareceu estar preocupado demais com aquilo e sentiu uma pontada de ciúmes.
— Pareço estar brincado? — Colton o encarou. — Não suporto aquele garoto e o fato de saber que vocês se relacionam me dá náuseas. A propósito, Suzana — Colton olhou para ela — você poderia conversar com Sean sobre isso. Que mal gosto ele tem pra beijar aquela anã britânica.
— Qualquer boca é melhor que a sua. — Sean cuspiu as palavras.
Colton iria fazer uma piada referente aos orais que fazia em Sean, mas optou por não fazer.
— Enfim, Sean, vamos direto ao assunto. Você vai fazer o que eu digo?
— Você só pode estar morrendo de ciúmes do Colin. Odeia, assim como ele, todas as comparações que fazem a respeito de vocês dois.
Colton fingiu sorrir daquilo. Odiou a provocação do moreno.
— Se você ousar fazer alguma piada mais uma vez eu juro que agora mesmo envio essas fotos para todos da Quadra. — O sorriso se desfez. O silêncio tomou conta do lugar.
Sean engoliu em seco. Suzana encarou seu filho. Joe repousou seus olhos no moreno, porém, diferente dos outros, ele tinha um olhar entristecido. Compreendendo a dor do filho.
— Ele vai fazer isso. — Suzana quis encerrar o diálogo.
— Você não manda em mim. —Sean disse.
— Eu mando! E mandarei até o último dia da sua vida.
— Cala a boca! —Sean bradou. Estava agora furioso. — Você me tirou um sonho e agora quer decidir com quem eu devo me relacionar?
— Calados! — Colton também bradou, Sean e Suzana ficaram em silêncio. — Não é ela quem está decidindo. Sou eu, Sean.
Sean não conseguiu olhar para Colton. Seus olhos pairavam por pontos vazios daquele cômodo.
— Vamos, Sean. Nós dois sabemos que você nunca foi o mocinho da história. Você é o maior vilão que a Quadra já teve. Nasceu para quebrar corações, derrubar todos aqueles que se opõe contra você. E nisso nós somos inteiramente iguais. — Então?
“O maior vilão da Quadra Nove.” A frase ecoou em sua cabeça. Todos pareciam esperar por uma resposta.
No fundo o moreno sabia que o medo de ter sua vida descoberta era maior que qualquer coisa.
— Isso é uma covardia. — Joe tinha dito.
Suzana olhou para Joe. As várias indagações tomou conta da mente da mulher. Porém ele não pareceu se importar com aquele olhar.
Sean deu um primeiro passo e caminhou até o primeiro degrau da escada.
— Só isso e mais nada. — Ele disse, subindo as escadas e desaparecendo.
[final do flashback]
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