Notas iniciais
A queda dos leões.

Caine estava deitado, impaciente. Os braços jogados para os lados, as pernas repousadas no travesseiro e o olhar fixo na parede. Tudo o que queria era sair do quarto e ir visitar Danion. Não tinha notícias do branquelo desde o acontecimento. Sabia que ele estava bem. Mas se o proibiam de vê-lo, certamente não estava tudo tão bem. Não era tão ingênuo pra acreditar em tudo que diziam. Até sua janela estava a cadeado. Desde que parou de tomar os remédios sugeridos por William, só queria sair dali. Entendia a preocupação do seu irmão, mas, de qualquer forma, estava começando a se sentir pior do que se estivesse fora da república.

Ainda tinha alguns machucados em seu corpo, mas aquilo não o incomodava.

Sua porta foi aberta e tudo que viu foi Sebastian aparecer. Estava um pouco chateado com o irmão.

— Trouxe alguém pra conversar com você.

— Na verdade, eu quem apareci aqui. — Santiago disse.

— Tanto faz. — O ruivo deu as costas, trancando a porta do quarto.

Santiago ficou parado enquanto a porta era fechada. Caine permanecia deitado. Quem olhasse Caine daquela posição, poderia sentir toda a sua dor. Estava tão abatido.

— Posso? — Educado, perguntou se poderia se aproximar.

Caine aceitou. Santiago deu apenas alguns passos até se sentar ao seu lado. Não sabia o que falar, mas acreditava que sua presença, de alguma forma, era agradável para o pequeno. Se estivesse naquele estado, acreditaria precisar de alguém.

Santiago repousou suas mãos na cama e ficou em silêncio apenas tentando procurar uma frase que iniciasse o diálogo. Era horrível a sensação de não ter nada pra falar e confortar.

De repente, sentiu o dedo de Caine tocar a sua mão. Gesto bonito da parte do pequeno.

— Não me deixam sair daqui. Não me dizem nada sobre o Danion. — O pequeno quem deu início ao diálogo, e Santiago agradeceu mentalmente por isso.

— Ele está bem.

— É só isso que dizem. É uma informação muito vaga. De qualquer forma, entendo sua preocupação. Não querem que eu fique pior do que já estou. — Caine permanecia tocando os seus dedos.

— Você o ama muito, não é? — Santiago perguntou.

Caine o observou. O pequeno respirou fundo, abatido. Resolveu se sentar ao lado de Santiago, ambos olhando fixamente para a porta do quarto.

— Se eu disser que não, estaria mentindo. Mas estou aprendendo a esquecer. Não é fácil.

Santiago entendia, mas não iria comentar.

— Danion não é tudo isso que dizem. Sebastian acha que ele vivia batendo em mim, mas isso só aconteceu uma vez. E foi porque eu sem querer o derrubei ao tropeçar, ele não estava no melhor dos dias e agiu por impulso.

— Mas ele ainda assim te bateu. Sebastian certamente tem razão. Você sabe muito bem como ele é irresponsável. Vive se metendo em confusões. Quando eu era leonino, Danion vivia a nos meter em confusão com os Tigres.

— Você bateu no Colton e advinha por quê? Por impulso. Embora tenha tido uma boa razão para isso. E não irei discordar de você, sei que você tem razão. — Caine jogou seu corpo para o lado, repousando em Santiago. — Mas acredito que William e eu somos os únicos a procurar uma qualidade em Danion, sabemos que ele tem.

— Todos nós temos qualidades, umas expostas e outras escondidas.

— Estou há dois dias sem saber o que acontece lá fora. Colin não veio me visitar.

— Nada de diferente aconteceu, tudo permanece da mesma forma. Só vivem comentando sobre você e Danion e como a história de vocês renderia um filme de romance. Não vi seu amigo na universidade hoje pela manhã. E meu líder, nem se fala, não apareceu na república desde ontem.

Caine logo captou o recado. Colin e Sean provavelmente estariam juntos. Caine ficou um pouco triste com a notícia. Preferia o amigo ali com ele.

— E você, Santiago, como está?

— Bem.

— Conseguiu refletir desde aquele dia?

— Não é fácil. Ainda não é fácil. Não estou pronto para o mundo. Não quero conversar sobre isso.

Lydia abre a porta do quarto. A morena, educada e gentil, entra com um sorriso no rosto. Agindo como mãe do pequeno, segura uma bandeja nas mãos, com suco e sanduíche. Ela pôs a comida em cima da mesa.

— Eu mesma quem fiz. Só demorei porque Sebastian disse que tinha mais alguém com você, daí tive que fazer outro.

— E-eu não estou com fome. — Santiago não queria ser tratado gentilmente. Estava acostumado com os olhares estranhos perante ele. Lydia estava sendo simpática demais.

— Santiago, eu te conheço desde o primeiro dia que colocou os pés nessa Quadra. Não precisa ficar assim. Não sou como os garotos.

A garota sorriu e imediatamente saiu do quarto. Caine apenas bebeu do suco, enquanto Santiago resolveu provar do sanduíche. A garota tinha razão, não havia mais porque viver de máscaras.

“E se ela souber da verdade?”

— Você disse algo a ela?

— Não costumo expor os segredos dos outros, Santiago. Lydia só está tratando-o da mesma forma que trata todos os meus amigos. E assim como eu, ela conseguiu ver que você não é apenas aquele garoto sério e de poucas palavras.

Santiago ficou calado, mastigando em silêncio. Caine, após beber o suco, se deitou na cama.

[...]

Já na cozinha, quando Lydia voltou, Sebastian estava sentado e sério. Provavelmente não gostando de deixar seu irmão no quarto com aquele garoto.

— Quanto mais humorado você fica, mais seu irmão se diverte.

— Com um ex-drogado e traficante?

— Sabemos bem a justificativa dele.

— Como posso ter a certeza de que aquele garoto largou as drogas? Não confio em ninguém, Lydia. William, você e Caine são os únicos a quem deposito confiança.

A morena puxou uma cadeira e se sentou ao lado do ruivo.

— Você um dia vai ter que acostumar com a ideia de que Caine cresceu. Seu irmão é gay e acho linda a sua atitude de não tratá-lo diferente. Por essas duas fases você já passou, certo?

— Ainda não me adaptei à primeira fase.

— Mas já está começando a se adaptar. E vai ter que se adaptar a terceira fase, que provavelmente vai ser a mais difícil pra você.

— Santiago? — Sebastian a olhou, perplexo.

Ele iria se levantar e ir ao quarto. Lydia o segurou pelo braço.

— Será que você não percebeu?

— Não pode ser.

— Acho que Caine conseguiu descobrir algo. E se você não deu chance para o Danion, deveria começar a dar pro Santiago.

— Porra, por que sempre alguém complicado?

Lydia sorriu.

— Por que será? Tive o mesmo pensamento quando comecei a gostar de você.

Ela disse, selando os lábios aos do namorado. Sebastian aceitou o beijo, embora ainda estivesse irritado.

— William está esperando-o na porta. — Colton apareceu, quebrando o clima amoroso do casal.

— Ele literalmente é de casa, por que não o mandou entrar?

— Por que o senhor líder me deu ordens para não deixar ninguém entrar. Esqueceu? O seu irmãozinho está sobre uma proteção rígida.

— Não me estressa, garoto. — Sebastian se levantou irritado, passando por Colton que estava parado.

Colton sorriu. Adorava deixar Sebastian naquele estado, aquilo o excitava.

Lydia se levantou.

— Há alguns dias eu venho percebendo, Colton.

— O quê? — Atuou.

— Meu namorado gosta disso. — A garota mostrou seu corpo. — Se você pensa que um dia vai conseguir algo com ele, vá desistindo. Até porque existem dois motivos para isso: ele é hétero, e ele me tem.

— Mas Lydia...

— Não precisa justificar. Consigo ler em seus olhos. E se você permanecer assim, vai morrer sozinho. Sem nenhum garoto que queira te comer.

Ela foi baixa. Mas não se arrependeu.

— Já comecei a perder a paciência com você e cansei de tentar ser sua amiga. Soube que você plantou discórdia entre Caine e Sebastian, mas infelizmente teve a sorte de não me ver presente. Eu sou mulher, mas posso facilmente agir como homem e quebrar essa sua cara. Recado dado.

A morena saiu da sala.

[...]

Aquela tarde foi passando rápido para Caine, principalmente por Santiago estar ali. O pequeno já não suportava mais o tédio e a república. Conversou sobre tudo e soube mais do maior, inclusive da irmã mais nova e da sua fase difícil enquanto esteve na Quadra.

Santiago conseguiu retirar 90% do pensamento de tristeza do pequeno, fazendo-o sorrir diversas vezes.

Eles jogavam um jogo de cartas quando Sebastian apareceu de repente. Como era de se esperar, sua expressão não era das melhores.

— Está ocupado?

Caine negou.

— Tome um banho. Você pode ver Danion.

Aquela foi a melhor notícia que já teve no dia. O pequeno não sorriu e não esboçou reação alguma, apenas ficou parado. Deveria ter se arrependido de ter pedido tanto para ver Danion. Deveria? Na verdade se arrependeu. Não estava pronto.

— O que houve? — Santiago perguntou.

— Não sei se quero sair daqui...

— Como? —Sebastian agora quem perguntou.

Caine se levantou, foi pra cama, deitou-se de bruços.

Tanto Sebastian como Santiago tiveram a mesma reação. Se levantaram e foram ao lado do pequeno. Mais uma batalha pra travar.

[...]

Era previsto que Colin chegaria em sua república ainda pela manhã, em um horário próximo ao do almoço, pelo menos. Mas já se passava das cinco da tarde quando ele finalmente estava próximo da Quadra. O carro estava revirado, o moreno dirigia sem camisa e escutava a rádio. Colin estava focado no doce que comia, já tendo saudades de Aroma.

— Eu fico aqui. —O menor disse, já observando a pouca movimentação do lugar.

— Aproveitando que tá pouco movimentado, poderíamos repetir...

Sean parou. Colin adorava socar aquele braço, já deveria começar a ficar musculoso. Se sentia como se estivesse fazendo exercícios físicos.

— Isso dói, porra!

— E vai doer mais ainda se você não parar de ser babaca.

— Você me atacou no carro e eu não falei caralho algum.

— Cala a boca! — Ordenou, sério. Fungou.

— Saco...

Colin retirou a mochila do banco traseiro e abriu a porta, pronto pra sair. Mas Sean era persistente e extremamente irritante. Segurou o braço do menor que o olhou, suspeitando do que ele queria.

— Eu viajo com você e é assim que me agradece?

— Já mandei você ir pro inferno hoje?

Sean sorriu, provocador.

Colin então se aproximou.

Tomou os lábios do moreno, dando-lhe um beijo de despedida. Sean, safado, apertou fortemente aqueles glúteos, fazendo o pequeno suspirar, interromper o beijo e o olhar incrédulo.

— Nunca mais faça isso!

Ele sorriu.

Colin o insultou de tudo o que não presta, saindo do carro e por último, mostrou-lhe o dedo do meio antes de fechar a porta. Sean buzinou enquanto o pequeno se afastava mais e mais.

O moreno permaneceu com o carro ali por mais alguns minutos até tomar coragem de voltar à sua república. Abriu a janela do carro e realmente notou a grande diferença que o ar dali tinha. Aroma tinha o cheiro do Colin.

Deu partida, finalmente entrando na Quadra.

Tudo que o moreno queria era tomar um banho, comer e descansar. Um bom descanso, por sinal. Dormir horas e horas sem se preocupar com o amanhã. Mas Sean não era assim, conseguia dormir apenas seis horas por dia, não importando o horário. Mas há dias em que ele parece hibernar por tão cansado que fica.

Suas vontades por uma noite tranquila foram por água abaixo quando viu parado, em frente à sua república, o carro que sua mãe costumava usar pra sair. O motorista permanecia parado, ao lado da porta, como se fosse um segurança. Sinal de que ela acabara de chegar, já que se ela fosse demorar, pediria para que ele fosse buscá-la mais tarde.

O moreno desceu do carro ainda sem camisa, não se preocupando com nada, nem com as prováveis perguntas que sua mãe faria.

Adentrou a república e a mulher estava sentada no sofá, parada e em silêncio. Mas a expressão autoritária causava medo a todos os tigres. Um deles até ofereceu uma bebida, como água ou chá, mas Suzana rejeitou.

Sean deu sinal para que todos saíssem dali.

— O que faz aqui? — Sean perguntou, educado. Embora Suzana notasse a arrogância escondida ali.

— Te visitando, como costumo fazer sempre.

— Podemos subir.

O moreno nem esperou uma autorização, apenas subiu as escadas. Suzana veio logo atrás, em silêncio.

Entraram no quarto e Sean fechou a porta, caminhando até a janela. O moreno não disse nada, esperou com que a mãe falasse algo.

— Onde estava?

— Por aí.

— Não deveria estar estudando?

— Resolvi faltar. Não estava com cabeça pra ir à universidade.

— Se fizesse medicina, provavelmente estaria com a cara nos livros. Sinal de empenho.

— Mais uma vez esse assunto? O que faz aqui? — O moreno encerrou a discussão que logo se iniciaria.

— Te mostrar isso.

Suzana retirou da bolsa o seu celular e mexeu por alguns segundos, até se aproximar de Sean e lhe mostrar algumas fotos.

— Sabe o que é isso? Mark e Beatrice estão se formando. Festa de comemoração deles. Orgulho pra nossa família. Sarah me mandou essas fotos dizendo estar muito feliz pelos filhos e me perguntou por você. Sabe o que eu disse?

— Poupe-me das palavras. — Sean afastou o celular dele.

— Disse que meu filho resolveu cuidar de dentes. Dentes. Ser dentista. Poderia ter facilmente um futuro garantido no hospital. Ser um grande médico reconhecido.

— Que saco!

— Vai ser um dentista frustrado. Estou começando a ficar com vergonha de você, Sean. Primeiro esse lugar, depois o curso. Até aquele garoto faz medicina porque sabe a importância que nós, médicos, temos no mundo.

— Mãe, chega. — Sean foi até a cama.

Suzana parou. Ela realmente queria que seu filho fosse sucessor do hospital da qual é dona, mas infelizmente o moreno resolveu seguir outra carreira. Apesar da semelhança em alguns aspectos, ela só iria sossegar quando o filho fosse consagrado médico. Não se importando de ter que pagar outra universidade.

— Você só aparece aqui pra esfregar na minha cara isso. Estou bem no meu curso. Não me arrependo.

— Onde está Octavio? — Imediatamente a mulher mudou de assunto. — Não o vi desde que cheguei aqui.

O moreno congelou. Octavio, seu ex-amigo. Dizer a verdade ou criar mais uma mentira? Ele sabia que Suzana quase sempre descobria tudo. Por isso pouco mentia para a mãe, apenas escondia a sua sexualidade em um cofre trancado a sete chaves.

— Com ele. — Confessou.

— Com ele?

— É um deles, agora. — Apontou pra república à frente.

— Como? —Ela realmente se aproximou do filho.

— É mãe, Octavio não é mais meu amigo, agora é amigo daquele bastardo.

— Você só pode estar brincando. —Gargalhou, irônica, mas no fundo acreditava. — Por qual motivo? —Voltou a ficar séria.

Sean já não tinha mais o que esconder.

— Eles são namorados.

Suzana estava furiosa interiormente, mas mantinha a seriedade de sempre.

— O que você fez, Sean?

— O que a você provavelmente teria mandado eu ter feito. Deixei que fosse, não fiz nada. Você me quer longe de pessoas assim.

—Certo.

Suzana passou o dedo sobre um objeto de decoração no quarto de Sean, encontrou poeira e soprou seus dedos.

— Foi a melhor coisa que você fez. Isso significa que devo me afastar de Sierra. Se ela tem um filho assim, significa que a mesma deve aceitar. As pessoas nos surpreendem, não? Logo Octavio. Acredito que seu pai deve estar cantando vitória até agora.

Sean não acreditava que Suzana estivesse tão tranquila assim. Ela não era assim, deveria explodir e insultar Octavio.

— Preciso que tome um banho e se arrume. — Ela disse, aproximando-se da porta.

Aquela tranquilidade incomodava Sean.

— Tenho uma reunião e querem conhecer o meu filho.

— Mais uma de suas reuniões?

— Uma em especial. Te apresentarei seu futuro padrasto.

O moreno a encarou, Suzana respondeu ao olhar.

— Te espero lá embaixo, não demore.

Dito isso a mulher saiu do quarto, deixando o moreno ainda sentado em sua cama.

A Quadra era realmente um inferno. Sua vontade de ir a essa reunião da mãe era mínima, principalmente por conhecer o futuro padrasto. Mais um motivo pra ser quem é, como é.

[...]

Caine estava se recompondo. Santiago estava parado à sua frente. Sebastian a pouco tinha saído do quarto, depois de travar uma grande batalha contra os medos do menor. Seu irmão era tão confuso, tanto insistiu para sair daquele quarto e agora queria permanecer ali.

Santiago tinha uma opinião, Sebastian outra. Ambos entraram em um conflito, até que o pequeno tomou a atitude de ir à república vizinha.

Caine sorriu fraco. Santiago era gentil. Abraçou o maior e juntos caminharam até a porta. Antes de sair do quarto, Santiago beijou-lhe a testa. Sabia que depois daquela porta não poderia levantar sequer nenhuma suspeita sobre sua sexualidade. Ainda não estava pronto para o mundo.

Caine afogou sua face no peito do outro enquanto recebia o beijo, mas Santiago foi além, agora lhe beijava a bochecha e quando iria chegar em seus lábios, Caine virou a face, negando.

O pequeno apenas sorriu amarelo. Aquele não era o momento para isso. Não queria que Santiago interpretasse as coisas de maneira diferente. Era cedo demais para o menor se aventurar em um novo romance, não que antes tivesse em um. Mas já amou e pagou o preço por amar.

Santiago se desculpou, embora não fossem necessárias palavras para isso. Ele apenas deu mais um beijo na testa do pequeno e saiu do quarto.

O tigre se despediu de Lydia e Sebastian que estavam sentados no sofá da sala, passou pela mesma porta que entrou na república. Seu desagrado foi grande ao ver Colton conversando com Leo.

Não era uma cena agradável, aquilo o irritou profundamente. Mas tinha que controlar isso. Principalmente por conhecer Colton, que poderia usar isso contra ele, caso necessário. Fingiu não ver os dois que conversavam em frente à república, mas a voz do leonino chamou a sua atenção.

Adorava a entonação que seu nome tinha quando pronunciado por Leonard.

— Ei, Santiago! — Leo disse, sorridente, segurando um caderno em mãos.

Santiago não parou, simplesmente olhou para Leonard e Colton juntos, abaixou a cabeça e permaneceu caminhando. Leo pronunciou seu nome por mais uma vez, mas não adiantou.

A mente de Santiago estava confusa.

[...]

Caine finalmente colocou os pés dentro da república dos leões. Pisar ali causava-lhe arrepios, calafrios. Uma sensação estranha, difícil de decifrar. William tinha acabado de sair do quarto em que Danion estava. Olhou o pequeno nos olhos: vazios.

— Você não precisa fazer isso. — William disse.

— Pior será se eu não vê-lo.

William apertou-lhe o ombro, tentando confortá-lo. Juntos caminharam até a porta do quarto, parando em frente a ela. O loiro pensou na reação de Colin quando viu Danion naquele estado. Caine poderia ter o dobro do sentimento que o outro tinha. Mas se Caine queria, ninguém mais deveria ir contra a vontade do pequeno.

O líder da república abriu a porta, Caine antes olhou para ele e finalmente deu o primeiro passo.

Forte, Caine então olhou para a cama há cerca de dois metros de distância.

Fechou os olhos, respirou. Queria abrir os olhos e não ver mais aquilo. Talvez fosse uma mentira.

Novamente abriu os olhos e Danion permanecia lá, deitado, dormindo.

Deu mais alguns passos até se aproximar do branquelo. O corpo marcado pelos vários socos que tomou, um braço sobre o tórax. Quieto, indefeso. Diferente das vezes em que Caine o via, sempre espontâneo e inconveniente.

— Qualquer coisa é só chamar. — William disse e saiu do quarto.

Caine só ouviu a porta atrás ser fechada. Permaneceu de pé, inerte.

Foi até uma cadeira longe dali e a arrastou até a cama, sentando-se imediatamente. Era difícil acreditar no que estava vendo.

Danion podia não ser a melhor pessoa existente na Quadra. Talvez, o pior morador dela. Mas não merecia passar por isso. Se seus pais soubessem. Se outros soubessem... Caine desejou ser o cara mais violento do mundo, deveria ter feito algo. Reagir. Mas não fez nada.

Não conseguiu fazer.

— Por que logo você? — Perguntou.

Embora soubesse que não teria respostas, ousou na pergunta.

— O que você fez?

Perguntar lhe trazia certo alívio. E mesmo que Danion estivesse acordado, ele não iria obter respostas por saber como o branquelo era. Tão cheio de si.

— Você atira em mim, mas eu não caio. Sou feito de titânio.

Caine não era cantor, nem mesmo chegava perto de ser. Mas a frase dita se referia a uma música que por muitas vezes escutou e chorava ao se lembrar de Danion. Era tipo a trilha sonora de sua vida.

— Você atira em mim, mas eu não caio. Sou feito de titânio. – Disse mais uma vez, agora segurando a mão de Danion, que estava encostada à sua cintura. Olhou para a face do branquelo e permaneceu encarando-o por minutos. “O que será de você quando acordar?” Pensou.

I'm bullet proof, nothing to lose

Sou à prova de balas, não tenho nada a perder

Fire away, fire away

Atire, atire

Ricochets, you take your aim

Ricocheteia, mire

Fire away, fire away

Atire, atire

You shoot me down but I won't fall

Você atira em mim, mas eu não caio

I am titanium

Sou feio de titânio

Titanium era uma música feita por David Guetta, mas interpretada por Sia. O pequeno apenas se fixou no coro. Embora não cantasse, ele recitava as frases. Era tão difícil saber que tal sentimento não era recíproco, mas Caine estava aprendendo com o tempo. Deveria apostar todas as suas fichas em Santiago, mas era cedo demais para tomar conclusões. Estava tão desacreditado no amor.

Santiago tem tudo aquilo que Caine procura em Danion.

O menor, cautelosamente, repousou sua cabeça sobre o tórax de Danion e fechou os olhos. Foi inevitável, uma lágrima persistente desceu de seus olhos, umedecendo a camisa do branquelo. Ouviu o seu coração bater e aquilo tornou-se melodia aos seus ouvidos.

— A sua loucura foi a razão de tudo isso. Onde está o seu juízo, Danion?

E pensar que Caine foi capaz de se entregar à loucura e perder o juízo só para fazer Danion notá-lo da maneira que queria.

— Ei... — Uma voz falha invadiu os ouvidos de Caine.

O pequeno sentiu, por segundos, o coração parar. Retomou a respiração e voltou à posição que antes estava. Danion permanecia de olhos fechados, mas os lábios que antes estavam parados, agora se moviam.

— Eu sou de titânio. — Disse e finalmente abriu os olhos, mostrando a beleza dos orbes: uma mistura de verde e azul, verde azulado.

Caine levou a mão à boca. Forças, Caine! Forças.

— Não deveria ter parado. Eu gosto daquela música.

— Há... Há... Quanto... — Foi interrompido por não conseguir continuar.

— Estou ciente do que aconteceu. — Sua voz permanecia falha. — Estou acordado há algumas horas, mas não tenho coragem de sair daqui, não tenho coragem de falar para alguém que acordei.

Caine não perdeu tempo. Foi até a porta do quarto e abriu. William ouviu a porta ser aberta e imediatamente saiu do sofá, encontrou o pequeno no corredor.

— Ele acordou. Danion acordou.

William não perdeu tempo e entrou no quarto. O pequeno permaneceu parado no corredor.

Ele poderia ter voltado para lá. Mas tudo o que Caine fez foi caminhar até a porta de saída e abrir. Colin tinha acabado de chegar e tomou um susto. Mas Caine não tinha a melhor das expressões.

Passou por Colin às pressas, o amigo o seguiu, jogando a mochila dentro da república e trancando a porta. Ambos entraram na república dos Águias e foram até o quarto de Caine. Colin quem se encarregou de trancar o quarto.

Caine jogou-se na sua cama e chorou. Chorou como uma criança, um bebê.

Colin sentou-se ao seu lado, em silêncio, e acariciou suas costas.

Chore, Caine. Dessa vez você pode chorar. Coloque pra fora suas mágoas, suas dores, seus sentimentos. Mostre ao mundo que você é forte, que você busca por mudança. Não é erro seu permanecer naquele quarto, você não suportaria mais vê-lo reclamar das dores e relembrar dos detalhes daquele dia.

— Estou aqui... Shhh... — Colin tentava acalmar.

Sebastian entrou no quarto às pressas. Ele tinha visto o irmão passar por ele e não pronunciar sequer uma palavra.

— O que aconteceu? —Perguntou.

— E-eu não sei, mas parece que ele precisa...

— Me deixe a sós com ele. — Sebastian pediu ao se aproximar.

— Não irei fazer isso, Sebastian.

— Ele é meu irmão.

— E meu melhor amigo.

Um confronto na hora errada, mas por uma causa justa. Não tendo solução, os dois permaneceram ali, tentando proteger aquele tesouro.

[...]

Três dias se passaram desde que Danion acordou. Por um dia, o branquelo optou pelo silêncio, respondendo o que lhe cabia. Não queria ninguém mais se preocupando com ele, apenas William, já que este era inevitável. O loiro fazia de tudo, desde ajudá-lo a tomar banho, a alimentá-lo. Nos mesmos três dias, Caine não foi à aula, perdendo assim uma semana de aula. Colin passou mais tempo com seus companheiros leoninos e águias, evitando um pouco o Tigre que por um dia foi extremamente fofo. Não por vontade própria, mas ambos sabiam que deveriam controlar aquilo. Não era tempo para os dois.

Hoje Caine foi à aula com Colin. Danion conseguiu um atestado médico, podendo faltar. Ele já podia ficar de pé, mas todo cuidado era pouco, já que algumas partes de seu corpo doíam.

No Ninho as coisas estavam agitadas há dois dias, principalmente com a loucura que Noah cometera. Luke foi o que mais estava chateado com ele, não acreditando na coragem do primo. Se não fosse Joshua, o irmão teria tomado uma surra do moreno.

— Você foi mesmo capaz de ir contra o meu acordo? — Joshua perguntou, coçando o queixo.

— Apenas mudei os planos, Josh. Sei que o seu era diferente do meu.

— Você não deveria ter feito isso.

Luke saiu do bloco, evitando permanecer ali. Caleb foi atrás.

— Fui contra o seu acordo com aquele homem, fui contra a vontade de todos aqui. Tomei uma bronca do pai, mas consegui o que queria.

— Você perdeu minha confiança.

— Tem como voltar atrás? — Ele sorriu. — Já está feito.

Megan apenas ficou em silêncio, observando o confronto dos irmãos.

[...]

Luke saiu do Ninho direto pra universidade. Mesmo que estivesse fora do horário de aula, preferia permanecer ali a ter que olhar para Noah. Precisava de algo que pudesse ocupar sua mente.

Mas tudo o que viu foi Colin ao lado de Caine, ambos sentados em um banco. Diferente das últimas vezes, os garotos estavam em silêncio. Talvez não fosse o momento de ir ali, mas precisava antes explicar para Colin o que iria acontecer.

Caminhou até parar em frente aos garotos. Caine o olhou e se assustou, o pequeno até se levantou, pronto para correr.

Luke imediatamente entendeu o porquê daquilo.

— Ei, ei, ei... — Ele disse, pedindo calma. — Eu não sou um deles, não precisa ter medo de mim.

— Luke, não... — Colin pediu para que ele fosse embora.

Caine não estava mais calmo, pelo contrário, temia que Joshua aparecesse ali.

— Vá embora, Luke. Por favor...

— Tá, mas antes saiba que eu não tenho relação alguma com o que aconteceu e o que vai acontecer, tudo bem?

— Não importa, vai embora!

Sebastian estava distante, mas viu aquela cena e como Caine se sentia perto de Luke. Colin também notou que o ruivo se aproximava, já com o punho fechado.

— Vai embora! — Colin quase gritou.

Luke olhou para trás, viu Sebastian se aproximando. Tarde demais, tomou um soco e caiu no chão. Colin imediatamente se levantou, pondo-se à frente de Sebastian. Mesmo se sentindo um grão de areia, foi capaz de impedir que o ruivo prosseguisse.

— Não ouse se aproximar do meu irmão.

— Cara... — Luke olhou sua mão sangrando — Eu não tenho nada a ver com isso. Você é maluco? — Se levantou.

— Meu irmão também não tinha nada a ver com o que aconteceu.

— Sebastian, para! — Colin, mesmo com dificuldade de olhar em seus olhos, permanecia olhando firme para a face do ruivo. — Não vai resolver as coisas desse jeito. Caine vai ficar pior.

— Meu irmão está com medo de andar sozinho por causa desses babacas!

— Eu sei como deve estar se sentindo. Mas cara, não precisava me deixar assim. Que saco, vou ter que tomar um banho, olha só minha roupa!

— Não ouse chegar perto do meu irmão, Luke.

— Ele não vai me fazer mal, Seb. — Caine disse, tomando coragem de pronunciar as palavras.

Tão pequeno e mostrando-se tão forte.

— Tá vendo aí? — Luke falou. —Até seu irmão acha que não sou como os meus primos.

— Não importa.

Sebastian puxou Caine e saiu com ele dali. Colin olhou para Luke, soltou um suspiro cansado.

— Viu só o que você fez? Preciso ir, depois conversamos.

Colin então saiu, seguindo os dois irmãos que rumavam para a saída da universidade. Aproximou-se deles e, como era de se esperar, Caine repreendia o maior pela atitude.

— Eu só me assustei.

— Você está traumatizado.

— Ele não é o Joshua.

— Mas tem o mesmo sobrenome que ele.

— Sebastian, assim você só piora as coisas. Você e William entraram em um acordo. Só usarão dos punhos se eles partirem pra agressão. — Colin disse, enquanto caminhavam.

— Eu perdi a cabeça, tá bom? — Ele parou de andar. —Você sabe como estou me sentindo? Caralho, eu sei como foi difícil.

Todos ficaram em silêncio, era de se entender a situação em que Sebastian se encontrava.

Na vida, nem tudo é da maneira que esperamos. Como já dito, não há justiça na Quadra.

O acordo de Joshua com o estranho homem era relacionado à queda dos águias. Sua rivalidade era única com Sebastian, os outros líderes só se metiam pelo laço de amizade existente ali. Mas Noah, esse, adora destruir o emocional alheio, diferente do irmão que prefere destruir o físico. Colton adora destruir a vida social. Há tanta coisa em comum com esses três. Porém, quem no momento se superou foi Noah.

Indo contra o plano do irmão, ele resolveu tomar uma atitude mais radical ainda.

Colin de longe viu a movimentação em frente à sua república. Todos os leoninos cercavam William, que tinha em mãos uma carta.

Colin apressou seus passos, assim como os outros dois que o seguiam.

— O que tá acontecendo? — Colin perguntou, adentrando a roda.

William então mostrou-lhe a carta que recebeu.

— Uma ordem de despejo?! — Colin perguntou, sem acreditar no que lia.

Foi então que se lembrou do que Luke tinha dito.

Agora era um fato já comprovado; embora considerada a república mais barulhenta da Quadra, era também a república mais forte por não se deixar abalar por nada. Mas infelizmente, tudo tem seu tempo.

A queda dos leões.

Notas finais
Eu respondi todos os reviews, finalmente, aewwww! O próximo capítulo não demorar tanto quanto esse, acredito. E ah, tenho uma ótima notícia pra vocês, mas não falarei agora. Continuem me acompanhando no ask: http://ask.fm/thomasnyah