Notas iniciais
Pateta

Estavam deitados por cerca de vinte minutos. Um Sean que acabou de pegar no sono e um Colin que não fechava os olhos e fitava a luz acesa do teto. Era tudo ainda muito cedo, ele tinha plena convicção disso. Primeiro que as coisas aconteceram de maneira repentina. Como um tornado que levou embora toda a base de sua casa. Algo que ele não esperava. Quando de repente, estava se agarrando com o moreno em becos escuros — que ele até hoje detesta — e no banheiro da universidade. Agora, estava ali, deitado numa cama com o garoto mais odiado de toda a Quadra Nove. E que de início era seu rival. Alguém que ele não suportava.

Ah, claro, ele ainda não suporta. Mas tende a aceitar os costumes do outro. Chegou até a se adaptar a arrogância dele. E se Sean não fosse assim, provavelmente não teria criado algum tipo de afeto para com o moreno.

Sean dormindo era totalmente diferente de quando estava acordado: Aquela peste que nasceu para atormentar a vida de todos ao redor.

— Ei! — Colin bateu em sua bochecha — Acorda! Temos que voltar ainda hoje.

O moreno se esforçou para abrir os olhos, embora soubesse que estava sendo acordado por Colin. Permaneceu em silêncio tentando fazer o outro continuar ali. O moreno realmente estava cansado depois da noite exaustiva.

— Sean! — Colin chamou mais uma vez, apertando as bochechas do moreno. Sean fizera um bico. Fofo demais para o pequeno retirar a mão de suas bochechas.

— Vá dormir! — Ele disse, com os olhos novamente fechados.

— Eu preciso voltar, Sean. Amanhã William e os outros irão me encher de perguntas.

— Diz que estava comigo. Adoraria ver meu irmão puto da vida. — A voz pesada pelo sono, seguida de alguns murmúrios.

— Você é louco? Eu seria expulso de lá. E gosto muito do William para magoá-lo assim.

— Mas você está aqui, acabou transando comigo.

— E se depender de mim, ele nunca saberá. — Colin pausou e franziu o cenho pensando em algo para completar a frase — Não até eu tomar coragem e ver que está no momento certo.

Nem mesmo Sean queria que William soubesse. Na verdade, ninguém poderia saber. A começar que sua sexualidade não era algo que ele queria expor. Outra, Colin é um leonino e, seu ódio para com esses é grande demais. Acabaria quebrando o protocolo criado por ele mesmo. Não teria a mesma honra que teve.

— Dorme aqui, amanhã de manhã podemos pensar em alguma desculpa.

— Eu ainda não sei o que fazer. Não vou conseguir dormir aqui com você. Não mesmo. Estou preocupado com os outros. E se eu não for agora, pela manhã não vou conseguir olhar para você depois do que acabei de fazer.

— Que mal tem em transar comigo? — O moreno abriu os olhos e se acomodou na cama. Pondo um braço sobre sua cabeça para encarar o menor.

— De todos da Quadra, você seria minha última opção. — Mentiu. — Agora vamos, me leva embora daqui.

O pequeno se levantou da cama e apanhou a camisa no chão. Quando vestiu, nem sequer tinha percebido que a camisa era de Sean. Que por sinal, pareceu um vestido naquele corpo minúsculo. Colin ergueu os dois braços e riu ao notar a diferença de tamanho.

Sean sorriu com aquilo e foi obrigado a se levantar. Ele pegou a camisa de Colin e ousou em vestir. Aquilo com certeza foi a pior cena que o pequeno já vira em toda sua vida. Ajoelhou-se no chão e começou a gargalhar apontando para Sean, que se exibia fazendo poses com a camisa apertada em seu corpo.

— Tô bonito? —Perguntou, de forma sexy.

— Nossa, tá lindo. Acho que me apaixonei. A camisa supervaloriza o seu corpo. —Brincou o menor.

— Vou aderir essa moda.

E desfilou pela casa apenas de cueca e com a camisa apertada.

Ambos tiveram que tomar um banho rápido. Um banho necessário, na verdade. Principalmente depois daquele sexo onde corpos soados esfregavam-se um no outro. Colin molhou seu rosto mais uma vez na pia e tentou pentear seu cabelo com os dedos. Sean nem se importou com isso e só fizera tomar o banho.

Pegou as chaves e saiu da casa indo diretamente a garagem. Mais tarde teria que voltar e pintar a outra parede. Dessa vez, teria que dar outra desculpa a Colin para que o pequeno pudesse acompanhá-lo. Um leonino é sempre difícil de domar, e com Colin não seria diferente.

Já no caminho de volta, pensaram de todas as maneiras em como chegarem a Quadra sem serem flagrados.

— Eu não vou poder entrar com o carro. —Sean disse.

— Claro que não! Minha república fica em frente a sua. Quem quer que esteja acordado iria me ver saindo do seu carro. Você poderia me pagar um táxi?

— Você tá comigo em um carro, que diferença faz?

— Que com o táxi eu poderei entrar na Quadra e dar qualquer desculpa. Só que ainda assim não pretendo ir para a minha república. Pararei na porta de Sebastian torcendo para que ninguém me encontre. Terei acesso a janela de Caine e ele não me deixará na mão.

— Tem certeza que isso é uma boa ideia? Ainda acho melhor voltarmos e você dormir comigo. Quem sabe até repetir a dose... — O olhar travesso.

— Não é tempo de pensar nessas coisas. — Repreendeu o pequeno. — Estamos parecendo dois adolescentes vivendo uma relação proibida, ótimo roteiro para algum filme.

— Mas é isso mesmo.

— Só que em finais de filme as coisas terminam bem, geralmente.

Sean engoliu o seco. Concordou com o menor. Tudo poderia dar errado, mas 1% ainda poderia dar certo, assim acreditava.

— Tudo bem. Vou parar aqui, aproveitar que tem um pouco de movimento. O primeiro táxi que passar você estende a mão.

— O pé eu não iria estender. — Revirou os olhos.

— A bunda também não, e aí? — Olhar que fuzila.

— Tá, agora me dá o dinheiro que eu não tenho nada aqui comigo. Quando minha mãe mandar o dinheiro no final do mês, te devolverei.

— Você sabe que não precisa. — Sean disse.

O moreno jogou uma nota de cem em sua perna e sorriu. Para Colin era difícil digerir que o moreno era realmente rico. Quis imaginar quanto que ele ganhava de mesada.

Quando Colin pensou em sair do carro, a mão do moreno segurou forte em seu braço e ele se virou assustado. Não teve tempo de falar alguma palavra, pois os lábios foram tomados para um beijo caloroso.

— É melhor se acostumar. —O moreno disse, se recompondo e ajeitando o cinto de segurança.

Colin saiu do carro com o dedo nos lábios, atravessou a rua tomando algumas buzinas na cara, já que não tinha faixa de pedestre ali. O moreno ainda ficou com seu carro estacionado, observando de longe o pequeno estendendo a mão para alguns táxis que o ignorava. Até que finalmente um parou. O leonino antes de entrar no carro levantou a mão se despedindo de Sean.

Durante todo o trajeto Colin ainda pensava nos toques de Sean. Foi o primeiro cara com quem se deitou e mesmo que fosse cedo para dizer isso, o moreno era de fato bom no que fazia. Lembrou-se da bela tatuagem de tigre que estampa toda a sua costa, dos músculos bem distribuídos e daquela boca faminta.

Rapidamente, pusera seus pensamentos nos lugares ao notar que estava começando a ficar excitado apenas por lembrar. Focou então em que desculpa daria caso fosse flagrado por alguém e lhe trouxe alívio.

Quando o táxi entrou na Quadra, Colin pareceu estremecer. O motorista quase parou o táxi em frente a sua república, e quase como um grito, o pequeno pediu para ele estacionar mais a frente. Rapidamente pagou ao homem e esperou o troco, batendo os pés impaciente.

Quase saltou do carro e correu para trás da árvore quando notou alguém saindo de sua república. Era Rick. O mulato com certeza acabara de arrumar a cozinha, pois estava jogando o lixo fora.

Colin esperou mais alguns segundos ali, com o coração batendo forte e temendo ser flagrado. Olhou mais uma vez para ver se Rick continuava fora, mas o mulato acabara de entrar.

Como um gatinho travesso que se esconde pronto para atacar, o pequeno caminhou, ajoelhado, pelo gramado da república de Sebastian até parar em frente à janela de Caine. Mais uma vez olhou para os lados temendo ser flagrado e bateu por três vezes na janela. Não obteve respostas. Mais três vezes.

Quando Caine abriu a janela procurando saber quem o incomodava, tomou um susto quando Colin saltou e caiu por cima dele.

— Fecha essa janela! — Colin pediu, suspirando.

Caine não esperou em perguntar por que, e apenas obedeceu ao pedido. Mas depois de feito isso, sentou-se na cama e observou Colin no chão, com olhos fechados e braços abertos. Sua camisa suja de tinta e o pescoço vermelho se destacava naquela pele branca.

— Não deveria tá dormindo? — Perguntou o invasor.

— Eu estava quase dormindo. — Cruzou os braços. — Até isso acontecer, não é?

— Por que me olha como se fosse me matar? —Colin levantou.

— Porque tive que mentir para te livrar de encrenca e porque estou realmente desconfiado de que você tá com amizades novas e me trocando.

— Ah... Eh... Hm... — O pequeno procurou palavras. — E-eu tenho muita coisa para te contar.

— Não vou dormir sem antes ouvir.

— Eu sei que não. Mas de qualquer maneira, você tem que prometer não contar nada a ninguém.

— Você já me contou que beijou o Sean, e ninguém além de mim sabe disso.

— E agora transamos. —Colin soltou, como se nada tivesse acontecido. Pulou na cama de Caine e levou o travesseiro a sua cara. Estava constrangido demais.

Um minuto de silêncio. Caine estava boquiaberto com o que ouviu. Palavras mudas saiam de sua boca. Mãos que ficaram inquietas. Ele saltou da cama e puxou o travesseiro de Colin, fazendo assim então o amigo levar a mão à face.

— Não está mentindo, não é? — Indagou, empolgado.

— Claro que não. — A voz abafada pelas mãos.

— Eu pensei que vocês apenas se beijaram àquele dia e nada mais depois disso. E agora, você vem e me diz que transaram? C-como assim?

— Não me faça mais perguntas, tudo bem? Até para mim tá sendo estranho digerir. Em pensar que eu era virgem... Ah, não! — Tapou seu rosto mais uma vez. —Como eu sou idiota!

— Você era virgem?! — Mais uma pergunta.

— Deixei escapar! Ai, Caine. Chega! Não quero mais falar sobre isso. Só precisa dormir e acordar com William sabendo que estive aqui.

— Não mesmo. Eu te falei sobre Danion.

— Não te pedi detalhes aquele dia.

— Eu preciso saber! E onde diabos você estava?

— Ele tem uma casa não tão longe daqui. Acabou me levando até lá, pintamos uma parede e eu comi da sua comida, que por sinal é boa. Até que depois disso, aconteceu, fim! Pronto! Acabou.

— Como assim acabou? Do jeito que te conheço, devo deduzir que ele te forçou ou insistiu demais a prosseguir com o ato. E cara, você era virgem? Como não me contou isso? Você parecia tão... Tão experiente.

— É o que todos pensam. E ainda assim sou uma pessoa difícil. Aconteceu só uma vez e não vai se repetir.

Aquela conversa se prolongou até horas depois, com Caine fazendo milhares de perguntas e Colin fora obrigado a responder. Afinal, o amigo acabou livrando-o de uma encrenca maior.

[...]

William já estava de pé. Acordou na ausência de Colin, e isso ainda o incomodava. A história de que o colega de quarto acabara tendo que concluir um projeto na casa de um amigo e que ele voltaria tarde, não o agradou. Principalmente depois de Caine gaguejar tanto ao falar.

O loiro calçou as sandálias, lavou o rosto e escovou os dentes. Em seguida saiu do seu quarto e desceu as escadas. Saiu de sua república sem camisa e parou em frente à porta de Sebastian. Foi atendido por um dos membros de lá, que por ser respeitado, acabou entrando facilmente e fora até o quarto de Caine. Depois de bater e esperar, o irmão de Seb aparece coçando os olhos.

— Você vai me contar a verdade ou... — Silenciou-se.

O loiro viu Colin dormindo, encolhida sobre a cama de Caine, com o rosto colado a parede e com as pernas enroscadas a um travesseiro. Aquilo o deixou mais confuso do que já estava.

— Como? — Ele perguntou, olhando confuso para o garoto.

— Ele achou que se chegasse tarde a sua república, acabaria sendo punido, já que esqueceu as chaves. Ele me ligou no caminho enquanto Peter o trazia, acabei cedendo meu quarto para ele dormir. — Explicou o menor.

— De que horas ele chegou?

— Passava-se da meia noite. Após o término do projeto, eles beberam e bem... Você deve entender o que falo.

— Festa após a conclusão de projeto. Normal entre calouros, depois isso começa a ser cansativo. Por que você não foi com ele?

— Pertenço ao grupo B. — Sorriu sem expressão.

— Ainda é um tanto confuso para mim, mas irei acreditar no que você diz. Se eu não já tivesse bebido após conclusão de projeto, diria que toda essa história é uma mentira. De qualquer maneira, vou deixa-lo dormindo.

— Will. — A voz de Colin acabou chamando a atenção do loiro no momento em que ele ia sair.

Colin sentia-se acabado. Primeiro que todo o seu corpo doía. Principalmente as pernas. Mandou ofensas para Sean em pensamentos, culpando-o por toda aquela dor em certas partes do seu corpo. Teve até dificuldade para se sentar.

O loiro caminhou até o pequeno que estava sentado na cama e pusera o braço sobre seus ombros. Colin repousou a cabeça no peito do amigo.

— A velha ressaca. —Ingênuo, o loiro soltou.

— Nem me fale. —Ator.

— Ao que parece, alguém soube brincar com seu pescoço. —William disse, notando o vermelho misturado a partes roxas.

Caine apenas olhava aquela cena. William era alguém bom demais a ponto de, mesmo desconfiado, depositar todo o carinho em alguém. Perguntou-se como ele reagiria caso soubesse que Colin e Sean transaram. Principalmente por Colin ser tão ligado a ele. Levaria isso como uma traição? Já soube de toda a história que envolveu Octavio, Sean e William. E agora, tudo iria se repetir? Sentiu um aperto no coração só de imaginar.

— Caine, seu irmão disse que... — Colton aparece na porta do quarto e se cala ao encontrar os três ali. — Reunião? — Ele indagou, encostando-se a soleira da porta.

— Não. — Colin disse, pondo força na voz já que estava cansado demais para isso.

— Por onde esse garoto entrou se não ouvi ninguém batendo a porta?

— Ele pulou a janela.

— Caine tá muito safadinho ultimamente. Por um acaso vocês são namorados?

— Colin e eu? — Caine perguntou, surpreso. —Claro que não! Somos só amigos, nada mais que isso.

— Onde está Sebastian, Colton? — O loiro interrompeu.

— Se preparando para tomar o café da manhã. Acho que terei que mandar prepararem mais alguns lugares, temos visita logo pela manhã. —Encarou Colin. — O garoto tá bem?

— Só cansado, depois de beber muito durante a noite. — William respondeu.

— Beber e transar, não é? Estupraram o pescoço do garoto. —Disse divertido.

Colin novamente insultou Sean.

— O que meu irmão queria? — Caine perguntou, pressentindo que Colin não estava gostando daquelas provocações.

— Que Lydia está terminando de preparar o café da manhã, e mandou você ir logo para não comer o resto.

— Tudo bem.

— Vamos embora daqui, Will. —Colin se levantou, sem camisa.

Na madrugada, implorou para que Caine escondesse a roupa entre as suas. Outro dia ele a pegaria.

Colin se afastou de William e caminhou até a saída do quarto de Caine, inclusive, propositalmente chocou seu ombro ao de Colton. O novo rival apenas sorriu em resposta e rapidamente saiu dali.

[...]

Caine e Danion estavam no estacionamento da universidade. Ambos sentados na traseira de um carro qualquer que o branquelo escolheu a dedo. Se o dono do automóvel os encontrasse ali, com certeza acabaria em briga. Foi Danion quem chamou o pequeno para acompanha-lo. Nem mesmo ele entendia o porquê de querer a presença do outro ali. Mas se na universidade não era permitido fumar, ele teria que fazer isso escondido.

—Você deveria experimentar. É magnífico. — Sugeriu o branquelo, acabando de acender um cigarro.

— Não é algo que eu queira.

— Ao menos experimenta, acredite, você vai gostar. Te deixa leve...

— Você é viciado. Isso faz mal.

— Eu ainda estou vivo, não estou? — Indagou sem olhá-lo nos olhos, apenas apreciando seu cigarro.

— Você pode achar que no momento não lhe faz mal, mas espera mais alguns anos e verá a consequência disso.

— Certo.

O branquelo retirou o cigarro de seus lábios, olhou para Caine, segurou em sua mandíbula e disse:

— Abre a boca.

— O que? — Estava assustado.

— Faz o que eu pedi.

Caine imediatamente obedeceu.

— Não muito. O suficiente para o cigarro.

Mesmo se sentindo um idiota por abrir a boca por inteiro, ele obedeceu mais uma vez e Danion conseguira encaixar perfeitamente o cigarro por entre seus lábios. O branquelo sorriu ao ver o olhar de preocupação que Caine mandava-lhe, sem se mexer.

— Devagar puxa o ar para dentro. Cuidado para não engasgar.

Caine não queria estar fazendo aquilo. Não podia. Mas Danion pressionava seu ombro e segurava o cigarro em sua boca. O branquelo estava realmente disposto a fazê-lo viciar naquilo, assim como ele.

O pequeno fizera mais uma vez o que o outro disse, porém, para sua infelicidade, inalou muita fumaça. Acabou sufocando e precisando de Danion, que deu-lhe leve tapas em suas costas.

— Eu. Disse. Q-que isso não é bom. — Falava, ainda engasgado.

— Você é fraco demais, Caine.

— Eu praticamente fui obrigado a fazer isso. Não tente fazer novamente, por favor. Não tem um bom gosto. Não me deixou leve, como você disse.

— É assim no início, depois que pega a prática, largar é realmente difícil. — Voltou a subir na traseira do carro. — Eu já pensei em largar. Leo vive dizendo que vivo fedendo a cigarro.

Caine já havia acostumado com o cheiro de Danion. Ele poderia estar cheiroso, lindo, perfeito como ele sempre o enxergou, mas o cheiro, mesmo que fraco, do cigarro, parecia permanecer nele. Uma marca sua.

— Eu não acho que você fede.

— Que bom. As pessoas deveriam ser iguais a você, sabe...

— Mesmo assim, continuo achando que você deve largar isso. Há quanto tempo você fuma? — Caine se aproximou, ficando de pé entre as pernas do outro.

— Não lembro exatamente os anos, mas me recordo do primeiro dia. Eu vi meu pai fumando, ele sempre me dizia que aquilo não era coisa para criança e que matava. Bem, eu sempre quis experimentar a morte. Numa noite acabei roubando dele um cigarro. O escondi por dois dias, até que tive a oportunidade de usar. Aconteceu exatamente o que aconteceu agora, eu engasguei e detestei aquilo. Mas resolvi tentar novamente alguns dias depois... Desde lá, não parei. — Tragou um pouco.

— Não tem medo das proporções que isso pode lhe causar?

— Qual foi o dia em que você me viu com medo de algo? A vida é uma bosta, então não há porque me preocupar. Só quero ser feliz.

Caine ficou calado diante das palavras do outro. Parte dele concordava com o comportamento do branquelo. A felicidade é algo particular de cada um.

— Eu vou te beijar, certo?

— Como... — teve sua fala interrompida.

Danion foi tão rápido quando tomou seus lábios, que Caine não tivera tempo para aceitar. Ele rapidamente permitiu a língua do outro encostar a sua e explorar cada extremidade de sua boca. Não foi um beijo duradouro, mas o suficiente para fazer o pequeno corar e ficar sem ar.

— Tem gosto de que? — O branquelo perguntou, assim que desfez o beijo.

— De cigarro... — Dizia, ainda assustado.

— Óbvio. Mas é tão ruim assim?

— O-q-que? O beijo ou o gosto? — Caine não conseguia olhar para outro lugar. Era tão ingênuo.

— Se quiser responder os dois, tudo bem. Mas a verdade é que sempre fui curioso para saber as respostas da pessoa em relação ao meu beijo. Geralmente, quando beijo alguém estou alcoolizado e fumando... Vai que isso altere.

O gosto do tabaco não era tão forte como ele esperava que fosse. Era leve, nada que pudesse estragar o beijo. Caine, mais pensava no próprio beijo do que na pergunta do branquelo. Como ele, sabendo que o pequeno era apaixonado, o beijaria dessa forma?

— Não é tão ruim assim... — murmurou, finalmente desviando o olhar.

— Ruim, ruinzinho ou ruinzão? — Indagou franzindo o cenho.

— Acho que ninguém criticaria seu beijo por isso. — O rosto mais uma vez corou.

[...]

Quando Sean chegou à quadra, era de manhã. Após ver Colin ir embora dentro do táxi, voltou para casa. Tivera a ideia por um único motivo: Preguiça. Estava cansado demais para continuar na estrada. Tudo que fez logo quando chegou em casa, foi recolher o vaso quebrado, resultado da loucura cometida com o pequeno, recolher o lençol da cama e lavou a louça. Pegou no sono enquanto estava sentado no sofá, que resolvera descansar ali, mas não esperava dormir.

Estava parado dentro do seu carro, até notar Colin sair da república acompanhado de William. Ao que parece, o pequeno havia concluído o plano de dormir na república de Sebastian, mas ainda assim, a ideia de vê-lo com seu irmão o incomodava.

Ele saiu do carro justamente para Colin notar sua presença, mesmo que tivessem que se ignorar. Notou que o pequeno mandou-lhe um simples olhar e novamente levou os olhos aos de William, que o encarava com desprezo.

O moreno adentrou a sua república e encontrou apenas Connor, já comendo enquanto assistia a algum programa na sala.

— Você não dormiu aqui? — O garoto perguntou.

— Não. O que aconteceu enquanto estive fora?

— Nada de interessante. — Respondeu, de boca cheia.

— Vou subir.

Não esperava respostas, sendo assim, dera as costas e subiu as escadas. Encontrou Octavio passando pelo corredor do primeiro andar. De primeiro momento, fora um susto para ambos.

Eles odiavam o clima existente. Odiavam as vezes que brigavam, e quando isso acontecia, agiam estranhamente por algumas horas ou dias, até se resolverem.

— Posso saber onde dormiu? —O amigo, mesmo que chateado, perguntou.

— Em casa. — Disse, indiferente.

Passou por Octavio, mas o amigo o seguiu.

— Custava avisar?

— Você saiu com seu namoradinho, não saiu? Sendo assim, não havia motivos para avisar. —Abriu a porta do Quarto, mas quem entrou primeiro foi Octavio.

— Eu tinha dito que era uma reunião. Que saco.

— Me poupe, Octavio. Eu já sabia que seria assim quando meu irmão começasse a te perdoar. —Trancou a porta.

Sean retirou sua camisa e a lançou na cadeira mais próxima, em seguida fora até a enorme janela do seu quarto e ficou ali parado, observando, como de costume, a república de William.

— William e eu ainda não nos resolvemos, Sean. Uma noite de sexo não significa nada. — Logo se arrependeu do que disse. Sexo com William era tudo. — E se acontecer de voltarmos a ficar bem, eu não vou gostar de te encontrar assim.

— Então é melhor ir se acostumando, porque não vou digerir isso tão facilmente. Já não bastar o Colton ter voltado, agora vem você e esse romancezinho com o William.

— Eu não vou deixar Colton fazer o mesmo. Fui muito idiota de acobertar aquele romance de vocês.

— Dá pra não puxar esse assunto? Além do mais, estou focado em outro alguém e você sabe muito bem disso.

— Colin. —Falou, aproximando-se.

— É isso mesmo.

— O garoto te detesta. Acho difícil você conseguir alguma coisa com ele. Tudo bem que no início eu desconfiei que rolasse algum clima entre vocês, mas bem, ele deixa claro que te odeia.

— Tirando você, quem não me odeia aqui na Quadra? — Se virou para encarar o amigo.

— Eu vou te perdoar pelo acontecimento de ontem, tá bom? — Octavio não resistiu e usou outra pergunta como resposta.

— Colton me irritou profundamente. Ele acabou tentando transar comigo no meu carro, tentou trazer a tona histórias passadas e ainda assim, mostrava não se preocupar com o que fez.

— Aquele garoto é um babaca. Uma cobra venenosa da pior espécie. E a propósito, eu aconselho você a desistir de Colin por causa disso. Ambos são muitos parecidos, pequenos e ousados.

Se ele te ouvir falando isso, te mataria. O moreno pensou.

— Eu tenho ficado com Colin ultimamente. — Soltou, tentando não parecer feliz com isso. Talvez, estivesse escondendo isso em seu interior.

Octavio por um minuto ficou em silencio tentando digerir a frase que acabara de ouvir. Sean não esboçava expressão alguma. Falou como se aquilo não tivesse necessidade, o que era natural seu. Ver o moreno soltar algum sorriso de felicidade era algo difícil, seus sorrisos geralmente eram libertinos.

— Eu só te peço para tomar cuidado. —Tentou não parecer surpreso, mas ainda assim sem acreditar no que ouviu. — Colin me parece uma boa pessoa, apesar de... Ainda não acreditar que ele beijou William.

— Nessa porra de Quadra todo mundo já ficou com todo mundo. — Falou de imediato.

— Eu sou a exceção. Meu único caso foi com William, e você só teve o Colton, pelo que recordo.

— E você. —Relembrou.

— É, e eu. — Murmurou. — Ainda assim, não quero que você sofra como já sofreu nas mãos de Colton.

— Eu não sou um garotinho, Octavio.

[...]

Octavio acabou deixando Sean sozinho em seu quarto. Tinha aula naquele horário e a melhor opção a fazer fora sair dali. Encontrou Connor na sala, dormindo com a televisão ligada. Teve pena de acordar o companheiro e apenas desligou o aparelho.

Connor era tão atrapalhado, que dormiu com o prato de macarrão em cima do seu peito. Retirou o objeto dali e levantou seu braço caído.

Desejou ter encontrado William saindo da república também, só assim teria quem acompanhar até chegar à universidade. Hoje não era uma das manhãs que Sean iria acompanha-lo. Notou o carro do amigo parado a porta e até sentiu vontade em dar umas voltas com ele, já que sentira saudades de entrar no automóvel.

Pusera as mãos nos bolso da calça e passou a caminhar sozinho, até que uma voz atrás de si o desperta dos pensamentos.

— Bom dia, Octavio. — Colton e sua falsa simpatia.

Permaneceu em silêncio, ignorando a presença do outro.

— Ao que parece você também descobriu toda a verdade.

— Tem mais mentiras que precisamos descobrir? — Indagou sem olhar para o menor.

— Eu, hein. Quanta grosseria. Só estou tentando parecer simpático.

— Talvez esteja querendo roubar informações de mim.

— Você tá sendo muito rude comigo.

Octavio parou, o que fizera instantaneamente o pequeno também parar e olhar assustado para ele.

— Olha, garoto, odeio más companhias, sendo assim, é melhor parar de me seguir.

Colton agora mostrou sua real face: O sorriso travesso e o olhar sapeca como se estivesse achando engraçado o que o moreno dissera.

— Adoro conhecer esse lado das pessoas. E sendo você, é realmente estranho te ver grosseiro. Octavio sempre foi bom e paciente e agora se mostra totalmente o contrário. Eu desperto isso nas pessoas.

— O que você quer?

— Você sabia que quando eu morava aqui antes, sempre desejei ir a cama com você? Nunca te contei isso, mas na época estava com Sean. — Levou o dedo a boca. — Você faz o meu tipo, alto, forte, moreno...

— Não tente me provocar, Colton. Não somos mais amigos.

— Ninguém é amigo de ninguém aqui na Quadra Nove.

— Não sei exatamente por que você fez aquelas coisas com Sean, sinceramente. Mas saiba que isso não vai se repetir. O primeiro motivo é que eu não vou deixar isso acontecer, o segundo é que Sean está muito melhor sem você. E acredite no que falo.

— Melhor sem mim? — Gargalhou. — Aquele garoto sempre dependeu de mim para tudo, até para aprontar com William. Nem mesmo você sabe todas as verdades de Sean. Era eu quem dormia com ele todas as noites, era eu quem ia para a casa que ele tem. Acha mesmo que você sempre foi o mais intimo dele?

— Tenho certeza absoluta. Sean e eu somos amigos, e não é sexo que vai definir a nossa intimidade. Você o traiu, quer mais provas que isso para mostrar que você não é um bom amigo?

— Que hipócrita você, não é? Ou será que não se lembra da noite em que você e Sean dormiram juntos?

Octavio fechou seus olhos e respirou fundo, contou até dez e antes de abrir os olhos desejou com que o garoto não estivesse ali, mas isso não aconteceu.

— Já chega, vou acabar me atrasando.

— Eu ainda não entreguei o recado. Recado esse que você não deixou nem sequer falar.

— Então diz que já perdi tempo demais aqui com você.

— Sebastian quer ter uma reunião com todos os líderes da Quadra. Isso certamente não te inclui, mas ele me pediu para que te avisasse. Vai ser hoje à noite, lá na República.

— Eu já estou ciente dessa reunião, acontece todos os anos. De qualquer maneira, eu não te agradeço por ter me avisado. Agora tchau, Colton.

Octavio realmente deixara Colton falando sozinho e caminhou ignorando a presença do outro que estava há alguns metros.

[...]

Connor, um dos tigres, estava parado em frente a casa de Sebastian. A reunião estava sendo feita e só os líderes, mesmo que de república menores, podem participar. De qualquer forma, por Sean e William estarem numa mesma sala, tudo indica que algo ruim pode acontecer. Ele foi obrigado por Santiago a ficar ali e se escutar algum grito, era pra entrar na casa chutando tudo.

Connor era o típico garoto, que apesar de ser um Tigre, tinha a alma de um Águia. Era atrapalhado e idiota, sem contar que fala pelos cotovelos. Tem tudo para ser um bom amigo. Isso irrita seriamente ao Sean.

Espancou Colin, com a ajuda de Adrian. Mas o resultado foi pior, despertou a ira de um loiro.

O garoto caminhou e acabou sentando na calçada. Olhou pro céu e viu aquela lua enorme e brilhante chamando a sua atenção.

— Sabe, antes eu te achava tão sem graça... O que aconteceu pra ficar tão bonito assim?

Connor tomou um susto quando alguém acabou sentando-se ao seu lado. Era Colton.

— Que susto.

— Se assustou comigo? Desse jeito vou acabar levando como ofensa. — Sorriu de lado.

— N-não foi isso que eu quis dizer. É que eu estava distraído e você aparece de repente.

— Então, Connor, como eu ia dizendo, você tá bem bonito.

— Você acha? — O moreno virou para encará-lo.

— Acho. Bem que poderíamos ir a algum lugar, o que acha? — Colton piscou.

Connor se viu realmente preso por aquele gesto e palavra. Tanto é que palavras ficaram presas em sua garganta.

— E-eu não sou gay. — Gaguejou.

— Connor, por favor, quando eu pertencia aos Tigres sempre desconfiei de você. Não adianta negar isso para mim.

— Poxa, como você sabe? —Se entregou, tão idiota.

— Simples, basta olhar para você. —Sorriu, pensando no quão imbecil o outro era.

— Mas eu não me pareço com uma garota. Também não fico agindo como uma.

— Nós, gays, temos algo chamado “gaydar”. O meu vive a apitar quando chega perto de você.

No exato momento em que Colton para de falar, um carro estacionou em frente a república de William. E claro, acabou chamando a atenção dos garotos, que ficaram curiosos com quem sairia dali de dentro: Ian.

O leonino, pareceu ter um dia bem corrido. Tanto é, que suspirou e quase agradeceu aos céus.

— Ei! — Colton chamou.

Ian foi obrigado a abrir mão do descanso e se mover até os outros dois, que continuaram sentados naquela calçada. Ele acabou por sentar junto aos garotos, fazendo Connor ficar no meio.

— O que eu perdi nesse dia inteiro? Alguma briga? Incêndio? Morte? — Ian perguntou.

Ian, apesar do leonino, não agia como tal. Por ser um grande amigo e respeitar William, aceitou o convite do loiro para pertencer aquela república. Por ele, a rivalidade entre Tigres e Leões não existia. Mas, sabendo que só pelo fato de ser leonino, entrou na guerra, mas ainda assim, nunca ergueu sua voz para outro. Paciência, era uma de suas qualidades.

Ele sabia que Connor pertencia aos Tigres, mas pouco se importou com isso. Connor, para ele, era um pau mandado e idiota. Que vivia obedecendo e levando gritos de Sean. Só lhe faltava inteligência para notar que tal república não era para ele.

Dos leões, Ian e Colton sempre se deram bem. O leonino só não aceitou ser amigo do outro, porque realmente sabe o tipo de pessoa que ele é. E, por ser rico, o outro pareceu bem interessado nele. Mas Ian era alguém discreto o suficiente, jamais deixaria óbvio e não daria aquilo que ele queria: sexo e dinheiro. Eram apenas companheiros que dividiram o quarto por um tempo.

— Eu tenho que sair daqui? —Connor perguntou, confuso, olhando para os dois. Ele se sentia estranho.

Connor há um bom tempo fazia parte da Quadra, e sua única amizade era com os Tigres. Mas tal amizade não era comparada a todas as outras que ele via. Quando estava em sua república, só tinha direito de dizer um oi e conversar sobre assuntos que não lhe agradavam.

— Fica aí, não tem problema. — Colton falou.

— Então, por que me chamaram? Eu estou super cansado.

— Há tempos não conversamos, Ian. Você parece não se importar com a minha volta.

— Eu realmente não falei contigo desde que chegou aqui, mas acredite, não é porque eu não queira. É porque você quase nunca tá aqui. Sempre tá em alguma das outras repúblicas.

— Ando resolvendo algumas coisas, deve ser por isso.

— Então não me culpe. O que tá acontecendo lá dentro? — O leonino perguntou, olhando da janela o movimento lá dentro.

— Reunião entre os líderes. —Colton disse.

— Novas regras? —Connor perguntou.

— Não sei, acho só é a mesma besteira de sempre. Ordem... — Colton revirou os olhos. — Eu estava falando pro Connor, ele tá bonito ultimamente, não é?

— Para com isso, desse jeito eu vou acabar ficando sem graça. — Respondeu o outro.

— Mas que mal tem em perguntar? Você deveria se sentir com o ego inflado.

— De qualquer forma eu vou acabar me irritando com isso. E se Sean me ver aqui com esse garoto, vou ouvir um monte. É melhor eu ir antes que...

Connor teve sua fala interrompida quando uma cabeça repousou em seu ombro.

Ian estava tão cansado, que logo após fazer uma pergunta seus olhos se fecharam e ele soltou um suspiro leve. Sua cabeça, sem seu comando, pendeu para o lado esquerdo e encostou-se ao ombro de Connor.

— Shh! — Colton disse, de imediato, quando o outro se atreveu a falar.

— Podem continuar falando. — Resmungou o leonino.

— E você vai ficar assim? — Connor perguntou, sem graça.

Mas já não houve respostas, Ian realmente havia dormido ali.

Connor ficou imóvel por alguns segundos. Seu peito pareceu aquecer com aquilo.

Em sua república, tal toque, seria ofensa e ele seria literalmente discriminado. Somente lá, Octavio tem o direito de expor sua verdadeira sexualidade. Os demais são realmente discriminados.

— Que bonitinho. — Colton murmurou.

— O q-que? — Connor perguntou, assustado.

— Vocês dois. Um babaca, como você, e um inteligente, como ele.

Notas finais
OLÁ! Que saudades eu já estava sentindo, haha. Amores, como notaram, eu mudei a capa da fic (vão lá olhar). Queria saber a opinião de vocês em relação a ela, mandei até meu maridinho lindo (marido de mentira kk) fazer um slogan. Coisa linda que ficou, eu acho. Também tenho que informar a vocês que criei um Ask, segue o link: http://ask.fm/thomasnyah O Ask me tira muitas gargalhadas, de verdade. Se quiserem perguntar algo a algum personagem meu, podem perguntar que eles fazem questão de responder. Sério, eu poderia passar horas respondendo as perguntas de tão divertido que é. E por favor, perguntem! Sério. Eu pretendo fazer um trailer para RDL, o que vocês acham? E ah, notaram também que estou criando um casal novo? Ian e Connor, tão lindinhos. Tô torcendo para que gostem deles. Ultimamente tenho passado tanto tempo empolgado com RDL que vivo horas no twitter conversando com leitores (https://twitter.com/auguztoso), e isso me influencia a escrever mais e mais, fazendo capítulos saírem mais rápidos. Beijosssssss!