República de Leões
10 Capítulo 10
Notas iniciais
— Então, até quando teremos que esperar? — Danion mais uma vez provocou.
William e Colin estavam assustados. Como assim beijar o outro? Colin definitivamente se arrependeu de ter pedido desafio. A verdade é que, em sua mente, esse tipo de desafio não poderia ser feito. Ele até se imaginou tendo que ir à república rival e provocá-los, mas beijar o líder de sua república era pior.
— Eu não sou obrigado a assistir isso. — Gaspar falou, levantando-se. — Beberei água, na volta, espero que esse desafio tenha sido feito.
— Isso é exagero, beijar outra pessoa não é algum tipo de desafio. — O loiro disse, tentando manter a autoridade.
— Não me culpe. O seu protegido aí pediu desafio, achou que seria algo fácil. Você me conhece muito bem, Will, deveria avisá-lo a respeito. — O branquelo sorria vitorioso.
— Ai, por favor, é só um beijo, um desafio, prove de que é capaz, Colin. —Leo proferiu, como se estivesse desejando isso por anos.
Alguém bateu a porta.
Quem resolveu atender foi Ian, que se levantou contra sua vontade após todos olharem para ele. Do outro lado quem estava era Sebastian, Caine e Octavio.
Os três que acabaram de chegar olharam para o grupo reunido ao redor da garrafa. O contato visual entre Octavio e William foi inevitável, principalmente da parte do loiro, que mostrou-se assustado com aquilo. Sabia dos sentimentos do outro para consigo, e isso, de alguma forma, o machucaria se soubesse sobre o que iria acontecer.
— Temos que conversar, William. — Sebastian falou.
Era engraçada a forma como que Sebastian era tratado naquela república. Ele não era um membro, mas de qualquer maneira tinha o respeito e admiração daqueles ali. Certamente que da parte de Danion não era algo por completo, mas a metade. Todos ficavam em silêncio em sua presença, porque sabiam que ele tinha algo a tratar. Somente quando havia confusão que ninguém respeitava a autoridade do ruivo.
— Agora? — Indagou o loiro.
— Sim. — Disse, curto.
— William não vai. Colin precisa realizar o desafio. — Danion falou, um tanto irritado por interromperem a brincadeira.
— Desafio? —Caine perguntou.
— Caralho, vocês ainda tão nessa? Eu fui beber água, voltei e nada desse desafio ser cumprido. — Foi Gaspar quem apareceu depois.
— Que desafio é? — Caine novamente perguntou.
— Eu desafiei Colin a beijar William. — Danion disse com todas as letras. Sabia o impacto disso.
Silêncio. Olhares. Grande parte da atenção se dirigiu a Colin, mas uma em especial foi para o loiro.
— Certo. — Sebastian falou, quebrando o silêncio e fazendo-se de desentendido. — Quando terminar esse desafio vá à minha república. Vamos, Caine. Você também Octavio. — O ruivo foi o primeiro a por os pés para fora.
— Eu não vou. — Octavio disse, firme. Ator. — Eu não posso perder esse desafio. — O sorriso fez parte da atuação.
— Que seja. Espero vocês. Não demorem.
Sim. Aquilo que Octavio decidiu fazer foi algo simples. Ele sabia que se o beijo acontecesse, doeria muito. Até porque perder para um calouro — não tanto assim — seria algo difícil de aceitar. Também queria saber se William era capaz, pois dentro de si ele acreditava que um dia pudessem ficar juntos. Somente acreditava.
— Certo. Pelo visto a brincadeira acaba e esse desafio ainda não é realizado. — Gaspar falou, jogando-se no sofá.
Provavelmente Gaspar era o único ingênuo dali. Danion admitiu para si mesmo se sentir desconfortável por Octavio ter que presenciar. Leo sabia de tudo. E Colin jamais iria admitir tal beijo.
O pequeno e o loiro trocaram olhares, como se estivesse conversando. Colin não queria. Não daquele jeito. Odiava machucar as pessoas, embora quisesse profundamente magoar certo moreno. Mas Octavio era alguém legal, pelo menos para com ele. Beijar William só ia desencadear dores passadas, lágrimas escondidas e mágoas.
— Vamos logo com isso.
Foi tudo que o loiro disse antes de puxar Colin para si e roubar-lhe um beijo.
Beijo surpresa.
Teria sido um beijo qualquer. Teria.
Mas não quando Colin se deixasse permitir depois de sentir aquela pegada firme. Até porque ele sempre fora vulnerável a isso. Não foi um beijo longo, tão pouco carregado de paixão. Mas foi um beijo ardente pelo simples domínio rápido do leonino líder. Colin só quis provar que era capaz de cumprir o desafio. Teve que aceitar a invasão daquela língua, mesmo que por poucos segundos. William ficou admirado. Deixou-se guiar e esquecer que pessoas estavam naquela sala. Estava surpreso por saber que Colin permitiu-se a aceitar aquele tipo de ousadia.
Gaspar revirou os olhos. Ian sorriu. Leo ficou boquiaberto. Danion levou a mão à boca. Rick parou de se mexer. Colin? Esse ficou sem reação. Octavio? Bom, esse sentiu o coração apertar.
Por um minuto ficaram em silêncio. Os lábios de Colin estavam vermelhos, os de William não estavam tão diferentes, pra falar a verdade, estavam mais vermelhos que tomate. Foram os olhares que conversavam entre si. Não só daqueles que protagonizaram a cena. Mas de todos ali.
— Você me surpreendeu, William. — A primeira frase dita por Octavio. — Colin cumpre aquilo que diz, isso é motivo de orgulho.
Não foi a frase que causou impacto. Mas sim o sorriso falso que Octavio tentou mostrar para todos. Era notável seu desconforto. A sua dor. A sua tristeza.
— Enfim, vou indo nessa. Sebastian vai me matar se eu demorar mais um pouco. — Disse o moreno, ainda tentando disfarçar.
Imediatamente Octavio saiu dali.
— Bom, eu irei ver o que Sebastian quer comigo. — William disse, levantando-se. Mas antes de dar o primeiro passo olhou para Colin, que ainda tentava aceitar que aquilo acontecera.
— Precisamos conversar. — Rick, o mulato, disse.
Foi um olhar de repreensão. O mulato demonstrou não gostar do que viu.
— Só depois que eu voltar.
— Eu te espero, nem que seja na madrugada. — Continuou dizendo.
— Tudo bem. — O loiro falou, caminhando sem olhar para os demais, até finalmente sair da república.
Ainda assim o silêncio continuou. Rick foi o primeiro a sair junto de Gaspar que o seguiu até a cozinha. Ian sabia que aquele tipo de conversa não era para ele, sendo assim, resolveu sair da república e passear.
Leo e Danion foram os únicos a continuarem. Eles olhavam para Colin que, tomado pela culpa, ficou sentado, limpando seus lábios com a língua.
— Eu acho que exagerei no desafio. — Danion murmurou, sem graça.
— Você acha? — Leo falou.
— Que seja. Me pediram um desafio. Eu jamais iria imaginar que Octavio apareceria aqui. E a propósito foi você quem me sugeriu esse desafio.
— Danion! — Leo disse de imediato.
— O que foi? É essa a verdade. — O branquelo disse, franzindo o cenho.
— Agora já aconteceu, não adianta tentar mudar. Rick vai resolver essa parte com William.
— Colin? — Danion chamou, desviando o assunto e a culpa que estava sobre si.
O pequeno não respondeu.
— Colin? — Leo também chamou.
O dono dos olhos caramelos apenas os fitou.
— Você está bem? — Indagou o branquelo.
— Sim. Só estou meio que... Eu não consigo explicar. Preciso ir pro quarto.
Fora dali, estava Octavio. Ele ficou parado em frente à república de Sebastian. Não sabia se entrava ou se permanecia ali fora. Havia desistido de conversar. Relembrou por milhares de vezes a cena. Odiou o fato de William ter tomado a atitude de puxar Colin para si e beijá-lo, ali, em sua frente.
Arrependeu-se de ter ficado do lado de fora, pois logo depois William apareceu e parou em frente à porta. O loiro sorriu antes de entrar. Foi óbvio o desconforto dos dois.
O melhor que Octavio pode fazer foi retribuir o sorriso, mas logo depois disso voltou à sua república. Passou pelos companheiros Tigres, subiu as escadas e procurou o seu refúgio. Não chorou. Não iria. Pelo menos estava colocando isso na sua cabeça.
Logo encontrou Sean desenhando. O moreno e líder não havia notado a sua presença, estava tão empenhado com os traços que desligou-se do mundo e da raiva contida dentro de si. Mas o bater de porta que Octavio causou o fez despertar.
— Que conversa rápida. O que ele queria? E ah, antes que você pergunte, eu ainda não comi. — Sean falou, com o lápis entre os dedos e sem olhar para o amigo.
— Não teve conversa.
Três únicas palavras. O suficiente para Sean perceber o peso que elas tinham. O moreno logo olhou para o amigo que desmoronou em lágrimas, sentando-se na cadeira próxima.
Sean largou as folhas e caminhou até o amigo, envolvendo o braço em seu ombro. Parte dele sabia o que tinha acontecido. Imaginou que as lágrimas tinham relação com William, e isso só nutria ainda mais aquela raiva que ele carregava pelo irmão.
— William é um idiota. Sem coração. — Iniciou Octavio. — Não! Ele não é um idiota. Eu que sou por continuar lá e assistir aquilo com meus próprios olhos.
— O que? — Sean indagou, confuso.
— Eu sou um idiota, Sean. Só isso.
— Me fale o que aconteceu que se necessário for eu vou lá bater naquele idiota. Me diz logo, Octavio.
— Não iria resolver. O problema não tá nele. Tá em mim por ser um idiota e ainda tentar consertar o que ainda não foi resolvido.
— É, isso é uma verdade. — Sincero, o moreno disse.
— Não piora, Sean. Você não entende. Você o odeia e jamais entenderá. — Octavio se levantou, afastando-se de Sean e jogando-se na cama ali.
— Tá. Que seja. Vai me contar o que aconteceu dessa vez ou não? — O dono dos olhos escuros caminhou, acompanhando-o até a cama.
Sean nunca poupou as palavras nem as ações com Octavio. E o amigo fazia o mesmo. Era essa a relação deles, banhada pela sinceridade, sem ter piedade e sempre mandando verdades. Mas apesar de tudo, eles se entendiam e jamais estariam ali para magoar o outro. Sean o protegeria até a morte. Octavio faria o mesmo.
— William beijou Colin e eu assisti tudo.
— Como é que é?! — Não era para ter soado tão forte e pausadamente assim. — Você só pode estar brincando. — Dessa vez seu tom de voz voltou ao normal.
— Por que eu iria brincar com algo do tipo? Você não tá vendo como estou? — Octavio mais uma vez sentiu as lágrimas descerem.
— Desculpe, é que... — Não conseguiu obter as palavras que queria. — Você quer que eu vá lá resolver as coisas?
— Sei bem como é esse seu tipo de solução. Não vai adiantar e você sempre toma uma surra de William.
— Ótimas palavras.
— Não seja idiota, Sean.
— Mas Octavio, poxa, você também se deixa permitir que esse tipo de coisa aconteça. Essa relação de vocês já não existe há tempos. — O moreno deitou, acomodando-se para que o amigo repousasse sua cabeça em si.
— Você nunca vai entender.
— Caralho, Octavio. Claro que eu entendo. Vejo todos os dias essa novela que vocês dois vivem. Porra, é meu irmão, um infeliz. Acho que você não deveria dar esse valor todo a ele. Já te falei isso milhões de vezes. Por esse motivo e tantos outros que meu ódio por ele só aumenta.
— Um dia você amará novamente e saberá do que falo.
— Eu sei bem qual é a sensação de amar e de sofrer por isso, mas de qualquer forma acho idiotice sua permanecer dessa forma. Só você não percebeu que William já não te dá mais o valor que você dizia existir. Meu irmão só queria transar contigo.
— Não somos mais os adolescentes do passado, Sean. Não vivíamos uma relação do tipo. Você quem era assim, mas no final quebrou a cara e se magoou.
— Certo, vai trazer a história do passado e focar em mim? Estamos falando do problema Willavio. Octaviam. Que seja, não sei que nome dar a vocês.
Octavio sorriu por tamanha idiotice.
— Isso, sorri mais uma vez. — O líder provocou.
— Para de ser idiota.
— Vamos parar com as lágrimas? Não é a primeira vez que isso acontece. Me deu fome, o que você acha de comer alguma coisa? — Sean sugeriu, levantando-se da cama.
— Agora sou eu quem perdeu a fome. — Disse Octavio contra a vontade de se levantar, mas não resistiu à animação de Sean, e para ele isso era algo bom, pois momentos como esses eram raros.
Poucos eram aqueles que conheciam esse lado de Sean. O lado companheiro, amigo, gentil e idiota. Poucos?! Não. Somente Octavio o conhecia dessa forma. Sabia que certa porcentagem do moreno não era de maldade, amargura, frieza entre tantas outras coisas que o definia como alguém chato e extremamente antipático.
Foram necessários dois dias para que, pelo menos, as coisas pudessem voltar ao normal. Principalmente entre Colin e William, cuja relação de repente já não era mais a mesma. Não generalizando, mas dessa vez ele conversavam como dois estranhos. Principalmente Colin que não conseguia olhar nos olhos de William sem antes lembrar-se do beijo.
Colin ficou um dia sem ir à universidade por um único motivo: vergonha de encontrar Octavio nos corredores. Vergonha de olhares, porque provavelmente boa parte dos que residiam na Quadra Nove estavam sabendo daquilo. Embora soubesse que foi um desafio, e existiam milhões de desculpas para dar e resolver a situação, o pequeno ainda se sentia constrangido. Danion já resolvia essa parte dizendo que o álcool fora o culpado de tudo aquilo, que fora ele quem propusera o desafio levantando a bandeira de garoto malvado.
— Você não vai comer? — William indagou ao entrar no quarto. — Só falta você lá embaixo.
Era domingo, dia considerado feliz e sem preocupação. Todos os leoninos estavam reunidos e isso significava que a animação naquela república seria grande.
— Já desço, só vou vestir uma camisa. O que Rick fez pro almoço?
— Macarronada de alguma coisa. Aqueles nomes lá estranhos que ele sempre coloca. — O loiro sorriu, tentando descontrair.
— Ninguém entende o significado. — Colin acabara de pôr sua camisa e estava prestes a sair quando William se colocou à frente.
— Me desculpe. — Disse o loiro. — Eu não queria criar esse clima estranho entre nós dois. É só que...
— Will, — Colin interrompeu — não precisa falar mais nada. Aconteceu, tá bom? — O pequeno falou firme, sem retirar os olhos do maior.
— De qualquer maneira acho válido te pedir desculpas, devo imaginar como você tá se sentindo. Acho que acabei te envolvendo na minha relação com Octavio.
— Sinto um dedo do Rick nisso aí que você tá falando.
— Foi ele mesmo quem conversou comigo a respeito. Mas cara, é algo complicado de se entender.
— Outro dia conversamos a respeito disso. Vamos descer que estou faminto.
Colin puxou William pelo braço, retirando-o do quarto e descendo as escadas.
O almoço dos leoninos rendeu uma pia cheia de louça, uma cozinha bagunçada e um Rick estressado. Estresse momentâneo, pois em questão de minutos conseguiram fazê-lo sorrir. Enquanto Danion estava deitado sobre a perna de Colin, os demais assistiam TV.
— Programas chatos, não tem algum filme legal aí não? — Gaspar perguntou.
— Comprei alguns na semana passada, mas não sei exatamente onde coloquei. — Rick respondeu.
— Filmes de romance, de flores, aventura... Não! — O barbudo disse, revirando os olhos.
— Vai se foder, só isso. — O mulato falou mostrando-lhe o dedo do meio.
— Gosto de filmes de ação, suspense ou até terror. Tem algum? — O barbudo ignorou o gesto e perguntou com indiferença.
Gaspar foi ignorado por todos.
— Aqui tá muito sem graça, vou paquerar que é o melhor que faço. — Ele disse, saindo da república logo em seguida.
William até cochilou minutos depois, Leo foi o próximo. Os únicos a permanecerem firmes foram Colin, Ian e Rick. Nenhum dos três prestava atenção no programa da TV, estavam pensativos.
Para um domingo, as coisas na Quadra Nove estavam calmas demais. Mas, milhares eram os motivos para isso acontecer, o maior deles era o descanso. Outros até optavam por passar o dia fora dali e só voltar quando fossem dormir.
Era noite, por volta das 22 horas.
—Acho que você deve conversar com Octavio. — Caine falou, sentado em sua cama.
— Não sei se tenho essa coragem. Fiz de tudo para não pensar nisso nesses dois últimos dias, mas parece que nada adianta. Eu sempre me lembro de Octavio e sua reação. Outra coisa que me incomoda é o fato de William agir tão naturalmente. Tô me sentindo um monstro por magoar Octavio, mas eu não podia evitar.
— Podia. — Caine falou.
— Certo, eu podia. Mas não quando fui pego de surpresa. — Quis dar ênfase no “pego”, porém, se conteve.
— Continuo achando que dava pra evitar. Era só você falar que não queria e fim.
— Já está ficando tarde. — Colin falou, levantando-se e olhando para o relógio na parede. — Melhor eu ir. — Mentiu. Colin só queria escapar mais uma vez desses pensamentos e desse sermão.
— Você já saiu daqui bem mais tarde que isso.
— Eu sei. Mas hoje não estou com tanta animação pra continuar conversando. Nos vemos amanhã na universidade? — Disse o pequeno, já saindo do quarto.
— Se eu faltar Seb me mataria. Me espera eu te acompanho até a porta.
Caine correu para acompanhar o seu então único e já considerado amigo. Colin nem se despediu direito quando passou pela porta. Começou caminhando em direção à sua república, mas passou dela, seguindo em frente.
Não iria entrar naquele lugar no momento. Não mesmo. Não queria encontrar William. Não queria mais uma vez demonstrar a preocupação e ter a mesma conversa com Rick. Ou então as brincadeiras que se tornaram chatas por parte de Danion a respeito do que acontecera.
Continuou a caminhar. O lugar ele não sabia, mas não parou de prosseguir. Era tudo que sua mãe havia dito mais uma vez. Evitar problemas. E olha onde ele acabou se metendo? Mesmo que essa não fosse sua intenção.
— No final, você sempre acerta. — Sorriu para si mesmo ao lembrar-se da mãe.
Colin teve seus pensamentos interrompidos quando de repente foi pego de surpresa pelo braço e arrastado até a árvore de uma das repúblicas da Quadra Nove. Demorou a focalizar o rosto que o encarava. Por estarem embaixo de uma árvore e somente sob a luz da lua, perdeu quase um minuto para tentar descobrir quem havia feito isso com ele.
Era de fato a mesma pessoa de sempre. De olhos negros, mãos hábeis e brutas.
Usava o mesmo moletom com que teve seu primeiro contato visual com Colin na lanchonete e aconteceu exatamente como o pequeno havia imaginado; quando o moreno retirou o capuz da cabeça, pôde ver o contato entre a luz da lua e os cabelos negros de Sean. Aqueles olhos penetrantes e quase sem cor, porém, aquele olhar causava-lhe medo devido à sua expressão de raiva.
— Felizmente te encontrei sozinho. — Disse o moreno, rude.
Colin então notou a dor sentida após o impacto contra a árvore.
— O que você quer, seu desgraçado? — Disse o pequeno, assustado, porém falando no mesmo tom. — Me larga.
— Como ousa machucar Octavio? — Indagou Sean, fuzilando-o com os olhos.
Colin, que tanto tentou fugir dessa pergunta, se viu, naquele momento, perdido. Mas sua raiva por Sean de qualquer maneira era maior do que qualquer tipo de pensamento.
— Isso não é da sua conta. Agora me larga. — Ele apertou o braço do outro, mas isso não adiantou.
— Você anda merecendo uma surra, e acho que já chegou a hora disso acontecer. — Sean apertou mais uma vez Colin contra a árvore.
O pequeno só pôde fazer aquilo que mais foi cabível: morder. Rápido como uma bala, os dentes de Colin cravaram no braço que o prendia contra a árvore, fazendo Sean gritar pela dor.
Quando o pequeno tentou fugir, falhou. Caiu no gramado tropeçando no galho seco que havia pelo caminho. O moreno riu ao presenciar aquela cena. Rápido, o levantou pela camisa e mais uma vez o arrastou para a árvore.
— Por que machucar Octavio? — Sean perguntou mais uma vez.
— Não foi a minha intenção. — Colin respondeu imediatamente e ainda relutando para se desprender daqueles braços fortes.
— Não foi?! — Sean gritou.
— Porra! Eu quero dormir. — Alguém atrás de alguma janela gritou. Sinal de que estava tarde para barulhos.
— Não foi? — Dessa vez Sean sussurrou. — Você sabia do amor que Octavio tem por William.
— Por que eu te devo explicações? — Colin continuava mostrando a dureza de suas palavras. — Se há alguém que merece explicações, esse alguém é Octavio.
— Você deve explicar. Você mexeu com meu melhor amigo, e isso não é algo que eu deixe passar. Continuo achando que você merece uma boa surra.
— Sabe, Sean, há muito tempo você vive falando que eu mereço uma surra, por qual motivo eu ainda não fui surrado? — A pergunta que virou problema.
Sean engoliu o seco. Respirou fundo e desviou o olhar. Odiava essa qualidade de Colin; saber usar das perguntas como ataque.
— Porque eu estive muito paciente por esses dias. — Foi a melhor resposta que teve.
— Vou começar a achar que você não é tudo isso que demonstra ser. — Colin disse, parando de se debater e sorrindo com os lábios. Provocação.
Sean quase socou a árvore por tamanha raiva que sentiu após aquela provocação. Era incrível como o pequeno não se mostrava intimidado diante daquele moreno. Apesar de que interiormente ele sempre teve medo do que Sean pudesse fazer quando estivessem sozinhos, mesmo assim, a sua maior arma era não mostrar-se nervoso ou temendo-o.
— Sabe, Colin. Desde que você adentrou a Quadra Nove, tornou a vida de muita gente um inferno. Você não tem ideia da quantidade de pessoas que querem o seu mal, simplesmente por adentrar tão de repente na república de William.
Por que Sean estava dizendo aquilo Colin não sabia, mas tentava entender. Afinal, alertá-lo sobre a quantidade de pessoas que o odiavam era algo consideravelmente amigável.
— Mas você mexeu com um dos meus. — Continuou Sean. — Já não basta eu sair com a fama de covarde por sua causa após dizerem que eu te espanquei. E de me fazer um idiota como o garotinho que teme o leonino novato. Ou virar motivo de piadas entre os corredores da área de odontologia, falando que eu estou perdendo a fama de bruto para um anão.
Colin parou com o sorriso de vitória. Olhou fundo nos olhos de Sean e ficou atento a todas aquelas palavras. Percebeu que havia motivos para Sean odiá-lo e sempre persegui-lo de tal forma.
— Você pediu para levar a culpa.
— Sou egoísta, Colin. Odeio ter que dividir a atenção, mas parece que você adora invadir o meu espaço. Mas eu suportei tudo isso pacientemente. Porém, você mexeu com Octavio e eu não posso deixar isso em branco. Preciso mostrar quem realmente é o rei da Quadra Nove.
— Rei... — Colin não pôde evitar o riso que deixou escapar. — Tão infantil.
— Para com a porra dessa provocação. — Por pouco não gritou.
— Infantil! — Repetiu.
— Certo. Foi você quem pediu.
Foi tudo rápido demais para Colin captar. O que viu foi só o punho de Sean vir em direção à sua face, mas imediatamente parar em seu nariz.
Não houve soco. O moreno não conseguiu.
O punho fechado permaneceu encostado no nariz de Colin. Ambos em silêncio. Nada de olhares, nada de reações. Apenas o bater de corações que a qualquer momento poderia ser audível para ambos.
— Esquece. — Murmurou Sean dando as costas.
O moreno deu um único passo. Um único.
Mas havia perdido todo o controle tão de repente, que virou-se, jogou Colin mais uma vez contra a árvore e dessa vez o beijou. Sim, o beijou.
Ao perceber que a língua de Sean implorava por passagem, notar que suas mãos o pressionavam não mais de forma bruta, mas que ainda assim pressionava sua cintura. Os olhos de Colin quase que pularam para fora ao sentir aquele contato.
Houve ali uma ligação. Algo que jamais poderia ser explicado pela parte dos dois. Sean conseguiu fazer com que Colin também perdesse o controle, e em questão de segundos, deixasse permitir a passar de sua língua.
Colin dessa vez fechou os olhos e aceitou o beijo. Aceitou o aperto. E esqueceu. Absolutamente esqueceu. Na verdade, ambos esqueceram-se daquela raiva existente entre eles, que servia como uma barreira.
O moreno sabia que era necessária uma faísca para então causar um incêndio.
Ambos pareciam desejar isso há muito tempo, mas nunca pararam para pensar.
As mãos de Sean já não se mantinham no lugar de antes. A esquerda subiu para a nuca e a outra encontrou a coxa de Colin, levantando-a e fazendo-a com que envolvesse a sua cintura. Por segundos o ergueu do chão, ainda beijando-o.
Excitação. Fogo. Prazer ardente. Beijo quente, capaz de queimar parte do gramado.
— Sean...— Colin tentou falar. Mas as palavras foram apagadas rapidamente.
O beijo continuou a ir além do esperado. Ambos eram bons de fôlego. Colin tentou afastar Sean de si empurrando-o pelo tórax. Mas não tinha forças. Não depois de perdê-las após esse beijo.
Mas felizmente ou infelizmente o beijo teve fim. A ligação dos lábios foi desfeita dando então início à ligação entre olhares. Confusos. Assustados. Mas apesar de tudo sedentes por mais daquilo.
— O que aconteceu? — Colin murmurou, levando as mãos para seus lábios sem retirar os olhos de Sean.
O moreno viu a luz de entrada da república ser acesa. Rapidamente soltou-se de Colin, pusera novamente o capuz em sua cabeça e saiu como se nada estivesse acontecido.
Não era amor. Nem mesmo paixão. Mas provavelmente o início disso.
Fale com o autor