República de Leões
3 Capítulo 03
Notas iniciais
Caine caminhava pelas calçadas da Quadra Nove. Estava pensativo, observando o vai e vem de outros jovens como ele. Era seu primeiro ano na universidade, porém, há dois anos morava com o irmão. Diziam que Caine era uma presa fácil, mas tendo um irmão tão respeitado, ele saía das miras daqueles provocadores por natureza. Mas, como em todo lugar, sempre há aquele que vive a nos atormentar quando nos mostramos vulneráveis a ele. No caso desse garoto, Danion era o provocador.
Diferente de Sebastian, Caine não nasceu tão ruivo assim. Se bem que não era considerado um. Tinha os cabelos castanho claro. Filho de um pai ruivo e uma mãe loira, dos três irmãos, era o mais novo. É menor que Sebastian, que por sinal é o garoto mais alto da Quadra.
O sol incomodava naquele fim de manhã. Arrependeu-se por colocar camisa de mangas longas ao sair para a universidade, pois o tempo, até recentemente frio, mudara dessa forma. Por estar tão próximo da casa, ou república, largou sua mochila no chão e retirou sua camisa, exibindo os poucos músculos que tinha, amarrou a peça em sua cintura e pôs a mochila novamente em suas costas.
Não esperava acontecer nada até sentir um braço envolver seus ombros. Aquele contato o assustou e ele não teve nenhuma reação maior quando ouviu a voz de Danion. Se serpentes falassem, a voz desse era semelhante, só um tanto mais densa.
— Que belo dia, não? — Perguntou Danion, acompanhando Caine.
Ele demorou pra responder, ainda pego de surpresa. Porém, acabou cedendo, mesmo trêmulo.
— Tá calor, não é? — Respondeu, mas teve medo que sua pergunta tivesse soado de forma diferente.
— Concordo. Eu nunca entendo o tempo mesmo. Mas eu não estou aqui por isso. Você sabe exatamente o motivo de estar assim com você.
— E-eu comprei seus cigarros. — Caine tremeu novamente, tentando enfiar as mãos na mochila.
— Muito bem! — Ele sorriu — Como prêmio, te levarei até a sua república. Só espero que o babaca do seu irmão não esteja lá.
Danion não gostava de ir comprar seus cigarros, o único lugar que vendia ficava distante. Duas ruas depois da faculdade. E por pura preguiça, ele forçava os outros a irem em seu lugar. Por exigência, até pedia bebidas quando queria.
Caine assentiu. Ambos caminharam até a república onde o menor até então morava. Pararam na sombra de uma da árvore, quase sem vida. O menor retirou então os cigarros e os entregou a Danion e em seguida o isqueiro. Estava tão habituado ao fato de Danion esquecer os seus, que sempre carregava um em sua mochila.
— Eu vou entrar. — Manifestou-se, finalmente.
— Não vai. — Danion disse, acendendo o cigarro e encostando-se à árvore.
— Eu preciso.
— Eu não tenho ninguém pra conversar hoje, todos estão estudando. Você pode ficar aqui comigo, batendo um papo. Viu que máximo. — Soltou a fumaça no ar e sorriu.
Danion, melhor do que ninguém, sabia do interesse de Caine, mesmo nunca deixando claro. Mas nada fazia com que o maior acabasse cedendo. Achava o outro uma criança perto dele. Por isso abusava da autoridade que geralmente cabia somente para o menor. Já que se tentasse usar para os demais, com certeza iria acabar criando confusão, e ele não queria mais inimigos do que já tinha.
Colin, por sua vez, estava agora saindo do seu primeiro dia de aula. Foi tudo tão mágico, uma aula de apresentação, com diversas histórias sobre a futura profissão. O garoto adorava tudo quanto é forma de casebre a arranha-céu. Sonhava em ter algo elaborado por ele. Incentivado desde a infância, quando desenhava casas das mais diferentes formas em folhas de papel em branco e mostrava pra sua mãe. Logo, decidiu ser um futuro arquiteto, senão o mais conhecido. Sonhava alto.
Era o único de sua república a optar por esse curso. Descobriu então que Will seria um futuro médico, Leo cursava algo relacionado às artes, mas ele não sabia ao certo o que era. Tanto porque Leo certa vez disse: “Tudo é arte.” E ele ficou confuso com aquilo e disse: “Se elaborar projetos for arte, então eu sou um artista?” Leo apenas sorriu. E Colin resolveu não dar continuidade ao assunto.
Teria que voltar à tarde novamente para a universidade, pois tinha mais uma rodada de apresentações com novos professores. E ele não queria perder isso. Estava louco pra conhecer mais pessoas, além de novos lugares.
Ele parou bruscamente quando à sua frente viu Sean passar. O cheiro forte e amadeirado. Madeira de cedro. O mesmo sorriso esnobe em sua face quando o encontrou, os cabelos negros, ora brilhando em pequenos feixes de luz. Tão perfeito, mas tão idiota.
— Da próxima vez pede licença. — Colin forçou-se a falar, conseguindo chamar a atenção de Sean. Por pouco não teria tropeçado.
O moreno parou por alguns segundos, até se virar sorrindo. Sorriso irônico e extremamente antipático. Digno de Oscar da pessoa mais cínica do mundo.
— Pra um leonino? Você acha mesmo que isso é necessário?
Colin revirou os olhos pela resposta do maior.
— Falo de educação. E não de rixas entre repúblicas.
— Vejamos o que tem aqui. — Sean aproximou-se e encostou sua mão no queixo de Colin, levantando sua face para olhar em seus olhos — Mais um valente? Você não me conhece há tanto tempo pra saber com quem tá mexendo.
Colin piscou três vezes e virou seu rosto, saindo da mão de Sean. Voltou a encará-lo, e sorriu, de forma seca.
— Como pode alguém tão grande usar argumentos tão pequenos?
Era notável como Sean não gostou de nada do que ouviu. Socar Colin seria uma das opções, mas somente sorriu com as palavras, fingindo não ser atingido.
— Lembra-se do que eu te disse quanto a me entregar no dia em que invadi a república de vocês?
— Vai arrancar minha língua? — O menor não se mostrava intimidado, somente cruzou os braços e bateu os pés, ainda revirando os olhos.
— Bem irritadinho você, não? —Sean disse, quase chegando ao seu limite de paciência.
— Eu realmente estou cansado. Não há porque perder tempo aqui.
— Parece até...
O dono dos olhos castanhos o ignorou. No momento em que Colin passou por Sean, sentiu ser puxado bruscamente para mais perto do moreno. Novamente a mesma sensação que aconteceu quando foi lançado contra a parede dias atrás. Aquele olhar que o hipnotizava e aquela pressão sobre seu corpo. E por incrível que pareça, o garoto tinha um hálito bom, os dentes lapidados e brancos. Quisera ele dizer que Sean já usara aparelho ou passara anos em dentista.
— Nunca me dê as costas quando eu estou falando. — Vociferou.
— Caso contrário o que você irá fazer, Sean? — Will surgiu logo atrás do moreno, pondo a mão em seu ombro e o afastando de Colin. — Chamar seus amigos para bater em Colin assim como fez com Gaspar?
— Ou usar das artimanhas pra fazer a família de Ian vir até aqui na tentativa inútil de retirá-lo da república? Assim conseguiria acabar com nossas chances de continuar pagando o aluguel. — Aaron também surgiu, com mochila nas costas e um sorriso também esnobe em sua face.
— Teve também o dia em que vocês pegaram Danion desprevenido e o deixaram um dia sem comer. Além de espancá-lo. É isso que você irá fazer com Colin? — Gaspar agora aparecia, formando um triangulo ao redor de Sean e Colin.
Colin tornou-se inútil ali. Primeiro porque ficou com medo de Sean. Sim, ele sentiu medo, e agora ouvindo o que o moreno era capaz de fazer, estava com mais medo ainda. Seus amigos falavam aquilo como se não fosse nada demais, como se Sean fosse previsível e doente a ponto cometer tais absurdos.
O moreno não perdeu a postura. Dessa vez ria mais sério do que minutos atrás.
— Se vocês quiserem e — deu ênfase na letra — deixarem, posso fazer coisa pior. Mas os idiotas com certeza vão interferir, não é mesmo?
— Para de ser babaca, Sean. Há dias eu estou louco pra encher essa tua cara de soco, você acha mesmo que nós esquecemos o que você fez invadido nossa república? — Era Will quem falava agora, e por incrível que pareça, estava sorrindo.
Mas então Sean gargalhou. Sua gargalhada cortava o vento de tão afiada que estava sendo naquele momento. Áspera e de entonação forte, seca e compacta.
Will tocou o ombro de Colin e o puxou para o seu lado, afogando o menor em seu braço.
— Então venha, Will. Você e os dois se quiserem. Os quatro, na verdade. Vou adorar arrancar mais uns dentes com meus punhos.
— O futuro dentista. — Provocou Aaron.
Dentista?!
Will odiou a presença de Santiago ali. Quando viu que o ex-colega se aproximou, juntando-se a Sean no centro, quis vomitar em sua cara por tamanho nojo que estava sentido dele.
— Como é a sensação de ter mais um leonino convertido? — Sean indagou.
Santiago revirou os olhos. Colin sorriu. Ao que parece, a autoridade de Sean era maior do que a de Will. E ele queria ver o dia em que esses dois brigassem.
— Eu adoraria que vocês brigassem, mas não perceberam que vocês acabaram chamando a atenção de mais pessoas?
Colin não conhecia a pessoa que tinha aparecido. No momento em que se posicionou no meio, Will, Gaspar e Ian, e Colin, é claro, ficaram de um lado, enquanto Sean e Santiago ficaram do outro. Esses, por sua vez, conheciam perfeitamente a pessoa que resolveu interferir: Sebastian.
— Will você havia me dito que ia ter paciência com o Sean, não foi mesmo? — Sebastian indagou, sorridente, tentando amenizar a situação. Logo virou e olhou para Sean — E você que iria tentar evitar confusão por pelo menos uma semana. Por que diabos vocês dois nunca cumprem o que dizem?
Os dois apenas trocaram olhares. Logo depois, uma garota, de beleza encantadora, de cabelos escuros como breu, surgiu sorrindo, envolvendo sua mão na cintura de Sebastian e pondo o queixo em seu ombro. Colin mais uma vez não conhecia a nova pessoa que chegara.
— Não sei vocês, garotos, mas eu particularmente gosto de confusão. Porém, vocês deveriam começar a parar com isso, vem atraindo as demais vizinhanças para cá. E ninguém quer ter sua república tomada, certo? Esses vizinhos chatos acabam nos entregando facilmente para nossos pais. Pergunto-me quem diabos são eles pra conseguirem contatos com nossa família. — Ela agora olhava as suas unhas — Lembram-se do caso de Louise? De Peter? Cameron? Entre muitos outros. Vocês deveriam tomar isso como exemplo e evitarem esses conflitos.
— Mas quem entregou Peter foi Sean. E ele era um dos nossos. — Gaspar disse, irritado. Lembrar-se do ocorrido realmente trazia péssimas lembranças.
— Bem, isso é verdade. — A garota disse. — Mas de qualquer forma, devemos evitar.
Colin ficou encantado. Teve que admitir isso. A garota era linda, como já dito, soube chamar a atenção de todos, sabia gesticular e falar em público. E para ele, uma garota assim, era considerada fatal. A ponto de levar um garoto aos caminhos mais escuros a que ela direcionasse.
— Meu amor, lembra-se de que pedi pra você não se envolver nisso? — Foi a vez de Sebastian falar.
— Eu tento, mas é estressante.
— O que é estressante?
Todos conheciam muito bem aquela voz de serpente. Danion tinha aparecido, tragando um cigarro e esboçando um sorriso em sua face. Ele com certeza imaginava o que estava acontecendo, mas fingia não entender nada, só fizera atrair a atenção para si. Com ele, estava mais um garoto, Caine, que tinha aparentemente a idade de Colin, como também o mesmo tamanho. Ambos trocaram breves olhares, mas não sorriram. Eram somente dois estranhos tentando se conhecer por um simples olhar, falho.
— Certo. Eu prefiro sair daqui. Tenho que dar exemplo a vocês, mas quando esse garoto chega, tenho medo de perder a paciência. — Falou Sebastian já saindo, segurando a garota em sua mão. — Caine, vem. — Gritou, quando já se afastava.
Caine o seguiu sem contestar.
Aquela tensão continuou por ali só por mais alguns minutos. Ninguém tivera coragem de se mover. Olhares sádicos, espertos e travessos. Danion passava a mão em seus punhos, enquanto Sean continuava a sorrir. Will estava sério. Santiago parecia nem mesmo se importar com o que acontecia, mas continuava em seu posto de guarda-costas. Gaspar encarava todos, e Aaron passava sua mão em seu cabelo.
— Tá.— Disse Colin, finalmente. — Isso é uma competição de quem tem o olhar mais bonito ou vai ter uma confusão onde todos irão acabar no hospital? Eu particularmente perdi a paciência, e se vocês me dão licença — ele falou, abrindo caminho — eu preciso voltar, pois ainda tenho aula no horário da tarde. E melhor do que todos vocês juntos, é a comida do Rick.
Não demorou um segundo para ele se afastar dali. Will foi o primeiro a segui-lo. Seu ombro chocou contra o de Sean, mas não houve outra reação após isso. Os demais também fizeram a mesma coisa. E se levarmos tudo em consideração, o moreno fora paciente em suportar todos os ombros chocando-se contra o seu.
Somente Sean e Santiago continuaram parados. .
Não houve mais encontro desses garotos durante algumas horas. Colin voltara à universidade, depois de um longo papo com Leo no horário do almoço, tirando dúvida a respeito das pessoas Tudo que conseguiu saber foi a respeito de Lydia, a namorada de Sebastian, quase noiva, na verdade. Enquanto os demais passaram o resto das horas na república.
Já no quarto de Leo, as portas só não pegaram fogo pela falta de álcool, pois fogo não faltava naquele cômodo. Danion tinha acabado de sair de dentro de Leo, jogando-se contra o corpo do garoto. Ofegantes, eles gargalhavam. O menor entre eles afogou a mão no emaranhado de cabelos de Danion, enquanto o dono dos lábios rosados apenas sorria. Não tinha mais forças para se levantar, pois estavam ali há horas. Com as cortinas fechadas e porta trancada, ambos tinham toda a privacidade exigida do mundo. Ninguém ousava aparecer por ali, somente em casos extremo como morte ou o problema: Sean.
— Você é bom de cama, Leo. — Danion soltou, ainda com a respiração descompassada.
— A prática leva ao aperfeiçoamento. E bem, isso também é arte. Se bem feito, é claro. —Ele gargalhou.
— Tô pensando seriamente em casar com você, pra quem sabe, ter mais tardes prazerosas como essa.
— Somos apenas amigos, Dan. Nada além disso.
— Você não percebeu que ironizei? — Ele levantou, sentando-se ao lado da cama, pegou mais um dos seus cigarros e o acendeu.
— Claro que sei. Mas você vive falando isso e, sinceramente, às vezes acho que você tá levando isso a sério demais.
— Eu levando a sério? — Ele gargalhou. — Você estava querendo sexo, eu também. Que mal tem nisso? Eu apenas brinquei quando falei que iria casar contigo, Leo. Ninguém consegue roubar meu coração, e você melhor do que ninguém sabe disso.
— Certo. Sei. Há dois anos você não namorou com ninguém. E é esse o seu lema, e toda aquela babaquice que você fala do amor, dor, sofrimento.
— Amor destrói. — Somente disse, após novamente tragar o seu cigarro.
— Discordo. Mas não quero iniciar outra discussão contigo. Mas você está fumando no quarto, te dou três segundos pra sair daqui e ir lá fora.
— É somente um, Leo. Na boa.
— Você sabe o quanto odeio isso, o mau cheiro é insuportável. Vamos, Dan. Sai daqui.
Ele já estava empurrando Danion de sua cama, o engraçado foi o fato de conseguir. O outro caiu despido ao chão do quarto, resmungando.
— Caralho, deixa eu ao menos me vestir.
— Você tem um belo dote, Dan. Então não deveria ter vergonha de sair por aí pelado.
Danion sorriu. Gostava do que ouvia. Tragou mais uma vez antes de se vestir. Piscou para Leo e pôs a mão em seu membro, como se aquilo fosse só dele. Leo revirou os olhos e o empurrou para fora.
— Eu tenho um belo dote. — Murmurou atravessando o corredor.
Naquele mesmo momento, Colin adentrava as portas do lugar. Sua expressão era de derrotado. Ele não havia dormido bem aquela noite. A começar pela ansiedade do primeiro dia, depois pelos gritos de uma das repúblicas vizinhas. Adaptado a dormir em silêncio absoluto, para ele aquilo foi um incômodo infernal. Diferente dos outros, que já haviam se acostumado a isso.
— Olá, Colin. — Danion disse, sorridente, mesmo estando sendo irônico com a gentileza.
— Diz. — Falou, jogando-se ao sofá.
— Nada demais. Como foi o seu primeiro dia? Cansativo eu sei que foi. Mas então, algum — deu ênfase na palavra e até mesmo usou aspas imaginárias — paquera? Você é bem bonito, e isso não é difícil pra você.
— Olha Dan, você é um cara legal, mas é irritante. E nós ainda não temos intimidades para você me tratar assim.
— Então vai se adaptando, porque quando sou íntimo da pessoa consigo ser pior. E não custa nada você falar do seu primeiro dia. Só estou tentando parecer educado e preocupado. Mas se isso não ajuda você a se sentir melhor aqui, por mim, deixo nas mãos de Will.
—Você venceu. — Colin sorriu, exausto — Foi um dia legal, apesar daquela confusão de horas atrás, mas quanto à universidade, o que seria uma rodada de apresentações, já começou com estudos de introdução à arquitetura, depois disso, conversei com meus colegas de classe, é uma infelicidade enorme não ter alguém aqui no mesmo curso que eu.
— Interessante. — Danion passou a mão em sua barbaimaginária — Eu diria que foi um dia de sorte. Em meio primeiro dia aqui, quase me acertaram numa lata de lixo. Mas bem, você já sabe como sou né? Então foi fácil entrar nessa república.
— Danion, mudando de assunto, qual o motivo dessa rivalidade entre Will e Sean?
Colin nesse momento se despertou. O corpo exausto parecia ter sido recarregado por ondas de choque, produto da curiosidade. Danion pareceu gostar da pergunta, fez um ar de suspense e olhares psicóticos.
— Eu poderia até falar, mas Will odeia que se metam nesse assunto. E como ele é líder, essa é a primeira regra a não ser quebrada. É uma pena, Colin, mas eu adoraria contar todos os segredos.
— Mas...
— Muda o assunto, por favor. — Rick, o cozinheiro, agora deu seu ar da graça — Daqui a pouco Will desce e começa a falar asneiras. E todo mundo sabe como ele odeia esse assunto.
— Nossa gente, tem algum problema de eu saber, sou um leonino agora, não sou?
— Eu demorei um ano para descobrir, Colin. Então, não há explicações. Quando Will quiser, ele conta. Enquanto ele não quiser, ele não conta. Ele é decidido. E nem mesmo ouse tocar nesse assunto quando adentrar naquele quarto. Quer vê-lo uma fera? Então...
— Do que vocês estão falando? — Dessa vez foi Will quem resolveu aparecer.
Todos, como esperado, não tiveram reação alguma. Colin foi o primeiro a se perder na explicação, o que trouxe suspeitas a Will, Danion nem mesmo se manifestou, fingiu ser estátua. Se não fosse por Rick falando:
— Fiz panquecas.
Danion foi o primeiro a se levantar, Will já estava com a mão no corrimão da escada pronto pra correr.
— Esperem! — ele gritou. — Eu não mandei ninguém ir à cozinha sem minha permissão. Mandei?
— Mas você fez panquecas. Você sabe como é quando isso acontece. — O loiro estava realmente com água na boca enquanto falava.
— Por isso mesmo, dessa vez, fiz uma pra cada. E o engraçadinho que se atrever a comer duas, juro que vai ficar uma semana sem comer da minha comida. E não, as panquecas seriam para o jantar. Mas como já está quase na hora, e eu não sei por onde andam Gaspar, Aaron e Ian, vou deixá-los comer. Mas a única coisa que digo é: Eu irei servir vocês.
— Porra, Rick.
— É assim, senão fica sem panqueca.
Dúvidas sobre a sexualidade de Rick eram incontestáveis. Seu jeito de gesticular as palavras, de mover a mão e se posicionar perante os outros deixava claro que ele não era hétero. Naquela casa, pelas certezas, os únicos heterossexuais eram Gaspar, Aaron e Ian. Havia outros, provavelmente.
Todos saíram calados, seguindo Rick até a cozinha. Até Colin estava curioso pra conhecer essa panqueca. Pela forma que estavam, deveria ser bem deliciosa a ponto de fazer um grandão como Will querer correr só para comê-la. Quando provou, teve a certeza disso. Rick era um cozinheiro de mão cheia.
— Vou precisar da ajuda de vocês. — William disse, ainda mastigando como uma criança comendo sua comida favorita.
— Qual o problema dessa vez? — Rick indagou, cruzando os braços e encostando-se ao balcão logo atrás dele.
— Não quero mais gente pra não ferrar com tudo, e como vocês três estão aqui...
— Anda Will, fala. Seja objetivo. — Danion, o irritado, também falava enquanto mastigava.
— Comprei duas latas de tinta na cor preta. E como vingança pelo que Sean fez, nós iremos invadir a república deles.
— E pra que servirá a tinta? Pra acordá-los jogando em suas faces? — A vez de Colin.
— Não seria uma má ideia. Mas aí estaríamos no território deles, e com somente quatro garotos, isso significaria que estaríamos em desvantagem. Nosso objetivo nada mais vai ser do que tacar tinta na parede deles.
— Não acha que tá exagerando, Will? Eu não vou participar disso. Eles me veem como uma presa fácil, se me apanharem com certeza me espancariam. Vocês sabem como eles me odeiam.
— Estaremos com você, Rick. Ninguém vai te apanhar.
— De qualquer maneira eu não quero participar disso. Se fosse pra acordá-los, gritar, tacar pedra na janela, ou sei lá, até mesmo matar — ele ironizou — eu iria. Mas imagina como eles ficarão ao encontrar todos os cômodos da casa sujos de tinta? Você com certeza iria ficar uma fera por semanas.
— De qualquer maneira, é uma boa ideia. Eu topo. E o que Rick está falando só nos faz crer que ele tem medo daqueles idiotas. Os caras nos acordaram na madrugada, achei que ia morrer com algum maníaco atirando em tudo e em todos. Eles merecem bem mais do que isso. — Era Danion quem falava.
— Eu não sei pessoal... — Colin estava indeciso. Nunca foi um garoto de frescuras ou indefeso, mas a ideia de Will era um pouco pesada comparada ao que eles fizeram, mesmo que merecendo. — Como garante que iremos entrar lá?
— Com isso.
Will tinha em mãos chaves. Todos ficaram olhando para o loiro tentando entender como aquilo teria acontecido. Primeiro porque era impossível algum leonino entrar naquela república caso não fosse convertido, e segundo porque ninguém daria uma chave para um Tigre.
— Por que vocês acham que tombei no ombro de Sean? Na boa, só eu percebi que as chaves dele estavam no cós da calça? — O loiro sorriu, guardando-as. —Eles merecem coisa pior. Admitam.
— Eu concordo. — Danion falou, empolgado.
— Não mudarei minha opinião, porém não falarei nada caso me perguntem.
Todos agora olhavam para Colin, que ainda estava indeciso quanto a tudo isso. Estava com raiva de Sean pela atitude tomada na manhã. Nunca teve medo de garotos maiores que ele, na verdade, não temia essas confusões, mas sabia perfeitamente que iria tomar uma surra se seus amigos não tivessem aparecido.
— Certo, eu irei. — Confirmou, mesmo em meio às dúvidas.
Todos sorriram e Danion apertou seu ombro, causando-lhe dor. Mas uma tapa fez com que o branquelo se afastasse dele.
Os quatro guardaram o segredo. Leo sabia perfeitamente que tinha algo a mais naquele silêncio, principalmente o de Danion, que era acostumado a contar coisas pra ele. Descobriu pro si só o que aconteceria, e foi tirar satisfações com o Will. De nada adiantou, pois o loiro realmente estava decidido a fazer isso. Leo não era a favor e nunca seria. Mas depois de conversar com Danion a respeito, o branquelo acabara convencendo-o de se juntar a eles, já que Rick não iria participar.
O tempo demorou a passar. Colin estava dormindo quando foi acordado por Will aquela madrugada. O loiro já estava vestido, usando moletom negro. Quando desceu as escadas viu que os demais também usavam moletons, tudo isso pra esconder o rosto caso fossem visto por alguém. Ele, por sua vez, usou o único moletom branco que tinha.
— Certo. A regra é a seguinte: Não há regras. Sujem tudo que encontrarem pela frente. — Will disse, abrindo a porta.
Passava das quatro horas da manhã, e nesse horário era quase impossível encontrar alguém acordado. A maioria tinha aula no período da manhã.
Colin tremia, deixando escapar seu nervosismo. Nunca fizera algo do tipo. As palavras de sua mãe martelavam em sua cabeça. Ele havia dito a si mesmo que não se meteria em confusão. Havia tempo pra se arrepender e desistir de toda essa idiotice, porém, se até Leo estava ali depois de tanto ir contra a brincadeira, porque ele não ficaria?
Will pediu mais silêncio, quando Danion caminhava em passos pesados no gramado da entrada. Quando chegaram à porta, Will foi cauteloso ao abri-la. Foi o primeiro a entrar e voltou para dar o sinal de que o caminho estava livre. As duas latas de tinta foram divididas para os quatro, ambos a carregavam em diferentes baldes, enquanto na outra mão seguravam pincéis e lanternas.
A princípio, a república de Sean era mais futurística que a de Will. A sala era pequena, comparada à do loiro, porém, a enorme televisão cobria metade da parede, sofás e poltronas na cor branca abrilhantavam ainda mais a beleza do local. Colin pisou no tapete felpudo do cômodo e temeu que suas pegadas ficassem ali.
Quem se importa. Pensou.
Quando notou, os outros já estavam bem mais à frente que ele. Danion foi o primeiro a arremessar tinta nas paredes azuladas do lugar. Ele fazia isso com maestria, soltando um sorriso a cada pincelada. Will foi mais afundo, atravessava o corredor da casa também pintando as paredes. Leo, assim como Colin, também estava indeciso, porém, foi mais rápido e acompanhou Leo, pintando agora as escadas.
— Isso é arte. — Ele murmurou, com um sorriso travesso.
Hesitou por alguns minutos, até então arremessar tinta na cozinha com Will. Depois de um tempo, Colin já estava se adaptando e não mais hesitando. Optou por subir as escadas, já pintadas por Leo. Outro corredor havia ali, dividido por quatro portas. Ele continuou a pincelar as paredes, dessa vez com mais cuidado. Ao lado de cada porta, uma pequena placa de metal dizia o nome dos garotos que dormiam ali:Nicholas e Adrian, Octavio e Bryan, Connor e Ethan, Sean e Santiago. Era exatamente no último quarto onde o garoto entraria. Ultrapassando todos os seus medos, ele sim seria capaz de acabar com o quarto de Sean. A adrenalina tinha tomado conta do seu corpo, e ele tinha que confessar estar se divertindo com aquilo.
Girou com cuidado a maçaneta e agradeceu por encontrar Sean e Santiago dormindo. Era estranho ver que a cama do moreno era para casal enquanto a do outro ficava em um canto isolado, além de ser uma cama de solteiro.
Já saindo da república, Will, Danion e Leo aguardavam Colin sair do lugar. Impacientes e temendo o pior, eles conversavam por gestos, porém o branquelo não resistiu e sussurrou:
— Onde diabos ele se meteu? Já devia ter voltado há muito tempo. Que ele não tenha a péssima ideia de adentrar em algum quarto.
Todos queriam saber. Will estava apreensivo, tentou entrar para procurar Colin, mas Leo não deixou.
— Colin não é tão burro assim, calma. — Pediu, segurando na mão do loiro.
Colin continuou com seus passos com todo o maior cuidado existente e paciência. Ignorou os dois dormindo e arremessou todo o balde de tinta na parede branca que ficava em frente à cama de Sean. Com o pincel, começou então a espalhar a tinta na parede, fazendo desenhos engraçados, e nomeando dois com os nomes do moreno e de Santiago.
Não esperou ser pego de surpresa, novamente, pelo braço de Sean que o fuzilava. Seu pincel caiu no chão e seus olhos perderam-se na imensidão negra à sua frente iluminados pela luz da lanterna. Só orou para que não fosse morto pelas mãos do moreno.
— Vejamos o que temos aqui. — Disse Sean, sorridente, mas ainda assim furioso.
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