República de Leões
4 Capítulo 04
Notas iniciais
— Me larga. — Colin se debatia nos braços do maior, mas não tinha forças suficientes para se soltar.
Sua lanterna caiu no chão, criando um caminho de luz até parar contra a parede. Santiago acordou assustado com os gritos de Colin. Estava confuso, tentando entender como o garoto fora parar ali. Sean apenas sorria de acordo com o desespero do menor em relação a ele, e quanto mais Colin se debatia maior era a diversão. Bem lá no fundo, o dono dos olhos castanhos estava sentindo medo. Não temendo a morte, pois acreditava que esses não seriam babacas a esse ponto. Mas com certeza tomaria uma bela surra, principalmente por ser flagrado no ato.
Santiago correu para acender as luzes, e Sean resmungou. Os olhos dos três arderam no momento em que encontraram a luz. Foi tempo suficiente para Colin se desprender dos braços do moreno e tentar correr, mas o ex-leonino foi mais rápido e fechou a porta, pondo-se na frente dele.
— Merda, me deixa sair. — Ele se manifestou, segurando na mão de Santiago que estava presa a maçaneta.
Santiago olhou para Sean esperando ordens, mas o moreno apenas ria. Entendeu que aquilo era um não.
O moreno caminhou, aproximando-se deles. Tocou no queixo de Colin e fez com que o menor olhasse para ele. Adorava aquele poder, autoridade, domínio. Sean pegou em seu pescoço e lançou o dono dos olhos castanhos ao chão.
— Acorda todos e manda Octavio vir aqui. Quero que deixe um recado aos idiotas que com certeza estavam com ele. — Disse, olhando agora pra Santiago.
— Qual o recado?
— Que eu terei uma conversinha com esse garoto. — Ele sorriu, e em questão de segundos, Santiago já não estava mais no quarto.
Lá embaixo, Will, Danion e Leo viram quando as luzes foram acesas. Os três, apavorados, xingaram palavras ao vento. O loiro correu em direção à porta, mas viu que essa foi trancada no momento em que ele se aproximou. Da janela, viu Santiago aparecer. Will procurou algum objeto no chão para lançar nele, mas não tinha nada ali, apenas o gramado verde.
— Foi um grande erro tentar invadir a nossa república, Will. — Gritou Santiago, da janela.
— O Colin. — Gritou Danion, já furioso.
— O amigo de vocês? Está com Sean, e bem, não sei o que irão fazer com ele.
— É melhor liberarem o garoto, não me façam invadir a república de vocês novamente. — Will gritou.
— Você acha mesmo que consegue? Vai acordar os vizinhos, chamar a polícia, ligar pro corpo de bombeiros? Chamar Sebastian?
— Para de graça, Santiago. Deixa o garoto sair. Eu fico no lugar dele.
— Você é mais forte do que ele, Will. Não seríamos idiotas a esse ponto. Sean quer apenas conversar com o garoto. Nada demais.
— Santiago, vamos conversar. — Leo agora se manifestou, surgindo da escuridão — Não vão fazer o mesmo que fizeram com Rick e também com Danion, o garoto chegou recentemente aqui.
— Não sou eu quem decide isso, Leo. — Ele sorriu, mas seu olhar era de dúvidas.
— Tem certeza de que você é realmente assim? Aí não é seu lugar, Santiago. Nem mesmo você tá se sentindo bem com tudo isso.
— Eu não posso fazer nada. — Ele disse, firme, confiante. — E logos vocês terão o Colin novamente. Parem de drama.
— Vocês estão piorando tudo. Acreditem, se o garoto for espancado, eu juro que vou pegar cada um de vocês, um por um. — Vociferou Will.
— Eu já provei da sua força, William. Sou capaz de lidar com você. — Santiago respondeu, calmo.
— Abre essa maldita porta.
O loiro correu em direção à porta e chutou. Nada aconteceu. A porta só gerou um som desagradável, fazendo com que mais luzes acendessem nas residências ao redor. Tentou mais uma vez, e a porta continuou lá, em seu lugar. Um provável terceiro chute com certeza arrancaria aquela porta dali.
— Will, para! — Gritou Leo. —Não percebe que você está acordando todo mundo? — Mas então notou seu grito e disse calmo. — Não precisamos resolver as coisas assim.
— Leo, eles estão com Colin, não temos que pensar. Chamem Gaspar, Ian, chamem todos. Porque até eu vou esmurrar essa porta. — Danion também se manifestou.
— Caralho! Será que vocês não entenderam? — Leo falou, puxando William para mais próximo dele. — Por que você acha que Santiago continua com aquele sorrisinho?
— Porque ele é um desgraçado.
Santiago estava confiante. Somente Leo conseguia ler seu olhar. Quis parabenizar o garoto por tamanha inteligência naquele momento, mas agora era um dos Tigres. Leo nada mais era do que um rival seu a partir do momento em que resolveu mudar de república, não qualquer uma, mas especialmente essa.
— Invasão de domicílio, Will. Eles querem envolver a polícia. — Leo disse.
— Tô pouco me lixando. — O loiro ainda estava enfurecido.
— Will, fique calmo. Eles não irão fazer nada com o novato. Conhecemos Sean, e ele não é louco a ponto de cometer algum absurdo. Mas nós somos os errados aqui. Todos nós responderemos por nossos atos e, com certeza, se a polícia se meter nisso correremos um grande risco de perdermos nossa república; eu corro risco de perder minha vaga na universidade e esse garoto, Colin, também. Além de que poderemos ser presos se for o caso. Pense bem antes de querer derrubar aquela porta.
O loiro prestou atenção em tudo que Leo disse. Fazia sentido. Mas agora, depois do que aconteceu, sentia-se culpado pelo erro. Uma tentativa falha de vingança pelo que fizeram. Sentou-se no gramado e abaixou a cabeça. Seu ódio por essa república era maior do que tudo que já sentira na vida.
— Danion, é melhor você avisar ao pessoal o que tá acontecendo e pra ninguém tomar alguma atitude precipitada. Vou tentar conversar com Santiago.
O branquelo não queria sair dali. Queria ficar e chutar a porta, mas tinha muito sentido no que Leonard tinha dito. Eles só se meteriam em mais confusões se tentassem invadir novamente a república deles.
— Mas eles também invadiram nossa república.
— E não fizemos nada no dia; deveríamos ter feito alguma denúncia na mesma hora. Não vai adiantar.
— Certo. — Will se levantou, agora demonstrando seriedade. — O que vocês querem pra deixar Colin sair?
Will esperou a resposta daquele que um dia já foi seu companheiro. Santiago por sua vez estava rindo, embora sério. Nem parecia que um dia já haviam sido amigos, mesmo com todas as brigas. No peito do loiro, a saudade bateu, mas carregada de mágoas.
— Isso depende de Sean. — Santiago falou e em seguida fechou as persianas.
Sebastian tinha acordado com a gritaria. Não só ele como a maior parte dos membros de sua república. Lydia resmungou quando notou, da sua janela, o movimento na república ao lado. Novamente estava tendo confusão entre as repúblicas rivais. Ela segurou a mão do seu namorado, impedindo-o de se levantar, mas ele não resistiu e a soltou.
Sem camisa, e exibindo suas tatuagens, Seb também resmungava enquanto andava de um lado para o outro. Sua namorada agarrou o travesseiro e permaneceu sentada na cama, observando-o.
— Você deveria voltar a dormir e deixar esses garotos para lá. — Ela disse, sua voz pesada pelo sono.
— E tem como dormir com essa gritaria? Puta que pariu, esses garotos nunca vão crescer.
— E você perde tempo ajudando-os.
— Quem mais faria isso por mim?
— Para de ser um bom moço, Seb. Isso só tá te tirando do sério. Eles já são grandes o suficiente para saber no que estão se metendo.
— Você está certa. Mas é que se eu não tentar amenizar as coisas elas só tendem a piorar.
— E já não tá pior?
— Eu não sei. — Ele falou, pegando sua camisa e vestindo-a. — Melhor eu verificar o que tá acontecendo. Não quero polícia envolvida. Isso acabaria de vez com a Quadra Nove.
— Eu irei com você. — Ela disse, se levantando.
— Assim? — Ele indagou, segurando a maçaneta da porta.
— E qual o problema de sair usando sua camisa? Eu não estou nua, nem muito menos exibindo os peitos. Sua camisa parece um vestido em mim. E olha que horas são, acha mesmo que eu teria que usar algo específico para calar os estressadinhos?
Sebastian revirou os olhos e pegou na mão de Lydia, ambos desceram a escadas.
Colin estava sentado. Queria correr dali, mas o moreno estava ao lado da porta. Pensando. Não tirava o sorriso do seu rosto, deixando o menor inquieto e com dúvidas sobre o que poderia acontecer.
Sean era um garoto um tanto peculiar, além de imprevisível. Temido pela autoridade, poder e por ser dono de uma república de índice alto em economia. Casa passada por gerações antes de se tornar até então uma república. Pelo reconhecimento que a universidade tinha, era normal ver primos ou irmãos estudando no mesmo espaço, mas essa república, em especial, era sempre comandada por pessoas que pertenciam à mesma família.
— Me deixa sair. — Colin pediu, dessa vez com paciência e menos irritado.
— Depois da sujeira que você fez? Eu deveria fazer você passar a língua nessa parede.
— Não me arrependo. — Disse seco.
— Eu achei que Will era o cara mais irritante, mas pensando bem, você é pior que ele. Há quanto tempo você está aqui, Colin? Um dia? Dois, três? Não acha que é exagero de sua parte tentar se meter em problemas de qual você não faz parte e nem mesmo tem ideia?
— Pouco me importa isso, só quero sair daqui. — Disse, tentando ignorá-lo. — Se quer bater em mim, vai logo. Não quero passar a eternidade aqui.
— Bater em você não seria uma má ideia. — O moreno passou a mão em seu punho e depois sorriu para Colin — Mas antes eu preciso dar uma olhada no que vocês fizeram. Quem sabe quando eu voltar possamos ter uma conversinha? —Era notável a ironia em sua última palavra.
Nessa mesma hora, dois membros da república adentraram o quarto. Eram Connor e Adrian, sombras de Sean, obedeciam a cada palavra do líder sem deixar a desejar. O moreno apenas sorriu para os companheiros e disse:
— Cuidem dele até eu voltar.
Depois disso saiu do quarto. Sua raiva aumentava conforme via toda a bagunça nos corredores, especificamente nas paredes. Pinceladas grossas de tinta preta acabam com toda a decoração do lugar. Sean apenas respirava fundo a cada vez que via algum quadro ou objeto manchado e praticamente não mais válido. Metade da república estava na sala; por lá, a sujeira era maior. Até mesmo o tapete que ele tanto prezava estava banhado em tinta preta. Mas o moreno mostrava-se calmo, mesmo que em seu interior estivesse explodindo de raiva.
— Eles não irão sair daí até você devolver esse garoto. — Octavio falou, aproximando-se do moreno.
Octavio era um garoto alto e forte, de cabelos negros e olhos da mesma cor. Seu corpo era moldado na academia, quando não, por esportes como basquete, o seu preferido. Além do mais prezava sua alimentação e se possível poderia ser chamado de membro mais chato da república, não pelo seu temperamento, — pacífico e humilde — mas apenas pelo simples hábito de não fumar ou beber e quase sempre discordar das ideias dos outros. Na verdade, era raro encontrarem Octavio bebendo.
Sean e Octavio eram amigos de infância, senão nascidos no mesmo berço.
Quando Octavio nasceu, um mês depois viera Sean. Suas mães eram amigas desde a época da escola e, pelo convívio, seus filhos foram acostumados a crescerem como irmãos. Era esse o motivo do mais velho — mesmo que por apenas trinta dias — ser um membro dessa república. Ele era tão respeitado quanto o moreno. Mesmo que sempre discordasse das atitudes do outro; Octavio vivia pra auxiliar Sean, embora esse quase nunca precisasse de auxílio e vivesse a cometer atitudes impensadas.
— Ninguém quer polícia envolvida, Sean. Você sabe perfeitamente disso. As pessoas vão passar a te odiar mais ainda caso resolvam envolver a polícia nisso. — Ele insistia, odiando o silêncio do outro.
— Isso não é sequestro, Octavio. Para de generalizar. — Finalmente quebrou o silêncio. — Só irei deixá-los apreensivos. Até parece que eu vou espancar esse garoto. Se fosse Danion, Will, eu até me atreveria a socá-los, mas um novato e daquele tamanho? Sinceramente...
— A culpa é sua por ter invadido, mais uma vez, a república deles.
— Quem se importa, não é mesmo? — Ele se virou, encarando o outro, cínico — Eles precisam aprender a lidar conosco, mas simplesmente não aceitam a minha existência aqui na Quadra Nove.
— Tudo por essa maldita rivalidade entre você e Will.
— Não posso fazer nada se ele é pedra no meu caminho.
Juntos continuavam a fazer um curto percurso pela casa. Pararam na cozinha vendo mais dos estragos ali. O moreno percebeu então estar com sede e bebeu um pouco d’água. Octavio fez a mesma coisa, aproveitando a oportunidade. Voltavam juntos pelo corredor, ainda conversando e discutindo sobre esse acontecimento.
— Sebastian logo aparecerá por aqui. Você sabe...
— Eu sei que vai. — Disse, imediatamente.
— E você sabe que ele vai falar a mesma coisa de sempre, vai colocar você e Will um na frente do outro para o mesmo diálogo.
— Sebastian se envolve onde não deve, Octavio. Sabemos disso, não é porque ele é líder da maior república que possa se sentir, também, o líder da Quadra Nove.
— Você tá levando isso tudo a sério demais. Isso não é um reino ou algo do tipo.
— Chega desses sermões. Eu vou subir, mostrar para aquele garoto com quem ele tá mexendo e depois liberá-lo. Tá bom pra você?
Não esperou resposta e já estava na metade da escada. Ele odiava o fato de Octavio quase sempre discordar dele ou então começar com seus sermões, porém, admitia que não teria controle se o outro não estivesse por perto.
Quando abriu a porta do quarto, Sean quase teve uma explosão. Sentiu-se um vulcão prestes a entrar em erupção. Preso nos braços de Adrian, lá estava Colin, seus lábios sangrando e sua expressão de dor acabaram atingindo, quase que diretamente, o moreno. Connor estava prestes a socá-lo e parou de supetão assim que encontrou os olhos de Sean sobre ele.
— Que merda você tá fazendo?! — Ele gritou.
O moreno sabia o que era brigar, o que era ser pego desprevenido ou então ser segurado enquanto alguém começa a te esmurrar. E por isso estava sentindo a dor de Colin. Que nada mais parecia do que um corpo sem vida, mole, prestes a desmoronar no chão.
— Mas...
— Caralho. Puta que pariu! — Xingava, sem poupar as palavras. — Vocês querem matar o garoto?
— Você pediu para que cuidássemos dele. E ele estava nos insultando. — Adrian tentou se explicar.
— Isso não significa porra nenhuma. Eu não autorizei ninguém a bater nele.
Seus olhos foram ao encontro da lanterna de Colin caída ao chão, e ele apanhou o objeto lançando-o contra Adrian, que por pouco não foi atingido, mas acertou a parede fazendo então a arma se dividir em pedaços.
Adrian e Connor estavam assustados com aquela atitude. De fato, não houve a frase “batam nele por mim.” Mas depois do que o garoto fez, não poderiam pensar em outra coisa senão isso. Na verdade, descontaram o ódio que sentiram ao encontrar quadros de recordações banhados em tinta negra e, por isso, estavam agora descarregando tudo em Colin.
—Saiam daqui! — Ordenou.
Não pensaram duas vezes antes de largar Colin, que caiu no chão, exausto e sentindo dores. Adrian e Connor não ousaram passar ao lado de Sean, se afastaram o máximo que puderam antes de passar pela porta.
Quando finalmente ouviu o bater da porta, Sean caminhou até o menor e o levantou do chão, com delicadeza para não machucar ainda mais o pequeno. Levou os braços de Colin ao seu ombro e o ajudou a caminhar até sua cama.
— Vocês me pagam. — Murmurava Colin, sem forças, quase perdendo a consciência.
Sean sentiu as palavras e a força que ela tivera naquele momento, mesmo que estas soassem de maneira fraca e quase sem vida. Quando conseguiu deitar o outro, foi às pressas para o corredor e gritou por Octavio, e este veio correndo, entendendo a entonação de sua voz.
— Me ajuda! — Implorou, mostrando-se vulnerável.
— Que...
— Você é o médico aqui! — Ele disse, imediatamente. — Cuida do garoto.
Foi então que o outro notou o estado de Colin deitado na cama.
— Mas que diabos fizeram com ele? —Octavio indagou, surpreso.
— Adrian e Connor bateram nele.
— Bateram? Isso me cheira a espancamento.
— Isso não tem importância agora, Octavio. Agora faça o que você sabe que tem que fazer.
Octavio suspirou, sabia que era melhor cuidar do garoto a ter que discutir novamente com Sean. Seu primeiro passo foi ir até o banheiro que, por conhecer tão bem, sabia onde ficavam as toalhas de mãos, limpas. Pegou uma, deixou-a úmida e voltou, sentando-se ao lado do garoto.
Primeiro limpou a face suja, depois seu pescoço e mãos. Com o algodão e álcool, limpou o sangue que descia daqueles lábios. No final, forçou o garoto a tomar dois anti-inflamatórios de uma só vez para amenizar a dor futura, senão a de agora.
Sean estava parado, com os braços cruzados e a expressão séria. Observava Octavio cuidar de Colin apenas em silêncio, sem demonstrar nada nas feições. Sentia inveja do outro por saber cuidar tão bem das pessoas, coisa que ele jamais poderia fazer. Era sempre aquele que destruía tudo e nunca consertava nada. E agora, mesmo que não tivesse feito isso, carregaria toda a culpa.
— Eu vou matar você, Sean. — Colin ameaçava, ainda sob cuidados.
— Sim. — Sean somente dizia, procurando não ser tomado pelo poder que aquelas palavras tinham.
— Você e todos esses idiotas.
— Estou esperando.
Colin teve que sorrir ironicamente, mesmo que aquilo fizesse seu corpo doer. Estava tão furioso, tão tomado pelo ódio, que não conseguia dizer outra coisa além de querer exterminar todos os membros da república de Sean.
— Will é quem vai me matar. — O moreno murmurou, até então perceber que deixara isso escapar.
Octavio puxou o amigo pelo braço para o canto do quarto.
— Você sabe que toda a culpa cairá em cima de você, não sabe?
— Sei. E já estou me preparando pra isso.
— Eles não vão culpar Adrian e Connor, vão achar que isso foi ordem sua.
— Caralho, já disse que sei. — Se exaltou, olhou Colin observando-os e desviou a atenção.
— Eu vou levar esse garoto, Sean. Vou entregá-los aos seus amigos, Will vai saber lidar com os ferimentos melhor do que eu. Nós sabemos perfeitamente como um corpo reage após uma briga, e esse garoto foi espancado.
—Eu só quero que você diga ao Will que fui eu quem ordenou.
— Você tá pirando? Sean, as pessoas realmente vão querer te matar.
— Eu não me importo, só preciso que você diga isso. Diga apenas que tudo isso se deve ao fato de terem invadido a república.
— Eu não sei...
— Por favor.
Não podia por toda a culpa em Adrian e Connor. Teria que fazer todos temê-lo, odiá-lo. Ele sabia que não era mau nem a aberração ou monstro que todos diziam ser, mas toda sua imagem de garoto forte dependia dessas atitudes.
No fundo, mesmo não sabendo cuidar de alguém, se sentiu bem por pedir para que cuidassem. Colin era tão pequeno perto dele, tão frágil, que isso acabava deixando-o intrigado quanto ao jeito valente do garoto. Will era o único a desafiá-lo, o resto vivia temendo-o, caso contrário só o desafiavam na presença dos amigos. Mas um garoto como esse, recém-chegado à Quadra Nova, mostrava-se diferente dos demais.
Para a surpresa de Octavio e até mesmo de Colin, foi Sean quem ergueu o garoto no braço e saiu do quarto, passando por todos na sala e pedindo para que abrissem a porta. Teve que manter seus pensamentos no lugar, sabendo que com certeza iriam partir pra cima dele se vissem o pequeno naquele estado.
Octavio estava logo atrás, seguindo-o. Sabia que isso, de qualquer forma, seria pior. Tentava entender o motivo de Sean querer entregar o garoto, porém, se perguntasse acabaria piorando a situação.
Quando viram Sean saindo, Will foi o primeiro a correr na direção do moreno, seguido por Danion, Leo, Sebastian e Lydia. Mais pessoas estavam ali naquele momento. Era tudo tão semelhante a alguma cena de filme, onde a vítima é resgatada do cativeiro; porém, diferente de tudo já visto, era o sequestrador quem entregava a vítima. Sem seriedade, apenas com um olhar preocupado.
Will não pensou duas vezes antes de tirar Colin dos braços dele. O pequeno sentiu dor ao sair de um braço para o outro, mas se encolheu nos do loiro. Ele sabia perfeitamente o que estava acontecendo ao seu redor, podia facilmente ficar de pé, embora andar fosse um problema, mas estava gostando de todo aquele cuidado.
— Você passou dos limites novamente, Sean. — Will disse.
Seu olhar. Raridade vista por todos. A fúria tomou o loiro de forma que ninguém mais o reconhecia. E se ele não estivesse com o pequeno em seus braços, com certeza estaria esmurrando o moreno ali.
Não podia aceitar que todos aqueles hematomas, aquele corte em seu lábio, aquele corpo franzido sentido dor a cada toque, fosse tudo causado por uma boa surra, ou a palavra mais cabível: espancamento.
— É apenas um recado, Will. Para você pensar duas vezes antes de invadir a minha república.
— Isso não significa que vocês precisavam espancar o pobre garoto.
— E o que você esperava que eu fizesse? Vocês bagunçaram toda a nossa república. Só eu sei o prejuízo que terei com os demais. Não poderia deixar tão barato assim.
Octavio estava impressionado com a atitude do moreno. Era incrível como ele estava carregando toda a culpa para si. Fazendo Will acreditar que fora ordem dele espancar o garoto. Não entendia bem o motivo daquilo, mas queria aceitar e respeitar. Por outro lado, encontrar o loiro não era fácil. Companheiros de faculdades, do mesmo curso, rivais de república e amantes do passado. E todo esse afastamento se devia ao fato de ser melhor amigo de Sean e pertencer à república rival.
Will levou os olhos ao Octavio, mas rapidamente os desviou. Até dele estava sentindo repulsa.
— Primeiro Danion, depois Rick e agora Colin. Não ache que dessa vez eu vou deixar passar.
— Adrian e Connor fizeram o trabalho bem feito. — Sorriu, mesmo fingindo.
— Desgraçado! — Danion, que até então estava calado, se exaltou e deu um passo a frente. Porém foi parado por Sebastian. — Me larga. Esse idiota merece uma boa surra.
— Eu só quero dormir. Por favor, chega de briga por hoje. — Murmurou Colin, surpreendendo a todos.
Todos os olhares estavam agora no pequeno. Era incrível como mesmo depois de tudo, ele estivesse querendo a paz a ter que ser dado início a outra confusão. Sean foi o primeiro a ser surpreender, principalmente porque este há minutos atrás dizia querer matar o moreno. Will se perguntava de onde esse conseguia ter um coração tão bom. Danion sentiu-se irritado por isso, Lydia ficou surpresa e boquiaberta, Sebastian apenas forçou um sorriso vendo no garoto um coração bom. Leo somente sentiu orgulho.
Sebastian mandou um olhar para o loiro, pedindo para que este aceitasse as palavras de Colin. E não demorou a dar as costas, afastando-se de todos.
— Cuida do garoto. — Disse Sean, quase inaudível, de modo que somente Octavio e Sebastian escutaram.
Quando Will atravessou a porta, pediu para que ninguém lhe seguisse. Ele foi direto para seu quarto, tendo cuidado ao subir as escadas e também sem tirar os olhos de Colin. Desculpou-se quando, sem querer, tropeçou e um movimento brusco fez o pequeno se encolher em seu braço.
Ele pôs Colin em sua cama e foi até o banheiro aquecer a água. Depois foi até seu armário, onde costumava guardar tudo aquilo que pudesse usar caso alguém se ferisse, e retirou seu gel para hematomas. Voltou até o menor e o ajudou a se levantar, guiando-o até o banheiro.
— Tem algum problema se eu retirar suas roupas?
Colin não se preocupou com isso. Pelo contrário, tentou retirar seu moletom, mas seu corpo doeu com o movimento, então Will percebeu que aquilo era um sinal positivo. Delicadamente, levou o pequeno até a pia, onde ele pudesse manter apoio, e retirou primeiro os seus tênis e meias, ajudou então a retirar o moletom, abrindo o zíper e retirando de um braço de cada vez. Olhou para o dono dos olhos castanhos mais uma vez antes que pudesse retirar sua calça e cueca. Feito isso, guiou o outro até o chuveiro, já aquecido e deixou com que a água levasse embora toda a tinta negra de suas mãos, assim como também sangue que descia de sua cabeça e com certeza tinha ressecado devido ao tempo em que estivera lá fora.
Ficou boquiaberto com a quantidade de hematomas que encontrou nas costas de Colin. Sua raiva por Sean aumentou ainda mais depois daquilo. Os nomes dos garotos que haviam feito aquilo martelavam em sua mente, e seu desejo por vingança ia sendo alimentado a cada hematoma encontrado no corpo do menor.
Colin apenas estava em silêncio, pensando no que sua mãe faria caso descobrisse isso. Tivera, ontem, o seu primeiro dia de aula, e já no segundo, com certeza não poderia ir. E se acordasse mais tarde, a dificuldade para se levantar da cama seria absurda. Pensou em Sean e se perguntou o motivo dele gritar com os garotos ao encontrá-lo sendo espancado, também por quê pediu ao amigo para cuidar dele e no final, foi ele quem o entregou ao William.
Seus pensamentos foram desfeitos quando o loiro o envolveu na toalha logo após o término do banho, ajudou-lhe novamente a caminhar até sua cama e lá terminou de enxugar o seu corpo. Com o gel, Will massageou todo o corpo de Colin, amenizando um pouco a dor, porém, ela continuava ali, insistindo e martelando, como se jamais quisesse sair.
Will ajudou Colin a vestir suas roupas, mas o pequeno só aceitou usar a cueca, pois estava cansado das dores a cada movimento em seu braço.
— Mais tarde eu faço uma compressa. — Will disse, esfregando as mãos.
— Obrigado, Will.
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